Mostrando postagens com marcador Meditação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Meditação. Mostrar todas as postagens

15 de abril de 2022

PALAVRAS DE CRISTO NA CRUZ

Primeira palavra de Cristo na Cruz

“Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem”

Os príncipes dos sacerdotes escarneciam de Jesus; os soldados zombavam da Sua condição humilhante e vergonhosa; um dos ladrões blasfemava e O desafiava a provar que era o Messias descendo da Cruz.

Não havia tradição religiosa no tempo de Nosso Senhor que não
esperasse dos seus falsos deuses intervenções cheias de poder e de majestade, que não esperasse o triunfo sobre os inimigos. Não havia sentido cultuar aqueles falsos deuses senão para obter proteção e prosperidade sobre si. O culto dos deuses, nas religiões pagãs, era um culto meramente formal, exterior, era uma troca de favores: os deuses eram honrados e os homens recebiam de retorno algum benefício material.

Assim também pensavam os judeus no tempo de Nosso Senhor. O Deus de Israel havia necessariamente de obter vitórias políticas contra os gentios, o Deus de Israel havia de elevar Israel sobre todos os povos. De Deus não se esperava uma derrota, uma humilhação, porque nenhuma bênção divina poderia ser melhor que a prosperidade e o triunfo do povo eleito.

O que esta visão estreita da Providência não conseguia admitir é que Deus havia permitido o mal desde o pecado de Adão. O mal tem um lugar no plano da Providência, o mal está misteriosamente a serviço da glorificação de Deus e da nossa santificação. E se o mal tem um lugar no plano da Providência, Deus, que não pode querer propriamente o mal, pode, no
entanto, permitir males de todo tipo para deles extrair sempre um bem maior, para deles obter uma maior dilatação da Sua glória, uma maior manifestação da Sua bondade e misericórdia.

Voltemos agora o nosso olhar ao divino Crucificado. Ele é escarnecido, zombado e blasfemado por aqueles que se escandalizam com o mistério do
mal, que não admitiam um lugar para o mal no plano da Providência, que só esperavam de Deus a prosperidade e o triunfo. Aqueles homens blasfemavam, isto é, maldiziam a Deus, porque, a seu entender, se Deus permite o mal, então Ele não pode ser bom. A blasfêmia é o grito de ódio de uma alma que nega a bondade dos desígnios de Deus.

Mas o que aqueles homens não podiam perceber é que a crucifixão de Nosso Senhor é a maior manifestação da bondade de Deus no mundo. Deus não apenas permite que Seus filhos sofram o mal, Ele envia o Seu próprio Filho diletíssimo para assumir sobre Si o mistério do mal sofrendo a Paixão; e nenhum sofrimento, nenhuma dor humana no mundo foi superior aos trabalhos do Salvador durante a Paixão.

A vitória de Deus sobre o mal, portanto, é o próprio Deus sofrendo o mal; a maior manifestação da bondade de Deus no mundo é o próprio Deus sendo inundado de blasfêmias contra a Sua bondade. E o que Ele faz diante deste dilúvio de blasfêmias, zombarias e escárnios? Ele perdoa, Ele dilata ainda mais a Sua bondade e misericórdia, perdoando os blasfemadores.

A bondade de Deus, aos nossos olhos tão miseráveis de criaturas,
parece uma loucura, loucura por se servir mesmo do mal para se dilatar, loucura por procurar-nos a nós, os blasfemadores, a fim de fazer de nós filhos diletos.

Senhor, perdoai-nos, porque blasfemamos contra a Vossa bondade quando julgamos não haver bem algum em nossas cruzes—porque as cruzes contrariavam o nosso amor-próprio desordenado; perdoai-nos porque nos escandalizamos com a Vossa Cruz, com Deus crucificado por amor, porque não quisemos servir um Rei que nos obriga à renúncia de si, ao dom de si, ao perfeito esquecimento de si e tentamos por inúmeros artifícios conciliar nossos caprichos com o Vosso serviço. Perdoai-nos, Senhor, porque não sabemos o que fazemos ao fugir das cruzes que Vossa Providência nos envia, a cruz que é sinal da Vossa suma bondade e da Vossa vitória contra todo mal.

Segunda palavra de Cristo na Cruz

A multidão conservava-se lá e observava. Os príncipes dos sacerdotes escarneciam de Jesus, dizendo: Salvou a outros, que se salve a si próprio, se é o Cristo, o escolhido de Deus! Do mesmo modo zombavam dele os soldados. Aproximavam-se dele, ofereciam-lhe vinagre e diziam: Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo. Por cima de sua cabeça pendia esta inscrição: Este é o rei dos judeus. Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele: Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós! Mas o outro o repreendeu: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum. E acrescentou: Senhor, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino! Jesus respondeu-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso. Amen dico tibi hodie mecum eris in paradiso.

Nós temos diante de nós a representação daquilo que nós realmente somos, e da forma como podemos agir diante da Cruz de Cristo e diante de nossas próprias cruzes. Afinal os ladrões somos nós, e da mesma forma que aqueles dois ladrões tiveram a grande graça de ser crucificados junto de Cristo – graça aproveitada somente por São Dimas, o bom ladrão -, também nós, caríssimos, também nós temos a graça de poder sofrer a cruz junto de Cristo.

Olhando esses dois ladrões, devemos reconhecer, seguindo o exemplo de São Dimas, que nós merecemos muito, mas muitos castigos por nossos pecados. Como exclamava outrora da cátedra de Poitier sua Eminência o Cardeal Pie, o homem pecador merece somente três coisas, sofrer, morrer e ir para o inferno. E se nós contemplamos hoje um espetáculo atroz, daquele que é a própria inocência, injustamente condenado, daquele que é a própria bondade, tão flagelado, daquele que é a própria santidade, escarnecido, daquele é fonte da vida, agonizante; se contemplamos tudo isso, contemplamos o que fizemos nós mesmos, que fizeram os nossos pecados, as nossas infidelidades a Deus, a nossa preferência pelo mundo, pelos seus prazeres, pelos seus entretenimentos, pelos seus passatempos, que nos fazem jogar fora o tempo que Deus nos dá, e nos fazem desprezar o sangue que ele derramou por nós.

Caríssimos, vejamos bem o que acontece na cruz, fomos nós que fizemos isso cada vez que nós pecamos gravemente. Foram nossos pecados que o colocaram na cruz. Mas se nós somos culpados, confessemo-lo. Confessemos essa culpa e, como Cristo não nos deixa, aproveitemos a oportunidade da
penitência.

O que faz São Dimas, caríssimos? Ele aproveita a graça que lhe é dada e olha a Cristo com os olhos da fé. Ele confessa a realeza daquele que se encontra despido, flagelado e agonizante na Cruz. Ele compreende que a realeza de Cristo não é a realeza do mundo e que a porta pela qual
ele entrará no seu reino é aquela Cruz. Ele o reconhece como sendo o seu Senhor, do qual ele se faz servo, e ao qual ele se submete em uma verdadeira vassalagem. Ele suplica da benignidade de Cristo que se lembre dele e lhe de alguma coisa, o que Cristo quiser lhe dar. Ele se entrega inteiramente à bondade divina de Cristo. Vejam bem, caríssimos, a fé, a confiança, o amor, a humildade e a devoção desse bom ladrão. Ele não coloca nenhuma condição, não diz a Cristo “se puderdes, pois sabe que nada lhe é impossível”; também não diz “se quiserdes”, pois está certo da caridade e da misericórdia daquele que perdoara seus carrascos; também não pede uma parte no Reino, pois, em sua humildade, não se julga digno; não pede ainda nada terreno, pede que lhe seja dado o que é do alto, aquilo que Cristo pode lhe dar quando estiver no reino; enfim, não pede nada em particular, ele confia na bondade de Cristo que lhe dará aquilo que lhe
é o necessário, como se dissesse, basta que olhes para mim em sua misericórdia. Enfim, como Cristo se dá inteiramente por ele, ele se abandona inteiramente a Cristo, pois só Deus basta.

Caríssimos, vejamos como Cristo é bom, e o quanto importa nos entregarmos inteiramente a ele e servirmos a ele, a ele que nos deu tudo, nos deu a existência e nos oferece, com seu sangue, a vida eterna. Vejamos como, mesmo com tantas maldades nossas, ele, em sua bondade, ainda assim nos promete o céu se confessarmos nossos pecados, nos arrependermos, recorrermos a ele, reconhecendo-o como nosso redentor, e, com ele suportarmos nossas cruzes. Cruzes teremos sempre, e diante de cruzes maiores, flagelos maiores, como nos dias que estamos
vivendo, demos graças a Deus, pois é a oportunidade de amarmos mais e repararmos mais, como tão bem fez São Dimas, o bom ladrão, que, amando muito, piedosamente roubou o céu.

Terceira palavra de Cristo na Cruz
Mulher, eis aí teu filho. Eis aí tua Mãe

Simeão havia profetizado que uma espada de dor transpassaria a alma da Santíssima Virgem (cf. Lc. II, 35). Esta espada de dor, em certo sentido, foi a lança com a qual o centurião feriu o lado de Nosso Senhor. A lança feriu o lado, mas não produziu nenhum sofrimento ao Salvador, que já havia rendido o espírito. Ao abrir o lado do Salvador, a lança fere, na verdade, a alma de Nossa Senhora; ao penetrar a carne do Salvador, a lança fere de dor o Coração de Maria Santíssima, fere a Mãe ao rasgar o Filho.As dores de Maria Santíssima são um paraíso para a alma devota, um paraíso de amor e de dor, que nos atrai irresistivelmente a amar e a sofrer com ela.

Isso porque, ao pé da Cruz, o amor infinito de Nosso Senhor reverbera, compenetra e inebria a alma de Nossa Senhora, o que é uma grande consolação para a humanidade pecadora: enquanto o Coração imaculado de Maria recolhe os frutos da Paixão, recolhe o Sangue do Cordeiro, podemos lucrar da Paixão no Coração de Maria Santíssima, podemos recolher nela o que perdemos por nós mesmos, podemos beber do Sangue do Cordeiro banhando-nos nas lágrimas da Mãe dolorosa.

De fato, o que são as dores de Nossa Senhora senão o mais profundo eco, o mais límpido espelho da Paixão de Nosso Senhor? Sem a Santíssima Virgem ao pé da Cruz, algumas almas se lançariam no desespero diante do amor infinito de Nosso Senhor, infinitamente distante da nossa miséria, enquanto outras almas cairiam na presunção de já terem feito o suficiente.

Todavia, a Santíssima Virgem estando ao pé da Cruz, ela recolhe em seu Coração todas as dores de Nosso Senhor e as imprime no coração dos seus filhos e devotos. A lança que abriu o lado de Nosso Senhor feriu o Coração de Maria Santíssima de dor e de amor, e não é possível ser devoto de Nossa Senhora sem ser atraído irresistivelmente à dor e sem ser inebriado de amor pelo divino Crucificado.

Mas de todas as dores da Paixão, qual dor poderia ser maior do que o próprio Filho crucificado dizendo à Mãe: “Eis aí teu filho”? Que dor poderia ser maior do que o Filho anunciando a Sua separação da Mãe, o Filho anunciando que um discípulo, uma criatura, seria o substituto de Deus encarnado na vida da Mãe? “Eis aí teu filho.” Nada poderia mortificar mais o Coração de Nossa Senhora do que se separar do seu divino Filho. Ela, porém, o aceita, porque em São João estão representados todos os filhos que Maria Santíssima deverá gerar para Deus, moldando em nossa alma o Coração do seu próprio Filho, Coração que uma vez foi tecido em seu puríssimo ventre.

O anúncio da Vossa separação fez sofrer sobremaneira a Santíssima Virgem. Nós, porém, Senhor, separamo-nos de Vós inúmeras vezes pelos nossos numerosos e graves pecados, e à diferença do puríssimo Coração de Vossa Mãe, a ausência de Deus não nos causou nenhuma dor, nenhum sofrimento; nós também nos revoltamos incontáveis vezes contra as desolações na vida espiritual, quando Deus fez silêncio e parecia estar ausente. Que Vossa Mãe faça arder o nosso coração, que ela o torne mais parecido com o dela, porque somente assim permaneceremos fiéis ao Vosso Coração durante as desolações e não abandonaremos o Vosso amor para procurar algum amor deste mundo. Fac ut ardeat cor meum, fazei arder o meu coração, ó minha Senhora e minha Mãe.

Quarta palavra de Cristo na Cruz

E, chagada a hora nona, ou seja, para nós três horas da tarde, Nosso Salvador exclama com uma grande voz, Elí, Elí, lama sabactani, ou seja, Deus meu, Deus meu, por que me abandonastes?

