A PERSEGUIÇÃO DO DIABO E O MILAGRE DE LUZ QUE OBSERVOU
1. Mas , porque rival da virtude, o antigo inimigo não cessa de se opôr às boas obras, querendo arredar o servo de Deus Antônio do seu propósito de salvação, fazia por o atormentar com noturnas visões. 2. Não vou contar uma ficção mas uma revelação, feita pelo próprio santo de Deus a um dos irmãos, enquanto ainda vivia.
Certa noite, no início da atividade quaresmal que já referimos, quando refazia com o benefício do sono os seus membros fatigados, atreveu-se o diabo a apertar com violência a garganta do homem de Deus e, depois de a apertar, tentou sufocá-lo.
3. Mas ele, depois de invocar o nome da gloriosa Virgem, imprimiu na fronte o sinal da santa cruz e, afugentado o inimigo do género humano, imediatamente experimentou alívio.
4. E, desejando vê-lo a fugir, abertos os olhos, eis que toda a cela, onde se encontrava deitado, refulgia , iluminada por uma luz vinda do céu. Este clarão, cremos seguramente que se ateou na cela pelo poder da virtude divina: não podendo o cultor das trevas suportar os seus raios, afastava-se cheio de confusão.
(Fonte: VIDA PRIMEIRA DE SANTO ANTÓNIO também denominada LEGENDA «ASSIDUA» por um frade anónimo da ordem dos menores - CAPÍTULO XI)
14 de junho de 2022
A PERSEGUIÇÃO DO DIABO E O MILAGRE DE LUZ QUE OBSERVOU
13 de junho de 2022
O PÃO DOS POBRES DE SANTO ANTÔNIO
O PÃO DOS POBRES DE SANTO ANTÔNIO
“Quem dá ao pobre empresta ao Senhor, e Ele lhe retribuirá o benefício.” Prov. XIX, 17.
A história do “Pão de Santo Antônio” remonta a diversos fatos da vida e milagres de Santo Antônio.
O “pão dos pobres de Santo António” é ao mesmo tempo uma piedosa devoção e uma instituição de grande valor para a Igreja. Consiste em doações para prover de pão os pobres, honrando assim o “protetor dos pobres” que é Santo António.
Uma tradição liga esta obra ao episódio de uma mãe cujo filho se afogou dentro de um tanque mas recuperou a vida graças a Santo António. Ela prometera que, se o filho recuperasse a vida, daria uma porção de trigo igual ao peso do menino. Por isso até hoje esta obra é conhecida em todas as dioceses como a obra do pondus pueri (peso do menino).
Essa obra também remete a um episódio da vida de Santo Antônio:
“Antônio comovia-se tanto com a pobreza que, certa vez, distribuiu aos pobres todos os pães do convento em que vivia. O frade padeiro ficou em apuros, quando, na hora da refeição, percebeu que os frades não tinham que comer: “os pães tinham sido roubados”. Atônito, foi contar a Santo Antônio o ocorrido. Este mandou que verificasse melhor o lugar em que os tinha deixado. O irmão padeiro voltou estupefacto e alegre: os cestos transbordavam de pão, tantos que foram distribuídos aos frades e aos pobres que visitavam o convento.
Outros tantos milagres aconteceram por intercessão de Santo Antônio em favor dos pobres. Outro deles teve lugar em Toulon, narrado por Luísa Bouffier: certa manhã, 12 de Março de 1890, quando ia abrir a sua loja, a fechadura de segredo partiu e não conseguiu abrir a porta. Chamou um serralheiro que, depois de muitas tentativas, infrutíferas, resolveu ir buscar ferramenta para a arrombar. Entretanto, por inspiração divina, Luísa prometeu dar pão aos pobres se com a nova experiência conseguisse abrir a porta da sua loja. Voltou o serralheiro e à primeira tentativa, sem dificuldade alguma, logo a abriu, deixando todos em estupefação geral atribuindo tal feito a Santo Antônio. Reconhecida, Luísa Bouffier, colocou uma imagem do santo na sua loja e uma caixa onde recolhia esmolas para, com elas, comprar pão para os pobres.
A partir de acontecimentos como este, espalhou-se por todo o mundo, o costume de colocar nas igrejas uma caixa para esmolas do “Pão dos pobres”.
Um grande propagador dessa obra de caridade foi Santo Aníbal Maria di Francia, fundador dos padres Rogacionistas do Sagrado Coração de Jesus.
