30 de setembro de 2009

Matrimônio Cristão - Católico - 17ª Parte

Encíclica "Arcanum divinae sapientiae", 10 fev. 1880

A essência do matrimônio cristão

[A tradição universal ensina] que o Cristo Senhor elevou o matrimônio à dignidade de sacramento e, ao mesmo tempo, fez com que, fortalecido pela graça celestial gerada por seus méritos, os cônjuges alcançassem a santidade no próprio matrimônio; e (ensina também) que neste, maravilhosamente conformado ao exemplo de seu místico conúbio com a Igreja, (o Cristo) não só aperfeiçoou o amor que é consentâneo com a natureza, como também estreitou mais fortemente pelo vínculo da caridade a união, indivisível pela própria natureza, de homem e mulher. ...
Do mesmo modo aprendemos pela autoridade dos Apóstolos que Cristo ordenou fosse santa e sempre inviolável esta unidade e perpétua estabilidade que foi requerida desde a origem do conúbio. ...
Sua perfeição cristã e pleno acabamento, porém, não consiste somente nas prerrogativas mencionadas. Com efeito, em primeiro lugar, foi proposta à sociedade conjugal um objetivo mais alto e mais nobre que aquele que existia antes, pois devia visar não somente à propagação do gênero humano, mas a engendrar para a Igreja filhos "concidadãos dos Santos e familiares de Deus" [Ef 2,19]. ...
Em segundo lugar, foram estabelecidos para ambos os cônjuges os seus deveres e descritos integralmente os seus direitos. A saber: que tenham sempre o espírito disposto, de tal modo que entendam que devem um ao outro o máximo amor, fidelidade constante, ajuda solícita e contínua. O marido é o chefe da família e a cabeça da mulher; a qual, por ser carne de sua carne e osso de seus ossos, deve estar submetida ao marido não à maneira de serva, mas de companheira, ou seja, de tal modo que à submissão que ela lhe deve não falte decoro e dignidade. Nele, que preside, e nela, que obedece, já que ambos são imagem, um de Cristo e a outra da Igreja, seja a divina caridade a perpétua moderadora dos deveres. ...

A autoridade da Igreja sobre o matrimônio

Ora, tendo renovado até tal e tamanha excelência os matrimônios, Cristo confiou e encomendou toda a disciplina (matrimonial) à Igreja. Esta exerceu seu poder sobre os matrimônios dos cristãos em todas as épocas e em toda parte, e a exerceu de tal modo que aparecesse com clareza que esse poder lhe pertence como próprio e que não tem sua origem numa concessão da parte dos homens, mas que fora divinamente concedido pela vontade de seu fundador. ...
Semelhante foi estabelecido um direito de matrimônio igual e o mesmo para todos, pela supressão da antiga distinção entre servos e livres; os direitos de homem e mulher foram equiparados; com efeito, como disse Jerônimo, "entre nós, o que não é lícito às mulheres tampouco o é aos homens, e vale o mesmo serviço na mesma condição": e foram permanentemente consolidados estes mesmos direitos por meio da recíproca benevolência e dos mútuos deveres; foi garantida e vindicada a dignidade das mulheres; foi proibido ao marido castigar com pena de morte a adúltera, bem como violar por comportamento libidinoso e impudico a fidelidade que jurou.
Também isto é importante, que a Igreja tenha limitado, na devida medida, o poder do pai de família, para que não seja em nada diminuída a justa liberdade dos filhos e filhas que se querem casar; que decretou nulos os casamentos entre consangüíneos e afins em certos graus, a fim de que o amor sobrenatural dos esposos se difunda num campo mais vasto; que tenha procurado afastar do matrimônio, na medida do possível, a violência e a fraude; que tenha desejado que se guardem intactas a santa pudicícia do tálamo, a segurança das pessoas, o decoro dos cônjuges, a incolumidade do compromisso religioso. Finalmente, com tanto vigor, tanta providência legal, (a Igreja) fortificou esta divina instituição, que não há juiz eqüitativo que não reconheça que também no que se refere ao matrimônio a Igreja é a melhor guardiã e protetora do gênero humano.
Tampouco convence a ninguém a tão badalada distinção, feita pelos regalistas, em virtude da qual separam do sacramento o contrato matrimonial, com a intenção, na verdade, de que, reservado à Igreja o que abrange do sacramento, o contrato passe ao poder e arbítrio dos chefes de Estado.
Com efeito, dessa maneira não pode ser aceita tal distinção, ou melhor, dissociação; como é seguro que no matrimônio cristão contrato e sacramento são indissociáveis, não pode existir contrato verdadeiro e legítimo fora do sacramento. Pois o Cristo Senhor enriqueceu o matrimônio com a dignidade de sacramento; ora, o matrimônio é o próprio contrato, se realizado legitimamente.
Acresce que o matrimônio é sacramento porque sinal sagrado que produz a graça e representa a imagem das núpcias místicas de Cristo com a Igreja. Ora, a forma e figura destas (núpcias) se exprime com esse mesmo vínculo de suprema união pelo qual estão ligados marido e mulher e que não é senão o próprio matrimônio. É, portanto, evidente que todo matrimônio legítimo entre cristãos é em si e por si sacramento, e nada se afasta mais da verdade que fazer do sacramento uma espécie de ornamento acrescentado ou uma propriedade agregada extrinsicamente, que pode, segundo o arbítrio humano, ser dissociada e separada do contrato.

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 10

10) Deus pode fazer tudo?
Sim. Deus pode fazer tudo o que quer; Ele é onipotente.
Nós não podemos fazer tudo o que queremos. Deus, porém, Criador e Senhor de todas as coisas, pode fazer, a qualquer instante, tudo o que quer.
Todas as forças da natureza - a vida, a morte, o Céu, a Terra e até o inferno - estão atentos às suas ordens.
Uma só obra de Deus, já seria um milagre da sua onipotência. E quantos milagres não realizou Jesus, enquanto esteve na Terra! Lembra-te da multiplicação dos pães? Mais de cinco mil pessoas seguiam Jesus pelo deserto durante três dias. Começaram então a sentir fome, mas não havia coisa alguma para comer. Só um menino tinha ainda consigo cinco pães e dois peixes.
Que fez Jesus então? Abençoou os pães e os peixes e estes multiplicaram-se aos milhares, a ponto de todos poderem comer até saciar-se, sobrando ainda doze cestos.
Maravilha da onipotência divina, velando por todas as necessidades da nossa vida!
Com grande fé repitamos frequentes vezes a linda súplica: "Nada posso eu sózinho, mas tudo posso com Deus".

29 de setembro de 2009

Matrimônio Cristão - Católico - 16ª Parte

Instrução da S. Penitenciaria, 15 jan. 1866

O matrimônio civil

(2) A S. Penitenciaria considera supérfluo lembrar a cada um que é dogma conhecidíssimo da nossa santíssima religião que o matrimônio é, sem dúvida alguma, um dos sete sacramentos instituídos por Cristo Senhor e que, portanto, a sua gestão pertence unicamente à própria Igreja à qual o mesmo Cristo confiou a distribuição dos seus divinos mistérios; além disso, considera também supérfluo lembrar a cada um a forma prescrita pelo santo Concílio de Trento [Sessão 24ª, A reforma do matrimônio], sem a observância da qual, nos lugares onde ela foi promulgada, não se pode jamais contrair um matrimônio válido.
(3) Mas, por estes e outros princípios, e pela doutrina católica, os pastores de almas devem elaborar instruções práticas mediante as quais persuadam também os fiéis disto que o nosso santíssimo Senhor (o Papa), no consistório secreto de 27 de setembro de 1852, proclamava: "Entre os fiéis não pode acontecer um matrimônio sem que seja ao mesmíssimo tempo um sacramento; e portanto, entre cristãos, qualquer outra união de homem e mulher fora do sacramento, mesmo com sanção da lei civil, nada mais é que torpe e funesto concubinato".
(4) E daí poderão deduzir facilmente que o ato civil, diante de Deus e de sua Igreja, não apenas não pode, de modo algum, ser considerado sacramento, mas nem mesmo contrato; e que o poder civil, como não tem o poder de ligar em matrimônio qualquer fiel, também não tem o poder de desligá-lo; e que por este motivo ... cada sentença de separação dos côjuges unidos em legítimo matrimônio diante da Igreja, promulgada pelo poder leigo, não tem valor nenhum; e que o cônjuge que, abusando de uma tal sentença, ousasse unir-se a uma outra pessoa, seria verdadeiramente um adúltero, como também seria um verdadeiro concubino aquele que presumisse permanecer no matrimônio somente em virtude de um ato civil; e que ambos não são dignos de absolvição até que se arrependam e voltem à penitência, submetendo-se às prescrições da Igreja.
(5) [Concede-se, todavia, para evitar as penas, para o bem da prole e para afastar o perigo da poligamia, que] os fiéis, depois que tiverem contraído matrimônio legítimo diante da Igreja, se apresentem para o ato imposto pela lei, com a intenção todavia de ... , ao apresentar-se ao oficial do governo, não fazer nada mais que realizar uma cerimônia civil.

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 9

9) Deus sabe tudo?
Sim. Deus sabe tudo, mesmo os nossos pensamentos: Ele é onisciente.
Vivia entre o povo de Deus um Profeta chamado Jonas.
Um dia disse-lhe Deus que fôsse à cidade de Nínive, porque havia lá muitos pescadores, que precisavam ser convertidos.
Esta ordem do Senhor não agradou muito a Jonas. Em lugar de se dirigir a Nínive, tomou um navio que ia para outra direção. Mas Deus seguiu-o, e se irou a ponto de permitir que se levantasse uma tempestade no mar e o navio quase afundasse.
Arrependido de sua culpa, pediu o Profeta, aos marinheiros que o deitassem ao mar para que os demais, pudessem salvar-se. Deus mandou então um peixe enorme que o engoliu. Jonas suplicou de todo o coração a Deus que o libertasse. Ouviu-o Deus, restituindo-o são e salvo às praias de Nínive, onde o Profeta cumpriu a missão que lhe tinha sido confiada.
Deus vê tudo, Deus tudo sabe; vê durante o dia claro e a noite escura. Conhece as coisas mais secretas, penetra os mais íntimos pensamentos e lê no mais profundo do coração. Conhece as coisas passadas e as que hão de vir. Ele é onisciente.
Quando longe de qualquer pessoa formos tentados a cometer o pecado, lembremo-nos de que o olhar de Deus nos acompanha sempre e é Ele que nos vai julgar.
"Se subo ao Céu tu lá estás; se desço ao inferno, nele te encontras presente" (Salmo 138,8)

28 de setembro de 2009

Matrimônio Cristão - Católico - 15ª Parte

Silabo de Pio IX, ou seja, coleção de erros proscritos em diversos documentos de Pio IX, emanado em 8 de dez. 1864

Proposições do sílabo

...
VIII. Erros a respeito do matrimônio cristão
65. Não se pode demonstrar de modo algum que Cristo tenha elevado o matrimônio à dignidade de sacramento.
66. O sacramento do matrimônio outra coisa não é senão um elemento acessório ao contrato e deste separável, e o sacramento mesmo consiste somente numa benção nupcial.
67. Pelo direito natural, o vínculo do matrimônio não é indissolúvel, e em diversos casos o divórcio propriamente dito pode ser ratificado pela autoridade civil.
68. A Igreja não tem o poder de introduzir impedimentos dirimentes no matrimônio, mas tal poder compete à autoridade civil, pela qual devem ser removidos os impedimentos existentes.
69. A Igreja começou a introduzir impedimentos dirimentes em séculos mais recentes, não por direito próprio, mas usando o direito que tinha recebido do poder civil.
70. Os cânones do Concílio de Trento que trazem a censura de excomunhão contra aqueles que ousam negar à Igreja a faculdade de introduzir impedimentos dirimentes, ou não são dogmáticos ou devem ser entendidos no sentido de um poder recebido.
71. A forma do Concílio de Trento não obriga sob pena de nulidade, quando a lei civil prescreve uma outra forma e quer que o matrimônio seja válido com a utilização desta nova forma.
72. Bonifácio VIII por primeiro afirmou que o voto de castidade feito na ordenação torna nulas as núpcias.
73. Entre cristãos pode haver verdadeiro matrimônio em virtude só do contrato civil, e é falso que o contrato de matrimônio entre cristãos é sempre sacramento, ou que o contrato é nulo se se exclui o sacramento.
74. As causas matrimoniais e os esponsais, pela sua própria natureza, dizem respeito ao foro civil.
N.B. Aqui podem ser tratados outros dois erros, sobre a abolição do celibato dos clérigos e sobre o antepor o estado matrimonial ao estado de virgindade.

