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31 de dezembro de 2017

As Mais Belas Histórias do Cristianismo - Parte 22

22. A CRISTIANIZAÇÃO DA SOCIEDADE

Após três séculos de lutas pela sua sobrevivência, em que Nosso Senhor permitiu as maiores provações que mais a solidificariam, a Igreja pôde respirar tranquila e refletir nas palavras do seu Fundador: "Tende confiança, eu venci o mundo".
Sem dúvida, a vitória viera com Constantino, que deu aos súditos liberdade de culto, protegeu os cristãos, os admitiu na Côrte e mandou erguer por toda parte belas Igrejas e Basílicas, na consagração do cristianismo.
A sociedade romana entrava em sua decadência e cedia lugar à sociedade cristã, cujos costumes puros e sadios iriam dignificar a pessoa humana. Era a evidência dos valores do homem,sobrenaturalizados pela doutrina cristã.
As virtudes que poderiam se encontrar no mundo pagão são reavivadas e reanimadas pelo cristianismo, espiritualmente valorizadas, ao lado de muitas outras até então desconhecidas e que tinham a sua base na humildade, que inclina o homem a se estimar em seu justo valor e a buscar o abatimento e o desprezo. E a Igreja soube preparar a renovação que teve em vista, fundando instituições que correspondessem às exigências do homem "novo", e procurando impregnar de princípios a sociedade pagã na qual ia exercendo a sua influência.
E no plano social, a Igreja, consagrada pelas grandes e magistrais Encíclicas dos Papas, como a última de João XXIII, "Mater et Magistra", fez valer sempre a sua autoridade, e desde os primeiros séculos a encontramos na luta pela justiça e pela equidade, afastando a miséria, e exigindo o mínimo de conforto necessário à dignidade humana.
Documentos dos Santos Padres alardeiam esta preocupação da Igreja, e as Cartas do Papa Clemente, segundo sucessor de Pedro, e a Didaqué mostram este cuidado para com a missão da caridade. "Há um motivo, exclama Santo Ambrósio, que nos deve impelir a todos para a caridade; é a piedade para com a miséria alheia e o desejo de a aliviar, na medida e até acima de nossas forças".
Os Papas dos três primeiros séculos foram solícitos na caridade e no socorro aos miseráveis, e no século IV a ação social da Igreja se faz presente de modo admirável, socorrendo os povos, instituindo nas grandes cidades, como Roma e Alexandria, as suas obras de assistência, como hospitais, asilos de órfãos e velhos.
Os escravos eram tratados com mansidão e postos em liberdade. "Entre nós, diz Lactâncio, ninguém estabelece diferença entre senhores e escravos".
O papel da mulher é dignificado no mundo e foi a Igreja que a engrandeceu perante a sociedade e a colocou no justo e digno lugar que ainda hoje ocupa, como a guardiã das mais nobres virtudes. A virtude da virgindade foi exaltada, e o casamento, santificado pela união dos esposos num amor mútuo, e indissolúvel, como o próprio Cristo ama a sua Igreja.
Lançados os princípios, os costumes da sociedade forçosamente se renovariam. Erguem-se os Bispos contra os jogos que no mundo pagão, ao invés de distrair os espíritos, eram motivos de chacinas e crimes, e em breve eles vão desaparecer. A sociedade pagã viciada comprazia-se diante dos divertimentos da arena e do anfiteatro, espetáculos monstruosos e desumanos, verdadeiras aberrações para uma sociedade civilizada. Manifesta a Igreja a sua indignação contra tudo isto, condenando estes divertimentos nocivos e criminosos.
O Igreja lutou contra eles e conseguiu o seu triunfo total. Vitória que veio aos poucos, concretizando-se quando decisiva se tornou no mundo a influência da Igreja, que renovou as bases humanas e dignificou os seus verdadeiros valores. Juliano, o apóstata, tudo fizera para restituir Roma ao paganismo. Fôra impotente diante da firmeza do cristianismo, cujo princípios construíram o seu esplendor.
No meio da glória de suas conquistas, ferido mortalmente em uma batalha, na sua raiva contra Cristo, recolhe Juliano o sangue que lhe escorria da ferida e lançando-o como desafio ao céu, brada: "Tu venceste, Galileu"! Com a sua morte o paganismo chegava ao seu final.
Surgiu Teodósio, um dos melhores Príncipes que regeram o Império Romano. A verdadeira Roma era já a Roma cristianizada, transformada pelo Evangelho de Cristo. Príncipe cristão, tinha por conselheiros a Santo Ambrósio, o grande bispo do Milão, e a Dâmaso, o mais notável Papa do século.
Em 380, promulga em Tessalonica o edito que torna o cristianismo religião oficial do Estado. "Todos os povos devem aderir à fé transmitida aos romanos pelo Apóstolo Pedro, que professam o Pontífice Romano Dâmaso, e o bispo Pedro de Alexandria, isto é, reconhecer a Santíssima Trindade do Pai, do Filho e do Espírito Sinto". "Todos os povos do Império devem aderir à fé cristã", O cristianismo conquistou a sociedade cuja renovação vinha preparando desde a sua origem.
O Império chegava à sua decadência, fruto dos desmandos de muitos de seus Imperadores, e evitá-la já era impossível. Fora minada a sua cidadela pelo luxo e sede do gozo, e agora se destrói a antiga civilização romana esmagada pela invasão dos bárbaros.
Roma, a Rainha do Império, perdeu a sua soberania absoluta, viu quebrado o cetro de seu poder temporal, mas conquistou um império mais glorioso e mais nobre: o império sobre as almas, tornando-se o centro do catolicismo.
Fecham-se para a Igreja as primeiras páginas de um livro glorioso que ela escreveu com a fé de seus primeiros cristãos, com o heroísmo de seus mártires, com a sabedoria e inteligência de seus escritores: " A Igreja Primitiva".
Estava cumprida a sua primeira grande missão, misteriosamente ajudada por um poder sobrenatural."
A Igreja continuará a escrever novas páginas, na obra maravilhosa de 20 séculos de existência. São as mais belas páginas de amor cristão e santidade, que se opõem à falsidade, ao ateísmo, ao absurdo de uma volta ao paganismo, páginas gloriosas da divindade da Igreja, instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo, que com ela estará todos os dias, até à consumação dos séculos: "Usque ad consummationem saeculi"!

27 de dezembro de 2017

As mais Belas Histórias do Cristianismo - Parte 21

21. CONSTANTINO E A VITÓRIA DO CRISTIANISMO

Constantino, jovem príncipe, filho do Augusto Constâncio Clero, já se tornara conhecido pelo seu garbo e valentia, grangeando a afeição e estima de Diocleciano. Proclamado Augusto pelas legiões da Bretanha, após a morte de seu pai, Constantino teve que desbaratar os exércitos daqueles que pleiteavam o título de Imperador.
Enquanto Licínio, que no Oriente substituíra o perverso Galério, liqüidava o exército de Maximino, Constantino marchava para derrubar o usurpador Maxêncio, que estava senhor de Roma. Isto aconteceu em 312, após um encontro entre Constantino e Licínio.
Seguindo os passos de seus pais, Constantino se mostrava favorável aos cristãos e aguardava oportunidade para lhes conceder a liberdade de culto, quando um fato milagroso veio apressar o seu desejo.
Ao aproximar-se do rio Tibre, no avanço contra as tropas de Maxêncio, divisou no céu uma luminosa cruz e em caracteres brilhantes as palavras: "In hoc signo vinces - por este sinal vencerás". Historiadores como Eusébio e Lactâncio nos trazem alguns esclarecimentos que são de grande importância para o julgamento da posteridade. Eusébio declara formalmente que na luta contra Maxêncio, "Constantino invocou a Cristo e lhe ficou devendo a vitória". Continua a sua versão, afirmando que Constantino, no momento da luta, apelou para o Deus dos cristãos e em pleno dia viu no céu uma cruz luminosa com estas palavras: "'Com este sinal vencerás". Depois, Cristo lhe apareceu, mostrando-lhe a sua cruz e ordenando ao Imperador que fizesse uma insígnia que a representasse.
Lactêncio se refere a um êxtase que teve Constantino pouco antes da batalha, durante a qual recebeu de Cristo ordem para colocar sobre o escudo de suas tropas um sinal formado pelas duas letras gregas CH e R, o monograma que se encontra nas moedas e inscrições constantinianas.
A frente dos exércitos de Constantino apareceu desde este momento o Lábaro, estandarte em forma de cruz. O monograma de Cristo e a cruz fulguravam nos capacetes de seus soldados. gravou-se luta renhida e Constantino derrotou o seu opositor que se afogou nas águas do Tibre.
Como triunfador, Constantino entra em Roma sob o delírio e aclamações de todos, especialmente dos cristãos que saudavam jubilosos e reconhecidos uma nova era de paz e tranqüilidade após três séculos de perseguições e opressões cruentas.
Pouco depois em Milão, de acordo com Licínio, promulgou o famoso Edito de Milão que concedia a liberdade absoluta dos cultos e restituía à Igreja todos os bens que lhe foram confiscados durante as perseguições. Dava-lhe o direito de ser ajudada a reconstruir e reerguer as suas ruínas.
Era o início de uma era auspiciosa para a Igreja, que alicerçada no heroísmo de seus mártires e na fidelidade de seus membros, iria ressurgir gloriosa, mostrando ao mundo o valor e força com que vencera as perseguições.
O Edito de Milão era o triunfo oficial do cristianismo. A igualdade de condições entre o cristianismo e o paganismo, outra cousa não era senão o reconhecimento do Império de que se enganara ao tentar destruir a Igreja, e significava o declínio das antigas crendices do paganismo e a ascensão definitiva do cristianismo.
Os cristãos sabiam que não poderiam ser superiores a Cristo que afirmou: "O discípulo não é mais que o mestre."
Se Cristo foi perseguido, também eles seriam alvo de ódio e de opressões. O drama do Calvário fora antes o início de uma luta constante que se desenvolveria nos séculos, cujo desfecho seria o triunfo de Cristo.
Assim, a Igreja, fortalecida pelas palavras de Jesus - "nada temais, eu venci o mundo", aparecia gloriosa após as lutas e perseguições, desdobrando, orgulhosa, perante a posteridade, os nomes gloriosos ele seus mártires, cujo sangue profusamente derramado fora na verdade semente abençoada de cristãos.
A Constantino, sem dúvida, a Igreja deve a consolidação de suas posições e o seu fortalecimento que a tornou inexpugnável diante cias outras lutas que se seguiram.
Os historiadores cristãos traçam os maiores encômios e elogios à figura de Constantino que, não obstante admirar e proteger muito os cristãos, e tudo fazer para extinguir o paganismo, teve que suportá-lo num Império onde os cristãos ainda eram a minoria, e destruir de vez o paganismo lhe teria sido muito difícil.
Não poderia a história deixar de mencionar também os desmandos praticados pelo grande Imperador e que no entanto vivia em uma época em que a vida humana tinha valor relativo: Deste modo, ainda
um pouco submisso às tendências pagãs, torturou os seus adversários vencidos, mandou estrangular a Licínio, seu cunhado e aliado, com quem se desentendeu, e não poupou à sua fúria violenta o seu próprio filho Crispo e sua esposa Fausta.
Constantino procurou estabelecer uma política cristã, reconhecendo a sua missão de representante de Deus, e afastando do Imperador o título "divino", usurpado pelos seus predecessores.
Uma grande transformação se operou no Império pela ação salvadora do Imperador Constantino. Ao lado do único poder universal que era o Império Romano, o reconhecimento de um só Deus verdadeiro. Era a doutrina cristã que se espalhava, afastando os ódios de entre os povos, e levando a paz ao mundo. A doutrina cristã do amor foi substituindo 0 ódio do paganismo. A humanidade começava a se cristianizar. Privilégios se concederam à Igreja e ao Clero. Editos se promulgaram condenando os suplícios, reorganizando a família, dando melhoria de condição aos escravos.
Leis morais foram assinadas, para que a sociedade fosse construída no respeito e na dignidade. É a sociedade pagã que cedia o lugar à sociedade cristã.
O domingo e as grandes festas litúrgicas - Páscoa, Natal, Pentecostes - são colocadas no calendário, aos poucos abafando as tradicionais festas pagãs. Por toda parte no Império se erguem as Igrejas cristãs e se constroem as famosas basílicas constantinianas para o culto do verdadeiro Deus. As divindades pagãs e os velhos deuses desaparecem e em seus lugares surgem as imagens dos santos.
O princípio de unidade e de ordem, que centralizava a política de Constantino, será perfeitamente encontrado no cristianismo que fazia da unidade a sua perfeição, e da ordem a firmeza de sua disciplina pela hierarquia da Igreja. Os cristãos já eram, aceitos como funcionários públicos e os princípios evangélicos eram colocados em prática sob a proteção do Império.
Estas e muitas e grandes vantagens usufruídas pela Igreja na grande transformação que Constantino realizou, tornando um Império pagão em um Império cristão.
Mas a Igreja que saíra vitoriosa das perseguições, onde a fé e o heroísmo de seus mártires foram postos à prova, iria reiniciar um nova luta: a pouca fé, a ignorância e fraqueza de muitos daqueles convertidos que estavam longe de representar os que tombaram corajosa e galhardamente na arena das opressões. Os domínios temporal e espiritual acabaram se confundindo, e a Igreja, que gozava de ilimitada proteção do Estado, deveria se submeter às muitas intromissões do poder temporal. Dificilmente poderia ser posta em prática, nestas circunstâncias, a grande sabedoria do preceito de Cristo: "Dai a César o que for de César e a Deus o que for de Deus."
Foram estas dificuldades que levaram Renan a exclamar, embora com exagero: "O cristianismo soçobrou na vitória."
Jacques Zeiller, historiador católico, foi mais sereno ao referir-se à situação: "Apenas libertada da opressão, a Igreja ia conhecer uma prova talvez mais terrível ainda que a hostilidade: a proteção tão facilmente onerosa do Estado." Felizmente, a gravidade da situação que ia tomando proporções de caráter prejudicial aos interesses da própria doutrina cristã do amor, foi pressentida por inteligentes e
serenas figuras da Igreja, que se opuseram anos mais tarde aos excessos de influência oficial.
Foi o início dos sérios conflitos entre a Igreja e os poderes temporais, conflitos que se salientaram séculos depois na Idade Média.
Em 330 Constantino iniciou a construção da nova Roma, mais no centro do Império, na margem europeia do Bósforo, a cidade do esplendor e do fausto que a voz popular chamou Constantinopla, em homenagem ao seu fundador, cidade resplandecente do ouro e do mármore, protegida pelas mais fortes muralhas do mundo.
A Igreja que se estabelecera na antiga capital preferiu aí permanecer, mesmo para que mais facilmente se afastasse da sujeição do poder temporal, tornando-se independente.
"Qualquer mão oculta”, disse Joseph de Maistre, “expulsava os imperadores da Cidade Eterna, para a dar ao Chefe da Igreja Universal”.
Constantino já havia dividido todo Império entre os seus filhos e sobrinhos e pressentira a sua morte, atacado por incurável doença.
Fez-se transportar para a sua modesta casa de campo perto de Nicomedia, sempre acompanhado do Bispo Eusébio. Foi aí que pediu o batismo, cousa que jamais o fizera, não obstante sua afeição para com o cristianismo. Prevalecia na época a ideia de se diferir o batismo para o momento da morte, quando então se teria a garantia absoluta do perdão de todos os pecados e crimes e a certeza de salvação. Talvez Constantino se deixasse levar por estas tendências da época.
Despindo-se das púrpuras imperiais e com a veste branca dos neófitos fez-se cristão, recebendo o batismo, no leito de morte. Pôde exclamar com emoção: "Chegou o dia de que eu tinha sede há muito
tempo, a hora da salvação que eu esperava de Deus; neste dia sou verdadeiramente feliz!"
Morreu Constantino no dia 22 de maio, festa de Pentecostes.
A Igreja preza a sua memória e a história perdoa os seus erros e os seus crimes, pois Constantino fez com que sobre o mundo brilhasse a cruz que não foi apenas o símbolo de sua vitória às margens do Tibre, mas que em seu Império resplandeceu no coração da Roma pagã para a vitória decisiva do cristianismo no mundo!

