30 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

MAIO - OUTUBRO DE 1919

Juanita ingressa dia 7 de maio nas Carmelitas de Los Andes.
Desde então começa a se chamar Teresa de Jesus.
Uma das religiosas que conviveu com ela escreveu: "Ir. Teresa sem dúvida entrou já santa no convento. Sua alma possuía todas as virtudes". Pelo menos, vinha trabalhando conscienciosamente em sua santificação e se fez religiosa para melhor consegui-la.
Para que nada nem ninguém se interpusesse entre Jesus e ela.
As securas, desamparos, trevas e obscuridade que de modo intermitente experimentará até dois dias antes de sua morte serão os últimos toques do amor purificador que eliminarão tudo o que impede a plena configuração com Cristo.
Ao mesmo tempo que seu espírito é assim acrisolado, goza de modo indizível em ser "joguete do amor de Jesus". Submergiu-se em Deus, fonte da felicidade, do gozo e da paz, e não pode senão sentir-se exultante de felicidade. Ao ponto de duvidar se já se encontra no céu. E necessita imperiosamente proclamar sua alegria de mil formas cada vez que escreve a seus familiares e amigos.
"Louca endeusada", quer contagiar os destinatários de suas cartas com a paixão por Jesus Cristo, pela Eucaristia, pela SS. Virgem, pelo abandono confiante nas mãos amorosas do Pai e pela oração e abnegação evangélica. Sem dúvida o consegue mediante as belas e ardentes páginas em que se expande cantando seus amores.
Irmã Teresa foi sincera? Aos não habituados à linguagem dos místicos ocorrerá facilmente esta dúvida porque não compreenderão porque ela pondera tanto seus defeitos. Julgá-la-ão hipócrita quando diz: "Rogue por sua pecadora", sou "tão infiel", "sou cada dia mais miséria e ingratidão: um verdadeiro monstro".
Inclusive os santos mais glorificados, que jamais perderam a inocência batismal, ao ponderar suas deficiências no serviço divino, empregaram esta mesma linguagem que nos parece tão exagerada.
S. João da Cruz explica doutoralmente por que à alma que vai crescendo no amor "as obras grandes feitas pelo Amado parecem-lhes pequenas; as muitas, parecem poucas . . . e considera-se mais má com toda certeza, do que todas as outras almas". E que a luz divina penetra nela com tanta força. fazendo-a ver o que Deus merece e sentir confusão e pena de "tão baixa maneira de agir por tão excelso Senhor". Algo como o raio da luz que, entrando por uma janela, descobre "todos os átomos e manchas e até o pó mais sutil" (Noite escura, I. cap. 9 e Subida do monte Carmelo, I, 14). Já o dissera de modo prático Sta. Teresa de Avila: "Onde entra muito sol, não há teias de aranha escondidas".

29 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

III

NO PORTO DO CARMELO

Todo o Carmelo está impregnado da Divina Presença.
Respira-se, por assim dizer, em tudo. Esqueço-me de que estou na terra. O Carmelo é um céu! (c 97).
A finalidade da carmelita me entusiasma: rogar pelos pecadores, passar a vida toda sacrificando-se, sem jamais ver os frutos da oração e do sacrifício. Unir-se a Deus para que assim circule nela o sangue redentor, e comunicá-lo à Igreja e a seus membros, para que assim se santifiquem! (c 40).
As delícias de Jesus quando esteve na terra era a casa de Betânia, sua morada predileta. Aí era intimamente conhecido por Lázaro, servido por Marta e extremamente amado por Maria! (d 58).
Agradam-me as carmelitas porque elas são tão sensíveis, tão alegres! Jesus deve ter sido assim! (d 31).
A carmelita sobe ao Calvário; aí se imola pelas almas.
O amor a crucifica, morre para si mesma e para o mundo.
Sepulta-se. Seu sepulcro é o Coração de Jesus; daí ressuscita, renasce para nova vida e vive espiritualmente unida ao mundo inteiro! (d 58).

28 de setembro de 2021

Programação de Missas no Apostolado do IBP em Curitiba

 Na Capela São José de Chambéry:

⛪️ 4ª feira, 29/09
São Miguel Arcanjo
18h30, exposição e bênção do Santíssimo, com consagração a São Miguel Arcanjo
19h30, Missa Rezada

⛪️ 5ª feira, 30/09
18h30, Exposição do Santíssimo
19h30, Missa Rezada

⛪️ 6ª feira, 01/10
Não Haverá Missa no Convento

⛪️ Sábado, 02/10
Não haverá missa no Convento

⛪️ Domingo, 03/10
Rosário de Nossa Senhora

08h30, Missa Rezada
10h00, Missa Cantada
19h00, Missa Rezada

Deus abençoe!
Pe. Thiago, IBP


OBSERVAÇÃO

Algumas modificações para as missas dessa semana:

Na quarta-feira teremos Bênção do Santíssimo e Missa em honra de São Miguel Arcanjo, em conclusão de sua quaresma.

Nessa Sexta-feira e Sábado não teremos missa no Convento, por causa de cerimônias Litúrgicas do Convento na Capela maior.

Assim na sexta-feira teremos missa na casa do padre às 07h30 e às 19h00. E os que quiserem, poderão marcar a comunhão em quaisquer outros horários, pela primeira sexta-feira.

No sábado teremos missa na casa somente às 07h30. Igualmente os que desejarem poderão marcar a confissão e a sagrada comunhão do primeiro sábado.

Deus abençoe

27 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

LEVAS A ALMA FERIDA

No mesmo dia em que entrou no Carmelo, escreveu estas linhas em carta a seu irmão Miguel, que levava uma vida um tanto boemia.
Senti por ti, ao mesmo tempo que muito carinho, muita compaixão.
Compreendo - ainda que nunca me tenhas manifestado - que sofres, tens a alma ferida. Muitas vezes quis penetrar até essa ferida, porém teu caráter reservado me ocultou. Que fazer senão calar e rezar por ti? Se pudesses compreender o muito que chorei por ti, terias ouvido tudo que minha alma queria dizer-te.
Porém, talvez não queiras ouvir os conselhos de uma monja.
Sim, monja serei, porém sempre terei coração de irmã para ti. Sempre velarei, lá do meu convento, e te acompanharei a toda parte com minhas pobres orações. Que jamais, Miguel querido, percas a fé. Antes prefiro morrer e oferecer minha vida que ver tua alma extraviada.
Minha vida inteira será contínua imolação por ti, para que sejas um bom cristão. Sim, Miguel, amo-te com loucura e se é necessário que eu perca a minha vida para que voltes atrás e reco­meces verdadeira vida cristã, aqui a tem Deus; ainda mesmo o martírio, contanto que, passados estes quatro dias de desterro, nos
encontremos reunidos para sempre em Deus (Santiago, 7-5-1919) .

26 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

NÃO VEJO SENÃO LÁGRIMAS

Todo este tempo é terrível, pois não vejo senão lágrimas onde quer que olhe. Mas sinto uma energia e valor tão grandes dentro de minha alma como me é impossível descrever. Deus torna insensível o meu coração ante essas lágrimas quando estou diante dos meus; mas estando só, sinto que minha alma se despedaça de dor e a luta mais horrível se apodera dela. Que dúvidas e incertezas, que covardias! Enfim, as misérias que há no fundo deste pobre coração parece que sobem num movimento aterrador. Então gemo, clamo a Nosso Senhor que venha socorrer-me porque pereço. E ele sempre me estende sua mão divina para que não sucumba.
Não quero chorar porque acho que o sacrifício regado com lágrimas não é sacrifício. É necessário que só Deus saiba que o cálice que bebo é muito amargo. Enfim, parece-me que nada faço porque a graça de Deus é imensa. Ele faz tudo.
Que mal-aproveitada parece-me minha vida até aqui! Só te­nho recordação de meus muitos pecados. Não compreendo como Deus se aproxima de mim, miserável pecadora; ele que é a própria santidade. Que bom é Deus! Que felicidade se pudesse derramar todo o meu sangue para demonstrar-lhe meu amor! (Santiago, 25-4-19 19).

MAMÃE PEDE MEU DIÁRIO

Minha mãe pede-me com muita insistência o meu diário para conservá-lo e lê-lo por toda a sua vida; pois isto me fará viver sempre a seu lado e fará bem à sua alma. Por outro lado, Rebeca me pede, por favor, que o deixe para ela. Não sei o que fazer.
Meu desejo é lançá-lo ao fogo, a fim de desaparecer para sempre às criaturas. Por outro lado, vejo que se o lerem, verão a bondade do Divino Mestre que tanto me amou, sendo eu tão ingrata e pecadora. Há coisas que só Deus e a alma devem saber.
Quando Lucho soube, ficou furioso contra mim e quis escrever-me; porém meu papai defendeu-me e o acalmou. Depois escreveu-me uma carta cheia de carinho, propondo-me mil reflexões às quais eu respondi. Desde então não faz outra coisa senão chorar cada vez que me olha. Miguel também chorou muito, porém sem dizer nada contra mim. A Lúcia e Isidoro foi mamãe quem contou.
E todos, ainda que chorem, estão resignados. Bendito seja Deus !
Que dita tão imensa seria dar minha vida por ele! Entretanto, também posso ser mártir no Carmelo, morrendo a mim mesma a cada instante. Essa é a vocação da carmelita: ser hóstia pura que continuamente se oferece a Deus pelo mundo pecador.
Nosso Senhor me dá a cruz nua, sem consolações, sem nada que me alivie (Santiago, 284- 1919).

AMO-O COM LOUCURA

Papai me disse que por enquanto não virá. Isto causou-me um sofrimento horrível. Creio que é para não se encontrar aqui no momento da separação, pois dizem que não faz senão chorar (Santiago, 28+1919).
Asseguro-lhe: sinto-me orgulhosa de ter um pai como o que Deus me deu. Dou mil vezes graças ao céu por ser sua filha.
Quanto lhe agradeço seu generoso consentimento e todos os sentimentos que me expressa em sua carta! Verdadeiramente ela me alegrou.
A única coisa que peço é que venha logo, antes de eu ir; seria o maior sofrimento ter de renunciar a abraçá-lo e beijá-lo pela última vez. Asseguro-lhe que só a ideia de que não virá me produz um sofrimento tão grande que quase chego ao desfalecimento físico. Papaizinho lindo, venha, por caridade. Não posso resignar-me a não lhe dar meu último beijo e carinho. Lembre-se que o amo com loucura. Não posso crer que Deus queira submeter-me a essa horrível prova. Porém, enfim, que se cumpra a sua
adorável Vontade.
Minha medalha de ouro que jamais se separou de mim, salvo quando lhe emprestei, reservei-a para você para que a conserve como recordação de sua filha por sua vida inteira (Santiago, 1 .0-5-1919).

25 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

EM DEUS NOS ENCONTRAREMOS

Se por um instante pudesse penetrar o íntimo de meu pobre coração e presenciar a luta horrível que experimento ao deixar os seres que idolatro, terias compaixão de mim. Mas Deus o quer, e ainda que fosse necessário atravessar o fogo, não retrocederia.
Lucho muito querido, falo-te de coração a coração. Quero-te como nunca te amei. Poucos irmãos existirão tão unidos como nós dois. Contudo, digo-te adeus. Sim, Lucho de minha alma; é preciso que te diga esta palavra tão cruel por um lado, porém não é, quando consideramos o sentido do que dizemos: até Deus! Lucho querido, ali viveremos sempre unidos. Em Deus nos encontraremos.
Quem pode fazer-me mais feliz do que Deus? Nele encontro tudo. Agora, diga-me, que abismo mais insondável haverá do que entre Deus e a criatura? E ele não desdenha descer até ela para unir-se a ela e divinizá-la. E eu, hei de desdenhar a mão do Todo­-poderoso? Lucho, se eu me tivesse enamorado por um jovem com quem pensasse ser feliz e não fosse do teu agrado, eu não teria duvidado um momento em sacrificar por ti a minha felicidade, porque te considero muito. Porém, não se trata de um homem, mas de Deus, e não posso voltar atrás. Peço-te, perdoa-me toda a mágoa que te causei com minha determinação. Tu me conheces e podes compreender melhor do que ninguém como é grande o meu sofrimento, e tanto maior quanto mais vejo que sou eu a causa do sofrimento dos seres que tanto amo.
Além disso, quem colocou em minha alma o germe da vocação foi a SS. Virgem. E foste tu que me ensinaste a amar a esta terna Mãe que jamais foi invocada em vão por seus filhos. Ela me amou, e não encontrando outro tesouro maior para dar-me em prova de sua singular proteção, deu-me o fruto bendito de suas entranhas, o seu Divino Filho. Que mais me poderia dar? Lucho, antes de partir, deixo-te como sinal de nossa perpétua fraternidade a estátua da SS. Virgem que tem. sido minha companheira
inseparável. Ela tem sido minha íntima confidente desde os mais tenros anos de minha vida. Ela ouviu a relação de minhas alegrias e tristezas, confortou meu coração tantas vezes abatido pelo sofrimento. Lucho querido, ela vai me substituir junto a ti. Fala-lhe como fazes comigo, de coração a coração. Quando te sentires só, como eu me senti muitas vezes, olha-a e verás que, sorrindo, te diz: "Tua Mãe jamais te deixa só". Quando, triste e desolado, não encontrares com quem desabafar-te, corre à sua presença e fixa o olhar lacrimejante de tua Mãe que te diz "não há dor semelhante à minha dor", pondo em tua alma a gota de consolação que cai de seu dolorido Coração (a seu irmão Luís; Santiago, abril
de 1919).