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 8

8) Deus existiu sempre?
Sim. Deus existiu e existirá sempre, porque é eterno.
Quantos anos tens? E teu pai e teu avô? Há quantos anos existe o mundo?
Oh! há quantos e quantos anos! Pois bem, antes de existir o mundo, quem existia? Só Deus.
Quando foi que Deus nasceu? Deus nunca nasceu, Deus sempre existiu. Tu envelhecerás, teus cabelos ficarão brancos como os de teu avô, e depois morrerás, assim como todos os homens. O mundo terá fim, com todas as coisas que nele estão.
E Deus? Ele não morrerá, não acabará nunca, mas estará sempre vivo.
"Eu sou o Alfa e o Ômega - disse o Senhor - o primeiro e o último" (Apocalipse 22, 13).
Vê a linda estampa em que Deus é representado como um velho venerando, para mostrar-nos que em Deus não há idade. Está sentado sobre as ondas do tempo e traz na mão o livro da vida, no qual estão escritas a primeira e a última letra do alfabeto grego: Alfa e Ômega. Deus é o princípio e o fim de todas as coisas.
O Sol nasce e morre no horizonte, o relógio marca as horas, que passam velozes, os anos e as estações mudam constantemente. Só Deus não muda, para Ele não há nem passado nem futuro, está presente sempre na sua eternidade.
Nós, filhos de Deus, não somos eternos, mas imortais. Nossa alma não morre como o corpo porque é espiritual. Um dia, porém, o corpo ressuscitado unirse-á à alma em sua sorte eterna.
"Lá (no Céu) repousaremos, veremos e amaremos; amaremos e louvaremos. Eis o que será de nós na eternidade sem fim" (Santo Agostinho).

27 de setembro de 2009

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 7

7) Onde está Deus?
Deus está no Céu, na Terra e em todo lugar; Ele é imenso.
Diante deste maravilhoso quadro, obra prima de Tintoretto, sente-se a alma invadida de profunda comoção. Olha Santa Maria Egipcíaca em seu êrmo no rio Jordão. Era uma grande pecadora. Aos doze anos abandonou a casa paterna, fugiu para a cidade de Alexandria, no Egito, onde passou seus verdes anos entregue aos piores vícios. Um dia teve vontade de se unir a um grupo de peregrinos, que ia a Jerusalém venerar a Santa Cruz. Chegando à cidade santa não conseguiu entrar na igreja. Uma força misteriosa a repelia. Compreendeu logo a causa disto: sua indignidade. Rompendo em pranto, prometeu a Nossa Senhora fazer penitência de seus pecados. Nesse mesmo instante conseguiu entrar, prostrou-se aos pés da Santa Cruz, confessando suas culpas. Desde aquele dia mudou de vida. Retirou-se à solidão, onde passou quase cinquenta anos na mais austera penitência. O pensamento da presença de Deus animava-a e confortava-a. "Não nos esqueçamos de que Deus está sempre perto de nós e assim a solidão perde, cada dia que passa, o seu horror", escrevia Sílvio Pellico, célebre italiano, prisioneiro durante muitos anos em Spielberg.
Por ser puríssimo espírito, Deus não precisa estar, como nós, num limitado lugar. Está em toda a parte e em cada coisa, com seu poder, com sua presença, com sua essência. Olha em redor de ti. Serás capaz de dizer um lugar onde Deus não esteja? Deixo-te aqui uma poesia bem curta, mas que te dará uma idéia perfeita da presença de Deus em toda a parte:

Para experimentar Otávio, o Mestre diz:
"Já que tudo sabes, vem cá
E dize-me: em que ponto de extensão terrestre ou celeste Deus está?
Por um momento, apenas, fica mudo Otávio,
Mas logo esta resposta dá:
"Eu, senhor Mestre, lhe daria tudo,
Se me dissesse onde é que Ele não está". (Olavo Bilac)

17.º Domingo depois de Pentecostes: Disse o Senhor ao meu Senhor... Cristo Deus e homem verdadeiro

Cristo, Senhor e Filho de Davi
Sermão 92 de Santo Agostinho
Sobre as palavras de São Mateus (22, 42-46) onde pergunta o Senhor aos judeus de quem, segundo eles, era filho Cristo.

1. Questão feita aos judeus, de Cristo. - A questão proposta aos judeus, devem resolvê-la os cristãos: pois o Senhor Jesus Cristo, Que a propôs aos judeus, não a resolveu Ele próprio, mas aos judeus, por que para nós - para nós a resolveu. Trarei à memória de Vossa Caridade, e percebereis como de fato a resolveu. Primeiro vede o nó da questão. Inquiriu dos judeus o que de Cristo é considerado por eles, de quem fosse filho: pois também eles esperam o Cristo. Nos Profetas, leram; que viria, esperaram; estando presente, O assassinaram: porque onde liam que o Cristo haveria de vir, aí liam que eles haveriam de assassiná-l'O. Mas a Sua vinda futura esperavam nos Profetas: pois o seu futuro crime não viam. Assim, portanto, os interrogava a respeito de Cristo, não como se falasse de algo desconhecido, ou cujo nome nunca tivessem ouvido, ou cujo advento nunca esperassem. Ora, porque até aquele momento ainda esperavam, por isso erram. E, do mesmo modo, também nós O esperamos; mas vindo como juiz, não vindo a ser julgado. Os santos profetas profetizaram que primeiro viria a ser injustamente julgado, e depois viria a julgar justamente. Que, pois, disse se vos parece a respeito de Cristo? de quem é filho? Responderam eles: de Davi. De acordo com as Escrituras. Mas Ele: Como Davi, em espírito, O chama Senhor, dizendo: Disse o Senhor ao meu Senhor, Senta-Te à Minha direita, até que Eu ponha os Teus inimigos por escabelo de Teus pés? Se, portanto, Davi, em espírito, O chama Senhor, como é seu filho?

2. CRISTO NÃO NEGA SER FILHO DE DAVI. - É bom que aqui cuidemos de não considerar que Cristo tenha negado ser filho de Davi. Não negou ser filho de Davi, mas averigúa o modo. Dissestes ser filho de Davi, não o nego: mas ele O chama Senhor; dizei-me como é filho, quem também é Senhor: dizei como. Eles não o disseram, mas calaram. Digamo-lo nós, expondo-o o próprio Cristo.Onde? Mediante o seu Apóstolo. Primeiro, donde provamos que o próprio Cristo o expôs? O Apóstolo diz: Acaso quereis fazer uma experiência d'Aquele Que fala em mim, Cristo? (2 Cor 13, 3). Logo, Ele Se dignou, no Apóstolo, resolver essa questão. Falando Cristo pelo primeiro Apóstolo, que disse a Timóteo? Lembra-te que Cristo Jesus ressuscitou dos mortos da semente de Davi, segundo o meu Evangelho (2 Tim 2, 8). Eis que Cristo é filho de Davi. Como é também Senhor de Davi? Di-lo, ó Apóstolo: O Qual, sendo em forma de Deus, não julgou ser presa o ser igual a Deus. Reconhece-O Senhor de Davi. Se O reconheces Senhor de Davi, Senhor nosso, Senhor do céu e da terra, Senhor dos Anjos, se igual a Deus em forma de Deus O reconheces: donde filho de Davi? Presta atenção ao que se segue. O Apóstolo te mostrou ser Senhor de Davi dizendo, O Qual, sendo em forma de Deus, não julgou ser presa o ser igual a Deus. Donde filho de Davi? Mas Se esvaziou a Si mesmo, tomando a forma de servo, assemelhando-Se aos homens e encontrando a condição humana: humilhou-Se a Si mesmo feito obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso até Deus O exaltou (Fil 2, 6-9). Ressuscitou Cristo da semente de Davi, filho de Davi, porque Se esvaziou. Como Se esvaziou? Tomando a Si o que não era, sem perder o que era. Esvaziou-Se, humilhou-Se. Sendo Deus, mostrou-Se homem. Andando pela terra, for desprezado Aquele Que fez o céu. Foi desprezado como homem, como um sem poder. Não apenas desprezado, mas, sobretudo, até assassinado. Era uma pedra que jazia, tropeçaram nela os judeus, e se destroçaram. Quem, pois, o disse? Quem tropeçar nesta pedra, será destruído: sobre quem cair esta pedra, esmagá-lo-á (Mt 21, 44). Primeiro jazia, e tropeçaram: caiu de cima, e esmagou os destroçados.

3. CRISTO, DEUS E HOMEM. - Percebestes ser Ele tanto filho de Davi quanto Senhor de Davi: Senhor de Davi sempre, filho de Davi no tempo: Senhor de Davi nascido da (de) substância do Pai, filho de Davi nascido de (ex) Maria Virgem, concebido pelo (de) Espírito Santo. Um e outro confessemos. Um nos será eterna habitação; outro nos é libertação da peregrinação. Nosso Senhor Jesus Cristo não Se tivesse dignado fazer-Se homem, e o homem perder-se-ia. Fez-Se aquilo que fizera, para que não perecesse o que fizera. Homem verdadeiro, Deus verdadeir: Deus e homem o Cristo total. Essa é a fé Católica. Quem nega Cristo Deus é fotiniano: quem nega Cristo homem é maniqueu. Quem confessa Cristo Deus igual ao Pai e homem verdadeiro, verdadeiramente tendo padecido, tendo derramado o sangue de verdade: porque não teria liberado a verdade, se tivesse dado por nós um falso preço: quem um e outro confessa é Católico. Possui a pátria, possui o caminho. Possui a pátria, No princípio era o Verbo (Jo 1, 1-14): possui a pátria, Sendo em forma de Deus, não julgou ser presa o ser igual a Deus. Possui o caminho, O Verbo Se fez carne: possui o caminho, Esvaziou-Se a Si mesmo, tomando a forma de servo. Ele é a pátria aonde vamos, Ele o caminho por onde vamos. Por Ele vamos a Ele, e não nos extraviaremos.

