29 de março de 2009

TEMPUS PASSIONIS

TEMPO DA PAIXÃO

Do 1º Domingo da Paixão ao Sábado Santo.

EXPOSIÇÃO DOGMÁTICA
No decurso destas duas últimas semanas da Quaresma, que nos vão levar ao limiar da Páscoa, a Igreja esforça-se por nos fazer reviver consigo as circunstâncias, que prepararam e envolveram a morte do Salvador.
Pelo seu estreito nexo com o Tempo Pascal, o Tempo da Paixão é já uma evocação da nossa redenção pelo sangue de Jesus. Antes de celebrar a ressurreição do Salvador, em que nos são aplicados os frutos da redenção, a Igreja deseja fazer-nos seguir passo a passo o duro combate que Ele teve de travar, para no-la merecer. O longo retiro da Quaresma termina, deste modo, no contemplação do combate singular que conseguiu arrancar o homem ao pecado, e merecer-lhe a salvação. Evocação essencial e consoladora. O nosso esforço pessoal de retificação e reparação não é posto de parte, mas o seu valor e eficácia derivam, exclusivamente, da sua união à Paixão d'Aquele que tomou sobre Si os pecados do mundo e os expiou. Em virtude da solidaderiedade misteriosa, que existe entre todos os membros da imensa família humana, Jesus, filho de Deus feito homem, substitui os seus irmãos culposos. "Fez-se pecado por nós", diz São Paulo, "para carregar sobre seus ombros o fardo dos nossos pecados, até ao alto da Cruz."
Mas Cristo triunfa, imolando-se. Triunfa do mal e de Satã, e vinga os direitos de Deus sobre o mundo. O demônio, "príncipe deste mundo", é escorraçado. Realiza-se, enfim, o oráculo de David: "Deus reina pela Cruz". A meio da Semana Santa, naquela mesma hora, em que, na Sexta-Feira das Trevas, ela se recolhe no luto e na meditação da morte do Salvador, a Igreja convida-nos a prostrar-nos diante da Cruz, para a saudar como fonte da nossa alegria: "Eis o madeiro da Cruz, donde esteve suspenso o preço da salvação do mundo; vinde, adoremo-Lo." E, imediatamente a seguir, vem um prenúncio da Ressurreição: "Adoramos, Senhor, a vossa Cruz. Louvamos e glorificamos a vossa Ressurreição."

APONTAMENTOS DE LITURGIA
Vai acentuar-se o caráter austero da Quaresma. A Igreja cobre de véus roxos os crucifixos dos altares e imagens dos santos; na Quinta-Feira Santa, desnudará os altares e imporá silêncio não somente aos órgãos, mas também ao som augusto dos sinos. O interior dos templos, em que tantas graças se distribuem, e em que, ordinariamente, o culto se reveste de fausto, ostenta agora um aspeco de luto desacostumado.

RUBRICAS
I. As férias da primeira semana da Paixão, são semelhantes às da Quaresma;
II. Nas Missas do Tempo, omite-se o salmo Judica me; o Gloria Patri no fim do intróito, do lavabo e no responsório de completas, mas não no fim dos salmos;
III. A Semana Santa tem liturgia própria.

28 de março de 2009

Domingo da Paixão: Quem é de Deus ouve a voz de Deus.

Sobre o Evangelho deste domingo: João VII: 46-59;

18.ª Homilia sobre os Evangelhos, do Papa São Gregório Magno

Pensai, caríssimos irmãos, na mansidão de Deus! Veio tirar os pecados, e dizia: Qual de vós me argüirá do pecado? Não desdenhor apelar à razão de não ser pecador, Aquele Que, em virtude da divindade, podia justificar os pecadores. Mas é bastante terrível o que ele acrescenta: Aquele que é de Deus, ouve a voz de Deus: por isto vós não ouv
is, porque não sois de Deus. Se, portanto, ouve a voz de Deus aquele que é de Deus, e não pode ouvir a Sua voz ninguém que não é d'Ele, então que se interrogue cada um a si mesmo se retém a palavra de Deus nos ouvidos do coração, e assim ficará sabendo de onde ele mesmo é. A Verdade manda desejar a pátria celeste, aborrecer os desejos da carne, evitar a glória do mundo, não apetecer o alheio, doar largamente do próprio.

Pense, portanto, consigo mesmo, cada um de vós, se essa voz de Deus soa audivelmente no ouvido do seu coração, e assim saberá que é de Deus. Porque, pelo contrário, são muitos os que nem mesmo se dignam de receber com os ouvidos do corpo os preceitos de Deus. E são muitos os que, tendo-os recebido com esses mesmos ouvidos do corpo, por nenhum desejo da alma os abraçam. E são muios os que, recebendo as palavras de Deus com gosto, até ao ponto de chorar de compunção, depois do tempo das lágrimas, retornam à iniqüidade. Não ouvem de fato as palavras de Deus aqueles que não cuidam muito de exercê-la em obras. Trazei, pois, diante dos vossos olhos, caríssimos irmãos, a vossa vida, e considerai com temor isto que soa da boca da Verdade: Por isto é que vós não ouvis, porque não sois de Deus.

Mas isso que a Verdade diz sobre os réprobos, isso mesmo eles próprios o exibem por suas obras iníquas: segue-se pois: Responderam, então, os judeus, dizendo-Lhe: Acaso não dizemos bem que és samaritano, e tens um demônio? Após ouvir tamanha afronta, ouçamos o que respondeu o Senhor: Eu não tenho um demônio, mas honro o Meu Pai, e vós Me desonrais. "Samaritano" quer dizer guardião, e Ele é deveras guardião, de Quem o Salmista diz: Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigiam os que a guardam; e de Quem foi dito por Isaías: Guardião, em que pé está a noite? Guardião, em que pé está a noite?* Por isso o Senhor não quis responder "Eu não sou samaritano", e sim "Eu não tenho um demônio. Duas coisas, na verdade, se Lhe imputavam: uma delas, Ele negou, e com a outra, calando, consentiu.
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* Is XXI, 11

18 de março de 2009

Do excesso de altivez, e de como os orgulhosos muitas vezes chegam às mais profunda humilhação




Certa vez reinava o poderoso Imperador Joviniano; estando ele deitado na sua cama, o coração lhe inchou inacreditavelmente de orgulho, e ele disse para si mesmo: "Haverá outro Deus além de mim?"
Enquanto ainda pensava nisso, o sono o dominou, e quando se ergueu cedo pela manhã, reuniu seus guerreiros, dizendo-lhes:
- Meus caros, será bom comermos alguma coisa. pois hoje tenho vontade de ir à caça. Estavam dispostos a cumprir sua vontade, comeram e partiram para caçar. Contudo, enquanto o imperador cavalgava, assaltou-o um calor intolerável, pareceu-lhe que morreria, se não pudesse banhar-se em água fria. Por isso olhou em torno e viu a distância um grande lago. Falou então aos seus soldados:
- Fiquem aqui, até que eu tenha me refrescado.