13 de dezembro de 2017

As Mais Belas Histórias do Cristianismo - Parte 20

20. A MISSA NOS PRIMEIROS TEMPOS.

A Eucaristia desde os primeiros dias da Igreja foi de suma importância para os cristãos e centro de todos os seus cultos. A reunião litúrgica, que nos descrevem os Atos dos Apóstolos, era a celebração da Santíssima Eucaristia. São cerimônias simples a princípio, que renovam a última ceia, como o Divino Mestre recomendara aos Apóstolos: "Fazei isto em memória de mim:"
Aos poucos estas cerimônias eucarísticas, a união dos fiéis com Cristo pela comunhão, recebem maiores solenidades, especialmente na sua preparação que consiste em preces e súplicas. Textos sublimes do Antigo Testamento, como as preces dos Salmos, são incluídos nas cerimônias eucarísticas, bem como passagens da vida de Nosso Senhor e que se encontram nos Evangelhos.
A estas celebrações se deu o nome de Missa. Nos tempos mais antigos em que o grego era língua oficial dos cristãos, estas cerimônias se chamavam Eucaristia, e às vêzes eulogia, que significa bênção. O nome que prevaleceu nas épocas posteriores foi o de "Missa".
Estudando os antigos escritos dos Padres da Igreja, e vendo as pinturas das catacumbas, podemos ter uma idéia do que consistia a missa nos primeiros tempos cristãos, no fim do século II ou início do século III.
Estas cerimônias eram celebradas em casas particulares, onde se reuniam os fiéis; muitas destas casas eram doadas às comunidades que as transformavam em Igrejas. Estas se tornavam cada vez mais vastas, pois aumentava sempre o número dos fiéis. As igrejas surgiram numerosas, pois durante as perseguições decretos foram assinados pelos Imperadores, para que elas fôssem destruídas.
Muitas vezes as missas eram celebradas nas catacumbas,especialmente quando violentas eram as perseguições, e lá se refugiavam os fiéis. Também na comemoração de um mártir, nos dias de sua festa, os sacrifícios eucarísticos eram celebrados em seu louvor diante de seu túmulo.
Com maiores solenidades eram celebradas as missas de domingo,quase sempre à meia noite, terminando ao despontar da alvorada.
Ainda hoje se celebram missas à meia noite, como no Natal,relembrando as antigas tradições.
A Missa, como ainda hoje, se dividia em duas grandes partes. A primeira podiam assistir os catecúmenos, aquêles que se preparavam para o batismo. O celebrante se conservava voltado para o povo, saudando-o várias vêzes, durante a cerimônia. As orações ao pé do altar não existiam, e o Introito somente apareceu no século IV, com os cânticos de salmos, enquanto o celebrante se dirigia ao altar. A Missa dos Catecúmenos era de orações e de instrução. Pedia-se a Deus pelos catecúmenos, para que suas preces fôssem acolhidas e êles instruídos na doutrina e nos mandamentos do Senhor; pedia-se pelos recém batizados, pelos doentes, escravos, pelos mártires que aguardavam o suplício. A
estas súplicas feitas pelo diácono, os fiéis respondiam com as palavras gregas que ainda conservamos na missa: Kyrie eleison!
Senhor, tende compaixão de nós!
O celebrante, logo depois, recitava a oração da missa na súplica geral por todos, que no final respondiam: "Amém".
Colocado em lugar mais elevado o leitor lia para todos trechos do Antigo Testamento, passagens das Epístolas de S. Paulo, e de outros apóstolos, dos Padres da Igreja, dos Atos dos Apóstolos, ou narrativas dos mártires.
A leitura do Evangelho era feita por um diácono e os fiéis de pé e atentamente a escutavam. Terminada a leitura, o celebrante fazia os comentários sobre o trecho lido, ou escolhia um pregador para fazer a homilia.
Assim termina a Missa dos Catecúmenos, que reproduz, por assim dizer, a liturgia das sinagogas. O Credo que era recitado apenas nas profusões de fé ou em alguma outra circunstância, só mais tarde é introduzido na missa.
A segunda parte é a Missa dos Fiéis; os catecúmenos se retiravam era Igreja. A liturgia atual da missa conserva quase todas as cerimônias antigas na preparação e realização do augusto sacrifício.
Na missa cios fiéis encontram-se as três partes essenciais do sacrifício: o ofertório, a consagração e a comunhão.
Antes do ofertório, os fiéis levavam até o altar a matéria do sacrifício: o pão e o vinho. O simbolismo sublime desta cerimônia, em que os fiéis depositam no cibório a hóstia para a sua comunhão, é, como se vê, costume antigo na Igreja, revivido hoje nas Procissões do Ofertório, já comuns em muitos lugares.
Os antigos fiéis, além do pão e vinho para a consagração, ofereciam esmolas para os pobres, viúvas e para as obras de caridade. Os diáconos separavam as ofertas, depositando o vinho e o pão sobre o altar.
Pelas orações chamadas secretas, o sacerdote, como ainda hoje, pedia ao Senhor que em troca dos dons terrenos, concedesse ao povo os dons do Céu.
Aproximando-se o momento mais solene de toda a cerimônia, o celebrante convidava os fiéis à piedade e ao fervor: "Corações ao alto!” "Temo-los no Senhor!” “Dêmos graças a Deus.” “Isto é digno e justo!" "Verdadeiramente”, continuava o sacerdote, “é digno e justo que vos rendamos graças, ó Senhor, Santo, Pai Todo Poderoso e Eterno". O prefácio é um cântico de triunfo e de glória, é um convite à união com as hierarquias dos anjos, para bendizer e louvar a Deus. Termina pelo Sanctus, que é um hino celestial: "Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos exércitos. Os céus e a terra estão cheios da vossa glória. Hosana no alto dos céus. Bendito seja o que vem em nome do Senhor. Hosana no alto dos céus". É um cântico sublime que os bem-aventurados cantam no céu, como descreve São João, na visão do Apocalipse.
Pinturas nas catacumbas nos mostram o sacerdote com as mãos estendidas sôbre o pão e o vinho para tomar posse sobre a vítima,pronunciando depois as palavras solenes da Consagração, exatamente as mesmas proferidas por Cristo na última ceia.
A Última parte é a comunhão. O sacerdote, como fez Cristo, parte o pão: é a fração do pão, com que também se designava a missa outrora. A Didaqué nos fala da prece da unidade, que se pronunciava então: "Assim como este pão estava, nos seus elementos, disperso pelas colinas e se encontra agora reunido, permiti, Senhor, que a nossa Igreja se reúna desde as extremidades ela torra..."
A comunhão era dada sob as duas espécies do pão e do vinho. O sacerdote oficiante dava aos fiéis a hóstia sagrada, pronunciando as palavras: Coreus Christi. E o fiel respondia: Amém! O diácono trazia o cálice que contém o precioso sangue: Sanguis Christi calix vitae, e comungante bebia um pouco.
A última prece era o agradecimento a Deus pelas graças e benefícios, pela comunhão recebida. "Ite, missa est!"
Prostrados os fiéis recebiam a bênção do celebrante, e a Missa chegava ao seu final.
Assim se celebravam nos primeiros tempos as santas missas, sacrifício único da Nova Lei em que Jesus Cristo, pelo ministério do sacerdote, se oferece e se imola no altar sob as espécies do pão e do vinho, para reconhecer o supremo domínio de Deus e nos serem aplicados os méritos de sua paixão e morte de cruz.
Na assistência piedosa à santa missa, e na participação ativa dela,encontravam os primeiros cristãos a força que os animava à santidade de vida e ao martírio. Possuíam Cristo em suas almas e nada seria capaz de os perturbar.
A Missa que hoje se celebra é essencialmente a mesma dos primeiros tempos do cristianismo: Renovação do Sacrifício do Calvário. E a liturgia atual conserva as antigas cerimônias, tão ricas em seus simbolismos.
Desde a origem da Igreja incessantemente se renova sobre os nossos altares o sacrifício de Cristo, em todas as épocas, do Oriente ao Ocidente, do nascer ao pôr do sol, santificando as almas e espalhando para toda a humanidade os frutos abundantes de vida e salvação do Sacrifício do Cordeiro de nossa Redenção.