QUERO SER SANTA CARMELITA

Só me faltam 17 dias para encontrar, atrás das grades do meu Carmelo, horizontes sem limites, horizontes divinos que o mundo não compreende.
Porém não vou em busca do Tabor, e sim do Calvário. Pela graça de Deus, compreendi que a vida da carmelita é uma abnegação contínua, não só do corpo, mas da vontade e do julgamento.
Antes parecia-me que Deus daria às almas que se entregam a ele os gozos e doçuras da oração, e só para senti-las seria o caso de se fecharem no convento. Porém, hoje compreendo que isto não é buscar a Deus, mas a si mesma; e preparo-me, não para regalos, mas para securas e abandonos; numa palavra, para cumprir a vontade de Deus.
Não sei o que daria para pregar ao mundo inteiro o abandono cego nas mãos de Deus. Creia que o experimentei em meus assuntos, porque não tenho pedido nada, senão o que ele quiser e nada mais... Quero ser uma santa carmelita. Seria uma loucura se, depois de sacrificar tudo, eu não fosse uma carmelita segundo o ideal de minha Madre Sta. Teresa; que meu Jesus não possa dizer que eu sou totalmente dele.
Minha sobrinha Luz está muito bem. É encantadora. Eu a amo muitíssimo e me encanta tê-la nos braços (Santiago, 20-4-1919).

24 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

O CÚMULO DA FELICIDADE E DA DOR

Domingo passado papai deu-me seu consentimento. Parece que ele se esquivou de encontrar-se a sós comigo; porém, aconteceu que as meninas Valdés Ossa mandaram-me buscar por seu papai para ir à fazenda onde me encontro. Então chamei-o ao meu quarto e pedi que me desse a permissão. E ali obtive esta resposta: "Se é essa a vontade de Deus e a tua felicidade, eu não me oponho". Depois perguntou-me quando queria ir, se no princípio ou no fim de maio. Eu disse que no dia 7 e ele disse: "Filhinha, faça como quiser".
Ontem comunguei pela primeira vez depois de ter a permissão.
Não podia senão chorar diante de tão grande favor do bom Jesus. Estou no cúmulo da felicidade e da dor. A senhora, Madre, que passou por estas circunstâncias, pode compreender que existem na alma contrastes tão grandes de sentimentos. Quando penso no favor que Nosso Senhor vai me conceder, e por outro lado vejo minha miséria e indignidade, confundo-me... Eu o amo e por ele vou deixar tudo. Porém esse tudo é tão pequena coisa comparado com o tudo de seu amor.
Que feliz me sinto ao contemplar tão próxima a minha bendita montanha do Carmelo. Logo subirei a ela para viver crucificada.
Minha mamãezinha contou-me que meu irmão já sabe e também o meu cunhado. Disse-me que o primeiro está quase desesperado e chora muito (Santiago, 8-4-1919 e Cunaco, 12-4-1919).
Só me restam 20 dias e depois... o Calvário, o céu. Já estou subindo ao cume. A dor da separação é tão intensa que não há palavras para expressá-la. Contudo, Deus me sustenta e, mesmo quando vejo todos os meus a chorar, permaneço sem fazê-lo, sem nem sequer demonstrar sofrimento. Isto é horrível; porém conto com a graça de Deus que nestes momentos ultrapassa todo limite (Santiago, abril 1.919).
Diga às minhas irmãzinhas que me alcancem de Nosso Senhor a graça do sofrimento mais intenso para mim nestes dias e no momento de efetuar o sacrifício. Porém, peçam-lhe que seja muito interior, de modo que ninguém o saiba e perceba no meu semblante; porém, acima de tudo, peçam-lhe que cumpra em mim sua divina vontade (Santiago, 4-5-1919).

QUE DEUS LHE PAGUE

Meu paizinho lindo, que Deus lhe pague mil vezes. Faltam-me palavras para agradecer-lhe como desejo. Sentia neste momento o sofrimento maior da minha vida ao ver que, pela primeira vez, seria eu a causa de suas lágrimas. Contudo, tive a força necessária para suportá-lo. Papaizinho meu, é Deus que dá a energia aos nossos corações para fazer o sacrifício mais custoso nesta vida. Tal é o que você vai oferecer (Cunaco, 7-4-1919).
Não imagina como agradeço, cada dia mais, o seu consentimento.
Nisto conheci mais do que nunca o seu generoso coração e como é desinteressado. Quantos pais, olhando só seus interesses e para evitar a dor da separação, sacrificam a felicidade de suas filhas, retendo-as! Mas você, paizinho querido, sabe amar com verdadeiro carinho; e jamais esquecerei sua generosidade.
Quanto teria gostado de viver sempre ao seu lado acompanhando-o, e ser mais tarde em sua velhice o seu apoio e companheira inseparável. Porém, já que Deus determinou outra coisa, conformemo-nos: asseguro-lhe que não terá outra filha que o ame tanto e sempre o cerque com suas orações (Santiago, 18-4-1919).

23 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

ELE ME ROUBARÁ NO DIA 7 DE MAIO

Quando terei a felicidade de usar esse hábito tão querido?
A carta em que solicito a permissão de meu pai, já a tenho pronta para enviá-la, a fim de que a receba no sábado, dia da Santíssima Virgem.
É uma verdadeira agonia o que experimento enquanto não recebo a resposta que há de manifestar-me a vontade de Deus.
Sinto o sofrimento mais horrível, pois vejo que está próxima a separação. Contudo, cada dia é maior o desejo de ser prisioneira do bom Jesus.
Coloquei como defensores de minha causa dois grandes advo­gados que não podem ser vencidos: minha Mãe Santíssima, a quem jamais invoquei em vão e que verdadeiramente guiou toda a minha vida desde muito pequena, e meu pai S. José, a quem cobrei grande devoção e que pode tudo junto de seu divino Filho. Todo o meu futuro está confiado às suas benditas mãos. Eu me submeterei de boa vontade ao divino querer. Tenho a firme convicção que Nosso Senhor me roubará no dia 7 de maio. Que felicidade!
Apenas me responda o meu papai, eu escreverei dando-lhe a no­tícia (Santiago, 26-3-1919).

DEIXEMOS DE SER CRIANÇAS

Tu te preparas para frequentar a sociedade? Asseguro-te que estou cheia de esperanças, pois creio que este ano se decidirá a minha sorte.
Ri um pouco. Porém, acho que estamos em condições de pensar em nosso futuro. Deixemos de ser crianças, Gordita querjda, para ser mulheres. Se nos obrigam a frequentar a sociedade, façamos com alegria, para que assim possamos conhecer os jovens; pois, enfim, se não vamos ser monjas, é necessário que nos preo­cupemos um pouco em agradar, em conversar com os meninos.
E se depois vemos que nenhum nos agrada, conformemo-nos com a sorte de ficar solteiras, que muito bem podemos fazer não dando a nossa liberdade.
Digo-te com franqueza que será bem difícil enamorar-me porque até agora nenhum dos meninos que conheço me agradou. São todos muito superficiais. Existe algo em mim que os impede de saciar minhas aspirações.
Reza especialmente por uma intenção muito grande, no sábado.
Se alcançar depois te direi (Santiago, 26-3-1919).

NASCEU UMA SOBRINHA

3 de abril. Hoje nasceu uma sobrinha. Esperei-a numa angústia e num temor indescritíveis. Como é grande o poder que Deus manifesta na obra da geração humana! É uma sabedoria que pasma o coração e o entendimento que o contempla!
Escrevi ao meu papai solicitando sua permissão e não obtive resposta alguma. O que minha alma sofre é indizível. Oh! Jesus meu, que cruel martírio! Mas tudo é por teu amor. Se não fosse por ti, jamais teria tido a suficiente coragem de causar-lhe este so­frimento. Mas, sendo tu, desaparece tudo. Hoje sentia-me aniquilada, porém abracei meu crucifixo e disse-lhe só isto: "Te amo".
Bastou para reanimar-me.
Nosso Senhor é demasiado bom. Meu papai escreveu à tarde à minha mãe e está cheio de ternura por mim. Diz que se acredita obrigado a dar-me seu consentimento; porém vai pensar. Coloco­-me, indiferente, na divina vontade. Para mim é o mesmo que me dê permissão para ir em maio ou que não consinta; o mesmo que me deixe ser carmelita como não o ser. É verdade, sofrerei. Porém como só busco a ele, tendo-o contente, que me importa o mais?
Se Deus permitir, eu me submeto ao seu querer, já que fiz o que ele me ordenou.

