30 de abril de 2020

A ALMA DE TODO APOSTOLADO

J. B. Chautard


3 - A vida interior, base da santidade do obreiro apostólico.

Parte 1/7

Não sendo a santidade mais que a vida interior levada até à estreitíssima união da nossa vontade com a vontade de Deus, em via de regra e salvo um milagre de graça, a alma não atinge esse termo senão depois de ter percorrido, através de múltiplos e penosos esforços, todas as etapas da vida purgativa e iluminativa. Frisemos, como lei da vida espiritual que, no decurso da santificação, a ação de Deus e a da alma seguem marcha inversa: as operações de Deus assumem, de dia para dia, papel cada vez mais considerável, ao passo que a alma vai operando cada vez em menor escala.
Diferente é a ação de Deus nos perfeitos e nos que começam. Menos aparente nestes, provoca especialmente e ampara neles a vigilância e a súplica, oferecendo-lhes dessa sorte o meio de alcançarem a graça para novos esforços. Nos perfeitos, Deus opera de forma mais completa e às vezes até não exige mais que o simples consentimento que une a alma à sua ação suprema.
O principiante e mesmo o tíbio e o pecador que o Senhor quer aproximar de si, sentem-se primeiramente inclinados a procurar a Deus; depois, a provarem-lhe cada vez mais o próprio desejo de lhe agradar; finalmente, rejubilarem-se com todas as ocasiões providenciais que lhes permitam destronar o amor próprio, para porem em seu lugar unicamente o reino de Jesus. Neste caso, a ação divina limita-se a incitamentos, a auxílios.
No santo, é muito mais poderosa e muito mais completa esta ação. Em meio das fadigas e dos sofrimentos, abeberado de humilhações ou acabrunhado pela doença, basta, por assim dizer, que o santo se abandone à ação divina, sem a qual ele seria incapaz de suportar as agonias que, consoante os desígnios de Deus, devem servir de remate ao seu amadurecimento. Nele plenamente se realiza o texto seguinte: Deus subjecit sibi omnia ut sit Deus omnia in omnibus. Vive de tal sorte de Jesus que parece não mais viver por si mesmo. Este é o testemunho que de si deu o apóstolo: Vivo autem jam non ego: vivit vero in me Christus. Só o espírito de Jesus pensa, decide e opera. Certo que a divinização esta longe de atingir a intensidade que há de lograr na glória, contudo este estado já reflete os caracteres da união beatífica.
Julgamos inútil frisar que assim não sucede com o principiante ou o tíbio, e até com o simples fervoroso. A seus estados se adapta uma série inteira de meios que, de mais a mais, podem igualmente servir tanto a um como a outro. O principiante, porém, como qualquer aprendiz, há de molestar-se muito, avançará com lentidão e afinal há de desempenhar-se mediocremente de sua tarefa. O fervoroso, artista já adestrado, há de, por seu lado, executar depressa e bem sua tarefa e, com poucas dificuldades, há de granjear maiores proveitos.
Contudo, seja qual for a categoria de apóstolos de que se trate, invariáveis são sempre as intenções da Providência a respeito deles. Sempre e para todos, Deus quer que as obras sejam um meio de santificação. Mas, ao passo que, para a alma já chegada à santidade, o apostolado nenhum perigo sério oferece, nenhuma força a esgota e tudo lhe fornece abundantes ocasiões de crescer em virtude e e em méritos, vimos com que facilidade o apostolado causa a anemia espiritual e, portanto, o retrocesso no caminho da perfeição às pessoas fracamente unidas a Deus e nas quais pouco desenvolvimento tem ainda o gosto pela oração, o espírito de sacrifício e sobretudo a guarda habitual do coração.
Deus jamais recusa esse hábito à oração instante e a alma generosa que, mediante propósitos sempre renovados, foi pouco a pouco transformando as suas faculdades, tornando-as doceis às inspirações divinas e capazes de aceitar alegremente contradições e maus êxitos, perdas e decepções.

