13 de abril de 2024

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo Piedosas e edificantes meditações sobre os sofrimentos de Jesus

CAPÍTULO VIII

Da gratidão que devemos a Jesus Cristo por sua paixão

O amor de Cristo nos constrange.
1. Diz S. Agostinho que, tendo sido Jesus Cristo o primeiro a dar a vida por nós, obrigou-nos com isso a que demos a vida por ele (Trac. 46 in Jo). Escreve o santo: “Conheceis qual é a mesa que contém o corpo e sangue de Cristo: o que dela se utiliza, deverá também tê-la preparada”. Quer dizer: quando nós vamos à mesa eucarística, para comungar, isto é, nutrir-nos do corpo e sangue de Jesus Cristo, devemos por gratidão preparar-lhe igualmente a oferta de nosso sangue e nossa vida e, se for necessário, sacrificar um e outra para sua glória. Mui belas são as palavras de S. Francisco de Sales a respeito do texto de S. Paulo: “A caridade de Cristo nos constrange” (2Cor 5,4). O amor de Jesus nos força, mas para quê? Nos força a amá-lo. Mas ouçamos o santo: “O conhecimento de que Jesus nos amou até à morte de cruz não é um conhecimento que força os nossos corações a amá-lo com uma violência tanto maior quanto mais amável ele o é? O meu Jesus se dá todo a mim e eu me dou todo a ele: eu viverei e morrerei sobre seu peito, nem a morte nem a vida dele mais me separarão”.
2. S. Pedro, para que nos recordemos de ser gratos a nosso Salvador, nos faz lembrar que não fomos resgatados da escravidão do inferno com ouro ou prata, mas com o sangue precioso de Jesus Cristo, o qual se sacrificou por nós como um cordeiro inocente sobre o altar da cruz (1Pd 1,18). Grande, portanto, será o castigo dos homens ingratos, que não correspondem a tal benefício. É verdade que Jesus veio para salvar todos os homens que estavam pedidos: “Veio o Filho do homem buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc 19,19), mas é igualmente verdade o que afirmou o santo velho Simeão, quando Maria apresentou no templo Jesus menino: “Eis que este está posto para a ruína, a ressurreição de muitos em Israel e como sinal de contradição” (Lc 2,34). Com as palavras, para ressurreição de muitos, significou a salvação que Jesus traria a todos os crentes, que pela fé haviam de ressurgir da morte para a vida da graça. Mas com as palavras, este foi posto para ruína, predisse que muitos deviam cair em maior desgraça por sua ingratidão para com o Filho de Deus, que descera à terra para tornar-se o alvo de seus inimigos, como exprimem as palavras: como sinal de contradição, fazendo de Jesus o alvo para o qual dirigiam os judeus todas as calúnias, injúrias e maus tratos. Este sinal, pois, que é Jesus Cristo, não é só contradito pelos judeus que não o reconhecem pelo Messias, mas também pelos cristãos ingratos que pagam o seu amor com ofensas e desprezo de seus preceitos.

O Rei dos corações.
1. Nosso Redentor, diz S. Paulo, chegou até a dar a vida por nós, para se tornar senhor absoluto de todos os nossos afetos, demonstrando-nos o seu amor, morrendo por nós: “Por isso Cristo morreu e ressuscitou, para dominar sobre os vivos e os mortos” (Rm 14,9). Não, nós não somos mais nossos depois de termos sido comprados pelo sangue de Jesus Cristo: “Quer vivamos, quer morramos, somos do Senhor”, ajunta o Apóstolo (Rm 14,8). Logo, se não o amamos e não observamos seus preceitos dos quais o primeiro é o de amar, não somos somente ingratos, mas também injustos, e merecemos castigo duplo. A obrigação de um escravo resgatado por Jesus das mãos do demônio é dedicar-se totalmente a amá-lo e servi-lo, vivo ou morto. S. João Crisóstomo faz uma bela reflexão sobre o texto de S. Paulo, dizendo que Deus pensa mais em nós do que nós mesmos e por isso reputa como seu bem a nossa vida e como seu prejuízo a nossa morte. Assim, se morremos, não morremos só para nós, mas para Deus também. Oh! como é grande a nossa felicidade! Mesmo vivendo neste vale de lágrimas no meio de tantos inimigos e tantos perigos podemos contudo dizer: nós somos do Senhor, somos de Jesus Cristo: e sendo propriedade sua, ele terá cuidado em nos conservar na sua graça nesta vida e junto a si por todo e sempre na vida futura. Jesus Cristo morreu,, por por cada um de nós, para que cada um de nós viva também para seu Redentor. “E Cristo morreu por todos, para que os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2Cor 5,15). Quem vive para si mesmo, para si dirige todos os seus desejos, temores, dores e põe nisso a sua felicidade. Mas todos os desejos do que vive para Jesus Cristo consistem em amá-lo e dar-lhe gosto e todos os seus temores em desgostá-lo. Sua única aflição é ver Jesus desprezado e sua única alegria é vê-lo amado pelos outros. Isto é viver para Jesus e é o que pretende seguramente cada um de nós. Por esse motivo procurou ele conquistar todo o nosso amor, sofrendo tão grandes penas.
2. Talvez pretenda ele demais? Não, diz S. Gregório, é justo que pretenda tanto, depois de nos ter dado tão grandes provas de seu amor, que até parece doido de amor por nós. “Pareceu até doidice, escreve S. Gregório, o autor da vida morrer pelos homens” (Hom. 6 in Evang.). Ele se dá sem reserva, inteiramente a nós; tem, pois, razão de pretender que nos demos incondicionalmente a ele e lhe consagraremos todo o nosso amor. E se lhe negamos uma parte, amando outra coisa fora dele ou não por ele, tem motivo de se queixar de nós. “Ama-te menos do que o mereces, quem juntamente contigo ama outra coisa que não é por ti que ama”, diz S. Agostinho (Confess. 1. 10, c. 29). E que outra coisa podemos nós amar fora de Jesus senão as criaturas? Em comparação com Jesus Cristo, que são, porém, as criaturas senão vermes da terra, lodo, fumaça e vaidade? O tirano ofereceu a S. Clemente, papa, grande quantidade de dinheiro, de ouro e pedras preciosas, para que renunciasse a Jesus Cristo. O Santo deu um grande suspiro e exclamou: “Ah, meu Jesus, bem infinito, como podeis suportar ser considerado pelos homens menos que o lodo da terra?” Não foi a temeridade nem a afoiteza que levou os mártires a ir ao encontro dos cavaletes, das lâminas incandescentes e da morte a mais cruel, mas o amor de Jesus Cristo, quando o contemplavam morto na cruz por seu amor (Serm. 62 in Cant.). Sirva por todos o exemplo de S. Marcos e S. Marcelino, que, tendo os pés e as mãos cravados, eram insultados pelo tirano como loucos por quererem padecer um tormento tão atroz só para não renegar a Jesus Cristo. Eles, porém, responderam que jamais tinha experimentado delícias tão grandes como as que então gozavam estando transpassados por aqueles cravos. Todos os santos, para contentar a Jesus Cristo tão maltratado por nós, abraçaram com alegria a pobreza, as perseguições, os desprezos, as enfermidades, as dores e a morte. As almas esposas de Jesus crucificado não acham coisa alguma mais honrosa que trazer consigo as insígnias do crucifixo, isto é, os padecimentos.

Cristo vive em mim.
1. Ouçamos o que diz S. Agostinho: “A vós não é lícito amar pouco: esteja inteiramente fixo em vossos corações aquele que por vós foi fixado na cruz” (De san. virgin. c. 13). A nós, que cremos firmemente num Deus que morreu na cruz por nosso amor, não é lícito amá-lo pouco: em nosso coração não se deve aninhar outro amor senão o que devemos a quem por nosso amor quis morrer pregado na cruz. Unamo-nos todos com S. Paulo e digamos: “Estou pregado com Cristo na cruz. Já não sou eu que vivo, Cristo é que vive em mim” (Gl 2,19). Comentando S. Bernardo as palavras: Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim, diz: “Estou morto para todas as outras coisas; encontram-me, porém, vivo e pronto todas aquelas que se referem a Cristo” (Serm. 7 in Quadrag.). Assim diz cada um que ama o Crucifixo com o Apóstolo: Eu deixei de viver por mim mesmo, depois que Jesus quis morrer por mim, tomando sobre si a morte que me era destinada. E por isso estou morto para toas as coisas do mundo e não percebo nem dou atenção àquelas que não são para Jesus Cristo e só me encontram vivo e aparelhado para abraçá-las,
mesmo que tragam consigo suores, desprezos, dores e até a morte as que dizem respeito a Jesus. S. Paulo podia afirmar: “Para mim o viver é Cristo” (Fl 1,21) querendo com essas breves palavras dizer: Jesus é o meu viver, ele é todo o meu pensamento, todo o meu fito, toda a minha esperança, todo o meu desejo, porque ele é todo o meu amor.
2. “Palavra de fé, porque, se morrermos com ele, com ele também viveremos; se sofrermos por ele, com ele também reinaremos; se o negarmos, ele também nos negará” (2Tm 2,11-12). Os reis da terra, depois de vencer seus inimigos, repartem com os que combateram os bens conquistados; assim procederá também Jesus Cristo no dia do juízo: repartirá os bens celestes a todos os que trabalharam e sofreram por sua glória. Diz o Apóstolo: Se morrermos com ele, com ele viveremos; o morrer com Cristo implica o negar-se a si mesmo, isto é, renunciar àquelas satisfações, porque, se não as abdicarmos, chegamos a renegar a Jesus Cristo, que então no dia das contas nos renegará a nós. E é preciso saber que não só negamos a Jesus Cristo quando renegamos a fé, mas também quando nos negamos a obedecer-lhe naquilo que ele quer de nós, como o perdoar qualquer afronta recebida do próximo por amor dele, o ceder em qualquer ponto de honra, assim dito, o romper qualquer amizade que nos põe no perigo de perder a amizade de Jesus, o desprezar o receio de ser tidos por ingratos, visto que nossa primeira gratidão deve ser para com Jesus, que deu seu sangue e sua vida por nós, coisa que criatura alguma jamais fez por nós. Ó amor divino, como podes ser assim desprezado pelos homens! Ó homens, contemplai sobre essa cruz o Filho de Deus que, qual cordeiro inocente, se sacrificou à morte para pagar os vossos pecados e desta maneira conquistar o vosso amor. Contemplai-o, contemplai-o e amai-o. Jesus meu, amabilidade infinita, não me deixeis viver mais ingrato para com tão grande bondade. Vivi no passado esquecido de vosso amor e do quanto padecestes por mim: de hoje em diante não quero pensar em mais nada senão em amar-vos. Ó chagas de Jesus, feri-me de amor. Ó sangue de Jesus, inebriai-me de amor. Ó morte de Jesus, fazei-me morrer a todo outro amor que não seja de Jesus. Eu vos amo, ó meu Jesus, sobre todas as coisas: amo-vos com toda a minha alma, amo-vos mais do que a mim mesmo. Eu vos amo e porque eu vos amo desejaria morrer de dor, pensando que no passado tantas vezes vos voltei as costas e desprezei a vossa graça. Por vossos merecimentos, ó meu Salvador crucificado, dai-me o vosso amor e fazei-me todo vosso. Ó Maria, minha esperança, fazei-me amar a Jesus Cristo e nada mais vos peço.

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Dia 13/4 - O sofrimento por males materiais e morais é a oferta mais digna que se pode fazer Àquele que nos salvou sofrendo!