Matrimônio Cristão - Católico - 14ª Parte

Breve "Etsi fraternitatis" ao arcebispo de Maniz, 8 out. 1803

A tentada dissolução do matrimônio

Resposta do Papa a algumas dúvidas: A sentença dos tribunais leigos e das juntas judiciárias católicas, pelas quais principalmente é declarada a nulidade dos matrimônios e tentada a dissolução do seu vínculo, não pode obter absolutamente nenhum valor nem força alguma perante a Igreja. ...
Cometeriam gravíssimo delito e trairiam seu sagrado mistério aqueles párocos que aprovassem tais núpcias com sua presença e as confirmassem com sua benção. Nem mesmo se devem chamar de núpcias mas antes conúbios adulterinos.
Instrução do S. Ofício ao vigário apostólico do Sião, 4 jul. 1855
Privilégio paulino
... É de todo proibido que uma cristã espose um pagão; se, porém, com prévia dispensa da Santa Sé por disparidade de culto, às vezes acontece que um semelhante matrimônio se realiza, é claro que este, no que diz respeito ao vínculo, será indissolúvel e só às vezes pode ser dissolvido quanto ao leito. ...
A mulher cristã, portanto, não poderá jamais contrair novas núpcias enquanto estiver em vida esse homem não-crente, mesmo se concubino.
Se, ao invés, se trata da mulher pagã de um pagão, concubino, que se converte, então, depois de ter feito o pedido (como acima), se ele se recusar a converter-se ou a conviver sem ofensa do Criador e a desistir por isso do concubinato (que certamente não pode existir sem injúria do Criador), poderá fazer uso do privilégio concedido em favor da fé.
Em geral, se a conversão do cônjuge precedeu o matrimônio com a parte não-crente, celebrado com prévia dispensa apostólica, de modo algum pode-se fruir do dito privilégio concedido em favor da fé; se, ao contrário, o matrimônio precedeu a conversão, então a parte que se converteu poderá usar daquele privilégio, como dito.
É preciso também considerar, quanto aos impedimentos dirimentes, que a ignorância invencível ou a boa fé não são suficientes para contrair um matrimônio válido. Também se alguma vez aquela ignorância e boa fé valem para escusar do pecado (o que, porém, raramente se deve crer na prática), jamais poderão tornar válido um matrimônio que foi contraído com impedimento dirimente.

26 de setembro de 2009

Hino Católico Brasileiro

HINO CATÓLICO BRASILEIRO
Frei Pedro Sinzig (1876 - 1952)

Nossa terra batizada
Terra foi de Vera Cruz,
Sendo, assim predestinada
Para o culto de Jesus.

Brasileiros, bons e puros,
Para os céus erguei as mãos
Mais e mais, em Deus seguros,
Tende fé, sede cristãos.

No horizonte brasileiros
Quando reina a escuridão
Há de estrelas um cruzeiro
Celebrando a Redenção.

O Brasil, se às leis da Igreja,
Leis de amor, obedecer,
Vencerá qualquer peleja,
Glória eterna há de colher.

De: GOFFINÉ; "Manual do Christão". Rio de Janeiro, 1930.

Matrimônio Cristão - Católico - 13ª Parte

Constituição "Auctoren fidei" a todos os fiéis, 28 ago. 1794

Erros do Sínodo de Pistóia

...

Os esponsais e o matrimônio
58. A proposição que estabelece que os esponsais propriamente ditos são um simples ato civil que prepara para a celebração do matrimônio e estão sujeitos completamente à prescrição das leis civis; como se um ato que dispõe ao sacramento não estivesse sujeito, por este motivo, ao direito da Igreja: falsa, lesiva do direito da Igreja quanto aos efeitos que, em virtude das sanções canônicas, derivam também dos esponsais, derrogando à disciplina estabelecida pela Igreja.
59. A doutrina do Sínodo que afirma que originariamente respeita somente ao supremo poder civil apor ao contrato matrimonial os impedimentos que o tornem nulo e que são chamados dirimentes; o qual "direito originário" é dito estar "essencialmente ligado ao direito de dispensar"; acrescentando que "suposto o consenso ou a conivência dos príncipes, a Igreja pode justamente dispor impedimentos dirimentes para o contrato de matrimônio"; como se a Igreja não tivesse podido e não possa sempre, nos matrimônios dos cristãos, por direito próprio, dispor impedimentos que não só impeçam o matrimônio, mas que também o tornem nulo quanto ao vínculo, e aos quais os cristãos estão ligados também nas terras dos infiéis - e nos mesmos dispensar: subversiva dos cânones 3, 4, 9, 12 da sessão 24ª do Concílio de Trento, herética.
60. Igualmente, o pedido do Sínodo ao poder civil, para que "do número dos impedimentos tire o parentesco espiritual e o que é chamado de pública honestidade, cuja origem se encontra na coleção de Justiniano"; e então para que "restrinja o impedimento de afinidade e de parentesco derivante de qualquer relação lícita ou ilícita em quarto grau segundo a contagem civil na linha lateral e oblíqua; de modo tal, todavia, de não deixar nenhuma esperança de obter uma dispensa". do momento em que atribui ao poder civil o direito quer de abolir quer de restringir os impedimentos instituídos e aprovados pela autoridade da Igreja, e assim também enquanto supõe que a Igreja possa ser privada pelo poder civil do direito de dispensar a respeito de impedimentos por ela mesma instituídos ou aprovados: subversiva da liberade e do poder da Igreja, contrária ao Concílio de Trento, proveniente do herético princípio acima condenado.

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 6

6) Deus tem corpo como nós?
Não. Deus não tem corpo: é espírito puríssimo.
A Sagrada Escritura conta que Moisés, o grande condutor do povo de Deus, levou um dia seu rebanho, para pastar aos pés do monte Horeb. De repente, levantando os olhos para cima, viu uma grande chama que saía de uma sarça e que ardia sem nada queimar. Quando, curiosamente, quis dela aproximar-se, para ver que prodígio era aquele, ouviu a voz de Deus que o chamava.
Era o próprio Deus que estava presente naquela chama, porém, de modo invisível aos olhos de Moisés. Quando pensamos em Deus, representamo-Lo com um corpo, um rosto. No entanto, Deus não tem corpo como nós. Sabes que temos uma alma que nos permite ver, caminhar, pensar? Quando um menino está morto não vê, não sente, nem caminha. É porque a alma deixou o corpo.Vês, acaso, a alma? Não, porque ela é um espírito.
Sabes que o Anjo da Guarda está sempre a teu lado? Todavia não o vês; é porque o anjo é um puro espírito.
Deus está presente em toda parte, penetra-nos com sua divina essência, guia-nos e governa-nos com sua inefável providência.
"Porque nele vivemos e nos movemos e existimos. Somos verdadeiramente da sua linhagem" (Atos, 17, 28)

25 de setembro de 2009

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 5

5) Que quer dizer "Senhor"?
"Senhor" quer dizer que Deus é dominador de todas as coisas.
"No princípio Deus criou o Céu e a Terra" (Gênesis, 1,1).
A Sagrada Escritura, que é inspirada pelo Espírito Santo, começa dizendo assim: Deus é Criador. Criar quer dizer: fazer do nada, fazer existir o que antes não existia. Os homens não podem criar. O escultor já possui o mármore para fazer a sua estátua; o pintor a tela; o carpinteiro, a madeira mas Deus não precisou de coisa alguma para fazer o Céu, a Terra, as estrelas, os animais, o homem.
Com um só ato de sua vontade deu vida a todos os seres. "Porque Ele falou e foram feitas (estas coisas); mandou e foram criadas" (Salmo 148, 5). Os homens não podem criar, só podem fazer. Podem ser engenhosos e poderosos, mas só Deus é onipotente, isto é, pode fazer tudo o que quer.
Deus é também o dono absoluto de todas as coisas.
O Sol e as estrelas Lhe obedecem no firmamento, os pássaros no ar, os peixes nos mares e os animais, mesmo os mais ferozes, na terra.
O homem nasce e morre porque Deus quer. Ele criou o corpo de Adão e de Eva e continua a criar a alma de cada homem que nasce.

Matrimônio Cristão - Católico - 12ª Parte

Carta "Deessemus nobis" ao bispo de Mottola (Taranto), 16 de set. 1788

A competência da Igreja no âmbito do matrimônio

Nós não ignoramos que há alguns que, concedendo demais à autoridade dos príncipes seculares e interpretando de modo capcioso as palavras deste cânon [Concílio de Trento, sessão 24ª, O matrimônio, cân. 12], começaram a sustentar que, já que os Padres tridentinos não usaram esta fórmula: "só dos juízes eclesiásticos", ou "todas as causas matrimoniais", deixaram aos juízes leigos o poder de instruir ao menos as causas matrimoniais que são de mero fato.
Mas sabemos que também este raciocínio capcioso e este modo falso de sofismar está desprovido de todo fundamento. As palavras do cânon são, de fato, tão gerais que compreendem e abraçam todas as causas. O espírito e o sentido da lei, pois, se estende de modo tão amplo que não deixa nenhum espaço para exceção ou limitação. Se portanto estas causas pertencem ao julgamento tão somente da Igreja, por nenhuma outra razão senão porque o contrato matrimonial é verdadeira e propriamente um dos sete sacramentos da lei evangélica, como esta qualidade de sacramento é comum a todas as causas matrimoniais, todas estas causas devem ser reservadas exclusivamente aos juízes eclesiásticos.

24 de setembro de 2009

Matrimônio Cristão - Católico - 11ª Parte

Carta "Exsequendo nunc" aos bispos da Bélgica, 13 jul. 1782

A assistência dos párocos nos matrimônios mistos

... Se, depois de prévia ... admoestação com o fim de afastar a parte católica de um matrimônio ilícito, esta todavia persiste na vontade de contraí-lo e se pode prever que infalivelmente há-de seguir o matrimônio, o pároco católico poderá então conceder sua presença material, com a obrigação todavia de observar as seguintes cautelas:
Em primeiro lugar, não assista a um matrimônio em lugar sagrado, não esteja vestido com qualquer veste que faça pensar num rito sagrado, nem mesmo pronunciará sobre os contraentes uma oração eclesiástica, nem de modo algum os abençoará.
Em segundo lugar, exija e receba do contraente herege uma declaração escrita, pela qual, na presença de duas testemunhas, que igualmente a devem subscrever, ele se obriga a permitir ao companheiro o livre uso da religião católica e a educar nesta todos os filhos que nascerem, sem nenhuma distinção de sexo. ...
Em terceiro lugar, também o próprio contraente católico apresente uma declaração, subscrita por ele e por duas testemunhas, na qual promete com juramento que não somente ele não se afastará jamais de sua religião católica, mas que educará nela cada filho que nasça, e que procurará de modo eficaz a conversão do outro contraente, não católico.

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 4

4) Que quer dizer "Criador"?
"Criador" quer dizer que Deus fez do nada todas as coisas.

SANTO TOMÁS DE AQUINO E A SANTÍSSIMA EUCARISTIA

A SANTÍSSIMA EUCARISTIA NA
VIDA ESPIRITUAL DE SANTO TOMÁS DE AQUINO
- I -
Os outros doutores da Sorbonne apresentaram a Santo Tomás um problema a respeito da permanência dos acidentes eucarísticos “sine subjecto”:

Santo Tomás “(...) escreveu logo, como era costume seu, uma demonstração muito cuidada e lúcida, com a sua opinião. Escusado é dizer que sentiu, com simplicidade de coração, a pesada responsabilidade e a gravidade de tão judicial decisão, e parece, naturalmente, ter-se preocupado muito mais do que costumava com a sua obra. Buscou luz na oração e intercessão mais prolongada que de costume, e por fim, com um desses poucos mas impressionantes gestos corporais que caracterizam as ocasiões importantes da sua vida, depôs a tese aos pés do crucifixo do altar, e ali a deixou ficar como à espera de julgamento. Depois se virou, desceu os degraus e ficou submerso uma vez mais em oração; diz-se, no entanto, que os demais frades estavam à espreita, e que tinham boas razões para o fazer, pois declararam mais tarde que viram, com os seus olhos mortais, a figura de Cristo descer da cruz e deter-se junto do manuscrito, dizendo:
- Tomás, escreveste bem a respeito do meu Corpo.
Depois desta visão é que dizem ter-se dado o incidente da levitação miraculosa.”

(fonte: CHESTERTON, G.K.“Santo Tomás de Aquino”. São Paulo: LTr, 2003)
- II -


“... resta dizer algo a respeito do ministro que serve à Santa Missa. Em nossa época dá-se aos meninos e a ignorantes este encargo, de que nem os próprios reis seriam dignos (...) São Tomás de Aquino, o sol da Escolástica, conhecia bem o valor inestimável deste ofício de servir no divino Sacrifício, e não se dava por satisfeito se, depois de ter celebrado a Santa Missa, não ajudava a outra”.