27 de abril de 2020

A ALMA DE TODO APOSTOLADO

J. B. Chautard

Parte 8/8

Um ímpio, ilustre ousou dizer que de forma alguma acreditava na fidelidade aos votos e obrigações por parte de certas almas, imiscuídas pelas suas obras na vida do século. "Elas caminham, acrescentava ele, por uma corda bamba. Hão de forçosamente cair". A esta injúria a Deus e a Igreja, é mister responder sem hesitação que essas quedas com certeza se evitam quando nos sabemos servir da preciosa maromba da vida interior e que, ao abandono deste meio infalível, se devem atribuir a vertigem e os passos em falso, os passos escandalosos para o precipício.
O admirável Jesuíta, Pe. Lallemant, remonta à causa inicial dessas catástrofes, quando diz: Muitos homens apostólicos nada fazem puramente por Deus. Procuram-se em tudo e sempre misturam interesse próprio com a glória de Deus em seus melhores empreendimentos. Passam destarte, a vida inteira, nessa mistura de natureza e de graça. Chega por fim a morte e só então é que abrem os olhos, só então vêem a sua ilusão, e tremem ao avizinhar-se do terrível tribunal de Deus.
Longe de nossa intenção está, por sem dúvida, o incluir no número dos apóstolos que se pregam a si mesmos, esse zeloso e esforçado missionário que se chamou o célebre Pe. Combalot. Mas será porventura inoportuna a citação das suas palavras, poucos momentos antes de morrer? " Tenha confiança, meu caro amigo, dizia-lhe o sacerdote depois de lhe ter administrado os últimos sacramentos. Tenha confiança, porque conservou sempre íntegra sua vida sacerdotal, e seus milhares de sermões hão de, por certo, diante de Deus, servir de atenuante à insuficiência de vida interior de que fala. - Os meus sermões! Oh! como eu agora os vejo por um prisma diferente! Os meus sermões! Se Nosso Senhor não for o primeiro a falar-me deles, não serei eu que começarei." Ao clarão da eternidade, esse venerável sacerdote, nas suas melhores obras de zelo, via imperfeições que inquietavam sua consciência e que atribuía à falta de vida interior.
O Cardeal Du Perron, à hora da morte, mostrava-se arrependido porque, durante a vida, mais se dedicara ao aperfeiçoamento de sua inteligência pelas ciências que ao da vontade pelos exercícios da vida interior. Ó Jesus, apóstolo por excelência, houve porventura alguém que jamais se prodigaliza-se tanto como vós, enquanto entre nós habitáveis? Hoje, ainda com maior abundância vos dais aos homens por meio da vossa vida eucarística, sem que para isso jamais deixeis o seio de vosso Pai! Oxalá nunca esqueçamos que vós quereis tomar conhecimento apenas daqueles nossos trabalhos que forem animados por um princípio verdadeiramente sobrenatural e que mergulharem suas raízes no vosso Coração adorável.

25 de abril de 2020

Junto a Ti - Santa Teresinha

Tu me fazes sentir, que não é impossível, ó Rainha dos eleitos, sobre teus passos caminhar, a via estreita do céu tu a tornas visível, as mais humildes virtudes sempre a praticar. Junto a ti, Maria, gosto de ser pequena, das grandezas da terra vejo a vaidade. Recebendo tua visita em casa de Isabel aprendo a praticar a ardente caridade.