22 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

É PRECISO QUE SUA FILHA OS DEIXE

Carta a seu pai, na qual lhe confia o segredo de sua vocação, pede sua permissão e bênção para ingressar no Carmelo. Santiago, 25 de março de 1919.
Paizinho tão querido:
Só ontem chegamos de Bucalemu, depois de haver passado dias muito agradáveis em companhia desses tios tão carinhosos. Entretanto, como disse em minha última carta, os dias que passamos ao seu lado ocupam um lugar de preferência.
Paizinho, faz muito tempo que desejava confiar-lhe um segredo, que guardei toda a minha vida no mais íntimo da alma.
Mas não sei por quê, apoderava-se de minha alma certo temor ao querer confiá-lo. Por isso, sempre me mostrei muito reservada com todos. Mas agora quero confiá-lo com a plena certeza que guardará o mais completo segredo.
Tenho desejo de ser feliz e busquei a felicidade por toda a parte. Sonhei em ser muito rica, mas vi que os ricos, da noite para o dia, tornam-se pobres. E, ainda que , às vezes, isto não aconteça, vemos que por um lado reinam as riquezas e por outro reina a pobreza de afeição e de união. Busquei-a na posse do carinho de um jovem completo, porém, só a ideia de que algum dia poderia não me amar com o mesmo entusiasmo ou que pudesse morrer deixando-me só nas lutas da vida fez-me afastar o pensamento de que ao casar-me seria feliz. Não. Isto não me satisfaz. Para mim não está aí a felicidade. E então - eu me perguntava - onde se encontra? Então compreendi que não nasci para as coisas da terra , mas para as da eternidade. Para que negar por mais tempo? Só em Deus meu coração encontra repouso. Com ele minha alma sente-se plenamente satisfeita, e de tal maneira, que não desejo outra coisa neste mundo, senão pertencer-lhe por completo.
Meu queridíssimo papai: sei que Deus me concedeu um grande favor. Eu sou a mais indigna de suas filhas, contudo o amor infinito de Deus anulou o imenso abismo que existe entre ele e sua pobre criatura. Ele desceu até mim para elevar-me à dignidade de esposa. Quem sou eu, senão uma pobre criatura? Mas ele não olhou a minha miséria. Em sua infinita bondade e apesar de minha baixeza, amou-me com infinito amor. Sim, paizinho. Só em Deus encontrei um amor eterno. Com que agradecer-lhe? Como pagar-lhe senão com amor? Quem pode amar-me mais que Nosso Senhor, infinito e imutável? Paizinho, você me perguntará desde quando penso nisto tudo. Vou referir-lhe tudo, para que veja que ninguém me influenciou.
Desde criança amei muito a Santíssima Virgem, a quem confiava todos os meus assuntos. Só com ela desabafava e jamais deixava nenhuma pena ou alegria sem confiar-lhe. Ela correspondeu a esse carinho. Protegia e atendia sempre tudo o que eu lhe pedia.
E ela me ensinou a amar a Nosso Senhor. Ela colocou em minha alma o germe da vocação. Contudo, sem compreender a graça que ela me concedia e sem sequer preocupar-me com isso, eu flertava e me divertia o mais possível. Porém, quando tive apendicite e me vi muito doente, então pensei o que era a vida e um dia, em que estava só no meu quarto, aborrecida de ficar na cama, ouvi a voz do Sagrado Coração que me pedia que fosse toda dele. Não pense que foi ilusão, porque nesse instante me vi transformada.
Aquela que buscava o amor das criaturas não desejou senão o amor de Deus. Iluminada pela graça do alto, compreendi que o mundo era demasiado pequeno para minha alma imortal; que só com o infinito poderia saciar-me, porque o mundo e tudo o que ele encerra é limitado. Enquanto que minha alma feita para Deus não se cansaria de amá-lo e contemplá-lo, porque nele os horizontes são infinitos.
Como duvidar pois de minha vocação, se quando estive tão mal e a ponto de morrer, não duvidei nem desejei outra coisa?
Como pode ver, paizinho, ninguém me influenciou, pois nunca o disse a pessoa alguma e sempre me empenhei em ocultar-lhes.
Não sei como agradecer a Nosso Senhor, a ele devo este favor tão grande, pois sendo ele todo-poderoso, onipotente, que não necessita de ninguém, preocupa-se em amar-me e escolher-me para fazer de mim sua esposa. Veja a que dignidade ele me eleva: ser esposa do Rei do céu e da terra, do Senhor dos senhores.
Ah! papai, como pagar-lhe? Além disso, tira-me do mundo, onde há tantos perigos para as almas, onde as águas da corrupção tudo invadem, para levar-me a morar junto ao tabernáculo onde ele habita.
Se, para conceder-me tão grande bem, um inimigo me chamasse, não seria o caso de segui-lo imediatamente? Mas não é um inimigo, mas nosso maior amigo e maior benfeitor. É Deus mesmo quem se digna chamar-me para que me entregue a ele.
Como não apressar-me em fazer a total oferta para não fazê-lo esperar? Paizinho, já me entreguei e estou disposta a segui-lo onde ele quiser. Posso desconfiar e temer quando ele é o caminho, a verdade e a vida?
Contudo, eu dependo de você, meu papai querido. É preciso pois que você me dê a Deus. Sei perfeitamente que você não negou Lúcia a Chiro porque seu coração é demasiado generoso; como hei de duvidar que me dará o seu consentimento para eu ser de Deus, quando deste "sim" do seu coração de pai há de brotar a fonte de felicidade para sua pobre filha? Não, eu o conheço. Você é incapaz de me negar isto, sei que nunca recusou nenhum sacrifício pela felicidade de seus filhos. Compreendo que vai custar-lhe muito. Para um pai não há nada mais querido so­bre a terra que seus filhos. Paizinho, é Nosso Senhor quem me reclama. Poderá negar-me quando ele não soube negar-lhe do alto da cruz nenhuma gota de seu sangue divino? É a Virgem, o seu Perpétuo Socorro, quem lhe pede uma filha para fazê-la esposa de seu adorado Filho. E poderá recusar-me?
Não pense, papai; que tudo o que digo não despedaça o meu coração. Você bem me conhece e sabe que sou incapaz de causar-lhe voluntariamente um sofrimento. Porém, ainda que o coração sangre, é preciso seguir a voz de Deus; é preciso abandonar aqueles seres aos quais a alma está intimamente ligada, para ir morar com o Deus de amor que sabe recompensar o mais leve sacrifício. Com quanto maior razão premiará os grandes? É necessário que sua filha os deixe. Porém, não é por um homem, senão por Deus; por ninguém ela o faria, mas por Aquele que tem direito absoluto sobre nós. Isto há de servir-lhe de consolo: não foi por um homem e, depois de Deus, você e mamãe serão os seres que mais amei sobre a terra.
Pense também que a vida é muito curta e depois desta existência tão penosa nos encontraremos reunidos por uma eternidade.
Por isso irei ao Carmelo: para assegurar a minha salvação e a de todos os meus. Sua filha carmelita é a que velará sempre ao pé dos altares pelos seus, que se entregam a mil preocupações necessárias aos que vivem no mundo. A SS. Virgem quis que eu pertencesse a essa Ordem do Carmelo, pois foi a primeira comunidade que lhe rendeu homenagem e a honrou. Ela nunca deixa de favorecer as suas filhas carmelitas. De maneira, papai, que sua filha escolheu a melhor parte. Serei toda para Deus e ele será todo para mim. Não haverá separação possível entre você e sua filha. Os seres que se amam jamais se separam. Por isso, quando você, papaizinho, se entregar ao trabalho rude do campo; quando, cansado de tanto sacrifício, sentir-se fatigado e só, sem ter em quem descansar, sentindo-se desfalecido, então bastará transportar-se ao pé do altar. Ali encontrará sua filha que, também só, ante o Divino Prisioneiro, levanta suplicante sua voz para pedir a Deus que aceite o sacrifício seu e também o dela, e que, em retorno, lhe dê ânimo e coragem nos trabalhos e consolo em sua dor. Como Deus poderá fazer-se surdo à súplica daquela que tudo abandonou e não tem, em sua pobreza, outro ser a quem recorrer? Não, paizinho.
Deus é generoso, além de que, a constância de minha oração há de movê-lo a coroar seus sacrifícios. Minha mamãe e meus irmãos terão um ser que constantemente eleva por eles ardentes súplicas; um ser que os ama profundamente e perpetuamente se imola e sacrifica pelos interesses de suas almas e de seus corpos.
Sim. Eu quisera ser de lá do convento o anjo tutelar da família.
Espero ser, apesar de indigna, pois sempre estarei junto ao Todo­-poderoso.
Paizinho, não negue a permissão. A SS. Virgem será minha advogada. Ela saberá melhor do que eu fazê-lo compreender a vida de oração e penitência que desejo abraçar e que encerra, para mim, todo o ideal de felicidade nesta vida e me assegurará a da eternidade.
Compreendo que toda a sociedade reprovará minha resolução, porém é porque seus olhos estão fechados para a luz da fé.
As pessoas que ela considera "desgraçadas" são as únicas que se declaram felizes porque em Deus encontram tudo. Sempre há no mundo sofrimentos horríveis. Ninguém pode dizer sinceramente: "Eu sou feliz". Mas, ao penetrar nos claustros, de cada cela bro­tam estas palavras e são sinceras pois elas não trocariam sua solidão e o gênero de vida que abraçaram por nada do mundo.
Prova disto é que permanecem sempre nos conventos. Compreen­de-se, já que no mundo tudo é egoísmo, inconstância e hipocrisia.
Disto você, papaizinho, tem experiência. E que coisa melhor se pode esperar de criaturas tão miseráveis?
Dê-me seu consentimento desde já, paizinho querido. "Quem dá logo, dá duas vezes." Seja generoso com Deus, que o há de premiar nesta vida e na outra, e não me obrigue a frequentar a sociedade. Conheço muito bem essa vida que deixa na alma um vazio que ninguém pode preencher, a não ser Deus. Deixa muitas vezes o remorso. Não me exponha à corrupção que reina atualmente.
Minha resolução está tomada. Ainda que se apresente para mim o partido mais vantajoso, eu o recusarei. Quem há que se possa comparar a Deus? Não. É preciso que logo me consagre a Deus, antes que o mundo possa manchar-me. Papaizinho, negará sua permissão para maio? É verdade que falta pouco, porém ro­garei a Deus e à SS. Virgem deem-lhe forças para dizer-me o "sim" que há de fazer-me feliz. Você já disse em diversas ocasiões que não negaria sua permissão, pois lhe daria muito consolo ter uma filha monja.
O convento que escolhi fica em Los Andes, é o que Deus designou para mim, pois nunca havia conhecido nenhuma carme­lita, o que lhe assegurará que ninguém me influenciou e que não sigo impressões. Deus o quis. Que se cumpra a sua adorável vontade.
Espero sua resposta com ansiedade. Entretanto peço a, Nosso Senhor e à SS. Virgem lhe concedam socorro para fazer sacrifício; já que sem eles eu não teria coragem suficiente para separar-me de você.
Receba muitos beijos e abraços de sua filha que mais o quer.

Juana.

P.S. Não necessito recomendar-lhe que guarde segredo. Lucho chega sábado de Bucalemu. Lúcia está muito bem, mas diz-lhe que se apresse em vir, porque senão encontrará o afilhado muito grande. Minha mãe sabe meu segredo faz pouco tempo. Perdoe-me, paizinho, o sofrimento que esta carta vai causar, porém é Deus quem me ordena.

21 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

QUISÉRAMOS ESTAR AO SEU LADO

Faz pouco tempo que chegamos e já nos parece de um século a separação. Tínhamos nos acostumado a vê-lo e a passar todo o tempo com você, paizinho querido.
Estamos muito unidos a você e apesar da distância ser tão grande, nem por isso deixamos de acompanhá-lo. Não imagina, paizinho querido, quanto o quero; mais ainda que antes, pois como era menor, você não conversava tanto conosco. Porém agora o conheço e sei apreciar seu grande coração. Creia que não tenho como agradecer a Deus pelo papai que nos deu.
Passamos muito felizes estas férias e melhores que as do ano passado porque as passamos ao seu lado e não tenho como agradecer-lhe pelos momentos tão agradáveis que nos proporcionou.
Minha mãe tem pena de ter vindo, e nós também. Sempre quiséramos estar ao seu lado para distraí-lo um pouco. Adeus, lindo. Receba muitos beijos e abraços de todos (Santiago, 8-3-19 19).

SOU VERDADEIRA AMAZONA

Saí muito a cavalo e fico encantada por subir e descer serras.
Aqui estão admirados porque não me canso e dizem que sou uma verdadeira amazona (Bucalemu, 22-3-1919).
Bucalemu é a fazenda mais encantadora. Estou sempre a cavalo.
Às duas e meia da tarde estamos a cavalo Eduardo, Licho e eu, e não voltamos antes das oito e meia. Ontem subimos uma serra com uma vertente que Eduardo achava impossível subir. Eu me agarrei nas crinas do cavalo e comecei a subir tranquilamente.
E abaixo corria o rio (Bucalemu, março de 1919).
Saí muito a cavalo e de carro. O rio Rapei tem paisagens maravilhosas como nunca tinha visto. Também fomos de automóvel fazer piquenique na praia. Asseguro-te que gostei de subir de­clives tão íngremes que os nossos cabelos ficavam arrepiados. Há partes do caminho que são verdadeiras montanhas russas; muito me diverti (Santiago, 26-3-1919).

PARECE-ME LOUCURA

Estou sofrendo uma verdadeira agonia, pois hoje escreverei ao meu pai solicitando permissão, para que ele receba esta carta no sábado, dia da Santíssima Virgem.
Apenas resolvi escrever e já se renovou em mim a imensa dor que experimento ao pensar que vou deixá-lo. Foi uma luta que sustentei contra minha própria natureza quando escrevi a carta.
E todo o entusiasmo sensível que sentia pelo Carmelo desapareceu.
Parece-me, de repente, que é uma loucura o que vou fazer; que são ilusões etc. Porém, já está muito pensado e minha vontade o deseja como um bem verdadeiro. Dou graças a Deus por esta re­pugnância natural que experimento, pois assim será mais pesada a cruz que abraçarei e poderei manifestar ao bom Jesus mais amor; já que irei em busca dele sem consolo algum.
Em minha oração não encontro gosto algum, nem mesmo na comunhão. Às vezes penso que seria melhor não comungar para não fazê-lo tão mal; porém não posso. Não está em mim deixar de comungar, pois Nosso Senhor, apesar de ver meu coração de pedra, comunica-me força, luz, numa palavra, vida. Cada dia me vejo mais miserável (Santiago, março de 1919).

20 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

JESUS DE TERESA

Meu único desejo é ser cada dia mais de Nosso Senhor. Eu sei o quanto sou indigna, entretanto aspiro ser como uma Sta. Teresa de Jesus, para que ele possa dizer-me que é Jesus de Teresa (São Paulo, 24-2-1919).
Contemplo a Santíssima Trindade dentro de minha alma como um imenso foco de fogo e luz no qual, por sua muita intensidade, não posso penetrar, nem olhar. Ali vejo a Santíssima Virgem, aos anjos e santos. E me vejo a mim, criatura miserável, confundida e aniquilada diante de sua Divina Majestade e me uno aos louvores que lhe tributam todos no céu.
Deus, sem palavras, às vezes, me dá a conhecer sua vontade.
Outro dia falou-me da pobreza. Disse-me que tratasse de não possuir nem vontade, nem julgamento. Que não estivesse apegada a nada. Tudo isto foi sem palavras, pois fazia-me entender interiormente e fez-me compreender que estou apegada ao fervor sensível.
Que eu fazia consistir a união divina no amor sensível, mas ela consiste em imitar suas divinas perfeições para assemelhar-me a ele cada vez mais, e em sofrer muito por seu amor para ser crucificada
como ele (São Paulo, 27-2-1919).