12 de abril de 2024

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo Piedosas e edificantes meditações sobre os sofrimentos de Jesus

CAPÍTULO VII

Do amor que Jesus Cristo nos demonstrou na sua paixão

Assim amou Deus o mundo.
1. S. Francisco de Sales chama o monte Calvário o monte dos amantes e diz que o amor que nasce da paixão é fraco, dando com isso a entender que a paixão de Jesus Cristo é o incentivo mais forte para nos mover e inflamar a amar o nosso Salvador. Para que possamos compreender em parte (pois totalmente é impossível) o grande amor que Deus nos demonstrou na paixão de Jesus Cristo, basta lançar um olhar ao que dizem as Sagradas Escrituras. Escolherei só alguns textos mais importantes que falam deste amor. E que ninguém ache fastidioso repetir eu esses textos que falam da paixão, tendo-os já citado muitas vezes em outras obras minhas. Também certos escritores de obras perniciosas, que tratam de obscenidades, repetem sempre suas pilhérias impudicas para despertar mais fortemente a concupiscência de seus incautos leitores. E a mim não me será então permitido repetir aqueles trechos das Sagradas Escrituras, que são mais aptos para inflamar os ânimos no amor divino? Falando deste amor, diz o próprio Jesus: “Assim Deus amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito” (Jo 3,61). A palavra assim significa muito: ela nos faz compreender que, tendo-nos dado o seu Filho unigênito, nos demonstrou um tal amor que nós nem sequer podemos compreendê-lo. Por causa do pecado todos nós estávamos mortos, tendo perdido a vida da graça. O Padre eterno, porém, para dar a conhecer ao mundo a sua bondade e nos fazer compreender quanto nos amava, quis enviar à terra seu Filho, para que ele com sua morte nos restituísse a vida. “Nisto é que se manifestou a caridade de Deus para conosco, que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo para que nós vivamos por ele” (1Jo 4,9). Para nos perdoar a nós, Deus não quis perdoar a seu próprio Filho, desejando que ele assumisse o peso de satisfazer a justiça divina por todas as nossas culpas. “O qual não poupou seu próprio Filho, mas entregou-o por todos nós” (Rm 8,32). Diz-se entregou-o, como se o depositasse nas mãos dos algozes, que o encheram de ignomínias e dores, até fazê-lo morrer de dor em um patíbulo ignominioso. Primeiramente o sobrecarregou com todos os nossos pecados: “E o Senhor pôs sobre ele a iniqüidade de nós todos” (Is 53,6), e depois quis vê-lo consumido de opróbrios e das mais acerbas aflições tanto internas como externas: “Eu o feri por causa dos crimes de meu povo. E o Senhor quis quebrantá-lo na sua fraqueza” (Is 53,8-10).
2. S. Paulo, considerando este amor de Deus, chega a dizer: “Por causa de excessiva caridade com que nos amou, quando estávamos mortos pelos pecados, ele nos deu a vida em Cristo” (Ef 2,4-5). Ele diz por causa da excessiva caridade com que nos amou. Como? Em Deus poderá haver excesso? Sim, fala dessa maneira para que compreendamos que Deus fez pelo homem tais coisas, que, se a fé não o atestasse, não se poderia crê-lo. Por isso exclama a S. Igreja, cheia de admiração: “Ó admirável condescendência de vossa compaixão para conosco! Ó inestimável predileção de vossa caridade! Para remirdes o servo, entregastes o Filho”. Note-se esta expressão da Igreja: predileção da caridade, esse amor é mais caro a Deus que todos os amores que consagra às outras criaturas. Sendo Deus a caridade mesma, o amor mesmo, como escreve S. João: “Deus é a caridade” (1Jo 4,8), ama todas as criaturas: “Pois tu amas todas as coisas que existem e não odeias alguma das que fizeste” (Sb 11,25). O amor que ele dedica ao homem parece, porém, ser-lhe caro e avantajado, pois chega a preferir o homem aos mesmos anjos, querendo morrer pelos homens e não pelos anjos que se haviam extraviado.

Ele se entregou a si mesmo.
1. Falando do amor que o Filho de Deus consagra ao homem, notemos que, vendo ele, de um lado, o homem perdido pelo pecado e de outro, a justiça de Deus que exigia inteira satisfação pela ofensa recebida do homem que não estava em condições de a dar, ofereceu-se espontaneamente a satisfazer pelo homem. “Foi oferecido porque ele mesmo o quis” (Is 53,7). Como um humilde cordeiro se submete aos carnífices, permitindo-lhes que lhe dilacerem as carnes, o conduzam à morte, sem se lamentar nem abrir a boca, como já estava predito: “Será levado como uma ovelha ao matadouro, e, como um cordeiro diante do que o tosquia, emudecerá e não abrirá a boca” (Is 53,7). S. Paulo escreve que Jesus, para obedecer a seu Pai, aceitou a morte da cruz: “Fez-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2,8). Não se julgue, porém, que o Redentor de sua parte não o queria e só para obedecer ao Pai morreu crucificado: ele se ofereceu espontaneamente a essa morte e quis morrer por própria vontade pelo homem, levado pelo amor que lhe consagrava, como ele mesmo o declarou em S. João: “Eu mesmo entrego a minha alma, ninguém a tira de mim, mas eu mesmo a dou de mim mesmo” (Jo 10,18). E ajuntou que era esse o ofício de um bom pastor, dar a sua vida por suas ovelhas: “Eu sou o bom pastor, o bom pastor dá sua alma por suas ovelhas” (Jo 11,14). Por que quis morrer por suas ovelhas? Que obrigação tinha como pastor de dar sua vida por suas ovelhas? Quis morrer por causa do amor que lhes tinha e assim livrá-las do poder de Lúcifer: “Ele nos amou e se entregou por nós” (Ef 5,2).
2. Claramente afirmou nosso amante Redentor quando disse: “E eu, quando for exaltado da terra, atrairei tudo para mim” (Jo 12,32). Com essas palavras quis designar a morte que teria de sofrer sobre a cruz, como esclarece o mesmo evangelista: “Dizia isso, significando de que morte havia de morrer” (Jo 12,33). Comentando as palavras — tudo atrairei para mim — diz S. João Crisóstomo: como se tudo estivesse retido pelo tirano. Com a palavra — atrairei— quer o Senhor significar que ele, com sua morte, nos arrancou a força das mãos de Lúcifer, o qual como tirano nos conserva encadeados como escravos para nos atormentar eternamente no inferno depois da morte. Infelizes de nós, se Jesus Cristo não houvesse morrido por nós! Todos deveríamos ser condenados ao inferno. Que grande motivo para nós de amar Jesus Cristo, digo para nós, porque merecemos o inferno e ele, com sua morte e efusão de seu sangue, nos livrou dessa desgraça. Lancemos de passagem um olhar para as penas do inferno, onde já se acham infelizes a suportá-las. Esses infelizes estão imersos num mar de fogo, no qual sofrem uma agonia ininterrupta, pois nesse fogo experimentam toda sorte de tormentos. Estão entregues às mãos dos demônios, que, cheios de furor, não fazem outra coisa que atormentá-los incessantemente. Mais do que pelo fogo e por todos os outros horrores, são atormentadas pelo remorso da consciência pelos pecados cometidos durante a vida, por cuja causa foram condenados. Vêem fechado para sempre todo caminho que possa conduzi-los para fora desse abismo de tormentos. Vêem-se banidos para sempre da companhia dos santos e da pátria celeste, para a qual foram criados. O que, porém, mais os aflige e constitui o seu inferno é verem-se abandonados de Deus e condenados a não poderem mais amá-lo nem dele recordar-se senão com ódio e rancor. Desse inferno nos livrou Jesus Cristo, remindo-nos não com ouro ou outros bens terrenos, como diz S. Lourenço Justiniano (De contempt. mundi. c. 7), mas dando-nos seu sangue e sua vida sobre a cruz. Os reis da terra enviam seus vassalos à morte, na guerra, para conservar a sua própria vida. Jesus, pelo contrário, quis morrer por nós, criaturas suas, para nos obter a salvação.

Amor sem medida.
1. Ei-lo então apresentado a Pilatos como um malfeitor pelos escribas e sacerdotes, para que ele o julgasse e condenasse à morte da cruz, como de fato o conseguiram. Oh! maravilha, exclama S. Agostinho, ver o juiz julgado, a justiça condenada e a vida morrer (Serm. 191). E qual foi a causa de todos esses prodígios senão o amor que Jesus Cristo tinha aos homens? “Amou-os e entregou-se assim mesmo por nós” (Ef 5,2). Oh! se tivéssemos sempre diante dos olhos esse trecho de S. Paulo, certamente arrancaríamos do coração todo o afeto aos bens da terra e não pensaríamos em outra coisa senão em amar o nosso Redentor, recordando-nos que o amor o levou a derramar todo o seu sangue para preparar-nos um banho de salvação. “O qual nos amou e lavou-nos de nossos peados no seu sangue” (Ap 1,5). Diz S. Bernardino de Sena que Jesus Cristo do alto de sua cruz viu em particular cada um de nossos pecados e ofereceu seu sangue em remissão de cada um em especial (Serm. 56 a. 1 c. 1). Em suma, o amor obrigou-o a aparecer nesta terra como o mais vil e humilde de todos, apesar de ser o senhor soberano. “Quem faz isto?” pergunta S. Bernardo; “O amor, que, forte, no seu afeto, não conhece dignidade” (In Cant. s. 64). O amor, que, para fazer-se notório ao objeto amado, faz que o amante ponha de parte sua dignidade e procure unicamente o que agrada e contenta ao amado, e assim Deus, que por ninguém pode ser vencido, deixou-se vencer pelo amor, que consagrava aos homens. É, além disso, necessário refletir que tudo o que padeceu Jesus Cristo em sua paixão, padeceu-o por causa de um de nós em particular e por isso diz S. Paulo: “Vivo na fé do Filho de Deus, que amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20). O que diz o Apóstolo deve dizer também cada um de nós. Assim, escreve S. Agostinho que o homem foi remido por um preço tão grande, que parece valer tanto quanto o próprio Deus (De dil. Deo c. 6). E o santo acrescenta em outro lugar: Senhor, vós me amastes, não como a vós mesmo, mas ainda mais do que a vós, pois, para livrar-me da morte, quisestes morrer por mim (Soliloq. c. 13).
2. Mas, podendo Jesus Cristo salvar-nos com uma só gota de sangue, por que quis derramá-lo todo a força de tormentos até expirar de pura dor no madeiro da cruz? Responde S. Bernardo que ele quis derramá-lo todo para nos demonstrar o amor excessivo que nos tinha. Digo excessivo, pois também os santos Moisés e Elias chamaram a paixão do Redentor um excesso de misericórdia e de amor: “E falavam de seu excesso, que havia de realizar em Jerusalém” (Lc 9,31). Falando S. Anselmo da paixão do Senhor, diz que a misericórdia superou o delito de nossos pecados (Cur Deus homo 1. 2, c. 21) e isso porque o valor da morte de Jesus Cristo, sendo infinito, superou infinitamente a satisfação devida à justiça divina por nossas culpas. O Apóstolo tinha, pois, razão de dizer: “Longe esteja de mim o gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14). E o que dizia S. Paulo pode dizer qualquer um de nós. E por isso digamos: E que o maior glória poderia eu ter ou esperar no mundo, do que ver um Deus morto por amor de mim? Ó Deus eterno, eu vos desonrei com os meus pecados, mas Jesus Cristo com sua morte satisfez por mim e restituiu-vos superabundantemente a honra que vos era devida; por amor, pois, de Jesus morto por mim, tende compaixão de mim. E vós, meu Redentor, que quisestes morrer por mim a fim de obrigar-me a amar-vos, fazei que eu vos ame. Por ter desprezado a vossa graça e o vosso amor, merecia ser condenado a não poder mais amar-vos; dai-me, porém, qualquer castigo, mas não esse. Suplico-vos que não me envieis ao inferno, já que no inferno não posso amar-vos. Fazei que eu vos ame e depois castigai-me como quiserdes. Privai-me de tudo, somente não de vós. Aceito todas as enfermidades, todas as ignomínias, todas as dores que me enviardes, contanto que eu vos ame. Conheço agora, pela luz que me dais, que sois soberanamente amável e muito me amastes; não ouso mais viver sem vos amar. No passado, amei as criaturas e voltei-vos as costas a vós, bem infinito; mas agora vos afirmo que quero amar exclusivamente a vós e nada mais. Ah, meu amado Salvador, se virdes que no futuro deixarei de vos amar, peço-vos que me façais morrer agora; prefiro ser aniquilado a ver-me separado de vós. Ó Virgem santa, Mãe de Deus, Maria, ajudai-me com vossas súplicas e obtende-me que não deixe mais de amar a Jesus morto por mim, e a vós, minha Rainha, que levastes Deus a usar de misericórdia comigo até agora.

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Dia 12/4 - Jesus não mediu Seu sangue para redimir a humanidade.

11 de abril de 2024

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo Piedosas e edificantes meditações sobre os sofrimentos de Jesus

CAPÍTULO VI

Reflexões sobre os prodígios havidos na morte de Jesus Cristo

As trevas.
1. Conta-se que S. Dionísio Areopagita, estando em Heliópolis, no Egito, exclamou na hora da morte de Jesus: “Ou o autor da natureza, Deus, está sofrendo ou então é a máquina do mundo que se desfaz” (Corn. a Lápide in Mt c. 27 v. 45). Miguel Sincelo e Suida escrevem ter o santo dito: “O Deus desconhecido padece em seu corpo e por isso o universo se cobre de trevas”. Eusébio escreve que, segundo Plutarco, na ilha de Praxas se ouviu uma voz que dizia: “Morreu o grande Pan” e em seguida o grito de muitos que choravam. Eusébio interpretou a palavra Pan por Lúcifer, que pela morte de Cristo ficou como que morto, vendo-se despojado do império que tinha sobre os homens. Barradas, porém, a entende pela pessoa de Cristo, visto que em grego a palavra Pan significa o todo, que é o próprio Jesus Cristo, Filho de Deus e Deus verdadeiro: o todo, isto é, a plenitude de todos os bens. O que sabemos do Evangelho é que no dia da morte do Salvador, à hora sexta, até à nona, a terra cobriu-se de trevas (Mt 27,45). E no momento em que Jesus expirou, partiu-se pelo meio o véu do templo e sobreveio um terremoto universal que fendeu muitos rochedos (Mt 27,51). Falando das trevas, nota S. Jerônimo que essa escuridão foi predita pelo profeta Amós nos seguintes termos: “E naquele dia acontecerá isto, diz o Senhor Deus: o sol se porá ao meio-dia e farei cobrir a terra de trevas no dia da luz” (Am 8,9). O mesmo S. Jerônimo comentou este texto, dizendo que então pareceu ter o sol retirado a sua luz para que os ímpios não se utilizassem dela. O sol retraiu os seus raios, não ousando contemplar o Senhor pendente da cruz, ajunta o santo. Mais acertadamente, porém, escreve S. Leão que nessa ocasião todas as criaturas demonstraram a seu modo a sua dor na morte de seu comum Criador (Serm. de pass.). É o mesmo o pensamento de Tertuliano, que, falando em particular das trevas, diz que o universo com aquela escuridão queria celebrar como que as exéquias de nosso Redentor (De jejun. c. 3).
2. S. Atanásio, S. Crisóstomo, S. Tomas notam que essa escuridão foi prodigiosa, já que naquele dia não podia haver eclipse pela interposição da lua entre a terra e o sol, visto ser possível um eclipse no novilúnio e não no plenilúnio, como era aquele dia, segundo os astrônomos. Além disso, sendo o sol muito maior que a lua, não podia esta tapar por completo a luz do sol, pois, segundo o Evangelho, as trevas se estenderam sobre o universo inteiro. E mesmo que fosse possível a lua encobrir a luz do sol, sabemos que o curso da lua é mui rápido, de maneira que a escuridão só duraria alguns minutos. Ora, o Evangelho afirma que a escuridão durou três horas da sexta à nona hora. Este prodígio das trevas apresenta Tertuliano na sua apologia (c. 21) aos gentios, dizendo-lhes que em seus próprios arquivos estava consignado esse acontecimento do ofuscamento do sol. Eusébio, em confirmação disso, refere na sua Crônica 1.2) as palavras do gentio Flegonte, que escreve o seguinte: “No quarto ano da 202.ª Olimpíada deu-se a ofuscação do sol, a maior de todas até então conhecidas, e fez-se noite na sexta hora do dia, podendo-se então ver as estrelas no firmamento”.