Depois esporeou seu cavalo e galopou até à água, saltou do cavalo, tirou todas as roupas, entrou na água e ficou ali até estar totalmente refrescado. Mas enquanto estava na água chegou certo homem, que era parecido com ele em rosto e postura, vestiu sua roupa, montou seu cavalo, e dirigiu-se até os guerreiros do imperador. Foi recebido por todos como o imperador em pessoa, e quando a caça terminara dirigiu-se com eles ao castelo. Depois Joviniano saiu depressa da água, não encontrando seu cavalo nem sua roupa. Admirou-se muito com isso, e ficou muito triste; porém estando nu e não vendo ninguém, pensou: "Que farei agora? Fui miseravelmennte logrado". Por fim voltou a si e disse: "Aqui perto mora um soldado a quem promovi de posto; irei até ele e arranjaarei cavalo e roupas, depois cavalgarei até meu castelo e verei como e por quem fui confundido dessa maneira." Joviniano andou pois inteiramente nu até à moradia daquele soldado e bateu no portão. O porteiro, porém, perguntou pela razão de estar batendo, e Joviniano disse:
- Abre a porta e verás quem sou.
O porteiro abriu a porta e depois de vê-lo, espantou-se e indagou:
- Mas quem és? O outro respondeu:
- Sou o Imperador Joviniano; vai até teu senhor e diz-lhe que me empreste roupas; pois perdi meu cavalo e minhas vestes.
O outro, porém, respondeu:
- Estás mentindo, miserável ladrão, pois antes de ti o senhor Imperador Joviniano passou por aqui a caminho do castelo, com seus guerreiros; meu senhor o acompanhou, já voltou e está sentado à mesa. Mas vou anunciar-lhe que te fazes passar pelo imperador. O porteiro apresentou-se logo ao seu senhor e contou-lhe o que o outro dissera. Assim que escutou tudo, o soldado mandou que lhe trouxessem aquele homem; e contemplanndo-o, o guerreiro não o reconheceu, mas o imperador o reconhecia bem. Então o guerreiro disse:
- Diz-me quem és e como te chamas. O outro respondeu:
- Sou o Imperador Joviniano, e nesse e nesse tempo te promovi a um posto superior.
O outro retrucou:
- Oh, miserável ladrão, com que atrevimento te chamas de imperador? Pois há pouco o meu senhor, o imperador, cavalgou por aqui em direção do castelo. Eu o segui por algum tempo e estou de volta. Mas não escaparás sem castigo por te haveres denominado imperador. E mandou que lhe dessem uma boa surra, e o expulsassem da sua propriedade. Quando Joviniano fora surrado e escorraçado, chorou amargamente e disse: "O meu Deus, como é possível que o guerreiro a quem recentemente promovi não me conheça mais e me tenha mandado surrar tão cruelmente?" Nisso lhe ocorrreu: "Aqui perto mora um dos meus conselheiros,um duque; vou até ele, comunicar-lhe minha aflição. Dele receberei roupas e poderei voltar ao meu castelo." Quando chegou ao portão da moradia do duque, bateu, e o porteiro, escutanndo as pancadas, abriu o portão, e vendo um homem despido, admirou-se e disse:
- Meu caro, quem és e por que chegaste aqui assim nu? O outro porém respondeu:
- Sou o imperador, e por acaso perdi meu cavalo e minhas roupas, por isso venho ver o duque para que ele me ajude na minha aflição; por isso peço que apresentes meu pedido ao teu senhor. Quando o porteiro escutou isso admirou-se, voltou à casa do seu senhor e contou-lhe tudo. O duque, porém, disse:
- Manda-o entrar!
Quando entrou, porém, ninguém o reconheceu, e o duque lhe disse:
- Afinal, quem és? O outro respondeu:
- Sou o imperador, e fiz com que tivesses fortuna e honrarias, fiz de ti um duque, e meu conselheiro.
O duque, porém, disse:
- Miserável demente! pouco antes da tua chegada cavalguei com o imperador, meu senhor, até o seu castelo, e acabo de voltar de lá; mas não vai escapar sem castigo por teres querido apoderar-te de tal honra.
Mandou que o encerrasse numa prisão, a pão e água, depois tiraram-no de lá, deram-lhe uma boa surra, e expulsaram-no dos domínios do duque. Quando estava assim exilado, Joviniano emitiu mais suspiros e lamentações do que se poderia acreditar, e disse de si para si: "Ai de mim, que farei, agora que me tornei objeto de insulto e vergonha do povo? Será melhor ir ao meu castelo, pois os meus certamente me reconhecerão, e se não for assim, ao menos minha mulher me reconhecerá por certos sinais."
Depois disso foi sozinho ao seu palácio, bateu no portão, e quando o porteiro escutou as pancadas abriu. Vendo-o, disse-lhe:
- Mas quem és?
o outro respondeu:
- Admira-me que não me reconheças, pois estás comigo há tanto tempo.
O outro, porém, disse:
- Estás mentindo! Estou há muito tempo com o Immperador, meu senhor.
E o outro retrucou:
- Pois eu sou o imperador, e se acreditas nas minhas palavras, peço por amor de Deus que vás procurar a imperatriz e lhe diga que através desses sinais ela providencie meus trajes imperiais, pois por acaso perdi todos os meus; os sinais que vou te dar ninguém na terra conhece além de nós dois.
E o porteiro disse:
- Não duvido de que estejas louco, pois o meu senhor, o imperador, neste momento está à mesa, e ao lado dele a imperatriz.
Mas vou anunciar a ela que disseste que és o imperador, e estou certo que será severamente punido.
O porteiro foi pois ter com a imperatriz e lhe disse tudo o que ouvira. Ela ficou muito perturbada, virou-se paara o seu marido e disse:
- Senhor, sabeis que seguidamente aconteceram entre nós, em segredo, coisas singulares. Agora um sujeito devasso que está no portão manda-me dizer pelo porteiro que é o imperador.
Quando o falso imperador ouvira isso, mandou que o outro entrasse na presença de todos; quando foi introduzido assim nu, um cão que sempre o amara muito saltou para morder seu pescoço. A criadagem impediu o cão de matar o homem, que não sofreu mais nenhum dano. Também havia um falcão num poleiro, que, assim que o avistou, rebentou sua corrente e fugiu voando da sala.
