30 de novembro de 2014

Sonhos de Dom Bosco.

5/21 - S - O - S: UMA JANGADA, UM CONVITE AO CÉU

Sonhei que todos os meninos do oratório estavam brincando alegremente num campo muito extenso. Eis que, de repente, dos confins daquela planície, as águas de uma inundação começaram a crescer para nós, rodeando de todos os lados. O rio PÓ tinha transbordado de sua margens rolavam torrentes que se avolumavam impetuosas. Apavorados, fugimos todos para um grande moinho que se via ao longe, afastado das demais habitações. Protegia-o uma muralha espessa como a de uma fortaleza; eu me detive no pátio interno, no meio dos meus alunos consternados. Mas, como as águas começassem a subir, fomos obrigados a refugiar-nos dentro de casa e a subir depois para o andar superior. Olhando pelas janelas, via-se toda a extensão do desastre. Da colina de Superga até aos Alpes, em vez de prados, campos cultivados, hortas, bosques, casas, aldeias e cidades, nada mais se via do que a superfície de um lago imenso. À medida que as águas subiam, íamos galgando o andar superior. Perdida enfim toda esperança humana, comecei a animar meus jovens, dizendo-lhes que se colocassem todos, com absoluta confiança, nas mãos de Deus e se abandonassem nos braços de Nossa Senhora, nossa mãe querida.
Aparece a jangada
Mas a água já tinha chegado quase ao nível do último andar. O pavor foi geral. Não víamos outro recurso senão recolhermo-nos a uma enorme jangada em forma de navio que naquele instante apareceu flutuando junto de nós. Com a respiração ofegante, cada um queria ser o primeiro a refugiar-se naquela embarcação. Ninguém, porém ousava fazê-lo porque não era possível aproximar-se a barca da casa:  uma parede emergia um pouco mais acima do nível das águas. Para passar havia apenas um tronco de árvore, comprido e estreito. Arriscar-se era difícil e perigoso, porque aquele tronco tinha uma extremidade apoiada na embarcação e movia-se, acompanhado de oscilações provocadas pelas ondas.
Cobrando coragem, fui o primeiro a passar. Depois, para facilitar a passagem dos meninos, e para que se sentissem mais seguros, determinei que alguns clérigos e padres, do lado do moinho, ajudassem os que partiam, e outros, na jangada, dessem a mão aos que chegavam. Mas era curioso! Passado pouco tempo, clérigos e padres se sentiam-se tão esgotados que ora um, ora outro, estavam a ponto de desfalecer; o mesmo acontecia com os que substituíam. Muito admirado, quis eu mesmo fazer a experiência: fiquei tão logo extenuado que não conseguia permanecer de pé.
Entretanto, muitos jovens, impacientes, seja pelo temor de morte, seja pelo desejo de parecerem corajosos, tendo encontrado uma tábua bastante comprida e um pouco mais larga que o tronco, improvisaram uma segunda ponte e, sem esperar o auxílio dos clérigos e dos padres, atiraram-se a ela. Não queriam ouvir os meus gritos aflitos.
"Parem, parem, vocês vão cair!", gritava eu. Aconteceu o que eu temia, porque muitos, ao serem empurrados ou por perderem o equilíbrio, antes de alcançar a embarcação, caíram e foram tragados por aquelas águas turvas e pútridas. Desapareceram. Aquela frágil ponte afundou também, arrastando consigo os que sobre ela estavam. Era tão grande o número desses infelizes, que uma quarta parte dos nossos jovens pereceram vítimas de seu capricho.
Até então, eu estivera segurando a extremidade do tronco, enquanto os meninos passavam; foi quando percebi que a inundação já ultrapassava aquela parede e pude conduzir a embarcação até o moinho. Encontrava-se lá o padre Cagliero que, colocando um pé no peitoril da janela e o outro na beirada da barca, foi dando a mão aos meninos que estavam naquele quarto e fazendo-os passar par o lugar seguro, na jangada.
Quando já se achavam todos na embarcação, mas incertos ainda de escapar àquele perigo, assumi o comando e disse aos jovens:
"Nossa Senhora é a Estrela do mar. Não abandona quem nela confia: vamos nos colocar sob o seu manto; Ela nos há de livrar dos perigos e nos conduzirá a um porto seguro."
Navegando
Abandonamos então a nau ao sabor das ondas e, flutuando mansamente, ela se afastou daquele lugar. Mas o ímpeto do vento impelia-a  com tal velocidade, que nos abraçamos uns aos outros, formando um só corpo, para não cair. Tendo percorrido uma grande distância em tempo reduzíssimo, a barca pôs-se a girar em torno de si mesma, com extraordinária rapidez, de tal forma de tal forma que pensamos que fosse afundar. Um vento fortíssimo, porém, arrancou-a daquele redemoinho. Voltou a vogar normalmente e quando, ocasionalmente, se repetia o redemoinho, o vento salvador a impelia, até que foi parar perto de uma ribanceira enxuta, bonita, ampla, que parecia brotar como uma colina no meio do mar.
Muitos jovens ficaram  encantados; diziam que Deus colocara o homem sobre a terra e não sobre as águas e, sem pedir licença a ninguém, deixaram a barca e subiram pela rampa, convidando ainda os outros a segui-los. A alegria durou pouco. Avolumaram-se as águas, por um rápido recrudescer da tempestade, invadiram as fraldas daquela ribanceira, subiram rapidamente, atingindo aqueles infelizes que soltavam gritos de desespero ao sentirem-se mergulhados até a cintura. Em breve desapareciam, tragados pelas ondas. Então exclamei:
"É bem verdade que aquele que quer seguir sua própria cabeça paga com a própria bolsa."
A nau, entretanto , como um joguete abandonado à fúria da tempestade, a cada momento parecia ir ao fundo. Notei que os meus jovens estavam pálidos e ofegantes. "Coragem! - gritei-lhes - Nossa Senhora não nos há de abandonar." Então, todos juntos, rezamos com fervor os atos de fé, de esperança, de caridade e de contrição; rezamos alguns Pai-nossos e ave-marias e uma salve rainha; em seguida, de joelhos, segurando-nos pelas mãos, cada um rezou outras orações em particular. Entretanto, alguns insensatos, indiferentes ao perigo, como se nada o ameaçasse, de pé, andando de um lado para outro, levavam a coisa em gozação, rindo em atitude suplicante de seus companheiros. Mas eis que, de repente, a embarcação pára gira sobre si mesma com incrível rapidez, ao mesmo tempo um vento furioso atira nas ondas aqueles infelizes. Eram trinta. Como as águas fossem profundas e lamacentas, mal mergulharam, desapareceram para sempre. Nós entretanto, entoamos uma salve rainha e nunca como então invocamos a Estrela do Mar.
Os náufragos são salvos
Sobreveio a calma. Mas a embarcação, como se fora um peixe, continuava a deslizar, sem que pudéssemos saber aonde nos levava. Um variado trabalho de salvamento continuava todavia. Fazia-se de tudo para impedir que os jovens caíssem nas águas e para delas retirar ao que tombavam. É que sempre haviam alguns que se inclinavam demasiado sobre o parapeito baixo da jangada e caíam no lago. Havia também alguns descarados e maldosos que, atraindo os companheiros, empurravam-nos para fazê-los cair na água. Em vista disso, vários sacerdotes preparavam varas resistentes, linhas grossa e anzóis, distribuindo este material entre si; já alguns estavam a postos, com varas erguidas e os olhos fixos nas ondas, atentos aos gritos de socorro. Apenas caía um jovem, as varas se abaixavam e o náufrago se agarrava à linha, ou melhor, prendia o anzol na cinta ou nas roupas e era assim posto a salvo. Quanto a mim, encontrava-me ao pé de um alto estandarte, fincado no centro da nau; cercavam-me muitíssimos jovens, padres e clérigos, todos sob minhas ordens. Enquanto permaneciam dóceis, obedecendo ao que eu dizia, tudo ia bem. Mas eis que alguns começaram a achar incômoda aquela jangada, a recear a viagem, demasiado longa, a lamentar-se dos transtornos e perigos daquela travessia, a discutir sobre o lugar em que haveríamos de aportar, a pensar de que modo poderíamos encontrar outro refúgio, a iludir-se com a esperança de que não muito longe haveria terra onde encontrar um abrigo seguro; enfim, receavam que viessem em breve a faltar os víveres, discutiam entre si, recusavam-se a obedecer. Em vão procurava eu dissuadi-los, empregando as melhores razões.