24 de abril de 2020

A ALMA DE TODO APOSTOLADO

J. B. Chautard

Parte 7/8

A esta desordem na inteligência corresponde o desregramento na imaginação. Nenhuma potência carece mais de repressão do que esta. E nem sequer se cuida em refreá-la. Por isso ela, vendo-se de rédea solta, parte em carreira desabalada. Corre para todos os extravios, para todas as loucuras. A supressão progressiva da mortificação da vista permite que essa doidinha encontre pábulo abundante, um pouco por toda parte.
A desordem segue o seu curso. Da inteligência e da imaginação, desce até as afeições. O coração já somente se alimenta de quimeras. Que sucederá a este coração dissipado, que já quase se não inquieta com o reinado de Deus nele e que se tornou insensível aos entretenimentos com Jesus, à poesia sublime dos mistérios, às belezas severas da liturgia, aos apelos e aos atrativos do Deus da Eucaristia, numa palavra, um coração insensível às influências do mundo sobrenatural? Irá acaso reconcentrar-se em si mesmo? Seria isso um suicídio. Não! ele carece de afeição. Não encontrando mais a felicidade em Deus, há de amar as criaturas. Fica à merce da primeira ocasião e lança-se nela desatinadamente, imprudentemente, quiça sem nenhum respeito pelos votos mais sagrados, nem pelo interesse supremo da Igreja, nem pela própria reputação. Supomos, contudo, que ainda profundamente o perturba a perspectiva da apostasia; entretanto, o escândalo das almas não lhe causa já tanto temor.
Certo que chegar por esta forma até a última consequência é, merce de Deus, rara exceção. Mas quem não vê que o tédio de Deus e a aceitação do prazer proibido podem levar o coração até as piores desventuras? Do Animalis homo non intélligit, há de forçosamente chegar-se ao Qui nutriebatur in cróceis, amplexatus est stércora. A ilusão obstinada, a cegueira do espiríto, o endurecimento do coração vão progredindo. Tudo se pode esperar.
Para cúmulo da desgraça, a vontade encontra-se não destruída, mas reduzida a tal estado de enfraquecimento, de moleza, que quase equivale à impotência. Peçam-lhe não que reaja energicamente, que isso seria inútil, mas que tente um simples esforço, e apenas granjearão esta resposta desanimadora: "Não posso". Ora, quem neste ponto não é já capaz de esforços, esta a caminho das piores catástrofes.

23 de abril de 2020

Rainha do Carmelo - Santa Teresinha

Maria, doce Rainha do Carmelo, confio-vos a alma do futuro sacerdote, do qual sou indigna irmãzinha!
Dignai-vos ensinar-lhe desde agora aquele amor com que vós tomáveis o divino Menino Jesus e o envolvíeis em faixinhas, para que um dia possa subir ao santo altar e trazer em suas mãos o Rei dos céus.
Peço-vos ainda guardá-lo à sombra do vosso manto virginal, até o dia feliz em que, deixando este vale de lágrimas, possa contemplar o vosso esplendor e gozar por toda a eternidade dos frutos do seu glorioso apostolado.

20 de abril de 2020

A ALMA DE TODO APOSTOLADO

J. B. Chautard

Parte 6/8

Quarta etapa. Tudo se encandeia. O abismo traz consigo o abismo. Os Sacramentos! Ah! esses são recebidos ou administrados como coisa respeitável por certo, mas já não se sente palpitar a vida que eles encerram. A presença de Jesus no Sacrário ou no santo Tribunal já não é capaz de fazer vibrar até à medula da alma todas as energias da fé. A própria missa, o sacrifício do Calvário, é um jardim cerrado. Certo que a alma esta ainda, queremos crê-lo, longe do sacrilégio. Mas não sente já o calor do Sangue Divino. Suas consagrações são frias e as suas comunhões tíbias, distraídas, superficiais. Familiaridade irrespeitosa, rotina e talvez tédio já andam à espreita dessa alma.
O apóstolo assim desfigurado vive fora de Jesus, e já não é favorecido com essas palavras íntimas que Jesus quer dizer apenas aos seus verdadeiros amigos.
De vez em quando, o Amigo celeste faz chegar um remorso, uma luz, um apelo. Espera, bate, pede para entrar: Vem a mim, pobre alma ferida, vem, vem depressa, que eu te curarei: Venite ad me omnes. . . et ego refíciam vos; porque eu sou a tua salvação: Salus tua ego sum. Eu vim salvar o que tinha perecido: venit Filius hómonis quaerere et salvum facere quod períerat. Esta voz tão doce, tão terna, tão discreta, tão instante, procura momentos de comoção, veleidades de melhor procedimento. Mas como a porta do coração apenas esta fracamente entreaberta, Jesus não pode entrar e esses bons movimentos da alma ficam frustrados. A graça passa debalde e vai voltar-se contra a alma. Na sua misericórdia, para não acumular tesouros de cólera, Jesus talvez até cesse de lhe falar: Time Jesum transeuntem et non revertentem. 
Vamos agora mais longe, penetremos até ao âmago dessa alma cuja fisionomia esboçamos.
Assim na vida sobrenatural como na vida moral e intelectual, o papel dos pensamentos tem grande preponderância. Quais os pensamentos que preocupam essa alma e a que corrente obedecem? Humanos, terrenos, vãos, superficiais, egoístas, vão esses pensamentos convergindo cada vez mais para o eu ou para as criaturas, e amiúde sob as aparências de dedicação e de sacrifício.