Fim do Antigo Testamento.
1. Diz ainda o Evangelho de S. Mateus: “Eis que o véu do templo se rasgou de alto a baixo em duas partes” (Mt 27,51). O Apóstolo escreve que havia uma cortina tanto no tabernáculo como no templo, onde estava o santo dos santos com a arca do testamento, que continha o maná, a vara de Aarão, as tábuas da lei, e esta parte era o propiciatório. No primeiro tabernáculo, que estava diante do Santo dos santos, oculto pelo primeiro véu ou cortina, entravam somente os sacerdotes para os seus sacrifícios. O sacerdote que aí sacrificava, mergulhando o dedo no sangue da vítima oferecida, com ele aspergia sete vezes a cortina. No segundo tabernáculo do Santo dos santos, que estava sempre fechado e oculto com o segundo véu, entrava somente o sumo sacerdote e uma só vez no ano, levando o sangue da vítima, que oferecia por si mesmo. Tudo era mistério: o santuário sempre fechado significava a exclusão dos homens da graça divina, que não receberiam mais senão por meio do grande sacrifício que Jesus Cristo deveria um dia oferecer pessoalmente, já figurado por todos os sacrifícios antigos e por isso chamado por S. Paulo pontífice dos bens futuros. Este, por um tabernáculo mais perfeito, a saber, seu corpo sacrossanto, deveria entrar no Santo dos santos da presença divina, como mediador entre Deus e os homens, oferecendo o sangue não já dos touros e bodes, mas o seu próprio sangue, com o qual deveria consumar a obra da redenção humana e assim abriu-nos o ingresso no céu.
2. Ouçamos, porém, as próprias palavras do Apóstolo: “Mas Cristo, estando já presente, pontífice dos bens vindouros, por outro mais perfeito e excelente tabernáculo, não feito por mão de homem, isto é, não desta criação, nem pelo sangue de bodes ou de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo achado uma redenção eterna” (Hb 9,11). Aí se diz: pontífice dos bens vindouros, para distinção dos pontífices de Aarão, que impetravam bens presentes e terrenos. Jesus Cristo havia de obter-nos bens futuros que são os celestes e eternos. Diz-se: por outro mais perfeito e excelente tabernáculo, que foi a santa humanidade do Salvador, tabernáculo do Verbo divino; não feito por mão de homem, porque o corpo de Jesus não foi formado por obra do homem, mas do Espírito Santo. Diz-se: nem pelo sangue de bodes ou de bezerros, mas por seu próprio sangue, porque o sangue de bodes e dos touros obtinha somente a purificação de carne, enquanto que o sangue de Jesus obtém a purificação da alma com a remissão dos pecados. Diz-se: entrou uma vez no santuário, havendo achado uma redenção eterna. Esta palavra achou significa que tal redenção não podia ser por nós nem pretendida nem esperada antes das promessas divinas, sendo unicamente um invento da bondade de Deus. Diz-se: eterna, porque o sumo sacerdote dos hebreus só uma vez no ano entrava no santuário; Jesus Cristo, consumando uma só vez o sacrifício com sua morte, mereceu-nos uma redenção eterna, que será suficiente para sempre para expiar todos os nossos pecados, conforme escreve o mesmo Apóstolo: “Com uma só oferenda fez perfeitos para sempre os que tem santificado” (Hb 10,14).

Novo Testamento.
1. E o Apóstolo ajunta: “E por isso é o mediador do Novo Testamento” (Hb 9,15). Moisés foi o mediador do Antigo Testamento, isto é, da antiga aliança, a qual não tinha o poder de obter aos homens a reconciliação com Deus e a salvação, pois, como explica S. Paulo em outro lugar, “a antiga lei nenhuma coisa levou à perfeição” (Hb 7,19). Jesus Cristo, porém, na nova aliança satisfazendo plenamente a justiça divina pelos pecados dos homens, obteve-lhes o perdão por seus merecimentos, assim como a graça divina. Os judeus achavam ser uma ofensa pensar que o Messias, por uma morte tão vergonhosa, haveria de operar a redenção dos homens, afirmando ser declaração da lei que o Messias não devia morrer, antes viver sempre: “Ouvimos da lei que o Cristo permanece para sempre” (Jo 12,34). Erravam, porém, porque a morte foi o meio pelo qual Jesus se tornou mediador e Salvador dos homens, pois que, pela morte de Jesus, foi feita a promessa da herança eterna aos que são a ela predestinados. “E por isso é mediador de um Novo Testamento, para que, intervindo a morte para expiação daquelas prevaricações que havia debaixo do primeiro testamento, recebam a promessa de herança eterna os que têm sido chamados” (Hb 9,15). S. Paulo, por essa razão, nos anima a colocar todas as nossas esperanças nos merecimentos da morte de Jesus Cristo: “Portanto, irmãos, tende confiança de entrar no santuário pelo sangue de Cristo, seguindo este caminho novo e de vida que nos consagrou primeiro pelo véu, isto é, pela sua carne” (Hb 10,19- 20). Nós temos um forte motivo de esperar a vida eterna pelo sangue de Jesus, que nos abriu caminho para o paraíso. Chama-se novo porque não fora trilhado por nenhum outro, mas Jesus, trilhando-o, no-lo abriu por meio de sua carne sacrificada na cruz, da qual o véu foi figura. S. Crisóstomo escreve que, assim como pela ruptura do véu, na paixão do Senhor, ficou aberto o Santo dos santos, do mesmo modo a carne de Jesus dilacerada na paixão abriu-nos o céu que nos estava fechado. E assim exorta-nos o mesmo Apóstolo a nos aproximar-mos com confiança do trono da graça para receber misericórdia divina: “Cheguemo-nos, pois, confiadamente ao trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e de achar graça em tempo oportuno” (Hb 4,16). Este trono de graça é justamente Jesus Cristo, em quem, se recorrermos nós, míseros pecadores, no meio de tantos perigos de perdição em que nos achamos, encontraremos aquela
misericórdia que não merecíamos.
2. Voltemos ao texto citado de S. Mateus: “Jesus, porém, dando novamente um grande brado, entregou o seu espírito e eis que o véu do templo se rasgou de alto a baixo em duas partes”. Ora, essa ruptura completa de alto a baixo, havida no momento da morte de Jesus e conhecida de todos os sacerdotes e do povo, não podia se ter dado sem um prodígio sobrenatural, já que o véu não poderia rasgar-se de alto a baixo apenas pelo terremoto. Isso aconteceu para significar que Deus não queria mais esse santuário fechado ordenado pela lei, mas que doravante ele mesmo queria ser santuário aberto a todos, por meio de Jesus Cristo. Escreve S. Leão (Serm. 10 depas. c. 5) que o Senhor, com tal ruptura, demonstrou claramente que tinha findado o antigo sacerdócio e começava o sacerdócio eterno de Jesus Cristo e que estavam abolidos os sacrifícios antigos e estabelecida numa nova lei, conforme o dito de S. Paulo: “Pois, mudado, que seja o sacerdócio, é necessário que se faça também mudança da lei” (Hb 7,12). Com isso ficamos cientificados de que Jesus Cristo é o fundador tanto da primeira como da segunda lei e que a lei antiga, o sacerdócio, os antigos sacrifícios não tinham em vista senão o sacrifício da cruz, que devia operar a redenção humana. Assim, tudo o que era escuro e misterioso na primeira lei, nos sacrifícios, nas festas e nas promessas, tornou-se claro na morte de Jesus. Em suma, diz Eutímio que o véu rasgado significava ter sido destruído o muro que separava o céu da terra, e que estava aberta e desimpedida para os homens a estrada para o céu. (In. Mat. c. 67).

Terremoto e ressurreição dos mortos.
1. Continua o Evangelho: “E a terra tremeu e as pedras se partiram” (Mt 27,51). É tradição que na morte de Jesus Cristo houve um grande terremoto universal que abalou todo o globo mundial segundo Blósio (Lib. 7 c. 4). Dídimo escreve que a terra foi sacudida até ao seu centro (Fragom. in Job c. 9). Orígenes e Eusébio (Chron. 1. 2) citam Flegonte, segundo o qual no ano 33 de Cristo houve um grande terremoto que causou grandes ruínas nos edifícios de Nicéia na Bitínia. Plínio, que viveu no tempo de Tibério, em cujo reinado morreu Jesus, e Suetônio atestam que na Ásia por essa ocasião foram destruídas 12 cidades por um grande terremoto (Lib. 3 c. 84 — In Tib. c. 48). Vêem nisso os eruditos o cumprimento da profecia de Ageu: “Ainda falta um pouco e eu comoverei o céu e a terra, o mar e todo o universo” (2,7). S. Paulino escreve que Jesus, mesmo pregado na cruz, para demonstrar quem ele era, aterrou o mundo universo (De ob. Celsi). Adricômio atesta que até hoje se vêem os sinais desse terremoto no monte Calvário, no lado esquerdo, havendo ali uma fenda de largura de um corpo humano e tão profunda que se não pode atingir o fundo (Descriptio Jerusal. n. 252). Barônio narra (An. 34 n. 107) que em muitos outros lugares fenderam-se os montes por esse terremoto. No promontório de Gaeta vê-se ainda hoje um rochedo do qual se diz que, na morte do Senhor, ele se abriu pelo meio de cima até em baixo e aparece claramente que a abertura foi prodigiosa, pois é tão grande que o mar a atravessa pelo meio e o que falta de um lado vê-se elevar-se perfeitamente correspondente no outro. A mesma coisa diz a tradição a respeito do monte Colombo, perto de Rieti, do Monteserrate na Espanha e de diversos outros montes abertos na Sardenha em redor da cidade de Gagliari. Mais admirável, porém, é o que se vê no monte Alverne, na Toscana, onde S. Francisco recebeu os sagrados estigmas, no qual se encontram enormes blocos de perda amontados uns sobre os outros. Diz-se que um anjo revelou a S. Francisco que foi aquele um dos montes que ruíram na morte de Jesus Cristo, como traz Wadding em seus Anais (An. Min. an. 1215 n .15). S. Ambrósio escreve: “Ó peitos dos judeus mais duros que os rochedos, rompem-se as pedras, mas esses corações permanecem duros” (Lib. 10 in Lc).
2. S. Mateus continua a descrever os prodígios ocorridos na morte de Cristo e diz: “E os monumentos se abriram e muitos corpos de santos, que tinham falecido, ressurgiram e, saindo de suas sepulturas depois de sua ressurreição, vieram à cidade santa e apareceram a muitos” (Mt 27,52). S. Ambrósio pergunta: “A abertura das sepulturas que outra coisa significa senão a ressurreição dos mortos, quebradas as portas da morte?” (Liv. 10 in Lc). S. Jerônimo, S. Beda , o venerável, e S. Tomás afirmam que apesar de se abrirem os sepulcros na morte de Jesus, contudo os mortos não ressurgiram senão depois da ressurreição do Senhor, e isto segundo o dito Apóstolo (Cl 1,18): “Ele é o princípio e o primogênito dentre os mortos, de maneira que tem a primazia em todas as coisas”. “Não era de fato conveniente que outro homem ressuscitasse antes dele, que tinha triunfado da morte.