(fonte: “As excelências da Santa Missa” – São Leonardo de Porto Maurício)
- III -

“Após se ter confessado a Reginaldo, Tomás recebeu o viático em 4 ou 5 de março; como era costume, pronunciou uma profissão de fé eucarística (...)

“Recebo-te, preço da redenção de minh’alma, recebo-te, viático de minha peregrinação, por cujo amor estudei, realizei vigílias, sofri; preguei-te, ensinei; jamais disse algo contra ti, e se o fiz foi por ignorância e não insisto em meu erro; se ensinei mal a respeito desse Sacramento ou de outros, submeto-o ao julgamento da Santa Igreja Romana, em obediência à qual deixo agora esta vida”

(...) Tomás recebeu a Extrema-Unção no dia seguinte, respondendo ele próprio às palavras rituais. Morreu três dias depois, após ter recebido o Corpo do Senhor, ou seja, na quarta-feira, 7 de março, nas primeiras horas da manhã”.

(fonte: TORREL, Jean-Pierre, OP. “Iniciação a Santo Tomás de Aquino – sua pessoa e obra”. São Paulo: Edições Loyola, 2004. pp.342-344)
- IV -

“(..) parece-nos possível deduzir com um mínimo de certeza três traços característicos da maneira de orar de Tomás. O vínculo entre prece e estudo é evidentemente o primeiro (...). O segundo é certamente a devoção à Eucaristia (...). A atestação de duas Missas cotidianas – uma que celebra, outra à qual assiste – é repetida com uma freqüência que impede de pó-lo em dúvida. Ele, ao que parece, tinha também o hábito de recitar no momento da elevação a segunda parte do “Te Deum: Tu rex glorie Christe, Tu Patris sempiternus et Filius”, até o final. Isso poderá ser facilmente compreendido se nos lembrarmos que, de forma resumida, o cântico lembra nesse momento os “mistérios” da vida de Cristo. Mas é sobretudo na celebração da Missa que ele apresenta os êxtases prolongados que marcaram seus últimos meses: o do domingo da Paixão (26 de março de 1273) e o de São Nicolau, oito meses depois (6 de dezembro de 1273) (...)”.

O terceiro aspecto é a “devoção ao crucifixo: quando é apresentado em prece ou em levitação, é diante da imagem do crucificado ou do altar, símbolo litúrgico de Cristo. Se fosse necessário justificar ainda mais esse último ponto, bastaria consultar a maneira pela qual ele se refere a Cristo em seu ensino ou pregação:

“Quem quiser levar uma vida perfeita não tem outra coisa a fazer senão desprezar o que Cristo desprezou na Cruz, e desejar o que ele desejou. Com efeito, não há um só exemplo de virtude que a cruz não nos dê. Buscas um exemplo de caridade? Não existe amor maior do que dar sua vida por seus amigos, e Cristo o fez na cruz ... Buscas um exemplo de paciência? O mais perfeito encontra-se na cruz ... Buscas um exemplo de humildade? Olha o Crucificado ... Um exemplo de obediência? Pôe-te a seguir Aquele que se fez obediente até a morte ... Um exemplo de desprezo pelas coisas terrestres? Caminha atrás Daquele que é o Senhor dos senhores e Rei dos reis, no qual se encontram todos os tesouros da sabedoria e que, no entanto, na cruz, aparece nu, objeto de zombarias, conspurcado, batido, coroado de espinhos, recebendo de beber fel e vinagre, levado à morte” (Expositio in Symbol.; art.4, nº920-4) ”

Santo Tomás lembra com insistência que “toda ação de Cristo é para nós um ensinamento”, e isso foi uma regra de vida para ele próprio.

(fonte: TORREL, Jean-Pierre, OP. “Iniciação a Santo Tomás de Aquino – sua pessoa e obra”. São Paulo: Edições Loyola, 2004. pp.335-337)

O SANTO CURA D'ARS

A ROTINA DE SÃO JOÃO MARIA VIANNEY, O CURA D’ARS

“À uma da manhã em ponto, faz a sua oração na igreja.
Confessa as mulheres até às seis.
Às seis, celebra a sua Missa.
A seguir, faz a sua ação de graças.
Depois fica à disposição dos fiéis para abençoar-lhes as imagens e dar-lhes conselhos.
Por volta das oito, ele se permite, a instâncias das moças da “Providência”, ir lá tomar, do outro lado da praça, meio copo de leite sem pão.
Como também elas precisam de conselhos, distribui-os generosamente.
Às oito e meia, está de volta e atende os homens na sacristia.
Às dez, interrompe-se e vai render a sua homenagem a Deus recitando as suas horas menores.
E depois confessa mais um pouco.
Às onze, volta à “Providência” para ensinar o catecismo às crianças, às suas órfãs especialmente, e também a muitos adultos.
Ao meio dia, reza o “Angelus” e retorna à casa paroquial para almoçar.
Atravessar a praça leva cerca de um quarto de hora, porque a multidão se comprime à sua volta; é preciso continuar a aconselhar e a abençoar.
Almoça de pé, rapidamente, muitas vezes enquanto fala, pois os paroquianos mais próximos se aproveitam das refeições para confiar-lhe as suas misérias.
Ainda assim, já ao meio-dia e meia tem de visitar os seus enfermos, sempre escoltado pela multidão que não se cansa de interroga-lo.
Assim que volta à igreja, mergulha no seu breviário, a tempo de ler as vésperas e as completas.
Mal fecha o livro, retorna ao confessionário.
As mulheres o retêm ali até às cinco.
Passa aos homens, que o retêm até às oito.
Enfim, sobe ao púlpito para recitar a oração vespertina e o terço da Imaculada Conceição.
Depois deste longo e penoso trabalho, imaginamos que vá jantar e depois dormir?
Não. Nem sempre consegue jantar; é preciso que receba em sua casa umas quantas almas delicadas, difíceis de convencer ou de dirigir.
Também tem de terminar o seu breviário: matinas e laudes, a parte mais longa.
Com isso chegamos às dez horas da noite.
Não é raro, também, que retorne à igreja a fim de confessar mais um pouco, e que de lá não volte senão depois da meia-noite.
Depois deita-se.
Mas a noite será curta: a nova jornada, como a anterior, começa bem antes do nascer do sol.
Façamos as contas. O Pe.Vianney trabalha pelo menos vinte horas. Quinze ou dezesseis, no mínimo, transcorrem ouvindo confissões, tanto na capela de São João Batista, dentro do confessionário onde atende as penitentes, quanto na sede de madeira dura da sacristia, onde recebe os penitentes.
Terá tido duas horas a sós com Deus?
Mas ele está sempre com Deus.
Este regime há de durar trinta anos”

(fonte: GHÉON, Henri. “O Cura d’Ars”. São Paulo: Quadrante, 1998)

23 de setembro de 2009

Matrimônio Cristão - Católico - 10ª Parte

Respostas do S. Ofício ao bispo de Cochin (Índia), 1º ago. 1759

Privilégio paulino

Exposição: Acontece muitas vezes que de dois (cônjuges) não-crentes um se converte à fé e o outro, que naquele momento não quer se converter, consente todavia em coabitar com o (cônjuge) crente sem ultrajar o Criador e sem levá-lo ao pecado mortal, e até promete que, depois, também ele abraçará a fé, coisa que por algum motivo particular considera dever diferir por certo tempo. Por isso, o crente não dispensa o não-crente, mas continuam a viver juntos como cônjuges, e isto, por longo tempo, até por alguns anos: mas em seguida, o não-crente, tendo mudado de vontade, não só não mais quer se converter, mas procura arrastar o (cônjuge) crente ao culto dos ídolos, ou então se separa e não consente mais em habitar com ele, e até passa para outras núpcias.
Perguntas: 1. Neste caso, pode também o cônjuge crente abandonado separar-se e passar a outras núpcias e cabe aplicar o privilégio promulgado pelo Apóstolo: "Se o não-crente se separa, que se separe" [1Cor 7, 15]?
2. Isto teria vez somente quando o não-crente se separa por ódio à fé ou também quando se separa por causa de discórdias ou por uma outra causa diferente da fé?
3. O crente pode passar a outras núpcias também quando o não-crente por alguma razão se separou dele e não se pode saber se está ainda vivo ou não?
4. O crente que, com dispensa, contraiu validamente o matrimônio com um não-crente, pode passar a outras núpcias, se o não-crente se separar, ou não quiser coabitar, ou o arrastar ao pecado?
5. Em geral, por quanto tempo um crente depois da conversão pode coabitar com o não-crente, sem que seja privado do poder de passar a outras núpcias?
Respostas: Ad 1. No caso do qual se trata: Sim.
Ad 2. Dado que o cônjuge convertido tem o privilégio da fé ao seu lado, ele pode fazer uso dele por qualquer causa, contanto que seja justa, naturalmente se ele não deu ao outro cônjuge um justo e razoável motivo de separar-se - de modo tal, porém, que se considere dissolvido o jugo do vínculo matrimonial com o não-crente somente então, quando o cônjuge convertido (recusando-se o outro, depois de solicitado, a converter-se) passa a outras núpcias com um crente.
Ad 3. Antes disso, deve ser feita uma solicitação pela qual se pede ao cônjuge não-crente se quer se converter, solicitação da qual a Sé Apostólica dispensa por motivos justos.
Ad 4. Se um crente, com base em dispensa prévia, contraiu matimônio com um não-crente, é de se pensar que ele o contraiu com uma explícita condição, isto é, contanto que o não-crente queira coabitar com ele sem ofensa ao Criador: pelo que, se o não-crente não observa a supradita condição, devem ser usados os remédios do direito para que a observe; caso contrário, eles devem separar-se no que diz respeito ao leito e à coabitação, não todavia no que diz respeito ao vínculo; por isso, no caso de que se trata, enquanto vive o cônjuge não-crente, o crente não pode passar a outras núpcias.
Ad 5. Aquele que se converte à fé, no momento mesmo da conversão não é considerado livre do vínculo do matrimônio contraído com o não-crente ainda vivo, mas nesse momento tão somente adquire o direito de passar a outras núpcias, porém, com um cônjuge crente, e isto, se o (atual) cônjuge não-crente, depois de solicitado, se recusa a converter-se. De resto, o vínculo do matrimônio é dissolvido somente no momento em que o cônjuge convertido passa efetivamente a outras núpcias. Se, pois, o cônjuge convertido, antes de receber o batismo, tinha mais mulheres e a primeira nega-se a abraçar a fé, pode então de modo legítimo manter consigo qualquer outra dentre elas, contanto que se faça crente; mas, neste caso, os contraentes devem renovar o consentimento diante do pároco e as testemunhas.

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 3

3) Que quer dizer perfeitíssimo?
Perfeitíssimo quer dizer que em Deus tudo é perfeição, sem defeito nem limites, isto é, que Ele é poder, sabedoria e bondade infinita.
Quando tu eras pequeno não sabias andar nem falar. Agora já sabes muitas coisas bonitas. Crescerás ainda mais e serás grande e forte, mas para isso procura aperfeiçoar-te cada vez mais.
Deus, porém, não pode crescer mais nem ser mais perfeito, porque Ele assim é e sempre o foi, desde toda eternidade.
Se examinares teu coração, nele encontrarás muitos defeitos; todos nós o temos. Até no Sol há manchas. Só Deus não tem mancha alguma.
Os reis são poderosos, mas Deus é poderosíssimo. Os professores sabem muita coisa, mas Deus sabe tudo. A Mamãe e o Papai são bons, porém Deus é melhor que eles. Vê, portanto, como Deus é bom e amável. Ele merece todo o nosso respeito e amor. Nós devemos imitá-Lo, pois isto nos é possível, visto sermos as únicas criaturas livres e inteligentes.
Assim, por exemplo, podemos imitar o seu poder, praticando o bem e fugindo do mal; a sua sabedoria, instruindo-nos sobre as verdades da fé; a sua bondade, fazendo a nosso próximo todo o bem que nos for possível. Para isto alcançarmos, recordemo-nos daquele aviso de Jesus: "Sede perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito" (Mateus, 5, 48)

22 de setembro de 2009

O Purgatório - Pe. Alexandrino Monteiro, S.J.