Nisso o imperador disse a todos que estavam sentados na sala:
- Meus caros, ouçam minhas palavras, que direi a este vagabundo. Quem és, e por que vieste?
O outro porém respondeu:
- Oh, senhor, que pergunta singular. Eu sou o imperador e dono deste lugar.
Então o imperador disse a todos os que estavam sentados à mesa ou postados ao redor dela:
- Dizei-me pelo juramento que me prestastes, quem é quem é vosso imperador e senhor?
E eles responderam:
- Oh, senhor, pelo juramento que vos prestamos, a resposta é simples: nunca vimos aquele ladrão, mas vós sais nosso senhor e imperador, a quem conhecemos desde a juventude, por isso vos pedimos unanimemente que aquele ali seja castigado, para que todos tirem um exemplo dele, e nunnca mais se tente uma tal insolência.
Diante disso o imperador virou-se para a imperatriz e disse:
- Diz-me, minha senhora, pela fidelidade que me dás: conheces aquele homem que se diz imperador e teu senhor?
Mas ela respondeu:
- Oh, caro senhor, porque me perguntas isso? Não estou contigo há mais de trinta anos, e não te dei três filhos? Uma coisa porém me admira, é como esse patife chegou a saber de fatos secretos entre nós dois. E o imperador disse então ao que fora introduzido na sala:
- Meu caro, como ousaste fazer-te passar por um immperador? Decretamos que sejas hoje amarrado à cauda de um cavalo, e se tiveres a ousadia de dizeres isso mais uma vez, vou te condenar à morte mais vergonhosa.
Depois disso chamou seus guardas e disse:
- Ide e amarrai este homem à cauda dum cavalo, mas não o mateis.
E foi o que aconteceu. Mas depois as entranhas daquele homem se moveram mais do que alguém possa imaginar, e duvidando de si mesmo disse:
- Amaldiçoado o dia em que nasci e que meus amigos me abondanaram! Minha mulher e meus filhos não me reconheceram. E enquanto falava assim pensou: "Aqui perto mora meu confessor, vou dirigir-me a ele: talvez me reconheça, pois muitas vezes ouviu minhas confissões."
Depois dirigiu-se ao eremita e bateu na janela da sua ermida. Mas o outro indagou:
- Quem está aí?
E ele respondeu:
- Sou eu, o Imperador Joviniano. Abre tua janela paara que eu possa falar contigo.
Assim que o eremita escutou a voz, abriu a janela, mas vendo o homem bateu-a com força fechando-a de novo, e disse:
- Afasta-te de mim, maldito, pois não és o imperador, e sim o diabo em forma humana! Quando o outro escutou isso caiu no chão de tanta dor, arrancando os cabelos da cabeça e da barba, e disse:
- Ai de mim, que devo fazer?
Dizendo isso lembrou-se de como recentemente, quando jazia na cama, seu coração inchara de orgulho, e que ele dissera:
- Existirá outro Deus além de mim? - Logo bateu na janela do eremita e disse:
- Ouvi, eu vos peço, por amor ao crucificado ouvi minha confissão, mesmo de janela fechada.
E o outro disse:
- Para mim está bem.
Ele então confessou entre lágrimas toda a sua vida, especialmente como se colocara acima de Deus e dissera não acreditar em nenhum outro Deus senão ele próprio. Quando a confissão e a absolvição tinham passado, o eremita abriu a janela, reconheceu-o, e disse:
- Bendito o Altíssimo, agora te reconheço; tenho aqui umas poucas peças de roupa, veste-as e vai ao teu palácio, e espero que lá te reconheçam.
Depois o imperador partiu, dirigiu-se ao seu palácio, e bateu no portão. O porteiro abriu logo e recebeu-o com o maior respeito. Mas o outro disse:
- Então me conheces?
E o porteiro retrucou:
- Ora, sim, meu senhor, e muito bem. Apenas me admiro porque estive o dia inteiro aqui parado e não vos vi sair de casa.
O outro entrou no salão de reuniões, e todos os que o viram baixaram as cabeças. Mas o outro imperador estava com sua mulher.
Porém um guerreiro que saiu do aposento real olhou para ele, voltou para o quarto e disse:
- Meu senhor, na sala está um homem diante do qual todos se curvam honrando-o, e é tão parecido em tudo connvosco, que realmente não sei qual de vós é o imperador. Quando o falso imperador escutou isso, disse à imperatriz:
- Vai até lá e vê se o conheces.
Ela porém saiu depressa e quando o viu admirou-se, voltou ligeiro aos aposentos e falou:
- Oh, senhor, anuncio-vos que há outro lá fora, mas não posso absolutamente distinguir qual de vós é o meu senhor.
O outro então disse:
- Se for assim, quero sair e trazer a verdade à luz do dia.
Mas quando entrava no salão, pegou o outro pela mão, fê-lo parar-se ao seu lado, chamou todos os guerreiros que estavam na sala, e a imperatriz, e disse:
- Pelo juramento que me prestastes, dizei-me agora qual de nós é vosso imperador. E a imperatriz respondeu primeiro:
- Meu senhor, quero responder em primeiro lugar; mas Deus nas alturas seja minha testemunha: não consigo de modo algum afirmar qual de vós é meu senhor.
E assim disseram todos os demais. E ele disse:
- Meus caros, escutai-me. Este é o vosso imperador e senhor; mas uma vez ele se ergueu contra Deus, por isso Deus o puniu, o conhecimento dos homens afastou-se dele, até que ele tivesse compensado ao seu Deus. Eu, porém, sou seu anjo da guarda e guarda da sua alma, administrei seu império enquanto ele estava fazendo penitência; agora, porém, sua penitência está cumprida, ele desagravou seus pecados, por isso obedecei-lhe, e eu vos recomendarei a Deus. Com essas palavras desapareceu diante dos olhos deles, mas o imperador agradeceu a Deus e viveu toda a sua vida em paz, dedicando-a a Deus. Que Este nos permita fazermos o mesmo.