19 de abril de 2020

Não Temass - Santa Teresinha

Não temas amar muito à Santíssima Virgem, nunca a amarás bastante, e Jesus ficará contente visto que a Santíssima Virgem é a sua Mãe.

16 de abril de 2020

Eu Quero Obedecer - Santa Teresinha

O anjo orgulhoso, no seio da luz bradou: "Eu não obedecerei!..." Eu exclamo na noite da terra, Jesus: eu quero obedecer, meu Rei.
Eu sinto em mim uma santa audácia, de todo inferno enfrento o furacão. A Obediência é minha forte couraça e o escudo do meu coração.
A ALMA DE TODO APOSTOLADO

J. B. Chautard

Parte 5/8

Tudo esta maduro para a Terceira Etapa cujo sintoma é a negligência na recitação do Breviário. A oração da Igreja, que ao soldado de Cristo devia dar alegria e força para de quando em quando remontar até Deus e haurir nele o meio de pairar sobre o mundo visível, torna-se-lhe carga insuportável. A vida litúrgica, fonte de luz, de alegria, de força, de méritos e de graças para si e para os fiéis, já não é mais que a ocasião de um dever desagradável que de má vontade se cumpre. A virtude íntima da religião esta mais que atingida. Contribuiu para ressequi-la a febre das obras. A alma já não vê o culto de Deus senão ligado a pomposas manifestações exteriores. O sacrifício pessoal e obscuro, mas afetuoso de louvor, de súplica, de ação de graças, de reparação, já nada lhe diz. Não há muito, durante a recitação das suas orações vocais, ela repetia com legítima altivez, como se quisera rivalizar com um coro de monges: eu também In conspectu angelorum psallam tibi. O santuário dessa alma, outrora perfumado de vida litúrgica, tornou-se praça pública onde reinam o ruído e a desordem. A solicitude exagerada pelas obras e a dissipação habitual encarregam-se de multiplicar consideravelmente as distrações que, de mais a mais, cada vez são menos combatidas. Non in commotione Dominus. Ali já não há oração verdadeira. Precipitação, interrupções não justificadas, negligências, sonolência, atrasos, adiamento para a última hora, com perigo de ser vencido pelo sono . . . , e talvez, de quando em quando, omissões, transformam o remédio em veneno e o sacrifício de louvor em ladainha de pecados, que chegarão talvez a não ser já simplesmente veniais!

13 de abril de 2020

O Doce Mais Apreciado - Santa Teresinha

Toda criança, vós sabeis, prefere um doce, em vez da glória de um império. Um doce delicioso oferecei àquele que do Céu é Rei e vereis o seu sorriso.
Sabeis, do Rei querido, qual é o doce preferido? É vossa pronta obediência. Vosso Esposo encantareis quando vós obedeceis como ele, em sua infância.

A Cruz: Nossa Alegria e Nossa Esperança - Sermão para o Domingo Lætare (...