O Purgatório
Pe. Alexandrino Monteiro, S. J.

I. Acerbidade das penas do Purgatório

Ouvindo Santo Agostinho alguns de seu tempo dizer que, se escapassem do inferno, do Purgatório não tinham tanto medo, encheu-se de zelo e lhes fez ver o grande erro em que estavam, pois as penas do Purgatório superam tudo o que há de mais penoso neste mundo.

E com razão, porque o fogo que atormenta as almas do Purgatório é o mesmo que o fogo que atormenta os condenados no inferno, somente com exceção da eternidade. E assim é que a Santa Igreja não duvida chamar às penas do Purgatório penas infernais [na Liturgia dos defuntos].

O fogo do Purgatório é aceso por um sopro infernal, e é tão ativo que não se chama simplesmente fogo, mas espírito de fogo (Is 4, 4), e derreteria num instante um monte de bronze, mais facilmente que uma de nossas fornalhas devoraria uma palha seca.

Tem ainda este fogo, além da atividade natural, uma potência superior, que lhe dá Deus, para servir de instrumento ao Seu furor.

Porém, diz o Senhor pelo profeta Zacarias, que Ele mesmo, mais que o fogo, purgará e limpará a alma eleita, ativando com Seu hálito as suas chamas (Zac 3, 9).

E qual não será o tormento das almas benditas naquele cárcere por meses e anos! Podemos fazer dele uma [longínqua] idéia, considerando que:

a) A alma, assim como é mais nobre que o corpo, é também mais capaz de sentir vivamente, seja a alegria, seja o sofrimento;

b) A alma unida ao corpo, se sente dor, sente-a temperada pelo mesmo corpo, e como que dividida entre ambos, servindo-lhe o corpo de escudo e anteparo da dor. Mas no Purgatório, estando longe do corpo, recebe diretamente sobre si toda a força da dor;

c) A alma unida ao corpo, se sofre no pé ou na mão ferida, não sofre na cabeça ou noutros membros sãos; mas no Purgatório, sendo indivisível e estando separada do corpo, é toda atingida pelas chamas.

Além do fogo, é a alma, no Purgatório, atormentada por si mesma, pensando:

a) Por quão ligeiras faltas está penando: por uma palavra inútil, por um olhar curioso, por uma intenção menos reta, que tão facilmente pudera evitar;

b) Que, podendo durante a vida tão facilmente descontar a pena merecida por suas faltas com praticar algumas ações meritórias, não o fez;

c) Que, deixando na terra filhos, amigos e herdeiros, que a deviam aliviar naquelas chamas, não o fazem, e só pensam em desfrutar dos bens que lhes deixou (Sl 30, 13). Com quanta razão se lamentará de não ter descontado os seus pecados, dando esmolas, e empregando em obras de caridade os bens que Deus lhe deu e que aumentou com tantos suores?

Sobre tudo isto, acresce o maior tormento do Purgatório, que é a privação da visão de Deus.

São João Crisóstomo disse (Hom. 24 in c. 7 Mat.) que o inferno do inferno é estar o condenado privado para sempre da visão de Deus. Assim também se pode dizer que o Purgatório do Purgatório é estar uma alma por muito tempo longe da visão de Deus. As almas são, pois, atormentadas por dois verdadeiros e profundíssimos sentimentos: desejo e amor.
O maior tormento de uma alma do Purgatório é desejar ir para Deus, e não poder. Esta pena é tanto maior, quanto maior é o conhecimento que lá a alma tem de Deus, pois, separada do corpo, conhece mais claramente a suma bondade de Deus, e se sente movida com maior força a ir para Ele, como a pedra para o seu centro.

Por isso, as suas maiores ânsias, no Purgatório, são suspiros pela visão beatífica, de que já sente a aproximação, mas que ainda não pode desfrutar. Clama ela, como o cego do Evangelho (Lc 18, 41): 'Senhor, que eu veja' essa luz da glória; que meus olhos desfrutem já da presença divina! Para chegar mais depressa à visão de Deus, esta alma preferiria que se lhe duplicasse o tormento do fogo, contanto que findasse o tormento do desejo de ver a Deus.

Conta-se [por exemplo] de Rutília que, sabendo que seu filho fõra condenado ao desterro para terras longínquas, se desterrou também, para não padecer, longe dele, o tormento da saudade.

Mas muito maior que o desejo, é o tormento do amor.

Três são os amores que atormentam as almas do Purgatório:

a) O amor natural, pelo qual a alma, por uma inclinação inata, é atraída para Deus como a Seu Criador, seu Princípio e último Fim, com maior ímpeto que a pedra propende para o centro da terra ou a chama para o ar;

b) O amor sobrenatural, pelo qual, [sob a ação da Graça,] é a alma vivíssimamente atraída para Deus como seu sumo, único e eterno Bem;

c) O amor de ardentíssima caridade, por saber que é esposa do divino Cordeiro, Jesus Cristo, destinada ao Reino Celestial, e, no entanto, vê que seu Esposo Divino lhe fecha a porta, e que seu amor é assim frustado.

A todos estes tormentos se deve juntar a duração das penas, por meses, por anos e, talvez, até o fim do mundo.

Quanto se amedronta e aterra um malfeitor, ao ouvir a sentença de ficar por algum tempo encerrado num cárcere escuro ou de por três anos trabalhar nos porões das galés! Quanto se lamenta um enfermo a quem se avisa de que terá de sofrer por um quarto de hora uma dolorosíssima operação! E a quem não de gelar o sangue ao pensar que, por seus pecados, há de estar sepultado nas chamas do Purgatório por anos inteiros, e talvez até o dia do Juízo Final?!

Santo Agostinho diz que, no Purgatório, um dia é como mil anos (In Ps 37).

Assim é que a esperança e o desejo de ver a Deus, e de passar de um excessivo tormento a uma indizível alegria, fará parecer uma hora mais longa que um século.

Conta Santo Antonino que um enfermo havia muito tempo que sofria horríveis dores. Apareceu-lhe o seu Anjo da Guarda e lhe propôs, por ordem de Deus, que escolhesse: ou sofrer aquelas dores por mais um ano, ou passar meia hora no Purgatório. O enfermo respondeu que preferiria estar meia hora no Purgatório, pois assim acabava mais depressa de sofrer. Pouco depois expirou, e o Anjo foi visitá-lo no Purgatório. Ao ver o Anjo, a pobre alma começou a soltar gemidos inconsoláveis, dizendo-lhe que a tinha enganado, pois, tendo-lhe assegurado que estaria ali só meia hora, já eram passados vinte anos que estava lá penando. Vinte anos? - replicou o Anjo - não passaram mais que poucos minutos de tua morte, e teu cadáver ainda está quente sobre o leito!

Tanto é verdade que as penas do Purgatório, em certo modo, - sapiunt naturam aeternitatis -, têm um sabor de eternidade, por parecer à imaginação do padecente que uma hora é como um século.

II. Dificuldade em evitar o Purgatório

Um mal qualquer, por maior que seja, se facilmente se pode evitar, não é grande mal; mas um mal grande, que dificilmente se pode evitar, torna-se extremo.

Tal é o Purgatório; pois, como atesta o cardeal e Doutor da Igreja São Roberto Belarmino (De amis. grat., c. 13), até dos homens mais santos e perfeitos, pouquíssimos são os que vão direto ao Paraíso.

O mesmo Santo, estando próximo à morte, recebeu a visita do Geral da Companhia de Jesus, que, sabendo como era santíssima a vida de Belarmino, lhe disse que todos tinham firme esperança de que, depois da morte, ele voaria logo para o Céu. - 'Mas não a tenho eu, disse o Santo; eu não tenho essa esperança'.

Santa Teresa d'Ávila conta que, sendo-lhe revelado o estado de muitas almas na outra vida, só de três sabia que tivessem ido para o Céu sem passar pelo Purgatório [e uma destas almas era ninguém menos que um São Pedro de Alcântara].

Nem isto nos deve maravilhar. São Bernardo diz (Decl. sup. Ecce nos) que, assim como não há obra boa, por mais pequena que seja, que Deus não remunere largamente, assim não há mal, por mais ligeiro que seja, que Deus não castigue severamente. Ora, sendo a alma mais justa e santa sujeita a muitas imperfeições, naturalmente está exposta a ir pagar por elas no Purgatório.

Se por um lado não quer Deus que nada impuro entre no Céu, por outro não escapa a Seus olhos a mais ligeira mancha, que nós, muitas vezes, nem chegamos a descobrir. Por isso diz a Escritura que até nos Anjos encontra Deus que repreender (Job 4, 18), e que os mesmos céus não são puros na Sua presença (Job 15, 15), e que até nas obras dos justos encontra que emendar (Sl 74, 3).

O santo Jó, conhecendo esta minuciosa Justiça de Deus, temia que as suas ações, ainda as mais santas, não Lhe fossem plenamente agradáveis (Job 9, 28).

Oh! Como são terríveis os juízos de Deus, e como são diversos dos d'Ele os juízos dos homens! O homem não vê senão o que aparece por fora; Deus, porém, penetra o coração (1 Rs 16, 7).

O padre Baltasar Álvarez, da Companhia de Jesus, confessor de Santa Teresa d'Ávila, era, por testemunho de sua Santa penitente, um dos homens mais santos e piedosos de seu tempo. Um dia, ele pediu ao Senhor que lhe revelasse quais eram as suas obras que mais O agradavam. Deus Nosso Senhor ouviu a sua oração, e fez-lhe ver as suas obras no símbolo de um cacho de uvas, em que umas eram verdes, outras amargas, e só duas ou três estavam maduras, e estas ainda não de todo doces ao paladar. 'Tais são, disse-lhe o Senhor, as tuas ações; delas só duas ou três são boas, e mesmo nestas, se examinarem com rigor, não lhes faltará que repreender'.

Daqui se vê como é severa a Justiça Divina em julgar as ações dos homens, e como é difícil, ao morrer, estar um alma tão purificada, que não fique nada por que satisfazer no Purgatório.

Não faltam exemplos na vida dos Santos que confirmam esta doutrina.

Na vida de São Severino se conta que, enquanto um clérigo passava um rio, apareceu-lhe um sacerdote e, tomando-lhe a mão, a queimou toda, dizendo: Isto sofro no Purgatório por não rezar as Horas canônicas com atenção.

De São Martinho escreve São Gregório Turinense que, orando no sepulcro de sua irmã e recomendando-se a ela como a santa, de repente ela lhe apareceu, vestida do hábito de penitente, com o rosto triste e pálido, e lhe disse que ainda estava no Purgatório, por ter penteado o cabelo na Sexta-Feira Santa, não se lembrando que era o dia da Paixão do Senhor.

A irmã de São Pedro Damião, como ela mesma revelou a uma santa alma, foi condenada a penar dezoito dias no Purgatório, por ter, de sua cela, ouvido curiosamente os cantos e músicas que entoavam debaixo da janela.

São Severino, Arcebispo de Colônia, foi condenado a um gravíssimo Purgatório, por ter recitado as Horas canônicas sem a devida distinção de tempos, apesar de serem muitos os negócios de seu palácio, que parece o desculpariam.

Entremos agora dentro de nós mesmos, e tiremos a conseqüência, que tirou também Santo Antonino depois de contar a seus religiosos semelhantes exemplos: 'Tema, pois, cada um de vós, cometer pecados veniais e não se purificar deles nesta vida'.