Conversão do centurião.
1. Diz-se em S. Mateus que muitos santos ressurgiram e, saindo dos sepulcros, apareceram a muitos. Esses ressuscitados foram os justos que tinham crido e esperado em Jesus Cristo. Deus quis assim glorificá-los em prêmio de sua fé e confiança no futuro. Messias, segundo a profecia de Zacarias, na qual ele diz, referindo-se ao Messias futuro: “Tu também, pelo sangue de teu testamento, fizeste sair os teus presos do lago em que não há água” (Zc 9,11). Isto é: tu então, ó Messias, pelo merecimento de teu sangue, desceste ao cárcere e libertaste os santos encarcerados naquele lago subterrâneo (o limbo dos padres, onde não existia a água da alegria) e os reconduziste à glória eterna. S. Mateus continua que o centurião e os outros soldados, seus comandados, que foram os ministros da morte do Senhor, não obstante teremos judeus provado obstinadamente a morte injusta a que foi condenado, profundamente comovidos com os prodígios das trevas e do terremoto, o reconheceram por verdadeiro filho de Deus: “O centurião, porém, e os que com mele guardavam Jesus, vendo o terremoto e as coisas que se davam, ficaram aterrorizados e disseram: “Verdadeiramente este era o Filho de Deus” (Mt 27,54). Estes soldados foram as primícias felizes dos gentios que abraçaram a fé de Jesus Cristo depois de sua morte, pois, por meio de seus merecimentos, tiveram a sorte de conhecer seus pecados e de esperar o perdão. S. Lucas conta que todos os que se achavam presentes na morte de Jesus e viram os prodígios narrados, voltaram batendo no peito em sinal de seu arrependimento de haverem cooperado ou ao menos aplaudido a condenação do Salvador (Lc 23,48). E por isso, como vemos dos Atos dos Apóstolos, também muitos judeus, sentindo-se compungidos com a prédica de S. Pedro, perguntaram-lhe que deviam fazer para salvar-se. O número daqueles a quem respondeu S. Pedro que fizessem penitência e se batizassem chegou a três mil (At 2,41).
2. Vieram depois os soldados e quebraram as pernas dos dois ladrões. Chegando-se, porém, a Jesus e vendo que estava morto, abstiveram-se de fazer-lhe o mesmo, mas um deles com a lança abriu-lhe o peito, do qual saiu imediatamente sangue e água (Jo 19,34). S. Cipriano escreve que a lança atingiu diretamente o coração de Jesus Cristo. O mesmo foi revelado a S. Brígida (Rv 1. 2, c. 21) e isso se deduz de ter saído juntamente com o sangue também água do lado do Senhor, pois a lança, para atingir o coração de Cristo, teve primeiro de romper o pericárdio, que envolve o coração todo. S. Agostinho nota (Serm. 120 in Jo.) que S. João escreveu abriu, porque então se abriu no coração do Senhor a porta da vida, da qual brotaram os Sacramentos, que dão entrada à vida eterna. Por isso é que se diz que o sangue e água saídos do lado de Jesus Cristo foram a figura dos Sacramentos, pois a água é o símbolo do batismo, o primeiro dos Sacramentos, e o sangue se encontra na Eucaristia, o maior dos sacramentos. S. Bernardo diz que Jesus com essa chaga visível queria patentear a chaga invisível do amor, de que seu coração estava ferido por nós: “Por isso foi vulnerado para que, pela chaga visível, enxerguemos a chaga invisível do amor: a chaga carnal, portanto, demonstra a chaga espiritual”. E conclui: “Quem, pois, deixará de amar esse coração tão chagado?” (Serm. 3 de pass.).S. Agostinho, falando da Eucaristia, diz que o Santo Sacrifício da missa não é hoje menos eficaz perante Deus que o sangue e água saídos então do lado ferido de Jesus Cristo (In ps. 85).

Pobre até na sepultura, mas ressurge gloriosamente.
1. Terminemos este capítulo com algumas reflexões sobre a sepultura de Jesus Cristo. Jesus veio ao mundo não só para remir-nos como também para ensinar-nos, com seu exemplo, todas as virtudes e de modo especial a humildade e a santa pobreza, companheira inseparável da humildade. Por isso quis nascer pobre numa gruta, viver pobre numa oficina por trinta anos, e finalmente morrer pobre e nu sobre uma cruz, vendo com seus próprios olhos como os soldados sorteavam suas vestes antes de expirar. Depois de morto teve que receber de outros por esmola, um lençol para ser sepultado. Consolem-se, pois, os pobres, vendo Jesus Cristo, rei do céu e da terra, viver e morrer como pobre, para nos enriquecer com seus merecimentos e seus bens, como dizia o Apóstolo: “Porque por vós ele se fez pobre, sendo rico, para que por sua pobreza vos tornásseis ricos” (2Cor 8,9). Tendo isso em vista, os santos, para se assemelharem a Jesus, sobre, desprezaram todas as riquezas e honras do mundo, para um dia gozarem com Jesus Cristo das riquezas e honras celestes preparadas por Deus para aqueles que o amam. Falando desses bens, escreve o Apóstolo: “O olho não viu, o ouvido não ouviu, nem chegou jamais ao coração do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam (1Cor 2,9).
2. Jesus Cristo ressurge, pois, com a glória de possuir, não só como Deus, mas também como homem, todo o poder no céu e na terra, sendo todos os anjos e todos os homens seus súditos. Alegremo-nos, portanto, vendo assim glorificado o nosso Salvador, o nosso Pai e o melhor amigo que possuímos. Alegremo-nos por nós mesmos, pois a ressurreição de Jesus Cristo é para nós um penhor seguro de nossa própria ressurreição e da glória que esperamos possuir um dia lá no céu tanto no corpo como na alma. Essa esperança dava força aos santos mártires para sofrer com alegria todos os males desta terra e os mais cruéis tormentos dos tiranos. Mas é preciso persuadirmos de que não gozará com Jesus Cristo quem não quiser sofrer também com Jesus Cristo e nem obterá a coroa quem não combater como deve: “E quem combate na liga não é coroado se não combater legitimamente” (2Tm 2,5). Persuadamo-nos igualmente do que diz o mesmo apóstolo, que todos os sofrimentos desta vida são muito breves e leves em comparação dos bens imensos e eternos que esperamos gozar no paraíso (2Cor 4,7). Procuremos, pois, estar sempre na graça de Deus e suplicar-lhe continuamente a perseverança na sua graça; doutra maneira, sem a oração e oração perseverante não obteremos essa perseverança e sem a perseverança não alcançaremos a salvação. Ó doce, ó amável Jesus, como pudestes amar tanto os homens, que, para lhes testemunhardes o vosso amor, não recusastes morrer desonrado e coberto de opróbrios sobre um lenho infame. Ó Deus, como é possível que tão poucos homens vos amem de coração? Ah, meu caro Redentor, eu quero ser do número desses poucos. Miserável que fui pelo passado, esquecendo-me do vosso amor e trocando a vossa graça por míseros deleites. Conheço o mal que fiz e dele me arrependo de todo o coração; desejaria morrer de dor. Agora, meu amado Redentor, eu vos amo mais do que a mim mesmo e estou pronto a morrer mil vezes antes do que a perder vossa amizade. Agradeço-vos a luz que me concedeis. Meu Jesus, minha esperança, não me deixeis entregue a mim mesmo, continuai a auxiliar-me até à morte. Ó Maria, Mãe de Deus, rogai a Jesus por mim.

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10 de abril de 2024

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A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo Piedosas e edificantes meditações sobre os sofrimentos de Jesus

Reflexões sobre a morte de Jesus Cristo e a nossa

A morte de Jesus é nossa vida.
1. Escreve S. João que nosso Redentor, antes de expirar, inclinou a cabeça: “E tendo inclinado a cabeça, entregou seu espírito” (Jo 19,30). Inclinou a cabeça para significar que aceitava a morte, com plena submissão, das mãos de seu Pai, a quem prestava humilde obediência. “Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Fl 2,8). Jesus, estando na cruz com os pés e as mãos nela cravados, não tinha liberdade de mover outra parte do corpo além da cabeça. Diz S. Atanásio que a morte não ousava tirar a vida ao autor da vida e por isso foi preciso que ele mesmo, inclinando a cabeça (única parte que podia mover), chamasse a morte para que viesse tirar-lhe a vida (Qu 6 Antioc.). Referindo-se a isso, diz S. Ambrósio que S. Mateus, falando da morte de Jesus, escreve: “Jesus, porém, clamando outra vez com grande voz, entregou o espírito” (Mt 27,50), para significar que Jesus não morreu por necessidade ou por violência dos carrascos, mas porque o quis espontaneamente, para salvar o homem da morte eterna a que ele estava condenado.
2. Isso já tinha sido predito pelo profeta Oséias: “Eu os livrarei das mãos da morte, eu os resgatarei da morte. Ó morte, eu serei a tua morte; ó inferno, eu serei a tua mordedura” (Os 13,14). Os santos padres S. Jerônimo, S. Agostinho, S. Gregório e o próprio S. Paulo, como veremos brevemente, aplicam este texto literalmente a Jesus Cristo, que com sua morte nos livrou das mãos da morte, isto é, o inferno, onde se sofre uma morte eterna. No texto hebraico, como notam os intérpretes, e vez da palavra morte, está a palavra “sceol”, que significa inferno. Como se explica que Jesus Cristo foi a morte da morte? “Serei tua morte, ó morte!” Porque nosso Salvador com sua morte veio destruir a morte a nós devida pelo pecado. Por isso escreve o Apóstolo: “Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado” (1Cor 15,54). O Cordeiro divino Jesus, com sua morte, destruiu o pecado, que era a causa da nossa morte, e esta foi a vitória de Jesus, pois que ele, morrendo, tirou do mundo o pecado e, conseqüentemente, nos livrou da morte eterna a que estava sujeito até então todo o gênero humano. A isso corresponde aquele outro texto do Apóstolo: “Para que pela morte destruísse aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio” (Hb 2,14). Jesus destruiu o demônio, isto é, destruiu o poder do demônio, o qual em razão do pecado tinha o império da morte, a saber, tinha o poder de dar a morte temporal e eterna a todos os filhos de Adão, contaminados pelo pecado. E esta foi a vitória da cruz, na qual morrendo Jesus, que é o autor da vida, com a sua morte recuperou-nos a vida. Por isso canta a Igreja: “A vida suportou a morte e pela morte produziu a vida”. Isso tudo foi obra do amor divino, que como sacerdote sacrificou ao Eterno Pai a vida de seu Filho unigênito pela salvação dos homens. E assim canta igualmente a Igreja: “O amor, qual sacerdote, imola os membros do corpo sacrossanto”. S. Francisco de Sales exclamou: “Consideremos este divino Salvador estendido sobre a cruz, como sobre seu altar de amor, onde vai morrer por amor de nós. Ah, por que não nos lançamos também em espírito sobre a cruz, para morrer com ele, que quis morrer por amor de nós?” Sim, meu doce Redentor, eu abraço a vossa cruz e a ela abraçado quero viver e morrer, beijando sempre com amor vossos pés chagados e transpassados por mim.

Olhai para a face de vosso Cristo.
1. Mas, antes passar adiante, detenhamo-nos a contemplar o nosso Redentor já morto sobre a cruz. Digamos primeiro a seu divino Pai: “Padre eterno, olhai para a face do vosso Cristo”, vede que é o vosso único Filho, que, para cumprir com o vosso desejo de salvar o homem perdido, veio à terra, tomou a natureza humana e com ela todas as nossas misérias, exceto o pecado. Ele, enfim, se fez homem e quis passar toda a sua vida entre os homens como o mais pobre, o mais desprezado, o mais atribulado de todos, e chegou a morrer, como vedes, depois de os homens lhe haverem rasgado as carnes, ferido a cabeça com os espinhos e atravessado seus pés e mãos com os cravos na cruz. Nesse madeiro ele expira cheio de dores, desprezado como o homem mais vil do mundo, escarnecido como falso profeta, blasfemado como impostor sacrílego, por haver dito que era vosso filho; tratado e condenado a morrer como criminoso e dos mais celerados. Vós mesmo lhe tornastes a morte tão dura e desolada, privando-o de todo o alívio. Dizei-nos que delito cometeu contra vós esse vosso Filho tão querido, para merecer um castigo tão horrendo? Vós conheceis a sua inocência, a sua santidade; por que o tratais assim? Escuto a vossa resposta: “Por causa dos crimes de meu povo eu o feri”. Sim, ele não o merecia, nem podia merecer castigo algum sendo a inocência e santidade mesma. O castigo vos era devido por vossas culpas, pelas quais merecestes a morte eterna, e eu, para não vos ver a vós, minhas amadas criaturas, condenadas eternamente, para nos livrar de tão grande desgraça, entreguei este meu Filho a uma vida tão atribulada e a uma sorte tão acerba. Pensai, ó homens, até que ponto eu vos amei. “Assim Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho unigênito” (1Jo 4,9).
2. Permiti que eu agora me volte para vós, Jesus, meu Redentor. Eu vos vejo sobre essa cruz, pálido e abandonado, sem fala e sem respiração, porque já não tendes mais vida; sem sangue, porque já o derramastes todo, como havíeis predito antes de vossa morte: “Este é o sangue do Novo Testamento, que será derramado por vós” (Mc 14,24). Não tendes mais vida, porque a destes para que minha alma vivesse, porque o derramastes para lavar os meus pecados. Mas por que perdeis a vida e dais todo o vosso sangue por nós, míseros pecadores? S. Paulo dá-nos o porquê: “Ele nos amou e entregou-se a si
mesmo por nós” (Ef 5,2). Assim este divino sacerdote, que foi ao mesmo tempo sacerdote e vítima, sacrificando a sua vida pela salvação dos homens que amava, completou o grande sacrifício da cruz e concluiu a obra da redenção do gênero humano. Jesus Cristo, com sua morte tirou o horror à nossa morte: até então ela era unicamente o suplício dos rebeldes, mas, pela graça e méritos de nosso Salvador, tornou-se um sacrifício tão caro a Deus, que, se o unimos como o da morte de Jesus, nos fazemos dignos de gozar da mesma glória que goza Deus e de ouvir um dia como esperamos: “Entra no gozo de teu Senhor”.