11 de dezembro de 2017

As Mais Belas Histórias do Cristianismo - Parte 19

19. AS CATACUMBAS ROMANAS

Símbolo indestrutível da vida dos cristãos nos primeiros tempos, as catacumbas romanas se estendem pela Roma subterrânea, através de imensas galerias que atestam a grande fidelidade da Igreja primitiva.
Perseguida sobre a terra, impedida de oferecer a Deus o santo sacrifício à luz do sol, a cristandade se colocou sob a terra, desceu à profunda cidade subterrânea, escondendo-se de seus algozes tiranos e entregando-se à vida recolhida de oração.
Designavam as catacumbas, primeiramente, o cemitério subterrâneo situado sob a Via Ápia junto à Basílica de São Sebastião. Por existir perto daí uma depressão do terreno, este cemitério se chamou catacumba do grego kaia, perto de, e kimbos, cavidade. O mesmo nome se estendeu depois a todos os cemitérios subterrâneos de Roma.
Já no Egito e na Fenícia há muito se construíram os cemitérios subterrâneos e em outras partes encontram-se também vestígios de semelhantes necrópoles.
São as catacumbas de Roma as mais importantes, as mais gigantescas do mundo e dentre as mais antigas encontram-se as de Comodila, na Via Ostiense, onde repousou o corpo de São Paulo, as de Santa Priscila, Santa Domitila, São Clemente e São Sebastião.
Durante as perseguições, os cristãos se reuniam nas catacumbas para praticar seus cultos. Aí se fazia também a catequese, e à sombra dos milhares de mártires que sacrificaram sua vida por Cristo, os cristãos hauriam a força e resistência para suportarem as perseguições e o martírio.
Flávia Domitila, a sobrinha de Vespasiano, que se tornou cristã, mandou cavar em terrenos de sua propriedade uma sepultura para membros de sua família, que eram cristãos.
Ao lado, mandou cavar galerias funerárias para os cristãos que pertenciam às classes mais humildes. E foi assim que se multiplicaram estas necrópoles subterrâneas ao longo das estradas romanas, e que se alargavam sempre mais com o crescimento constante da Igreja.
Em alguns pontos estes corredores chegam a ter cinco andares e os mais fundos têm mais de vinte metros de profundidade. As catacumbas se estendem mais ou menos ao longo de 1200 quilômetros de comprimento.
São lugares maravilhosos, onde não sabemos o que mais admirar: se a constância dos cristãos que aí recolhidos vivia ma sua fé, se a imensidade destes cemitérios, com as suas salas vastas, ou se as grandes decorações e pinturas, que a arte cristã primitiva aí gravou, retratando cenas do Antigo Testamento, ou então as mais belas passagens do Evangelho de Cristo.
As numerosíssimas inscrições que se encontram nas catacumbas apresentam grande importância histórica, porque revelam documentos sobre a vida e fé dos primeiros cristãos, confirmando que os dogmas da Igreja primitiva eram substancialmente os mesmos da Igreja atual. Além disto, as numerosas pinturas nos permitem estudar a singeleza da arte cristã primitiva.
O fato dos cristãos terem descido às catacumbas, para honrarem os santos mártires, celebrarem os seus sagrados mistérios, e aí encontrarem um abrigo que os garantiria em meio às perseguições, não nos permite concluir que nos primeiros tempos este era o seu único "modus vivendi".
Se assim o fosse, como poderíamos explicar o seu crescimento, não apenas na própria sociedade romana, como também sua progressiva difusão por todo o Império?
E Tertuliano, o grande escritor eclesiástico, desfaz qualquer dúvida, quando afirma: "Nós, os cristãos, não vivemos à margem do mundo.
Frequentamos o Foro, os balneários, as oficinas, as lojas, os mercados, as praças públicas. Somos marinheiros, soldados, agricultores e negociantes".
Na Carta a Diogneto, afirma-se que "os cristãos não se diferenciam das demais pessoas, nem pelas vestes, habitação, nem pelos alimentos."
Mas apesar de tudo isto, as dificuldades eram inevitáveis entre os cristãos e a sociedade pagã, e aumentavam sempre, dada a influência cada vez maior da nova doutrina.
E foi assim que os cristãos começaram com suas reuniões clandestinas, favorecidos pela lei romana que respeitava como sagradas as propriedades onde dormiam os mortos.
As catacumbas tornaram-se em nossos tempos centro de curiosidade e de visitas de todos aqueles que vão à cidade eterna.
Através dos ambulacros podem-se observar os grandes nichos que se cavaram ao longo das paredes. Aí estiveram os corpos dos mártires do cristianismo, e de respeito e veneração cobrimos estes lugares santificados pela presença dos heróis da fé cristã.
Assim são as catacumbas, "verdadeiras cidades da noite e da morte", no dizer de Daniel-Rops, terra santa que nos lembra o frescor da caridade e fidelidade de nossos primeiros irmãos cristãos.
Aí se encontram as mais belas inscrições que foram gravadas pelo sangue dos mártires do cristianismo ! Os seus nomes permaneceram sobre um pedaço de argila ou em pedras, como verdadeiros símbolos de uma época de fé e fortaleza, para a admiração da posteridade.
São as catacumbas a imagem da Igreja primitiva, onde se conservam as mais belas relíquias do cristianismo.
Relíquias dos corpos dos santos mártires, relíquias da pujança e vitalidade do cristianismo que surgiu glorioso das catacumbas romanas para conquistar o mundo.

1 de dezembro de 2017

As Mais Belas Histórias do Cristianismo - Parte 18

18. O TESTEMUNHO DOS MÁRTIRES.

Numa de suas conversas com os seus Apóstolos, depois da Ceia, Nosso Senhor os adverte das perseguições que sofreriam, para que não se escandalizassem, quando chegassem os dias difíceis. "Eu vos disse estas cousas, para que não vos escandalizeis. Lançar-vos-ão fora das sinagogas... disse-vos estas cousas, para que, quando chegar o tempo, vos lembreis de que eu vo-las disse" (S. João XVI,
4).
Outras e semelhantes advertências fez Cristo a seus apóstolos, e as encontramos nos Evangelhos: "Por isto, eis que eu vos envio profetas e sábios e escribas, e matareis e crucificareis uns, e açoutareis outros nas vossas sinagogas, e os perseguireis de cidade em cidade" (S. Mat. XXIII, 34).
"Lançar-vos-ão as mãos, e vos perseguirão, entregando-vos nas sinagogas e nos cárceres, e vos levarão à presença dos reis e governadores, por causa de meu nome" (Luc. XXI, 12). Se não fossem avisados, certamente os apóstolos e cristãos se escandalizariam diante das perseguições, das grandes heresias e da aparente inutilidade da Redenção. "Os golpes previstos e esperados, diz S. Gregório, são mais fáceis de serem suportados".
Antes de tudo, seriam expulsos das sinagogas, uma das mais infamantes penas entre os judeus. E os Apóstolos se submeteram a este opróbrio pelo nome de Jesus. E os discípulos não seriam mais do que o Mestre. "'Lembrai-vos daquela palavra que eu vos disse:
Não é o servo maior do que o seu senhor. Se eles me perseguiram a mim, também vos hão de perseguir a vós" (S. João XV, 20).
E na própria Jerusalém tiveram início as perseguições. A doutrina cristã se expande e os Apóstolos são levados ao Sinédrio, arrastados aos tribunais e se realizam as primeiras perseguições sangrentas. Saulo, zeloso pelas tradições de seus antepassados, cheio de ódio e ameaças, incentiva aqueles que apedrejam a Estêvão, e corre a Damasco para prender os fiéis cristãos. São Tiago é o primeiro Apóstolo a derramar por Cristo o seu sangue.
Em Roma, capital do Império, onde se firmaria para sempre o cristianismo, movem os Imperadores terríveis e sangrentas perseguições aos cristãos. Aos pés de seus ídolos os pagãos imolam milhares e milhares de mártires, vingando os seus deuses do ultraje que lhe faziam os servos de Cristo, que se recusavam a adorá-los, renegando sua pretensa divindade.
Diante das narrativas dos "Acta Martyrum", nos comovemos face à sublime coragem dos mártires do cristianismo. Para o heroísmo não há distinções entre os grandes e pequenos, sábios e ignorantes, nobres e plebeus. A graça a todos fortifica, e a constância, firmeza e calma, com que enfrentam a morte, causam admiração aos próprios perseguidores.
Dão os mártires o testemunho de sua fé pela palavra e pelo sangue.
Mártir é aquele que dá testemunho e que sofre torturas. Gritam bem alto a sua fé e suas palavras transmitem uma sabedoria sublime: "Gravai, pois, nos vossos corações o não premeditar como haveis
de responder, porque eu vos darei uma boca e uma sabedoria, a qual não poderão resistir, nem contradizer, os vossos inimigos" (Luc. XXI, 14-15). O destemor e coragem com que enfrentam os seus algozes, somente se explicam por um auxílio divino. Santo Estêvão, o protomartir, proclama bem alto a sua fé e desde então os exemplos se sucedem.
Basta a simples e firme declaração: "Eu sou Cristão", como o fizeram os mártires africanos. Ou então afirmações explícitas, como as de S. Justino: "Adoramos o Deus dos cristãos, cremos que é o único Deus, o Criador de tudo, e cremos no Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus anunciado pelos profetas e enviado para salvar o mundo:"
Ao testemunho da palavra, seguia-se o testemunho do sangue, e os cristãos já compreendiam, por graça de Deus, a sublimidade e glória do martírio, perder a vida para a salvar. Diante do testemunho dos mártires, os outros cristãos se entusiasmavam e criavam novas energias, e assim se estruturava o cristianismo nascente. Já para os pagãos este heroísmo era motivo de admiração e até mesmo de compaixão para muitos. E não foram poucos os algozes que se converteram à vista da convicção e fortaleza dos mártires cristãos.
O sangue dos mártires, que correu incessante durante as primeiras perseguições, foi um testemunho da Divindade de Cristo, da poderosa vitalidade da Igreja e ainda "fecunda semente de cristãos", na exclamação feliz de Tertuliano.
O mártir é o perfeito imitador de Cristo. "'Adoremos Cristo como Filho de Deus, mas, com justa razão, veneremos os mártires como discípulos e imitadores do Senhor" - é a bela expressão que encontramos na narrativa da morte de S. Policarpo.
"A maior prova de amor é dar a vida por aqueles que amamos", disse Nosso Senhor. Por nós ele deu a sua vida, na prova mais sublime de seu amor, e os mártires outra cousa não fizeram senão corresponder à infinita misericórdia de um Deus, que, morrendo por nós, retribuiu-nos a verdadeira vida da graça.
As perseguições contra os discípulos nunca cessaram. Em todos os tempos e em todos os povos, de várias e diferentes maneiras, se têm levantado, evidenciando o ódio e o medo do mundo pela verdade.
No mundo antigo, foram os cristãos perseguidos, porque sua missão era libertar os espíritos e as inteligências oprimidas pelo paganismo. Aí se travaram as grandes perseguições contra o Império Romano, detentora oficial do culto aos deuses. O cristianismo venceu pela bravura de seus membros e pela divindade de sua doutrina.
O Coliseu de Roma, no seu esplendor de ouro e mármore, permanece em suas ruínas, como lição viva da fidelidade dos cristãos primitivos. Aí correu o sangue de milhares e milhares de mártires que consagraram a arena romana pelo vigor sublime de sua fé e amor a Cristo.
No mundo moderno e atual, continuam os cristãos a serem perseguidos, pois é a luta do paganismo para readquirir o seu lugar, o que jamais conseguiu desde que brilhou no mundo a luz da verdade cristã. Vem ele agora na forma de ideologias ateias e materialistas, procurando a desordem da sociedade e a desunião entre as várias classes sociais, para assim abafar o sentimento cristão da humanidade.
E novos coliseus se levantaram pelo mundo, cercados por fortes cortinas de ferro, atrás das quais geme a Igreja do Silêncio. É o cristianismo que volta ao silêncio e recolhimento das catacumbas.
São as perseguições previstas e anunciadas pelo Salvador, "não vos escandalizeis". A verdade, por fim, ficará vitoriosa. Com todo furor e violência, os perseguidores outra cousa não fazem senão justificar a palavra de São Paulo: "Nada podemos contra a verdade, senão pela verdade" (II Cor. XIII, 8).
"Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem e vos perseguirem e mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus, pois também perseguiram os profetas, que existiram antes de vós" (S. Mat. V, 11-12).
São as célebres palavras que se extraem do extraordinário Sermão da Montanha, garantia da recompensa para aqueles que perderam a sua vida para a salvar eternamente.
E no seu discurso aos Apóstolos após a Última Ceia, Nosso Senhor os advertia P confortava: "Haveis de ter aflições no mundo, mas tende confiança, eu venci o mundo." (S. João XVI, 36).