Eis senão quando aparecem outras embarcações; ao se aproximarem, notamos que tomavam outra direção. Ao vê-las, aqueles jovens imprudentes deliberaram seguir os seus próprios caprichos, afastando-se de mim e governando-se por si mesmos. Lançaram às águas algumas tábuas que estavam na nossa jangada e, avistando outras bem compridas que flutuavam a pouca distância, saltaram para elas, afastando-se em direção às embarcações avistadas. Para mim a cena foi extremamente dolorosa; via aqueles infelizes correrem para a própria ruína. Soprava o vento, o mar se encapelava: alguns foram logo ao fundo, tragados pelas ondas furiosas; outros iam de encontro a obstáculos que surgiam á flor das águas e submergiam; alguns conseguiram subir às embarcações que, entretanto, não tardaram a serem tragadas pelo abismo. A noite desceu tenebrosa; ouviram-se ao longe os gritos desesperados daqueles que pereciam. Naufragaram todos. In mare mundi submergentur omnes illis quos non suscipit navis ista (no mar do mundo, naufragarão todos aqueles que não forem recolhidos por esta nau), isto é, a Nau de Maria Santíssima.
O terrível estreito
O número dos meus queridos filhos tinha diminuído muito; não obstante isto, continuando a confiar em Nossa Senhora, depois de uma noite inteira passada nas trevas, a nave entrou por um estreito muito apertado, de margens lamacentas onde, em meio a tufos de verduras, viam-se pedras lascadas, paus, ramos quebrados, restos de pranchas e antenas, ramos, escondendo animais repugnantes.
Foi ali que vimos, com horror e espanto, os pobres companheiros, perdidos ou que tinham desertado da nossa companhia. Depois de haverem naufragado, tinham sido arremessados pelas ondas àquela praia.
Uma fonte salutar
Então apontei a todos uma fonte da qual jorrava com abundância água fresca e ferruginosa; todo aquele que nela ia banhar-se voltava curado e podia voltar para a barca. A maior parte daqueles infelizes obedeceram ao meu convite; alguns, porém, recusaram-se. Eu então, para cortar as delongas, voltei-me para os que se tinham restabelecido e instei para que me seguissem. Obedeceram resolutamente, retirando-se os monstros. Apenas pusemos os pés na jangada, um vento forte impediu-a para a outra extremidade do estreito e vimo-nos novamente em meio a um oceano sem horizontes.
Lastimando a triste sorte e o fim lastimável dos nossos companheiros abandonados naquele horrendo lugar, começamos a cantar: "Louvemos Maria, Rainha gloriosa." Fizemo-lo em agradecimento à nossa querida Mãe do Céu, por nos Ter então protegido; no mesmo instante, a uma ordem dela, cessou a fúria do vento e a nau começou a deslizar sobre as águas plácidas, com incrível facilidade. Dir-se-ia que, para mover-se, bastava o ligeiro impulso que lhe davam os jovens, brincando de remar com as mãos.
Mas eis que aparece no céu um arco-íris mais belo e de forma mais variada do que a aurora boreal. Passamos sobre ele e podemos ler a palavra MEDOUM, escrita com grande letra, e cujo significado não chegamos a compreender. Pareceu-me, entretanto, que cada letra fosse a inicial das seguintes palavras: Mater Et Domina Omnis Universi Maria ( Mãe e Senhora de todo o universo é Maria).
Depois de um longo trecho de viagem, eis que no horizonte distante avistamos uma nesga de terra. À medida que nos aproximávamos, batia-nos o coração de incontida alegria. Era uma terra encantadora, coberta de bosques com toda qualidade de árvores. Parecia-nos ainda mais sedutora porque ia sendo iluminada pelo sol que nascia por detrás das colinas. Era uma luz que brilhava suave e penetrante, deixando uma impressão de repouso e de paz.
Afinal, depois de ter deslizado sobre a praia, a jangada parou em lugar enxuto, defronte de um vinhedo lindíssimo. Era enorme o desejo dos jovens de penetrar por aquele vinhedo. Alguns, mais afoitos e curiosos, de um salto estavam na praia. Mas tinham apenas dado alguns passos quando, recordando-se da sorte infeliz dos que se haviam encantado com a ribanceira encontrada no meio do oceano, voltaram apressados para a barca.
Todos os olhos estavam voltados para mim e podia-se ler na fronte de todos a pergunta:
"Dom Bosco, já é tempo de descer e ficar aqui ?"
Refleti um pouco e depois disse-lhes: "Vamos descer: é o momento certo: agora estamos seguros!"
Foi um grito unânime de alegria! Esfregando as mãos de contente, entraram todos no vinhedo, todo ele plantado com esmero. Dos ramos pendiam cachos de uvas semelhantes aos da terra da promissão; os galhos das árvores ofereciam toda qualidade de fruta, cujo sabor excedia tudo o que se possa imaginar. Bem no meio do vinhedo eleva-se um castelo rodeado por lindíssimo jardim e protegido por uma alta muralha.
Dirigimos para lá nossos passos, desejosos de visitá-lo, e tivemos franqueada a entrada. Estávamos cansados, com fome, e eis que deparamos com uma grande sala, ornamentada de ouro fino, tendo no centro uma mesa coberta das mais finas iguarias. Cada um pode servir-se livremente. Acabávamos a refeição, quando entrou na sala um jovem de aparência nobre, vestido ricamente. Era extraordinariamente belo. Com maneiras afetuosas, tratou-nos familiarmente, chamando cada um pelo próprio nome. Percebendo que estávamos maravilhados com sua beleza e com tudo mais que tínhamos visto, explicou: "Isto ainda não é nada; venham ver."
O maravilhoso castelo
Seguimos-lhe os passo e, dos balcões, fez-nos contemplar os jardins, dizendo que estavam a nossa disposição, para nossas recreações. Conduziu-nos depois de sala em sala, cada qual mais bonita, pela arquitetura, colunatas e ornatos de toda espécie. Abrindo depois uma porta que dava para a capela, convidou-nos a entrar. Por fora, a capela parecia pequena, mas, apenas transpusemo-lhe os umbrais, percebemos que era tão extensa que mal se podia ver quem estivesse na outra extremidade. O pavimento, as paredes, as abóbadas eram ornamentadas e enriquecidas com arte admirável. Por toda parte mármores finos, ouro prata, pedras preciosas. Maravilhado, exclamei: "Mas isto é uma beleza paradisíaca: proponho que fiquemos aqui para sempre!"
No meio do templo, sobre rico pedestal, estava uma magnífica imagem de Nossa Senhora Auxiliadora. Chamei então os meninos, que estavam espalhados contemplando todo aquela beleza, e nos reunimos todos (uma multidão) diante daquela imagem para agradecer a Nossa Senhora tantos favores que nos concedera. De repente ela apareceu animar-se, sorriu. Um frêmito de comoção perpassou pela multidão: "Nossa Senhora move os olhos!", exclamaram alguns. Era verdade: Maria Santíssima, com inefável bondade, volvia os olhos maternos para aqueles jovens. Pouco depois, outro brado escapou do peito de todos: "Nossa Senhora move as mãos!". Realmente, com gesto lento, Ela ia abrindo os braços, estendendo o manto, como se quisesse recolher todos sob ele. Era tão grande a comoção, que lágrimas corriam pelas nossas faces. "Nossa Senhora move os lábios!" exclamaram alguns. Segui-se um silêncio profundo. A mãe de Deus, abrindo a boca, com voz argentina, suavíssima, dizia-nos:
"Se vocês forem para mim filhos devotos, eu serei para vocês Mãe Piedosa."
A estas palavras caímos todos de joelhos, entoando o canto: "Louvemos Maria, Rainha gloriosa."
Esta harmonia era ao mesmo tempo tão forte e suave que, vencido por ela, despertei. Terminou assim a visão.
Pontos para reflexão e discussão
"Coragem, Nossa Senhora não nos abandonará." O que Nossa Senhora é para nós? Uma medalhinha que dá sorte? Uma estatueta muito meiga que, afinal, não nos diz nada? Ou é "nossa Mãe", que devemos invocar nos momentos de perigo, à qual devemos sempre rezar, que é preciso sempre amar como Mãe de Jesus e nossa Mãe?