CONTINUAMOS DANDO-LHES AULAS

Tivemos missões. Nós duas, eu e Rebeca, dávamos catecismo.
Reuniam-se mais de 50 meninos. E depois das missões continuamos dando-lhes aula todos os dias, porque o povo daqui é muito igno­rante. Parece que pouco ou nada lhes ensinam na escola pública.
Hoje organizamos, para os meninos, brincadeiras e jogos. Asseguro-te que os pobrezinhos se divertiram. No domingo anterior fizemos teatro. Ficaram encantados. E depois, para terminar, fizemos uma rifa.
É muito divertido este povo porque não estão acostumados a ter patrões pois quase todos são proprietários, e todos se tratam com orgulho entre si. Assim é que se encantaram porque não os tratamos assim.
Todos estes dias saímos a cavalo para consagrar as casas ao Sagrado Coração. Conseguimos em 21 casas. Com que amor e gosto o faço. Porém que pena me dá porque meu Jesus não pode alojar-se em todas (São Paulo, 2-3-1919) .

ESPÍRITO DE REPARAÇÃO

Muito lhe agradeceria o envio de uma ampla explicação da Reparação Sacerdotal, pois, embora eu já pertença a ela, não me explicaram bem. E eu, como desejo ser carmelita - a qual se propõe rogar pelos pecadores - tenho verdadeiros desejos de encher-me completamente do espírito de reparação, e creio que isto agradará a Nosso Senhor porque sofro muito pelas ofensas daqueles que são chamados a ser seus verdadeiros e íntimos amigos e muitas vezes o esquecem.
Quanta pena senti no fundo de minha alma ao ver sacerdotes indignos de tal nome! E há muito tempo oferecia uma vez por semana a comunhão e a missa para rezar e reparar por eles.
Eu, que hei de permanecer sempre aos pés do Tabernáculo, me esforçarei - asseguro-lhe - por consolar a Nosso Senhor das ofensas de seus ministros. A carmelita é irmã do sacerdote. Ambos oferecem uma hóstia de holocausto pela salvação do mundo. Santifica-se a si mesma para que o sangue do Divino Prisioneiro que recebe ela em sua alma por estar sempre mais unida a ele circule pelos demais membros do corpo de Cristo. Santifica-se a si mesma para santificar os seus irmãos (sem data, 1919).

19 de setembro de 2021

Agenda de Missas Tridentinas do Apostolado do IBP Curitiba

Na Capela São José de Chambéry:

⛪️ Domingo, 19/09
XVII Domingo pós Pentecostes

08h30, Missa Rezada
10h00, Missa Cantada
19h00, Missa Rezada
————————————————————

Na Casa do Padre: Olavo Bilac, 76

⛪️ 2ª feira, 20/09
07h30, Missa Rezada

⛪️ 3ª feira, 21/09
São Mateus Apóstolo
07h30, Missa Rezada

⛪️ 4ª feira, 22/09
Têmporas de Setembro
07h30, Missa Rezada
——————————————————

Na Capela São José de Chambéry:

⛪️ 5ª feira, 23/09
18h30, Exposição do Santíssimo
19h30, Missa Rezada

⛪️ 6ª feira, 24/09
Têmporas de Setembro
19h00, Recitação Pública do Terço
19h30, Missa Rezada

⛪️ Sábado, 25/09
Têmporas de Setembro
08h30, Atendimento de Confissões
09h00, Missa Rezada

⛪️ Domingo, 26/09
XVIII Domingo depois de Pentecostes

08h30, Missa Rezada
10h00, Missa Cantada
19h00, Missa Rezada

Deus abençoe!
Padre Thiago, IBP

18 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

ENCANTOU-ME SUA SIMPLICIDADE

Estou inteiramente resolvida a ser carmelita. Sei que encontrarei muitas dificuldades por parte dos meus para ir-me, pois, sendo uma Ordem cujos fins se desconhece e não se compreende, é qualificada pelo mundo como inútil. Mas quero passar por tudo, contanto que se cumpra a vontade de Deus. Ele será meu apoio e fortaleza.
Preferi Los Andes por ser mais afastado das grandes cidades, o que torna mais difícil a ida para lá, mantendo-se completamente separada do mundo. Também porque creio que são muito austeras e muito observantes de sua Regra, e têm muito arraigado o espírito de Sta. Teresa.
Conheci todas as monjas. Encantou-me a simplicidade, alegria e familiaridade que reinava entre elas.
Creio que esse clima não me fará mal, pois é o mesmo de Chacabuco, ao qual estou muito acostumada.
Não sei se lhe contei que me chamarei Teresa de Jesus se for para lá. Mais obrigada fico com o nome de tão grande santa a sê-lo eu também com a graça de Deus (São Paulo, 22 e 29-1-1919 e 3-2-19 19).

QUE BOM É O MEU DEUS!

10 de fevereiro. Quem bom é o meu Deus! Estamos em missões, com o Santíssimo, comunhão e duas missas diárias. Fico a seus pés. Sinto-me muitas vezes desfalecida de amor. Eu me aniquilo em sua presença ao ver-me tão miserável, apesar de ele me cumular de favores.
Rebeca, a princípio, estava desesperada pela separação, pois não creio que existam irmãs mais unidas. Contudo, Nosso Senhor pôs em sua alma ultimamente tanta coragem para o sacrifício e resignação que não posso senão admirá-la. Bendito seja Nosso Senhor!
Estou feliz pois recebi resposta de meus antigos confessores, aos quais escrevi expondo as razões que tinha para ser carmelita, e em Los Andes. E os dois responderam-me dizendo que viam claro ser essa a minha vocação. E são de parecer que eu a realize o mais depressa possível.
Creio que só no céu poderá saber os inumeráveis benefícios que a cada instante Nosso Senhor concede a este nada miserável.
Se pudesse dar meu sangue gota a gota, não seria bastante para agradecer ao meu Divino Redentor. Abandono-me em seus divinos braços como um menino nos braços de sua mãe, a quem não tem como pagar. Não me preocupo por nada porque tenho a ele. É meu Tudo adorado (São Paulo, 20-2-1 919).

QUE AGONIA EXPERIMENTO!

Estamos em fevereiro. Só me faltam dois meses. Como descrever-te o sofrimento que, por instantes, vai se apoderando de meu coração ao sentir a próxima separação? Quando olho os meus, digo-me: falta-me tão pouco para deixá-los! E parece-me que a ternura por eles cresce mais ainda no fundo do meu coração.
Que agonia experimento por um lado, e por outro quanto desejo tenho que chegue esse dia em que já não terei senão a Deus! Então descansarei. Creio que vou morrer de felicidade quando trocar, enfim, tudo o que tenho por Nosso Senhor. Não tenho outro apoio, outra luz, outro viver senão ele. Não podes imaginar o que experimento quando vejo que logo nada nos separará, que de ninguém terei que me ocultar para amá-lo e estar com ele. Logo deixarei o mundo para voar ao céu. O Carmelo para mim é um céu (sem data).
27 de fevereiro. Sofro ao ver que Nosso Senhor, para atrair-me, dá-me consolações. Quão miserável me encontra. E sofro também por ver que não faço nada por Deus. Quisera martirizar minha carne para demonstrar meu amor. Minha resolução foi renunciar a toda comodidade, a meus gostos e à minha própria vontade.

17 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

EM TODA PARTE VIVO FELIZ

Ontem cheguei à fazenda. A única coisa que me faz sofrer é que minha mamãezinha não veio, pois J. L. Dominguez está muito mal. Pobre menino! Se Deus o leva, vai descansar de sofrer, pois toda a sua vida foi um sofrimento continuo. Feliz ele que soube suportar com uma paciência admirável! Creio que irá direto para o céu.
Depois que chegamos, fomos andando até o rio Maule, que apresenta um espetáculo encantador e está muito perto das casas.
Tudo aqui é pitoresco. Há paisagens ideais.
Em Santiago vivi regiamente. Fomos à fazenda das Salas-González, onde nos divertimos. Dou graças a Deus por viver tão bem em toda parte, pois onde me levam fico feliz. O que não acontece com todas as meninas que em toda parte se aborrecem.
Gozei com as proezas do Jaime. Que menino de sorte! Porém estou sentida com ele porque não foi capaz de ir em casa nem por um segundo (São Paulo, 15-1-1919).

ORAÇÃO CONTÍNUA

Rogo-lhe que quando me escrever não ponha o Del Solar porque o "Del" chama a atenção deles. Nosso sobrenome é assim, mas nunca o escrevemos desse modo.
Aqui não tenho missa. Já faz 15 dias que não comungo.
Imagine a fome que tenho; porém, abandono-me à vontade de meu Deus. É esse o alimento de minha alma, por enquanto.
Muitas vezes não posso nem fazer oração. Nisto consiste meu maior sofrimento pois me comunico constantemente com todos e não me deixam um momento. Porém minha vida, posso dizer, é uma oração continuada, pois tudo que faço é por amor ao meu Jesus; e noto que, desde que estive aí, estou muito mais recolhida.
Não sei como agradecer-lhe o nome que me deu. Sou demasiado indigna de chamar-me como minha Madre; muito pequena para um nome tão grande: Teresa de Jesus, carmelita. Que desejo tenho de o ser logo! (São Paulo, 22-1-1919).

NECESSIDADE PREMENTE DE ORAR

Minha alma sente cada dia mais a necessidade mais premente de orar, de unir-se a Deus, de tal maneira que agora fico constantemente em oração. Adoro no fundo de minha alma ao meu Jesus, e tudo que faço é com ele e por seu amor.
Minha oração consiste quase sempre numa íntima conversação com Nosso Senhor. Imagino que estou como Madalena a seus pés escutando-o. Ele me diz o que devo fazer para lhe ser mais agradável.
Às vezes diz-me coisas que eu não sei. Outras vezes diz-me coisas que não aconteceram e depois sucedem; porém isto é muito raro. Disse-me que serei carmelita e irei em maio de 1919.
Outras vezes fico num recolhimento profundo, como se estivesse abismada em Deus, completamente absorta, contemplando as perfeições infínitas de Deus. A noite, como às vezes não fazia oração de dia por estar ocupada, recolhia-me e ficava em oração um quarto de hora. Uma noite, Nosso Senhor deu-me a entender sua grandeza e, ao mesmo tempo, o meu nada. Desde então principiei a ter desejos de morrer, ser reduzida a nada para não ofender a Deus e não continuar sendo-lhe infiel. As vezes desejo sofrer as penas do inferno, contanto que assim eu lhe mostre o meu amor e corresponda de algum modo aos seus favores. Isto eu sinto quando tenho favor e sofro com isto.
Outro dia principiei a sentir tanto amor de Deus que, embora fazendo outras coisas, tinha o pensamento preso nele. E era tanta a força do amor que me sentia desfalecida, sem forças. Algo como se eu não estivesse em mim (São Paulo, 23-1 e 3-2-1919).

16 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

ALI VIVE DEUS

Como é verdade que junto às rosas estão os espinhos. A lembrança do dia de ontem traz-me felicidade, porém ao mesmo tempo muito sofrimento, muita nostalgia. Se antes me considerava desterrada, agora o sou duplamente. Contudo não desejo ir-me hoje porque Nosso Senhor quer que eu vá em maio.
Como poderei expressar a gratidão que sinto pela senhora, Madre, e minhas irmãzinhas? Só ver o meu conventinho inundou de gozo a minha alma. Sua pobreza me atraiu. Suas palavras, seus conselhos, ver minhas irmãzinhas fizeram-me compreender duas coisas: 1º que ali vive Deus intimamente unido a cada alma, pois imediatamente cessaram minhas dúvidas, terminou minha luta e minha alma submergiu em grande paz; 2º que nesta vida, apesar de se sofrer, tudo é alegria e felicidade para a alma que se deu
a Deus. Bem o demonstraram as minhas irmãzinhas.
Rezem por mim para que cumpra a cada instante a vontade adorável de Deus, com essa alegria com que elas a cumprem (Santiago, 12-1-1919).