Se Deus é tão severo em punir no Purgatório as menores faltas, e se é tão difícil, mesmo para as almas mais perfeitas, evitá-lo, como é que me atrevo a acumular pecados veniais em minha vida, sem fazer penitência deles?... E se aqui me parece insuportável uma pequena agulha, que será sofrer aquele fogo atrocíssimo?... Por que não procuro depurar as minhas ações de toda impureza, e fazer penitência pelos pecados cometidos?... Andemos sempre alumiados pelas chamas do Purgatório, para evitarmos, com a perfeição de nossas obras, cair naqueles horríveis tormentos (Is 40, 11).

III. Como devemos evitar o Purgatório

É verdade de Fé que ninguém entra no Céu sem estar de todo purificado (Apoc 21, 17), e sem primeiro ter satisfeito todas as suas dívidas à divina Justiça (Mt 5, 26). Deste modo, ou havemos de punir em nós mesmos, nesta vida, os nossos pecados, ou então Deus se encarregará de os castigar depois da nossa morte. Não há como escapar, diz Santo Agostinho (Conc. 1 in Ps 58).

Quem, na vida, não apaga os pecados com as lágrimas da penitência, depois da morte se purificará deles com as chamas do Purgatório. Ora, não é melhor lavar os pecados com água do que com fogo?

Na vida, com um dia de penitência, e até com uma hora, podemos satisfazer por nossos pecados o que no Purgatório nem por um ano expiaríamos. Ora, não é melhor padecer por um pouco, neste mundo, que padecer no outro por longo tempo, que pode ser até o dia do Juízo?

Ajuntemos que a penitência feita em vida é meritória, e depois da morte nada merece. Ainda que penemos por mil anos no Purgatório, não adquiriremos um novo grau de graça, nem um novo grau de glória no Céu.

E não é mais sensato sofrer pouco e por pouco tempo, e com mérito, do que sofrer muito e por muito tempo, e sem mérito nenhum?

Finalmente, a Divina Justiça fica mais satisfeita com a penitência, ainda que pequena, feita nesta vida, do que com a pena, ainda que maior, tolerada depois da morte; porque a primeira é um sacrifício voluntário e uma pena tomada espontaneamente, ou espontaneamente aceita, ao passo que a segunda é um sacrifício forçado, e uma pena tolerada por necessidade e contra vontade.

Por todas estas razões se vê claramente quanto importa descontar, nesta vida, as penas que devemos a Deus por nossos pecados, pela enorme vantagem de nos livrarmos, desta maneira, dos males do Purgatório.

Frutos

Consideremos os frutos que devemos tirar desta doutrina, para nos resolvermos a evitar o Purgatório, usando de todos os meios que a isto nos possam ajudar.

O primeiro é fazermos agora, por nós mesmos, penitência dos nossos pecados, e praticar boas obras o mais que pudermos, e não pôr a nossa esperança em sufrágios futuros. E isto devemos fazer sem demora, antes que sejamos assaltados por algum acidente (Gál 6, 10).

O segundo é pôr todo o cuidado em ganhar as santas indulgências, com as quais satisfaremos por nossos pecados com a satisfação e méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O terceiro, finalmente, é usar de piedade com as almas do Purgatório, ajudando-as com os nossos sufrágios, obras e orações, porque Deus disporá que aquela caridade que usamos com os outros seja também usada conosco (Mt 7, 2). Depois essas almas, quando estiverem no Céu, serão gratíssimas para conosco, obtendo-nos muitas graças de Deus. Feliz de quem salvou uma alma do Purgatório com seus sufrágios, porque terá diante de Deus quem interceda por ele, quando também estiver penando naquele lugar.

Conta Bernardino de Bustis que morreu um pai, e com seus bens deixou um filho riquíssimo. Este ingrato filho não pensou mais em quem tanto o tinha beneficiado, pois nunca mandou sufragar a alma de seu pai, que ardia no Purgatório. Ora, que aconteceu? Ainda que os seus capitais fossem avultadíssimos, contudo estava sempre em penúria. Contínuas tempestades lhe destruíam as plantações, males imprevistos dizimavam-lhe os rebanhos, incêndios e desastres arruinavam-lhe a casa. Já os pleitos, já o fisco, já os inimigos o obrigavam a gastos desmedidos. Um dia, encontrando-se com um servo de Deus, pediu-lhe que o recomendasse em suas orações. Fê-lo o santo varão, a quem foi revelado que aquele filho ingrato não podia desfrutar dos bens herdados, porque tinh a o pai no Purgatório, que o amaldiçoava, e as suas maldições eram aceitas da Divina Justiça pela sua perversa ingratidão.

Façamos bem aos nossos defuntos, que o mesmo farão conosco (Ecli 12, 2).

Imaginemos que Jesus Cristo diz a cada um de nós a respeito dos nossos defuntos, o que disse a respeito de Lázaro: 'Desatai-o e deixai-o ir' (Jo 11, 44).


(Padre Alexandrino Monteiro S. J., Exercícios de Santo Inácio de Loyola, II Edição, Editora Vozes, Petrópolis: 1959, páginas 80-90).)

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 2

2) Quem é Deus?
Deus é o Ser perfeitíssimo Criador e Senhor do Céu e da Terra.

Matrimônio Cristão - Católico - 9ª Parte

Declaração "Matrimonia quae in locis", 4 nov. 1741

Os matrimônios clandestinos

Se se devam julgar válidos ou não os matrimônios que, nas regiões sujeitas ao domínio dos Estados Federados da Bélgica, são realizados costumeiramente, seja entre hereges de uma parte e de outra, seja entre um homem herege de uma parte e uma mulher católica da outra, ou vice-versa, sem que seja observada a forma prescrita pelo sagrado Concílio de Trento [Decreto "Tametsi"], foi discutido longa e repetidamente, dividindo-se os ânimos e as opiniões em direções opostas; coisa que, por muitos anos, representou uma bem produtiva semeadura de ansiedade e perigos ...
(1) ... O nosso Santíssimo Senhor (o Papa) ... agora ordenou que seja elaborada esta declaração e instrução, que todos os bispos da Bélgica, os párocos e os missionários daquelas regiões, bem como os vigários apostólicos, de agora em diante, devem utilizar como regra e norma segura em situações desse gênero.
(2) Em primeiro lugar, portanto, no que diz respeito aos matrimônios celebrados pelos hereges entre si nas regiões sujeitas ao domínio dos Estados Federados sem observar a forma prescrita pelo Concílio de Trento, mesmo se Sua Santidade não ignora que a Congregação do Concílio, em outro momento, em alguns casos particulares, e tendo considerado atentamente as circunstâncias então expostas, respondeu a favor da sua invalidade, e sabendo igualmente, por outro lado, que nada até agora foi estabelecido pela Sé Apostólica de caráter geral e universal em ordem a semelhantes matrimônios, e que, de resto, para cuidar de todos os fiéis que vivem naqueles lugares e para eliminar numerosos gravíssimos danos, é absolutamente necessário declarar o que se deve pensar em geral desses matrimônios:
... declarou e definiu que os matrimônios até agora celebrados entre hereges, nas acima referidas Províncias Federadas da Bélgica, e os que em seguida serão contraídos, também se na sua celebração não foi observada a forma prescrita pelo Concílio de Trento, contanto que não haja obstáculo de outro impedimento canônico, devem ser considerados válidos; e que, portanto, se porventura acontecer que ambos os cônjuges retornem ao seio da Igreja Católica, eles se atenham absolutamente ao vínculo conjugal de antes, também se não foi renovado por eles o mútuo consenso diante do pároco católico; e que, se, mais tarde, um somente dos cônjuges, seja o homem ou a mulher, se converte, nenhum dos dois pode, enquanto o outro estiver vivo, contrair outra núpcias.
(3) No que se refere àqueles matrimônios que nas mesmas Províncias Federadas da Bélgica são contraídas sem a forma estabelecida pelo Concílio de Trento, por católicos com hereges, seja que um homem católico espose uma mulher herege, seja que uma mulher católica espose um homem herege: Sua Santidade, antes de tudo grandemente amargurado pelo fato de haver católicos que, torpemente enlouquecidos por um amor doentio, não fogem de toda a alma desses matrimônios detestáveis, que a santa mãe Igreja sempre tem condenado e proibido, e não acham que devem absolutamente se abster, ... exorta e admoesta [os pastores de almas] de modo sério e grave para que, na medida do possível, afastem os católicos de ambos os sexos de contrair semelhantes matrimônios para ruína das próprias almas e façam de tudo para obstacularizar da melhor maneira tais núpcias e impedi-las de modo eficaz.
Mas no caso em que algum matrimônio deste gênero, não observada a forma do Concílio de Trento, já tenha sido contraído por lá, ou no futuro eventualmente deva ser contraído (do que Deus nos preserve), Sua Santidade declara que tal matrimônio, não se opondo outro impedimento canônico, deve ser considerado válido, e que nenhum dos dois cônjuges, enquanto o outro está vivo, em caso algum pode contrair novo matrimônio com o pretexto de não ter sido observada a forma acima referida; e que justamente isto deve sobretudo convencer o cônjuge católico, seja homem ou a mulher, pelo gravíssimo pecado que cometeu, a fazer penitência e a implorar o perdão de Deus e a tentar, segundo as suas forças, atrair o outro cônjuge, desviado da verdadeira fé, para o seio da Igreja católica e ganhar a sua alma, o que, aliás, seria utilíssimo para obter o perdão da culpa cometida, sabendo, além disso, como acabamos de dizer, que será ligado para sempre com o vínculo deste matrimônio.
(4) [A mesma coisa vale] ... também com referência a matrimônios semelhantes que, fora dos limites dos supraditos Estados Federados, foram contraídos por aqueles que são empregados nos exércitos ou tropas que os mesmos Estados Federados costumam deslocar para vigiar e defender as fortalezas de fronteiras, vulgarmente chamadas de barrieras [[ital.]]: de modo, porém, que os matrimônios aí iniciados sem a forma do Concílio de Trento, seja entre hereges de ambas as partes, seja entre católicos e hereges, obtenham a sua validade, com a condição de que ambos os cônjuges pertençam a essas tropas ou exércitos. ...
5) Finalmente, no que diz respeito aos matrimônios que são contraídos, ou nas regiões dos Príncipes Católicos por aqueles que têm domicílio nas Províncias Federadas, ou nas Províncias Federadas por aqueles que têm domicílio nas regiões dos Príncipes Católicos, Sua Santidade não julgou haver algo de novo a estabelecer ou a declarar, querendo que, onde surgir discussão a esse respeito, se decida segundo os princípios canônicos do direito comum e as resoluções aprovadas em casos semelhantes e em outras oportunidades, notificadas pela Sagrada Congregação do Concílio; e assim declarou e estabeleceu e ordenou que no futuro seja por todos observado.