29 de novembro de 2014

Sonhos de Dom Bosco.

4/21- O SONHO DAS CONSCIÊNCIAS
      ALMAS ACORRENTADAS

Em sonho, apareceu a Dom Bosco encontrar-se na estrada que dos Becchi  conduzia a um campo de sua propriedade, perto de Capriglio.
No caminho encontrou um desconhecido que o acompanhou, sem todavia revelar seu nome. Passando ao lado de figueiras e depois perto de vinhedos, o desconhecido convidou instantemente Dom Bosco a provar de algum fruto, mas este se recusou.
Chegados finalmente ao campo para onde Dom Bosco se dirigia, o indivíduo que o acompanhava dirigiu-lhe uma estranha pergunta:
_ quer ver seus meninos tais quais são no momento presente? Como serão no futuro? Quer contá-los?
Oh, sim!
_ venha, então.
LENTE MISTERIOSA
"Então- Dom Bosco- tirou , não sei de onde, uma grande máquina, que eu não saberia descrever,  e a fincou no chão. Dentro  dela, havia  uma roda, grande também.
- que   significa essa roda?- perguntei.
Respondeu:
A eternidade nas mãos de Deus!- e, segurando a manivela e dê uma volta.
Fiz o  que me mandou; acrescentou:
Olhe agora lá dentro.
Observei  a máquina e vi que havia nela uma lente enorme, de aproximadamente metro e meio de diâmetro. Encontrava-se no meio da máquina, fixa na roda. Olhei logo  através da lente. Que espetáculo! Vi todos os jovens do  oratório.
"como é isto possível  ?" dizia comigo mesmo. "até  hoje, não via ninguém por estas bandas, e  agora  estou  vendo todos os meus filhos! Mas eles não  estão em Turim?"
Olhei por cima  e aos lados da máquina, porém, a não ser pela lente, não via ninguém. Levantei o rosto para mostrar minha admiração àquele amigo, mas, depois de alguns instantes, ele me ordenou dar uma outra volta na manivela: via então que se afetara uma estranha e singular separação entre os jovens. Os bons estavam separados dos maus. Os primeiros estavam radiosos de alegria . o segundos, que felizmente  não eram muitos, inspiravam compaixão. Reconheci-os todos . mas como eram diferentes do que deles pensavam deles os companheiros !...
Uns tinham a língua furada; outros, os olhos revirados de modo a causar dó; outros sofriam de dores de cabeças por causa de úlceras repugnantes; outros tinham coração roído de vermes...mas olhava para eles, mas crescia minha aflição. Repetia:
Mas será possível que estes sejam os meus filhos? Não compreendendo o que possam significar essas estranhas doenças .
A estas palavras, aquele que me tinha conduzido à roda me disse:
0escute : a  língua significa as más conversas; os olhos vesgos são aqueles que interpretam e apreciam totalmente as graças de Deus, preferindo a terra ao  céu; a cabeça doente é o descuido dos seus conselhos,  a satisfação dos  próprios caprichos; os vermes são as paixões desregradas que roem o coração ; há também os surdos que não querem ouvir as palavras , para não Ter que pô-las em prática.

JOVENS ACORRENTADOS

Fez-me depois um sinal e eu, dando uma terceira volta na roda, apliquei a vista na lente do aparelho. Havia quatro jovens presos com fortes correntes. Observei-os atentamente e reconheci - os   todos. Pedi explicação ao desconhecido, que me disse:
é fácil compreender: são aqueles que não ouvem seus conselhos e não mudam de vida; estão em perigo de perder-se.
Mandou-me dar outra volta. Obedeci  e pus-me  novamente a observar. Via-se outros sete jovens, reservados , com ar desconfiado, trazendo na boca um  cadeado fechava os lábios.
Três deles tapavam as orelhas com  a mão admirado e entristecido, perguntei o motivo do cadeado  que fechava os lábios daqueles tais. Ele me respondeu:
Então não entende? Estes são os que calam.
Mas calam o quê?
Compreendi então o que significava: calam na confissão; mesmo se interrogados pelo confessor não respondem ou respondem com evasivas.
O amigo continuo:
Está vendo aqueles três que , além do cadeado na boca, tapam com as mãos os ouvidos? Como é deplorável sua condição ? são os que não somente calam na confissão, mas também não querem de nenhum modo ouvir os conselhos, as ordens do confessor. São os que ouviram suas palavras , mas não a escutaram, não lhe deram importância poderiam abaixar as mãos , mas não o querem fazer. Os outros quatros escutaram suas exortações e suas recomendações , mas não souberam aproveitar-se delas.
Que devem fazer para se verem livres daquele cadeado?
Ejiciatur superbia e cordibus eorum.( expulse-se de seus corações a soberba )
Hei de avisar a todos eles. Mas para aqueles que tapam os ouvidos com a mão há pouca esperança.

O APERTO FATAL

O personagem me fez dar mas uma volta na roda. Olhei e vi mas três jovens numa situação desesperadora. Cada um deles tinha um pavoroso macaco sobre os ombros. Observei atentamente tinham chifres. Simbolizam os jovem que mesmo dos exercícios ainda não são amigos de nosso senhor. O pecado e as paixões os escravizam.
Com o coração opresso por uma indizível comoção , com lagrimas nos olhos, voltei - me para o amigo e lhe disse:
como é possível ? estão em semelhante estado esses pobres jovens com os quais despendi tantas palavras, cerquei de cuidados, tanto na confissão como fora dela?
Perguntei o que eles deviam fazer para sacudir dos ombros aquele monstro horroroso.
Disse-me ele:
Labor, sudor, fervor.
Compreendi materialmente as palavras- respondi- mas é preciso que me dê a explicação
Trabalho na assiduidade das obras : suor na penitência; fervor nas orações fervorosas e perseverante.
Entretanto eu olhava e me afligia pensando: " como é isso? Será possível?! Mesmo depois dos exercícios espirituais?!... aqueles ali...depois de tudo o que fiz por eles, depois de tanto trabalho...depois  de Tantos conselhos ...e tantas promessas !...Ter avisados tantas vezes...não  esperava mesmo esta decepção”. Não conseguia tranqüilizar-me.
CEM POR UM
consola-se , porém- replicou aquele homem , ao ver o meu abatimento; fez-me dar outra volta na roda e acrescentou:
veja como Deus é generoso! Olha quantas almas lhe quer entregar! Está vendo aquela multidão de jovens?
Voltei a olhar pela lente e vi uma multidão que jamais conhecera na minha vida.
sim estou vendo- respondi - mas não os conheço.
Pois bem aqueles são os que nosso senhor lhe vai dar, em compensação pelos que não correspondem aos seus cuidados. Fiquei sabendo que para cada um destes últimos ele vai lhe dar  cem.
Ah! Pobre de mim! - exclamei- a casa já está cheia. Onde porei estes novos jovens?
Não se aflija aquele que lhes envia sabe muito bem onde os irá  colocar. Ele mesmo encontrará os lugares.
Se é assim , estou contentíssimo - respondi- consolado.
Observando ainda por muito tempo e cheio de complacência todos aqueles jovens , retive a fisionomia de muitos. Saberia reconhecê-los, se por acaso  os encontrasse ."


Convite



28 de novembro de 2014

Sonhos de Dom Bosco.

3/21 – A MARMOTA (1889) - (M.B. VI, 301).

Uma das primeiras conversas que ouvi a Dom Bosco (1859) foi sobre a freqüência dos Sacramentos. Esta, em geral, não estava todavia bem organizado entre os jovens recém-chegados se suas casas. Ele contou um sonho. Pareceu-lhe achar-se perto da porta do Oratório, e observando os jovens a medida que eu iam regressando.
Via o estado da alma em que cada um se achava aos olhos de Deus.
Quando eis que entrou no pátio um homem que levava uma pequena caixinha. Se meteu entre os jovens. Chegou a hora das confissões e o homem, abriu a caixinha, puxou uma pequena marmotinha e a fazia bailar. Os jovens em vez de entrar na Igreja formaram círculo ao seu redor, rindo, e aplaudindo seus trejeitos, entretanto o tal se ia retirando cada vez mais fazia o lado do pátio mais distante do da Igreja.
Dom Bosco descreveu no primeiro término, sem nomear a nada, o estado da consciência de alguns jovens; depois pôs de relevo os esforços e insídias empreendidas pelo demônio para distrai-los e afastá-los da confissão.
Falando daquele animalzinho, fez rir muito o seu auditório, mas também lhe obrigou a refletir seriamente sobre as coisas da alma. Tanto mais quanto que, depois, manifestava privadamente aos que se o pediam o que eles acreditavam que nada sabia. E quanto a Dom Bosco dizia e manifestava era certo.  Este  sonho convida a maior parte dos jovens a confessar-se com freqüência, geralmente a cada semana, chegando a ser as comunhões  muito numerosas".