Ó morte, onde está o teu aguilhão?
1. Se até então era a morte um objeto de dor e de terror, Jesus, morrendo, transformou-a em um trânsito do perigo de uma ruína eterna para a segurança de uma felicidade eterna e das misérias desta vida às delícias imensas do paraíso. Diz S. Agostinho que os amantes do crucifixo vivem com paciência e morrem com alegria. E, como a experiência nos mostra, as pessoas, que durante a vida foram mais atribuladas pelas perseguições, pelas tentações, pelos escrúpulos ou outros acontecimentos desagradáveis, são na morte as mais consoladas pelo crucifixo, vencendo com grande paz todos os temores e angústias da morte. E se algumas vezes aconteceu que alguns santos, como se lê em suas vidas, morreram com grande pavor da morte, o Senhor o permitiu para maior merecimento deles, pois o sacrifício, quanto mais penoso e duro, tanto mais grato a Deus e mais proveitoso para a vida eterna. Oh! como era acerba a morte dos antigos fiéis antes da morte de Jesus Cristo! Não havendo o Salvador ainda aparecido, suspirava-se por sua vinda e esperava-se por ele segundo a sua promessa, mas ignorava-se o quando, e o demônio tinha um grande poder sobre a terra, estando o céu fechado para os homens. Depois da morte do Redentor, porém, o inferno foi vencido, a graça divina foi conferida às almas, Deus se reconciliou com os homens inocentes ou expiaram suas culpas pela penitência. E se alguns, conquanto mortos em graça, não entram imediatamente no céu, isso é devido a seus defeitos ainda não inteiramente expiados: de resto, a morte nada mais faz que romper com seus laços para que livres possam unir-se perfeitamente com Deus, do qual vivem como que separados nesta terra de exílio. Procuremos, pois, almas cristãs, enquanto neste exílio, olhar a morte, não como uma desgraça, mas como o fim de nossa peregrinação tão cheia de angústias e perigos e como princípio de nossa felicidade eterna, a qual esperamos alcançar um dia pelos merecimentos de Jesus Cristo. E como este pensamento do céu desprendamo-nos quanto possível dos objetos terrenos, que podem fazer-nos perder o céu e condenar-nos às penas eternas. Ofereçamo-nos a Deus, protestando querer morrer quando lhe aprouver, aceitando a morte da maneira e no tempo que para nós destinou, suplicando-lhe continuamente que, pelos merecimentos da morte de Jesus Cristo nos faça sair desta vida na sua graça.
2. Meu Jesus e meu Salvador, que para me obterdes uma boa morte escolhestes para vós uma tão penosa e desolada, eu me abandono inteiramente nos braços de vossa misericórdia. Há mais anos que deveria estar no inferno, pelas ofensas que vos fiz, separado para sempre de vós; vós, em vez de castigar-me, como eu merecia, me chamastes à penitência, e espero que a esta hora já me tenhais perdoado, mas, se ainda não me perdoastes por minha culpa, perdoai-me agora que, cheio de dor, me chego a vossos pés, pedindo misericórdia: desejaria meu Jesus, morrer de dores pensando nas injúrias que vos fiz. “O sangue do inocente lava as culpas do penitente”. Perdoai-me e dai-me a graça de amar-vos com todas as forças até à morte e, quando chegar o fim de minha vida, fazei-me morrer abrasado em amor por vós, para continuar a amar-vos eternamente. Desde já uno a minha morte à vossa santa morte, pela qual espero salvar-me. “Em vós, Senhor, eu esperei; não serei confundido eternamente”. Ó grande Mãe de Deus, vós sereis, depois de Jesus, a minha esperança. “Em vós, Senhora, eu esperei, não serei confundido eternamente”.

9 de abril de 2024

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo Piedosas e edificantes meditações sobre os sofrimentos de Jesus

CAPÍTULO V

Reflexões sobre as sete palavras de Jesus na cruz

Primeira palavra.
“Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34).
1. Ó ternura do amor de Jesus Cristo para com os homens! Diz S. Agostinho que o Salvador, na mesma hora em que recebia injúrias de seus inimigos, procurava-lhes o perdão: não atendia tanto às injúrias que deles recebia e à morte a que o condenavam, como ao amor que o obrigava a morrer por eles. Mas, dirá alguém, por que foi que Jesus pediu ao Pai que lhes perdoasse, quando ele mesmo poderia perdoar-
lhes as injúrias? Responde S. Bernardo que ele rogou ao Pai, “não porque não pudesse pessoalmente perdoar-lhes, mas para nos ensinar a orar pelos que nos perseguem”. Em outro lugar diz o santo abade: “Coisa admirável! Ele exclama: Perdoai-lhes, e os judeus: Crucifica-o” (Serm. de pass. fer. IV). Arnoldo Carnotense ajunta: “Enquanto Jesus se esforçava por salvar os judeus, estes trabalhavam em se
condenar, mas junto de Deus podia mais a caridade do Filho, que a cegueira daquele povo ingrato” (Serm. de 7 verb.). E S. Cipriano escreve: “Pelo sangue de Jesus Cristo foram vivificados até aqueles que derramaram o sangue de Cristo (Lib. de bono pt.). Jesus Cristo, ao morrer, teve um desejo tão grande de salvar a todos, que não deixou de fazer participantes de seu sangue mesmo seus próprios inimigos, que lhe extraíam o sangue à força de tormentos. Olha para teu Deus pregado na cruz, diz S. Agostinho, escuta como ele ora por seus inimigos, e depois nega o perdão ao irmão que te ofende.
2. Escreve S. Leão que foi em virtude dessa oração de Jesus que ao depois de se converterem tantos milhares de judeus com a prédica de S. Pedro, como se lê nos Atos dos apóstolos (Serm. 11). Mesmo então, escreve S. Jerônimo, não quis Deus que ficasse sem efeito a súplica de Jesus Cristo e por isso operou naquela mesma hora que muitos judeus abraçassem a fé (Ep. ad Elv. q. 8). Mas por que não se converteram todos? Responde-se que a súplica de Jesus foi condicional, isto é, que aqueles, pelos quais pedia, não fossem do número dos tais aos quais foi dito: Vós resistis ao Espírito Santo. Também nós pecadores fomos então incluídos naquela palavra de Jesus Cristo e por isso nós todos podemos dizer a Deus: ó Padre eterno, ouvi a voz desse amado Filho que vos pede perdão por nós. É verdade que não mereceremos tal perdão, mas Jesus o mereceu, satisfazendo com sua morte superabundantemente por nossos pecados. Não, meu Deus, eu não quero ficar obstinado como os judeus; arrependo-me, ó meu Pai, de todo o meu coração, de vos haver desprezado e, pelos merecimentos de Jesus Cristo vos peço perdão. E vós, meu Jesus, já sabeis que sou um pobre doente, quase desenganado por meus pecados, mas descestes de propósito do céu à terra para curar os enfermos e salvar os perdidos, que se arrependem de vos ter ofendido. De vós disse Isaías: “Veio para salvar o que havia perecido” (Is 61,1) e S. Mateus afirma a mesma coisa: “O Filho do homem veio para salvar o que estava perdido” (18,11).

Segunda palavra.
“Em verdade eu te digo: Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43).
1. Escreve o mesmo S. Lucas que dos ladrões crucificados com Jesus Cristo um permaneceu obstinado e o outro se converteu. Este, vendo que seu pérfido companheiro blasfemava contra o Senhor, dizendo: “Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo e a nós” (Lc 23,39), volta-se contra ele e repreende-o: “Nós somos justamente punidos, pois recebemos o que merecemos: esse, porém, não fez nenhum mal” (Lc 23,41). E voltando-se para Jesus disse-lhe: “Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino”. Com estas palavras reconhecia-o por seu verdadeiro Senhor e como rei do céu. Jesus promete-lhe então o paraíso para o mesmo dia: “Em verdade eu te digo que hoje estarás comigo no paraíso”. Escreve um douto autor que com essa palavra o Senhor nesse mesmo dia, imediatamente depois de sua morte, se lhe mostrou sem véu, fazendo-o imensamente feliz, embora não lhe conferisse todas as delícias do céu antes de entrar nele. Arnoldo Carnotense, no seu Tratado das 7 palavras, considera todas as virtudes que o bom ladrão S. Dimas praticou na sua morte: “Ele crê, se arrepende, confessa, prega, ama, confia e ora”. Praticou a fé, dizendo: “Quando chegares no teu reino”, crendo que Jesus Cristo depois de sua morte havia de entrar vitorioso no reino de sua glória. “Teve por perto que havia de reinar quem ele via morrer”, diz S. Gregório. Exerceu a penitência, confessando seus pecados: “Nós padecemos justamente, pois recebemos o que merecemos”. Diz S. Agostinho: Não ousou dizer: lembra-te de mim, senão depois da confissão de sua iniqüidade e de depor o fardo de suas iniqüidades (Serm. 130 de templ.). E S. Atanásio: “Ó bem-aventurado ladrão, que roubaste o céu com essa confissão”. Outras belas virtudes praticou então esse santo penitente: a pregação, anunciando a inocência de Jesus: “Este, porém, nenhum mal praticou”. Exerceu o amor para com Deus, aceitando a morte com resignação em castigo de seus pecados: “Recebemos o que merecemos”. S. Cipriano, S. Jerônimo, S. Agostinho não duvidam por isso de chamá-lo mártir, porque os algozes, ao quebrarem-lhe as pernas, o fizeram com maior atrocidade, por ter louvado a inocência de Jesus, aceitando esse sofrimento por amor de seu Senhor.
2. Notemos neste passo a bondade de Deus, que concede sempre mais do que se lhe pede, como diz S. Ambrósio: “O Senhor sempre concede mais do que se lhe pede; o ladrão pedia que se recordasse dele e Jesus lhe respondeu: Hoje estarás comigo no Paraíso”. E S. João Crisóstomo escreve: “Não encontrarás nenhum homem que tenha merecido tal promessa antes do bom ladrão” (Hom. de cruc. et latr.). Realizou-se o que Deus disse por Ezequiel que, quando o pecador se arrepende deveras de suas culpas, ele o perda de tal modo, como se esquecesse todas as ofensas que lhe foram feitas (Ez 21,22). E Isaías nos faz saber que Deus é tão inclinado ao nosso bem que, quando o imploramos, ele nos atende imediatamente (Is 30,19). E S. Agostinho diz que Deus está sempre pronto para abraçar os pecadores penitentes (Mn c. 23). A cruz do mau ladrão, suportada com impaciência, aumentou sua desgraça no inferno; pelo contrário, a cruz do bom ladrão, levada com paciência, tornou-se uma escada para o céu. Ó feliz ladrão, que tiveste a sorte de unir a tua morte com a morte de teu Salvador. Ó meu Jesus, eu vos sacrifico doravante a minha vida e vos suplico a graça de poder unir na hora de minha morte o sacrifício
de minha vida com aquele que oferecestes a Deus na cruz. Por ele espero morrer na vossa graça e amando-vos com puro amor despojado de todo o afeto terreno para continuar a amar-vos com todas as minhas forças por toda a eternidade.