A ALMA DE TODO APOSTOLADO

J. B. Chautard

Parte 4/8

Segunda Etapa. O homem sobrenatural é escravo do dever; por isso é que ele, avaro do seu tempo, ordenadamente o distribui vivendo conforme um regulamento. Compreende que, sem isso, a sua vida é vida de naturalismo, vida cômoda e caprichosa, do levantar ao deitar.
O homem de obras, sem base sobrenatural, não tarda em experimentá-lo. A falta de espírito de fé no emprego do tempo leva-o a pôr de parte sua leitura espiritual. Por outro lado, se ainda lê, já não estuda. Preparar durante a semana inteira a homilia do domingo, era bom para os padres da Igreja. A não ser que a sua vaidade esteja em jogo, ele prefere improvisar, e sai-se sempre tão bem. . . assim pelo menos pensa. Aos livros, prefere as revistas. Nenhum método mais, nenhuma perseverança. Borboleteia. Desperdiça as horas livres, cuida demasiadamente em procurar distrações e assim se vai furtando à lei do trabalho, a essa grande lei de preservação, de moralização e de penitência.
Considera molesto e puramente teórico tudo oque estorva sua liberdade de movimentos. Não lhe chega o tempo para tantas obras e obrigações sociais e até para o que julga necessário à sua saúde e às suas recreações. Realmente, diz-lhe Satanás, consagras tempo demasiado aos exercícios de piedade: meditação, ofício, missa, atos do ministério. É necessário cortar o supérfluo. E começa invariavelmente por abreviar a meditação, por fazê-la irregularmente e talvez até chegue pouco a pouco, ai! a deixá-la de todo. Como  já se acostumou a deitar-se bastante tarde, ele lá sabe por que, logicamente cada vez mais vai abandonando o ponto indispensável para permanecer fiel à oração - levantar-se à hora certa. Ora, na vida ativa, abandonar a meditação, ou reduzi-la à duração de dez a quinze minutos equivale a render-se ao inimigo. Algumas pessoas atribuem a Santa Teresa o dito seguinte: "Dai-me alguém que faça diariamente um quarto de hora de oração e lhe darei o céu". Ignoramos até que ponto é autêntico este dito, mas a nossa experiência de almas sacerdotais ou religiosas consagradas às obras leva-nos a crer que um obreiro apostólico que não se obrigue a meia hora pelo menos de meditação e de meditação metódica, séria, concluída com uma resolução leal, baseada na desconfiança de si mesmo e na confiança na oração, de praticar nesse mesmo dia atos custosos relativos a um vício a combater ou a uma virtude a adquirir, cai fatalmente na tibieza da vontade.
Evidentemente já se não trata de evitar imperfeições. São os pecados veniais que pululam. A impossibilidade em que a alma se abisma de velar pela guarda do coração oculta à consciência a maior parte dessas faltas: a alma pôs-se em estado de já não ver. Como poderá combater o que já não distingue como defeituoso? A doença de languidez vai já bastante adiantada. É esta é a consequência da segunda etapa, a qual é caracterizada pelo abandono da meditação e de qualquer regulamento.

12 de abril de 2020

Uma Bússola Infalível - Santa Teresinha

Ó minha Madre, de quantas inquietações nos livramos fazendo o voto de obediência! Como são felizes as simples religiosas! Já que a vontade dos superiores constitui sua única bússola, estão sempre seguras de se encontrarem no caminho reto. Não precisam recear que se enganem, embora lhes pareça evidente algum engano, por parte dos superiores. Quando, porém, a gente deixa de olhar para a bússola infalível, desviando-se da trajetória que manda seguir, sob capa de fazer a vontade de Deus, a qual não esclarece bem os que, aliás, fazem suas vezes, bem logo a alma se desnorteia por caminhos áridos, onde não tarda a faltar-lhe a água da graça.