11 de novembro de 2017

As Mais Belas Histórias do Cristianismo - Parte 17

17. PERPÉTUA E FELICIDADE, JOVENS MÃES MÁRTIRES.

A Igreja que vinha sofrendo as mais tirânicas perseguições, oficialmente decretadas pelos imperadores romanos, e que escreveu em sua história as mais belas páginas do heroísmo e fidelidade de seus membros, pôde experimentar algum tempo de tranquilidade no governo de Cômodo.
Embora realizasse êle um reinado de orgias, fosse ávido de sensações violentas, como as que ofereciam as lutas na arena, das quais participava sempre, Cômodo, o Hércules, título que lhe dera o senado, não perseguiu os cristãos. Ao contrário, concedeu anistia àqueles que se encontravam encerrados nas masmorras dos palácios.
Foi na época da Anarquia militar, em que o poder supremo esteve à mercê dos caprichos dos soldados, que surgiu a figura do africano Séptimo Severo, que a princípio, mostrando-se calmo e clemente, subitamente se transformou em grande perseguidor dos cristãos, estendendo sua tirania a todo o império, às províncias das Gálias, da Ásia e África, onde sangrentas páginas se ajuntaram ao doloroso capítulo da história cristã.
Modelos exemplares de fé e heroísmo se inscreveram na galeria já gloriosa de nobres figuras do cristianismo primitivo, e dentre eles os nomes de Perpétua e Felicidade, duas jovens mães, dignas de louvor e admiração pela constância e firmeza imperturbável na fé.
Deus quis unir no mesmo sacrifício duas mães, ambas muito jovens, descendendo uma de família nobre, e outra uma pobre escrava.
Diante dele todos são iguais, capazes de heroísmo, o nobre e o escravo, e as maiores riquezas se encontram na alma e são os tesouros espirituais.
O ambiente na África, de modo especial após a ordem de Séptimo Severo, era muito hostil aos cristãos. Hilariano, que exercia o cargo interino de Governador da Província, por morte do procônsul, queria a sua promoção e para agradar ao Imperador cumpriu à risca a sua ordem, sem nenhum sentimento de humanidade ou clemência.
Dias terríveis viveram os cristãos nas prisões de Cartago, amontoados em redutos escuros, onde tudo era insuportável aos sentidos. Habituada à nobreza, Perpétua, que se fizera batizar no cárcere, pois era catecúmena, valorizava o seu sofrimento, até que à custa de dinheiro, dois diáconos, Tertius e Pomponius, obtiveram mais humanidade dos guardas para com aquelas pobres criaturas, e os cristãos foram colocados em melhores lugares, onde mais fresco era o ar.
Ao lado dos sofrimentos materiais, a tortura da dor de seus pais e parentes. O velho pai que conseguiu penetrar na prisão tudo fêz para demovê-la da fé e desejo do martírio. Suplica-lhe que se compadeça dele e não envergonhe a sua velhice perante a sociedade; lembra-lhe o amor e desvelo com que sempre a distinguiu.
Momentos terríveis para o coração de Perpétua, ao ver seu pai prostrado aos seus pés, beijando-lhe as mãos, e suplicando-lhe que abandone a sua fé por ele, pela sua querida mãe e pelo seu filhinho.
No entanto, a força da graça de Deus, grande na alma de Perpétua, fez com que ela afastasse o pai, renunciasse às suas súplicas, para consagrar sua vida a Deus pelo martírio.
Nada foi capaz de quebrar a resistência da jovem mãe: nem as súplicas do pai, nem as ameaças de suplícios terríveis.
E as duas jovens, Perpétua e Felicidade, baldados os esforços em demovê-las de suas ideias, foram condenadas às feras.
Felicidade chegara ao oitavo mês de gravidez. As leis romanas proibiam a execução de mulheres em semelhantes circunstâncias, e ela temia que fosse adiado o seu suplício.
Entregaram-se ela e todos os cristãos prisioneiros à oração e Deus ouviu as suas preces. Felicidade prematuramente deu à luz uma criança.
No dia marcado, apresentam-se com semblantes alegres, dispostas a tudo por amor a Cristo, de quem jamais se afastariam. Recusaram as túnicas das cerimônias pagãs com que tentaram vesti-las.
Passando diante de Hilariano, disseram-lhe: "Tu nos condenaste, pois saibas que Deus te julgará".
Na arena de Cartago, as feras se lançam contra os cristãos. Perpétua e Felicidade, cobertas com pequeno agasalho, foram atiradas a uma vaca brava; esta as derrubou, mas não as matou. Vendo Perpétua que o pequeno pano que lhe deram para se resguardar da nudez se havia rasgado, apertou-o como pôde, ajeitou os cabelos, para que não parecesse estar triste e abatida. Os algozes não se atreveram a atirá-las mais às feras. Deveriam ser transpassadas pela espada. Por fim, caíram as duas jovens sob os golpes dos verdugos.
Perpétua, ferida no flanco, com uma horrível chaga, toma a mão do assassino inexperiente e coloca a ponta da espada sobre a própria garganta.
Assim, morreram as duas jovens mães, engrandecendo o valor da mulher no cristianismo primitivo.
A narrativa desta bela história a encontramos nas atas autênticas do martírio destas santas, redigidas em parte por Perpétua, em linguagem simples, sincera e elegante, e em parte, as páginas da narrativa do suplício, por testemunhas de vista, talvez Tertuliano, pela semelhança de estilo. Estão estas atas entre os trechos mais belos da literatura cristã antiga.
Os nomes das mártires figuram no Cânon da Missa, prova de quanto a Igreja primitiva as considerava.
E permanece para sempre a lembrança da fé e heroísmo destas duas jovens criaturas, uma nobre, outra escrava.
Em ambas a grandeza da maternidade a humana e a espiritual, gerando seus filhos para a vida e fazendo com que suas vidas se frutifiquem no heroísmo de sua imolação na arena sagrada pelo sangue dos mártires.
Filhos de mães heroicas, mães dignas de sua missão e da grandeza e mistério do próprio nome de Mãe!
A lembrança destas jovens mães despertem nos corações maternos a coragem e heroísmo para os deveres e encargos do lar. Cada mãe seja uma Mártir que cada dia se imole um pouco na arena do trabalho e do sacrifício. Somente assim se considerem dignas de sua alta e misteriosa missão na sociedade.
"As testemunhas dos fatos do martírio das Santas Perpétua e Felicidade, escreve o redator dos Atos dos Mártires, lembrar-se-ão da glória do Senhor, e aqueles que deles tiverem conhecimento, por esta narrativa estarão em comunhão com os santos mártires e, por intermédio deles, com Jesus Cristo Nosso Senhor, para quem são a honra e glória".