12 de junho de 2022
PREGANDO SANTO ANTÔNIO, VIERAM OS DEMÔNIOS E O DERRIBARAM DO PÚLPITO
PREGANDO SANTO ANTÔNIO, VIERAM OS DEMÔNIOS E O DERRIBARAM DO PÚLPITO
Uma vez foi Santo Antônio pregar a S. Juniano no bispado de Limoges, e porque a multidão do povo não cabia na igreja, resolveu de se ir à praça grande com toda aquela gente que para o ouvir se ajuntara. Logo ali improvisaram um estrado, em lugar alto, à maneira de púlpito, onde o pregador de todos pudesse ser visto e ouvido. E o Santo para lá subiu. E, a abrir o sermão, exclamou:
— Eu sei que daqui a nada nos vem o demônio a perturbar. Não tenhais medo. Sua maldade não fará dano a ninguém.
E o caso foi que, passados momentos, se veio abaixo o estrado em que o Santo pregava; mas com admiração de todos não sucedeu mal a ninguém. E o povo, ao ver como no servo de Deus reluzia o espírito de santa profecia, maior respeito lhe ganhou, e com mais atenção o escutou quando ele, armado outra vez o púlpito, recomeçou o sermão.
(Fonte: LIVRO DOS MILAGRES ou Florinhas de Santo António de Lisboa - CAPÍTULO XI - Frei Fernando Félix Lopes, OFM)
9 de junho de 2022
O FAMOSO MILAGRE DO SERMÃO DOS PEIXES EM RÍMINI - MISSA TRIDENTINA
O FAMOSO MILAGRE DO SERMÃO DOS PEIXES EM RÍMINI
Santo Antônio foi pregar na cidade de Rímini, onde dominavam os hereges que resolveram não ouvi-lo em hipótese alguma. Frei Antônio subiu ao púlpito e quase todos se retiraram e fugiram. Não esmoreceu e pregou aos que tinham ficado. Inflamado pela inspiração Divina, falou com tal energia que os hereges presentes, reconheceram seus erros e resolveram mudar de vida. Mas o Santo não estava contente com o resultado parcial. Retirou-se para orar em solidão, pedindo ao Altíssimo que toda a cidade se convertesse.
Saindo do retiro, foi direto às praias do Mar Adriático e, em altos brados clamou aos peixes que o ouvissem e celebrassem com louvores ao seu supremo Criador, já que os homens ingratos não queriam fazê-lo. Diante daquela voz imperiosa, apareceram logo os incontáveis habitantes das águas, e se distribuíram ordenadamente, cada qual com os de sua espécie e tamanho. Os peixes ergueram suas cabeças da água e ficaram longo tempo imóveis, a ouvi-lo.
“Irmãos peixes. Os homens esquecem-se de Deus. Por isso aqui estou para vos falar”, - dizia Santo Antônio aos peixes ao perceber a ingratidão dos homens para com Deus.
Os peixes com cabeça fora d’água! Só isso já era um milagre. Os peixes morrem, quando ficam muito tempo com a cabeça fora d’água. Mas eles não morreram. E ficaram ouvindo atentos, em ordem. O sol colocava reflexos estranhos naquelas cabeças de brilho metálico e molhado. Os peixes olhavam e ouviam atentos. E frei Antônio pregava. Falava de Deus.
Algumas pessoas que passavam viram o prodígio e foram chamar as outras. Dentro em pouco, atrás de frei Antônio havia toda uma verdadeira multidão assustada, vendo esse milagre!
8 de junho de 2022
SANTO ANTÔNIO E OS HEREGES - MISSA TRIDENTINA
SANTO ANTÔNIO E OS HEREGES
Aos poucos foi ficando claro que a verdadeira missão de Santo Antônio: estava no púlpito, tinha eloquência, amor às almas, grande poder de persuasão e uma voz boa. Irradiava santidade; dizia-se que bastava vê-lo que os pecadores caiam de joelhos. A todos os lugares que ia as multidões acorriam para ouvi-lo; hereges cátaros se convertiam e confessavam os seus pecados. Muitas vezes as igrejas eram pequenas para conter a multidão. E ele pregava nas praças públicas e nos mercados, como era comum na época.
A inteligência e a facilidade que tinha para decorar textos dão a ele a capacidade de adquirir um conhecimento extraordinário da Bíblia Sagrada. Santo Antônio torna-se grande pregador da palavra de Deus. A Ordem Franciscana vai fazer dele o primeiro grande professor de teologia e ele virá a ser chamado de “Arca do Testamento”. A Igreja vai lhe confiar a difícil tarefa de pregar contra os erros dos hereges albigenses (cátaros).
Chamado em sua própria época de “o Martelo dos Hereges” e “Arca do Testamento”, ele combateu heresias que contestavam o valor de toda a vida, a autoridade da Igreja e a própria natureza de Deus. Era eloqüente e eficiente na pregação da verdade para uma sociedade que em geral a ignorava. Além disso, não só proclamou o Evangelho, mas também o viveu plenamente, de modo que sua própria vida atestava a profunda verdade de suas palavras.