Terceira palavra.
“Mulher, eis aí teu filho. Eis aí tua mãe” (Jo 19,26 e 27).
1. Lê-se em S. Marcos que no Calvário estavam muitas mulheres fazendo companhia a Jesus crucificado, mas de longe: “Estavam presentes, porém, muitas mulheres que olhavam de longe, entre as quais se achava Maria Madalena” (Mc 15,40). Assim, julgava-se que entre essas mulheres se encontrava também a divina Mãe. S. João, porém, afirma que a Santíssima Virgem não estava longe, mas perto da cruz, juntamente com Maria Cléofas e Maria Madalena (Jo 19,25). Eutímio procura resolver esta dificuldade, dizendo que a Santíssima Virgem, vendo que seu Filho estava prestes a expirar, aproximou-se mais que as outras mulheres da cruz, vencendo o temor dos soldados que a circundavam e sofrendo com paciência todos os insultos e injúrias que lhe dirigiam os mesmos soldados que guardavam os condenados. O mesmo afirma um douto autor que escreveu a vida de Jesus Cristo: Ali estavam os amigos que o observavam de longe. Mas a Santíssima Virgem, Madalena e uma outra Maria estavam junto da cruz com João. Vendo então Jesus sua Mãe e S. João, disse-lhes: “Mulher, eis aí teu filho”. Escreve Guerrico, abade: “Realmente mãe que não abandonava o filho nem no terror da morte”. Fogem as mães à vista de seus filhos agonizantes: o amor não lhes permite assistir a tal espetáculo, tendo de vê-los morrer sem os poder socorrer. A Santíssima Virgem, porém, quanto mais o Filho se avizinhava da morte, mais se aproximava da cruz.
2. Estava, pois, a aflita Mãe junto à cruz, e, assim como o Filho sacrificava a vida, sacrificava ela a sua dor pela salvação dos homens, participando com suma resignação de todas as penas e opróbrios que o Filho sofria ao expirar. Diz um autor que desabonam a constância de Maria os que a representam desfalecida aos pés da cruz: ela foi a mulher forte que não desmaia, não chora, como escreve S. Ambrósio: “Leio que estava em pé e não leio que chorava” (In cap. 23 Lc). A dor, que a Santíssima Virgem suportou na paixão do Filho, superou a todas as dores que pode padecer um coração humano. A dor, porém, de Maria não foi uma dor estéril, como a das outras mães vendo os sofrimentos de seus filhos; foi, pelo contrário, uma dor frutuosa: pelos merecimentos dessa dor e por sua caridade, diz S. Agostinho, assim como é ela mãe natural de nosso chefe Jesus Cristo, tornou-se então mãe espiritual dos fiéis membros de Jesus, cooperando com sua caridade para nosso nascimento e para fazer-nos filhos da Igreja (Lib. de sanc. virgin. c. 6). Escreve S. Bernardo que no monte Calvário estes dois grandes mártires, Jesus e Maria, se calavam: a grande dor que os oprimia tirava-lhes a faculdade de falar. (De Mar.). A Mãe contemplava o Filho agonizante na cruz, e o Filho, a Mãe agonizante ao pé da cruz, toda extenuada pela compaixão que sentir apor suas penas.

Eis aí teu filho.
1. Estavam, pois, Maria e João mais próximos da cruz do que as outras mulheres, de maneira que no meio daquele grande tumulto podiam ouvir mais facilmente a voz e distinguir os olhares de Jesus Cristo. Escreve S. João: “Tendo, pois, Jesus Visto sua mãe e o discípulo que amava, disse à sua mãe: “Mulher, eis aí teu filho” (Jo 19,26). Mas se Maria e João estavam em companhia das outras mulheres, por que se diz que Jesus viu a Mãe e o discípulo, como se não enxergasse as outras mulheres? Responde S. Crisóstomo (Serm. 78) que o amor faz que se veja com mais clareza os objetos que mais estimam. E S. Ambrósio escreve igualmente: “É natural que vejamos antes dos outros os que mais amamos” (De Jo. patr. c. 10). Revelou a mesma Virgem santíssima a S. Brígida que Jesus para ver sua Mãe que estava junto à cruz teve de comprimir as pálpebras para afastar de seus olhos o sangue que lhe impedia a vista (Rev. 1. 4, c. 70). 2. Então disse Jesus: “Mulher, eis aí teu filho”, acenando com os olhos a S. João, que estava ao lado. Por que, porém, a chama mulher e não mãe? Chamou-a mulher, porque, estando já próximo da morte, falou-lhe despedindo-se dela como se lhe dissesse: Mulher, dentro em pouco estarei morto, e não terás mais outro filho na terra: deixo-te João, que te servirá e amará como filho. Com isto deu a entender que José já era morto, porque se ele ainda vivesse não o teria separado de sua esposa. Toda a antigüidade atesta que S. João foi sempre virgem e foi justamente por essa prerrogativa que ele foi dado a Maria por filho e distinguido com a honra de ocupar o lugar de Jesus Cristo. Por isso canta a santa Igreja: “Ele entregou a este que era virgem sua virgem-mãe”. E desde o momento em que morreu o Senhor, como está escrito, S. João acolheu Maria em sua casa e a assistiu e serviu durante toda a sua vida como a sua própria mãe (Jo 19,27). Quis Jesus Cristo que este seu discípulo predileto fosse testemunha ocular de sua morte, para poder depois atestar mais decididamente em seu Evangelho e dizer: “Quem o viu é que dá o testemunho” (Jo 22 19,35),e em sua epístola: “O que vimos com os nossos olhos... e testificamos e anunciamos a vós (1Jo 1,2).Foi por isso que o Senhor, enquanto os outros discípulos o abandonaram, deu a S. João a força de o acompanhar até à morte no meio de tantos inimigos.

Eis aí tua mãe.
1. Mas voltemos à Santíssima Virgem e examinemos a razão mais intrínseca por que Jesus chamou Maria mulher e não de mãe. Queria com isso significar que ela era a grande mulher predita no Gênesis, que deveria esmagar a cabeça da serpente. “Porei inimizade entre ti e a mulher e a tua descendência e a sua: ela te esmagará a cabeça e debalde tentarás contra o seu calcanhar” (Gn 3,15). Ninguém duvida que essa mulher fosse a Santíssima Virgem Maria, a qual por meio de seu Filho, ou então o Filho por meio dela, que o deu à luz, devia esmagar a cabeça de Lúcifer. Maria devia realmente ser inimiga da serpente, já que Lúcifer foi soberbo, ingrato e desobediente, enquanto que ela foi humilde, grata e obediente. Diz-se: “Ela esmagará a tua cabeça” porque Maria por meio do Filho abateu a soberba de Lúcifer, o qual insidiou o calcanhar de Jesus Cristo (entende-se por calcanhar sua santa humildade, que era a parte mais vizinha da terra); este, porém, com sua morte teve a glória de vencê-lo e privá-lo do império que tinha obtido sobre o gênero humano por causa do pecado. Disse Deus à serpente: “Porei inimizade entre a tua descendência e a dela”. Isto significa que, depois da ruína do homem, ocasionada pelo pecado, apesar da obra da redenção, haveria de existir no mundo duas descendências: pela descendência de Satanás se entende a família dos pecadores, seus filhos, por ele corrompidos; pela descendência de Maria, compreende-se a família santa que é composta de todos os justos com seu chefe Jesus Cristo. Maria é designada mãe tanto da cabeça como de seus membros, que são os fiéis. Escreve o Apóstolo: “Todos vós sois um em Jesus Cristo; se, porém, sois de Cristo, então sois filhos de Abraão” (Gl 3,28 e 29). Jesus e os fiéis formam um só corpo, já que a cabeça não se separa de seus membros e estes são todos filhos espirituais de Maria, caso tenhamos o mesmo espírito de seu filho natural que foi Jesus. Assim também S. João não foi chamado João, mas o discípulo a quem amava o Senhor. — “Em seguida disse ao discípulo: Eis aí a tua mãe”, para que entendêssemos que Maria Santíssima é a mãe de todo bom cristão, que é amado por Jesus Cristo e em que vive Jesus com seu espírito. É o que quer dizer Orígenes, quando escreve: “E Jesus disse à sua Mãe: Eis aí teu filho. Isso é o mesmo como se dissesse: Eis aqui o teu Jesus, que deste à luz: mas quem é perfeito não vive mais propriamente, porém Cristo vive nele (Orig. In Jo c. 6). Escreve o Cartusiano que na paixão de Jesus Cristo os peitos de Maria se encheram de sangue que corria das chagas de Jesus, para que ela depois nos alimentasse a nós seus filhos. E ajunta que esta divina Mãe, com suas preces e merecimentos, adquiridos particularmente na morte de Jesus Cristo, nos obteve a participação nos méritos da paixão do Redentor (L. 2 de laud. mar. c. 23). Ó Mãe dolorosa, vós já sabeis que eu mereci o inferno: não há outra esperança de salvação para mim senão a comunicação dos merecimentos da morte de Jesus Cristo. Esta graça vós haveis de me impetrar e espero obtê-la pelo amor daquele Filho que vós vistes diante de vossos olhos inclinar a cabeça e expirar no monte Calvário. Ó rainha dos mártires, ó advogada dos pecadores, socorrei-me sempre e especialmente no momento da minha morte. Ah, parece-me ver os demônios que se esforçarão na minha na minha agonia por fazer-me desesperar à vista de meus pecados. Ah, não me abandoneis então quando virdes minha alma tão combatida: ajudai-me com vossas súplicas, obtende-me a confiança e a santa perseverança. E como então, sem poder falar e talvez perdidos os sentidos, não poderei invocar o vosso nome e o de vosso Filho, eu os invoco agora e digo: Jesus e Maria, recomendo-vos a minha alma.

Quarta palavra.
“Eli, Eli, lamma sabacthani?”, isto é, Deus meu, Deus meu, por que me abandonastes? (Mt 27,46). 1. Antes destas palavras escreve S. Mateus: “E pela hora nona clamou Jesus com grande voz, dizendo: Eli...” Por que Jesus pronunciou estas palavras com voz tão forte? Eutímio diz que ele assim procedeu para demonstrar o seu poder divino, pois, estando próximo a expirar, ainda podia dar um brado tão grande, coisa que os agonizantes não podem fazer devido à grande fraqueza em que então se acham. Além disso, ele deu um tão forte brado para nos fazer compreender o grande sofrimento com que morria. Alguém poderia crer que, sendo Jesus homem e Deus, tivesse com o poder de sua divindade impedido os tormentos de causar-lhe dor. Por isso, para tirar-nos tal suspeita, quis manifestar com aquelas palavras que a sua morte foi a mais amarga jamais suportada por homem algum. Os mártires nos seus tormentos eram consolados pelas divinas doçuras: ele, o rei dos mártires, queria morrer privado de todo o conforto, satisfazendo a todo o rigor da justiça divina por todos os pecados dos homens. Foi esse o motivo, segundo Silveira, por que Jesus chamou a seu Pai Deus, e não Pai, pois que então, réu que era, devia tratá-lo como juiz e não como filho a pai. Escreve S. Leão que esse brado de Jesus não foi queixa, mas ensino (Serm. 17 de pas. c. 13). Ensino, porque com aquele brado queria dar-nos a entender quão grande é a malícia do pecado, que quase obrigava Deus a abandonar às penas, sem alívio, seu dileto Filho, somente por ter ele tomado sobre si a obrigação de satisfazer por nossos delitos. Jesus não foi então abandonado pela divindade, nem privado da glória que fora comunicada à sua bendita alma desde o primeiro instante de sua criação; foi, porém, privado de todo consolo sensível, com o qual costuma Deus confortar seus fiéis servos nos seus padecimentos e foi deixado em trevas, temores e amarguras, penas essas por nós merecidas. Esse abandono da presença sensível de Deus experimentou Jesus também no horto de Getsêmani: mas o que sofreu pregado na cruz foi maior e mais amargo.
2. Eterno Pai, mas que desgosto vos deu esse inocente e obedientíssimo Filho, para o punirdes com uma morte tão amarga? Contemplai-o como nesse madeiro está com a cabeça atormentada pelos espinhos, suspenso em três ganchos de ferro e apoiando-se sobre suas próprias chagas; todos o abandonaram, até os seus discípulos; todos o encarnecem nesse patíbulo e contra ele blasfemam; por que vós, que tanto o amais, também o abandonastes? Cumpre saber que Jesus estava sobrecarregado de todos os pecados do mundo inteiro e por isso, ainda que pessoalmente fosse o mais santo de todos os homens, tendo de satisfazer por todos os pecados deles, era tido pelo pior pecador do mundo e como tal fez-se réu de todos e ofereceu-se para pagar por todos. E porque nós merecíamos ser abandonados eternamente no inferno, no desespero eterno, quis ele ser abandonado ou entregue a uma morte privada de todo o alívio, para assim livrar-nos da morte eterna.