Eis que as trevas cobriam a terra já há três horas, quando Nosso Senhor soltou esse grito, primeira palavra dos momentos maiores e finais de sua agonia. Com essas palavras ele expressa quão enorme é a sua dor, quão enorme é a sua angústia por carregar em sua carne todos os pecados de todos os tempos e de todo o mundo. E, assim sendo, caríssimos, como diz Santo Afonso, “ainda que pessoalmente fosse o mais santo de todos os homens, tendo de satisfazer por todos os pecados deles, era tido pelo pior pecador do mundo e como tal fez-se réu de todos e ofereceu-se para pagar por todos. E porque nós merecíamos ser abandonados eternamente no inferno, no desespero eterno, quis ele ser abandonado ou entregue a uma morte privada de todo o alívio, para assim livrar-nos da morte eterna”. Ao se encarnar, ele, com efeito, tomou a nossa natureza, fazendo-se semelhante a nós em tudo, exceto no pecado. Faz-se semelhante a nós em tudo, inclusive em nossas fraquezas, dores e angústias. E qual não é a angústia do Santos dos Santos ao sentir em sua carne o peso atroz de tantas ofensas, malícias e verdadeiras podridões. Qual não é sua angústia e tristeza ao ver tantos homens desprezarem e jogarem ao chão o sangue precioso derramado amorosamente pelo Senhor? Consideremos, caríssimos, quantas vezes não somos nós culpados desse grito de angústia do Senhor, quando pelos pecados graves rejeitamos e desperdiçamos o sangue que ele derramou por nós?

E tudo o que o Redentor diz a partir de agora, ele o diz sob as trevas que por intervenção divina cobrem o mundo, maravilhando até mesmo os pagãos, como os gregos Phlegon e Apolófano, bem como o autor dos Anais da época de Pilatos, citado por Rufino. São Leão Magno vê nessas trevas, a cegueira orgulhosa do povo judeu que cometia naquele instante o ato mais abominável, o deicídio. São Jerônimo vê a enormidade do pecado que era cometido. Ora, caríssimos, quantas vezes não nos cegamos para as oportunidades que Deus dá a nós de repararmos um pouquinho por nossos pecados? Seja por uma reprimenda mal recebida e não seguida, por um bom conselho ignorado, por um conforto retirado, por um desconforto, por uma tribulação que aparece a nós, e nós só pensamos em nosso orgulho ferido? Quanta vezes estamos mais interessados no prazer do pecado, no conforto de deixar para lá alguma obra espiritual, e nos cegamos para a angústia que causamos a Cristo? Quantas vezes não nos portamos como esse povo deicida, cegando-nos para Cristo, fazendo-o sofrer e matando-o em nossa alma?

Consideremos o quanto nossos pecados o fazem sofrer! Lembremos que do alto da cruz ele pensou em cada um de nós, em cada pecado nosso que estava lá ele expiando, para que pudéssemos ter com ele o céu!

Vejamos, caríssimos, o quanto quis Nosso tão Bom Senhor sofrer por nós: vamos por acaso
aumentar a sua angústia? Ou vamos buscar consolá-lo, e isso com verdadeiro espírito de
penitência e oração? Ao pecarmos, imediatamente peçamos perdão, e busquemos o quanto antes a confissão. Ao vermos alguém pecar, façamos imediatamente uma reparação, com uma jaculatória, como oração. Consolemos, consolemos o sagrado Coração que tanto nos amou!

Quinta palavra de Cristo na Cruz

“Tenho sede”

Se a Paixão de Nosso Senhor consistisse apenas na flagelação, já seria suficientemente horrível, de uma violência impressionante. O açoite romano, o flagellum, era composto de várias tiras de couro, às quais se atavam minúsculas bolas de ferro ou fragmentos de ossos a vários intervalos. E como os algozes açoitaram sem piedade o delicado corpo do Salvador, o flagelo romano causava tanto contusões profundas quanto rasgos de pele; e à medida em que a flagelação avançava, as lacerações cortavam até os músculos e produziam tiras sangrentas de carne rasgada. Nosso Senhor foi praticamente triturado durante a Paixão. Como diz o profeta Isaías: “[...] ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades.” (Is. LIII, 5)

Tamanha violência na flagelação foi o início da perda do Sangue do Salvador. Para compensar tal perda, o organismo precisa aumentar o ritmo cardíaco. A respiração também acelera, o pulso enfraquece, a pele esfria e a sede aumenta. Quando Nosso Senhor disse, do alto da Cruz: “Tenho sede”, sintoma do choque hipovolêmico, podemos presumir que aquele não foi o início, mas o ápice da Sua sede, porque naquele momento Ele já havia perdido um grande volume de Sangue, desde que a Sua carne foi cruelmente aberta na flagelação. Se José de Arimatéia se apressou para descer o Corpo de Jesus da Cruz e sepultá-Lo, isso se deve não apenas porque era preciso guardar o repouso do sábado desde o entardecer da sexta-feira, mas também porque segundo a tradição judaica, o sangue do morto faz parte dele e deve ser sepultado com ele. Os amigos de Nosso Senhor temiam que Ele não tivesse mais Sangue ao sepultá-Lo e por isso se apressaram.

A morte por crucifixão é uma das piores mortes das quais se tem notícia, porque o crucificado sente instante por instante sua vida se esvair com a perda de sangue, e por causa da perda de sangue, soma-se o sofrimento de uma sede ardente, da qual nenhum de nós teve experiência.

Nosso Senhor tem sede, porque na Cruz, Seu Sangue escorre lentamente das feridas e das chagas. Mas é preciso considerar que, de uma certa maneira, Ele também tem sede durante a Santa Missa. Quando o sacerdote consagra separadamente o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor, esta separação mística do Corpo e do Sangue torna presente sobre o altar o mesmo Sacrifício da Cruz, com a diferença, porém, de que o Sacrifício da Cruz se torna presente de maneira incruenta, isto é, sem sofrimento. A sede de Nosso Senhor, de certa maneira, durante a Missa, quando o Seu Corpo e Seu Sangue são misticamente separados não é a sede física, é a sede das almas. Durante a Missa, não precisamos dar de beber Nosso Senhor com água, mas com nosso coração, nossos afetos, nossa alma, nosso ser. Ele disse: “[…] quando eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a mim.” Ele tem sede do dom inteiro da nossa pessoa, Ele tem sede de verter a Sua caridade em nossa alma, como a alma da Sua Santíssima Mãe esteve inebriada de caridade.

Quantas vezes, Senhor, prometemos dar-Vos de beber com o nosso coração, e quantas vezes retiramos de Vossas mãos este mesmo coração porque queríamos nos saciar de criaturas. Vós tendes sede, e no entanto, sois Vós mesmo a água viva. A nós cabe ouvir aquelas palavras que dissestes à samaritana: “Se conhecesses o dom de Deus, e quem é que te diz: Dá-me de beber, certamente lhe pedirias tu mesma e ele te daria uma água viva.” Dai-nos, Senhor, da Vossa água viva, para que peçamos sempre desta água e saciemos a Vossa sede de almas.

Sexta palavra de Cristo na Cruz

_Tudo está consumado _

Cristo diz tudo está consumado. Ele cumprira todas as profecias: encarnara-se para publicar a Nova e Eterna Aliança, com seu sacrifício perfeito, e, com sua morte, redimir o gênero humano. Com essas palavras indica a iminência de sua morte e que tudo aquilo que fora anunciado havia sido cumprido. Sela, Nosso Senhor, todas as profecias a respeito de sua obra redentora. O amargo cálice de sua Paixão, do qual deveria beber até o fim para satisfazer a vontade do Pai Eterno, encontrar-se-ia então vazia. Tudo estava consumado. Nesse momento, diz Santo Afonso, Jesus, antes de expirar, pôs diante dos olhos todos os sacrifícios da antiga lei (todos eles figuras do sacrifício da cruz), todas as súplicas dos antigos padres, todas as profecias realizadas na sua vida e na sua morte, todos os opróbrios e ludíbrios preditos que ele devia suportar, e vendo que tudo se havia realizado, disse: Tudo está consumado. O poder que havia sido dado aos pérfidos homens e aos demônios para dar curso a sua sanha contra Nosso Senhor seria então cassado, diz São João Crisóstomo, e assim consuma-se a derrota da morte, do pecado, do demônio e dos maus, e a vida é dada aos filhos de Deus. Como diz São Leão Magno, é sua vitória, e a vitória da Igreja que é consumada.

Pois bem, caríssimos, é a vitória da Cruz que é consumada. É nossa vitória que é consumada.
Mesmo diante das mais pesadas cruzes, mesmo diante da sanha dos inimigos da nossa alma e da Santa Romana Igreja, mesmo no mais austero dos desertos, não temos o que temer, pois Cristo vence, Cristo reina e Cristo impera. Como bem diz Santo Agostinho, caríssimos: “O que te ensinou pendente da cruz, não querendo dela descer, senão que fosses forte em teu Deus? Jesus quis consumar o seu sacrifício com a morte, para nos persuadir de que Deus não recompensa com a glória senão aqueles que perseveram no bem até ao fim, como o faz sentir por S. Mateus: “Quem perseverar até ao fim será salvo”. Quando, pois, ou seja por motivo de nossas paixões ou das tentações do demônio ou das perseguições dos homens nos sentirmos molestados e levados a perder a paciência e a ofender a Deus, olhemos para Jesus crucificado que derrama todo o seu sangue por nossa salvação e pensemos que nós ainda não derramamos uma só gota por seu amor. É o que diz S. Paulo: Pois ainda não tendes resistido até ao sangue combatendo contra o pecado”. Ouçamos bem caríssimos. É na cruz, caríssimos, que também nós consumaremos nossa vitória.

Sétima palavra de Cristo na Cruz

“Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”

Depois de ter sofrido Sua cruentíssima e crudelíssima Paixão, estando já pendurado no madeiro desde a hora terça, isto é, as nove da manhã, ferido pelos açoites, afligido pela coroa de espinhos, machucado pelo carregamento da Cruz até o alto do Calvário, extenuado pela perda contínua de Sangue, perfurado por pregos, tendo que apoiar-Se nos próprios pés cravados para tomar ar, num esforço violento de sobrevivência, Nosso Senhor pronuncia a Sua última palavra ao dizer “Pai”.

Não fazia muito tempo que Ele havia Se despedido da Sua Mãe, entregando-Lhe o discípulo amado como Seu substituto, quando a dor da separação dilacerou o Seu Coração de Filho. Mesmo os atrozes sofrimentos da Paixão não podiam superar a dor de alma de Nosso Senhor diante da compaixão de Nossa Senhora. Mas Sua última palavra, Seu último discurso se dirige ao Pai. Os príncipes dos sacerdotes, os soldados e o ladrão impenitente blasfemavam contra Nosso Senhor, desafiando-O a descer da Cruz. Ele, por Sua vez, não desce da Cruz e não pede para descer da Cruz; mesmo estando imerso num oceano quase infinito de dores, Ele Se dirige a Deus e O chama de Pai.

Nosso Senhor Se dirige a Deus e O chama de Pai, o Pai que, no Horto das oliveiras, não afastou dEle o cálice de dor da Paixão, apesar da Sua oração insistente, apesar da agonia mortal do Salvador. Nosso Senhor bebeu do cálice de dor até a última gota; não houve sentido Seu que não tivesse sofrido durante a Paixão, desde o tato ao paladar; Seus membros, Suas faculdades de alma, toda a Sua Humanidade, em suma, foi reduzida a dor e sofrimento. O Pai quis que Ele bebesse deste cálice até a última gota, e o Salvador não hesita em chamá-Lo de Pai, entregando-Lhe em Suas mãos o espírito.

A confiança filial de Nosso Senhor é inabalável, porque Ele tem ciência de que Deus é Pai não porque nos livra de todo sofrimento, mas porque nos glorificará após o sofrimento. A filiação divina de Jesus vem da Sua natureza divina, Ele é Filho de Deus porque gerado pelo Pai desde toda a eternidade.

Todavia, pelos méritos da Sua Paixão, Ele nos dá a graça e o exemplo para adquirirmos um título cada vez superior de filiação adotiva por meio do sofrimento aceito por amor. O “segredo” da santidade é a nossa configuração em Cristo crucificado, pela qual o Pai nos ama com amor semelhante ao amor
que Ele depositou em Seu Filho crucificado. A recompensa do sofrimento aceito por amor, de uma generosa configuração ao Cristo crucificado, é poder dizer como Ele disse: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”, é poder chamar a Deus de Pai e esperar deste Pai amorosíssimo que Ele nos consuma de caridade, que Ele nos faça semelhantes a Si mesmo, isto é, que Ele nos faça bons como Ele é bom.

