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30 de agosto de 2014

Pensamentos Consoladores São Francisco de Sales.

14/15  -  Como será agradável para os pais e amigos conhecerem-se e conversar juntos no céu.

Deveríamos sempre ter em nossos pensamentos os dias eternos, e nada há que não devêssemos fazer em contemplação deles. Não diz Davi: "Por causa das palavras da vossa boca caminhei por vias duras e difíceis?" E que são estas palavras dos lábios de Nosso Senhor, senão palavras da vida eterna? São Pedro tinha razão em dizer: "A quem iremos nós, Senhor? vós tendes as palavras da vida eterna". É esta vida eterna com que Nosso Senhor, no Gênesis, queria mover Caim, quando lhe disse: "Se tu obras bem, não receberás a recompensa?" É esta vida eterna, por cujo desejo o santo Jacó se chama peregrino no Gênesis. "Os dias, respondeu ele a Faraó, da peregrinação da minha vida, assim os bons como os maus, duram cento e trinta anos, que ainda se não se aproximam dos nossos predecessores". "Lembro-me dos dias antigos, diz Davi, e tenho tido em minha alma anos eternos".
A vida eterna, para quem a considera bem, basta para mover os corações mais endurecidos. No princípio, no fervor da ordem de São Domingos, havia um pregador chamado Reginaldo, que pregava em Bolonha com um fruto indizível. Nesta cidade havia um homem sábio e rico, que, com medo de ser por ele convertido não o queria ouvir, como fazem muitos. Aconteceu contudo que tendo-o ouvido uma vez, dia de Santo Estevão, a respeito destas palavras: "Eu vejo os céus abertos", converteu-se e fez-se religioso.
Por causa desta vida eterna, Davi inclinava a sua vontade e coração a guardar os mandamentos de Deus; Santo Agostinho retirou-se com os seus religiosos antes de ser bipo, e São João Batista retirou-se para o deserto.
Todos os bem aventurados se reconhecerão entre si no céu, cada um por seu nome como diz o Evangelho, pois que nesta pequena amostra, que Nosso Senhor quis patentear no Tabor aos seus apóstolos,quis que conhecessem a Moisés e Elias, que nunca tinham visto.
Mas se isto assim é, que alegria receberemos, tornando a ver os que tanto amávamos nesta vida, onde conheceremos os novos cristãos, que agora se convertem à nossa santa fé, nas Índias, no Japão, nos Antípodas! E nas santas amizades, assim como começaram nesta vida, continuar-se-ão por toda a eternidade no outro. Amaremos as pessoas particulares; mas estas amizades particulares não gerarão particularidades; porque todas as nossas amizades terão a origem na caridade de Deus, que conduzindo-os todos, fará com que amemos a cada bem aventurado com este puro amor com que somos amados pela sua divina bondade.
O!Deus! que consolação teremos com esta celeste conversação que mantivermos uns com os outros!  Aí, os nossos anjos bons dar-nos-ão uma consolação maior do que a que se pode explicar e pensar, quando se nos tornarem conhecidos, e quando nos mostrarem com tanto amor o cuidado que tiveram pela nossa salvação, durante o curso da nossa vida mortal, lembramo-nos as santas aspirações que nos trouxeram, como um leite sagrado que foram beber no seio da divina bondade, para nos atrair na busca destas divinas suavidades de que então gozaremos. Não vos lembrais, nos dirão eles, duma inspiração que nos trouxe em tal tempo, lendo tal livro, ouvindo tal sermão, olhando para tal imagem, como de Santa Maria Egipcíaca, inspiração que nos excitou a converter-nos para Nosso Senhor e que foi assunto da vossa predestinação? Oh! Deus! Não se derreterão os nossos corações com um contentamento indizível?
Mas, além disso, cada um dos bem aventurados terá uma conversa particular com outro, segundo a sua categoria e dignidade. Santo Agostinho desejou um dia ver Roma triunfante, no seu triunfo glorioso, São Paulo pregando, e Nosso Senhor ensinando entre o povo, curando doentes, fazendo milagres. Oh! Deus! que consolação teve este grande santo, vendo a Jerusalém celeste no seu divino triunfo, o grande apóstolo São Paulo pregando e entoando com uma melodia sem rival os louvores que consograva eternamente a divina Majestade no céu! Mas, que excesso de consolação para Santo Agostinho o ver fazer este perpétuo milagre da felicidade dos bem aventurados por Nosso Senhor, cuja morte no-la adquiriu! Imaginai o delicioso entretenimento que terão estes dois santos, um com o outro, dizendo São Paulo a Santo Agostinho: Meu caro irmão, não vos lembrais que lendo a minha epístola fostes ferido por uma tal inspiração, que vos obrigou a converter-vos, inspiração que eu tinha obtido da misericórdia do nosso bom Deus pela oração que por vós fazia ao passo que lieis o que eu tinha escrito? Isto não causará uma admirável doçura no coração deste Santo Padre?
