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1 de novembro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni.

XXVI - AS BEM-AVENTURANÇAS 

O Evangelho de S. Mateus no capítulo 5 excita em nossos corações os mais vivos desejos da bem-aventurança. Ele ensina em sete ou oito sentenças gravíssimas, da própria boca do Cristo, a maneira mais certa e mais breve para as alcançarmos. Ninguém me acuse de audácia ou de temeridade, se eu me preparo ainda para explicá-las. Sigo em tudo a doutrina de santíssimos e claríssimos Mestres, em particular e mais de perto o Anjo das Escolas. Não procuro mais que uma sólida e cômoda instrução para cada um de vós vos tornardes santos, e em conseqüência verdadeiramente felizes: que quer dizer: felizes pela esperança aqui na terra, felizes perfeitamente no Céu.
1. - O que são as Bem-aventuranças
Estas sentenças evangélicas - cada uma das quais divididas em duas partes - na primeira parte contêm obras as mais excelentes de virtudes, e propriamente de dons do Espírito Santo, como merecimentos e causas mais próximas de verdadeira Bem-aventurança; e na outra contêm prêmios e Bem-aventuranças correspondentes a estes merecimentos e a estas causas: e por isto justamente se dizem Bem aventuranças.
2. - Quais são
Deus mesmo abre sua boca para enunciá-las. Ouçam as almas das meus irmãos que são filhas de Deus; reflitam-nas com toda a visão mais aguda do seu espírito, atentem dócil o ouvido do seu coração. Bem-aventurados os que têm coração de pobre, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os mansos porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que choram porque serão consolados. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os corações puros, porque verão a Deus. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. Bem aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. (Mt 5, 2-12). Esta última, não tanto um novo grau de perfeição, quando uma confirmação e um sinal dos sete precedentes, que formam como que uma escada para colocar a felicidade, justo prêmio aos verdadeiros merecimentos. Explicaremos agora brevemente: primeiro a natureza destes prêmios; depois a ordem dos méritos de que são causa; enfim a correspondência entre estes prêmios e estes merecimentos.
3. - A natureza dos prêmios 
Quanto aos prêmios, S. Agostinho faz saber que não só dizem respeito à vida futura, onde constituirão uma perfeita bem-aventurança, mas que podem pertencer também à vida presente onde o justo começa de qualquer modo a participar da Bem-aventurança. De fato Reino dos Céus - "porque deles é o reino dos céus" - pode significar também um princípio de perfeita Sabedoria segundo o
qual nos justos começa a reinar o espírito. Possuir a terra -"possuirão a terra" - significa o bom afeto de uma alma que se repousa com o desejo na estabilidade da herança perpétua compreendida pela "terra". São além disso os Justos consolados - "serão consolados" - ainda nesta vida, participando o Espírito Santo que é chamado Paráclito - isto é Consolador. Serão ainda nesta vida saciados "serão saciados" - por aquele alimento do qual diz o Senhor: "Meu alimento é fazer a vontade do meu Pai"
(Jo 4, 34). Nesta vida ainda conseguem misericórdia: "alcançarão misericórdia". Também nesta vida com olho purificado pelo dom da inteligência pode-se de alguma maneira ver Deus: "verão a Deus". Igualmente nesta vida aqueles que pacificam os movimentos do seu ânimo aproximando-se assim da semelhança com Deus, são chamados "filhos de Deus". Esta é verdadeira, a mais sólida, a mais perfeita felicidade, ou seja bem-aventurança a que possa aspirar o homem racional e cristão
sobre esta terra. Se todos gostam naturalmente de ser felizes, quem não gostará agora de sentir explicada a ordem das causas e dos merecimentos desta verdadeira bem-aventurança?
4. - A ordem dos merecimentos que são causa dos prêmios 
Primeiro é preciso, porém, saber com S. Tomás, ter sido constituída por alguns a Bem-aventurança principalmente em três coisas. Por muitos no prazer; por alguns no agir; por outros, enfim, no contemplar. Estas três bem-aventuranças têm um relacionamento muito diverso em relação à Bem-aventurança futuro, de cuja esperança nós agora somos chamados bem-aventurados. A felicidade dos prazeres, como é falsa e contrária à razão, é impedimento à futura, verdadeira, substancial felicidade, à Bem-aventurança que está em agir serve de disposição à futura bem aventurança. A felicidade da vida contemplativa, se for perfeita, é substancialmente a bem-aventurança futura; se imperfeito, é um certo início e princípio daquela.