NASCI CARMELITA

Cumpriram-se por fim os desejos que abrigava havia quatro anos.
Conheci meu querido "pombalzinho". Que impressão causou em mim a vista do meu conventinho! Tem um aspecto muito pobre.
Não parece convento, mas uma casa antiga, porém sua pobreza fala muito bem em seu fervor. Apenas o vi encantou-me e me seduziu.
Falei com madre Angélica. Disse-me que achava as minhas dúvidas infundadas. Que desde minha primeira carta tinha visto que eu já nasci carmelita.
A carmelita tem sua cela separada. É aí que penetra como em um templo para sacrificar-se. Nela há uma grande cruz de madeira sem Cristo. É essa a cruz onde ela deve morrer. Nesse templo só ela entra. Está reservado só para Deus e a alma. Ali vive num completo isolamento das criaturas e ocupada só em Deus.
São encantadoras: tão alegres, tão sem etiquetas. Eu, no princípio, estava numa emoção intensa e um pouco envergonhada, porém depois, nada. Era uma tagarela. Brincamos como se nos tivéssemos conhecido sempre e uma simplicidade, uma confiança e intimidade. Entre elas mexiam comigo, riam. E isto desde a postulante até a madre Angélica. Cantou uma bem desafinada para rir e todas caçoavam dela. Acharam-me muito alta. Havia só duas da minha altura (Santiago, janeiro de 1919).

CONSIDERAM SUA VIDA INÚTIL

O fim da carmelita me entusiasma: rogar pelos pecadores; passar a vida inteira sacrificando-se, sem ver jamais os frutos da oração e do sacrifício; Unir-se a Deus para que assim circule nela o sangue redentor, e comunicá-lo à Igreja, a seus membros, para que assim se santifiquem. Seu lema me entusiasma: "Sofrer e amar" (Santiago, janeiro de 19 19).
Seu sacrifício é perpétuo, sem mitigação, desde que nasce para a vida religiosa até que morre como vítima, a exemplo de Jesus Cristo. E tudo em silêncio, sem que ninguém o saiba. Quantos há que consideram sua vida inútil. Entretanto, ela é como o Cordeiro de Deus que leva os pecados do mundo. Sacrifica-se para que voltem ao redil as ovelhas extraviadas. Porém, assim como a Cristo não o conheceu o mundo, a ela tampouco ele conhece. Esta abnegação completa me encanta. Não há lugar para o amor-próprio.
Não vê nem sequer o fruto de sua oração. Só no céu o saberá.
O fim a que se propõem é muito grande: rogar e santificar-se pelos pecadores e sacerdotes. Santificar-se a si mesma para que a seiva divina se comunique, pela união que existe entre os fiéis, a todos os membros da Igreja. Ela se imola sobre a cruz, e seu sangue cai sobre os pecadores pedindo misericórdia e arrependimento.
Cai sobre os sacerdotes santificando-os, já que na cruz está com Jesus, intimamente unida. Seu sangue está, pois, misturado com o divino.
A carmelita não pode possuir nada, o que faz que toda a capacidade de possuir seja preenchida só por Deus. Sendo pobre, assemelha-se mais ainda a seu Esposo divino que não teve onde reclinar a sua cabeça. A carmelita só deve possuir a Deus (São Paulo, 3-2-1919).

15 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

1919

Até sua entrada no Carmelo - 7 de maio -, Juanita experimenta em seu espírito as emoções mais desencontradas, os contrastes mais fortes. Goza e sofre ao mesmo tempo com uma intensidade indescritível. Paradoxo que só quem está perdidamente enamorado pode entender. "Estou - escreve - no cúmulo da felicidade e da dor."
Alegria, felicidade, porque já vê próxima a realização de seu ideal longamente acariciado: ser carmelita. Entregar-se a Jesus sem reservas. Ser sua prisioneira. Viver imolando-se em silêncio pela Igreja, deixando-se invadir pelo amor até fundir-se, até transformar-se em Jesus.
Dor e tortura, porque tal transformação exige semelhança que não se consegue sem passar pelo crisol do sofrimento. Já vimos - em 1918 - que seu sonho sensível pelo Carmelo desapareceu, convertendo-se em motivo de dúvida e de tormento. Com a visita ao convento de Los Andes - 11 de janeiro - ilumina-se o horizonte. Vê claro que Deus a quer ali e renasce a calma em seu espírito. A mais intensa felicidade a invade. Porém começa o martírio de seu coração sensível.
Sofrimento horrível, dor imensa, martírio, luta contra a sua própria natureza, agonia, são palavras de Juanita que refletem o que significou para ela ser fiel à sua vocação. Ao pedir a permissão paterna, ao não ver senão lágrimas nos olhos de seu familiares, sente-se aniquilada, despedaçada de dor; a luta interior mais horrível se apodera dela. Porém o Senhor comunica-lhe uma energia e uma coragem indescritível para avançar com serenidade até o cume de seu Calvário: a separação dos seres que idolatra. Dá o passo definitivo e, como prêmio de sua generosidade, experimenta que, ao arrancar-se dos braços de sua mãe, Jesus lhe abre os seus, confortando-a e mimando-a.

PRESENTE DE NATAL, A CRUZ

A mim, como presente de Natal, trouxe-me sua cruz. Não imagina, minha queridíssima Madre, quanto sofri. Duvidar que Deus me queria para carmelita é o que constitui meu sofrimento. Toda a minha vida o desejei; porém agora hesito entre o Carmelo e o Sagrado Coração.
Reze muito para que, se for vontade de Deus, possa ter um motivo para ir até esse "pombalzinho". Creio que esta visita e falar com a Sra. servirão para convencer-me de que ali devo santificar-me.
Esta noite pensei que seria o último primeiro do ano que passaria entre os meus. Espero para o outro ano ser já toda dele.
Apesar de sentir felicidade em entregar-me ao meu Jesus, sentia uma mágoa imensa e teria chorado muito se não me sustentasse o pensamento que é necessário ter coração de homem e não de mulher já que ao Senhor agradam-lhe os espíritos fortes.
Esperamos dar meia-noite e saímos a andar. Ao passar pela alameda, sofri verdadeiramente ao ver essa multidão de gente entregue aos prazeres, sem pensar que esse ano que acabava era um a menos de vida, e eles alegravam-se inconscientes em meio ao pecado.
Ai! quanto se esquece de Deus e se o ofende! (10-1-1919).

A IDA A LOS ANDES

11 de janeiro de 1919. Não tenho palavras para expressar o agradecimento a meu Jesus. É demasiado bom. A ida a Los Andes que me parecia impossível, eu a tinha confiado a Nosso Senhor.
Se ele quisesse, bom; e se não, também bom. Cada dia cresciam mais minhas dúvidas. Estava numa perturbação tão grande que já não sabia o que se passava em mim, quando eis que todos os meninos foram ao campo com papai, arranjando-se tudo para eu poder ir com mamãe.
Fomos no expresso da manhã, e não pudemos voltar senão no da noite. Deus o permitiu para que eu ficasse mais tempo no meu conventinho. Quando chegamos lá, encontrei-me com uma casa pobre e velha. Sua pobreza falou-me ao coração. Senti-me atraída por ela.

* Juanita diz "Páscoa" c:omo é costume em seu país.

Fui ao locutório. Sentia-me numa felicidade e numa paz tão grandes que me é impossível explicar. Via claramente que Deus me queria ali e sentia-me com força para vencer todos os obstáculos para poder ser carmelita e encerrar-me ali para sempre. Falei com madre Angélica até às quatro e meia. Todas foram saudar-me com tanto carinho que me confundia. Elas demonstravam alegria e, ao mesmo tempo, uma familiaridade entre elas que me encantou.
Despedi-me com pena, ao mesmo tempo que levava minha alma cheia de felicidade. Deus havia trocado a tempestade em bonança; a perturbação em santa paz. Chegamos às onze e meia.
Só Rebeca nos esperava. Ninguém havia suspeitado. Como Deus, em sua bondade, arruma tudo para mim, sem eu fazer nada.

14 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

CARMELITA OU DO SAGRADO CORAÇÃO?

Estou num período de dúvidas atrozes, não sei decidir-me entre ser carmelita ou do Sagrado Coração. Por isso venho em busca de luz. Padre, o senhor que me conhece muito bem, pois tenho deixado que leia tudo em minha alma, me poderá aconselhar. Só desejo fazer a vontade de Deus.
Por um lado, sinto-me atraída para o Carmelo para viver completamente uma vida de oração e de união com Deus, separada por completo do mundo. Também me atrai por sua austeridade e por seu fim que é rogar pelos pecadores e sacerdotes. E o que me encanta é que a carmelita se sacrifica em silêncio, sem que veja os frutos de sua oração e sacrifício. Além disso, a vida de família e de simplicidade e alegria que deve reinar sempre em seu coração me agrada muito e combina com meu caráter.
Por outro lado, gostaria de ser do Sagrado Coração, porque é uma vida de perpétuo sacrifício. É também vida de oração. Se têm de tratar com pessoas do mundo, devem esforçar-se por ter o verdadeiro espírito religioso e para isto necessita-se de oração e de união com Deus. Devem sacrificar-se constantemente vivendo na maior pobreza. Sem ter nem sequer uma pobre cela, pois dormem quatro em cada dormitório. A qualquer parte do mundo as podem enviar, encontrando-se mais sós que uma carmelita, num país estrangeiro, sem ver nenhum rosto conhecido, e muitas vezes sem conhecer a língua que se fala.
O que eu desejo saber é onde me santificarei mais depressa; pois, como lhe manifestei várias vezes, Nosso Senhor deu-me a entender que viverei muito pouco (Santiago, 13-12-19 18).

13 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

EM VEZ DE CANTO, GARGALHADAS

Não imaginas o quanto eu me divirto com a Hermínia. Passamos com ataque de riso continuamente. Ganhei fama com minhas tentações de riso (ganhei-a da Chopi Salas). Não fazemos outra coisa senão brincar. Prepara-te. Na mesa nós somos as últimas com Pepe. Era tanto o que brincávamos e ríamos que, às vezes, não podia comer. Porém o mais trágico é que o Padre que rezava depois da refeição, no meio da oração, não podia continuá-la: ria, pois nós o contagiávamos.
Hermínia vem despertar-me de manhã com água e cadeira, mantas e tudo o que encontra na sua passagem, e joga tudo em cima da minha cama. Assim é que desconto tudo durante o dia e de noite não a deixo dormir. Deve-se notar que ela sente sono muito cedo (A Rebeca, escreve de Cunaco, 20-1 1-1918).
Todas as tardes rezamos o mês de Maria. A Eli reza o mês e eu o Rosário e toco o harmônio. Ontem estávamos cantando uma ave-maria e a Hermínia nos levou a uma tentação de riso. Em vez de canto saíam gargalhadas. Não pudemos continuar (Cunaco, 14-11-1918).

EM JESUS OS ENCONTRO

Dou graças a Deus por ter passado tão bem na fazenda de Eli 26 dias. Apesar de sofrer muito a falta dos meus, foi bom para ir me acostumando para depois. Quando o amor de Deus se apodera do coração, faz com que o amor humano, aquele que sentimos até por nossos pais, se transforme-se divinize por assim dizer.
Creio que antes não teria podido separar-me dos meus nem por um dia. Enquanto que hoje, ainda que os ame mil vezes mais, estando com ele sinto-me satisfeita, nele encontro os que amo.
Antes, me perguntava como as monjas podiam amar tanto a Nosso Senhor e ser tão felizes, quando não recebiam nenhum sinal de carinho exteriormente, mas hoje o compreendo admiravelmente.
Deus demonstra seu amor muito mais que todas as criaturas. Cada instante recebe-se sinais de seu amor infinito. Há fusão de nossas almas pequeníssimas com um Deus infinito (Santiago, 22-11-1918).

TRATO DE VENCER MEU GÊNIO

Estive quase um mês na fazenda de Elisita Valdés, pois de­ram missões. Assim tive a felicidade de trabalhar um pouco por Nosso Senhor e de ficar muito perto do Tabernáculo. Poucos dias depois de regressar fiquei doente com gripe. O doutor pensou que fosse difteria, porém, graças a Deus, com remédios enérgicos melhorei.
Na oração tenho mais fervor, de modo que às vezes passo 20 minutos completamente absorvida em Nosso Senhor. Parece que o apalpo e o estreito junto ao meu coração. Tão perto o sinto que, às vezes, estando com os olhos fechados, parece-me que se os abrir o verei.
Não pensava que a vida no lar fosse uma vida de sacrifícios.
Serviu-me de preparação para minha vida religiosa. Quero que ninguém suspeite que certas coisas são para mim ocasião de sacrifício, mostrando muito boa vontade para tudo.
E todos creem ter o direito de exigir de mim o que lhes agrada.
Penso estar um pouco mais humilde, ainda que não de todo.
Procuro vencer meu gênio, mas às vezes não consigo. Contudo, penso estar um pouco menos colérica. Neste tempo de Advento faço mais mortificações. Tenho um regulamento que procuro seguir o melhor possível.
Logos iremos ao campo e a única coisa que sinto é que não poderei comungar. E sou muito má sem a comunhão. Porém a vontade de Deus é um alimento espiritual que fortifica a alma que se entrega a ele por amor (Santiago, 13-12-1918).