11 de abril de 2020

Escrúpulos e Obediência - Santa Teresinha

No ano de minha admissão como filha da Santíssima Virgem, ela arrebatou-me, minha querida Maria, único apoio de minha alma... Era Maria quem me guiava, consolava, ajudava a praticar a virtude. Sem dúvida, Paulina já ficara muito antes dentro do meu coração, mas Paulina estava longe, bem longe de mim!... Sofrera um martírio para habituar-me a viver sem ela, mas, afinal, acabei aceitando a  triste realidade. Paulina estava perdida para mim, quase mesmo como se tivesse morrido. Sempre me queria bem, rezava por mim, mas aos meus olhos minha querida Paulina se tornara uma santa, que já não poderia compreender as coisas da terra; e as misérias de sua pobre Teresa, se as conhecesse, tê-la-iam assombrado e impedido de amar-me tanto...

A beleza na noite e a vida espiritual - Sermão

9 de abril de 2020

A ALMA DE TODO APOSTOLADO

J. B. Chautard

Parte 3/8

Como caiu esta alma em estado tão lamentável? Inexperiência, presunção, vaidade, imprevidência e relaxação. Não pensando em seus parcos recursos espirituais, lançou-se à ventura através dos perigos. Esgotadas suas provisões de vida espiritual, vê-se na situação do nadador temerário que já sem forças para lutar contra a corrente, se deixa arrastar para o abismo. Detenha-mo-nos um instante para medir com o olhar o caminho percorrido e a profundidade do precipício. Procedamos ordenadamente e contemos as etapas.
Primeira etapa.  Em primeiro lugar, a alma foi progressivamente perdendo (se é que as chegou ter!) a nitidez e a força das convicções sobre a vida sobrenatural, o mundo sobrenatural e a economia do plano e da ação de Nosso Senhor quanto à relação da vida intima do obreiro evangélico com as obras. A alma não mais contempla essas obras senão através de um prisma enganador. É a própria vaidade que sutilmente serve de pedestal à pretensa boa intenção: " Que querem, Deus concedeu-me o dom da palavra: devo agradecer-lho", respondia aos lisonjeiros um pregador enfatuado de vã complacência e inteiramente exteriorizado. A alma, mais que a Deus, procura-se a si mesma. Reputação, glória, interesses pessoais estão em primeira plana. O Si homínibus placerem, servus Christi nom essem, torna-se para ela palavra vazia de sentido.
Não falando da ignorância dos princípios, a ausência da base sobrenatural que caracteriza esta etapa tem, ora como causa, ora como consequência imediata, a dissipação, o esquecimento da presença de Deus, o abandono das orações jaculatórias e da guarda do coração, a falta de delicadeza de consciência e de regularidade de vida. A tibieza aproxima-se, se é que não começou já.

8 de abril de 2020

Escrevo por Obediência - Santa Teresinha

Minha Madre muito amada, o que vos escrevo não tem conexão. Minha historinha, parecida com um conto de fadas, converteu-se de repente em oração. Não sei qual interesse poderíeis ter na leitura de todos estes pensamentos confusos e mal redigidos. Afinal, minha Madre, não escrevo para compor obra literária, mas por obediência. Se vos aborreço, vereis pelo menos que vossa filha deu prova de boa vontade.