Histórias medievais compiladas por Hermann Hesse. (Geschichten aus dem Mittelalter, hrsg. von Hermann Hesse. Ü.: Lya Luft. São Paulo: Distribuidora Record.

14 de março de 2009

Hino Quaresmal: Audi, benigne Conditor


Audi, benígne Cónditor,
Nostras preces cum flétibus,
In hoc sacro jejúnio
Fusas quadragenário.

Scrutátor alme córdium,
Infírma tu scis vírium :
Ad te revérsis éxhibe
Remissiónis grátiam.

Multum quidem peccávimus,
Sed parce confiténtibus :
Ad nóminis laudem tui
Confer medélam lánguidis.

Concéde nostrum cónteri
Corpus per abstinéntiam ;
Culpæ ut relínquant pábulum
Jejúna corda críminum.

Præsta, beáta Trínitas,
Concéde, simplex Unitas ;
Ut fructuósa sint tuis
Jejuniórum múnera. Amen.



Ouvi, Criador benigno,
Nossas preces com choro,
Neste jejum sagrado
Do tempo da quaresma.

Propício perscrutador dos corações,
Conheceis a fraqueza das nossas forças:
Mostrai àqueles que se voltam para Vós
A graça da remissão.

Deveras pecamos muito,
Mas perdoai os confidentes,
E, para louvor do Vosso nome,
Dai remédio aos mórbidos.

Concedei-nos conter os nossos
Corpos pela abstinência,
De modo que abandonem a forragem da culpa
dos crimes, os corações em jejum.

Dai-nos, Trindade Beatíssima,
Concedei-nos, simples Unidade,
Que seja frutuoso
O oferecimento dos jejuns a Vós.



Tradução livre, por Giulio Gequelim

Terceiro Domingo da Quaresma: Todo reino dividido contra si mesmo é destruído!

Homilia de São Beda, o Venerável
Livro 4, capítulo 8, sobre o capítulo 11 de Lucas

Narra-se em Mateus que esse endemoninhado não fosse somente mudo, senão também cego, onde também se diz que foi curado pelo Senhor, de modo que veio a falar e ver. Três sinais, portanto, foram perpetrados num único homem: o cego vê, o mudo fala, o possuído pelo demônio é livrado. Mas isso que aqui foi feito de maneira carnal, é realizado todo dia na conversão dos que creem, de modo que, primeiro expulso o demônio, contemplam a luz da fé, e, em seguida, abrem a boca antes calada para o louvor de Deus. Mas alguns disseram a respeito d'Ele: É em Beelzebub, príncipe dos demônios, que ele expele os demônios. Não alguém da multidão, senão os fariseus e escribas, que o caluniavam desse modo, como atestam os demais Evangelistas.

A turba, formada de gente menos instruída, estava cheia de admiração pelas obras do Senhor. Aqueles, pelo contrário, tentavam negar essas obras, ou, aquilo que não podiam negar, tentavam perverter por uma má interpretação. Quanto a essa obra, queriam dizer que não fosse da divindade, mas do espírito imundo. E outros, tentando-O, requeriam d'Ele um sinal do céu. Ora queriam que, como Elias, fizesse vir fogo dos céus, ora, como Samuel, fizesse, no verão, trovões retumbarem, relâmpagos coruscarem, chuvas precipitarem - como se, mesmo assim, não pudessem caluniá-las, atribuindo-o a condições desconhecidas e diferentes da atmosfera. Tu, que caluniarias aquilo que vês com teus olhos, pegas com tuas mãos, experimentas a utilidade, o que dirias daquilo que vem do céu? Por certo que responderias que também os magos no Egito fizeram muitos sinais dos céus.

Ele, porém, vendo os seus pensamentos, disse-lhes: Todo reino dividido contra si mesmo é destruído, e uma casa dividida contra ela mesma cai. Isso Ele lhes respondeu não ao que eles disseram, mas ao que eles pensaram, para que, ao menos assim, fossem compelidos a crer no poder d'Aquele Cujo coração sondava as coisas ocultas. Porém, se todo reino dividido contra si mesmo é destruído, então o reino do Pai, do Filho e do Espírito Santo não é dividido, aquele reino que sem qualquer contradição, sem nenhum movimento de combater um ao outro, permanece eternamente na mansidão da estabilidade. Porém se Satanás está dividido contra si mesmo (porque dizeis que é em Beelzebub que eu expulso demônios) como permaneceria o seu reino? Dizendo isso, Ele queria que a própria inteligência deles confessasse que, não crendo n'Ele, estariam tomando partido do reino do diabo, que não pode estar dividido contra si mesmo.

10 de março de 2009

MÉTODO PARA ASSISTIR À SANTA MISSA


MÉTODO DE ASSISTIR À SANTA MISSA
EM UNIÃO COM O ESPÍRITO DO SANTO SACRIFÍCIO
São Pedro Julião Eymard

O Santo Sacrifício divide-se em três partes: a primeira vai do começo da Missa ao Ofertório; a segunda, do Ofertório à Comunhão; a terceira, da Comunhão ao último Evangelho.

I

Enquanto o sacerdote ora aos pés do Altar e se humilha pelos seus pecados, deveis confessar vossas culpas e adorar a Deus em toda humildade, a fim de vos preparar para assistir dignamente ao Santo Sacrifício.
Durante o Intróito lembrai-vos dos santos desejos dos Patriarcas e Profetas, que ansiavam pela vinda do Messias, unindo-vos a eles para pedir a Jesus Cristo que venha a vós e em vós reine.
No Glória uni-vos em espírito aos Anjos para louvar a Deus e agradecer-lhe o mistério da Encarnação.
Nas Orações, uni vossas intenções e vossos pedidos aos da Santa Igreja. Adorai o Deus infinitamente bondoso, de quem procede todo dom. Prestai à Epistola a mesma atenção que prestaríeis se vos falassem os Profetas ou Apóstolos, e adorai a Santidade de Deus.
No Evangelho ouvi a Jesus Cristo em Pessoa falando-vos e adorai a Verdade de Deus.
Recitai o Credo com vivos sentimentos de Fé, Fé essa que renovareis em união com a da Igreja, protestando, ao mesmo tempo, que defendereis, se preciso for, com vosso próprio sangue todas as verdades contidas no Símbolo.

II

Na segunda parte da Missa, unindo vossas intenções às do sacerdote, oferecei-a pelos quatro fins do Santo Sacrifício:
1.°) Como homenagem de suma adoração. Oferecei ao Padre Eterno as adorações do seu Filho Encarnado, unidas às vossas próprias adorações e às de toda a Igreja. Oferecei-vos também a vós mesmo com Jesus Cristo, para amá-lo e servi-lo.
2.°) Como homenagem de ação de graças. Oferecei o Santo Sacrifício ao Pai, a fim de lhe agradecer os méritos, as graças e a glória de Jesus Cristo; os méritos e a glória de Maria Santíssima, e de todos os Santos; todos os benefícios pessoais recebidos, e a receber, pelos méritos de seu Filho.
3.°) Como hóstia satisfatória. Oferecei-o para satisfazer todos os vossos pecados, e expiar todos os crimes que se cometem no mundo. Lembrai ao Padre Eterno que Ele nada nos pode recusar, já que nos deu seu Filho, que ali está em sua Presença, num estado de Sacrifício e de Vítima — Vítima que é dos nossos pecados e dos pecados de todos os homens.
4.°) Como sacrifício impetratório, ou hóstia de oração. Oferecei ao Pai, como o penhor que nos deu do Amor Divino, para que, confiantes, possamos dele esperar, em abundância, os bens espirituais e temporais. Exponde-lhe quais vossas necessidades e pedi-lhe instantemente a graça de vos corrigir do vosso defeito dominante.