Mas os hereges catáros não lhe davam sossego. Premeditaram uma vingança muito cruel em Rímini, na Itália. E foi essa vingança que proporcionou um dos milagres mais famosos de Santo Antônio.
2 de março de 2021
Milagres que de Santo Antônio Provados Perante o Bispo de Pádua e Mais Outros Milagres que se Juntavam - Terceira Parte - Capítulo LXIII
CAPÍTULO LXIII
Milagre que sucedeu em Beja, cidade de Portugal, a um devoto de São Francisco e Santo Antônio
Na cidade de Beja, em Portugal, vivia um homem de nome Pedro, poderoso e rico. Tanta devoção ele tomara pela Ordem dos Frades Menores, que deu o campo para na cidade se fundar convento e ainda largas esmolas que ajudaram a construção da obra.
Ora sucedeu que veio o devoto Pedro a adoecer de enfermidade muito grave. E, uma noite, velavam o enfermo quatro frades com outras muitas pessoas de sua obrigação, e a todo o instante esperavam seu passamento. E o enfermo tinha sobre si, por devoção, o hábito dos Frades Menores para com ele, depois, ser enterrado.
E eis que apareceram ali, de repente, mais dois frades à roda da cama, e um deles foi postar-se à sua mão direita e o outro à esquerda. E perguntou-lhe o primeiro:
— Ó Pedro, tu conheces-nos?
E ele que respondeu:
— Vejo que sois Frades Menores; agora as pessoas não vos conheço.
E então o frade esclareceu:
— Pois saberás que eu sou São Francisco e este meu companheiro é Santo Antônio; e viemos aqui para te consolar e sarar desta enfermidade pela devoção que sempre por nós houveste e pelos benefícios com que favoreces os frades aqui do convento.
E o enfermo pediu a São Francisco que lhe benzesse o hábito que tinha sobre a cama.
E, benzido o hábito, ambos os frades desapareceram; e Pedro tão rapidamente convalesceu que todos os presentes se maravilharam.
Viveu ainda doze anos, e nunca mais trouxe consigo as chaves de nenhum outro tesouro, senão só as da sua arca onde guardava o hábito que São Francisco benzera. E com ele morreu e foi a enterrar.
Em louvor e glória de Deus Nosso Senhor e de seus fiéis servos São Francisco e Santo Antônio, per infinita saecula saeculorum.
Amém.
1 de março de 2021
Milagres que de Santo Antônio Provados Perante o Bispo de Pádua e Mais Outros Milagres que se Juntavam - Terceira Parte - Capítulo LXII
CAPÍTULO LXII
Milagre que aconteceu em Roma com a imagem de Santo Antônio
No tempo do senhor papa Bonifácio IX foi restaurada em Roma a tribuna da Igreja de São João de Latrão que se chamava episcopia.
Da obra de mosaico encarregaram-se dois Frades Menores muito sabedores e provados naquela arte.
Depois de desenharem as imagens dos Apóstolos que Bonifácio IX queria ali ficassem, porque ainda sobrou largueza, lembraram os frades, por sua conta e risco, de retratar a um e outro lado as imagens de São Francisco e Santo Antônio.
Pois logo uns clérigos, por malevolência e inveja, vieram ao Papa a contar o caso, e vai ele que lhes diz:
— A imagem de São Francisco, já que está, pois que fique.
Agora a de Santo Antônio, essa não. Ide e picai-a, e que ponham em seu lugar outra de São Gregório.
Foram-se os clérigos, contentes, a cumprir a ordem; e, chegando à igreja, subiram para a tribuna uns atrás dos outros. Pois todos foram lançados em terra desde o alto por uma figura horrenda e espantosa que visivelmente lhes apareceu, segundo eles próprios confessaram. E teimando em subir uma e outra vez, sempre a mesma figura os estorvou de pôr em prática os seus desígnios.
E contaram os frades mosaístas que, de tais clérigos alguns morreram logo, e todos os mais dentro em pouco vieram a falecer.
E o Papa quando estas coisas ouviu, mandou que deixassem a imagem do Santo, pois assim lhe aprazia.
— Com Santo Antônio, dizia ele, só podemos perder e não ganhar.
28 de fevereiro de 2021
Milagres que de Santo Antônio Provados Perante o Bispo de Pádua e Mais Outros Milagres que se Juntavam - Terceira Parte - Capítulo LXI
CAPÍTULO LXI
Da trasladação do bem-aventurado Padre Santo Antônio e do milagre de sua língua
No ano da Encarnação do Senhor de mil e duzentos e sessenta e três, depois que, pelos méritos e intercessão de Santo Antônio, a Deus aprouve que a cidade de Pádua fosse livre do poder e jugo do tirano Ezzelino que por muitos anos a devastara, os Paduanos, em prova da sua muita devoção a Santo Antônio e em sinal de gratidão, levantaram em sua honra igreja grande e magnífica.