Ó bom Jesus, extirpai da nossa alma o temor do Pai e dos Seus amorosos desígnios. Dai-nos daquela mesma confiança inabalável pela qual Vós aceitastes beber o cálice de dor da Vossa Paixão e por fim entregar o espírito nas mãos do Pai. Dai-nos daquela mesma confiança inabalável, pela qual recebemos todos os sofrimentos, especialmente aqueles que mais nos contrariam, como vindos do mais amoroso e bondoso dos pais, do Vosso Pai, que é Pai Nosso.

MEDITAÇÃO PARA SEXTA-FEIRA MAIOR

E eis que estamos na Sexta-feira Maior, com um antiquíssimo e belíssimo ofício chamado de Missa dos Pré-Santificados. Ofício que está dividido em três partes, como toda Missa: pré-missa, a ação do sacrifício e a comunhão; hoje encontramos uma celebração tripartida, semelhante à da Missa. Em vez da Consagração, realiza-se a Elevação e Adoração da Cruz. A primeira parte é uma pré-missa, é mesmo um venerável monumento da missa dos catecúmenos na antiga liturgia; a segunda parte é a adoração da Cruz, ponto alto do dia; a terceira parte é a comunhão do celebrante. A liturgia chama este ofício de Missa dos Pré-santificados pois que a hóstia foi consagrada no dia anterior.

O ofício começa com uma pré-missa antiga, como eram celebradas durante os primeiros quatro séculos. Não havia introito, os sacerdotes prostravam-se silenciosamente nos degraus do altar. Havia três leituras entre as quais salmos inteiros eram cantados como cânticos intermediários e a oração pelas necessidades gerais dos cristãos. A primeira parte do Ofício da Sexta-feira Maior preservou esta antiga prática. A primeira lição (do profeta Oséias) deve nos colocar nos sentimentos de tristeza e arrependimento apropriados para este dia. Ela também nos faz ouvir, já, o anúncio da festa da Páscoa: “Ele nos dará vida nova em dois dias; ao terceiro dia nos ressuscitará”.

Canta-se então um trato retirado de Habacuc: “Senhor, eu ouvi vossa mensagem e temo; Considerei vossas obras e estremeci. Vós sereis encontrado no meio de duas criaturas”. O Profeta vê com horror o espantoso espetáculo da crucificação: "o Senhor" entre dois malfeitores.

A segunda lição nos mostra o tocante símbolo do cordeiro pascal. Este símbolo é realizado hoje. O verdadeiro Cordeiro Pascal, Cristo, é morto. Não é por acaso que Jesus ofereceu seu sacrifício no próprio dia da festa da Páscoa dos judeus; às três horas, exatamente quando os cordeiros da Páscoa estavam sendo mortos no templo, o Senhor expirou. O canto salmódico que se segue descreve a traição de Judas e a Paixão de Jesus.

Agora, depois do símbolo do cordeiro Pascal, ouvimos o relato da realidade e o cumprimento deste símbolo: canta-se a Paixão. Desta vez, a Paixão nos é contada pelo discípulo predileto de Jesus, o Apóstolo São João, que junto com a Santíssima Virgem esteve junto à Cruz e foi testemunha ocular destes grandes acontecimentos. Enquanto os outros evangelistas descrevem sobretudo o lado humano da Paixão, São João mostra-nos o Salvador sofrendo como Deus, como Rei. Seu relato da Paixão tem um caráter de grandeza e poder: o Rei no trono da Cruz.

Três intérpretes se nos apresentaram até agora: o Profeta, a Lei, o Evangelista. Passamos, agora, às antigas intercessões por todos os estados da humanidade. É hoje que estas orações são particularmente apropriadas: Jesus, o Rei do Reino de Deus, foi “ressuscitado” e agora “ele atrai tudo para si”. Jesus, o segundo Adão, dorme o sono da morte, e do seu lado sai a segunda Eva, a Igreja. Nas intercessões, rezamos primeiro pela Igreja, a Esposa de Cristo; rezamos por todos os estados, mesmo por cismáticos e hereges. A cada vez, o sacerdote e o povo se ajoelham ao chamado do diácono: Flectamus genua (dobremos os joelhos). Levantamo-nos então a convite do subdiácono: Levate (Levantai-vos). A genuflexão é omitida apenas no momento da oração pelos pérfidos judeus, isto é, infiéis, porque, naquele dia, eles se ajoelharam em escárnio diante de Cristo. Eis a ordem destas orações: rezemos pela Santa Igreja, pelas Ordens eclesiásticas e pelas várias classes de cristãos leigos, pelos catecúmenos, pelas necessidades espirituais e temporais de todo o mundo, pelos cismáticos e hereges, pelos os judeus e finalmente para os gentios.

O ponto alto do ofício é a adoração da Cruz, sinal da nossa salvação. Esta cerimónia também é muito antiga e teve origem em Jerusalém, onde se honrava e beijava o madeiro da verdadeira Cruz. O sacerdote depõe seus ornamentos, coloca-se ao lado da Epístola e começamos a desvelar solenemente a cruz. Se a Cruz está velada desde o Domingo da Paixão, é para que a Igreja possa desvelá-la solenemente, hoje, numa cerimónia impressionante. O diácono descobre a imagem do Crucificado três vezes, e cada vez o sacerdote entoa em tom cada vez mais alto: "Eis o madeiro da Cruz, no qual pendeu a salvação do mundo". O canto é continuado pelo coro, e as pessoas caem de joelhos cantando: “Vinde, adoremos”.

A cruz colocada sobre uma almofada é então colocada nos degraus do altar. O celebrante e os eclesiásticos tiram os sapatos, aproximam-se da cruz depois de três genuflexões e beijam os pés de Cristo para honrar o Salvador e o sinal da nossa redenção. O povo também se aproxima e vem beijar a cruz. Meus caros, adoremos o rei ensanguentado e coloquemos toda a nossa alma em nosso ósculo. Durante a adoração da Cruz, o coro canta um cântico impressionante. Estes são os "impróprios", as queixas e reprovações de Jesus ao seu povo infiel. Em suas queixas, doces e fortes, ele lembra ao seu povo as bênçãos que ele concedeu a eles no Antigo Testamento e a ingratidão que ele recebeu em troca. Estas queixas dirigem-se também a nós e exortam-nos, perante a morte de Cristo, a uma conversão séria. Ouvimos constantemente esta queixa: “Meu povo, o que eu fiz para você, e como eu entristeci você? responda-me ". É difícil encontrar um canto mais tocante que esse, uma cena mais terrível. Há ainda outra canção muito mais antiga que celebra a divindade daquele que se encontra crucificado. É cantado em duas línguas, grego e latim: “Agios o Theos — Sanctus Deus” — Santo Deus, santo e forte, santo e imortal, tende piedade de nós. É uma magnífica homenagem a Deus, na presença do sinal triunfal da Redenção. Enfim, canta-se até um hino de alegria à Cruz e à Redenção. “A tua Cruz, Senhor, nós adoramos, louvamos e glorificamos a tua santa Ressurreição; eis que por causa do madeiro da Cruz, a alegria chegou ao mundo inteiro”.

A terceira parte da liturgia da Sexta-feira Maior é a comunhão do celebrante. O santo sacrifício foi omitido hoje desde os primeiros tempos, mas não se abre mão da presença de Cristo. Por isso, na missa de ontem uma hóstia foi consagrada e reservada para a comunhão de hoje. Esta comunhão sem sacrifício prévio — que aliás acontece com frequência entre os gregos durante a Quaresma — chama-se Missa dos pré-santificados

Em procissão solene, o cálice com a hóstia consagrada é retirado da capela onde foi carregado ontem e levado de volta ao altar-mor, cantando o "Vexilla Regis”, hino de triunfo que celebra "avanço do estandarte do Rei". Queremos assinalar hoje, cantando este hino, que carregamos o corpo imolado de Cristo, o mesmo que pendeu na Cruz. O celebrante coloca a hóstia no corporal. O diácono derrama o vinho e o subdiácono derrama a água no cálice. Este vinho, hoje, não será consagrado e será usado apenas para abluções.

Em seguida, o sacerdote incensa a hóstia e o altar, como em todas as missas solenes. Ele lava as mãos em silêncio. Ele recita a oração de oferenda pessoal (In spiritu) e o Orate fratres que não é respondido. Faz parte do Ofertório. O sacerdote imediatamente começa o Pater e recita o Libera em voz alta. Ele então levanta a hóstia com a mão direita para mostrá-la ao povo, faz a fração habitual da hóstia, recita a última das orações preparatórias para a comunhão (porque, nesta última, trata-se apenas da recepção da hóstia, o corpo) e, depois dos três “Domine, non sum dignus”, recebe a comunhão. Ele é o único a comungar pois ele, enquanto sacerdote, é outro Cristo, e assim ele se une ao sacrifício do Altar - mas a tristeza e o luto deste dia, em que Cristo é desfigurado, sofre, morre por nossos pecados e é sepultado, apartando-se de nossas vistas, levam a Igreja a restringir a comunhão dos fiéis somente ao santo viático, em caso de risco de morte. O sacerdote então bebe o vinho e purifica o cálice. Assim termina a cerimônia de comunhão.

Eis a Sexta-feira Maior: nas matinas, consideramos Cristo em sua humilhação humana, “como um verme, o desprezo dos homens”. Na Missa dos pré-santificados, ele se apresenta a nós como Redentor e como Rei no trono da Cruz. Este aspecto encontra-se nas três partes: na primeira parte, com a Paixão de São João e as intercessões; na segunda parte, com o desvelamento e adoração da Cruz; na terceira parte, com a cerimônia de comunhão onde Cristo é o Cordeiro morto, mas glorificado. Há uma progressão nestas três partes: a morte do Senhor na Cruz é representada na primeira parte da pré-missa (o Profeta, a Lei, o Evangelho); na segunda parte, pela ação e símbolo, na terceira parte pelo sacramento.

14 de abril de 2022

MEDITAÇÃO PARA QUINTA-FEIRA MAIOR

Meus caros conspícuos, a missa da Quinta-feira Maior tem uma importância particular,:é a comemoração da instituição da Sagrada Eucaristia e do sacerdócio. Esta missa é bastante impressionante e tocante. Na Igreja, estamos como que reunidos no Cenáculo, ao redor do Mestre que lava nossos pés e nos dá, com seu corpo e seu sangue como alimento. A Missa apresenta uma dupla tonalidade, uma expressão de alegria e uma expressão de tristeza. Em primeiro lugar, é um sentimento de alegria. O altar é adornado; a cruz do altar-mor é velada de branco; o sacerdote sobe ao altar com ornamentos brancos; cantamos a alegre Glória que há tanto tempo não ouvíamos; durante o Glória, os sinos são tocados pela última vez e então são silenciados. Há poucos dias no ano que nos tocam tanto o coração, mas nesta alegre festa, dedicada à instituição do Sacramento do Altar, estende-se um véu de profunda tristeza. Hoje, em todas as igrejas, é permitida apenas uma missa. O sacerdote mais digno substitui Cristo; os outros são, por assim dizer, os Apóstolos e recebem a Sagrada Comunhão de suas mãos; a Missa é, de fato, a celebração da Última Ceia.

No intróito cantam-se as fortes palavras de São Paulo: "Devemos nos gloriar na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo..." Vemos diante de nós toda a felicidade da redenção. Quase esquecemos a amargura da Paixão por já ver a Ressurreição. O pensamento da Ressurreição, que já ouvimos no Introito, continua na Oração e no Gradual (“por isso Deus o exaltou”). A Missa, portanto, já pertence à páscoa.

A oração traz à tona dois novos pensamentos que estão ligados a duas pessoas, o bom ladrão e Judas. O bom ladrão representa os penitentes que hoje se reconciliam. É por isso que o Ofertório canta em seu nome: "Não morrerei, mas viverei e contarei as obras do Senhor". O pensamento de Judas e sua reprovação hoje ocupa a liturgia em algumas passagens; na Epístola (pelo menos, por alusão, quando fala de comunhão indigna); no Evangelho (“quando o diabo já havia inspirado Judas Iscariotes com o pensamento...”); no Cânon, inclusive, fica patente o contraste: “o dia em que Nosso Senhor Jesus Cristo foi entregue por nós (traditus)”: — “por causa do dia em que Nosso Senhor Jesus Cristo entregou a seus discípulos a celebração dos mistérios de seu corpo e seu sangue (tradit)”.

O Evangelho nos fala do ato de humildade de Jesus no lava-pés e do preceito da caridade fraterna que ele nos dá. As duas leituras são um testamento do Mestre no momento de sua partida. Ele nos dá o seu corpo e o seu amor. No entanto, hoje, omite-se o ósculo da paz, para que não seja feita alusão ao beijo traidor de judas no dia mesmo da pérfida traição.

A comunhão une a memória das duas grandes provas de amor dadas pelo Senhor neste dia: a Eucaristia e o lava-pés. É o lava-pés que é o tema da antífona. Há um significado profundo nisso. Não podemos imitar o dom eucarístico, mas podemos e devemos imitar o exemplo dado no lava-pés: caridade e sacrifício pelos irmãos. Esta caridade é a expressão e a consequência da nossa união com Cristo fundada na Eucaristia.