No Lavabo, purificai-vos pela contrição a fim de vos tornardes uma verdadeira hóstia de louvor, agradável a Deus, o que lhe atrairá um olhar de complacência.
No Prefácio, uni-vos ao concerto da Corte Celeste, para louvar, bendizer e glorificar o Deus três vezes Santo por todos os seus dons de graça e de glória, e sobretudo por nos ter remido na Pessoa de Jesus Cristo.
No Cânon, associai-vos à piedade e ao amor dos Santos da Nova Lei, para, com eles, celebrar dignamente a nova encarnação e a nova imolação que se vão operar pela palavra do sacerdote. Pedi ao Pai Celeste que, nesse Sacrifício, abençoe a todos os outros sacrifícios que lhe ofertareis, quer de virtude, quer de santidade.
Enquanto o sacerdote, cercado por uma falange de Anjos, se inclina profundamente cheio de respeito ante a Ação Divina que lhe cabe realizar; enquanto fala e opera divinamente na Pessoa de Jesus Cristo, consagra o pão e o vinho no Corpo, no Sangue, na Alma e na Divindade do Homem-Deus, renovando o mistério da Ceia, admirai esse Poder inaudito, transmitido aos sacerdotes em vosso favor.
Depois, ao baixar Jesus sobre o Altar à palavra do seu ministro, adorai a Hóstia Santa, o cálice do Sangue de Jesus Cristo, clamando misericórdia por vós e recebei, qual outra Madalena, ao pé da Cruz, o Sangue que brota das Chagas de Jesus.
Oferecei essa Vitima divina à Justiça de Deus, por vós e por todos os homens, oferecei-a à sua Misericórdia infinita e divina, para que seu Coração, à vista das vossas próprias misérias, se enterneça e vos abra a fonte de sua Bondade sem fim.
Oferecei ainda essa mesma Vítima à Bondade de Deus para que Ele aplique seus frutos de luz e de paz às almas padecentes do Purgatório, até que esse Sangue lhes apague as chamas e, purificando-as inteiramente, as torne dignas do Paraíso.
Recitai o Pater, com Jesus Cristo em Cruz, perdoando aos seus inimigos, e perdoai, por vossa vez, do fundo do coração e com toda sinceridade, àqueles que vos ofenderam.
No Libera nos, pedi a Deus que, por Maria e todos os Santos, vos livre dos pecados e dos males passados, presentes e futuros, bem como de toda ocasião de pecado.
No Agnus Dei, lembrai-vos dos carrascos convertidos no Calvário e, como eles, batei no peito. Depois recolhei-vos por meio dum ato de fé, humildade e de confiança, de amor e de desejo, e ide receber a Jesus Cristo.

III

Se não comungardes de fato, comungai espiritualmente, do seguinte modo:
Desejai ardentemente unir-vos a Jesus Cristo, confessando quão necessário é para vós viver de sua Vida. Recitai um ato de contrição perfeita, por todos os vossos pecados, passados e presentes, baseada na Bondade e Santidade de Deus.
Levai, em espírito, a Jesus Cristo ao fundo de vossa alma, pedindo-lhe para fazer-vos viver unicamente para Ele, já que não podeis viver senão por Ele.
Imitai a Zaqueu tomando boas resoluções, e agradecei a Nosso Senhor terdes podido assistir à Santa Missa e fazer a Comunhão espiritual. Oferecei-lhe, em ação de graças, uma homenagem particular, um sacrifício, um ato de virtude, e pedi a Nosso Senhor que vos abençoe a vós e a todos os vossos parentes e amigos.

CATECISMO ROMANO - EUCARISTIA (PARTE 5)


I. A EUCARISTIA COMO SACRAMENTO
Catecismo Romano
VII. DOGMAS EUCARÍSTICOS

Mas agora reatemos a explanação de outras verdades, que os fiéis de modo algum podem desconhecer. Como o Apóstolo afirma ser enorme o crime cometido por aqueles "que não distinguem o Corpo do Senhor", digam os pastores, em primeiro lugar, que o espírito e a inteligência devem aqui abstrair absolutamente das impressões sensíveis. Pois, se os fiéis julgassem que este Sacramento só contém o que eles percebem com os sentidos, cairiam forçosamente na maior das impiedades. Seriam levados a crer que, no Sacramento, nada mais existe além de pão e de vinho, porquanto a vista, o tato, o olfato e o paladar só acusam as aparências de pão e de vinho. Devem, pois, os pastores envidar esforços, para que o espírito dos fiéis prescinda, o mais possível, da opinião dos sentidos, e se alevante à contemplação da soberania e onipotência de Deus.

São três os efeitos, dignos da maior admiração e acatamento, produzidos pelas palavras da Consagração, conforme o que a fé católica crê e professa, sem nenhuma hesitação.

O primeiro é que, neste Sacramento, se contém o verdadeiro Corpo de Cristo Nosso Senhor, aquele mesmo que nasceu da Virgem, e está sentado nos céus à mão direita do Pai.

O segundo é que nele não remanesce nenhuma substância dos elementos, por mais estranho e contrário que isto pareça à percepção dos sentidos.

O terceiro, que se deriva dos dois anteriores, está claramente indicado pelos termos da Consagração. É que os acidentes, quais se nos deparam à vista e aos demais sentidos, continuam a subsistir, de uma maneira admirável e inexplicável, sem que coisa alguma lhes sirva de suporte. Podemos, pois, enxergar todos os acidentes do pão e do vinho, mas eles não inerem a nenhuma substância; subsistem em si mesmos, porquanto a substância do pão e do vinho se convertem de tal maneira no próprio Corpo de Nosso Senhor, que a substância do pão e do vinho deixam totalmente de existir.