21 de setembro de 2009

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 1

Foram estas palavras que Jesus disse a seus discípulos, quando estes afastavam e repeliam as crianças, que para Ele se dirigiam sorridentes.
Jesus Cristo é o grande amigo das crianças e gosta da sua inocência.
Por isso, durante os anos que passou na Terra, queria que elas estivessem sempre ao seu lado. Ele mesmo as procurava, para abraçá-las e abençoá-las.
Desde aquele tempo tem sido inúmeros os amiguinhos de Jesus Cristo e constituem mesmo uma verdadeira legião! Sabem mostrar-lhe que muito O amam, rezando, praticando boas obras e oferecendo-Lhe sacrifícios.
Tú também amas Jesus Cristo, não é mesmo?
Mas para amá-Lo, como deves, precisas conhecê-Lo. Nas aulas de catecismo já começaste a conhecer Jesus Cristo e todas as coisas lindas e santas que a Doutrina Católica ensina. Para que essas verdades divinas fiquem impressas em teu coração, ofereço-te, caro amiguinho(a), estas publicações, onde encontrarás perguntas, que tu irás decorá-las para melhor compeender as verdades e delas nunca te esqueceres.
Garanto que a infinita beleza da religião Católica vai encantar-te. Sentirás alegria pensando que tua fé não é só professada por milhões de homens, mas que já o tem sido assim através dos séculos.
Os mártires consagraram-na com seu sangue e foi ela a inspiradora dos feitos imortais de nossos antepassados.
As verdades da nossa fé são deslumbrantes e possuem o poder de atrair e convencer as almas de boa vontade.
"Jesus é o único Mestre que tem palavras de Vida eterna" (João, 6, 69)

1) Quem nos criou?
Foi Deus que nos criou.
Muitos anos antes do nascimento de teu pai, de teu avô e de todos os homens e mesmo antes de se formar a Terra onde vivemos, já existia Deus.
Contempla o céu numa noite serena: cintilam as estrelas, a lua parece uma barquinha de prata, navegando no espaço. Olha depois o mar imenso, as montanhas cobertas de mata virgem, as florinhas dos campos, os passarinhos no ar, os peixes na água, os animais grandes e pequenos: o leão, o boi, o carneirinho. Em outros tempos nada disto havia. Deus, por ser muito bom, quis dar a todos os seres que hoje existem um dom precioso: o dom da existência.
E Deus disse: Faça-se tudo. E tudo foi feito.
Tudo o que vês, tanto as coisas grandes como as pequenas, saíram das mãos onipotentes de Deus.
Depois de haver criado todos os seres visíveis, Deus criou o primeiro homem e a primeira mulher, que se chamaram Adão e Eva. Foram os nosso primeiros pais.
Assim como Adão e Eva, agora também nós adoramos a Deus nosso Criador e Lhe damos graças por todos os dons que nos concedeu.
Com muito empenho entreguemo-nos ao estudo de todas as verdades de nossa religião, pensando "que tal estudo está intimamente ligado a todos os progressos da inteligência" (Diderot).
"Bem-aventurado o homem que com prazer se aplica ao estudo da lei do Senhor e nela medita dia e noite" (Salmo I, 2)

20 de setembro de 2009

Da Vida Perfeita - S. Gregório de Nissa

S. Gregório de Nissa, Vida de Moisés

Pediste-me, meu querido, que te trace um esboço de qual é a vida perfeita, com a intenção evidente de aplicar a tua própria vida – se o que procuras se encontra em minha resposta – a graça indicada por minhas palavras. Sinto-me igualmente incapaz destas coisas: confesso que se encontra acima de minhas forças tanto o definir com palavras em que consiste a perfeição, como o mostrar em minha vida o que o espirito entende dela. Talvez não só eu, mas também muitos dos grandes e avançados na virtude confessarão que uma coisa assim também não é alcançável para eles. Explicarei com a maior clareza o que estou tentando dizer, para não parecer, dizendo-o com as palavras do Salmo, que tenho temor onde não deve haver temor (Sal 13, 5).

Em todas as coisas pertencentes à ordem sensível, a perfeição está circunscrita por alguns limites, como sucede com a quantidade contínua ou descontínua. Com efeito, tudo aquilo que se pode medir quantitativamente se encontra em limites bem definidos, e alguém que considere um pedaço ou o número dez sabe bem que, para essas coisas, a perfeição consiste em ter um começo e um fim. Por outro lado, com relação à virtude, aprendemos com o Apóstolo que o único limite de perfeição consiste em não ter limite.

Aquele divino Apóstolo, grande e elevado de pensamento, correndo sempre pelo caminho da virtude, jamais cessou de se lançar para a frente, pois lhe parecia perigoso deter-se na corrida. Por que? Porque todo o bem, pela própria natureza, carece de limites, e só é limitado pela presença de seu contrário, como a vida é limitada pela morte e a luz pelas trevas; em geral, tudo aquilo que é bem tem seu fim naquilo que é considerado o oposto do bem. Assim como o fim da vida é o começo da morte, assim também o deter-se na corrida pela virtude é o princípio da corrida ao vício.

Por este motivo, não nos enganava nosso raciocínio ao dizer que, no que diz respeito à virtude, é impossível uma definição da perfeição, já que demonstramos que tudo que se encontra demarcado por alguns limites não é virtude. E como eu disse que para aqueles que vão atras da virtude é impossível alcançar a perfeição, esclarecerei meu pensamento com relação a esta questão.

O Bem em sentido primeiro e próprio, aquele cuja essência é a Bondade, esse mesmo é a Divindade. Esta é chamada com propriedade – e é realmente – tudo aquilo que implica sua essência. Como já foi demonstrado que a virtude não tem mais limite alem do vício, e foi demonstrado também que na Divindade não cabe o que é contrário, conclui-se consequentemente que a natureza divina é infinita e ilimitada. Portanto, quem busca a verdadeira virtude não busca outra coisa senão Deus, já que Ele é a virtude perfeita. Com efeito, a participação do Bem por natureza é completamente desejável para quem o conhece, e, alem disso, o Bem é ilimitado; segue-se, pois, necessariamente que o desejo de quem busca participar dele é coextensivo com aquilo que é ilimitado, e não se detém jamais.

Portanto, é impossível alcançar a perfeição, pois, como já dissemos, a perfeição não está circunscrita por nenhum limite; o único limite da virtude é o ilimitado. E como poderá alguém chegar ao limite prefixado, se este limite não existe? Porem o fato de havermos demonstrado que o que buscamos é totalmente inatingível, não justifica que se possa descuidar do preceito do Senhor, que diz: Sede perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste. (...) Deve-se portanto, pôr todo ardor em não estar privado da perfeição possível e, em conseqüência, em alcançar dela tanto quanto sejamos capazes de receber em nosso interior. Talvez a perfeição da natureza humana consista em estar sempre dispostos a conseguir um maior bem.

18 de setembro de 2009

Matrimônio Cristão - Católico - 8ª Parte

Constituição "Populis ac nationibus", 25 jan. 1585

O privilégio paulino

Para com os povos e as nações que, há pouco tempo, (saindo) do erro do paganismo se converteram à fé católica, é conveniente usar de indulgência no tocante à liberdade de contrair matrimônio, para não acontecer que os homens, minimamente habituados a guardar a continência, por esta razão perseverem na fé com menos agrado e por seu exemplo detenham outros de abraçá-la.
Ora, como muitas vezes acontece que muitos infiéis de ambos os sexos, mas sobretudo do masculino, depois que contraíram matrimônio no rito pagão... feitos prisioneiros pelos inimigos, são desterrados dos territórios pátrios e dos próprios cônjuges para regiões muito longínquas, a tal ponto que, quer os prisioneiros, quer os que permanecem na pátria, ao se converterem mais tarde à fé, não podem, separados por tamanha distância territorial, consultar convenientemente os cônjuges não-crentes se querem coabitar com eles sem ofensa ao Criador, seja porque nem sequer os mensageiros têm acesso àquelas províncias hostis e bárbaras, seja porque ignoram completamente a que regiões foram banidos, seja porque a distância da viagem comporta gande dificuldade: por este motivo, Nós, considerando que tais matrimônios contraídos entre não-crentes são tidos como verdadeiros, sim, mas não a tal ponto ratificados que não possam ser desfeitos por convincente necessidade, concedemos ... aos Ordinários dos lugares e aos párocos ... a faculdade de dispensar [quanto à interpelação] todos os fiéis cristãos de ambos os sexos que são habitantes das referidas regiões e que, tendo contraído matrimônio antes de serem batizados, depois se converteram à fé, para que cada um deles, embora ainda viva o cônjuge não-crente, e sem requisitar de modo algum seu consentimento ou sem esperar resposta, possam contrair matrimônio com qualquer fiel - inclusive de outro rito - e celebrá-lo solenemente diante da Igreja e, depois de consumado pela cópula carnal, permanecer licitamente no matrimônio enquanto viverem; contanto que conste, ainda que sumária e extrajudicialmente, que o cônjuge ausente, como se disse antes, não pode ser consultado legitimamente ou, consultado, não expressou sua vontade no prazo prefixado no aviso; decretamos que estes matrimônios, também se mais tarde ficar sabido que os anteriores cônjuges não-crentes, justamente impedidos, não puderam declarar sua vontade e, até, já se tinham convertido na época em que foi contraído o segundo matrimônio, não obstante isso, nunca devem ser rescindidos, mas são válidos e firmes, e a prole daí (oriunda) deve ser considerada legítima.

15 de setembro de 2009

Matrimônio Cristão - Católico - 7ª Parte

Carta "Deessemus nobis" ao bispo de Mottola (Taranto), 16 set. 1788

A competência da Igreja no âmbito do matrimônio

Nós não ignoramos que há alguns que, concedendo demais à autoridade dos príncipes seculares e interpretando de modo capcioso as palavras deste cânon [Concílio de Trento, sessão 24ª, O matrimônio, cân. 12], começaram a sustentar que, já que os Padres tridentinos não usaram esta fórmula: "só dos juízes eclesiásticos", ou "todas as causas matrimoniais", deixaram aos juízes leigos o poder de instruir ao menos as causas matrimoniais que são de mero fato.
Mas sabemos que também este raciocínio capcioso e este modo falso de sofismar está desprovido de todo fundamento. As palavras do cânon são, de fato, tão gerais que compreendem e abraçam todas as causas. O espírito e o sentido da lei, pois, se estende de modo tão amplo que não deixa nenhum espaço para exceção ou limitação. Se portanto estas causas pertencem ao julgamento tão somente da Igreja, por nenhuma outra razão senão porque o contrato matrimonial é verdadeira e propriamente um dos sete sacramentos da lei evangélica, como esta qualidade de sacramento é comum a todas as causas matrimoniais, todas estas causas devem ser reservadas exclusivamente aos juízes eclesiásticos.

10 de setembro de 2009

Matrimônio Cristão - Católico - 6ª Parte

Resposta do S. Ofício a missionários capuchinhos, 23 jul. 1698

O matrimônio como contrato e sacramento

Pergunta: Entre apóstatas da fé, anteriormente validamente batizados, um matrimônio concluído publicamente, depois da apostasia, segundo o costume dos pagãos ou dos maometanos, é verdadeiramente matrimônio e sacramento?
Resposta: Se existir o pacto de dissolubilidade, não é matrimônio e nem sacramento; se ao invés, isto não existe, é matrimônio e sacramento.