Por que me abandonastes?
1. Calvino, no seu comentário sobre S. João, disse uma blasfêmia, afirmando que Jesus Cristo, para reconciliar o Pai com os homens, devia experimentar todo o ódio que Deus tem contra o pecado e sentir todas as penas dos condenados e em especial a do desespero. Blasfêmia! Como poderia satisfazer pelos nossos pecados com um pecado ainda maior, qual o do desespero? E como conciliar-se esse desespero de que sonha Calvino, com estas palavras que Jesus pronunciou depois: “Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito”? (Lc 23,46). A verdade é, segundo a explicação de S. Jerônimo e S. Crisóstomo e outros, que nossos Salvador lança essa exclamação de dor para nos patentear, não o seu desespero, mas o tormento que sofria tendo uma morte privada de todo o alívio. Em Jesus, se houvesse desespero, só poderia originar-se de ver-se ele odiado por Deus. Como, porém, Deus haveria de odiar um tal filho, que, para obedecer à sua vontade, se oferecera a satisfazer pelas culpas dos homens? Essa obediência foi que levou o Pai a olhar para ele e conceder-lhe a salvação do gênero humano, segundo o testemunho do apóstolo: “O qual nos dias de sua mortalidade, oferecendo, com um grande brado e com lágrimas, preces e rogos ao que o podia salvar da morte, foi atendido pela sua reverência” (Hb 5,7). Este abandono de Jesus Cristo foi a pena mais dolorosa de toda a sua paixão, pois sabemos que ele sofreu dores acerbíssimas sem se lamentar, só se queixando desta e até com um grande brado, com muitas lágrimas e preces, como diz S. Paulo. Mas todos esses seus gritos e lágrimas tiveram por fim nos fazer compreender que pena horrenda é uma alma culpada ser abandonada por Deus e privada para sempre do seu amor conforme a ameaça divina: “Eu os expulsarei de minha casa, e não os tornarei a amar” (Os 9,15), e também quanto devia ele padecer para nos obter a divina misericórdia. Diz, além disso, S. Agostinho que, se Jesus Cristo se perturbou à vista de sua morte, ele o fez para consolação de seus servos, para que se estes, à vista da sua, se perturbarem, não se tenham em conta de réprobos e não se entreguem ao desespero (Lb. Pronost.).
2. Agradeçamos, entretanto, a bondade de nosso Salvador por ter querido tomar sobre si as penas por nós merecidas e assim livrar-nos da morte eterna, e procuremos de hoje em diante ser gratos a este nosso libertador, arrancando do coração todo afeto que não for para ele. E quando nos virmos desolados e privados da presença sensível da divindade, unamos a nossa desolação àquela que sofreu Jesus na sua morte. Ele de quando em vez se esconde aos olhos das almas que lhe são mais caras, mas não se afasta do coração e as assiste com sua graça interior. Não se dá por ofendido se em tal abandono lhe dizemos o que ele disse no horto a seu eterno Pai: “Meu Pai, se for possível, afastai de mim este cálice” (Mt 26,39). É preciso ajuntar, porém, como ele: “Contudo, não se faça como eu quero, mas como vós”. E se a desolação contínua, é preciso continuar a repetir o mesmo ato de conformidade, como ele o fez durante aquelas três horas que passou no horto: “E orou pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras”. Diz S. Francisco de Sales que Jesus é tão amável quando se deixa ver como quando se esconde. De resto, a quem mereceu o inferno e vê-se fora dele, não resta outra coisa que dizer: “Bendirei ao Senhor em todo o tempo”. Senhor, eu não mereço consolação, fazei por vossa graça que eu vos ame e fico satisfeito com viver assim desolado, porque isso vos agrada. Ah, se os condenados pudessem no meio de seus tormentos se conformar assim com o vosso querer, o inferno não lhes seria mais inferno. “Mas vós, Senhor, não afasteis de mim o vosso socorro: aplicai-vos a me defender” (Sl 21,20). Ah, meu Jesus, pelos merecimentos de vossa morte desolada, não me priveis do vosso auxílio nesse grande combate que terei de travar com o inferno na hora de minha morte. Nesse tempo todas as pessoas da terra já terão me abandonado e não me poderão auxiliar; não me abandoneis vós que por mim morrestes e sois o único que então me podeis socorrer. Fazei-o pelo merecimento daquele tormento que sofrestes no vosso abandono e pelo qual nos merecestes não ser abandonados por vossa graça, como merecíamos por nossas culpas.

Quinta palavra.
“Sabendo, porém, Jesus que tudo estava consumado, disse, para que se cumprisse a escritura: ‘Tenho sede’” (Jo 19,28).
1. A escritura que aí se designa era o dito de Davi: “E deram-me na minha comida fel e na minha sede me propinaram vinagre”(Sl 68,22). Grande foi a sede corporal que Jesus sofreu na cruz, já pelo sangue derramado no horto, já no pretório pela flagelação e coroação de espinhos, e mais ainda na mesma cruz onde de suas mãos e pés cravados escorriam rios de sangue como quatro fontes naturais. Sua sede espiritual foi, porém, muito maior, isto é, o desejo ardente que tinha de salvar todos os homens e de sofrer ainda mais por nós, como diz Blósio, em prova de seu amor (Mar. sp. p. 3 c. 18). S. Lourenço Justianiano escreve: “Esta sede nasce da fonte do amor” (De agon. c. 19).
2. Ah, meu Jesus, vós tanto desejastes padecer por mim e a mim tanto custa padecer, que me torno impaciente comigo mesmo a cada padecimento e me torno insuportável aos outros. Ó meu Jesus, pelos merecimentos de vossa paciência, tornai-me paciente e resignado nas enfermidades e adversidades que me sobrevierem e fazei-me, antes de morrer, semelhante a vós.

Sexta palavra.
“Está consumado”. S. João escreve: “Tenho Jesus tomado o vinagre, disse: “Tudo está consumado” (Jo 19,30).
1. Nesse momento, Jesus, antes de expirar, pôs diante dos olhos todos os sacrifícios da antiga lei (todos eles figuras do sacrifício da cruz), todas as súplicas dos antigos padres, todas as profecias realizadas na sua vida e na sua morte, todos os opróbrios e ludíbrios preditos que ele devia suportar, e vendo que tudo se havia realizado, disse: “Tudo está consumado”. S. Paulo se anima a correr generosa e pacientemente ao combate que temos de travar nesta vida com os nossos inimigos para obter a salvação: “Corramos pela paciência ao combate que nos está proposto, pondo os olhos no autor e consumador da fé, Jesus, o qual, havendo-lhe sido proposto o gozo, sofreu a cruz” (Hb 12,1 e 2). O Apóstolo exorta-nos a resistir com paciência às tentações até ao fim, a exemplo de Jesus Cristo, que não quis descer da cruz antes de morrer. S. Agostinho escreve: “O que te ensinou pendente da cruz, não querendo dela descer, senão que fosses forte em teu Deus?” (In ps. 70). Jesus quis consumar o seu sacrifício com a morte, para nos persuadir de que Deus não recompensa com a glória senão aqueles que perseveram no bem até ao fim, coo o faz sentir por S. Mateus: “Quem perseverar até ao fim será salvo” (Mt 10,22). Quando, pois, ou seja por motivo de nossas paixões ou das tentações do demônio ou das perseguições dos homens nos sentirmos molestados e levados a perder a paciência e a ofender a Deus, olhemos para Jesus crucificado
que derrama todo o seu sangue por nossa salvação e pensemos que nós ainda não derramamos uma só gota por seu amor. É o que diz S. Paulo: “Pois ainda não tendes resistido até ao sangue combatendo contra o pecado” (Hb 12,4). Quando, pois, se oferecer a ocasião de ter de ceder em qualquer ponto de honra, de se abster de qualquer ressentimento, de se privar de qualquer satisfação, de qualquer curiosidade ou coisa semelhante, envergonhemo-nos de o negar a Jesus Cristo. Ele não teve reservas para conosco, deu-nos sua vida, todo o seu sangue e por isso envergonhemo-nos de ter reservas para com ele. Resistamos com todas as veras aos nossos inimigos, mas esperemos a vitória sempre e unicamente dos merecimentos de Jesus: por meio deles e deles somente os santos e em especial os mártires superaram os tormentos e a morte. “Mas em todas essas coisas saímos vencedores por aquele que nos amou” (Rm 8,37). Quando o demônio nos trouxer à mente qualquer obstáculo que nos pareça dificílimo à nossa fraqueza superar, volvamos os olhos a Jesus crucificado e, confiados no seu auxílio e merecimentos, digamos com o Apóstolo: “Tudo posso naquele que me conforta” (Fl 4,13). Eu por mim nada posso, mas com o auxílio de Jesus eu posso tudo.
2. Animemo-nos, entretanto, a sofrer as tribulações da vida presente pela vista das penas de Jesus crucificado. Considera, diz o Senhor do alto daquela cruz, considera a multidão das dores e dos desprezos que eu padeço por ti sobre este patíbulo: meu corpo está suspenso por três cravos, e não descanso senão sobre minhas próprias chagas: o povo que me circunda não faz outra coisa senão blasfemar contra mim e afligir-me, e o meu espírito está ainda mais atormentado que meu corpo. Tudo padeço por teu amor: vê o afeto que te consagro e ama-me e não te recuses a padecer alguma coisa por mim, que por ti levei uma vida tão aflita e agora a termino com uma morte tão amarga. Ah, meu Jesus, vós me pusestes no mundo para servir-vos e amar-vos, concedestes-me tantas luzes e graças para vos ser fiel, mas eu, ingrato, quantas vezes, para não me privar de minhas satisfações, preferi perder a vossa graça, voltando-vos as costas. Ah, por aquela morte tão desolada que quisestes sofrer por mim, dai-me força para vos permanecer grato no resto de minha vida, propondo-me de ora em diante expulsar do meu coração todo o afeto que não for por vós, meu Deus, meu amor e meu tudo. Minha Mãe Maria, socorrei-me para que eu seja fiel a vosso Filho que tanto me amou.

Sétima palavra.
“Dando um grande brado, disse Jesus: Pai, em vossas mãos eu vos encomendo o meu espírito”. (Lc 23,46).
1. Escreve Eutíquio que Jesus proferiu estas palavras com grande voz, para dar a entender que ele era verdadeiramente o Filho de Deus, chamando a Deus seu Pai. S. Jerônimo escreve que ele deu este grande brado para demonstrar que não morria por necessidade, mas por própria vontade, emitindo um brado tão forte no momento mesmo em que estava para expirar. Isso combina com o que disse Jesus em vida, que ele de livre vontade sacrificava sua vida por nós, suas ovelhas, e não pela vontade ou malícia de seus inimigos. “Eu ponho minha alma por minhas ovelhas... ninguém ma pode tirar, eu mesmo a entrego de livre querer” (Jo 10,15). S. Atanásio ajunta que Jesus, recomendando-se ao Pai, recomendou-lhe justamente todos os fiéis que por seu intermédio deveriam receber a salvação, já que a cabeça com seus membros constituem um só corpo. E o santo conclui que Jesus então tinha em mente repetir o pedido feito antes: “Pai santo, conserva-os em teu nome, para que sejam um como nós” (Jo 17,11), e termina: “Pai, os que me destes quero que onde eu estiver estejam comigo” (Jo 17,24). Isto leva S. Paulo a dizer: “Sei em quem eu pus minha fé e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito para aquele dia” (2Tm 1,12). Assim escrevia o Apóstolo quando se achava no cárcere padecendo por Jesus Cristo, e cujas mãos confiava o depósito de seus sofrimentos e de toas as suas esperanças, sabendo quanto ele é grato e fiel àqueles que padecem por seu amor. Davi punha toda a sua esperança no futuro Redentor, dizendo: “Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito; pois vós me remistes, Senhor Deus da verdade” (Sl 39,6). Quanto mais nós devemos confiar em Jesus Cristo, que já realizou a nossa redenção? Digamos-lhe, pois, com grande confiança: “Vós me remistes, Senhor, por isso em vossas mãos encomendo o meu espírito.
2. “Pai, em vossas mãos eu entrego o meu espírito”. Grande esforço trazem estas palavras aos moribundos contra as tentações do inferno e temores os pecados cometidos. Não quero, ó Jesus, meu Redentor, esperar a hora da morte para recomendar-vos a minha alma; a vós a entrego agora; não permitais que ela se separe outra vez de vós. Vejo que minha vida passada não me serviu senão para vos desonrar; não permitais que eu continue a desgostar-vos nos dias que me restam de vida. Ó Cordeiro de Deus, sacrificado na cruz e morto por mim como vítima de amor e consumido de dores, fazei pelos méritos de vossa morte que eu vos ame com todo o coração e seja todo vosso no resto de minha vida. E quando chegar o fim de meus dias, fazei que eu morra abrasado em vosso amor. Vós morrestes por amor de mim; eu quero morrer por amor de vós. “Nas vossas mãos, Senhor, eu entrego o meu espírito. Vós me remistes, Senhor Deus da verdade”. Vós derramastes todo o vosso sangue, destes a vida para me salvar, não permitais que por minha culpa tudo isso fique perdido para mim. Meu Jesus, eu vos amo e espero amar-vos eternamente por vossos merecimentos. “Em vós, Senhor, eu esperei, não serei confundido eternamente”. Ó Maria, Mãe de Deus, confio nas vossas súplicas: pedi que eu viva e morra fiel ao vosso Filho. Digo-vos com S. Boaventura: “Em vós, senhora, eu esperei, não serei confundido eternamente”.

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Dia 9/4 - Encha o seu coração de confiança em Deus.