Após a missa, a hóstia consagrada para o dia seguinte é levada, juntamente com a reserva sagrada, para uma capela lateral: o Esposo é removido, a igreja permanece vazia. É uma procissão solene que se dirige ao local onde repousará a Santa Hóstia, que será consumida amanhã. O celebrante o leva sob o pálio, como na festa do Santíssimo Sacramento; mas hoje o corpo sagrado do Redentor contido no cálice está velado e não cercado de raios como no dia de seus triunfos. Adoremos este divino Sol da Justiça, cujo nascimento saudamos com tanta alegria; ele se põe na escuridão; mais algumas horas, e sua luz se apagará. As sombras então cobrirão a terra; e será só no terceiro dia que a veremos reaparecer todo fulgurante na glória

Após a missa, os altares são despojados; retiramos todas as toalhas de mesa, assim como as relíquias. O altar é o símbolo de Cristo; o despojamento do altar, portanto, significa o despojamento de Cristo antes da crucificação. É por isso que, também, durante esta cerimónia, cantamos o Salmo 21 com esta antífona: "Repartiram entre si as minhas vestes e lançaram sortes sobre o meu vestido" (Salmo 21 é o salmo messiânico da Paixão em que David contempla o abandono de Jesus na cruz). A igreja, desprovida de qualquer ornamento, apresenta-nos a imagem da solidão e da desolação. O santo sacrifício é interrompido até que o Senhor saia do sepulcro.

Após tudo, em outro local, com paramentos roxos, ocorre o lava-pés: esta cerimônia é chamada de "mandato", o mandamento do Senhor. Enquanto o superior lava os pés de treze clérigos (ou treze homens), o coro canta o hino por excelência da caridade fraterna:

Onde há caridade e amor, Deus está presente.
Regozijemo-nos e exultemos nele!
Vamos temer e amar o Deus vivo
E amar uns aos outros com um coração puro.

Treze por ser o número perfeito do colégio apostólico (Judas, o traidor, tendo sido substituído por São Mathias, e São Paulo tendo sido feito apóstolo por disposição divina); e por um fato da vida de São Gregório Magno que, recebendo sempre doze pobres em sua mesa, um dia recebeu um décimo-terceiro que era um anjo do Senhor.

Cristo lava os pés dos primeiros sacerdotes: evidencia-se a caridade fraterna que deve haver no serviço da autoridade para com os súditos e entre os membros da Santa Igreja, que, em Cristo, são irmãos e herdeiros do céu, e devem, como Cristo, se sacrificar pela salvação uns dos outros.

13 de abril de 2022

MEDITAÇÃO PARA QUARTA-FEIRA MAIOR

Estamos na Quarta-feira Maior, caríssimos, e a Santa missa começa com grande solenidade: o reino de Deus, em seus três estados, está em adoração diante do Senhor obediente até a morte na cruz. Diante dele se prostram a Igreja triunfante, a Igreja militante e a Igreja padecente. Mas a Igreja já o vê em sua glória à direita de seu Pai. Ainda hoje, um salmo se destaca na liturgia: o salmo 101. Ele é colocado na boca de Cristo, a quem os fiéis se unem. Podemos ver no Introito o contraste entre a antífona e o versículo: na antífona vemos o Senhor na glória do Pai; já o versículo nos mostra Cristo obediente até a morte de cruz, mostra-nos Cristo humilhado.

Rogamos ao Senhor, na coleta, que, pelos méritos da paixão de seu bendito Filho, ele nos salve dos castigos que merecemos por nossos pecados. Nada é mais agradável a Deus do que apresentar-lhe os méritos da paixão de Jesus, pois é precisamente em seu Filho único que ele recebe todas as suas delícias; e a ele nada recusar.

Ambas as epístolas nos dão as mais belas profecias de Isaías sobre a Paixão. A primeira nos fala sobre o ceifeiro divino. “Quem é este que vem de Edom, de Bozra, em vestes escarlates? Ele é magnífico em seu vestido, brilhando com força. Sou eu (o Messias) que prometo justiça, que puno apenas para salvar. Mas por que sua vestimenta é vermelha, e por que suas vestimentas são como as dos que lagam a vindima no lagar? Na prensa, eu andava sozinho e, entre os povos, ninguém estava comigo. Espremi os povos em minha ira e os esmaguei em minha fúria. Mas o sangue deles jorrou em minhas roupas e eu sujei todas as minhas roupas.” Cristo, na sua Paixão, espremeu o vinho eucarístico para nós. Assim, o filho de Amós descreve Jesus que, com suas roupas manchadas de sangue, se vinga terrivelmente dos inimigos de nossa alma. Sua paixão esconde de fato um mistério de humildade inefável e poder terrível, e as humilhações e tormentos que ele aceitou por nosso amor são precisamente as armas com as quais ele esmagou o orgulho humano, a sensualidade e reduziu a nada o poder de Satanás.

Depois da leitura vem o responsório, retirado do Salmo 68, que descreve a angústia do Coração de Jesus durante a sua Paixão: “Não voltes o rosto para o teu servo”. O Salvador levou o pecado dos homens e, portanto, sujeitou-se à penalidade do abandono por parte de Deus, que com justiça desvia o rosto do pecador culpado. É este duro sacrifício que corresponde de alguma forma à dor dos condenados pela qual são eles atormentados no inferno. “Ouvi-me rapidamente, porque estou angustiado. Salvai-me, Senhor, porque as ondas subiram à minha alma” – isto é, o pecado que encheu de amargura as profundezas da minha alma, de modo que sou aprisionado pela mais terrível desolação, sem sua união hipostática com a pessoa do Verbo trazendo o menor alívio para a parte inferior da minha alma. “Caí em um poço lamacento – a iniqüidade do mundo inteiro – e não encontrei socorro". Este abandono de que Jesus se queixou na cruz não deve ser entendido em sentido absoluto, pois, mesmo durante a sua angustiante agonia no patíbulo da infâmia, a alma abençoada do Redentor foi abençoada na visão clara de Deus; mas deve ser tomado em um sentido relativo, pois Deus, para abandonar seu Filho unigênito nas garras do sofrimento, decidiu que essa bem-aventurança da alma não se refletiria no corpo.

Temos então uma outra coleta que associa a dor da paixão à beleza da ressurreição. Devemos crer de fato que Jesus Cristo une, em uma única pessoa, a natureza divina e a natureza humana, sem qualquer confusão, mas, ao contrário, com uma perfeita distinção de propriedades. É, portanto, como homem que sofre e morre; no entanto, sua humanidade, estando hipostaticamente unida à Divindade, não pode ser corrompida no túmulo, mas deve receber a mais esplêndida glorificação ao ressuscitar. Primogênito dentre todos os mortos é ele causa e protótipo de nossa ressurreição universal: "Ó Deus que, para nos salvar do poder do inimigo, quisestes que seu Filho subisse no patíbulo da cruz, concedei a seus servos o poder de obter os frutos de sua ressurreição”. Esses frutos da ressurreição são a ressurreição espiritual das almas pela graça, e então sua salvação final na glória. Sem estes frutos, a paixão de Jesus Cristo permaneceria estéril, como diz o Apóstolo: Ergo gratis Christus mortuus est? Portanto, é fácil compreender como a ressurreição é parte integrante da paixão, e é por isso que a liturgia nunca separa essas duas lembranças sagradas, que se iluminam e se complementam reciprocamente.

A segunda epístola é particularmente impressionante. Ela nos descreve o “homem de dores” a quem Deus imputou todos os nossos pecados. “Era desprezado, o último dos homens, homem de dores e familiarizado com o sofrimento; seu rosto estava como que velado e desprezado, por isso não o reconhecemos. Ele realmente carregou nossas doenças e carregou nossas dores. Nós o víamos como um leproso, como um homem ferido por Deus e humilhado. Mas ele foi ferido por causa de nossas iniqüidades, ele foi esmagado por causa de nossos pecados. O castigo que traz a paz estava sobre ele, e foi pelas suas feridas que fomos curados. Estávamos todos vagando como ovelhas; cada um de nós seguiu seu próprio caminho. O Senhor colocou sobre si todas as nossas iniqüidades. Ele foi sacrificado porque quis; não abriu a boca: como ovelha, será levado ao matadouro e, como cordeiro diante do seu tosquiador, ficará calado e não abrirá a boca”. Pode justamente ser essa leitura chamada de Proto-evangelho, porque o profeta de Judá contempla ali, vários séculos antes de sua realização, as humilhações e dores sofridas por Jesus durante sua paixão, e descreve os mínimos detalhes. O título característico atribuído aqui ao Messias é o de servo de Deus; pois assim como pelo pecado o homem tentou se retirar do império de Deus, o Redentor, para expiar essa rebelião, teve que se dedicar inteiramente a cumprir a vontade do Pai. Jesus é de Deus, escreve São Paulo: Christus autem Dei. Ele é de Deus, tanto como Filho quanto como servo; e sobretudo como vítima. Os direitos divinos sobre Jesus são, portanto, afirmados de maneira absoluta e perfeita, sobretudo por meio da união hipostática do Verbo com a natureza humana do Salvador; em virtude desta união, a humanidade de Jesus é perfeitamente de Deus. Este título de Servo de Deus é melhor explicado pelo Profeta em toda a passagem que ouvimos hoje na Missa. Este é um aspecto novo e especial pelo qual o Messias se apresenta a nós. Seu reinado certamente deve ser glorioso e triunfante, mas o começo será humilde; e, antes de Jesus entrar em sua própria glória, será necessário que ele sofra muito e seja pregado na cruz. Mas por que o Servo de Deus deve sofrer? O Profeta responde: “Ele tomou sobre si nossas iniquidades e nossos pecados; o Senhor o acusou de nossas faltas e nós somos curados graças às suas feridas. Morre sem reclamar, será sepultado entre os ímpios e seu túmulo se erguerá entre os poderosos. Mas graças ao seu sacrifício livre o Senhor lhe concederá uma posteridade inumerável, e ele, por sua palavra, levará muitos à justiça”.

O responsório que segue é tirado do Salmo 101, e descreve os sentimentos de Jesus em sua suprema agonia, sentimentos de dor e humilhação, mas de perfeita confiança em Deus que, no devido tempo, se levantará em seu auxílio e o levantará. "Senhor, ouvi minha oração, que meu clamor chegue até vós. Não vire o rosto para longe de mim; ouvi-me sempre que estou na tribulação. No dia em que eu vos invoco, apressai-vos em me ouvir, pois meus dias estão desaparecendo como fumaça, e meus ossos estão queimando como uma grande chama. Fui cortado como grama, meu coração murchou, de modo que esqueci de comer meu pão. Vós vos levantareis, no entanto, para vos compadecerdes de Sião, porque é hora de ter pena dela, o momento chegou”. Com que tremor e com que respeito não devemos meditar no Saltério sobre estes sentimentos de Jesus crucificado! Este livro sagrado de oração é o melhor comentário do santo Evangelho, pois enquanto os evangelistas se ocupam preferencialmente em descrever a vida externa e os ensinamentos do Salvador, o salmista nos retrata os sentimentos íntimos de seu coração.

Enfim, hoje temos a Paixão do Senhor segundo São Lucas, o Evangelista do Amor Misericordioso, que reflete perfeitamente a pregação evangélica de São Paulo, com quem concorda até nos termos da fórmula da a instituição eucarística. No caminho para o Gólgota, Jesus conforta as piedosas que choram o seu tormento e adverte-as de que a devoção à sua paixão não deve limitar-se ao sentimentalismo estéril, mas servir para corrigir as suas vidas. Aquele que chora, de fato, pela morte do Senhor, deve arrancar e desarraigar o pecado de seu próprio coração, pois foi o pecado que foi o carrasco de Jesus. Si in viridi ligna haec faciunt, in arido quid fiet? Ou seja, se a justiça divina é tão severa em punir o pecado sobre seu próprio Filho inocente, o que não fará com o pecador obstinado, quando, no momento do julgamento final, o tempo da misericórdia tiver esgotado e chagar o momento da terrível e santa justiça?

A morte do Filho de Deus por nós deve ser sempre motivo de nossa confiança na misericórdia divina. Essa confiança é um dos primeiros elementos de nossa salvação e é o que a Igreja pede para nós na Pós-Comunhão. A morte de Jesus é fonte de vida. Esta é a realização mais esplêndida daquela profecia de Oséias: Ó mors, ero mors tua! morsus tuus ero, inferne. Teria sido muito pouco provar-se superior à morte por não sucumbir a ela. Jesus quis triunfar sobre ela mais completamente e, para isso, ao morrer, ele acorrenta a morte e Satanás aos pés da cruz, para que sua morte seja para a humanidade o princípio e a fonte de uma vida indefectível.