Observações:
O Biógrafo usa como fonte de sua narração a "um velho amigo daqueles tempos".


27 de novembro de 2014

Sonhos de Dom Bosco.


2/21- O SONHO DOS PÃES - (M.B. V, 723 -7240


Uma noite D. Bosco contou que vira em sonho todos nós distribuindo em quatro grupos distintos e que estavam comendo. Os jovens de cada grupo tinham na mão um pão diferente. Os primeiros um fresquidão, fino, muito saboroso, o segundo, um pão branco comum, o terceiro um pão preto e finalmente os últimos um pão mofado e bichado. Os primeiros eram os inocentes, os segundos os bons, os terceiros, os que se achavam atualmente na desgraça da inimizade com Deus mas não encardidas no pecado o ultimo grupo aqueles que agarrados ao pecado não faziam esforço algum para mudar de vida.
D. Bosco dado a explicação da causa e dos efeitos destes alimentos, afirmou, lembrar claramente o pão que cada um de nós estava comendo e se o tivéssemos procurado, ele ter-no-lo-ia dito.

26 de novembro de 2014

Sermão para o 24º Domingo depois de Pentecostes – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] Fim do mundo? Sinais precursores.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
“Diz o Senhor: Eu tenho pensamentos de paz e não de aflição.” (Introito)
Prezados Católicos, estamos hoje no último domingo do ano litúrgico. Se o ano litúrgico revive, à sua maneira, toda a história da Salvação, o último domingo depois de Pentecostes trata do fim do mundo. Diante da situação do mundo hoje, diante da dissolução moral e do grande abandono da fé na sociedade civil e na Igreja,  muitos ficam alarmados, aflitos, obcecados com o suposto fim do mundo. Cooperam muito para isso aparições ou “locuções” não aprovadas, não reconhecidas pela Igreja, mas às quais as pessoas se apegam erroneamente, muitas vezes por uma fraqueza na fé. Como nos dizem os autores de espiritualidade – São João da Cruz – em primeiro lugar, o apego excessivo a fenômenos extraordinários ou o basear a vida espiritual em fenômenos extraordinários é uma fraqueza na fé. Isso, mesmo para aparições aprovadas pela Igreja. O que dizer, então, daquelas que não o são? Alarmados, aflitos, cegos com a suposta proximidade do fim do mundo, as pessoas esquecem muitas vezes de fazer o bem que podem e devem fazer aqui e agora. Esquecem que o que mais importa é nos prepararmos para o fim do nosso mundo, que virá com a nossa morte.
O conhecimento preciso do fim do mundo ou do dia da volta de Cristo, para julgar os vivos e os mortos, a Parusia, não nos foi revelado.  A ninguém foi dado conhecer nem o dia nem a hora, nos diz Nosso Senhor. Ele afirmou também que o dia virá de improviso, como um ladrão invisível na noite, como um relâmpago que brilha repentinamente, como o dilúvio, que surpreendeu os contemporâneos de Noé, como a chuva de fogo que caiu sobre Sodoma ou, ainda, como a armadilha feita aos pássaros. Só Deus conhece o momento preciso. Nosso Senhor, porém, nos anunciou sinais precursores, muitos deles genéricos. Podemos, junto com os teólogos, enumerar seis desses sinais :
  1. Um sinal: O anúncio universal do Evangelho. Perguntado sobre o fim do mundo, Nosso Senhor diz aos discípulos: “E será pregado esse Evangelho do reino por todo o mundo, em testemunho a todas as gentes; e então chegará o fim” (Mt. 24, 14). Não se trata aqui da conversão de todos, mas do fato de que o Evangelho seja pregado a todos os povos e em todas as regiões, e que seja praticado com maior ou menor proveito por eles. Já aconteceu isso? Difícil dizer com certeza. Parece haver ainda alguns povos, sobretudo na África, que ainda não conheceram o Evangelho, sobretudo porque muito cedo caíram sob o domínio do Islamismo.
  2. Outro sinal: A vinda do Anticristo. Anticristo em sentido largo é todo adversário de Cristo. Mas falamos aqui do anticristo em sentido estrito. Embora a Igreja não tenha definido nada a respeito, o mais provável, segundo a quase unanimidade dos Padres da Igreja, é que o anticristo seja realmente um indivíduo, um ser humano, um inimigo de Cristo, que se fará adorar como Deus e que poderá ser identificado com certa facilidade, pelo contexto, com o que diz a Sagrada Escritura. São Paulo, por exemplo, diz (2 Tessalonicenses, II, 3-4): “Ninguém de modo algum vos engane; porque isto (a vinda de Cristo) não será antes que venha a apostasia (quase geral dos fiéis), e sem que tenha aparecido o homem do pecado, o filho da perdição, o qual se oporá a Deus e se elevará sobre tudo o que se chama Deus ou que é adorado como Deus, de sorte que se sentará no templo de Deus, apresentando-se como se fosse Deus.” Templo de Deus não é aqui a Igreja Católica, que não chama os edifícios sagrados de “templos”, mas de igrejas, como diz São Roberto Belarmino. Esse templo será provavelmente um templo em Jerusalém, tentativa de reconstrução do antigo templo judeu. A vinda do anticristo certamente não aconteceu ainda. Houve, isso sim, prefigurações do anticristo, como alguns imperadores romanos perseguidores da Igreja, ou como Hitler e Stalin, mas o anticristo ainda não veio.
  3. Outro sinal: A grande apostasia. Está no texto de São Paulo que acabamos de citar: “isto (a vinda de Cristo) não será antes que venha a apostasia.” A apostasia será um abandono suficientemente generalizado da fé, pelo ateísmo, pelo materialismo, pelo indiferentismo, ou por algum sopro de falsa doutrina ou religião. Nem todo mundo perderá a fé, até porque a Igreja continuará sempre a existir tal como fundada por Cristo e ensinando o que Cristo sempre ensinou. O Papa João Paulo II falou em uma ocasião que vivíamos uma apostasia silenciosa. Trata-se da apostasia que precede a vinda de Cristo e o fim do mundo. Não sabemos. Parece que não. Mais provavelmente, vivemos uma prefiguração dessa apostasia.
  4. Outro sinal: Conversão dos judeus. São Paulo escreve aos Romanos (XI, 25-26): “Não quero que ignoreis… este mistério, que uma parte de Israel caiu na cegueira até que tenha entrado na Igreja a plenitude dos gentios, e assim todo o Israel será salvo.” Haverá a conversão de uma grande quantidade de judeus antes do fim do mundo. Assim interpretam os dizeres de São Paulo os padres da Igreja. Isso evidentemente ainda não ocorreu e não parece estar tão próximo de ocorrer.
  5. Mais um sinal: A volta de Elias e Henoc. Os Padres da Igreja são também unânimes em afirmar a volta de Elias e de Henoc, embora a Igreja não tenha definido o sentido exato disso. Eles voltariam justamente para cooperar na conversão dos judeus.
  6. Outro sinal. Grandes tribulações e calamidades. Ora, tribulações e calamidades sempre existiram. E graves. Aquelas que precederão o fim do mundo poderão ser identificadas claramente? Talvez. Por enquanto, nada parece ter um caráter excepcional nessa ordem.
Como vemos, caros católicos, os sinais precursores nos foram dados por meio de profecias, e as profecias dificilmente são compreendidas perfeitamente até que ocorram. Mesmo no discurso de Nosso Senhor que hoje ouvimos no Evangelho não é fácil distinguir o que pertence à destruição de Jerusalém e o que pertence ao fim do mundo. Além disso, ao longo da história, há prefigurações do fim do mundo. Na época de São Gregório Magno, no século VI, muitos pensaram que era o fim do mundo. Não foi. Foi uma prefiguração. No tempo de São Vicente Ferrer, entre o século XIV e o XV, muitos pensaram que era o fim do mundo. Não foi. Foi uma prefiguração. Hoje, muitos, alarmados com a decadência moral e o esfriamento da fé e da caridade, pensam que será em breve o fim do mundo. Alguns sinais até parecem estar presentes. Outros certamente não estão. Parece-nos mais uma prefiguração. De toda forma, ninguém sabe nem o dia nem a hora, só Deus. A nós cabe não nos paralisarmos diante dos males que vemos, esperando um suposto fim do mundo. A nós cabe não cair em desânimo. A nós cabe, isso sim, crer no Evangelho e praticá-lo com alegria, entusiasmo e coragem. A nós cabe difundir o Evangelho nos ambientes em que vivemos, começando por dar o exemplo de bons católicos. A nós cabe preservar a nossas famílias da dissolução que o mundo quer impor e educar bem as nossas crianças. A nós cabe nos prepararmos para o fim do nosso mundo, que é a nossa morte.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Sonhos de Dom Bosco.