8 de abril de 2024

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo Piedosas e edificantes meditações sobre os sofrimentos de Jesus

CAPÍTULO IV

Reflexões sobre os impropérios feitos a Jesus Cristo enquanto pendia na cruz

Por tua causa sofro impropérios.
1. A soberba, como dissemos, foi a causa do pecado de Adão e, por conseguinte, a ruína do gênero humano; por isso veio Jesus Cristo e quis reparar esse desastre com sua humildade, não desdenhando abraçar a confusão de todos os opróbrios que lhe prepararam seus inimigos, como já predissera Davi: “Porque por vossa causa suportei o opróbrio e a vergonha cobriu a minha face” (Sl 68,8). A vida inteira de vosso Redentor foi cheia de confusão e desprezos que recebeu dos homens, e ele não recusou suportá-los até à morte, a fim de nos livrar da confusão eterna: “Tendo-lhe sido oferecido o gozo, sofreu a cruz, desprezando a ignomínia” (Hb 12,2). Ó Deus, quem não choraria de ternura e não amaria a Jesus
Cristo se cada um considerasse quanto ele sofreu naquelas três horas que esteve suspenso e agonizando na cruz? Todos os seus membros estavam feridos e doloridos, sem que um pudesse socorrer o outro. Nosso aflitivo Senhor nesse leito de dor não podia mover-se, estando com as mãos e pés cravados: todas as suas carnes sacrossantas cheias de feridas, sendo as das mãos e pés as mais dolorosas, visto que deviam sustentar todo o corpo. No ponto em que ele se apoiava naquele patíbulo, ou fosse sobre as mãos ou sobre os pés, aí aumentava a dor. Bem se poderia dizer que Jesus naquelas três horas de agonia sofreu tantas mortes quantos foram os momentos que ele esteve na cruz. Ó Cordeiro inocente, que tanto sofrestes por mim, tende compaixão de mim: “Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende compaixão de mim”.
2. E essas penas externas de seu corpo eram as menos acerbas: muito maiores foram as penas internas da alma. Sua alma bendita estava toda desolada, privada de toda a gota de consolação ou alívio sensível: tudo nela era tédio, tristeza e aflição. Isso exprimiu-o com estas palavras: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonais?” E quase submerso neste mar de dores internas e externas, quer terminar sua vida nosso amável Salvador, como já tinha predito pela boca de Davi: “Cheguei ao alto mar e a tempestade me submergiu” (Sl 68,3). Eis que na mesma ocasião em que agonizava sobre a cruz e se avizinhava a morte, todos os que então o circundavam, sacerdotes, escribas, anciãos e soldados, se esforçavam por afligi-lo ainda mais com impropérios e derrisões. S. Mateus escreve: “E os que iam passando blasfemavam dele, movendo suas cabeças” (Mt 27,39). Davi já o predissera, quando se referia à pessoa de Cristo: “Todos os que me viam zombavam de mim, falavam com os lábios e moviam suas cabeças” (Sl 21,8). Aqueles que passavam diante dele exclamavam: “Olá, tu que destróis o templo de Deus e em três dias o reedificas, salva-te a ti mesmo; se és o Filho de Deus, desce da cruz” (Mt 27,40). Diziam: tu te gloriaste de destruir o templo e de novamente reerguê-lo em três dias. Jesus, porém, não havia dito que podia destruir o templo material e reconstituí-lo em três dias, mas “Destruí este templo e em três dias recompô-lo-ei”. (Jo 2,19). Com estas palavras quis ainda frisar o seu poder, nos propriamente falou em alegoria (como escreve Eutímio e outros), predizendo que os judeus, matando-o, separariam sua alma de seu corpo, mas ele dentro de três dias ressuscitaria.

Escarnecido em seu poder.
1. “Salva-te a ti mesmo”. Homens ingratos! Se este grande Filho de Deus, fazendo-se homem, quisesse salvar-se a si mesmo, não teria escolhido espontaneamente a morte. “Se és o Filho de Deus, desce da cruz”. Mas se Jesus descesse da cruz e não completasse a nossa redenção com a sua morte, não poderíamos mais nos livrar da morte eterna. “Não quis descer, diz S. Ambrósio (Lib. 10 in Lc), para não descer em seu favor, mas para morrer por mim”. Escreve Teofilacto que eles assim falavam por instigação do demônio, que procurava impedir a salvação que Jesus nos devia alcançar por meio da cruz (In cap. 15 Mc).E ajunta que nosso Senhor não teria subido à cruz se quisesse de lá descer sem consumar a nossa redenção. Diz igualmente S. João Crisóstomo que os judeus assim falavam para que ele morresse como um impostor na presença de todos, apontando-o como incapaz de livrar-se da cruz depois de haver afirmado ser o filho de Deus. (In Mt 27,42). Nota ainda o mesmo S. Crisóstomo que mui erradamente diziam os judeus: “Se és o filho de Deus, desce da cruz”. Pois se Jesus tivesse descido da cruz antes de morrer, não seria o Filho de Deus prometido, que com sua morte nos deveria salvar. “Porque o Filho de Deus não desce da cruz, pois ele veio justamente para ser crucificado por nós” (In Mt 27). O mesmo escreve S. Atanásio dizendo que nosso Redentor queria ser reconhecido como verdadeiro Filho de Deus, não descendo da cruz, antes nela permanecendo até à morte (Serm. de pass. Domini). Pois que isso já estava predito pelos profetas, que nosso Redentor deveria morrer crucificado, segundo o testemunho de S. Paulo: “Cristo nos remiu da maldição da lei, tornando-se maldito por nós, porque está escrito: amaldiçoado todo aquele que é pendurado no lenho” (Gl 3,13).
2. S. Mateus continua a referir os outros impropérios que os judeus dirigiam a Jesus: “Salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo” (Mt 27,52). Tratavam-no assim de impostor a respeito dos milagres por ele operados, restituindo a vida a muitos mortos, e de incapaz de salvar a sua própria vida. Mas responde-lhes S. Leão que então não era o tempo conveniente para o Salvador ostentar o seu poder divino e que ele não devia descurar a redenção humana para impedir as suas blasfêmias (Serm. de pass. 27 c. 2). S. Gregório aduz um outro motivo por que Jesus não quis descer da cruz. “Se descesse então da cruz, não nos teria dado o exemplo da paciência (Hom. 21 in Evang.). Muito bem poderia Jesus Cristo libertar-se da cruz e de tantos impropérios, mas não era o tempo oportuno de demonstrar o seu poder, mas de ensinar-nos a paciência nos trabalhos para obedecer à vontade de Deus e por isso não quis Jesus livrar-se da morte, antes de cumprir a decisão de seu Pai e para não privar-nos desse grande exemplo de paciência. “Porque ensinava a paciência, diferia a ostentação do poder” (S. Agost. Trat. 37 in Jo.). A paciência que praticou Jesus Cristo na cruz, suportando a confusão de tantos impropérios que os judeus lhe fizeram, alcançou-nos a graça de sofrer com paciência e paz as humilhações do mundo. S. Paulo, falando da ida de Jesus Cristo ao Calvário carregado da cruz, exorta-nos a acompanhá-lo, dizendo: “Saiamos, pois, ao seu encontro fora dos arraiais, levando sobre nós o seu opróbrio” (Hb 13,13). Os santos, quando injuriados, não pensavam em vingar-se nem se perturbavam, antes sentiam-se consolados vendo-se desprezados como Jesus Cristo. Não nos envergonhemos, portanto, de abraçar por amor de Jesus Cristo os desprezos que nos forem feitos, desde que Jesus tantos sofreu por nosso amor. Meu Redentor, não procedi assim no passado, mas no futuro quero sofrer tudo por vosso amor: dai-me força para cumpri-lo.

Escarnecido em sua confiança.
1. Os judeus, não satisfeitos com as injúrias e blasfêmias proferidas contra Jesus Cristo, se revoltam também contra Deus Padre, dizendo: “Confiou em Deus, que ele o livre, se o preza, disse ele que era o Filho de Deus” (Mt 27,53). Esta exclamação sacrílega dos judeus já fora predita por Davi, quando fala em nome de Cristo: “Todos os que me viram, escarneceram de mim; falaram com os lábios e abanaram suas cabeças: esperou no Senhor, que ele o livre e que o salve se o tem em apreço” (Sl 21,8). Ora, os que assim falavam foram chamados por Davi, no mesmo salmo, touros, cães e leões: “Fostes touros me cercaram. Porque muitos cães me obsediaram. Salvai-me das fauces do leão” (Sl 21,13). Assim, dizendo os judeus “que o livre se o estima”, declararam ser eles os touros, cães e os leões preditos por Davi. Estas mesmas blasfêmias, que haveriam um dia de pronunciar contra o Salvador e contra Deus, foram também preditas pelo sábio: “Ele assegura que tem a ciência de Deus e se chama a si Filho de Deus e se gloria de ter a Deus por Pai... Se é verdadeiro Filho de Deus, ele o amparará e o livrará das mãos dos contrários. Façamos-lhe perguntas por meio de ultrajes e tormentos, para que saibamos o seu acatamento e provemos a sua capacidade: condenemo-lo a uma morte torpíssima” (Sb 2,13-20). Os príncipes dos sacerdotes estavam cheios de inveja e ódio de Jesus Cristo e por isso o injuriavam. Mas ao mesmo tempo não estavam isentos do temor de qualquer grande castigo, não podendo mais negar os milagres feitos pelo Senhor. Assim, todos os sacerdotes e príncipes da sinagoga estava inquietos e temerosos, querendo por isso assistir pessoalmente à sua morte, para, dessa maneira, se libertarem do temor que os atormentava. Vendo-o, pois, já pregado na cruz e que seu Pai não o livrara dela, lançavam-lhe em rosto, com a maior audácia, a sua fraqueza e a presunção de se ter dado por Filho de Deus. Diziam: Pois que confia em Deus, a quem chama seu Pai, porque então Deus não o livra, se o ama como filho? Enganam-se, porém, grosseiramente, os malvados, pois Deus amava a Jesus Cristo e o amava como filho e justamente o amava porque estava sacrificando sua vida na cruz pela salvação dos homens, em obediência a seu Pai. E isso mesmo dizia o próprio Jesus: “Eu dou minha vida por minhas ovelhas”... por isso me ama o Pai, porque eu entrego minha vida por elas” (Jo 10,15 e 17). O Pai já o havia destinado para vítima daquele grande sacrifício, que devia trazer-lhe uma glória infinita, sendo o sacrificado homem e Deus, e ocasionar a salvação de todos os homens.. Mas se o Pai tivesse livrado Jesus da morte, o sacrifício teria ficado incompleto e dessa forma o Pai ficaria privado daquela glória e os homens, conseqüentemente, da salvação.
2. Escreve Tertuliano que todos os opróbrios feitos a Jesus Cristo foram um remédio secreto contra a nossa soberba. Essas injúrias, que eram injustas e indignas dele, eram necessárias à nossa salvação e não dedignadas por um Deus que quis padecer tanto para salvar o homem (Lib. 2 cont. Mc c. 7). Envergonhemo-nos, pois, nós que nos gloriamos de ser discípulos de Jesus Cristo, de suportar com impaciência os desprezos que recebemos dos homens, desde que um Deus feito homem os sofre com tanta paciência por nossa salvação. E não nos envergonhemos de imitar a Jesus Cristo, perdoando a quem nos ofende, ainda mais que ele afirma que no dia do juízo se envergonhará daqueles que, durante a vida, dele se envergonharam: “quem se envergonhar de mim e de minhas palavras, desse se envergonhará o Filho do homem quando vier em sua majestade” (Lc 9,26). Ó meu Jesus, como posso eu queixar-me de qualquer afronta que recebo, eu que tantas vezes mereci ser calcado pelos demônios do inferno. Ah, pelo merecimento de tantos desprezos que sofrestes na vossa paixão, dai-me a graça de sofrer com paciência todos os desprezos que me forem feitos, por vosso amor, que por meu amor tanto suportastes. Eu vos amo sobre todas as coisas e desejo padecer por vós, que tanto padecestes por mim. Tudo espero de vós, que me resgatastes com vosso sangue. E também espero na vossa intercessão, ó minha Mãe Maria.

Programação de Missas no Apostolado do IBP Curitiba

Na Casa do Padre: Olavo Bilac, 76
⛪ 2ª feira, 08/04
07h30, Missa Rezada

⛪ 3ª feira, 09/04
07h30, Missa Rezada

⛪ 4ª feira, 10/04
07h30, Missa Rezada
————————————————
Na Capela, Rua Lamenha Lins, 2115, Rebouças
⛪ 5ª feira, 11/04
18h30, Exposição do Santíssimo
19h30, Missa Rezada

⛪ 6ª feira, 12/04
19h00, Santo Terço
19h30, Missa Rezada

⛪ Sábado, 13/04
08h30, confissões
09h00, Missa Rezada

⛪ Domingo, 14/04
II Domingo depois da Páscoa
08h00, Confissões
08h30, Missa Rezada

09h30, Confissões
10h00, Missa Cantada

18h30, Confissões
19h00, Missa Rezada

365 dias com Padre Pio - frases para cada dia do ano

Dia 8/4 - Em cada evento aprenda a reconhecer e a adorar a vontade de Deus.

7 de abril de 2024

4 de abril de 2024

365 dias com Padre Pio - frases para cada dia do ano

Dia 4 - Fixe o horário da sua meditação sobre a Palavra de Deus, marque a duração da sua meditação, e não saia do lugar até terminá-la.

3 de abril de 2024

1 de abril de 2024

Programação de Missas no Apostolado do IBP Curitiba

Na Casa do Padre: Olavo Bilac, 76
⛪ 2ª feira, 01/04
Segunda de Páscoa
07h30, Missa Rezada

⛪ 3ª feira, 02/04
Terça de Páscoa
07h30, Missa Rezada

⛪ 4ª feira, 03/04
Quarta de Páscoa
07h30, Missa Rezada
————————————————
Na Capela, Rua Lamenha Lins, 2115, Rebouças
⛪ 5ª feira, 04/04
Quinta de Páscoa
18h30, Exposição do Santíssimo
19h30, Missa Rezada

⛪ 6ª feira, 05/04
Sexta de Páscoa
🥩Não tem abstinência
19h00, Santo Terço
19h30, Missa Rezada

⛪ Sábado, 06/04
Sábado In Albis
08h30, confissões
09h00, Missa Rezada

⛪ Domingo, 07/04
II Domingo da Páscoa
Domingo In Albis
08h00, Confissões
08h30, Missa Rezada

09h30, Confissões
10h00, Missa Cantada

18h30, Confissões
19h00, Missa Rezada