A oração sobre o povo é tão bela que a Igreja usa esta coleta para encerrar, durante os três dias seguintes, todas as Horas do Ofício Divino: "Olhai, Senhor, para a vossa família, pela qual Nosso Senhor Jesus Cristo não hesitou em entregar-se nas mãos dos carrascos e sofrer o tormento da crucificação”. Não há nada que toque mais o Pai e o leve à misericórdia do que a memória da paixão de seu Filho e, sobretudo, a imensa caridade com que nos amou.

Toda a teologia católica se resume no Crucifixo. É a razão íntima de todos os outros mistérios da fé, pois foi em Jesus que Deus nos amou e nos predestinou para a glória. O Crucifixo é o epítome das obras de Deus e a obra-prima de seu amor. Deleita-se ele tanto com isso — et vidit cuncta quae fecerat et erant valde bona — que não consegue contemplar esta imagem sem se comover de compaixão por nós. Com que devoção, portanto, não deveríamos contemplar também Jesus crucificado, e apresentar ao Pai suas dores e seus méritos para curar nossos próprios pecados!

12 de abril de 2022

MEDITAÇÃO PARA A TERÇA-FEIRA MAIOR

Caríssimos, eis que nesta Terça-feira Maior lemos a Paixão segundo São Marcos, companheiro de São Pedro. Nenhum outro evangelho relata a negação de São Pedro de maneira tão humilhante: esta é a humilde confissão do príncipe dos apóstolos.

Encontramo-nos diante da Passio beata, a feliz Paixão de Cristo. A glória da Ressurreição, que brilhará no final desta semana, já reluz com seus primeiros raios nas trevas da Semana Santa. Vejamos que todos os introitos desta semana manifestam a confiança e nos fazem ver, através dos sofrimentos da Cruz, a alegria da Ressurreição.

A coleta pede a remissão dos pecados em consideração dos "sacramenta Dominicae Passionis", os mistérios da Paixão do Senhor. E assim, caríssimos, imploramos ao Senhor a graça de nos prepararmos adequadamente para celebrar os mistérios da Paixão do Redentor, para dela tirar aquele fruto que a Igreja se propõe a si mesma na santa liturgia. Não se trata, evidentemente, uma simples comemoração cronológica, nem uma data histórica. Não, meus caros: as obras de Jesus, as suas palavras, contidas no santo Evangelho, têm sempre a sua própria eficácia, cada vez que são dignamente celebradas. A proclamação das santas leituras é um ato primeiramente sacrificial e não catequético! A santa Igreja, pelo seu culto, oferece a Deus um sacrifício de louvor e roga para os fiéis as graças que Cristo mereceu em seus mistérios! Assim, também aquela mesma virtude que possuíam aquelas obras de Cristo, quando, pela primeira vez, foram realizadas ou pronunciadas diante dos judeus, elas possuem ainda hoje, quando são repetidas pela Santa Romana Igreja em seu culto público. Por isso mesmo o diácono recebe a benção particular para anunciar o evangelho digna e competentemente, e com que reverência devemos nós ouvir as divinas perícopes!

Na epístola ainda ouvimos o profeta Jeremias, que é a figura do Cristo sofredor: "Fui, como um cordeiro manso, levado à imolação" e ouvimos também a voz dos inimigos: "Coloquemos lenha no seu pão ” (alusão misteriosa à morte na cruz e à Eucaristia). Jeremias, perseguido pelo sacerdócio corrupto de seu tempo, é um dos tipos proféticos mais parecidos com Jesus Cristo. Na passagem que a liturgia romana apresenta hoje, Jeremias apela ao juízo de Deus contra a iníqua trama de fixar o pão no patíbulo, o que, como observam os santos padres, é uma expressão profética que prenuncia o milagre eucarístico onde, sob a espécie do pão se encontra realmente o corpo do Senhor.

Os três cantos que se seguem no próprio (Gradual, Ofertório e Comunhão) são queixas da boca de Cristo. Eis, pois, diante de nós, o doloroso sacrifício de Cristo e levamos a memória de sua morte durante todo o dia. O gradual é retirado do Salmo 34, onde Cristo manifesta toda a ingratidão de seus adversários. Ele os amou tanto que, quando estavam doentes (as doenças da alma são os pecados e a febre das paixões desordenadas) vestiu um pano de saco, isto é, cobriu a glória de sua divindade com a humildade de sua humanidade, e mortificou o seu espírito com jejum. No entanto, seus inimigos responderam com ódio ao seu amor, e é por isso que Jesus se dirige ao Pai e diz: “Julgai, ó Senhor, meus adversários, atacai meus agressores; pegai o escudo e a égide e vinde em meu auxílio”.

Hoje canta-se a Paixão segundo São Marcos, que outra coisa não é senão a pregação de São Pedro. Como observam os exegetas, esse jovem de quem se fala, subitamente despertado pelo tumulto e pelo anúncio da prisão de Jesus, era provavelmente o próprio autor do Evangelho, Marcos, que, sem nomear-se diretamente, no entanto, coloca uma espécie de assinatura ao seu Evangelho escrito. São Marcos morava de fato com sua mãe em Jerusalém fora dos bairros habitados, de modo que os primeiros fiéis fizeram de sua casa seu ponto de encontro. Quando Jesus passou em frente à sua morada, o jovem já estava descansando e, segundo o costume palestino, tendo despido as roupas do dia, havia se enrolado em um grande lençol, que é indicado no texto como sendo do linho mais fino, já que eram de fato pessoas ricas. Com o barulho das tropas, ele acorda e, ao saber que Jesus, capturado, estava passando, corre como estava, sai de casa e começa a  discutir com os legionários, realizando até ameaças. Tentam agarrá-lo, mas o jovem, ágil, deixa o lençol na mão e se afasta. Como observa São Gregório Magno, quem quiser escapar da violência do demônio deve primeiro proceder a um perfeito desnudamento interior, como fazem os atletas na arena; é necessário que o demônio não tenha domínio sobre nós e devemos, portanto, abandonar de boa vontade os bens materiais para ele, a fim de resgatar a nossa alma de suas garras.

Deve-se observar que quando, na Sagrada Escritura, a vingança divina é invocada sobre os ímpios, isso deve ser entendido como o último julgamento de Deus após a impenitência final do pecador, ou então, se a frase se refere à vida presente, males físicos e temporais que Deus, na maioria das vezes, envia aos ímpios ainda neste mundo, seja para incitá-los a se afastar do mal e convertê-los, ou mesmo para privá-los da oportunidade de cometer novos pecados e correr mais certamente assim para sua condenação eterna.

Que o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre nós e nos mostre a sua misericórdia! Tal é o belo salmo messiânico que a Igreja, nestes dias, aplica aos triunfos do Crucificado. Com efeito, é do alto do patíbulo da infâmia que Jesus, segundo a sua própria palavra, levantado da terra, atrai a si todas as almas. É da Cruz que ele dirige seus olhos sofredores e amorosos para a humanidade que, ao longo dos séculos, desfila diante dele, e faz jorrar sangue e água para a salvação dos homens.

11 de abril de 2022

MEDITAÇAO PARA SEGUNDA-FEIRA MAIOR

Caríssimos, eis que estamos na Segunda-Feira Maior, e a liturgia de hoje é inteiramente dominada pelo tema da Paixão. Todo o próprio apresenta a Paixão e a morte do Senhor. No  intróito, gradual e comunhão temos o Salmo 34, com o qual imploramos, com Cristo, a ajuda de Deus contra os ímpios. Nosso Senhor mesmo aplicou este salmo a si mesmo (João, XV, 25). Este salmo é também uma maldição contra Judas, o traidor. Além disso, a liturgia apresenta-nos hoje duas figuras intimamente relacionadas à Paixão. Uma para nos consolar; a outra é uma seríssima admoestação para nós. Essas figuras formam um contraste marcante: Santa Maria Madalena e o o traidor Judas. Nosso Senhor se encontra na casa de Lázaro. Santa Maria Madalena unge seus pés para o seu "sepultamento" e os enxuga com seus longos cabelos. Judas, ganancioso, fica descontente ao que Jesus o repreende. Culpa esta que foi o ponto culminante que levou à determinação de Judas de trair o Bom Jesus. Foi, assim, uma importante refeição mortuária que trouxe a morte, por Judas, e preparou o sepultamento, por Santa Maria Madalena. E o Salvador entrega o seu corpo a ambos. À Madalena pela unção e a Judas pelo beijo traiçoeiro; e dá-o também aos bons que o cercam de afeto e respeito ao mesmo tempo em que ele o dá aos ímpios que o crucificam. É o que ele mesmo expressa, de maneira marcante, na Epístola, retirada do Profeta Isaías: “corpus meum dedi percutiéntibus et genas meas velléntibus : fáciem meam non avérti ab increpántibus et conspuéntibus in me”.

Isto também se aplica ao seu corpo místico. Cristo volta a percorrer a sua paixão através dos séculos, e de novo abandona o seu corpo às unções das Madalenas, bem como aos beijos pérfidos dos Judas; ele deixa que seu rosto seja golpeado e dilacerado. Santo Agostinho nos explica como devemos ungir seu corpo: “Unja os pés de Jesus com uma vida agradável a Deus. Siga seus passos, se tens alguma coisa supérflua, dá-a aos pobres, e terás enxugado os pés do Senhor”. Podemos assim consolar Cristo em sua paixão mística. Ele recebe tantos beijos de Judas pelos pecados dos cristãos!

Santa Madalena e Judas acompanham o Salvador sofredor durante toda a Semana Santa. Na quarta-feira maior, Judas vai procurar os príncipes dos sacerdotes para negociar sua traição, enquanto Madalena serve ao Senhor em sua casa; na quinta-feira maior, Judas pergunta insolentemente: Sou eu? E, à noite, no Horto das Oliveiras, dá um beijo traiçoeiro em Jesus. Madalena, por sua vez, despediu-se de Jesus com lágrimas. Na sexta-feira maior, Judas joga suas trinta moedas de prata no templo, depois se enforca, tendo seu ventre aberto e suas entranhas espalhadas pelo chão. A Madalena é um dos poucos fiéis que permanecem perto da Cruz cujo pé ela beija. No domingo, ela é a primeira mensageira da Páscoa, sendo chamada pela Santa Romana Igreja de apóstolo dos apóstolos, e possuindo o prefácio dos apóstolos em sua festa litúrgica.

O Senhor também segue seu caminho doloroso através de nossa vida pecadores. Há duas almas em nós, uma alma de Judas e uma alma de Madalena. A primeira é a causa de sua Paixão, é uma alma traidora, sempre pronta para o pecado, para a apostasia, para o beijo de Judas... Quem pode dizer que ele não tem essa alma de Judas em si? Mas a alma de Madalena consola o Senhor no seu caminho doloroso pela oração e pela penitência. Caríssimos, que o tempo da Quaresma, que estamos terminando com alegria, graças a Deus, nos permita sufocar a alma de Judas dentro de nós e fortalecer a alma da Madalena! Coragem!

1 de agosto de 2013

A INTOLERÂNCIA CATÓLICA - CARDEAL PIE

A INTOLERÂNCIA CATÓLICA

LOUIS-ÉDOUARD CARDEAL PIE
Bispo de Poitiers

Sermão pregado na Catedral de Chartres (excertos); 1841.

Meus irmãos (...),

Nosso século clama: “tolerância, tolerância”. Tem-se como certo que um padre deve ser tolerante, que a religião deve ser tolerante. Meus irmãos, não há nada que valha mais que a franqueza, e eu aqui estou para vos dizer, sem disfarce, que no mundo inteiro só existe uma sociedade que possui a verdade e que esta sociedade deve ser necessariamente intolerante. Mas antes de entrar no mérito, distinguindo as coisas, convenhamos sobre o sentido das palavras para bem nos entendermos. Assim não nos confundiremos.

A tolerância pode ser civil ou teológica. A primeira não nos diz respeito, e não darei senão uma pequena palavra sobre ela: se a lei tolerante quer dizer que a sociedade permite todas as religiões porque, a seus olhos, elas são todas igualmente boas ou porque as autoridades se consideram incompetentes para tomar partido neste assunto, tal lei é ímpia e atéia. Ela exprime não a tolerância civil como a seguir indicaremos, mas a tolerância dogmática que, por uma neutralidade criminosa, justifica nos indivíduos a mais absoluta indiferença religiosa. Ao contrário, se, reconhecendo que uma só religião é boa, a lei suporta e permite que as demais possam exercer-se por amor à tranqüilidade pública, esta lei poderá ser sábia e necessária se assim o pedirem as circunstâncias, como outros observaram antes de mim (...).