12 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

AMOR SEM CARÍCIAS?

O amor é a fusão de duas almas em uma para se aperfeiçoarem mutuamente. Poderá uma alma unir-se à outra mais perfeitamente do que Deus se une com a nossa? A alma unida a Deus se diviniza de tal maneira que chega a pensar, a desejar e a agir conforme Jesus Cristo. Há algo maior no mundo do que Deus?
Há algo maior que uma alma divinizada? Não é esta a maior grandeza à qual pode aspirar o homem?
E verdade que não o vemos com nossos olhos do corpo. Mas Deus torna-se visível para nós pela fé. Não o apalpamos com nossas mãos, mas o apalpamos em cada uma de suas obras.
Antes, eu achava impossível chegar a enamorar-me de um Deus a quem não via, a quem não podia acariciar. Mas hoje afirmo com o coração nas mãos que Deus compensa inteiramente esse sacrifício. De tal maneira a pessoa sente esse amor, essas carícias de Nosso Senhor que parece tê-lo ao seu lado. Tão intimamente o sinto unido a mim que não posso desejar mais, salvo a visão beatífica no céu.
Sinto-me cheia dele. Não há separação entre nós. Onde eu for, ele está comigo, dentro de meu pobre coração que é sua casinha, onde o hospedo. É meu céu aqui na terra. Vivo com ele apesar de estar nos passeios, ambos conversamos sem que ninguém nos surpreenda nem nos possa interromper. Se tu o conhecesses bastante, o amarias. Se estivesses com ele numa hora em oração, po­derias saber o que é o céu na terra (carta sem data) .

SINTO FALTA DE SEUS BEIJOS

Minha querida mãezinha, apesar do esquecimento em que me tem, eu não a esqueço um instante. Pelo contrário, fico pensando que deve ter uma grande preocupação, já que, tendo escrito três cartas, não recebi nenhuma resposta sua. Todas as vezes que pedi ligação para aí, a linha estava ruim, pois é constantemente assim.
Não imagina como são carinhosos aqui. Apesar disso sinto falta dos beijos de meu paizinho e dos seus e dos carinhos de meus irmãos (Cunaco, 14-1 1-1918).
Não serias tão severa em julgar-me se me ouvisses dizer a cada instante: o que será da pobre Rebeca? Não sabes, minha pe­quenina, quanto me lembro de ti e o desejo que tenho de ver-te.
As missões tiveram um esplêndido resultado (Cunaco, 8-11- 1918).
Estou muito andarilha. Com a Hermínia saímos para fazer longas excursões a pé, as duas sozinhas. Às vezes chegamos cheias de barro até os tornozelos, pois caminhamos por toda parte. Nada nos detém. Vencemos todos os obstáculos. Outro dia, exultei num passeio à cavalo; galopamos com a Gordita das 14 às 16h30min.
Não imaginas os muitos desejos que tenho de estar com minha querida irmãzinha. Tenho passado regiamente e aqui ficaria todo o mês se pudesse ter todos os meus aqui. Recebe um beijo e abraço terníssimo de tua irmã (Cunaco, 20-1 1-1918).

11 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

SOFRIMENTOS DA ALMA

Vivamos na cruz. A cruz é a abnegação de nossa vontade. Na cruz está o céu porque ali está Jesus.
14-15 de outubro. Sofrer. Esta palavra é o grito de meu co­ração. Porém agora sofro como nunca. São sofrimentos da alma.
É preciso morrer a si mesma para viver escondida em Cristo. Não tenho gosto nem pela oração, nem pela comunhão. E contudo são uns desejos loucos os que sinto em minha alma de unir-me a ele.
Não ouço sua voz. Nada. Trevas. Não posso nem meditar, nem fazer nada.
Nosso Senhor pediu-me que me oferecesse como vítima para expiar os abandonos e ingratidões que sofre no sacrário. Disse-me que me faria sofrer desprezos, ingratidões, securas; enfim ele quer que eu sofra. Só esse é o meu desejo. Quero sofrer. E mesmo quando sofro, tenho ânsias de sofrer mais para unir-me a Nosso Senhor.
Escrevi ao Carmelo. Quanto pedi a Sta. Teresa me faça celebrar sua festa do próximo ano no Carmelo!

RESOLUÇÃO: SACRIFICAR-ME POR TODOS

Dou graças a Deus porque é sinal que me ama quando deseja que eu tenha vida de abnegação. Basta que tenha um desejo, um plano, para que tudo saia ao contrário. Às vezes sinto-me desalentada.
Quisera chorar e fazer minha vontade; porém, digo a mim mesma: é este o papel que deve fazer uma carmelita? Não. Adiante.
E preciso o sacrifício, a renúncia à própria vontade para chegar à união completa com Nosso Senhor.
Minha resolução de retiro foi sacrificar-me por todos. Quanto custa, às vezes, este sacrifício continuado! Reze muito, Madre, para que eu seja muito fiel a Nosso Senhor. Caio muitas vezes, porém Nosso Senhor me dá a mão para levantar-me e me auxilia com sua graça nas lutas que sustento.
Já é quase certo que irei ao campo com Elisita para dar mis­sões em sua fazenda. Nós iremos dia 28 deste mês. Encanta-me.
Seguiremos, enquanto for possível, o regulamento de uma carmelita.
Creio que começam a perceber que tenho vocação, pois querem que eu saia mais. Tenho de dissimular melhor, pois quando souberem farão uma grande campanha contra (Santiago, 15-10-1918).

SINTO MAIS QUE NUNCA O SEU CARINHO

Para evitar o trauma que poderia causar a Rebeca uma separação, apela para a bondade de uma amiga (Carta sem data).
Asseguro-te que parte minha alma vê-la sofrer tanto. E sou eu a causa de seus sofrimentos. A ideia da separação preocupa-a demasiado, pois ela sabe tudo.
Não podes imaginar o que sinto neste instante. Rebeca pediu-me, por favor, que te conte tudo para que ela possa conversar contigo sobre os seus projetos para o próximo ano, os quais estão ligados à minha pobre pessoa. Enfim, como esta separação é sua constante preocupação, quer ter uma confidente que saiba o meu segredo. E tu serás este anjo de consolação.
Neste instante sinto maior do que nunca o seu carinho. Quando se deixa aquilo que se ama, parece que o coração sente-se mais apegado. Porém meu ideal é grande e vou cumpri-lo de toda maneira. Assim é a vida. É uma contínua tempestade que nos põe a cada instante em perigo de soçobrar. Como custa chegar ao porto!

10 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

ASSISTI AO TEATRO

Nosso Senhor me livra dos passeios e festas milagrosamente . . . Assisti ao teatro. Fomos com mamãe à ópera. Era a primeira vez que eu ia. Que impressão causou-me! Que grande indecência! Como sofri ao ver que essas mulheres são tão sem pudor! Como se ofende a Deus ali! Minha alma permaneceu unida a ele.
De outras vezes assisti peças boas. Não sabia como agradecer ao meu Jesus.
Fui duas vezes ao teatro com D. Júlia Freire. Vi AÍDA, porém não me agradou tanto quanto "Lúcia de Lamermour", peça que foi apresentada por Maria Barrientos, uma das melhores atrizes do mundo. Tem voz maravilhosa: É verdadeiramente um rouxinol. Lembrava-me de você, paizinho, que gosta tanto de música e ficava encantado quando ia ao teatro (Santiago, 18-9-19 18) .
Quantas tentações tive para não flertar! Não posso negá-lo: encanta-me flertar por diversão. Porém, vejo que não o posso fazer, pois seria uma ingratidão para com o meu Jesus.

HÁ UMA VAGUINHA?

Madre, agora vou suplicar-lhe que me admita nesse "pombalzinho". Sei que sou muito indigna deste favor tão grande. Creia-me que trabalharei toda a minha vida para ser uma grande santa. Sta. Teresa diz que não é orgulho ter grandes desejos; antes, ao contrário, isto levanta a alma para coisas mais elevadas.
Sei que sou muito imperfeita, porém espero, com o auxílio de Nosso Senhor e da Santíssima Virgem, honrar o hábito de carmelita. Entretanto esperei, preparo-me o melhor que posso. Assim é que peço, por favor, diga-me se há uma vaguinha.
Mantenho-me o mais possível unida a Nosso Senhor dentro da casinha de minha alma. Essa é minha celinha, por enquanto. Quer caminhe pelas ruas ou vá ao teatro ou passeios, digo a Nosso Senhor: "Jesus meu, aqui talvez ninguém pense em ti. Porém aqui tens um coração que te pertence inteiramente" (Santiago, 1 7-9-1918) .

A MAIS FELIZ NOTÍCIA

Não imagina quanto bem me proporciona com suas cartas e a alegria com que as recebo, sobretudo esta última na qual me diz que há vaga nesse "pombalzinho" tão querido. Quanto agradeci ao meu Senhor do fundo de minha alma, quando lia essas linhas que me traziam a mais feliz notícia!
Acredite que me sinto desterrada aqui no mundo, em meio a tantos perigos, e tenho ânsias de ver-me já nesse conventinho, prisioneira para sempre de Nosso Senhor. Ainda que seja o último lugar, e ainda que tenha de servir a todas as minhas irmãs, eu o prefiro a viver com as comodidades do mundo, pois creio que ali hei de encontrar a felicidade mais completa desta vida.
Pergunto-me por que o Senhor me protege e me guarda para si, quando sou tão miserável. E nele mesmo encontro a resposta: tem um coração de Deus, cheio portanto de amor infinito, e esse fogo de amor abrasa quanto encontra à sua passagem, contanto que nos deixemos consumir (Santiago, 1 8-9-19 18).

9 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

ADEUS AO COLÉGIO

Saí do colégio. Quão diversas impressões de pesar senti por deixar meu querido colégio, minhas madres e companheiras, às quais sou tão reconhecida! Que boas são para mim, que carinho me demonstraram sendo eu tão indigna! Fiz meu sacrifício sem chorar. Verdadeiramente sentia em mim uma força superior às minhas. Era Jesus quem me fazia ter coragem nesse instante. Sentia que meu coração se estraçalhava ao dizer adeus à minha vida de co­legial. Contudo, não chorei, pois assim havia prometido a Nosso Senhor para preparar-me para o grande sacrifício que devo realizar dentro de meses.
Por outro lado, sentia o atrativo do lar, da vida de família que abandonei quando era tão criança; de voltar a viver com os meus para fazer o bem, para sacrificar-me por cada um a todo instante.
Também deixava Rebeca. Era a primeira vez que íamos nos separar. Era o prelúdio de nossa separação aqui na terra. Mas, nisto veja a mão carinhosa de meu bom Jesus, que assim prepara nossos corações para fazer o sacrifício.

PENSO CUIDAR DA CASA

Ontem saí para sempre do colégio. Desde agora, paizinho, co­meça para mim uma vida nova. Assim é que eu quero que você conte comigo para tudo. Não tenho outro desejo senão o de dar-lhe gosto em tudo; acompanhá-lo e consolá-lo, pois sei que, na vida de trabalho que você suporta por nós, encontra muito amiúde so­frimentos que, ainda que procure ocultar por seu grande carinho por nós, é impossível não compreendê-lo.
Lúcia casou-se e agora só pertence a Chiro. Eu tratarei de substituí-la, não só junto de você com o meu carinho, como também junto de minha mãe e irmãos, ajudando-os e sacrificando-me para dar-lhes satisfação. Penso cuidar da casa, procurando fazê-lo o melhor possível, já que considero que esse é o papel da mulher e não há nada mais bonito do que ver uma jovem preocupada com as coisas do lar, trabalhadora, não tendo outro pensamento que o de agradar a quantos a rodeiam.
Preparo-me para trabalhar muito nas missões. Temos muitos planos combinados com a Rebeca para esse trabalho missionário. Considere-me como filha a quem você pode confiar seus sofrimentos (Santiago, 13-8-1918).

MAIS AINDA DO QUE NO COLÉGIO

Saí faz 14 dias e esta vida que, vista do colégio, parecia-me um mistério desliza, graças a Deus, tranquilamente. Hoje, vejo que a vida em Deus pode continuar mais ainda do que no colégio. Quantos sacrifícios desconhecidos de todos!" Além disso, minha vida é de mais oração. Fico muitas vezes só em meu quarto com Deus. O estudo ocupava mais o meu pensamento. Agora só devo pensar nele. Todos os dias vou comungar.
Apenas saí do colégio, Nosso Senhor me deu uma amiga verdadeira. Temos os mesmos ideais, os mesmos sentimentos e gostos e até o mesmo caráter. Tudo é uno entre nós. Nós nos comunicamos nossos mais íntimos pensamentos, nos animamos e esforçamos por ser cada dia mais de Deus.