VII.1.Presença real do Corpo e Sangue de Cristo

Quando pois Ele diz "Isto é o Meu Corpo, este é o Meu Sangue" – nenhuma pessoa de bom-senso pode desconhecer o que tais palavras significam, tanto mais que se referem à natureza humana que era em Cristo uma realidade, conforme o que a fé católica a todos propõe como doutrina indubitábel. Assim é que Santo Hilário, varão de muita virtude e prudência, teve a agudeza de observar que já não é possível duvidar da presença real do Corpo e Sangue de Cristo, desde que o próprio Senhor declarou, e a fé nos ensina, que Sua Carne é verdadeiramente comida.

B) As palavras do Apóstolo São Paulo

Os pastores deverão ainda elucidar uma outra passagem, pela qual será fácil concluir que, na Eucaristia, se contém o verdadeiro Corpo e Sangue de Nosso Senhor. Depois de relatar como Nosso Senhor consagrara o pão e o vinho, e dera aos Apóstolos os Sagrados Mistérios, o Apóstolo acrescenta: "Examine-se, pois, o homem a si próprio, e assim coma deste pão e beba do cálice; porque quem come e bebe indignamente, come e bebe a sua própria condenação, por não discernir o Corpo do Senhor" (I Cor XI, 28).

Ora, se no Sacramento não houvesse outra coisa que venerar , como afirmam os hereges, senão uma lembrança e um sinal da Paixão de Cristo, que necessidade tinha o Apóstolo de exortar os fiéis, em linguagem tão grave, a examinarem-se a si mesmos?

Com aquela dura palavra "condenação", declarava o Apóstolo que comete nefando crime quem recebe indignamente o Corpo do Senhor, oculto de maneira invisível na Eucaristia, e não o distingue de outra qualquer comida.

Na mesma Epístola, o Apóstolo já havia antes explicado de modo mais incisivo: "O Cálice da bênção, não é a comunicação do Sangue de Cristo? E o Pão, que partimos, não é a participação do Corpo de Cristo?" (I Cor X, 16). São palavras que designam, claramente, a verdadeira substância do Corpo e Sangue de Cristo Nosso Senhor.

Os pastores devem, portanto, explicar estas passagens da Escritura, ensinando, expressamente, que elas não deixam nenhuma dúvida ou incerteza, sobretudo porque [assim] as interpretou a sacrossanta autoridade da Igreja de Deus.

Por dois processos podemos alcançar essa interpretação da Igreja. O primeiro é consultar os Padres que, desde os primórdios da Igreja floresceram em cada século, e são os melhores abonadores da doutrina eclesiástica.

Ora, eles são absolutamente unânimes em ensinar, com a maior clareza, a verdade deste dogma. Mas como custaria muito esforço e trabalho alegar aqui o testemunho de cada um deles, será bastante referir, ou melhor, apontar alguns testemunhos que permitam ajuizar os demais, sem maior dificuldade.

Os Santos Padres

Seja, pois, Santo Ambrósio o primeiro a fazer seu depoimento de fé. No seu livro sobre os Catecúmenos, afirmou que neste Sacramento recebemos o verdadeiro Corpo de Cristo, assim como foi verdadeiramente tomado da Virgem; e que esta verdade deve ser aceita com absoluta adesão da fé. E, noutro lugar, ensina que, antes da Consagração, há pão sobre o altar; mas que, depois da Consagração, está ali a Carne de Cristo.

Venha como segunda testemunha, São João Crisóstomo, cuja doutrina não é de menos força e autoridade. Em muitas passagens de suas obras, professa ele e ensina a verdade deste dogma, mas de modo mais pronunciado na sexagésima Homilia sobre aqueles que comungam indignamente, bem como nas Homilias quadragésima quarta e quadragésima quinta sobre o Evangelho de São João: "Obedeçamos a Deus, diz ele, e não façamos objeção, ainda quando parece propor-nos coisas contrárias às nossas idéias e à nossa visão; porquanto a Sua palavra é infalível, e nossos sentidos facilmente se enganam".

Com tais passagens concorda plenamente o que Santo Agostinho, como rijo defensor da fé, sempre ensinava, mormente na explicação do título do Salmo trigésimo terceiro. Diz ele: "Impossível é ao homem carregar-se a si mesmo nas próprias mãos. Isso podia aplicar-se somente a Cristo, pois que Se trazia a Si nas próprias mãos, quando entregou Seu Corpo com as palavras ‘Isto é o Meu Corpo’".

De parelhas com São Justino e Santo Irineu, São Cirilo afirma, no Quarto Livro sobre o Evangelho de São João, a existência da Carne de Cristo neste Sacramento, e usa de termos tão declarados, que não é possível dar-lhes uma interpretação errônea e tendenciosa.

Caso queiram outros ditos dos Santos Padres, os pastores poderão sem mais acrescentar São Dionísio, Santo Hilário, São Jerônimo, São João Damasceno, e muitos outros que não nos é possível enumerar. Suas autorizadas opiniões sobre este dogma foram cuidadosamente coligidas, graças aos esforços de autores doutos e piedosos, que assim no-las tornaram fáceis de consultar em qualquer oportunidade.

Os Concílios

O segundo processo para conhecermos o sentir da Igreja me matéria de fé, consiste na condenação que ela fulmina contra as doutrinas e opiniões contrárias.

Ora, é um fato histórico que a fé na presença real do Corpo de Cristo na Eucaristia estava de tal modo disseminada e arraigada na Igreja Universal e gozava de tanta aceitação entre todos os fiéis que, atrevendo-se Berengário, [há quinhentos anos atrás] (*no século XI), a negá-la e atribuir-lhe apenas o caráter de simples emblema, o Concílio de Vercelli, convocado por Leão IX, logo o condenou por consenso unânime dos Padres, e fulminou sua heresia com a pena de excomunhão.

Quando ele mais tarde recaiu na loucura da mesma impiedade foi novamente condenado por três outros Concílios, por um em Tours, e por dois em Roma, sendo o primeiro destes convocado pelo Papa Nicolau II, e o segundo pelo Papa Gregório VII. Esta mesma doutrina foi mais tarde confirmada por Inocêncio III no Concílio Ecumênico de Latrão. Depois os Concílios de Florença e de Trento declararam e definiram, mais explicitamente, o sentido desta verdade revelada.

Nenhuma alusão fazemos aqui a pessoas que, obcecadas por opiniões errôneas, nada aborrecem tanto, como a luz da verdade; mas, se os pastores explicarem bem estas verdades, poderão confortar os fracos, e encher de suma e cordial alegria os espíritos piedosos, tanto mais que para os fiéis a verdade deste dogma deve estar implicitamente incluída na profissão dos outros artigos da fé.