Deixo porém este campo cheio de dificuldades, e volto-me para a questão propriamente religiosa e teológica, em que exponho estes dois princípios: primeiro, a religião que vem do céu é verdade, e é intolerante com relação às doutrinas errôneas; segundo, a religião que vem do céu é caridade, e é cheia de tolerância quanto às pessoas.

Roguemos a Nossa Senhora vir em nossa ajuda e invocar para nós o Espírito de verdade e de caridade: Spiritum veritatis et pacis. Ave Maria.

Faz parte da essência de toda a verdade não tolerar o princípio que a contradiz. A afirmação de uma coisa exclui a negação dessa mesma coisa, assim como a luz exclui as trevas. Onde nada é certo, onde nada é definido, podem-se partilhar os sentimentos, podem variar as opiniões. Compreendo e peço a liberdade de opinião nas coisas duvidosas: in dubiis, libertas. Mas, logo que a verdade se apresenta com as características certas que a distinguem, por isso mesmo que é verdade, ela é positiva, ela é necessária, e por conseguinte ela é una e intolerante: in necessariis, unitas. Condenar a verdade à tolerância é condená-la ao suicídio. A afirmação se aniquila se duvida de si mesma, e ela duvida de si mesma se admite com indiferença que se ponha a seu lado a sua própria negação. Para a verdade, a intolerância é o instinto de conservação, é o exercício legítimo do direito de propriedade. Quando se possui alguma coisa, é preciso defendê-la, sob pena de logo se ver despojado dela.

Assim, meus irmãos, pela própria necessidade das coisas, a intolerância está em toda a parte, porque em toda parte existe o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, a ordem e a desordem. Que há de mais intolerante do que esta proposição: 2 mais 2 fazem 4? Se vierdes dizer-me que 2 mais 2 fazem 3 ou fazem 5, eu vos respondo que 2 mais 2 fazem 4...

Nada é tão exclusivo quanto a unidade. Ora, ouvi a palavra de São Paulo: “Unus Dominus, una fides, unum baptisma”. Há, no céu, um só Senhor: unus Dominus. Esse Deus, cuja unidade é seu grande atributo, deu à terra um só símbolo, uma só doutrina, uma só fé: una fides. E esta fé, esta doutrina, Ele confiou-as a uma só sociedade visível, uma só Igreja cujos filhos são, todos, marcados com o mesmo selo e regenerados pela mesma graça: unum baptisma. Assim, a unidade divina que esplende por todos os séculos na glória de Deus produziu-se sobre a terra pela unidade do dogma evangélico cujo depósito foi confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo à unidade hierárquica do sacerdócio: um Deus, uma fé, uma Igreja: unus Dominus, una fides, unum baptisma.

Um pastor inglês teve a coragem de escrever um livro sobre a tolerância de Jesus Cristo, e certo filósofo de Genebra disse, falando do Salvador dos homens: “Não vejo que meu divino Mestre tenha formulado sutilezas sobre o dogma”. Bem verdadeiro, meus irmãos. Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma, mas trouxe aos homens a verdade e disse: se alguém não for batizado na água e no Espírito Santo, se alguém se recusa a comer a minha carne e a beber o meu sangue, não terá parte em meu reino. Confesso que nisso não há sutilezas; há intolerância, há exclusão, a mais positiva, a mais franca. E mais: Jesus Cristo enviou seus Apóstolos para pregar a todas as nações, isto é, derrubar todas as religiões existentes para estabelecer em toda a terra a única religião cristã e substituir todas as crenças dos diferentes povos pela unidade do dogma católico. E, prevendo os movimentos e as divisões que esta doutrina iria incitar sobre a terra, Ele não se deteve e declarou que tinha vindo para trazer não a paz, mas a espada, e para acender a guerra não somente entre os povos, mas no seio de uma mesma família e separar, pelo menos quanto às convicções, a esposa fiel do esposo incrédulo, o genro cristão do sogro idólatra. A afirmação é verdadeira e o filósofo tem razão: Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma (...).

Falam da tolerância dos primeiros séculos, da tolerância dos Apóstolos. Mas isso não é assim, meus irmãos. Ao contrário, o estabelecimento da religião cristã foi, por excelência, uma obra de intolerância religiosa. No momento da pregação dos apóstolos, quase todo o universo praticava essa tolerância dogmática tão louvada. Como todas as religiões eram igualmente falsas e igualmente desarrazoadas, elas não se guerreavam; como todos os deuses valiam a mesma coisa uns para os outros, eram todos demônios, não eram exclusivos, eles se toleravam uns aos outros: Satã não está dividido contra si mesmo. O Império Romano, multiplicando suas conquistas, multiplicava seus deuses, e o estudo de sua mitologia se complica na mesma proporção que o da sua geografia. O triunfador que subia ao Capitólio fazia marchar diante dele os deuses conquistados com mais orgulho ainda do que arrastava atrás de si os reis vencidos. O mais das vezes, em virtude de um Senatus-Consulto, os ídolos dos bárbaros se confundiam desde então com o domínio da pátria, e o Olimpo nacional crescia como o Império.

Quando aparece o Cristianismo (prestem atenção a isso, meus irmãos, são dados históricos de valor com relação ao assunto presente), quando o Cristianismo surge pela primeira vez, não foi repelido imediatamente. O paganismo perguntou-se se, em vez de combater a nova religião, não devia dar-lhe acesso ao seu solo. A Judéia tinha-se tornado uma província romana. Roma, acostumada a receber e conciliar todas as religiões, recebeu a princípio, sem maiores dificuldades, o culto saído da Judéia. Um imperador colocou Jesus Cristo, como a Abraão, entre as divindades de seu oratório, assim como se viu mais tarde outro César propor prestar-lhe homenagens solenes. Mas a palavra do profeta não tardou a se verificar: as multidões de ídolos que viam, de ordinário sem ciúmes, deuses novos e estrangeiros ser colocados ao lado deles, com a chegada do deus dos cristãos, lançam um grito de terror, e, sacudindo sua tranqüila poeira, abalam-se sobre seus altares ameaçados: ecce Dominus ascendit, et commovebuntur simulacra a facie ejus. Roma estava atenta a esse espetáculo. E logo, quando se percebeu que esse Deus novo era irreconciliável inimigo dos outros deuses; quando se viu que os cristãos, cujo culto se havia admitido, não queriam admitir o culto da nação; em uma palavra, quando se constatou o espírito intolerante da fé cristã, foi então que começou a perseguição.

Ouvi como os historiadores do tempo justificam as torturas dos cristãos. Eles não falam mal de sua religião, de seu Deus, de seu Cristo, de suas práticas; só mais tarde é que inventaram calúnias. Eles os censuram somente por não poderem suportar outra religião senão a deles. “Eu não tinha dúvidas”, diz Plínio, o Jovem, “apesar de seu dogma, de que não era preciso punir sua teimosia e sua obstinação inflexível”: pervicaciam et inflexibilem obstinationem. “Não são criminosos”, diz Tácito, “mas são intolerantes, misantropos, inimigos do gênero humano. Há neles uma fé teimosa em seus princípios, e uma fé exclusiva que condena as crenças de todos os povos”: apud ipsos fides obstinata, sed adversus omnes alios hostile odium. Os pagãos diziam geralmente dos cristãos o que Celso disse dos judeus, com os quais foram muito tempo confundidos, porque a doutrina cristã tinha nascido na Judéia. “Que esses homens adiram inviolavelmente às suas leis”, dizia este sofista, “nisto não os censuro; só censuro aqueles que abandonam a religião de seus pais para abraçar uma diferente! Mas, se os judeus ou os cristãos querem só dar ares de uma sabedoria mais sublime que aquela do resto do mundo, eu diria que não se deve crer que eles sejam mais agradáveis a Deus que os outros”.

Assim, meus irmãos, o principal agravo contra os cristãos era a rigidez absoluta do seu símbolo, e, como se dizia, o humor insociável de sua teologia. Se só se tratasse de um Deus mais, não teria havido reclamações; mas era um Deus incompatível, que expulsava todos os outros: aí está o porquê da perseguição. Assim, o estabelecimento da Igreja foi obra de intolerância dogmática. Toda a história da Igreja não é senão a história dessa intolerância. Que são os mártires? Intolerantes em matéria de fé, que preferem os suplícios a professar o erro. Que são os símbolos? São fórmulas de intolerância, que determinam o que é preciso crer e que impõem à razão os mistérios necessários. Que é o Papado? Uma instituição de intolerância doutrinal, que pela unidade hierárquica mantém a unidade de fé. Por que os concílios? Para frear os desvios de pensamentos, condenar as falsas interpretações do dogma, anatematizar as proposições contrárias à fé.

Nós somos então intolerantes, exclusivos em matéria de doutrina; disto fazemos profissão; orgulhamo-nos da nossa intolerância. Se não o fôssemos, não estaríamos com a verdade, pois que a verdade é uma, e conseqüentemente intolerante. Filha do céu, a religião cristã, descendo à terra, apresentou os títulos de sua origem; ofereceu ao exame da razão fatos incontestáveis, e que provam irrefutavelmente sua divindade. Ora, se ela vem de Deus, se Jesus Cristo, seu autor, pode dizer: Eu sou a verdade: Ego sum veritas, é necessário, por uma conseqüência inevitável, que a Igreja Cristã conserve incorruptivelmente esta verdade tal qual a recebeu do céu; é necessário que repila, que exclua tudo o que é contrário a esta verdade, tudo o que possa destruí-la. Recriminar à Igreja Católica sua intolerância dogmática, sua afirmação absoluta em matéria de doutrina, é dirigir-lhe uma recriminação muito honrosa. É recriminar à sentinela ser muito fiel e muito vigilante, é recriminar à esposa ser muito delicada e exclusiva.

Nós ficamos muitas vezes confusos com o que ouvimos dizer sobre todas estas questões até por pessoas sensatas. Falta-lhes a lógica, desde que se trate de religião. É a paixão, é o preconceito que os cega? É um e outro. No fundo, as paixões sabem bem o que querem quando procuram abalar os fundamentos da fé, pondo a religião entre as coisas sem consistência. Elas não ignoram que, demolindo o dogma, preparam para si uma moral fácil. Diz-se com justeza perfeita: é antes o decálogo que o símbolo o que as faz incrédulas. Se todas as religiões podem ser postas num mesmo nível, é que se equivalem todas; se todas são verdadeiras, é porque todas são falsas; se todos os deuses se toleram, é porque não há Deus. E, se se pode aí chegar, já não sobra nenhuma moral incômoda. Quantas consciências estariam tranqüilas no dia em que a Igreja Católica desse o beijo fraternal a todas as seitas suas rivais!

Jean-Jacques [Rousseau] foi entre nós o apologista e o propagador desse sistema de tolerância religiosa. A invenção não lhe pertence, se bem que ele tenha ido mais longe que o paganismo, que nunca chegou a levar a indiferença a tal ponto. Eis, com um curto comentário, o ponto principal desse catecismo, tornado infelizmente popular: todas as religiões são boas. Isto é, de outra forma, todas as religiões são ruins (...).

A filosofia do século XIX se espalha por mil canais por toda a superfície da França. Esta filosofia é chamada eclética, sincrética, e, com uma pequena modificação, é também chamada progressiva. Esse belo sistema consiste em dizer que não existe nada falso; que todas as opiniões e todas as religiões podem conciliar-se; que o erro não é possível ao homem, a menos que ele se despoje da humanidade; que todo o erro dos homens consiste em julgar-se possuidores exclusivos de toda a verdade, quando cada um deles só tem dela um elo e quando, da reunião de todos esses elos, se deve formar a corrente inteira da verdade. Assim, segundo essa inacreditável teoria, não há religiões falsas, mas são todas incompletas umas sem as outras. A verdadeira seria a religião do ecletismo sincrético e progressivo, a qual ajuntaria todas as outras, passadas, presentes e futuras: todas as outras, isto é, a religião natural que reconhece um Deus; o ateísmo, que não conhece nenhum; o panteísmo, que o reconhece em tudo e por tudo; o espiritualismo, que crê na alma, e o materialismo, que só crê na carne, no sangue e nos humores; as sociedades evangélicas, que admitem uma revelação, e o deísmo racionalista, que a rejeita; o Cristianismo, que crê no Messias que veio, e o judaísmo, que o espera ainda; o Catolicismo, que obedece ao Papa, o protestantismo, que olha o Papa como o Anticristo. Tudo isto é conciliável. São diferentes aspectos da verdade. Da união desses cultos resultará um culto mais largo, mais vasto, o grande culto verdadeiramente católico, isto é, universal, pois que abrigará todas as outras no seu seio.