6 de abril de 2020

A ALMA DE TODO APOSTOLADO

J. B. Chautard

Parte 2/8

Chega, entretanto, o dia que se entreve o perigo: o anjo da guarda falou, a consciência reclama. Seria necessário, ter mão em si, examinar-se no sossego de um retiro, tomar a resolução enérgica de seguir à risca um regulamento que se não pusesse de lado, embora fosse mister descurar essas ocupações tão afagadas. Mas ai! é já tarde. A alma já saboreou o prazer de ver os seus esforços coroados pelos êxitos mais animadores: Amanhã, amanhã, exclama ela. Hoje é impossível; falta-me o tempo, porque devo continuar esta série de sermões, escrever este artigo, organizar este sindicato, esta associação de caridade, preparar esta récita, fazer esta viagem, pôr em dia a minha correspondência, etc . . . Como ela se sente feliz em poder tranquilizar-se com todos esses pretextos! Porque só o pensamento de encarar a sério sua consciência se lhe tornou insuportável. Chega o momento em que Satanás pode à vontade trabalhar em sua obra de ruína num coração que tão bem soube tornar-se seu cúmplice. O terreno esta preparado para isso. A sua vítima apaixonara-se pela ação; pois bem: Satanás instila-lhe a febre da ação. A sua vítima não podia suportar o esquecimento do tumulto dos negócios, o recolhimento; o demônio insufla-lhe horror de tudo isso e chega até a ponto de embriagar a alma com novos projetos, aos quais sabe habilmente dar as aparências de zelo pela glória de Deus e pela salvação das almas.
E esse homem, pouco havia ainda tão cheio de hábitos virtuosos, irá deslizando de fraquezas em fraquezas cada dia mais acentuadas, até chegar a pôr pé num declive tão resvaladio que não mais logrará sobrestar na sua queda. Digno realmente de lástima, tendo uma vaga consciência de que toda essa agitação não é conforme ao coração de Deus, atira-se, mais desatinadamente do que nunca para o turbilhão, a fim de sufocar os seus remorsos. As faltas vão-se fatalmente acumulando. O que outrora perturbava a consciência reta dessa alma, agora não são mais que vão escrúpulos que se desprezam. De bom grado proclama que é necessário saber ser homem de seu tempo, saber lutar com armas iguais às dos inimigos e por isso preconiza as virtudes ativas, tendo apenas palavras de desprezo para o que desdenhosamente chama piedade de outras eras. De mais a mais, as obras vão de vento em popa; o público aplaude-as. Cada dia vê desabrochar novos êxitos."Deus abençoa a nossa obra", exclama essa alma iludida, sobre a qual amanhã, talvez, devido a suas faltas graves, chorem os anjos do céu. 

5 de abril de 2020

Sou a Tua Filha - Santa Teresinha

Logo ouvirei aquela doce harmonia, logo irei te ver na minha Pátria linda, tu que me sorriste na manhã da vida, eis a tarde, ó Mãe, vem sorrir-me ainda!
Não tenho mais o esplendor de tua glória que brilha contigo eu sofri... e agora eu quero cantar em teu regaço, Virgem, porque te amo... e repetir p'ra sempre, que sou, enfim, tua filha!

3 de abril de 2020

A ALMA DE TODO APOSTOLADO

J. B. Chautard

2- Do homem de obras sem a vida interior.