Crendo, pois, e professando o supremo poder de Deus sobre todas as coisas, força lhes é crerem também que a Deus não falta poder para realizar este sumo prodígio que, extasiados, adoramos, no Sacramento da Eucaristia. E crendo, também, a Santa Igreja Católica, necessariamente devem acreditar que as verdades relativas a este Sacramento são conformes à explicação, que acabamos de dar (*isto é, que a Eucaristia é um dogma apresentado pelo Magistério infalível da Igreja).

Sem dúvida alguma, quando os fiéis se põem a considerar a singular grandeza deste incomparável Sacramento, não há o que lhes possa contribuir para maior gozo e proveito espiritual.

Em primeiro lugar, reconhecerão como é sublime a perfeição da Nova Aliança, à qual foi dado possuir na realidade o Mistério que, na época da Lei Mosaica, era apenas insinuado por sinais e figuras. Por isso, São Dionísio teve a inspiração de dizer que a nossa Igreja fica de permeio entre a Sinagoga e a Jerusalém celestial, razão por que também participa da grandeza de ambas.

De fato, os fiéis jamais poderão admirar bastante a perfeição da Santa Igreja e a sublimidade de sua glória; ao que parece, entre ela e a bem-aventurança celestial medeia apenas a distância de um só grau.

Pois o que temos de comum com os bem-aventurados é o possuirmos, nós e eles, a presença de Cristo como Deus e como Homem. Todavia, o único grau que nos separa é gozarem eles Sua presença na visão beatífica, ao passo que nós, com fé firme a inabalável, veneramos Sua presença, vedada contudo à nossa vista corporal, porquanto Se encobre debaixo do admirável véu dos Sagrados Mistérios.

Além do mais, é neste Sacramento que os fiéis experimentam a suprema caridade de Cristo Nosso Salvador. Sob todos os pontos de vista, convinha à Sua bondade não apartar de nós, em tempo algum, a natureza que de nós havia assumido, mas antes querer ficar conosco, na medida do possível, para que em todos os tempos fosse plena realidade aquela palavra da Escritura: "Minhas delícias é estar com os filhos dos homens" (Pr VIII, 31).

Nesta altura, os pastores hão de explicar que, neste Sacramento, se contém não só o verdadeiro Corpo de Cristo, e tudo o que constitui realmente o corpo humano, como os ossos e os músculos, mas também Cristo todo inteiro.

Devem dizer que "Cristo" é um nome que designa o Homem-Deus, isto é, uma única Pessoa, e no qual se ligam as natureza divina e humana. Sendo assim, devemos crer que tudo está encerrado no Sacramento da Eucaristia: ambas as substâncias, e o que se deriva das duas substâncias, isto é, a Divindade e toda a natureza humana, que consta da alma, do corpo com todas as suas partes, e até do sangue.

Com efeito, já que no céu a Humanidade completa de Cristo está unida à Divindade numa só Pessoa e hipóstase, grave erro seria supor que o Corpo, em sua presença sacramental, estivesse separado da mesma Divindade.

No entanto, devem os pastores levar em conta que todos estes elementos não estão contidos no Sacramento pela mesma razão e maneira.

Em virtude do Sacramento

De alguns dizemos estarem presentes no Sacramento, pela virtude própria das palavras consecratórias. Como essas palavras produzem o que significam, dizem os teólogos que no Sacramento se contém, em virtude do próprio Sacramento, o que exprimem as palavras da forma. Se acontecesse ficar algum elemento inteiramente separado dos outros, afirmam também os teólogos que no Sacramento se conteria apenas o que está expresso pela forma, com exclusão dos elementos restantes.

Por concomitância

Outros elementos, porém, estão contidos no Sacramento, por se ligarem às coisas expressas pela forma. Na consagração do pão, por exemplo, a forma empregada significa o Corpo de Nosso Senhor, porquanto se diz: "Isto é o Meu Corpo". Assim, pois, em virtude do Sacramento, se torna presente na Eucaristia o próprio Corpo de Cristo Nosso Senhor. Ora, estando unidos ao Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade, todos esses elementos estão também contidos no Sacramento, não em virtude das palavras consecratórias, mas por estarem unidos ao Corpo.

Em linguagem teológica se diz que eles estão no Sacramento "por concomitância" (*por um nexo necessário). Torna-se, pois, evidente ser esta a razão por que Cristo se acha totalmente presente no Sacramento. Quando duas coisas realmente se unem entre si, força é que esteja uma onde se encontra também a outra. Segue-se, portanto, que a presença de Cristo é total, quer na espécie de pão, quer na espécie de vinho: e de tal maneira, que nos acidentes do pão não se acha realmente presente só o Corpo, mas também o Sangue e Cristo todo; bem como na espécie de vinho está verdadeiramente presente, não só o Sangue, mas também o Corpo e Cristo todo inteiro.

Consagração de duas espécies

Apesar desse fato, a que os fiéis devem atribuir uma certeza absoluta, era muito legítimo se estabelecesse o preceito de fazerem-se duas Consagrações separadas.

Em primeiro lugar, para realçar melhor a Paixão de Nosso Senhor, na qual o Sangue se separou do Corpo. Por esse motivo, na Consagração, nos referimos ao Sangue que foi derramado.

Depois, como se destinava à nutrição de nossa alma, era absolutamente razoável que o Sacramento fosse instituído à maneira de comida e bebida, que constituem, na opinião geral, os componentes da boa alimentação para o organismo.

Na explicação, porém, cumpre não omitir que Cristo está todo presente não só em cada uma das espécies, mas também em cada parcela de ambas as espécies. Assim escreveu Santo Agostinho em suas obras: "Cada qual recebe Cristo Nosso Senhor, e em cada porção está Ele todo presente. Não fica menor, quando repartido a cada um individualmente, e dá-Se todo a cada um dos comungantes".

Além disso, pode-se facilmente comprovar a mesma verdade através dos textos evangélicos. Não é também de supor que Nosso Senhor consagrasse com forma própria cada pedaço de pão, mas que pela mesma forma consagrou, ao mesmo tempo, todo o pão suficiente para a celebração dos Sagrados Mistérios, e para a distribuição aos Apóstolos. Quanto ao Cálice, não padece dúvida que assim procedeu, porquanto Ele mesmo disse: "Tomai e reparti entre vós" (Lc XXII, 17).

As explicações dadas até agora destinam-se aos pastores, para que possam demonstrar como no Sacramento da Eucaristia se contém o verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo.

2 de março de 2009

SÃO SIMPLÍCIO

SÃO SIMPLÍCIO
PAPA E CONFESSOR


Comemoração em 02 de março.

São Simplício nasceu na cidade de Tivoli, em data desconhecida, e conduziu a Barca de Pedro entre os anos de 468 a 483, durante um período muito difícil, tanto para a Igreja quanto para o Estado.