Esta doutrina que qualificais de absurda não é de minha invenção; ela enche milhares de volumes e de publicações recentes; e, sem que seu fundo jamais varie, toma todos os dias novas formas sob a caneta e sobre os lábios dos homens em cujas mãos repousam os destinos da França. — A que ponto de loucura chegamos então?Chegamos ao ponto a que deve logicamente chegar todo aquele que não admite o princípio incontestável que estabelecemos, a saber: que a verdade é uma, e por conseqüência intolerante, apartada de toda a doutrina que não é a sua. E, para resumir em poucas palavras toda a substância deste meu discurso, eu vos direi: Procurais a verdade sobre a terra? Procurai a Igreja intolerante. Todos os erros podem fazer-se concessões mútuas; eles são parentes próximos, pois que têm um pai comum: vos ex patre diabolo estis. A verdade, filha do céu, é a única que não capitula.

Vós, pois, que quereis julgar esta grande causa, tomai para isto a sabedoria de Salomão. Entre essas diferentes sociedades para as quais a verdade é objeto de litígio, como era aquela criança entre as duas mães, quereis saber a quem adjudicá-la. Pedi que vos dêem uma espada, fingi cortar, e examinai as caras que farão os pretendentes. Haverá vários que se resignarão, que se contentarão da parte que vão ter. Dizei logo: Essas não são as mães! Há uma cara, ao contrário, que se recusará a toda composição, que dirá: a verdade me pertence, e devo conservá-la inteira, jamais tolerarei que seja diminuída, partida. Dizei: Esta aqui é a verdadeira mãe!

Sim, Santa Igreja Católica, Vós tendes a verdade, porque tendes a unidade, e porque sois intolerante; não deixais decompor esta unidade.

[Marcações nossas]

*Agradecemos a ruirmachado pela correção referente à autoria do sermão.

12 de janeiro de 2011

Curto método para meditar a Paixão



Após a invocação do Espírito Santo, façamo-nos três perguntas: 1.º Quem é que sofre? É um homem, um príncipe, um rei? É um anjo, um querubim, um serafim? Não, é mais ainda, é um Deus, o eterno, o infinito, o Criador de todas as coisas, o soberano do céu e da terra. Não nos é um estranho, pois que é nosso amigo, o nosso benfeitor, o nosso irmão, o nosso Pai por excelência. Que motivo para nos compadecermos de seus tormentos!

Detenhamo-nos em cada pensamento para melhor deles nos compenetrarmos.

2.º Que sofre ele? No seu corpo: a flagelação, a coroação de espinhos, o esgotamento de suas forças no caminho do Calvário, na crucifixão. Na sua alma: temores, desgostos, tristeza no jardim das Oliveiras, angústias indizíveis até a morte por causa dos nossos pecados e da perdição das almas.

Figuremo-nos sofrer nós mesmos todos esses suplícios, e nos compadecermos melhor das dores do Redentor.

3.º Como sofre ele? Com calma, paciência, submissão perfeita à vontade de seu Pai... Com o desejo de glorificá-lo e de salvar o gênero humano perdido... Praticando todas as virtudes num grau sublime e divino.

Consideremos pormenorizadamente essas virtudes. Unamo-nos às intenções e disposições do Homem-Deus que as pratica nas mais difíceis circunstâncias.

---

BRONCHAIN, R. P. Meditações para todos os dias do ano. Tomo primeiro. Editora Vozes Ltda. Petrópolis, imprimatur de 1949.

11 de janeiro de 2011

Ato de Consagração ao Sagrado Coração de Jesus



Dulcíssimo Jesus, Redentor do gênero humano, lançai os vossos olhares sobre nós, humildemente prostrados diante de vosso altar. Nós somos e queremos ser vossos; e para que possamos viver mais intimamente unidos a Vós, cada um de nós neste dia se consagra espontaneamente ao Vosso Sacratíssimo Coração.

Muitos nunca Vos conheceram; muitos desprezaram os vossos mandamentos e Vos renegaram. Benigníssimo Jesus, tende piedade de uns e de outros e trazei-os todos ao Vosso Sagrado Coração.

Senhor, sede o Rei não somente dos fiéis que nunca de Vós se afastaram, mas também dos filhos pródigos que Vos abandonaram; fazei que eles tornem quanto antes à casa paterna, para que não pereçam de miséria e de fome. Sede o Rei dos que vivem iludidos no erro, ou separados de Vós pela discórdia; trazei-os ao porto da verdade e à unidade de fé, a fim de que em breve haja um só rebanho e um só pastor.

Sede o Rei de todos aqueles que estão sepultados nas trevas da idolatria e do islamismo, e não recuseis conduzi-los todos à luz e ao Reino de Deus.

Volvei, enfim, um olhar de misericórdia aos filhos do que foi outrora vosso povo escolhido; desça também sobre eles, um batismo de redenção e de vida, aquele sangue que um dia sobre si invocaram.

Senhor, conservai incólume a vossa Igreja, e dai-lhe uma liberdade segura e sem peias; concedei ordem e paz a todos; fazei que de um a outro pólo do mundo ressoe uma só voz: Louvado seja o Coração divino que nos trouxe a salvação! A Ele honra e glória por todos os séculos dos séculos. Amém.

(S. S. Pio XI, em 11 de dez. de 1925)

---
KECKEISEN, Dom Beda. Missal quotidiano. Editado e impresso na Tipografia Beneditina Ltda. Salvador, Bahia, 1957.

8 de janeiro de 2011

Sagrada Família - Jesus, Maria e José

Das Cartas Apostólicas do Papa Leão XIII



Breve Neminem fugit


14 Junii 1892

Quando Deus, na sua misericórdia, determinou que se cumprisse a obra da renovação do homem, que o mesmo esperara por tantas longas eras, Ele acertou e ordenou essa obra com tal sabedoria que bem no seu começo refulgiu para o mundo o augusto espetáculo de uma Família que se sabia ser divinamente constituída ; para que aí todos os homens pudessem achar um modelo perfeito, tanto de vida doméstica quanto de todas as virtudes e ideais de santidade : pois que exatamente isso era a Sagrada Família de Nazaré. Nela, ocultamente, vivia o Filho da Retidão, até o tempo em que Ele deveria brilhar em total resplendor à vista de todas as nações. Nela Cristo, nosso Deus e Salvador, viveu com a Sua Virgem Mãe, e com aquele varão santíssimo, José, que Lhe fez as vezes de pai. Ninguém pode duvidar de que essa Sagrada Família exibia todas as virtudes que podem ser desenvolvidas em uma vida doméstica ordinária, com seus mútuos serviços de caridade, suas santas inter-relações, e suas práticas de divina piedade, visto que a Sagrada Família foi destinada a ser um ideal para todas as demais. Isso pela mesma razão com que foi estabelecido pelos desígnios misericordiosos da Providência que todo cristão, em todos os caminhos de vida e em todo lugar, pudesse facilmente, desde que lhe preste atenção, ter diante de si um motivo e um ideal de boa vida.

Para todos os pais de família, José é verdadeiramente o melhor modelo de vigilância e cuidado paternos. Na santíssima Virgem Mãe de Deus, as mães encontram um excelente exemplo de amor, modéstia, resignação de espírito, e da perfeição da fé. E em Jesus, que era sujeito a Seus pais, os filhos da família têm um ideal divino de obediência que podem admirar, reverenciar e imitar. Os que são de nascimento nobre possam aprender, dessa Família de sangue real, como viver simplesmente em tempos de prosperidade, e como reter sua dignidade em tempos de crise. Os ricos possam aprender que os valores morais devem ser mais estimados que a riqueza. Os artesãos, e todos os que semelhantemente se afligem amargamente por causa dos recursos estreitos de suas famílias, se considerarem a sublime santidade dos membros desse grupo doméstico, não deixarão de encontrar algum motivo de alegria em sua sorte, ao invés de estar meramente insatisfeitos com ela. Assim como a Sagrada Família, eles precisam trabalhar e prover para as necessidades vitais diárias. José precisou dedicar-se ao comércio para viver ; até as divinas mãos trabalharam numa oficina de artesão. Não seria de admirar que o mais rico homem, se verdadeiramente sábio, quisesse perder suas riquezas, e abraçar uma vida de pobreza com Jesus, Maria e José.

Disso se conclui evidentemente o quão natural e cabido foi que a devoção à Sagrada Família, no devido tempo, tenha crescido entre os católicos ; e, uma vez começada, se tenha espalhado longe e largamente. Prova disso são, primeiramente, as congregações instituídas sob a invocação da Sagrada Família ; além disso, as honras únicas que se lhe prestam ; e, sobretudo, os privilégios e favores garantidos a essa devoção pelos Nossos predecessores, para estimular o fervor e a piedade em relação a ela. Essa devoção já foi tida em grante estima no século XVII. Largamente propagada na Itália, França e Bélgica, espalhou-se por quase toda a Europa ; e então, cruzando o amplo oceano, pelo Canadá abriu caminho para as Américas, e, achando aí favor, tornou-se muito florescente. Assim o é, e, entre as famílias cristãs, nada pode ser imaginado de mais salutar nem eficaz que o exemplo da Sagrada Família, em que devem ser encontradas todas as virtudes domésticas, completas e perfeitas. Quando Jesus, Maria e José são invocados em casa, é propícia a manutenção da caridade na família através do seu exemplo e trato celestial ; assim, uma boa influência é exercida sobre a conduta [dos membros da família] ; da mesma forma, a prática da virtude é incitada ; e, destarte, as dificuldades que por toda parte querem atormentar a raça humana, serão mitigadas e tornadas mais fáceis de suportar. - Para aumentar a devoção à Sagrada Família, o Papa Leão XIII determinou que as famílias cristãs fossem consagradas a ela. Bento XV extendeu a Missa e o Ofício para toda a Igreja.


7 de janeiro de 2011

Circular sobre a Reverência aos Santos Sacramentos - Dom Antônio de Castro Mayer

21 de novembro de 1970

Circular sobre a Reverência aos Santos Sacramentos

Retirada do livro "Dom Antônio de Castro Mayer - 1948-1988: Quarenta anos de episcopado"; constitui um exemplo frisante de aplicação a um caso concreto dos princípios estabelecidos na Pastoral "Aggiornamento" e Tradição. Suprimido no texto a parte de interesse meramente local.

UMA DAS muitas lamentações do Santo Padre, provocadas pela explosão do liberalismo sensual moderno, relaciona-se com o que há de mais fundamental na Doutrina Católica. Diz o Papa que hoje se põe em dúvida tudo, mesmo as verdades mais sagradas.

A angústia de Paulo VI deve ser para nós uma advertência, no sentido de que é mister redobrar nosso zelo, não venha a falhar a fé nas ovelhas que nos estão confiadas.

Cumpre, para tanto, notar que aquele ceticismo, de que fala o Papa, se dá não somente na ordem das idéias. Há muita dúvida e negação que se exprime na prática, no teor de vida, na maneira de proceder. O que quer dizer que devemos estar atentos, não nos deixemos levar por certas, assim chamadas, adaptações da Igreja ao homem de hoje, que, na realidade, entibiam o fervor dos fiéis, e lentamente os vão distanciando daquela fé viva que é indispensável à salvação: “Sine fide impossibile est placere Deo” (Hebr. 11, 6).

Ajoelhar-se, sinal de fé na Eucaristia

Feita a observação de modo geral, queremos, hoje, salientar apenas e brevemente o que convém à Sagrada Comunhão. Será o suficiente como ilustração do que vem a ser um “aggiornamento” falso.

Sabemos, caríssimos Sacerdotes, que, no Santíssimo Sacramento do Altar, está real, verdadeira e substancialmente presente o mesmo Jesus Cristo, Deus e Homem, nosso adorável Salvador, de fé se faz com a inteligência e com os lábios; mas, de maneira mais viva e habitual, através de nosso procedimento da Comunhão.

Na Igreja Latina, a fé viva na Presença Real se ostenta mediante a genuflexão e a postura genuflexa, quando se passa diante ou quando se está em presença da Santa Hóstia Consagrada, ou solenemente exposta, ou em reserva no sacrário. Semelhante atitude baseia-se na Sagrada Escritura. Nela, de fato, lemos que tal atitude é, no fiel, o sinal da adoração. Assim, são louvados os milhares de judeus que “não curvaram os joelhos diante de Baal” (ROM. 11, 4); e, a respeito do Deus verdadeiro, diz o Senhor em Isaías, que “a Ele se curvará todo joelho” (44, 23 – cf. ROM. 14, 11). Mais diretamente a Jesus Cristo, declara o Apóstolo que ao seu nome “dobra-se todo joelho, no Céu, na terra e nos infernos” (Fil. 2, 10). Aliás, era a maneira como externavam sua fé no Salvador aqueles que Lhe pediam algum benefício (cf. Mat. 17, 14; Marc. 1, 40). Na Santa Igreja, o costume de dobrar os joelhos diante do Santíssimo Sacramento, além da adoração devida a tão excelso Senhor, tenciona, outrossim, manifestar reparação pelas injúrias com que a soldadesca infrene ludibriou do misericordioso Salvador, após a flagelação e coroação de espinhos: “de joelhos diante d’Ele, d’Ele zombavam” (Mat. 27, 29).