Oh! Deus! que consolação teremos nós, estando no céu, onde veremos a bendita face de Nossa Senhora inflamada no amor de Deus? E se Santa Isabel ficou transportada de gozo e contentamento, quando, um dia que a visitou, lhe ouviu entoar este divino canto: Magnificat anima mea Dominum, como terão os nossos espíritos e corações um contentamento inexprimível quando ouvirem entoar por esta sagrada cantora o cântico do eterno amor!
Oh! Deus! que doce melodia! Sem dúvida pasmaremos e nos inebriaremos em raptos inconcebíveis!
Mas, dir-me-eis vós, visto que conversaremos e nos entenderemos com todos os que tiverem nesta Jerusalém celeste, que diremos nós? De que falaremos? Qual será o assunto? Será o da misericórdia que Deus no mundo nos tiver feito, pela qual nos tornou dignos de entrar no gozo desta bem aventurada felicidade, na qual a alma nada mais terá a desejar; porque nesta palavra de felicidade esta compreendida toda a qualidade de bens, os quais contudo só formam um bem único, que consiste no gozo de Deus.
Mas de que trataremos nós na nossa conversação? Da morte e paixão de Nosso Senhor. Não o aprendemos na Transfiguração, onde não falou de nada tanto como do martírio que devia padecer em Jerusalém, martírio que era a morte deste divino Salvador? Oh! se pudéssemos compreender alguma coisa da consolação que terão os bem aventurados falando desta morte.
Passemos avante, eu vô-lo peço, e digamos alguma coisa de honra e graça que teremos em conversar com Nosso Senhor em pessoa. Oh! é aqui, sem dúvida, que a nossa felicidade redobrará indizivelmente.
Que faremos almas queridas, em que nos tornaremos, quando virmos este coração adorável e amabilíssimo do nosso divino Mestre, através da chaga sagrada do seu lado, ardente completamente ao amor que nos tem, coração no qual veremos todos os nossos nomes escritos com letras de amor? Ah! é possível, diremos então ao nosso divino Salvador, que me tenhais amado tanto, que graveis o meu nome em vosso coração e em vossas mãos? Isto contudo é verdade.
O profeta Isaias, falando na pessoa de Nosso Senhor, nos diz o seguinte: "Quando ainda acontecesse que a mãe esquecesse o filho que gerou, eu não te esqueceria, porque gravei o teu nome em minhas mãos". Mas Nosso Senhor, tornando ainda mais doce estas palavras, nos dirá: "Não só gravei o teu nome em minhas mãos, mas ainda em meu coração". Objeto, sem dúvida, de grande consolação é ver que somos tão estreitamente amados por Nosso Senhor, e como nos tem a todos em seu coração. Oh! que admirável gozo, para um dos espíritos bem aventurados, quando virem nesse coração sagrado e muito adorável os pensamentos de paz que tinha a seu respeito, na própria hora da sua paixão, pensamentos por meio dos quais nos preparava, não só os meios principais para a nossa salvação, mas ainda dispunha particularmente, com uma admirável bondade, todos os divinos atrativos, as inspirações e os movimentos bons, dos quais se queria servir este doce Salvador para nos atrair ao seu amor! Estas vistas, estas considerações particulares que fizermos a respeito de tão sagrado amor, com o qual tivermos sido e seremos tão cara e ardentemente amados por nosso soberano Mestre, não inflamarão os nossos corações com um amor e ardor rival? Ah! que não deveríamos fazer para gozar destas suavidades tão doces e agradáveis! 
Se temos tanto contentamento nesta vida mortal em ouvir falar do que amamos, que não nos podemos cansar, que alegria e júbilo receberemos em ouvir por toda a eternidade entoar os louvores da divina Majestade, que devemos amar e amaremos mais do que se pode explicar e compreender? E se, durante a vida, temos tanto gosto na imaginação da felicidade eterna, quanto mais gosto teremos no gozo desta mesma felicidade e glória que não terão fim e duração eternamente, sem nunca podermos ser rejeitados! Oh! como esta confiança aumentará muito a nossa felicidade e consolação!
Caminhemos pois gostosa e alegremente entre as dificuldades desta vida passageira; abracemos com os braços abertos, as mortificações, as penas e aflições, se as encontrarmos em nosso caminho, pois que estamos certos de que estas penas terão fim e terminarão com a nossa vida, depois da qual só haverá alegria, contentamentos e consolações eternas.
Crede-me, para viver contente com a peregrinação, convém ter presente à vista a esperança da chegada a nossa pátria, onde permaneceremos eternamente, e no entanto crer firmemente; porque, é certo que Deus, que nos chama para si, olha como nós vamos, e nunca permitirá que nos aconteça nada senão para nosso maior bem. Ele sabe quem nós somos, e estender- nos-á a sua mão paternal nos maus caminhos, para que nada nos demore.
Meu Deus! que consolação tenho na confiança de vos ver eternamente unidos na vontade de amar e louvar a Deus! Conduza-nos a divina Providência para onde quiser; tenho a esperança e confiança de que conseguiremos o fim e chegaremos ao porto. Viva Deus! tenho esta confiança. Estejamos alegres sem diminuição e seguros sem ignorância.

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