SONHOS DE DOM BOSCO


1/21 - O SONHO DAS QUATORZE MESAS - (M.B. VI, 708 - 709)

Encontravam-se todos os meus jovens num lugar agradável como o mais bonito dos jardins, sentados às mesas que partindo do chão. Subindo em degraus se levantavam tanto que quase não se via a sumidade. As longas mesas eram catorze colocadas sem semicírculo e divididas em três degraus.
No chão ao redor de uma mesa desprovida de todo enfeite e sem talheres, via se um grupo de jovens. Eram tristes, comiam sem animação e tinham diante de si um pão mal preparado, porém todo ele seco, e sujo que fazia nojo. O pão na mesa estava em meio a sujeira e frutas estragadas. Aqueles coitados se encontravam como animais comendo num chiqueiro. Eu queria dizer-lhes que jogassem fora tudo aquilo, todavia não agüentei de pedir-lhes porque tivessem diante de si aquela comida nojenta. Responderam-me, - Devemos comer o pão que nós mesmos nos preparamos e não temos outro.
Era a situação de pecado mortal.
Diz o livro dos provérbios no capítulo I, "Odiaram a disciplina e não seguiram o temor do Senhor, e não prestaram ouvidos aos meus conselhos e não fizeram  caso das minhas correções. Ouviram portanto os frutos das suas obras e se saciarão com os seus conselhos!".
Mas a medida que as mesas subiam, os jovens eram mais alegres e comiam pão bem mais caprichado. Eram bonitos; e a medida, que subia, os jovens eram cada vez mais alegres e bonitos. As mesas eram muito bem enfeitadas, com bolhas bem trabalhadas, com castiçais, taça vasos de flores esplendidas, pratos com iguarias finas e talheres de metais preciosos. O número destes jovens era grandíssimo.
Era a situação dos pecadores arrependidos e convertidos.
Finalmente as ultimas mesas nos topos tinham um pão que não consigo descrever. Parecia amarelo, parecia vermelho, e a mesma cor do pão era o das roupas e da cara dos que jovens, que resplandeciam com uma luz muito intensa. Estes aproveitavam de uma alegria extraordinária e cada um procurava transmitir aos outros colegas. Sua beleza luz e esplendor das mesas superavam de muito todas as outras.
Era a situação de inocência.
Aos inocentes e dos convertidos diz o Espirito Santo no livro dos Provérbios no Cap.: 1º. "Quem me ouve, terá repouso sem medo e viverá na abundância, livre do medo dos pecados!".

25 de novembro de 2014

Sermão para o 23º Domingo depois de Pentecostes – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] Lições do Evangelho da hemorroíssa

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Sermão
 “Tem confiança, filha, a tua fé te salvou.”
No Evangelho de hoje, o Evangelho da ressurreição da filha de Jairo e da cura da hemorroíssa, Nosso Senhor nos mostra alguns traços interessantes de sua vida pública nessa terra, para salvação dos homens.
Nós podemos imaginar a cena, relatada com alguns detalhes a mais por São Marcos e São Lucas. Nosso Senhor se dirigia à casa de Jairo, onde a filha desse chefe da sinagoga acabara de morrer. Já está a multidão fora da casa, lamentando o falecimento da jovem. Havia também uma multidão de pessoas que seguiam Jesus. Eis, então, que uma mulher, que sofria de um fluxo de sangue toca a fímbria da veste de Cristo. Não só ela sofria dessa doença, nos diz São Marcos, mas ela estava também na miséria, tendo gastado tudo o que possuía com os médicos, que não conseguiram curá-la. Ao contrário, ela só piorava dessa doença que lhe causava vergonha. Tanta vergonha que ela não ousa falar com o Senhor para lhe pedir a cura. Conhecendo os relatos dos milagres anteriores de Nosso Senhor, ela considera que é suficiente tocar a fímbria, a borda das vestes de Cristo.
No meio dessa multidão que comprimia e apertava o Salvador, a hemorroíssa o tocou. Nosso Senhor se volta, então, para a multidão e pergunta, como nos dizem São Lucas e Marcos: “Quem me tocou?” São Pedro e outros que estavam com Ele dizem: “Mestre, as multidões apertam-te e oprimem-te e tu perguntas: Quem me tocou?” Os discípulos, São Pedro em primeiro lugar, ficam abismados com aquela pergunta do Mestre porque era uma multidão que tocava Jesus de todos os lados. Como pode o Salvador perguntar: “quem me tocou?” Todo mundo o tocava. O que os discípulos e a hemorroíssa não compreendiam ainda é que Cristo conhecia todas as coisas. Nosso Senhor sabia exatamente quem o tinha tocado e quem era a pessoa que tinha sido curada. A cura da hemorroíssa foi um ato voluntário da parte de Nosso Senhor Jesus Cristo e não uma espécie de mágica pelo simples toque na roupa do Mestre. A virtude que saiu de Jesus para curá-la foi ato de misericórdia do seu Sacratíssimo Coração. Na verdade, então, Ele pergunta quem o tocou com verdadeira fé ao ponto de lhe alcançar a cura. Jesus aproveita essa demonstração de fé da doente, que acredita poder ser curada ao tocar as vestes do Senhor e opera o milagre. Nós veremos algo semelhante com os apóstolos depois de Pentecostes. Deus fez milagres até com a sombra deles.
O fato é que Nosso Senhor sabe exatamente quem o tocou e que Ele curou a hemorroíssa. A mulher resolve, então, cheia de medo e tremendo, prostar-se diante dele contando-lhe o ocorrido. Nosso Senhor quis que se tornasse pública a cura da hemorroíssa para corrigir o erro dela e dos discípulos, que pensavam que algo podia ser feito sem seu conhecimento ou às escondidas. Nosso Senhor mostra que conhece todas as coisas. No meio daquela multidão que o tocava de toda parte, ele sabe que uma mulher com grande fé o tocou e que ele a curou do seu fluxo de sangue. Nosso Senhor é onisciente e nada está escondido diante dos seus olhos. Ele quis tornar público esse milagre para nos propor como modelo a fé dessa doente. Quis também tornar público esse episódio a fim de preparar a multidão para o milagre maior da cura da filha de Jairo. Na verdade, “esse contratempo” (entre aspas) da cura da hemorroíssa é que permite a morte da filha de Jairo ou uma maior certeza quanto à sua morte. Aos olhos do pai da menina morta, esse contratempo deve ter sido incompreensível: minha filha morre enquanto Ele cura uma mulher de um fluxo de sangue no meio da multidão querendo saber quem o tocou. Mas Jesus, a sabedoria eterna encarnada, dispõe bem todas as coisas. Permite que a filha de Jairo morra e que passe um certo tempo para fazer um milagre ainda maior, para que as pessoas possam acreditar. Grande é a sabedoria e a bondade divinas, caros católicos, que muitas vezes não compreendemos ou não queremos compreender.
A hemorroíssa, nesse episódio, não somente foi curada de seu fluxo, mas encontrou a salvação. Como diz Nosso Senhor: “filha, a tua fé te salvou.” Salvou não do fluxo de sangue, mas a justificou, a santificou. A hemorroíssa demonstrou com sua ação que acreditava plenamente em Jesus Cristo e que agia em consequência: fé e obras. Saiu santificada.
A hemorroíssa que se antecipa ao milagre da ressurreição da filha de Lázaro representa os gentios, enquanto a filha de Lázaro simboliza os judeus. Nosso Senhor se dirigia à filha de Lázaro, mas foi a hemorroíssa curada em primeiro lugar. Nosso Senhor veio para os judeus, mas os primeiros a se converterem a Ele em grande número foram os pagãos. Os judeus, conforme nos diz São Paulo, se converterão no final dos tempos. A hemorroíssa simboliza também o pecador inveterado. Doze anos de doença vergonhosa e que a tirava do convívio da sociedade e que lhe diminuía as forças, como o pecado habitual que priva a alma da graça – sociedade com Deus – e vai lhe tirando as forças para tudo o que é sobrenatural. Nada mais difícil de ser curado, a não ser por um milagre espiritual, que tira a alma desse estado.
Devemos, então, caros católicos, saber que estamos sempre na presença de Deus. Ele conhece todas as coisas, mesmo os nossos mais recônditos pensamentos. Essa presença de Deus nos evitará muitos pecados, principalmente os ocultos, e nos levará a fazer muitas boas obras, mesmo pequenas e desconhecidas do mundo inteiro. Devemos recorrer a Jesus Cristo com confiança, para que ele cure as nossas doenças espirituais, por mais enraizadas que estejam na nossa alma e por mais vergonhosas que sejam. Devemos tocar Jesus nos seus sacramentos (não quer dizer tocar a Sagrada Hóstia com a mão, mas tocá-lo espiritualmente, com a recepção digna dos sacramentos). Já não temos a roupa de Cristo, mas temos seus sacramentos, principalmente a confissão e a comunhão.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