8 de novembro de 2017

As Mais Belas Histórias do Cristianismo - Parte 16

16. POLICARPO, O VELHO BISPO DE SMIRNA

Desencadeara-se em Roma mais uma feroz perseguição decretada pelo impiedoso Marco Aurélio, Imperador Romano, e dentre as numerosas vítimas da fúria sanguinária, Policarpo, Bispo de Smirna,
é mais um herói mártir que dignifica a Igreja dos primeiros tempos do cristianismo.
Teve a dita de ser discípulo do Apóstolo São João Evangelista de quem recebeu os primeiros ensinamentos da fé pela qual morreria com coragem e heroísmo.
Sagrado Bispo, foi-lhe confiada a diocese de Smirna, administrando-a como verdadeiro apóstolo, com energia e caridade, pela palavra e pelo exemplo.
O decreto de perseguição chega à Ásia, e o Bispo Policarpo pôde prenunciar suas conseqüências, quando vê doze cristãos, ovelhas suas, atirados às feras pelos seus perseguidores. Vendo o seu rebanho em perigo, Policarpo redobra os seus esforços, confortando suas ovelhas .e incentivando-as ao martírio. . É o Pastor vigilante pelo seu rebanho e que vai dar a vida pelas suas ovelhas, como o fizera Nosso Senhor, o Bom Pastor por excelência.
Foram os próprios cristãos que o esconderam em um sítio, fora da cidade, quando terrivelmente se incrementou a perseguição.
Entretanto, seu martírio lhe fora revelado em sonho, tendo visto seu travesseiro rodeado pelo fogo. "Meus amigos, diz ele, sei que serei condenado à morte pelo fogo. Deus seja bendito, porque se digna conceder-me a coroa do martírio". Poucos dias após, é prêso e conduzido ao anfiteatro, onde se realizava uma sessão de jogos com a presença do procônsul Quadrato.
Com calma e tranqüilidade admiráveis, Policarpo contempla de um lado o magistrado romano que o interroga; de outro, a multidão em gritos, quase a rugir. Pedem que insulte a Cristo e o renegue. Suas respostas são firmes e decisivas: "Há oitenta e seis que o sirvo e nunca me fêz mal. Por que hei de blasfemar contra o meu Rei e Senhor?"
- "Tenho as feras á minha disposição", resmunga o magistrado.
- "Que elas venham! Sou cristão, não as temo."
O procônsul, vendo a sua fé inquebrantável, sabendo que as feras não o amedrontam, decreta que ele morra pelo fogo.
Mas nem o fogo é capaz de perturbar o espírito de Policarpo; ao contrário, mais o inflamaria no amor de Deus.
- "Ameaças-me com um fogo que arde uma hora e depois se apaga, e nada sabes daquele fogo eterno que é preparado para os impios.
Vamos, não te demores, manda vir as feras, ou faze o que quiseres.
Sou cristão e não abandonarei a Cristo."
Anunciada a sentença, a multidão de pagãos e judeus conduz a lenha para a imolação do mártir. Antes que o corpo se queimasse, seus olhos se erguem para o céu e seus lábios entoam um hino de louvor a Deus pela glória do martírio que o torna digno de participar do cálice de Cristo para a ressurreição na vida eterna.
As chamas se elevaram com violência, o fogo contornou e, miraculosamente sem o queimar, envolveu o corpo do Mártir.
Resplandeceu luminoso, ante a admiração de todos que viam o poder de Deus, não permitindo que aquelas chamas queimassem o santo bispo, cuja santidade, à semelhança da prata e do ouro, mais se depurava e purificava no fogo.
Ofuscado pela cegueira e pela paixão, seus inimigos não quiseram reconhecer o poder de Deus que se manifestava de modo admirável.
Recebe o algoz a ordena de matá-lo com espada e assim se completa o seu martírio.
Policarpo era já velho, quase nonagenário, mas não há idade para se dar testemunho da fé e Deus dá sempre fôrça, mesmo aos mais fracos, para o seu combate.
Sua vida e sua morte nos são confirmados por Atas autênticas de seus escritos contemporâneos. E Santo Irineu, um dos seus discípulos, relembra em seus escritos os sábios ensinamentos deste grande Mestre do Cristianismo, uma das mais venerandas figuras de Mártires da antiguidade cristã.
À luz do mundo, anunciou Policarpo a fé no Cristo, e confessou "o Senhor diante dos homens:" Agora, "o Senhor o confessa diante de seu Pai celeste".
A Igreja de Cristo presta a sua carinhosa homenagem a este santo, cuja festa se celebra no dia 26 de janeiro, na comemoração de seu martírio, nascimento para a glória.
Uma auréola de imortalidade glorifica o velho Bispo de Smirna, cujo martírio contribui para consolidar a fé cristã e demonstrar ao mundo de que é capaz o Cristianismo sempre vivo na santidade de seus membros.

5 de novembro de 2017

As Mais Belas Histórias do Cristianismo - Parte 15

15. INÁCIO, TRIGO DO CRISTO

No martirológio romano, dentre a série imensa de milhares que deram por Cristo a sua vida, encontramos o seguinte relato: "Em Roma, Santo Inácio, Bispo e Mártir, foi o segundo sucessor do Apóstolo São Pedro na Cátedra de Antioquia; durante a perseguição de Trajano foi condenado a ser devorado pelas feras e levado algemado para Roma. Ali, por ordem de Trajano,foi submetido perante o Senado aos castigos mais cruéis e depois jogado aos leões. Devorado pelas feras, foi uma vítima pelo Cristo".
Assim são os mártires do cristianismo. As crueldades não lhe causam temor, suportam os maiores castigos e se gloriam de serem dignos de morrer por Cristo. O martírio para eles é vida, e derramar o sangue pela fé é recompensa que vem coroar uma vida de heroísmo.
Enumerando algumas figuras heroicas da gesta dos Mártires Cristãos, evocamos e engrandecemos a multidão das outras não menos heroicas, mesmo as mais anônimas, as mais obscuras, desde as mais altas figuras dos bispos e dos padres, até o menor do escravos, que com a mesma firmeza e ânsia pela glória do céu se deixaram martirizar.
Santo Inácio, bispo de Antioquia, se coloca entre os heróis da primitiva Igreja. Governando a Igreja de Antioquia, onde a semente cristã se desenvolvera de maneia admirável, foi Inácio vítima do ódio anticristão que se manifestara violento nas perseguições oficiais do Império Romano. Natural da Síria, é uma das grandes figuras dos tempos apostólicos, tendo sido discípulo dos Apóstolos e mais tarde sucessor de São Pedro em Antioquia, que, depois de Roma, era a mais importante cidade do velho mundo.
Governava Roma o Imperador Trajano, soldado garboso, de porte varonil, que, inimigo do luxo, fizera a pé sua entrada na capital romana, sob os entusiásticos aplausos do povo que o sabia capaz de continuar a grandeza do Império.
Grande administrador, defensor do direito e da justiça, mareou, porém, o brilho de sua glória, maculou sua memória pelo desregramento dos costumes e a perseguição que moveu contra os cristãos, seus melhores súditos. A Plínio, legado imperial da Bitínia, que pessoalmente examinou a conduta dos cristãos e escrevera ao Imperador, comunicando-lhe nenhuma falta neles encontrar, responde o Imperador com palavras que bem assinalam o seu caráter: "Não convém dar buscas aos cristãos, mas acusados e examinados, devem ser condenados à morte, caso não abandonem o cristianismo." "Sentença estranha", vai dizer Tertuliano, "Proíbe procurar os cristãos, reconhecendo implicitamente sua inocência, e por outro lado ordena que sejam punidos por simples denúncia". Este é o amor de justiça dos príncipes mais decantados da Roma pagã.
Acusado e condenado em Antioquia, foi Inácio levado a Roma, escoltado por soldados. Sua vigem foi um caminho para o martírio, e por onde passava, era festivamente recebido pelos cristãos. Escreve
durante a viagem as sete cartas, a Smirna, a Filadélfia, a Policarpo, aos efésios, magnesianos, tralianos e romanos. Nelas expande o seu amor a Cristo, o seu desejo de ser unido a ele e seu zelo pela salvação das almas. São suas cartas um dos mais preciosos documentos da Igreja antiga, em que se manifesta conhecedor da sua Constituição, grande administrador e notável místico com admiráveis meditações sobre Cristo e a vida espiritual. A carta aos romanos em que demonstra seu intenso desejo de morrer por Cristo, é no dizer de Renan "Uma das jóias da literatura primitiva cristã".
Não precisam os documentos a data de seu martírio. Certamente, quando das comemorações da vitória de Trajano sobre os Dácios.
Em todo o esplendor do ouro e do mármore já se levantara o Coliseu. Festas estrondosas se realizavam em Roma. Durante vários dias os anfiteatros regurgitavam e mais de dez mil gladiadores foram sacrificados e com eles umas onze mil feras. Das Províncias vieram os atletas. Os Governadores de países longínquos enviaram feras, prisioneiros e criminosos para a Metrópole, onde nas disputas na arena representavam dantescos espetáculos aos olhos dos vaidosos espectadores que constituíam a corrupta sociedade romana.
Ao penetrar o santo homem na capital do império, olhares sedentos de sangue se digiram a ele e pedem a sua morte. É o Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas, que morre, para que as ovelhas tenham vida.
Ei-lo na arena do majestoso Coliseu. Abrem-se os gradis e as feras se lançam sequiosas de sangue sobre os milhares que se espalham na arena. Os olhos de Inácio se voltam para Deus, tranquilos. Ao ouvir o rugido dos leões, exclama: "Eu sou o trigo do Cristo; pelos dentes das feras hei de ser triturado, para me tornar pão purificado."
A sociedade romana, ébria de poder, riquezas e prazeres, sacia seus olhares no anfiteatro, onde um pobre velho é atirado às feras.
Momentos após, poucos vestígios de sangue na branca areia marcaram o lugar, onde o mártir expirou, e donde sua alma se elevou para o reino da glória.
Alguns cristãos penetram na arena do anfiteatro, agora deserta, para retirar e guardar alguns poucos pedaços de ossos, que constituem as santas relíquias do Bispo de Antioquia.
Dele se conservam estas santas relíquias e as mais belas lições de vida e virtudes. Em suas cartas exorta os fiéis à vida de concórdia, união e obediência na comunidade cristã: "Onde está o bispo, escreveu ele, deve estar o povo, da mesma forma que se diz: onde está Cristo, está a Igreja".
De suas cartas extraímos trechos encantadores: "Só Um Jesus Cristo e não existe ninguém melhor do que Ele" (Carta aos Magnesianos, Cap.7). "Um cristão não tem direito ilimitado sobre si mesmo; seu tempo pertence a Deus" (a S. Policarpo, cap. 7). "É belo morrer a este mundo para Deus, para ressurgir para Ele" (aos Romanos, cap. 12).
A história deste Bispo, herói do cristianismo, Mártir de sua fé, empolga pela bravura e coragem de um gigante da fé e do amor de Deus, que tomba na arena do dever, triturado antes pelas feras que macularam a história do Império Romano do que pelas feras selvagens que o abateram na arena do Coliseu, glória da arte de Roma, e orgulho dos milhares de mártires que aí tombaram pela Igreja e por Cristo.