8 de setembro de 2009

O Céu Aberto pela prática das Três Ave-Marias

O Céu aberto pela prática das Três Ave-Marias


Um dos meios de salvação mais eficaz e um dos sinais mais seguros de predestinação é, indubitavelmente, a devoção à Santíssima Virgem. Todos os Santos Doutores da Igreja são unânimes em dizer com Santo Afonso Maria de Ligório: “Um servo devoto de Maria nunca perecerá.”
O mais importante é perseverar fielmente nesta devoção até à morte.
Haverá prática mais fácil ou mais adaptável a todos que a recitação diária das três Ave-Marias, em honra dos privilégios outorgados à Santíssima Virgem pela Trindade Adorável?
Um dos primeiros a rezar as três Ave-Marias e a recomendá-las aos outros foi o ilustre Santo António de Lisboa. O Seu objetivo especial nesta prática foi honrar a Virgindade sem mácula de Maria e guardar uma pureza perfeita da mente, do coração, e do corpo no meio dos perigos do mundo. Muitos, como ele, têm sentido os seus efeitos salutares.
Mais tarde, o célebre missionário São Leonardo de Porto Mauricio rezava as três Ave-Marias, de manhã e à noite, em honra de Maria Imaculada, para obter a graça de evitar todos os pecados mortais durante o dia, ou durante a noite. Além disso, prometeu de um modo especial a salvação eterna a todos aqueles que permanecessem fiéis a esta prática.
Depois do exemplo daqueles dois grandes Santos Franciscanos, Santo Afonso Maria de Ligório adotou esta prática piedosa e deu-lhe o seu apoio entusiástico e poderoso. Não só a aconselhava, como a impunha em penitência àqueles que não tivessem adotado este bom costume.
O Santo Doutor exorta, em particular, os padres e confessores a velarem cuidadosamente para que as crianças sejam fiéis em rezar diariamente as suas três Ave-Marias, de manhã e à noite. E, melhor ainda, São Leonardo de Porto Mauricio recomendava a todos esta santa prática: “aos piedosos e aos pecadores, aos jovens e aos velhos”.
Até as pessoas consagradas a Deus obterão desta prática muitos frutos preciosos e salutares. Exemplos numerosos demonstram que agradáveis são à Mãe de Deus as três Ave-Marias e que graças especiais obtêm, durante a vida e à hora da morte, para aqueles que nunca as omitem todos os dias, sem exceção.
Esta prática foi revelada a Santa Matilde (Século XIII) com a promessa de uma boa morte se fosse fiel a ela todos os dias.
Está escrito também nas revelações de Santa Gertrudes: “Enquanto esta Santa cantava a Ave-Maria nos cantos matinais da Anunciação, viu subitamente três chamas brilhantes brotar do Coração do Pai, do Filho e do Espírito Santo, as quais penetraram o Coração da Santíssima Virgem”. E logo escutou as seguintes palavras: “Depois do Poder do Pai, da Sabedoria do Filho e da Ternura misericordiosa do Espírito Santo, nada se aproxima do Poder, da Sabedoria e da Ternura misericordiosa de Maria”.
Sua Santidade Bento XV elevou a Confraria das Três Ave-Marias a uma Arquiconfraria, outorgando-lhe indulgências preciosas com o poder de unir, assim, todas as Confrarias do mesmo tipo, e comunicar-lhes as suas próprias indulgências.
Prática: Reze, de manhã e à noite, três Ave-Marias em honra dos três grandes privilégios de Nossa Senhora, seguidas desta invocação: de manhã - “Ó minha Mãe, livrai-me do pecado mortal durante este dia,”; à noite - “Ó minha Mãe, livrai-me do pecado mortal durante esta noite”.

NOSSA SENHORA DA LUZ, PADROEIRA DE CURITIBA

Padroeira de Curitiba

Devoção mariana, nascida de milagre em Portugal, floresce no Brasil
Valdis Grinsteins

Neste mundo neopagão em que vivemos, os homens não entendem o modo de agir divino: se Deus nos prova nesta vida, visa premiar-nos na vida eterna, caso sejamos fiéis. Assim, a história da devoção mariana narrada a seguir nasceu de uma provação, da terrível prova da escravidão.

Pero Martins era um português pobre da vila de Carnide. Dedicava-se à agricultura pelo início do século XV. Tendo trabalhado no sul de Portugal, conheceu Inês Anes, uma moça dona de algum patrimônio com a qual casou. Voltou à sua vila natal e lá levava uma existência tranqüila com sua esposa. Vida ideal segundo muitos... mas não segundo Deus, que desejava muito mais do nosso bom português.
A provação despontou em seu caminho. Caiu ele prisioneiro dos mouros da África. Teria ele participado de alguma das numerosas expedições lusas à África ou sido seqüestrado pelos piratas muçulmanos que saqueavam as costas portuguesas? Não o dizem as crônicas. O fato é que esteve prisioneiro na África.

Que queda espetacular! Passar de senhor de si e de outros, alimentando-se bem, rodeado do carinho de sua família, trabalhando num clima agradável, e sobretudo confortado facilmente pelos auxílios da Religião verdadeira, a católica, para a tristíssima condição de escravo, obrigado a trabalhar num campo alheio, sob clima atroz, para alimentar um grupo de seqüestradores, sem segurança de nenhuma espécie, alheio a todo carinho e compaixão. Exposto a morrer a qualquer momento, sem ter perto um padre para o ajudar a viver e morrer bem e assim poder se apresentar diante do terrível tribunal divino, no qual a sentença é nada menos do que a bem-aventurança eterna ou o inferno eterno!

Realmente, isso é que é prova! Quantos anos durou? Ninguém sabe, mas provavelmente foi um bom tempo. Procurou-se resgatar Pero Martins de seu cativeiro, mas dadas as miseráveis comunicações do tempo, especialmente entre povos inimigos, não se conseguiu pagar o resgate. Assim, teve ele que continuar prestando “serviços” a seus cruéis amos.

Já transcorria o ano de 1463 e nenhuma esperança humana restava ao infeliz cativo. O que fazer nessa terrível circunstância? Abandonar a Fé católica, o que lhe traria a libertação quase automática? Loucura! Seria trocar poucos anos de vida, ainda que em liberdade, por uma eternidade infeliz – o pior negócio desta vida.

Solução milagrosa para situação insolúvel

Pero Martins rezou a Maria Santíssima, a Qual decidiu solucionar sua situação de forma a evidenciar que remove todos os obstáculos postos pelos homens. A Mãe de Deus apareceu-lhe em sonhos durante 30 noites consecutivas e prometeu-lhe que na última noite, ao acordar, estaria em Carnide, sua cidade natal. Acrescentou que, ao chegar ali, deveria buscar uma imagem Sua que fora escondida perto da fonte do Machado, num local que lhe seria indicado por uma Luz. Nossa Senhora pediu, além disso, que construísse uma ermida no lugar em que encontrasse a imagem.

Indescritível a alegria do bom português ao acordar e encontrar-se de volta em sua terra! Parecia mentira! Sair da terrível escravidão de forma tão fácil, só porque Ela, a Rainha do Céu e da Terra, assim o quis! Tomado de emoção, Pero Martins pôs-se imediatamente a procurar a Imagem que Nossa Senhora lhe pedira para encontrar. Não foi difícil que lhe dessem notícias dela, porque já há algum tempo começara a aparecer sobre a fonte do Machado uma luz misteriosa, cuja origem ninguém conseguia descobrir. Até de Lisboa, a capital, curiosos apareceram para ver tão estranho fenômeno.

Saiu então Pero de noite, acompanhado de seu primo Lopo Simões, para procurar a imagem. Ao chegar à fonte viram a Luz, a qual começou a se mover na frente deles. Seguiram-na até parar no meio do matagal, sobre umas pedras. Os dois primos removeram as pedras e encontraram uma imagem de Nossa Senhora, tal como a Virgem havia descrito nos sonhos.

Nasceu assim a devoção a Nossa Senhora da Luz, para a qual foi construída uma ermida e depois uma magnifica igreja no local da aparição.

A nova devoção mariana transfere-se ao Brasil

Menos de 40 anos haviam transcorrido desse fato prodigioso, quando a frota de Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil. E, junto com a Religião católica, vieram ao Brasil as devoções mais correntes em Portugal.

Em 1580 já existia em São Paulo uma igreja dedicada a Nossa Senhora da Luz, transferida em 1603 para o atual bairro da Luz, onde se encontra o Mosteiro concepcionista no qual está enterrado o bem-aventurado Frei Galvão. No Rio de Janeiro havia igualmente um santuário, cuja imagem encontra-se hoje na Matriz do Alto da Boa Vista.

Padroeira de Curitiba

Mas foi especialmente em Curitiba onde Nossa Senhora quis mostrar que sua bondade se estendia à nação filha de Portugal, libertando os pobres índios pagãos, escravos dos pecados e dos vícios.

Por volta de 1650 existia uma capela dedicada a Nossa Senhora da Luz, perto do rio Atuba, no atual Estado do Paraná. Os habitantes do local notaram com surpresa que, pelas manhãs, a imagem tinha sempre os olhos voltados para uma região com muitos pinheiros, ou pinhais – Curitiba, em idioma indígena –, onde dominavam os ferozes índios caingangues. De tal modo o olhar da imagem nessa direção era insistente, que os habitantes decidiram desbravar a região. Para isso, armaram-se e penetraram no local, decididos a lutar e dominar os selvagens.

Nossa Senhora da Luz apazigua indígenas

Em vez do previsível combate, o que ocorreu foi a acolhedora recepção oferecida pelo cacique Gralha Branca, ou Araxó. Os índios concordaram em ceder amigavelmente o terreno aos desbravadores, e o cacique tomou sua vara, símbolo do mando, enterrando-a no local que viria a ser a praça central da futura cidade. Muito simbolicamente, dita vara, ao chegar a primavera, voltou a desabrochar, dando galhos e flores. Nesse local – hoje Praça Tiradentes – foi erguida a igreja em honra a Nossa Senhora da Luz.

Com o tempo a cidade cresceu, de tal modo que foi necessário edificar novo templo. Foi então construída a bela Catedral neogótica que hoje conhecemos. É pena, porém, que a imagem original da Padroeira, feita de terracota, não permaneceu na nova Catedral encontrando-se até hoje no Museu paranaense.

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Bibliografia:
Edesia Aducci, Maria e seus gloriosos títulos, Ed. Lar Católico, 1958.

NilzaBotelho Megale, Cento e doze invocações de Virgem Maria no Brasil, Ed. Vozes, Petrópolis 1986.

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/7C17D7BB-A484-87B1-0A2E04A3AA757B7F/mes/Setembro1999

3 de setembro de 2009

Matrimônio Cristão - Católico - 5ª Parte 2/2

b) Cânones de reforma a respeito do matrimônio: Decreto "Tametsi"

Cap. 1. [Motivo e teor da lei] A Santa Igreja de Deus sempre detestou e proibiu, por justíssimas causas, os casamentos clandestinos, embora não se deva duvidar que, realizados com o livre consentimento dos contraentes, sejam matrimônios ratos e verdadeiros, enquanto a Igreja não os tenha anulado; e, por conseguinte, com razão devem ser condenados, como o santo Sínodo com anátema condena, os que negam que sejam verdadeiros e ratos, e também os que afirmam erroneamente que os matrimônios contraídos pelos filhos da família sem o consentimento dos pais são nulos, e que os pais podem torná-los ratos ou nulos.
Todavia, como o Santo Sínodo observa que aquelas proibições, devido à desobediência dos homens, já não adiantam e pondera os graves pecados que tem origem nesses casamentos clandestinos, principalmente daqueles que permanecem em estado de condenação, enquanto, abandonando a esposa anterior com a qual haviam contraído às escondidas, contraem publicamente com outra e vivem com ela em perpetuo adultério; como a Igreja, que não julga sobre o oculto, não pode remediar a esse mal, a não ser empregando um remédio mais eficaz, por estas razões, seguindo as pegadas do sagrado [IV] Concílio do Latrão celebrado sob Inocêncio III, ordena que no futuro, antes que se contraia matrimônio, seja publicamente proclamado três vezes, pelo pároco próprio dos contraentes, em três dias festivos subseqüentes, na Igreja, durante a celebração da Missa, entre quem deverá ser contraído matrimônio; feitas as proclamas, se não se apresenta nenhum impedimento legítimo, proceda-se à celebração do matrimônio em presença da Igreja, na qual o pároco, interrogados o varão e a mulher e entendido seu mútuo consentimento, diga: "Eu vos uno em matrimônio, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo", ou use de outras palavras, segundo o rito aceito em cada província.
[Restrições da lei] Se casualmente se suspeite que o matrimônio, precedendo tantas proclamas, possa ser impedido de má fé, então se faça só uma proclama ou, ao menos, se celebre o matrimônio na presença do pároco e duas ou três testemunhas; depois, antes de sua consumação, façam-se as proclamas na Igreja, para que, havendo eventuais impedimentos ocultos, mais facilmente sejam descobertos; a não ser o próprio Ordinário julgue ser conveniente que se omitam as citadas proclamas, o que o santo Sínodo deixa a sua prudência e juízo.
[Sanção] Os que tentarem contrair matrimônio de outro modo que na presença do pároco - ou de outro sacerdote, autorizado pelo pároco ou pelo Ordinário - e de duas ou três testemunhas, o santo Sínodo os torna totalmente inábeis para assim contraírem e decreta que tais contratos são írritos e nulos, como pelo presente decreto os faz írritos e os anula.