24 de novembro de 2014

Sermão para a Festa da Dedicação da Basílica do Santíssimo Salvador – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] A Igreja e a casa de Zaqueu

Sermão para a Festa da Dedicação da Basílica do Santíssimo Salvador
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Sermão
 “É terrível este lugar. É a casa de Deus e a porta do céu. E será chamada a habitação do Senhor.”
Festejamos hoje, caros, católicos, a Dedicação da Basílica do Santíssimo Salvador. É o antigo nome da Basílica romana hoje mais conhecida como São João de Latrão. A Basílica do Santíssimo Salvador ou de São João de Latrão é a Catedral do Papa, ela é, portanto, a mater et caput, mãe e preceptora de todas as Igrejas da Urbe e do Orbe, ou seja, de Roma e do mundo. É importante, nesse dia de hoje, rezar pelo Santo Padre, o Papa Francisco, para que cumpra a sua missão, que é confirmar os homens na fé, ensinar o depósito revelado e confiado por Cristo à Santa Igreja, deixando de lado as novidades e rejeitando claramente a tentação de se conciliar com o mundo. Como nos diz o Concílio Vaticano I, o Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de Pedro para que manifestem uma nova doutrina, mas para que conservem santamente e exponham fielmente a revelação transmitida pelos apóstolos, ou seja, o depósito da fé.
A Santa Igreja escolheu para as Missas de Dedicação o Evangelho de Zaqueu, chefe dos publicanos, quer dizer, um pecador público. E Nosso Senhor, vendo Zaqueu, logo lhe disse, “convém que eu fique hoje em tua casa.” O Salvador faz da casa de um pecador a sua casa, e Zaqueu logo se converte, prometendo restituir com o quádruplo o que tinha fraudado. Nosso Senhor aproxima-se dos pecadores para convertê-los, para lhes trazer a verdade e a virtude, e não para confortá-los nos seus pecados. Nosso Senhor fez da casa desse pecador a sua casa, para convertê-lo. Nosso Senhor faz da obra de nossas mãos pecadoras, que são as Igrejas, a sua casa, para nos converter até Ele, para nos dar a sua graça, pelo Santo Sacrifício da Missa, pelos sacramentos, pela sua presença real e substancial em corpo, sangue, alma e divindade na eucaristia, pelas instruções das autoridades eclesiásticas. Isso se faz pela bênção de uma Igreja, como foi feito aqui em 13 de julho, por Dom José Aparecido, ou pela dedicação ou consagração da Igreja.
Devemos, então, considerar os pontos de semelhança existentes entre a casa de Zaqueu e a Igreja:
  1. Na casa de Zaqueu, estavam Jesus e seus apóstolos. Em uma Igreja, encontramos Nosso Senhor, principalmente na Eucaristia, e encontramos os ministros do Senhor, que são os sacerdotes.
  2. Na casa se Zaqueu, além de Jesus e de seus apóstolos, estão Zaqueu e seus amigos e colegas, publicanos e pecadores, muitos deles. Em uma Igreja, estão os justos, mas também os pecadores, misturados, e todos vêm assistir livremente aos atos de culto a Deus. Os justos devem vir para buscar a perseverança na graça e uma santidade cada vez maior. Os pecadores devem vir buscar o arrependimento. Ao contrário do que muitos pensam, não é uma hipocrisia que alguém que esteja em pecado venha à Missa ou à Igreja. Na verdade, é bom e necessário que o pecador venha à Missa e à Igreja. É a sua obrigação. É assim que ele encontrará misericórdia.
  3. Na casa de Zaqueu, Nosso Senhor anuncia a todos os presentes as verdades eternas. Em uma Igreja, os sacerdotes pregam – ou, ao menos, deveriam pregar – as mesmas verdades, indistintamente a todos os presentes.
  4. Na casa de Zaqueu, acontece a sua conversão e, podemos supor, a conversão de muitos outros. Em uma Igreja, a liturgia, os sacramentos e a doutrina divina convertem continuamente os pecadores. E no confessionário o sacerdote absolve os pecados.
  5. Na casa de Zaqueu se faz um banquete, no qual estão Jesus e todos os presentes. Na Igreja, ocorre o santo Sacrifício da Missa e todos podem receber a Eucaristia, desde que tenham a fé e vivam segundo os mandamentos de Cristo e da Igreja.
  6. A casa de Zaqueu, enquanto nela esteve Jesus, foi escola de verdade, fonte de graça, casa de paz. Uma Igreja é a escola da verdade evangélica, manancial de todas as graças, e a casa de paz entre Deus e os homens, e dos homens entre si.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

23 de novembro de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 72ª Parte

ÍNDICE

OPÚSCULO IV

REFLEXÕES SOBRE A PAIXÃO DE JESUS CRISTO, EXPOSTAS ÀS ALMAS DEVOTAS

Cap. I — Reflexões gerais sobre a Paixão de Jesus Cristo
Cap. II — Reflexões particulares sobre padecimentos de Jesus Cristo na sua morte
Cap. III — Reflexões sobre a flagelação, a coroação de espinhos e crucifixão de Jesus Cristo
Cap. IV. — Reflexões sobre os impropérios feitos a Jesus Cristo enquanto pendia na cruz
Cap. V — Reflexões sobre as palavras de Jesus na cruz Reflexões sobre a morte de Jesus Cristo e a nossa
Cap. VI — Reflexões sobre os prodígios havidos na morte de Jesus Cristo
Cap. VII — Do amor que Jesus Cristo nos demonstrou na sua paixão
Cap. VIII — Da gratidão que devemos a Jesus Cristo por sua paixão
Cap. IX —Todas as nossas esperanças devem ser postas nos merecimentos de Jesus Cristo
§ 1. De Jesus Cristo devemos esperar o perdão de nossos pecados
§ 2. Jesus Cristo nos dá a esperança da perseverança final
§ 3. Da esperança que temos de chegar um dia, por Jesus Cristo, à felicidade do paraíso
Cap. X — Da paciência que devemos praticar em união com Jesus Cristo, para alcançar a vida eterna