31 de outubro de 2017

As Mais Belas Histórias do Cristianismo - Parte 14

14. O CRISTIANISMO NA ROMA PAGÃ

Destruição de Jerusalém foi um golpe decisivo para os judeus cristãos que sonhavam uma igreja nacional judia, com exagerado culto à tradição legal de Moisés. Triunfara, por fim, o conceito exato de "Ecclesia”, a sociedade de todos os crentes em Cristo, sem distinção alguma de nacionalidade ou de condição, conforme os ensinamentos de S. Paulo: "Já não há gentio, nem judeu, circuncidado ou incircuncidado, Bárbaro ou Seita, de servo e livre, mas Cristo é tudo em todos" (Colos. III, 11). Portanto, "um só Senhor, uma só fé, um só batismo" (Ef. IV, 5) na Igreja que deve ser santa, porque Cristo morreu para purificá-la de toda mancha.
O cristianismo que viera do Oriente, passadas as perseguições sangrentas, haveria de encontrar na capital do Império ambiente favorável para a afirmação de sua doutrina e o centro donde se irradia para o mundo todo. Roma nos primeiros tempos do cristianismo dominava todos os países do Mediterrâneo, e seu domínio se estendia por vastas regiões, numa população superior a 120 milhões de súditos. Neste imenso Império havia de ser pregada a religião de Cristo e estabelecida a sua Igreja.
Ao lado de gigantescos progressos na vida material que levava prosperidade ao mundo romano, via-se uma decadência acentuada na vida intelectual e nos costumes A filosofia em crise, quando poucos se interessavam pelos conceitos de existência e liberdade; a religião antiga em decadência; as classes altas haviam perdido a noção da "verdadeira" divindade, e já os deuses não eram cultuados; prevalecia a superstição, e o povo chegou a tributar honras divinas a homens vivos, como os imperadores. A grande missão do cristianismo era precisamente libertar aqueles espíritos oprimidos pelo paganismo e abrir-lhes o caminho para a nova luz. As condições romanas eram em parte favoráveis à expansão do cristianismo, como a paz romana, a língua única, as comunicações, a superficialidade das religiões orientais até então, o paganismo desacreditado pelos filósofos. De outra parte, os novos valores espirituais trazidos pelo cristianismo, em oposição aos humanos e morais em que se apoiava o férreo poderio imperial, eram a certeza de tremenda luta sangrenta que pouco depois se desencadearia.
O cristianismo pregava uma renovação dos costumes que nenhuma religião pagã jamais havia exigido com tanta energia. O Reino de Deus deveria se conquistar com violência. A progressiva afirmação do pensamento cristão preocupou não só os filósofos pelas suas novas idéias, como também o governo obrigado a defender a religião oficial do Império romano. Tragicamente célebres as sangrentas repressões, fruto da luta do Estado romano que pretendeu destruir com violência e tirania a nova religião, o que jamais conseguiu, pois Cristo protegeria sempre os seus: "eis que estarei convosco todos os dias até à consumação dos séculos".
Apesar da liberdade concedida aos cidadãos romanos de praticar livremente os cultos de nações estrangeiras, a participação do culto público oficial, especialmente quando dirigido aos imperadores e a Roma, era considerada como manifestação expressa de fidelidade ao Império, e negar-se a isto, era crime contra a divindade e o Estado.
O cristianismo não admitia equívocos; cuco culto que não fosse o seu constituía uma impiedade. Os cristãos jamais cultuariam os deuses e começaram a ser acusados e em conseqüência perseguidos como inimigos do Império.
Desde o martírio de S. Pedro e S. Paulo, no reinado de Nero, até o advento de Constantino a Igreja foi perseguida. Houve anos de relativa tranqüilidade, mas as lutas eram recrudescidas a cada passo. O número de perseguições gerais varia segundo os autores, uns apontando as maiores e que se estenderam a todo Império, outros apenas as menores e que atingiram algumas partes somente do vasto reino.
Das Atas dos Mártires, dos escritos dos Santos Padres e testemunhos de escritores pagãos, se deduz que o número dos que sofreram o martírio foi muito elevado. Nero inaugurou as perseguições contra os cristãos, tomando por base o grande incêndio que em 64 destruiu boa parte de Roma, e do qual os cristãos foram injustamente culpados. Provavelmente esta perseguição não se, estendeu por todo o Império.
Domiciano foi o segundo perseguidor. Apesar de suas eminentes qualidades, sua inteligência e amor ao trabalho, era de índole antipática, orgulhoso, querendo tudo para si, suspeitando de tudo e de todos. O furor com que se lançou contra a aristocracia romana que teve alguns elementos sacrificados, por crime de conspiração, estendeu-se aos filósofos que se permitiam defender os direitos de liberdade, e chegou até os cristão. A nova fé já se alargara, subira às altas camadas sociais, e membros de aristocracia, convertidos ao cristianismo, como Atílio Glabrião, Flávio Clemente e sua esposa Flávia Domitila, foram martirizados. A vítima mais ilustre de Domiciano foi o apóstolo São João, mergulhado, por ordem do tirano, numa caldeira de óleo a ferver. O discípulo predileto, saindo
daí incólume, foi desterrado para a ilha de Patmos, onde escreveu o Apocalipse.
Com alguns intervalos que garantiram paz aos cristãos, continuaram a ser perseguidos no reinado de Trajano, Marco Aurélio, Séptimo Severo, Maximiano, Décio, Valeriano, Aureliano e finalmente Diocleciano. Todos estes passaram a história manchados pela perfídia e desprezados pela posteridade. A mais feroz das perseguições foi a ordenada por Diocleciano, a última do Império. Havia trinta anos que os cristãos estavam em paz; suas reuniões eram públicas. Por toda parte, nos altos postos, muitos magistrados e funcionários do Império eram conhecidos como cristãos. Já eram numerosos os que viviam na côrte. Prisca, mulher de Diocleciano, e Valéria, sua filha, mantinham com os cristãos estreitas relações. O paganismo se desmoronava e começava a dominar a nova doutrina do cristianismo. Durante dez anos, Diocleciano via tudo isto e nada modificou. Razões obscuras não conseguiram ainda explicar as causas da perseguição, a mais terrível de todas. Para o historiador cristão Lactâncio, que frequentava a casa imperial, e deveria ser bem informado, Galério, a quem Diocleciano confiou a Ilíria, na divisão do Império, fora o grande responsável pela perseguição. Homem bárbaro, decidiu ele que os militares cristãos fossem intimados a sacrificar aos deuses, se quisessem continuar em seus postos.
Diocleciano, que a princípio hesitava em desencadear a perseguição, impressionado pela astúcia-de Galério, pelos arúspices e oráculos que afirmavam que 'a presença de cristãos na escolta entravava os poderes divinos, prepara o edito e ordena que se fechem as assembleias cristãs, sejam demolidas as Igrejas, destruídos os livros sagrados, e os cristãos para desempenharem funções públicas obrigados a abjurar a fé cristã. Outros editos se seguiram e desencadeou-se através de todo o império a perseguição sanguinária.
O Ocidente sofreu menos, porque Constâncio Cloro, que tinha por esposa uma cristã, Helena, era simpatizante dos cristãos, e senhor de grande parte dos territórios, reduziu ao mínimo a opressão na
Gália e Bretanha. Dolorosa a enumeração de todas as crueldades, e narrativas impressionantes de martírios nos deixou esta perseguição, com as mais horríveis torturas, especialmente no Oriente, onde Galério feria sem piedade.
Em Roma, o nobre soldado Sebastião teve seu peito abrasado mais ainda no amor de Deus pelas setas sangrentas dos carrascos imperiais. Soldado da Pátria, disposto a defendê-la na paz e na guerra, ele o era também de Cristo, cuja fé jamais trairia. Diocleciano afastou-se do governo e teve ainda alguns anos para presenciar o triunfo do cristianismo que ele combatera tão cruelmente. Passaram as perseguições! O cristianismo transpôs a todos os obstáculos, semeando pelo Império romano o sangue dos mártires. "Semen est sanguinis christianorum", dirá Tertuliano. Semente que germinou, cresceu e desenvolveu-se por todo o mundo. A cristandade nascente nos faz pensar na comparação evangélica do pequeno grão de mostarda que é a mais pequena das sementes, mas que se desenvolve, torna-se árvore, onde as aves do céu fazem o seu ninho. Tornava-se presente em toda a parte, irradiando-se e lançando pelo mundo as suas sólidas raízes que jamais poderiam ser arrancadas.
Pela história do cristianismo conhecem-se as florescentes comunidades da Gália, África e Ásia com suas ilhas; outras em Alexandria do Egito, que se celebrizariam pelos estudos teológicos mais tarde, na Grécia e pelo Império .todo, onde se encontram as mais belas ruínas cristãs, monumentos históricos que comprovam a florescência dos primeiros tempos.
A sementeira cristã que se fizera no espaço, espalhara-se no coração da gente, e aos poucos a palavra evangélica, antes acolhida pelo povo humilde somente, atingiu as classes ricas, as esferas sociais superiores. E Tertuliano, com razão, chegou a afirmar: "Os pagãos se imitam ao verem entre os fiéis de Cristo gente de todas as categorias". Não obstante o seu entusiasmo literário ao dizer: "Somos de ontem e enchemos já as nossas cidades, as nossas praças, os municípios, os conselhos, os campos, as tribos, as decúrias, o Palácio, o Sevado", anos mais tarde, Orígenes dirá que os cristãos são ainda "muito pouco numerosos", entre os milhões de habitantes do Império, uma minoria no primeiro século, mas ativa e que crescerá sempre, tornando-se dois séculos depois uma maioria. Sepultados na própria monstruosidade de seus crimes, desapareceram os tiranos perseguidores dos cristãos. E chegou o momento do triunfo para o cristianismo. A cruz se gravou luminosa no céu, como aurora refulgente de uma nova era: "Com este sinal vencerás!"
E brilhou fulgurante no coração do Imperador Constantino. Era a vitória final! A Igreja vencera os déspotas com a fôrça e heroísmo de seus membros.
E a cruz se fincará para sempre na terra remida pelo sangue de Cristo!