Parte 1/8
Uma palavra o caracteriza: ainda talvez não esteja, mas há de fatalmente tornar-se tíbio. Ora, ser tíbio, e de uma tibieza, não de sentimento ou de fragilidade, senão de vontade, é pactuar com a dissipação e a negligência habitualmente consentidas ou não combatidas, pactuar com o pecado venial deliberado, e por isso mesmo, é tirar à alma a segurança da salvação eterna, dispô-la, levá-la até ao pecado mortal. Tal é, sobre a tibieza, a doutrina de Santo Afonso tão bem exposta e comentada pelo Pe. Desurmont, seu discípulo.
Como é então que o homem de obras, sem a vida interior, necessariamente desliza para a tibieza? Necessariamente, dissemos, e para prova disso bastam-nos as palavras seguintes, dirigidas por um bispo missionário aos seus sacerdotes, palavras tanto mais terríveis de verdade quanto promanam de um coração devorado de zelo pelas obras e de um espírito cujas tendências diretamente se opunham a tudo o que cheirasse a quietismo: " É necessário, diz o Cardeal Lavigerie, é necessário que nos persuadamos bem disto: para um apóstolo, não há meio termo entre a santidade completa, ao menos desejada e procurada com fidelidade e coragem, e a perversão absoluta".
Recordemo-nos em primeiro lugar do germe de corrupção que a concupiscência nutre na nossa natureza, a guerra sem tréguas que nos fazem os nossos inimigos assim interiores como exteriores, os perigos que por todos os lados nos ameaçam.
Dito isto, procuremos esboçar o quadro do que sucede a uma alma que se consagra ao apostolado sem estar suficientemente precavida e armada contra os seus perigos.
N . . . sente despertar dentro de si o desejo de se dedicar às obras. Carece ainda de experiência. As suas predileções pelo apostolado dão-nos o direito de nele supor ardor, alguma vivacidade de caráter, de o imaginar comprazendo-se na ação, quiça até no combate. Supo-mo-lo correto em sua conduta, dotado de piedade e de devoção, mas piedade mais de sentimento que de vontade, devoção que não é o reflexo de uma alma resolvida a procurar apenas a vontade de Deus, mas rotina piedosa, restos de hábitos louváveis. A sua oração, se é que pratica a oração, é apenas uma espécie de devaneio, e suas leituras espirituais, um exercício de curiosidade, sem influência real em sua conduta. Talvez até Satanás, iludindo-o com um sentido artístico que essa pobre alma toma por vida interior, o leve a gostar de leituras que tratem das vias elevadas e extraordinárias da união com Deus, e admirá-las com entusiasmo. Somado tudo, pouca ou nenhuma vida interior verdadeira nessa alma que ainda conserva, conceda-mo-lo, certo número de bons hábitos, muitas qualidades naturais e tal ou qual desejo sincero, mas muito vago, de permanecer fiel a Deus.
Vai, pois, o nosso apóstolo, impregnado do desejo de trabalhar nas obras, consagrar-se com zelo a esse ministério tão novo para ele. A breve trecho, precisamente em virtude das circunstâncias que essas novas ocupações originam (qualquer pessoa habituada às obras nos compreendera), a breve trecho, como íamos dizendo, se lhe deparam mil circunstâncias para o fazer viver cada vez mais fora de si mesmo, mil engôdos para a sua curiosidade ingênua, mil ocasiões de quedas, contra as quais, como é lícito supor, até então o tinham em parte protegido a atmosfera tranquila do lar doméstico, do seminário, da comunidade, do noviciado, ou pelo menos a tutela de um prudente diretor.
Não só a disposição crescente ou curiosidade perigosa de tudo conhecer, as impaciências ou susceptibilidades, a vaidade ou o ciúme, a presunção, ou o abatimento, a parcialidade ou a difamação, como também a invasão progressiva das fragilidades do coração e de todas as formas mais ou menos sutis da sensualidade, vão obrigar a um combate ininterrupto essa alma mal preparada para tão rudes e contínuos assaltos. Portanto, frequentes são as feridas.
De mais a mais, essa alma de piedade tão superficial pensará acaso em resistir, ela que esta então inteiramente absorvida na satisfação, já muito natural, de despender sua atividade em favor de uma causa excelente? Por outro lado, Satanás esta a espreita da ocasião, porque já fareja uma presa. E bem longe de contrariar essa satisfação, excita-a o mais possível.


2 de abril de 2020

Sou a Tua Filha - Santa Teresinha

Quando vejo o Eterno envolto em paninhos, quando do verbo divino ouço os débeis vagidos... Maria, nesse instante invejarei os anjinhos? Seu Senhor adorável é meu Irmão querido!... Oh! eu te bendigo, tu que em plagas peregrinas fizeste desabrochar esta Flor divina...
Virgem cheia de graça, eu bem sei que em Nazaré viveste pobremente, sem nada mais querer, nem êxtase, nem milagres, nem arroubos, mas pura fé; ó Rainha dos eleitos, enfeita o meu viver!
O número dos pequenos é grande sobre a terra, e eles podem, sem temor, a ti volver os olhos meus, pela via comum, ó incomparável Mãe, apraz-te caminhar guiando-os para os Céus.