8 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

SERIA UM MONSTRO

15-16 de julho. Jesus me pediu que não chore por minha saída do colégio. Eu lhe disse que assim as monjas me considerariam ingrata. Porém, ele fez-me ver quão apegada estava ao que as criaturas diziam. Que rezando por elas seria agradecida. Vou oferecer o sacrifício por meu pai e irmãos.
Minha Mãe, eu te prometo cumprir o regulamento perfeitamente para que ele se converta. Ofereço-te o sacrifício de sair do colégio sem derramar nem uma lágrima. Também principio a não comer doce de nenhuma espécie até que saia.
Outro dia recebi um assinalado favor de Nosso Senhor. Não sei por que duvidei que era Cristo quem falava dentro de minha alma. Então disse: Se Tu, Senhor, és aquele que me fala, faze que tal madre me pergunte: "Você ama a Cristo?" Qual não seria minha emoção quando ouço a madre a quem eu disse: "Faça-me uma pergunta qualquer", perguntar-me: "Você ama a Cristo?" Retirei-me a um quarto e chorei de agradecimento a Nosso Senhor (Santiago, 22-8-1918). Segundo o DIÁRIO, este episódio ocorreu no dia 16 de julho. Sua resposta foi: "SERIA UM MONSTRO SE NÃO O AMASSE".

MARTÍRIO NO DENTISTA

Sua carta encheu de paz minha alma, dissipando as dúvidas acerca de minha vocação. Sim, eu creio que minha vocação é para carmelita e só penso em adquirir o espírito de Sta. Teresa.
Pergunta-me se quererei sofrer por Nosso Senhor toda classe de sofrimentos. Creia-me, Padre, que não só quero, mas que desejo. Casualmente, agora estou sofrendo muito, pois ontem procuraram arrancar-me um dente e o dentista trabalhou três quartos de hora sem consegui-lo. Apesar de ele ter-me aplicado anestesia, senti a dor mais horrível. Porém a ofereci a Nosso Senhor pelos pecadores e sacerdotes. Por um momento, quase cheguei a perder a cabeça de tanta dor. Vim para casa. Apesar de sofrer muito, eu o escondo. Amanhã terei de ir extrair esse dente. Estremeço só de pensar, e apesar de quererem me dar clorofórmio , não quero. Reze para que Nosso Senhor me ajude (Santiago, 1 .0-8-1 918). Sofri todo o dia e aparentei como se não doesse. Jesus, quero so­frer tudo por meus pecados e por eles.

EU IA FICAR COM ELE

Faltam só quinze dias para eu sair do colégio, e apesar de sentir muito, quero cumprir a vontade de Deus com alegria. Penso, durante as férias, pedir permissão para ser carmelita. Penso, em minha casa, viver uma vida de oração.
31 de julho. Tiraram meu dente com clorofórmio. Sofri com o dente, tanto que não é possível dizer. Passei duas noites sem dormir, e ontem gritava de dor. Porém, à noite, propus-me não chorar para oferecer a Deus e aguentei a dor toda a noite sem queixar-me.
7 de agosto. Entro em retiro. Eis o que mais me comoveu: teu amor, Jesus, por uma criatura tão ingrata.
Passei dias de céu. Em cada passeio ia ficar com ele na capelinha, bem junto dele. Falamos tanto . . .
Terei caráter. Jamais me deixarei levar pelo sentimento e pelo coração, mas pela razão e por minha consciência. Cumprirei a vontade de Deus com alegria, tanto nos sofrimentos como nas ale­grias, sem demonstrar jamais em meu rosto o que se passa no coração.

7 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

O ÚNICO CAPAZ DE ENAMORAR-ME

26 de maio. Confessei-me. Gozei da paz que havia três meses não encontrava. Pregaram maravilhosamente sobre a educação que consiste no domínio das faculdades por Deus. A educação da mulher é mais importante que a do homem, pois ela o formará.
7 de junho. Hoje faz um ano que recebi a medalha de Filha de Maria. Oh! que graças concedeu-me minha Mãe! Penso como não me tomei louca de amor por Jesus. Quão pouco o amo em comparação do que ele me ama. Como não fico louca por ele?
8 de junho. Madre Esquerdo está aborrecida comigo. Já não é a mesma de antes para comigo. Eu lhe conservo o mesmo carinho e confiança. Isto me magoa. Por que, Jesus meu, colocas este gelo em redor do meu pobre coração? Ah! é porque me amas. Queres cercar-me só do teu amor, para que não me apegue a ne­nhuma criatura; pois se as almas regaladas, escolhidas, santas, esquecem e são indiferentes, como serão as outras pessoas? Só tu, Jesus, és o único capaz de enamorar-me.

TREVAS EM MINHA ALMA

Penso fazer um regulamento. Levantarei cedo para fazer uma hora de oração. Essa hora para mim é, às vezes, um céu; porém, outras vezes, há tantas trevas em minha alma, que não descubro nela o meu Jesus. Todo este ano, com exceção de alguns dias, minha oração e comunhão foram assim.
Nosso Senhor quis provar-me durante o transcurso deste ano. Sofri bastante sem ter a quem recorrer. Tive muitas dúvidas a respeito de minha vocação de carmelita. Dúvidas também a respeito da fé, de tal maneira que às vezes me perguntava se existia Deus, pois sentia-me completamente abandonada por ele. Olhava meu crucifixo e tudo me parecia uma quimera. Chorava e implorava o auxílio da Virgem e ela também não me socorria. Até que Nosso Senhor se compadeceu e deixou ouvir sua voz interiormente, e imediatamente cessou tudo e fiquei inundada de paz. Eu quero sofrer essas securas para que outras almas sintam o atrativo pela comunhão e a oração. Além disso, mereço tudo isto, pois sou tão ingrata com Nosso Senhor.
Meu estado habitual é de uma secura espantosa. Na comunhão não sinto o menor fervor sensível. Entretanto, mesmo não sentindo esse atrativo, não deixei de comungar (Santiago, 18 e 25-6-1918).

CRIANÇA MIMADA POR JESUS E MARIA

Falta um mês para eu sair do colégio, pois como se casou minha irmã mais velha, vão tirar-me. Tenho pena de sair, pois gosto das madres e me encanta o estudo, e também me levarão a frequentar a sociedade.
Quero agora preparar-me para resistir aos enganos do mundo. Asseguro-lhe que temo, pois sinto-me muito débil de caráter. Enfim ponho-me nos braços da Santíssima Virgem e peço-lhe todos os dias que, se hei de ser infiel a Nosso Senhor, que ela me leve antes de sair do colégio. Se Jesus e minha Mãe me livraram de tantos perigos até agora, será que me abandonarão no momento mais terrível? Não. Amaram-me, protegeram-me como a criança mimada, toda a minha vida (Santiago, 18 e 25-6-1918).
Estou contente, feliz e muito agradecida a Nosso Senhor e à Virgem, porque todos comungaram este ano. Jesus meu, és o Jesus de Betânia.

6 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

DEUS QUER PROVAR-ME

Vejo que Deus quer provar-me porque a cada instante me envia sofrimentos. Compreendo que por eles me hei de assemelhar a Jesus Crucificado. E é este o meu único ideal. Quer de mim um abandono total em suas mãos divinas, e se constitui ele mesmo o meu diretor e meu Mestre. Manifesta-me sua vontade de um modo tão direto, que não posso duvidar que sejam esses os seus desígnios.
Se quero ser crucificada à sua semelhança, é necessário viver cada instante cumprindo perfeitamente sua divina vontade, ainda que ela me traga sacrifício e imolação.
Tenho sofrido tanta secura e abandono que já não é possível descrever. Sobretudo uma vez, passei como que uma hora e meia numa angústia tão terrível que me disse: se isto continua não po­derei fazer nada. Supliquei a Nosso Senhor que me tirasse dessa angústia, e então ele deixou-me ouvir sua voz, e imediatamente com sua palavra a tempestade se apaziguou, mas continuei ainda na secura. Porém, não estranho isto, fui eu que pedi a Cristo que me prive de todo consolo, para que outras almas que eu quero encontrem nos sacramentos e na oração paz e gozo (Santiago, 2-4-1918).

ABANDONO, ARIDEZ, AGONIA

10 a 16 de abril. Sofro de maneira horrível. Jesus me abandonou porque sou infiel. Já não ouve minhas orações e deixa-me sem sua graça para vencer-me, de modo que estou desesperada. Jesus meu, tem piedade de mim! Tu sabes que te amo. Minha Mãe, socorre-me nas trevas! Nada. Jesus não está em minha alma. A Virgem não me responde. Jesus, tem piedade de tua esposa infiel. Sim, te amo. Não me abandones. Oh! obrigada! Com tua palavra, Jesus, dissipas por completo a tempestade.
Estou num estado tão horrível, irritada, com desejos de portar-me mal, desesperada com as monjas, sem gosto na oração, sinto desespero . . . Choro porque não sei o que me acontece e não tenho quem me aconselhe, quem me ajude.
Abandono, secura, agonia. Estou que já não posso mais. Doem muito meu peito e as costas. Vejo tudo tão triste porque não po­derei ser carmelita sendo tão débil. Jesus me disse que sempre cumprisse sua vontade com alegria, apesar de sentir-me abatida. Que não olhasse o futuro para manter-me em paz.

DESEJAM LEVAR-ME A FESTAS

Cada dia que passa aumentam meus desejos de ser carmelita. Porém a realização de meus desejos, eu a vejo cada vez mais difícil. Já começo a sentir a oposição de minha família, pois desejam que eu saia do colégio para levar-me a festas. Essas festas mundanas que são laços para perder as almas.
Rogue por mim, para que saia vitoriosa da luta e da tempestade que se inicia. Que eu possa logo chegar ao porto do Carmelo onde espero encontrar o céu na terra, quer dizer, o céu no sofrimento e no amor. Às vezes sinto desejos de morrer antes que sucedam estas coisas; porém é covardia não querer o combate. Então peço a Cristo que me dê armas para vencer. Nosso Senhor me diz que me abandone a ele. Já que sempre me auxiliou e me fez vencer, por que desconfiar agora?
Mortificações, não fiz quase nenhuma porque não tinha permissão. Só mortifico a vontade. Porém, agora peço-lhe permissão para fazer algo mais. Todos os dias faço meditação. Na quaresma versou sobre a Paixão. Costumo seguir o Evangelho nessas meditações (Santiago, 12-4-1918).

5 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

ESTOU ME ABORRECENDO

Apesar de fazermos muitos passeios a pé, a cavalo, estou me aborrecendo, pois cansa-me esta vida tão agitada. Gosto de ter minhas horas livres e aqui não tenho um momento livre para escrever, para ler, que são minhas ocupações preferidas.
Tenho estado em turmas com meninos. E pelo que tenho visto e ouvido, formei uma ideia das festas sociais muito pouco favorável. Pergunto-me como podem chamar interessante uma coisa assim, onde não se ouvem senão tolices. Quando penso que talvez tenha de assistir a tais reuniões, sinto vontade de chorar e mais que nunca anelo pelo lugarzinho onde existe a verdadeira felicidade, pois ali possuirei a Deus, principiando assim a vida do céu.
Quando estou no meio das meninas, penso que tenho Jesus e apresento-lhe meu coração nesse lugar onde, em meio à alegria, ninguém o recorda.
Estou dando aulas de catecismo. Tenho 9 meninos e todos os dias rifo para eles qualquer brinquedinho, e isto os alegra (Algarrobo, 12-2-1919).

COM JESUS ATRAVESSAREI O FOGO

Minha vida é muito tranquila e a vivemos muito bem. Estamos apaixonados pelo tênis; é assim que estou aprendendo. Encanta-me.
Alegra-me que vão a Papudo tomar uns banhos de mar. Creio que será muito bom para todas, inclusive para ti. Quanto à minha saúde estou sempre com uma dor muito grande no peito. Um médico disse-me que me convinha um clima alto e que tudo provinha de minha anemia. Isto corta todos os meus planos. Porém, enfim que se faça a vontade de Deus (Algarrobo, 2 1-2-1918).
Se Jesus quiser que eu seja carmelita, me dará saúde para isto. Não ignoro que devo subir ao Calvário, é preciso aderir à cruz para chegar à união com Cristo. Ainda que tenha de atravessar o fogo, com Jesus a passarei, se tiver saúde para ir este ano. Estou lendo o Caminho de perfeição (Algarrobo, 22-2-19 1 8).