5. - A ordem dos merecimentos nas Bem-aventuranças em particular
a - As três primeiras Bem-aventuranças
Cristo Senhor colocou antes algumas bem-aventuranças que tirassem o impedimento da falsa bem-aventurança dos prazeres. A vida agradável resulta de duas coisas: primeiro da afluência dos bens
externos, sejam estes riquezas ou honras. Daí como primeira bem-aventurança S. Mateus coloca a pobreza em espírito : "Bem-aventurados os que têm coração de pobre"; o que se pode entender assim do desprezo de toda riqueza, como do desprezo das honras que nascem da humildade. A vida agradável em segundo lugar consiste em seguir as próprias paixões, ou sejam do irascível, ou do concupiscível. De seguir o irascível Cristo nos quer tirar por meio da mansidão: "Bem-aventurados os mansos" querendo com isso tornar o homem, não só moderado no seu irascível segundo as regras da razão, mas ainda, segundo a vontade divina, totalmente tranqüilo destas paixões. Do seguir pois as paixões do concupiscível Cristo nos retrai com ensinar-nos não só a moderá-las pela virtude e a rejeitá-las mesmo com a força, mas até mesmo assumir, quando necessário fosse, uma tristeza voluntária para extinguir de fato toda sua doçura: Bem-aventurados os que choram", que é a terceira bem-aventurança.
b - Quarta e quinta Bem-aventuranças
A vida ativa está particularmente naquelas coisas, que nós fazemos ao próximo sob a razão do dever ou do benefício espontâneo. A cerca do dever de justiça é a quarta Bem-aventurança, que nos persuade não só a não recusar dar ao próximo o que devemos, mas ainda nos induz a fazer isto com tal desejo e fervor que procuremos cumprir todas as obras de justiça, como um faminto e um sedento procura e deseja com ferventes desejos o alimento e a bebida: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça". Quanto pois aos benefícios espontâneos da caridade, a quinta Bem aventurança
nos ensina não só a ser liberais - que é dar àqueles aos quais a reta razão inclina a dar, como aos amigos e parentes; - mas além disso a ser misericordiosos, que é considerar naqueles que beneficiamos só a necessidade em vista de Deus, conforme o que diz S. Lucas: "Quando estiverdes para fazer um banquete, não convideis só vossos amigos ou irmãos, mas convidai os pobres" (13,
12-13) e isto é misericórdia: "Bem-aventurados os misericordiosos".
c - Sexta e sétima Bem-aventuranças
Aquelas coisas, pois, que pertencem á vida contemplativa, ou são a própria bem-aventurança final, ou são um princípio dela. Por isso nas Bem-aventuranças seguintes não existe lugar para méritos, mas para prêmios. São bem postos como merecimentos os efeitos da vida ativa com que o homem se dispõe à contemplativa. Quanto às virtudes e dons que aperfeiçoam o homem em si mesmo, efeito da vida ativa é a "pureza do coração", assim que não será contaminado pelas paixões; daí a sexta Bem-aventurança: "Bem-aventurados os corações puros". Quanto pois às virtudes e dons que aperfeiçoam o homem em relação ao próximo, efeito da vida ativa é a paz, segundo o que disse Isaías: "A justiça produzirá a paz" (32, 17). E por isso a sétima Bem-aventurança se coloca: "Bemaventurados
os pacíficos". Admirável na verdade é a ordem destes merecimentos. Não o é porém menor
a correspondência do prêmio com estes merecimentos.
6. - A correspondência dos prêmios com os merecimentos 
a - As três primeiras Bem-aventuranças
Portanto, foi visto como os merecimentos das três primeiras Bem aventuranças foram postos por Cristo em contradição à falsa bem-aventurança, para afastar os homens daquelas coisas em que consiste a vida voluptuosa do prazer que o homem deseja procurando o que naturalmente ele deseja não onde se deve procurar, isto é em Deus, mas nas coisas temporais caducas; e por isso também os
prêmios das três primeiras Bem-aventuranças são colocados segundo aquilo que na felicidade terrena os homens procuram. Procuram de fato nas coisas exteriores, nas riquezas e nas honras, uma certa
excelência e abundância. Ora, importa justamente o Reino dos céus, pelo qual o homem consegue excelência e abundância dos bens em Deus. E assim o reino dos céus é prometido aos pobres pelo espírito: "Bem-aventurados os que têm coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus". Procuram os homens descomedidos na ira, nas contendas e nas guerras, adquirir segurança e repouso para si, destruindo seus inimigos. Daí o Senhor prometeu aos mansos uma segura e tranqüila posse da terra dos vivos, pelo que é significado a solidez dos bens eternos: "Bem-aventurados os mansos porque
possuirão a terra". Procuram, além disso, os homens nas concupiscências e nos prazeres do mundo uma consolação contra as fadigas e os tédios da vida presente. E por isso o Senhor promete esta consolação àqueles que chorem: "Bem-aventurados os que choram porque serão consolados."