Fixa-se assim numa Tradição Apostólica o hábito de manifestar, mediante a genuflexão e a postura ajoelhada, nossa fé viva na Divindade de Jesus Cristo, substancialmente presente no altar. Eis porque recebe o fiel a Sagrada Comunhão de joelhos. Não o faz o Sacerdote na Missa, porque ele aí está representando a pessoa de Jesus Cristo. “Agit in persona Christi”, faz as vezes de Cristo como sacrificador, ofício que de modo algum compete ao fiel. Fora da Missa, também o Sacerdote comunga de joelhos.

Não há por que deixar uso tão excelente

Não somente porque é um costume imemorial, com base na Bíblia Sagrada, como pela mesma natureza do ato, a genuflexão nos compenetra de humildade, leva-nos a reconhecer nossa pequenez de criaturas diante da transcendência inefável de Deus, e mais ainda, nossa condição de pecadores que só pela mortificação e a graça chegaremos a dominar nosso orgulho e demais paixões, e a viver como verdadeiros filhos adotivos de Deus, remidos pelo Sangue preciosíssimo de Jesus Cristo.

De onde, a substituição de semelhante costume piedoso por outro só poderia justificar-se, no caso de uma excelência superior tão grande que compensasse também o mal que há em toda mudança, como ensina Santo Tomás de Aquino (1.2.q.97,a.2) com relação aos hábitos que dão vida às leis. Fiel a esta doutrina do Aquinate, o II Concílio do Vaticano estabelece que não se devem introduzir modificações na Liturgia, a não ser quando verdadeiramente necessárias, e assim mesmo, manda que as novas fórmulas dimanem organicamente das já existentes (Const. “Sacrosanctum Concilium”, nº 23).

Ora, o novo modo de comungar não oferece a excelência que sua introdução está a pedir. De fato, comungar de pé é coisa que não apresenta a seu favor textos da Sagrada Escritura, não tem as vantagens espirituais que a postura de joelhos traz consigo, como acima observamos, e tem os inconvenientes de toda mudança, que relaxa em vez de afervorar os fiéis.

Por isso, deve-se conservar o hábito de comungar de joelhos. E no Bispado, comungar de joelhos foi sempre, e continua a ser determinação diocesana, que todos devem seguir. Tanto mais, que, interrogada a Sagrada Congregação para o Culto Divino, sobre se, com o novo “Ordo” se fazia obrigatória a Comunhão em pé, aquele Dicastério romano respondeu que, onde o costume é comungar de joelhos, esse costume “sem a menor dúvida” convém que seja conservado.

Em nenhum caso se admita a Comunhão na mão

Recomendamos, portanto, a todos os caríssimos Sacerdotes que exercem o ministério no nosso Bispado, que se atenham a esta disposição diocesana: só distribuam a Sagrada Comunhão aos fiéis ajoelhados, admitindo apenas exceções em casos pessoais, quando alguma enfermidade torna impossível, ou quase, o ajoelhar-se. Em caso nenhum se permite a Comunhão na mão.

Confissão individual e auricular

Devido a certos abusos que se vão generalizando, recordamos, no mesmo assunto da suma veneração que devemos à Santíssima Eucaristia, o dispositivo do Concílio de Trento, que exige, para a lícita recepção da Sagrada Comunhão, o estado de graça obtido através de Confissão sacramental (Ses. XIII, can. 11). Esta Confissão sacramental será individual e auricular, e nela se devem acusar todos os pecados graves cometidos após o Batismo, ou após a última confissão bem feita. É ainda o mesmo Concílio de Trento que declara ser de direito divino a obrigação de confessar todos os pecados graves, indicando o número e espécie de cada um deles, após diligente exame de consciência (Sés. XIV, can. 7). De onde, ninguém pode dispensar os fiéis de semelhante obrigação. E, nos casos absolutamente excepcionais, como os de epidemia, guerra ou semelhantes, em que se permite a absolvição dada em comum, sem ouvir antes a acusação de todos os pecados, ainda nestes casos, permanece a obrigação de submeter às Chaves todos e cada um dos pecados graves cometidos. De maneira que, aqueles que tiverem a ventura de superar a crise epidêmica ou bélica, estão obrigados SUB GRAVI a acusar em Confissão sacramental, mesmo os pecados dos quais já tenham obtido absolvição geral, devido às circunstâncias especiais em que se achavam. A tais casos não se pode assimilar o acúmulo de penitentes em dias festivos, ou de alguma solenidade. Não há moralista de boa lei que admita o valor da absolvição nestes últimos casos, e o Papa Bem-aventurado Inocêncio XI condenou os que opinavam em sentido contrário, dispositivo que Pio XII renovou.

As senhoras comunguem de cabeça coberta

Ainda sobre a recepção da Sagrada Comunhão mantenha-se o costume tradicional que manda às senhoras e moças que se apresentem com a cabeça coberta. Outro hábito imemorial, fundado na Sagrada Escritura (cf. 1 Cor. 11, 5 e SS.), que não deve ser modificado. São Paulo recorda a veneração e o respeito aos Anjos presentes na igreja, que as senhoras significam com o uso do véu. Nada mais belo, mais ordenado, mais encantador do que a mulher cristã que reconhece a hierarquia estabelecida por Deus, e manifesta externamente sua adesão amorosa a semelhante disposição da Providência.

A imodéstia no trajar e a nossa responsabilidade

Na mesma ordem de idéias, lembramos aos nossos caríssimos Sacerdotes que devem empenhar-se, a fundo, por conservar nos fiéis o amor à modéstia e ao recato, que os tornam menos indignos de receber os Santos Sacramentos.

Não nos esqueçamos de que, se a sociedade se paganiza, se ela foge da mentalidade cristã, como esta se define nas máximas evangélicas, não o faz sem a conivência e a cooperação das famílias católicas, e, portanto, em grande parte, por nossa culpa, de nós Sacerdotes. Ou por comodismo, que em nós cria aversão ao exercício de nossa função de orientadores do povo fiel, ou quiçá – PROH DOLOR! – por condescendência com a sensualidade reinante, somos remissos em declarar, sem rebuços, que as modas de hoje destoam gravemente da virtude cristã, e, mais ainda remissos somos, em usar da firmeza apostólica, ainda que suavemente exercida, para afastar dos Sacramentos a atmosfera sensual atualmente introduzida na sociedade pelas vestes femininas.

É com tristeza que sabemos de Sacerdotes na Diocese, e de outras pessoas com responsabilidade de orientação de almas que não tomam a menor medida no sentido de manter em torno dos Sacramentos, especialmente da Santíssima Eucaristia, o ambiente de pureza que Jesus Cristo exige de seus fiéis servidores. Por que todas as igrejas da Diocese não ostentam, em lugar bem visível, as disposições eclesiásticas no sentido de que as senhoras e moças não se apresentem no templo de Deus com vestes ajustadas, decotadas, de saias que não desçam abaixo dos joelhos, ou de calças compridas, estas últimas mais próprias do outro sexo? E por que não tomam todos os Sacerdotes medidas a fim de que com semelhantes trajes, não se apresentem aos Sacramentos as senhoras e moças, ou para recebê-los ou como madrinhas ou testemunhas? Seria o mínimo que se poderia pedir a quem está realmente interessado por que a adaptação de que tanto se fala, não seja uma profanação do Sagrado, com prejuízo pessoal, para o povo fiel e para a sociedade em geral.

Caríssimos Sacerdotes. O zelo pela Casa de Deus, bem como a caridade com o próximo, pedem, nos tempos atuais, maior atenção à maneira de vestir dos fiéis que o são e querem viver cristãmente. A Sagrada Escritura lembra que “as vestes do corpo, o riso dos dentes e o modo de andar de um homem fazem-no conhecer” (Ecli. 19, 27). E Pio XII comenta: “A sociedade, por assim dizer, fala com a roupa que veste; com a roupa revela suas secretas aspirações, e dela se serve, ao menos em parte, para construir o seu próprio futuro” (“Disc. e Radiomes.” Vol. 19, p. 578). Ninguém negará o valor objetivo desta observação do Papa Pacelli.

Uma medida simples e eficaz

Uma das ocasiões em que mais especialmente devemos aplicar a palavra da Escritura e a orientação pontifícia é quando dos casamentos. Todas as paróquias deveriam ter um folheto, breve e simples, onde se recordassem a natureza, a santidade e as qualidades do Matrimônio cristão, as disposições para recebê-lo frutuosa e dignamente, e mais as advertências quanto aos trajes como hão de se apresentar na igreja os noivos, as testemunhas e convidados. Tal folheto deveria ser entregue aos interessados no momento em que cuidam do processo matrimonial na igreja.

“Aggiornamento” que leva à perdição eterna

De fato, é preciso, caríssimos Sacerdotes, não perder de vista a finalidade colimada pelo Concílio, segundo declaração formal do Papa, como tivemos oportunidade de salientar em Nossa Carta Pastoral de 19 de março de 1966, ao comentar o Motu Próprio de Paulo VI, concedendo o jubileu pós-conciliar. O Concílio deseja que a Igreja renove sua face, mediante a santificação maior de seus membros. É nesse sentido que se há de entender o “aggiornamento” de que falava João XXIII. É mediante a santificação de seus filhos que a Igreja atrai ao suave jugo de Jesus Cristo os que se acham fora de seu grêmio. Assim declara o Papa, assim atesta a História da Igreja, assim testemunha a Sagrada Escritura. “Cum exaltatus fuero, omnia traham ad meipsum – quando Eu for exaltado da terra, atrairei todos os homens a Mim”. E o Evangelista explana que Jesus falava de sua morte (Jo. 12, 32-33). O “aggiornamento” é obra de penitência, de mortificação, de renúncia, à imitação do Divino Salvador que, pela ignorância e renúncia da Cruz, pelas humilhações e o isolamento do Calvário, atraiu a Si o mundo todo “Cum exaltatus fuero, omnia traham ad meipsum”.

Ora, caríssimos Sacerdotes, inúmeras mudanças, que se apresentam como outras tantas etapas do “aggiornamento”, tendem só a favorecer as comodidades da natureza humana decaída, e a diminuir o fervor da caridade para com Deus. Sob o título de dignidade humana reduzem o lugar devido a Deus na vida do homem, cuja autonomia é lisonjeada de todos os modos. Semelhante “aggiornamento” não se insere dentro da salutar Tradição católica. Nele o lugar da mortificação, da renúncia, é mais o de uma concessão a que dolorosamente, não se pode fugir, do que o de uma exigência positiva, como ensina o dogma do pecado original, ponto básico da Economia da redenção, a cuja amorosa adesão se há de conformar a vida cristã, que porá sua alegria na austeridade e penitência, com que o homem se prepara para a visão beatífica no seio de Deus.

Com o “aggiornamento” de que falamos, aliás, perde-se de vista a bem-aventurança futura, para se cuidar da prosperidade do conforto, da felicidade aqui na terra, como se o homem aqui tivesse sua moradia permanente.

Não é preciso mostrar como um tal “aggiornamento” constitui um escândalo, no sentido próprio da palavra, pois contribui para perder as almas.

Sejamos cautelosos com certas permissões

Caríssimos Sacerdotes. Estas nossas considerações, como facilmente podeis verificar, têm o valor perene que lhe confere a Tradição católica, de onde procedem. Valem por si. Contra elas, pois, não há aduzir o exemplo do que se possa realizar alhures. De fato, sabemos as razões que determinam as permissões peculiares de outras regiões, sempre na hipótese de que não se trate de abusos, mas de concessões. Sabemos, aliás, por confissão do próprio Cardeal Gut, Prefeito da Sagrada Congregação para o Culto Divino, que mais de uma vez, o Papa permitiu contra a vontade, certas práticas que ele mesmo, ele Papa, considera abusivas (1). O que quer dizer que devemos ser cautelosos ainda quando se trata de permissões dada pela mesma Santa Sé. Enfim, o que podemos dizer é que aqui não militam motivos que, talvez, justifiquem usos introduzidos em outras partes. O que talvez em outros lugares não seja censurável, aqui certamente é coeficiente de dessacralização.

(1) Transcrevemos as palavras do Sr. Cardeal Gut, a que nos referimos acima. São de uma entrevista que se encontra em “La Doc. Cath”, de 16 de novembro de 1969, p. 1048, col. 2: “(...) on a parfois Franchi lês limites, et beaucoup de prêtes ont simplement fait CE qui leur plaisait. Alors, CE qui est arrivé parfois, c’est qu’ils se sont imposés. Ces initiatives prises sans autorisation, on NE pouvait plus, bien souvent, lês arrêter, car cela s’etait répandu trop loin. Dans as grande bonté et as sagesse, le Saint-Pére a alors cede, souvent contre son gré”.