27 de outubro de 2017

As Mais Belas Histórias do Cristianismo - Parte 13

13. OS PRIMEIROS APOLOGISTAS.

No século II aparecem os célebres apologistas, escritores eméritos que escrevem aos não-cristãos, expondo de modo compreensível e brilhante a doutrina da Igreja, defendendo-a das objeções e respondendo ás calúnias pela sublimidade dos exemplos de vida cristã de seus membros.
A Carta a Diogneto é um primor pelo estilo e pela descrição da vida cristã daquela época. Infelizmente, não sabemos quem seja este Diogneto, como também é anônimo o autor.
Nesta nova modalidade de literatura vamos encontrar no século lI grandes apologistas, como Aristides, S. Justino, Atenágoras, Teófilo de Antioquia, Santo Irineu, Minúcio Félix,
São nomes que se sobressaem pelo esfôrço e dedicação em demonstrar a sublimidade da doutrina cristã, e defendê-la das gratuitas acusações.
Pelas duas apologias, pelo Diálogo de Trifon, obras magistrais que nos legou, São Justino se celebrizou como um dos maiores apologistas do cristianismo. Sua vida de santo e mártir o torna credor da admiração e respeito das futuras gerações.
É a inteligência brilhante e jovem em busca da verdade, entregue á filosofia, e que, amparada pela experiência de um ancião cristão, chegou ao conhecimento de Deus.
Vagou Justino por várias escolas, pela estoica, peripatética, pitagórica, platônica e desta à cristã foi um passo.
São notáveis as suas apologias, expondo a verdade do cristianismo pelo cumprimento das profecias, a. falsidade de culto aos deuses, e a santidade de vida dos cristãos.
Os acontecimentos do Antigo Testamento prefiguram a grandiosa realidade do Nôvo Testamento.
O Diálogo de Trifon, filósofo judeu, é uma resposta aos judeus que continuavam agarrados á lei judaica, desconhecendo a veracidade do cristianismo.
No Império de Marco Aurélio, São Justino foi preso, e confessando com coragem a sua fé, teve sua cabeça cortada.
Atenágoras, filósofo de Ateiras e cristão, nos deixou obras apologéticas importantes, com a "Legatio pro Christianis", apologia perfeita, dirigida a Marco Aurélio em favor dos cristãos, defendendo-os das falsas acusações. Em sua obra "'De ressurrectione mortuorum", prova a ressurreição dos corpos, motivo de escândalo para os pagãos.
Foi no auge das perseguições, quando a Igreja era dizimada em seus membros, atacada em sua doutrina, que surgiu a grande figura de Irineu, que feito bispo de Lião, defendeu o seu rebanho com extrema dedicação e zelo.
Por grande graça de Deus, recebeu a fé dos próprios pais, que já eram cristãos, tendo sido educado num ambiente de fé e cristandade. Recorda com carinho e emoção os anos da infância em que do santo bispo Policarpo aprendera os ensinamentos que o santo recebera do Apóstolo S. João.
Escreveu o "Tratado das heresias", em cinco livros, expondo e refutando nos primeiros os erros dos hereges, especialmente os gnósticos, pela Escritura e Tradição, mostrando esta como fonte da verdade revelada. Nos demais livros de sua obra apresenta a doutrina cristã, com precisão e clareza admiráveis, base do pensamento cristão futuro. Morreu, talvez martirizado, no Império de Séptimo Severo.
"Pérola da literatura apologética", no dizer de Renan, é o “Octávio", de Minúcio Félix. Escrita em um latim primoroso e poético, esta obra encanta pelo diálogo travado entre dois amigos que se encontravam à beira mar: Octávio, que era cristão e o pagão Cecílio. A atitude de Cecílio, saudando a estátua de um deus foi motivo para uma discussão, onde predominou de uma parte a boa fé e o desejo de conhecer a verdade, e de outra, a convicção firme, a fé esclarecida, que dissipa as dúvidas do amigo e o conduz á verdade.
Dois rapazes que num momento de tranqüilidade, preparando-se para uma atividade esportiva, à beira-mar, vão travar um diálogo que se imortalizaria na literatura cristã. Cecílio e Octávio, de nobres
descendências, pertencem á sociedade romana, a famílias abastadas.
Octavio já fora iluminado pela graça da fé cristã e Cecílio ainda se conservava apegado à religião tradicional do Império, e colocava muitas dúvidas na doutrina cristã, julgada por muitos na ocasião como sociedade secreta, ímpia e criminosa.
Octávio,com delicadeza e convicção, expõe ao amigo a realidade do Evangelho de Cristo, provando-lhe com argumentos convincentes a existência de um só Deus, e o absurdo do culto aos deuses. O diálogo se prolonga... Cecílio, com atenção e entusiasmo, escuta as palavras amigas que lhe apontam horizontes até então desconhecidos.
Não eram verdadeiras as histórias que se contavam dos cristãos, e Otávio os defende de tantas acusações caluniosas e falsas, demonstrando ao companheiro, de maneira elevada, os exemplos de vida digna, heroica e santa dos cristãos.
Um raio de luz parece iluminar a inteligência de Cecílio, que se desperta na ânsia suprema de saber mais e tudo conhecer dos cristãos e de sua doutrina.
Era a graça de Deus, dom inesgotável da misericórdia divina que recompensa a boa fé e dedicação daquele coração. Foi o primeiro diálogo e uma introdução à verdade. Certamente, muitos outros encontros se realizaram e os ensinamentos transmitidos aos poucos, empolgavam sempre mais aquela alma que vencida pela graça, se converteu, abraçando a fé cristã.
Foram as obras dos Padres da Igreja o fundamento sólido sobre o qual se firmou o pensamento cristão. Na construção de uma literatura cristã, encontramos a base lançada pelos Apóstolos que fixaram a doutrina do Salvador.
Vieram depois aqueles que foram discípulos dos Apóstolos e que incrementaram esta literatura, legando-nos tesouros de inestimável valor. Por fim, os apologistas que buscaram várias escolas filosóficas aquilo que de certo lhes apresentavam, e criaram a filosofia cristã que abriu às inteligências os mais profundos caminhos para as investigações", obrigando-os, no dizer de Daniel- Rops -, a perscrutar cada vez mais as verdades sobrenaturais, fazendo do cristianismo o sistema de pensamento religioso mais sólido do mundo, ao pé do qual são inconsistentes todas as teologias pagãs."
Estávamos no fim do século II e no início do III. As perseguições continuavam. A literatura cristã mostrava o vigor da religião nova que, perseguida pelos poderes e negada pelos hereges, lançava sobre o mundo a revolução da Cruz.
E os Padres e escritores da Igreja, cheios de amor a Cristo, legaram à posteridade obras magistrais, muitas delas assinadas com o próprio sangue, marca indestrutível da fé e do heroísmo da inteligência cristã.

23 de outubro de 2017

As Mais Belas Histórias do Cristianismo - Parte 12

12. A LITERATURA CRISTÃ DOS SANTOS PADRES

Fixados os livros do Novo Testamento, estava encerrada a Escritura inspirada. Estavam lançadas as bases da literatura cristã e aí encontrariam os homens verdadeira fonte de matéria inesgotável como o cristianismo, donde surgiu o conjunto literário de volumes e mais volumes de obras dos Padres da Igreja.
Num sentido mais estrito este nome designa aqueles que fundaram o pensamento cristão e que são os dois cinco primeiros séculos, até à queda do Império Romano.
Exerceram eles grande influência em todos os tempos, e os escritores eclesiásticos aí bebem os mais preciosos tesouros da teologia e mística da Igreja.
O nome de Padres, que era dado inicialmente aos Chefes de Igreja, como Bispos, estendeu-se a todos aqueles que através de suas obras combatiam as heresias e os erros, defendendo a doutrina íntegra da Igreja.
Para serem considerados Padres da Igreja, os escritores tinham que apresentar certas condições, como antiguidade, ciência ortodoxa, reconhecimento pela Igreja e santidade, pois os seus ensinos deviam primar não só pelas palavras, mas sobretudo pelo exemplo de suas vidas.
Num sentido mais largo são chamados Padres da Igreja os escritores de grande inteligência, que floresceram na Igreja até à Idade Média, como Santo Tomás, S. Bernardo e outros.
Entretanto, a opinião dos grandes historiadores e críticos reserva tal designação apenas para os que se distinguiram nos primeiros séculos, e outros conservam o nome de Padres da Igreja apenas para os que foram discípulos dos apóstolos.
Aqueles que aliam à grande ciência uma santidade eminente e cuja autoridade é reconhecida por todos, são chamados Doutores da Igreja, título este com que se honra um pequeno número de homens
escolhidos.
Citando os Padres Apostólicos, aqueles que foram dos primeiros tempos, contemporâneos dos apóstolos, encontramos os romanos S. Clemente e Hermes, o sírio Santo Inácio, os asiáticos S., Policarpo e Pápias, o autor desconhecido da Epístola de Barnabé. Escreveram em geral cartas que são valiosos documentos históricos, onde encontramos a vida da Igreja primitiva dos Apóstolos e dos Mártires.
São todos preciosos tesouros que nos mostram a vida dos fiéis nos primeiros tempos, os problemas surgidos com o desenvolvimento dos cristãos, os Sacramentos da Igreja e os ritos de sua administração.
Alguns documentos só foram encontrados séculos depois, como o livrinho chamado Didaqué, tão usado pelos primeiros fiéis e que era uma espécie de compêndio de todas as suas obrigações, com noções de doutrina e mesmo liturgia. Não se conhece o autor de Didaqué, e o da Epístola de Barnabé, o que não lhes tira a autoridade.
Muitos outros livros se perderam, e de alguns só nos restam fragmentos, muitos preciosos, como os escritos por Pápias, bispo de Hierópolis.
Papel importante exerceram os Padres Apostólicos, que se constituíram um elo que ligaria para sempre os Apóstolos ás futuras gerações, iniciando a valiosa tradição, cujos argumentos seriam sempre de poderosa fôrça na exposição do dogma cristão.

21 de outubro de 2017

As Mais Belas Histórias do Cristianismo - Parte 11

11. A LITERATURA CRISTÃ PRIMITIVA.

Encontramos no Evangelho apenas uma passagem que nos afirma que Jesus escreveu. E o fez sobre a areia, censurando aqueles que condenavam a mulher adúltera: "O que de vós está em pecado, seja o primeiro que lhe atire a pedra" (João VIII, 7).
No entanto, já no fim do primeiro século, encontramos a mensagem de Cristo traduzida em livros, o início de uma verdadeira literatura cristã que aos poucos se foi aperfeiçoando. A Igreja nascente que era santa em seus membros, heróica em seus mártires, era também sábia em seus escritores.
Costume era em Israel os alunos escutarem os seus mestres e repetirem suas máximas com exatidão. Os apóstolos ouviram a Nosso Senhor que falava sempre de maneira extraordinária. Embora nada escrevesse, suas palavras eram simples, ao alcance de todos, eloqüentes e completas.
Para bem se fazer compreender, falava por alegorias e comparações, e as parábolas do Evangelho encantam pela beleza e eloqüência. Os apóstolos, na primeira catequese, procuravam transmitir de maneira perfeita tudo aquilo que receberam de Jesus.
Era a pregação oral, simples, resumindo de forma completa a doutrina cristã. A vida de Nosso Senhor era demonstrada na sua fase oculta, que fôra preparação para o seu ministério, a grande atividade dos três anus de vida pública, na Galiléia e na Judéia, culminando com a Paixão e Ressurreição.
Conhecemos o grande amor que tinham os antigos pela tradição oral. Os ensinamentos eram transmitidos de homem para homem, através das gerações. A missão dos apóstolos era transmitir a mensagem de Cristo aos seus discípulos que por sua vez a passariam à posteridade.
Entretanto, com o grande crescimento da Igreja, temia-se pela integridade e fidelidade da transmissão. Surgiram, então, os primeiros livros, pequenos, redigidos em grego e autenticados pelos
apóstolos, e que continham os ensinamentos de Cristo.
Pouco depois encontramos os ensinos e vida de Jesus em um único livro - o Evangelho - que contém os quatro evangelhos.
A finalidade dos evangelistas não é de ordem literária, mas a fidelidade em transmitir os ensinamentos de Jesus, dando cada um dêles o seu próprio testemunho. Estão de acôrdo quanto às substância da doutrina, mas variam na forma e no estilo. Os três primeiros são chamados sinópticos, pela disposição dos parágrafos, permitindo uma leitura simultânea.
O historiador Pápias, em 130, afirma que "Mateus pôs em ordem os ditos de Jesus em arameu". Escreveu na Palestina o seu Evangelho e o fêz de acôrdo com o meio e o pensar do povo judaico, sem se preocupar com dados biográficos, mas referindo tudo aquilo que ouviu de Jesus. Sua obra se baseia nos grandes discursos do Mestre.
Marcos se preocupou em escrever o que ouvia de Pedro, que em suas catequeses se referia à vida de Cristo e á sua doutrina. Não há arte, nem ordem em seu evangelho, pois se limitava em redigir o que ouvia de Pedro, cuja pregação atendia às necessidades e circunstâncias: Já o Evangelho d.e S. Lucas é obra prima, a primeira do cristianismo, redigida em elegante grego e de forma artística e inteligente. Lucas era de fato um homem de ciência, "o médico querido", de que S. Paulo fala várias vêzes em suas cartas, o companheiro de viagens do Apóstolo das Gentes. Iniciado o seu trabalho, não apenas se baseou nos escritos de Mateus e Marcos, mas procurou ouvir testemunhas, quando de sua estadia na Palestina.
É possível que a própria Virgem Santíssima lhe tenha dado preciosos informes dos primeiros tempos de Jesus.
O quarto evangelho é o de São João, o discípulo do Senhor, aquêle que repousou sôbre o seu peito. Sempre acompanhando 0 Divino Mestre em sua vida pública, João pôde descrever de maneira mais precisa as caminhadas feitas por Cristo, e os locais exatos de seus discursos e de seus milagres. E escrevendo em um tempo onde já apareciam as heresias, João procurou dar resposta a todos os erros, e não se contentou apenas em narrar fatos materiais, mas tornou o seu evangelho espiritual, no dizer de S. Clemente de Alexandria. Em cada um dos milagres realizados por Cristo, descreve êle a preparação para os grandes milagres de ordem espiritual. Assim, a multiplicação dos pães prefigura a Santíssima Eucaristia; a ressurreição de Lázaro, a vida eterna que Cristo nos promete; o Bom Pastor, o próprio Cristo a vigiar e conduzir as suas ovelhas.
Novos escritos vieram juntar-se à literatura cristã iniciada nos Evangelhos: os Atos dos Apóstolos, as Epístolas e o Apocalipse.
Os Atos, recolheram as primeiras atividades dos apóstolos, e são um documento valiosíssimo para a história do Cristianismo, que aí encontra os seus primeiros dias, as primeiras conversões, a vida de comunidade dos fiéis em Jerusalém. a evangelização da Judéia e Samaria, bem como o início das pregações em terras pagãs.
Descrevem-nos também a conversão de São Paulo e as suas longas viagens de evangelização.
São os Atos atribuídos a S. Lucas, pela semelhança de estilo com o seu evangelho, e apresentados de forma inteligente, bem estudada e documentada.
S. Lucas, que era um homem de ciência, não apresentou um trabalho teológico. Preocupou-se em narrar a missão apostólica e o desenvolvimento da Igreja nascente.
Seu trabalho se completou pelas famosas Epístolas dos Apóstolos, especialmente as de S. Paulo, conjunto de textos morais, espirituais e teológicos, enviados às comunidades que surgiam, garantindo a sua fidelidade e amor á doutrina nova do Evangelho.
As Epístolas de S. Paulo são extraordinárias pela segurança de suas normas, plenamente de acôrdo com a sua própria vida de um convertido que se santificava cada dia.
São a interpretação admirável da mensagem de Cristo, adaptada não apenas ao seu tempo, mas aos tempos todos, que aí encontram a verdadeira fonte da grandeza, unidade e refulgência da doutrina e moral cristãs.
Os grandes autores da Teologia e Filosofia cristãs sempre se fundamentam nas citações do grande Apóstolo, autenticando suas monumentais obras com o sêlo do pensamento paulino que de forma admirável e incomparável interpretou a mensagem do Rendentor da humanidade.
As demais Epístolas, embora destituídas da profundidade e inteligência das precedentes, são obras preciosas pelos ensinamentos morais, como a de São Tiago, pela documentação histórica, como as de São Pedro, e pela fortaleza nos perigas e perseguições, como as de S. Judas Tadeu. A elas se reunem as de S. João, escritas aos fiéis para combater os herejes que negavam a divindade de Jesus, a necessidade das boas obras, e salientando em suas cartas o amor fraterno que deve unir todos os cristãos.
A estas obras tôdas da literatura cristã dos apóstolos, acrescente-se o Apocalipse, que foi escrito por S. João, quando desterrado se encontrava em Patmos. Chamou-se Apocalipse, teto é, revelação, pois trata de cousas futuras. A Igreja o considera como livro profético. Foi escrito em uma época em que a Igreja se encontrava perseguida em Roma. O próprio João fôra testemunha destas calamitosas opressões, e escapara miraculosamente do martírio. Foi a reação do apóstolo que através das inúmeras imagens, das visões selvagens, da besta apocalíptica, e de brilhantes símbolos, demonstra a segunda vinda de Cristo no juízo final para julgar os vivos e os mortos, como Rei de justiça.
Era um facho de esperança em meio às perseguições. A certeza de que não prevaleceriam as fôrças do mal, e que a vitória no fim dos tempos seria de Cristo e da Igreja, fortaleceria os fiéis. "Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o último, o Princípio e o Fim" (Apoc. 22, 13).
Com os textos de S. João, encerra-se a lista dos livros inspirados que formam o Nôvo Testamento. Aí o resumo da grandiosidade da doutrina e moral cristãs,o compêndio da mensagem de Cristo Salvador ao mundo!
São os primeiros textos cristãos fonte inesgotável de ensinamentos, que jorram abundantes do Coração de Cristo e que transmitidos pela eloqüência e vigor dos Apóstolos, se espalharam pelos séculos, constituindo a famosa literatura cristã, que proclama a grandeza e a glória da mensagem salvadora de Cristo à humanidade.