b - Quarta e quinta Bem-aventuranças
As outras duas Bem-aventuranças pertencem às obras da vida ativa, que são obras de virtude nascidas para ordenar o homem acerca do seu próximo. Destas obras os homens se abstém por amor desordenado do próprio bem. Por isso o Senhor atribui como prêmios a estas Bem-aventuranças aquelas coisas pelas quais os homens se abstêm de praticá-las. Alguns se abstêm das obras de justiça negando dar o devido, e tirando também dos outros para enriquecer-se de bens temporais. E por isso o Senhor a quem tem fome de justiça promete a saciedade: "Bem-aventurados os que têm fonte
e sede de justiça, porque serão saciados". Outros se abstêm das obras de misericórdia para não imiscuir-se com as misérias alheias. E o Senhor aos misericordiosos promete a misericórdia para serem livres de toda miséria: "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia".
c - Sexta e sétima Bem-aventuranças
As duas últimas Bem-aventuranças são da vida contemplativa. E por isso segundo a conveniência das disposições que estão colocadas no merecimento, se tornam também o prêmio. A pureza dos alhos predispõe a ver bem. Eis aos corações puros prometida a visão de Deus: "Bem-aventurados os corações puros, porque verão a Deus". Constituir a paz em si mesmo e nos outros manifesta um homem que se faz imitador de Deus, que é o Deus da humildade e da paz. E por isso torna -se a ele
como prêmio a glória da filiação divina, que está em uma perfeita conjunção com Deus por meio de uma sabedoria consumada: "Bem-aventurados os pacíficos porque serão chamados filhos de Deus".
Eis, muito amados, a verdadeira Bem-aventurança que vós aspirais. Eis a escada para subir. Não vos resta senão subir.
7. - As Bem-aventuranças são a escada que conduz à felicidade eterna nos céus
Não, meus irmãos, não basta amar as Bem-aventuranças para possuí-las; todos as amam e poucos chegam a possuí-las. É preciso subir por esta escada que vos mostrei, que Cristo propôs, pela qual subiram os Santos. Não vos deixeis aterrorizar pelo difícil. Os grandes prêmios e as grandes honras não se dão senão às maiores empresas, filhas de um espírito grande e magnânimo. Colocadas as escadas nos muros sobe corajoso o soldado mesmo debaixo da chuva dos golpes inimigos, só para obter uma coroa de honra que em breve lhe deve apodrecer na cabeça, e afronta por isto intrépido os perigos e a morte. Que deveremos nós fazer por uma eterna Bem-aventurança? Eia, pois, soldados de Cristo; olhos para o alto. Vedes lá sobre os muros da feliz Jerusalém aquela multidão triunfal de Santos com áureas coroas na cabeça, revestidos de estolas brancas ou vermelhas, com cândidos lírios ou palmas na mão? São vossos amigos, são vossos irmãos, para ajudar com a voz dos; seus exemplos, e com o socorro de suas orações, o vosso acesso ao seu Reino. Oh! como vos desejam eles! Como esperam! Como vos chamam! Entre eles o vosso glorioso capitão Jesus, oh! como está impaciente para dividir convosco os espólios de seu triunfo! De repartir convosco a glória do seu reino, as riquezas inestimáveis e a felicíssima posse da sua perpétua herança! Ele mesmo vos colocou esta escada. Ele vos exorta para subir; vos promete toda a força da sua graça que vos conforta à subida;
ele vos estende a direita... Eis, pois, e porque a demora? Um bom passo que se dê no início de um empreendimento decide finalmente a tudo. Despojemos o nosso coração de todo apego à terra. Renunciemos ao menos com o espírito! Freemos as nossas iras; aprendamos com Ele a ser mansos e humildes de coração. Abandonemos a vã alegria, do mundo; nossa parte seja chorar nossas culpas, as
penas do nosso exílio; certo de que em breve o nosso luto se converterá em alegria que ninguém poderá jamais tirar de nós. No entanto não tenhamos sede senão da justiça, nem sejamos inclinados senão à misericórdia. Assim purificado o nosso espírito, bem depressa verá os primeiros raios da sua felicidade nascente, que difundirão a paz em nosso coração. E enquanto os olhos dirão: o Paraíso é belo; o coração franco dirá: o Paraíso é meu.

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