FÉRIAS BEM-EMPREGADAS

12 de março. Obrigada, minha Mãe, por haver-me livrado de todos os perigos e por haver-me feito empregar bem as férias. Obrigada!
A viagem foi divertidíssima. Gozamos, pois brincamos desde que saímos de Santo Antônio. E também nos lembramos de vocês, porém apenas para "depená-las" porque, já te disse, és um chumbo.
Entramos no Colégio dia 12 com um sofrimento negro. Creio que no pranto de nossos olhos se teria podido formar um mar tão grande como o de Algarrobo. Tu podes supor como choramos. Deixo isto à tua vivíssima imaginação. Não sairemos até abril (Santiago, 14-3-1918).

4 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

RAIAS, MONTANHAS, QUEBRADAS

Vivemos na praia ou em caminhadas. Fizemos vários passeios a cavalo e a pé. Ontem fizemos um muito bonito e muito à vontade, pois todas éramos meninas. Fomos em onze tomar lanche numa quebrada denominada Las Petras. É um imenso bosque onde não penetra um só raio de sol e onde se encontra a vegetação mais fina e preciosa. Tomamos ótimo lanche e depois uma menina cantou. Em seguida nos pusemos no jogo de prendas. Divertimo­-nos e a tarde passou num segundo.
Também saímos a pé fazendo excursões pelas serras e quebradas. Que paisagens encantadoras vemos a cada passo! Nosso passeio favorito são as serras de areia que encantam Inacinho, pois nos deixamos cair como de três metros rolando na areia.
Lúcia está como numa noite escura com a ida de Chiro, que se foi na terça-feira.
Rebeca e eu estamos muito contentes, pois saímos todo dia. Hoje vamos passear a cavalo com os Rivas. Agora vamos ao banho de mar e vou banhar o Nano numa praia onde o mar é como uma piscina e onde nado todo o tempo (Algarrobo, 2-2-1918).

DESEJAMOS DAR-LHE CARINHO

Papaizinho, só falta você para que sejamos felizes, pois, en­quanto nos divertimos aqui, você está trabalhando, praticamente de sol a sol para dar-nos comodidade. Não temos, papaizinho, como pagar-lhe, porque é demasiado o seu sacrifício. Nós, os seus filhos, o compreendemos e o rodeamos de nossos carinhos e cuidados, pois acho que é a melhor maneira de agradecer a um pai. Por que não vem sequer uns dias? Não sabe a mágoa que me dá ao ver as outras meninas felizes com seu papai. Por favor venha, pois nós gozamos tão pouco da sua companhia durante o ano. O Sr. Júlio Furtado falou-me muito de você (Algarrobo, 2-2-1918).
Todas as noites, antes de dormir, rezamos à Santíssima Virgem para que o proteja, já que está tão longe de nós. Quanto desejamos, paizinho, estar fora do colégio para poder acompanhá-lo no campo, cuidando de você a nosso gosto (Santiago, 3-5-19 18).

UMA VISTA ENCANTADORA

Estamos todos muito contentes por ter vindo a este lugar, pois não creio que haja praia tão agradável. O povo com suas casas não poderia ser mais simples. A casa que temos fica na praia. Desfrutamos de uma vista encantadora.
Todos os dias saímos à tarde, às vezes a pé, às vezes a cavalo. Outro dia fizemos um passeio de carroça a Punta del Tralca. Foi um passeio ideal. O ponto que escolhemos é maravilhoso: grandes penhascos onde as ondas se batiam com uma força extraordinária, a ponto de levantar uns 15 metros de espuma. Coisa mais bonita não é possível imaginar.
Todos os dias há missa e bênção do Santíssimo assistidas por toda a gente. Também damos catecismo (Algarrobo, 2-2-1918).

3 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

1918

Os desejos de Juanita de ingressar no Carmelo vão aumentando. Intensifica sua correspondência com o priora do convento de Los Andes e, em setembro, pede-lhe que, se houver uma vaga, admita-a em sua comunidade. A resposta afirmativa enche-a de alegria.

Porém Juanita não é uma sonhadora. Sabe que o amor é exigente. Que se vai ao convento para imolar-se com Cristo pela humanidade. Que em sua cela terá uma cruz de madeira sem Cristo. Que nessa cruz ter de morrer ao seu egoísmo, a quanto a impeça de repetir: "lá não sou eu que vivo, mas Jesus". Desde já, consciente de que o sacrifício da separação dos seus será dilacerante, aceita como providenciais, para ir preparando-se para tão terrível transe, todos os sofrimentos que se apresentam.

A luta que sustenta consigo mesma, para ser fiel ao chamado divino, não pode ser mais titânica. Ela mesma reconhece "o extremoso" que é seu carinho por seus familiares; que não acredita haver "irmãos tão unidos" quanto ela com os seus, e que "desejar carinhos é inato em mim, pois tenho Caráter mimado". As cartas familiares o confirmam; sobretudo as dirigidas a seu pai. Todas elas são impregnadas de carinho e afetuosa preocupação por ele e seus problemas, e sofrimento por não gozar de sua companhia.

Em 12 de agosto abandona definitivamente o internato. Desde então até sua entrada no Carmelo cuida da casa. E uma experiência enriquecedora. Ensina-lhe que em toda parte se pode viver segundo Deus, e que a vida do lar é muito sacrificada pois exige dedicação desinteressada aos demais.

EQUILÍBRIO PSICOLÓGICO

Seu equilíbrio é tal que, não obstante gozar de um trato tão sublime e íntimo com Deus, leva uma vida completamente normal. Assombra ver Juanita abismada na contemplação das perfeições de Deus, e ao mesmo tempo alegre, amável e comunicativa com os homens. Com igual naturalidade trata com Jesus de coração a coração como faz esporte e contagia de alegria a todos com suas brincadeiras inocentes e com seus ataques de riso. Vai conseguindo uma admirável harmonia, combinando invejavelmente o divino e o humano. Vai unificando sua vida humana, que se enriquece e plenifica ao ser orientada inteiramente segundo a vontade de Deus, que nos quer à sua imagem e semelhança.

NOITE ESCURA

Tal equilíbrio e naturalidade são mais de admirar porque, no transcurso deste ano, continua sofrendo dores e cansaço em seu corpo e sofrimentos na alma. O amor prossegue sua dolorosa obra de purificação, de eliminação de quanto a impede de assemelhar-se a Cristo. Atravessa um período atroz de trevas interiores. Seu grande sonho - a vocação ao Carmelo - se converte em motivo de dúvida e de tormento. Juanita mesma nos explica o porquê desta noite escura, na qual crê ter a alma "inteiramente abandonada por Deus". E que, apegados aos gostos sensíveis, costumamos buscar "as consolações de Deus, porém não a Deus. Isto é imperfeição. E Nosso Senhor, às vezes, purifica as almas que ama, dando-lhes securas. E só quando já não lhes importa sentir ou não o fervor sensível, então as regala e consola. Este é o maior sofrimento porque é da alma. Ela se vê abandonada às suas forças, separada de Deus a quem tanto ama, e cercada de tentações, cheia de fraquezas. Como será este sofrimento que Nosso Senhor, que não se queixou durante toda a sua paixão, ao ver-se abandonado por Deus o chamou com grande angústia: Deus meu, por que me abandonastes?

SINTO SEDE DO INFINITO

Estamos passando umas férias muito tranquilas e felizes . Pude continuar os mesmos exercícios de piedade que faço no colégio.
Cada dia penso mais no Carmelo e desejo mais ardentemente ir fechar-me naquele pedacinho do céu. Agora que tenho de tratar com gente do mundo, vi que não existe felicidade no mundo e sempre o seu trato deixa-me um vazio que o enche por completo Nosso Senhor.
Tudo que vejo leva-me a Deus. O mar em sua imensidade me faz pensar em Deus, em sua infinita grandeza. Sinto então sede do infinito.
Quando penso que quando for carmelita terei de abandonar tudo isto, digo a Nosso Senhor que toda a beleza, tudo que é grande o encontro nele. Pelo contrário, no mundo tudo é pequeno, passeigeiro e eu nada quero, senão a Jesus.
Estou lendo a vida de Sta. Teresa. Quanto me ensina! Quantos horizontes me descobre! (Algarrobo, 1 .0-2-1918).

2 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

GANHAMOS PRÊMIOS

Saímos dia 20 do colégio. As duas fizemos ótimos exames e ganhamos prêmios. Lucho ganhou todos os prêmios de sua classe. Papaizinho, lembramos de você na proclamação dos prêmios da Universidade, pois teria se alegrado vendo-o tão premiado, já que um pai se alegra com o êxito de seus filhos.
Dia 25 fomos à apresentação no ginásio da Escola Militar e foi admiravelmente bem apresentada. Apresentaram um grupo de cavalaria que fez vários exercícios de salto e também com a lança.
Fizeram sem nenhum erro. Outra turma apresentou ginástica. Formaram uma figura. Saltaram dois metros. Por último cantaram um hino muita belo.
Preparamo-nos para descansar em Algarrobo. Disseram-nos que há bons cavalos. Só sentimos que você não vá conosco. E já sabe, papaizinho, não somos felizes quando você não está.
Como vão seus trabalhos? Não deixo de pedir a Nosso Senhor que recompense seus perpétuos sacrifícios. Venha logo. Sentimos sua falta (Santiago, 27-12-19 17).

1 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

ESCOLHIDA PARA VITIMA

Estou enferma. Não posso comer nada. Jejuo. Que bom é Jesus que me dá a sua Cruz! Sou feliz; assim mostro-lhe meu amor. Estou só. Não comungo, porém, estou na cruz, e nela está Jesus Cristo. Vivo pois em permanente comunhão.
Em todas as minhas ações, tenho presente. o fim da carmelita; os pecadores, os sacerdotes. Cada dia que passa sinto a nostalgia desse querido Carmelo, e ardo em desejo de ver-me encerrada por Jesus nesse pombalzinho para ser inteiramente de Jesus (Santiago, 8-9-1917).
16 de novembro. Jesus me repreendeu por não acudir como antes em minhas dúvidas e sofrimentos ao seu Coração. Abriu-me seu Coração e mostrou-me que, por minhas orações, tinha aí escrito o nome de meu pai. Disse-me que me resignasse a não ver o fruto delas, mas que alcançaria tudo. Que me tinha escolhido para ser vítima. Que subisse com ele ao Calvário. Que empreendêssemos juntos a conquista das almas. Ele, como capitão, e eu, como solda­do. Nossa arma, a cruz. A divisa, o amor. Que sofresse com alegria, com amor. Que seria carmelita: que não desconfiasse.
21 de novembro. Deram-me a notícia de que talvez não vamos veranear. Peço à Virgem que meu pai se confesse, que volte a paz à família. Eu me sinto cada dia pior. Já não posso mais. Sinto cansaço: uma dor de cabeça que me faz ver tudo de diversas cores.
Meu Deus, faça-se a tua vontade e não a minha!

EU ME EMBRIAGAREI DE TEU AMOR

Morrer, que coisa há mais ideal? Morrer, viver em Deus por uma eternidade, gozar em Deus. Pode haver felicidade maior? Jesus querido, cada vez que me sinto mal, sinto saudades de ti, desse céu onde não te ofenderei mais, onde me embriagarei de teu amor, onde serei uma contigo.
30 de novembro. Madre Esquerdo tomou a repetir que não encontrava em mim nem vocação, nem saúde para carmelita; Enfim, entrego tudo nas mãos de meu Jesus. Isto é tão fácil: abandonar-se a Jesus.
3 de dezembro. Vejo o amor que tenho ainda às vaidades: em arrumar-me, em apresentar-me bem.
Confessei-me. Deu-me permissão para renovar meu voto. Perguntou-me se estava disposta a sofrer no Carmelo desolações, dúvidas, securas etc. Eu lhe respondi que sim. Ainda agora as peço a Nosso Senhor.
10 de dezembro. Hoje, graças a Deus, não me desculpei quando me repreenderam. Jesus ajudou-me muito. Manifestou-se uma dor nas costas de maneira terrível. Doem-me a espinha dorsal e o cérebro. Oh! Jesus, quando me será dado viver em ti! Cumpra-se a tua vontade.

MUNDO CHEIO DE REDES

14 de dezembro. Saio do colégio. Sofro muito e quase não posso chorar. Só Jesus sabe o quanto sofro! Deixar para sempre este lugar onde passei horas tão felizes, onde se vive em Nazaré, pois vive-se com ele, sem nada perigoso para a nossa inocência, onde nos ensinam a virtude! Vou deixar tudo para entrar num mundo cheio de redes. Tenho medo que as vaidades me prendam.
Minha Mãe, sê tu minha Mãe. Lembra-te que me dei a ti.
Guarda-me pura. Coloco-me em teus braços maternais para que tu me coloques nos de Jesus. Abandono-me a ele. Que se faça a sua santa vontade.