OPÚSCULO V

QUINZE MEDITAÇÕES SOBRE A PAIXÃO DE JESUS CRISTO, PARA O TEMPO QUE MEDEIA ENTRE SÁBADO DA PAIXÃO E SÁBADO SANTO

OPÚSCULO VI

MEDITAÇÕES SOBRE A PAIXÃO DE JESUS CRISTO

OPÚSCULO VII

MEDITAÇÕES SOBRE A PAIXÃO DE JESUS CRISTO PARA CADA DIA DA SEMANA

OPÚSCULO VIII

PODER QUE TEM A PAIXÃO DE JESUS CRISTO PARA ACENDER O AMOR DIVINO EM NOSSOS CORAÇÕES

22 de novembro de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 71ª Parte

OPÚSCULO VIII

 O pe. Baltasar Álvarez, um grande servo de Deus, dizia que não devemos pensar ter feito algum progresso no caminho de Deus, se ainda não chegamos a ter sempre no coração a Jesus crucificado.
São Francisco de Sales escreve que o amor que não nasce da paixão é fraco. E é mesmo, porque não dá coisa que mais nos obrigue a amar o nosso Deus do que a Paixão de Jesus Cristo, isto é, saber que o Padre eterno, para nos mostrar o excesso do amor que nos PODER QUE TEM A PAIXÃO DE JESUS CRISTO consagra, quis enviar seu Filho unigênito à terra para morrer por nós, PARA ACENDER O AMOR DIVINO pecadores. Isso levou o Apóstolo a escrever que Deus, pelo grande EM NOSSOS CORAÇÕES amor com que nos amou, quis que a morte de seu Filho nos trouxesse a vida:“Pela extrema caridade com que nos amou, nos convivificou em Cristo, quando estávamos mortos pelos pecados” (Ef 2,4). Foi isso justamente o que queriam exprimir Moisés e Elias no monte Tabor, ao falar da paixão de Jesus Cristo como de excesso de amor: “E falava de seu excesso que havia de realizar em Jerusalém”(Lc 9,31).
Quando nosso Salvador veio ao mundo para remir os homens, os pastores ouviram os anjos cantarem: “Gloria a Jesus nas alturas”(Lc 2,14). Mas ao humilhar-se o Filho de Deus, fazendo-se homem por amor do homem, parecia que antes se obscurecia do que se manifestava a glória de Deus. E afinal não era assim, pois a glória de Deus não podia ser melhor manifestada ao mundo do que pela morte de Jesus em prol da salvação dos homens, visto a Paixão de Jesus nos ter manifestado as perfeições dos atributos divinos. Ela nos fez conhecer a grandeza da misericórdia divina, querendo um Deus morrer para salvar os pecadores e morrer de uma morte tão dolorosa e ignominiosa. S. João Crisóstomo diz que o sofrimento de Jesus Cristo não foi um sofrimento comum e a sua morte não foi uma simples e semelhante à dos homens (Serm. de pass.). Ela nos fez conhecer a sabedoria divina. Se nosso Redentor fosse somente Deus não poderia satisfazer pelo homem, porque Deus não poderia satisfazer a si mesmo em lugar do homem, nem poderia satisfazer padecendo, sendo ele impassível. Pelo contrário, se fosse somente homem, não poderia como tal satisfazer pela grande injúria feita a Majestade divina.
Por isso, que fez Deus? Enviou seu próprio Filho, verdadeiro Deus como ele, a tomar a natureza humana par a que assim, como homem, pagasse com a morte a justiça divina e como Deus lhe desse uma satisfação completa. Ele fez-nos conhecer a grandeza da justiça divina. S. João Crisóstomo dizia que não é tanto o inferno, com o qual Deus castiga os pecadores, que demonstra quão grande seja a sua justiça, como Jesus Cristo na cruz, já que no inferno são punidas as criaturas por seus próprios pecados, ao passo que na cruz se vê um Deus martirizado para satisfazer pelos pecados dos homens. Que obrigação tinha Jesus de morrer por nós? “Foi oferecido porque ele mesmo o quis” (Is 53,7). Ele poderia sem injustiça abandonar o homem na sua desgraça, mas o amor que lhe tinha não lhe permitiu vê-los infelizes e por isso escolheu entregar-se a si mesmo a morte tão penosa, para obter-lhes a salvação: “Ele nos amou e entregou a si mesmo por nós”(Ef 5,2). Desde toda a eternidade havia amado o homem:“Eu te amei com uma caridade perpétua”(Jr 31,3). Vendo-se, porém, obrigado por sua justiça a condená-lo e a tê-lo sempre longe de si no inferno, sua misericórdia o impele a descobrir um meio de poder salvá-lo. Mas como? Satisfazendo ele mesmo a divina justiça com sua morte. E assim quis que na própria cruz em que morreu fosse afixado o decreto de condenação do homem à morte eterna, para que fosse destruído ou apagado com seu sangue (Gl 2,14).
Dessa maneira, pelos merecimentos de seu sangue, alcançou-nos o perdão de todos os crimes: “Perdoando-vos todo os delitos”(Gl 2,13). Conseqüentemente espoliou o demônio de todos os direitos adquiridos sobre nós, conduzindo consigo em triunfo tanto seus inimigos como nós sua presa: “E despojando os principados e potestados, sobranceiro os levou cativos triunfando manifestamente deles por si mesmo”(Cl 2,15). Teofilacto comenta: “Como um vencedor e triunfador carregando consigo a presa e os homens em triunfo”.
Por isso Jesus Cristo, satisfazendo a divina justiça, ao morrer na cruz, não falou senão em misericórdia; pediu a Padre que tivesse misericórdia dos mesmos judeus que haviam tramado a sua morte e dos carrascos que o trucidaram: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem”(Lc 23,34). Estando na cruz, em vez de punir os ladrões que pouco antes o haviam injuriado: “E os que foram crucificados com ele o afrontavam” (Mc 15,32), ouvindo que um deles lhe pedia misericórdia: “Senhor, lembrai-vos de mim quando estiverdes em vosso reino”(Lc 23,42), ele, cheio de compaixão, promete-lhe o paraíso para aquele mesmo dia: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,42). Antes de morrer, nos deu por mãe sua própria mãe: “Então disse ao discípulo: Eis aí a tua mãe”(Jo 19,27). Na cruz, declara que está satisfeito por ter feito tudo para obter-nos a salvação e coroa tudo com a sua morte: “Sabendo então Jesus que tudo estava consumado, disse: Está tudo consumado. E tendo inclinado a cabeça, entregou o seu espírito”(Jo 19,28).
Eis o homem livre do pecado e do poder de Lúcifer pela morte de Jesus Cristo e além disso elevado ao estado de graça e de graça maior que a perdia por Adão. “Onde abundou o delito, superabundou a graça”(Rm 5,20). Resta-nos agora, diz o Apóstolo, recorrer sempre com confiança a esse trono de graça, que é justamente Jesus crucificado, para que recebamos de sua misericórdia a graça da salvação e os auxílios oportunos para vencermos as tentações do mundo e do inferno (Hb 4,16).
Afetos e oração. Ah, meu Jesus, eu vos amo sobre todas as coisas e quero eu amar senão a vós que sois uma bondade infinita e por mim morrestes? Desejaria morrer de dor cada vez que penso que vos expulsei de minha alma com os meus pecados e que me separei de vós que sois meu único bem e tanto me tendes amado. “Quem me separará do amor de Jesus Cristo?” Só o pecado me pode separar de vós. Mas eu espero do sangue que derramastes por mim, que não haveis mais de permitir que eu me separe jamais do vosso amor e perca a vossa graça que eu aprecio acima de todos os bens. Eu me dou todo a vós, aceitai-me e prendei todos os meus afetos para que eu não ame a ninguém mais senão a vós.
O amor de Jesus nos constrange.Talvez Jesus Cristo pretenda muito, querendo que nos demos inteiramente a ele, que nos deu todo o seu sangue e a sua vida, morrendo por nós na cruz? Ouçamos o que diz S. Francisco de Sales sobre as palavras: “A caridade de Cristo nos impele”(2Cor 5,14). “Saber que Jesus nos amou até à morte e morte de cruz não é sentir nossos corações oprimidos por uma violência que é tanto mais forte quanto ele é mais amável? O meu Jesus se deu todo a mim e eu me todo a ele, e eu viverei e morrerei sobre o seu peito, e nem a morte nem a vida me separarão jamais dele”.
Jesus Cristo morreu, diz S. Paulo, para que cada um de nós não viva mais para o mundo nem para si mesmo, mas só para ele, que se deu inteiramente a nós: “E Cristo morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que morreu por eles”(2Cor 5,15). Quem vive para o mundo, busca os prazeres do mundo; quem vive para si mesmo, busca a sua satisfação; quem vive para Jesus Cristo, não procura agradar senão a Jesus e nada teme senão desgostá-lo; não se compraz senão em vê-lo amado e não se aflige senão em vê-lo desprezado. Isso é viver para Jesus Cristo e isso é o que ele exige de cada um de nós. Pergunto novamente: talvez exige muito de nós quem deu seu sangue e sua vida para cada um de nós?
Ó Deus, e por que havemos de empregar os nossos afetos em amar as criaturas, os parentes, os amigos, os grandes do mundo que não suportaram por nós nem flagelos, nem espinhos, nem cravos, não derramaram por nós nem uma gota de sangue, e não amar um Deus que por nosso amor desceu do céu à terra, fez-se homem, derramou todo o seu sangue à força de tormentos, e finalmente morreu de dores num madeiro para cativar os nossos corações! Mais ainda: para unir-se mais estreitamente a nós, deixou-se ficar depois de sua
morte sobre nossos altares, onde se torna uma só coisa conosco para nos fazer compreender o amor ardente que nos tem: “Mistura-se conosco para que sejamos um com ele: isso é próprio dos que amam ardentemente”, diz S. Crisóstomo. E S. Francisco de Sales acrescenta, falando da santa comunhão: “Em nenhuma outra ação pode-se considerar o Salvador nem mais terno, nem mais amoroso que neta na qual se aniquila por assim dizer, e se reduz a comida para unir-se aos corações de seus fiéis”.
Afetos e oração. Mas como é possível, Senhor, que eu, depois de ter sido amado por vós com finezas tais, tenha tido a ousadia de vos desprezar, como mui justamente mo lançais em rosto: “Eu criei e engrandeci uns filhos e eles me desprezaram”(Is 1,2). Eu tive coragem de voltar-vos as costas para satisfazer os meus apetites. “Lançaste-me para trás de teu corpo” (Ez 23,35). Tive ânimo para expulsar-vos de minha alma: “Os ímpios disseram a Deus: retira-te de nós” (Jó 21,14). Tive a ousadia de afligir o vosso coração que tanto me amou. Mas então devo desesperar de vossa misericórdia? Amaldiçôo os dias em que vos ofendi. Oh! tivesse eu morrido mil vezes antes, ó meu Salvador, e não vos tivesse ofendido! Ó Cordeiro de Deus, vós vos deixastes sangrar na cruz para lavar com o vosso sangue os nossos pecados. Ó pecadores, quanto não daríeis por uma gota de sangue deste Cordeiro no dia de Juízo? Ó meu Jesus, tende piedade de mim e perdoai-me; conheceis, porém, a minha fraqueza, prendei por completo a minha vontade, para que ela não se rebele mais contra vós. Expeli de mim todo o amor que não for por vós. Expeli de mim todo o amor que não for por vós. Eu vos acolho por meu único tesouro, por meu único bem: vós me bastais e não desejo outro bem fora de vós. “Deus de meu coração e minha partilha e Deus para sempre”.
Ó ovelhinha amada de Deus, vós que sois a mãe do divino Cordeiro (assim a chama S. Teresa), recomendai-me o vosso Filho; vós, depois de Jesus, sois a minha esperança, pois que sois a esperança dos pecadores; nas vossas mãos coloco a minha salvação eterna. “Esperança nossa, salve”.