Após vários ataques dos povos bárbaros, entre estes, os godos, visigodos, hunos e os vândalos, ao Estado romano, Odoacro, rei dos Hérulos e adepto da heresia ariana, finalmente invadiu a cidade de Roma, pondo fim ao Império Romano do Ocidente e depondo seu Imperador Rômulo Augusto, deportado para uma vila de Nápoles. Com a sociedade aterrorizada pelo caos e violência, foi a Santa Igreja, governada por S. Simplício, sendo única autoridade restante, que a socorreu e conduziu neste atribulado período.


Pertencente ao clero romano, S. Simplício foi escolhido para ocupar a Cátedra Petrina após a morte do Papa Hilário. Tendo grande zelo em seu trabalho pastoral e social na Europa ocidental, não obstante a situação da Igreja durante as desordens do período das grandes migrações (as invasões bárbaras, que muitas vezes não passaram de migrações, sem o uso da violência). S. Simplício enfrentou também com grande firmeza as heresias do monofisismo, nestorianismo e arianismo, por meio da aplicação dos ensinamentos do Papa São Leão Magno e do Concílio da Calcedônia, que tomou como artigos de fé documentos do referido papa.


O santo também combateu com firmeza o cânon XXVIII deste Concílio, que dava ao Patriarca de Constantinopla supremacia inexistente, que constituía como perigosa inovação. Da mesma forma defendeu a independência da Santa Romana Igreja frente ao cesaropapismo, uma tentativa dos monarcas e imperadores de usurpar as competências do Romano Pontífice e da Igreja, por meio da submissão do papado ao poder Imperial/Régio.


Além da proteção à sociedade e da defesa da Santa Doutrina, S. Simplício ainda tornou-se benemérito pela conservação, restauração e construção de Igrejas de grande valor artístico. Conservou as Basílicas de São Paulo extra muros, São Pedro e São Lourenço, frente a um enorme número de peregrinos que chegavam para venerar as relíquias dos Santos Apóstolos. Restaurou as Igrejas de S. Estevão Rotondo e de Santa Bibiana. Construiu quatro novas igrejas em Roma. E, por fim, impediu a destruição dos mosaicos pagãos romanos junto à Igreja de S. André. Faleceu no dia 02 março em Roma.


Eis o que diz o Liber Pontificalis a respeito do Papa Sao Simplício:


XLVIIII. SIMPLICIVS (468-483)

Simplicius, natione Tiburtinus, ex patre Castino, sedit ann. XV m. I d. VII. Hic dedicauit basilicam sancti Stephani in Celio monte, in urbe Roma, et basilicam beati apostoli Andreae, iuxta basilicam sanctae Mariae, et aliam basilicam sancti Stephani, iuxta basilicam sancti Laurenti, et aliam basilicam intra urbe Roma, iuxta palatium Licinianum, beatae martyris Bibianae, ubi corpus eius requiescit. Hic constituit ad sanctum Petrum apostolum et ad sanctum Paulum apostolum et ad sanctum Laurentium martyrem ebdomadas ut presbyteri manerent, propter penitentes et baptismum : regio III ad sanctum Laurentium, regio prima ad sanctum Paulum, regio VI uel septima ad sanctum Petrum.


Sub huius episcopatum uenit relatio de Grecia ab Acacio Constantinopolitano episcopo et adfirmauit Petrum, Alexandriae urbis, eutychianistam hereticum, facta petitione ab Acacio episcopo, cyrographo eius constructa. Eodem tempore fuit ecclesia, hoc est prima sedis apostolica, executrix. Tunc Simplicius praesul audiens damnauit Petrum Alexandrinum de quo Acacius innumerabilia crimina adfirmabat, ita tamen ut paenitentiae reseruaret tempus. Eodem tempore rescripsit Timotheus catholicus et Acacius, dicentes quod etiam in mortem Proteri catholici Petrus esset permixtus. Tunc archiepiscopus Simplicius dissimulans numquam rescripsit Acacio, sed damnauit Petrum, expectans tempus paenitentiae.


Hic fecit in ecclesia Roma scyphum aureum, pens. lib. V ; canthara argentea ad beatum Petrum XVI, pens. sing. lib. XII. Hic fecit ordinationes in urbe Roma III per mens. Decemb. et Febr., presbiteros LVIII, diaconos XI ; episcopos per diuersa loca LXXXVIII. Hic sepultus est in basilica beati Petri apostoli, VI non. Martias. Et cessauit episcopatus dies VI.


Em tradução livre:


49. SIMPLÍCIO (468-483)

Simplício, de nacionalidade tiburtina, filho de Castino, ocupou a Sé por 15 anos, 1 mês, e 7 dias. Ele dedicou [construiu] a basílica do sagrado apóstolo André, perto da basílica de Santa Maria, e outra basílica de São Estevão, perto da basílica de São Lourenço, e outra, na cidade de Roma, perto do palácio Liciniano, da santa mártir Bibiana, onde descansa seu corpo. Ele estabeleceu semanas para São Pedro, o Apóstolo, para São Paulo, Apóstolo, e para São Lourenço, mártir, quando sacerdotes deveriam permanecer [nas regiões] para administrar o batismo e a penitência àqueles que os procuravam: por toda a 3ª região, para São Lourenço, pela 1ª região para São Paulo, e pela 6ª e 7ª região para São Pedro.


Durante seu episcopado, um relato foi enviado da Grécia, de Acácio, bispo de Constantinopla, afirmando que Pedro, da cidade de Alexandria, era um herege eutiquianista; e um pedido veio de Acácio, bispo, escrita pela sua própria mão. Naquele tempo a Igreja, que é a primeira Sé Apostólica, agiu. Então Simplício, bispo e cabeça, sabendo disso, condenou Pedro Alexandrino, contra quem Acácio, acusou de inúmeros crimes, mas reservou a ele uma oportunidade de penitência. Em seguida, Timóteo, um católico, e Acácio, escreveram novamente, dizendo que Pedro estava também envolvido na morte de Protério, um católico. Então, o arcebispo Simplício não deu atenção e não respondeu à carta de Acácio, mas condenou Pedro até quando fizesse penitência.

Foi feito para a Igreja Romana: um cálice de ouro; cântaras de prata para Basílica de São Pedro, 16. Fez ordenações na cidade de Roma três vezes pelos meses de dezembro e fevereiro: 58 presbíteros, 11 diáconos e 88 bispos por diversos locais. Foi sepultado na basílica de São Pedro Apóstolo, no dia 2 de março (6º dia antes das Nonas de março). E a Sé ficou vazia por 6 dias.