18 de outubro de 2017

As Mais Belas Histórias do Cristianismo - Parte 10

10. NOSSA SENHORA NOS ESCRITOS DE ALGUNS SANTOS PADRES.

Os monumentos das Catacumbas não são os únicos que proclamam o culto dos primeiros cristãos a Maria.
A invocação a Nossa Senhora se conclui dos escritos dos Santos Padres, desde os primeiros, preocupados em demonstrar e defender as prerrogativas da Santíssima Virgem.
Em muitas passagens dos Atos dos Apóstolos lemos que os cristãos primitivos pediam aos seus irmãos que intercedessem por eles, porque estes irmãos eram discípulos e amigos de Cristo.
Seria inacreditável que não recorressem à intercessão de Maria, a Mãe de Jesus, para alcançarem as suas graças.
Se muitos testemunhos vamos encontrar da crença e afirmação das prerrogativas de Nossa Senhora, de sua Maternidade Divina,
Virgindade, antes, durante e depois do parto, documentos que nos comprovem em escritos o culto de invocação a Maria, confessamos nos ser difícil encontrá-los.
Isto porque nos ficaram pouquíssimas obras anteriores à paz da Igreja, nos princípios do século IV, e em sua maior parte livros de apologética e de controvérsias, nos quais dificilmente encontraríamos de modo explícito o culto a Maria.
A princípio Maria ocupa lugar modesto e pouco se fala dela. Não obstante, as afirmações dogmáticas da Santíssima Virgem se encontram desde os primeiros tempos e na falta de documentos escritos da invocação a Maria, delas deduzimos o grande apreço que os fiéis primitivos tinham para com a Mãe de Deus.
A primeva onda mariológica começa na idade apostólica e chega ao seu auge com a definição da Maternidade Divina no Concílio de Éfeso, no ano 431.
Três são as principais idéias mariológicas na época que precede o citado concílio: A Mãe de Deus, a Virgem intacta, a Nova Eva.
No Oriente, os Santos Padres colocam em relevo a maternidade divina. Para Santo Inácio, bispo de Antioquia, Jesus, o Filho de Deus, foi verdadeiramente gerado, segundo a natureza humana, por Maria (Aos Efésios 7,2).
São Justino Mártir escreve que Jesus, que é Deus, tomou de Maria a natureza humana e nasceu dela como homem.
Santo Irineu propõe a mesma doutrina e a comprova com argumentos da Sagrada Escritura e da Tradição Católica.
A Virgindade de Maria foi também defendida pelos Padres da Igreja.
Na carta aos Efésios, Santo Inácio afirma a virgindade antes do parto e faz uma alusão à virgindade no parto. São Justino nos deixou documentos com a mesma afirmação. Santo Irineu já afirma explicitamente a Virgindade antes e no parto, e implicitamente depois do parto.
A virgindade perpétua, antes, durante e depois do parto, será afirmada mais tarde por Orígenes. São Pedro de Alexandria será o primeiro a designar Maria com o nome de "Virgem". Exaltam a perpétua virgindade Santo Efrem, Santo Epifânio, São João Crisóstomo, São Gregório Taumaturgo e outros.
A ideia de Maria, a Nova Eva, encontra-se já no século II em São Justino: "Cristo fez-se homem por meio da Virgem, afim de que a desobediência provocada pela serpente tivesse fim pela mesma via por onde havia começado".
Santo Irineu desenvolve esta ideia e chama a Maria, a Advogada de Eva".
Também alusões à santidade e realeza de Maria encontramos nos Santos Padres. De modo explícito Santo Efrem fala que Maria é imune de toda mancha de culpa.
São Gregório invoca a Maria e afirma que por sua intercessão recebera a verdadeira doutrina da fé sobre a Santíssima Trindade.
Este fato pareceu tão natural que ninguém se admirou, o que prova que o culto deprecatório à Mãe de Deus não era uma novidade na Igreja.
No Ocidente, a Mariologia foi descrita pelos Santos Padres realçando as prerrogativas de Nossa Senhora.
Tertuliano faz da maternidade divina o centro de sua Mariologia.
Santo Hipólito Romano é o primeiro a usar o termo "Theotocos", isto é, Mãe de Deus. E a maternidade divina é exaltada por Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São Zenon e outros. Em relação à virgindade perpétua, para Santo Hipólito Maria Santíssima é a Virgem por antonomásia.
Santo Ambrósio faz da Virgindade perpétua de Maria o ponto central de sua Mariologia. O mesmo ensinam outros Santos Padres, como Santo Agostinho, e São Jerônimo, que foi o primeiro e o mais forte apologista da virgindade perpétua de Maria.
Entre os ocidentais foi Tertuliano o primeiro a pôr em relevo a ideia de Maria, a Nova Eva. Santo Ambrósio, no notável paralelismo Eva-M arfa, afirma que a Virgem concebeu a salvação de todos. Fala depois sobre a maternidade espiritual e universal de Maria, fundamentando-a na doutrina paulina do Corpo Místico de Cristo, que por Maria tornou-se cabeça universal da humanidade. A ideia de Maria, a Nova
Eva, encontra-se também em São Zenon, São Jerônimo e Santo Agostinho. Como Santo Ambrósio, fala-nos Santo Agostinho da maternidade espiritual de Maria, a “Mãe dos membros de Cristo, que somos nós”.
A santidade e realeza de Maria são exaltadas especialmente por Santo Ambrósio, Santo Agostinho e São Jerônimo.
Apresentam-na como o modelo das Virgens, imune de qualquer mancha de culpa e sempre "'na luz e nunca nas trevas".
Houve motivos que impedissem um mais notável desenvolvimento da Mariolo gia em sua primeira fase, isto é, dos tempos apostólicos até o Concílio de Éfeso. Primeiro, as contínuas perseguições no Oriente e no Ocidente; depois, a atenção dos Padres voltada quase exclusivamente para a figura de Cristo, centro da doutrina cristã; em terceiro lugar, os erros cristológicos daqueles tempos. Estes erros destruindo o verdadeiro homem, o verdadeiro Redentor, comprometiam também indiretamente em Marfa a qualidade de Mãe, de Virgem e de Nova Eva.
Contra os docetas que negavam a verdadeira humanidade de Cristo, os Padres opuseram a real maternidade de Marfa. Contra os arianos que negavam a divindade de Jesus, opuseram o seu nascimento virginal, prodigioso. Contra o falso conceito de mediador e a multiplicidade de mediadores, opuseram o plano divino no qual o novo Adão, Único Mediador perfeito para reconciliar a Deus com os homens, está associada a nova Eva, em oposição ao primeiro Adão e à primeira Eva que com o pecado afastaram a Deus dos homens.
Embora sem caráter de novidade, o que prova a existência anterior do culto a Maria, sua devoção espalhou-se extraordinariamente, quando o III Concílio Ecumênico, celebrado em Éfeso, em 431, profligando as heresias de Nestório e seus sequazes, definiu a Maternidade Divina de Maria.
No ano seguinte o Papa Sixto III consagrava em Roma a patriarcal basílica de Santa Maria Maior. Igrejas e Santuários se levantaram por todo o mundo em honra da Santíssima Virgem, Mãe de Deus. Na liturgia da Igreja se introduziram as grandiosas festas de Nossa Senhora, Rainha e Senhora do Universo.
Assim se explica a devoção a Marfa Santíssima, cujas raízes se lançaram no início do cristianismo. O que cremos de Maria, o que honramos em Maria, é aquilo mesmo, nem mais nem menos, que nossos antepassados na fé creram e veneraram desde a origem da Igreja: a Maternidade Divina e a Maternidade de graça da Maria, a Mãe de Cristo Jesus e a Medianeira da salvação.