21 de novembro de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 70ª Parte

MEDITAÇÃO PARA O SÁBADO

Da crucifixão e morte de Jesus

1. Eis aí o Calvário, feito teatro do amor divino, onde um Deus morre por nós num mar de dores. Tendo Jesus aí chegado, arrancam-lhe do corpo, com violência, as vestes pegadas às suas carnes dilaceradas e o lançam sobre a cruz. O Cordeiro divino se estende sobre esse leito de morte, apresenta suas mãos aos carrascos e oferece ao eterno Pai o sacrifício de sua vida pela salvação dos homens. Eles o pregam e alçam-no na cruz. Contempla, minha alma, o teu Senhor suspenso por aqueles três duros cravos e pendente daquele madeiro no qual não encontra sossego nem repouso. Ora se apoia sobre as mãos, ora sobre os pés, mas redobra a dor na parte em que se apoia. Ah, meu Jesus, como é amarga a morte a que vos sujeitais! Eu vejo escrito sobre a cruz: Jesus Nazareno, rei dos judeus. Afora esse título de escárnio, que sinal existe de vossa realeza? Ah, esse trono de dores, essas mãos encravadas, essa cabeça traspassada, essas carnes dilaceradas, bem proclamam rei de amor. Chego-me enternecido para beijar esses pés chagados. Abraço essa cruz, na qual como vítima de amor quisestes morrer sacrificado por mim. Ah, meu Jesus, que seria de mim, se não tivésseis satisfeito por mim a justiça divina? Agradeço-vos e amo-vos.
2. Estando alçado na cruz, Jesus não encontra quem o console. Dos que o circundam, uns blasfemam e outros escarnecem dizendo: “Se és o Filho de Deus, desce da cruz”.“Salvou a outros e não pode salvar a si mesmo”(Mt 27,40-42). Nem sequer aqueles mesmos que são seus companheiros de suplício lhe demonstram compaixão, unindo-se um deles aos demais para imprecá-lo: “É um dos ladrões que estavam suspensos blasfemava-o” (Lc 23,39). Maria estava, é verdade, aos pés da cruz, assistindo com amor o Filho agonizante: a vista, porém, dessa mãe dolorosa ainda mais afligia a Jesus, vendo a pena que ela sofria por seu amor. Assim o Redentor, não encontrando conforto aqui na terra, se volta para o eterno Pai no céu. O Pai, porém, vendo-o coberto com todos os pecados dos homens, pelos quais devia satisfazer, disse-lhe: Não, Filho, eu não posso consolar-te: é preciso que até eu te abandone aos sofrimentos e te deixe morrer sem alívio. Foi então que Jesus exclamou: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”(Mt 27,46).
Ah, meu Jesus, como vos vejo cheio de dores e tristezas. Oh! tendes razão, pensando que tanto sofrestes para ser amado pelos homens e que mui poucos vos amarão. Ó belas chamas de amor, vós que consumistes a vida de um Deus, consumi também em mim todos os afetos terrenos e fazei que eu arda somente por esse Senhor que quis sacrificar sua vida por meu amor sobre um patíbulo infame. Mas vós, ó Senhor, como pudestes morrer por mim, prevendo as injúrias que eu vos faria? Vingai-vos agora de mim, mas vingai-vos de maneira que me seja proveitosa: concedei-me uma tão grande dor, que me faça sempre chorar os desgostos que vos dei. Vinde, flagelos, espinhos, cravos e cruz, que tanto atormentastes o meu Senhor, vinde ferir-me o coração e recordai-me sempre o amor que ele me consagrou. Salvai-me, ó meu Jesus, salvai-me, concedendo-me a graça de vos amar, pois em amar-vos consiste a minha salvação.
3. O Redentor, prestes a expirar, diz ainda com voz moribunda: “Tudo está consumado” (Jo 19,30), como se dissesse: Ó homens, tudo está acabado, realizada está a vossa redenção. Amai-me, pois, desde que não posso fazer mais coisa alguma para conquistar o vosso amor. Minha alma, olha para teu Jesus agonizante: contempla aqueles olhos obscurecidos, a face pálida, o coração que bate ainda, mas vagarosamente, o corpo que já se abandona à morte; contempla aquela bela alma que já está para abandonar seu sagrado corpo. O céu se obscurece, a terra treme, abrem-se os sepulcros, testemunhando a morte do fator do mundo. Jesus, afinal, tendo recomendado a seu Pai a sua bendita alma, expira pela violência das dores e entrega o espírito nas mãos de seu Pai bendito, depois de ter dado do coração aflito um grande suspiro e inclinado a cabeça em sinal da oferta que renovava nesse momento de sua vida por nossa salvação. Aproxima-te, minha alma, daquela cruz. Abraça os pés de teu Senhor morto e pensa que ele morreu pelo amor que te consagrou. Ah, meu Deus, a que estado vos reduziu o amor para comigo. E quem mais do que eu gozou dos frutos de vossa morte? Fazei-me compreender quão grande foi o amor de um Deus ter morrido por mim, para que de hoje em diante eu não ame a ninguém mais fora de vós. Eu vos amo, ó sumo bem, ó verdadeiro amante de minha alma: eu a entrego nas vossas mãos. Pelos merecimentos de vossa morte, fazei que eu morra a todos os amores terrenos, para que eu ame exclusivamente a vós, que unicamente mereceis todo o amor. Maria, minha esperança, rogai a Jesus por mim.