E porque resolveram trasladar seu bem-aventurado corpo para sepulcro novo, fizeram as precisas escavações no sítio onde ele por mais de vinte e sete anos estivera enterrado. E quando, no dia oitavo do Pentecostes, se procedia à trasladação, foi encontrada a sua língua fresca, rubicunda e formosa como se naquela mesma hora o bem-aventurado Padre tivesse morrido.
E o honrado varão Frei Boaventura que ao tempo era Ministro Geral da Ordem e depois foi cardeal e bispo albanense, assistindo à dita trasladação, com muita reverência pegou da língua do Santo em suas mãos, e banhado em lágrimas de alegria, começou de falar ao povo e pronunciou estas palavras dulcíssimas: “Ó língua bendita, que sempre a Deus louvaste e bendisseste, e aos outros ensinaste a louvar e bendizer, agora claramente se nos mostra quantos foram teus méritos junto de Deus!”
E enquanto assim falava, imprimia nela devotos e doces ósculos. E depois mandou colocá-la honradamente em lugar alto.
Para louvor de Deus e de seu servo Santo Antônio. Amém.
22 de fevereiro de 2021
Milagres que de Santo Antônio Provados Perante o Bispo de Pádua e Mais Outros Milagres que se Juntavam - Terceira Parte - Capítulo LX
CAPÍTULO LX
Como Santo Antônio libertou a cidade de Pádua do poder de Ezzelino, o tirano
Chegara o tempo em que a Omnipotência do Senhor resolvera pôr fim às crueldades do pérfido Ezzelino da Romano, arrancando-lhe das mãos a cidade de Pádua. Na noite da festa de Santo Antônio, já o Legado Pontifício com sua cavalaria fechara o cerco à cidade, estava o guardião do convento, Frei Bartolomeu de Coradino, de vela ao sepulcro do Santo a pedir com muitas lágrimas a libertação da cidade.
E, coisa maravilhosa! de repente, do sepulcro saiu uma voz, clara e sonora, que bem na ouviu o frade. E dizia assim:
— Frei Bartolomeu, não hajas temor nem tristeza; mas conforta-te e alegra-te. No dia oito da minha festa, Pádua recobrará sua antiga liberdade e outra vez gozará suas velhas regalias.
E, por graça de Deus, assim sucedeu tal qual a voz anunciara.
E muitos frades que na igreja também velavam aquela noite, deram testemunho de que ouviram a mesma voz.
E vindo a notícia ao conhecimento dos cidadãos de Pádua, concordaram eles em celebrar cada ano o dia oitavo de Santo Antônio com grande ajuntamento e solenidade, do modo como até ali celebravam o dia da sua festa. E, por graça de Deus, ainda no presente se conserva este costume. Para glória e louvor de Deus e de seu servo Santo Antônio. Amém.
20 de fevereiro de 2021
Milagres que de Santo Antônio Provados Perante o Bispo de Pádua e Mais Outros Milagres que se Juntavam - Terceira Parte - Capítulo LIX
CAPÍTULO LIX
Maravilhosa visão que teve certo médico chamado Pedro
No ano do Senhor de mil trezentos e sessenta e sete, Eduardo, príncipe da Aquitânia, reuniu exército de cavaleiros bem armados para ajudar ao rei de Castela Dom Pedro, a quem Dom Henrique, seu irmão bastardo, esbulhara da governança.
O médico-cirurgião de Bordéus, chamado Pedro, foi intimado a acompanhar o príncipe, a fim de prestar seus serviços aos que porventura caíssem, feridos, em combate.
Muito grave e dura foi para Mestre Pedro aquela ordem, por motivos vários. Mas, pensando ser irrevogável a determinação do príncipe, nem se atreveu a esboçar escusas ou a pedir dispensa, e entregou o caso a Santo Antônio por quem tinha grande devoção.
Dirigiu-se ao convento dos Frades Menores de Bordéus e rogou a um dos frades que lhe rezasse missa, em honra de Santo Antônio, no altar onde se venerava bonita imagem do Santo entalhada em madeira.
Com muita devoção assistiu Mestre Pedro. Pregados os olhos na imagem, pedia com fervor ao Santo se dignasse estorvar misericordiosamente a viagem, caso ela lhe fosse em detrimento da alma; mas, se depois de tudo, fosse de proveito, então que lhe inclinasse a vontade para com gosto a fazer.
Coisa admirável e muito para contar! Quando Mestre Pedro assim orava, pareceu-lhe ver a imagem a abanar a cabeça a uma e a outra parte, à maneira de quem diz que não.
Ficou deveras surpreendido. E pensando consigo que bem podia andar ali qualquer ilusão do seu imaginar ou fumosidade que lhe tivesse subido à cabeça, fez violência sobre si a recobrar serenidade, e depois, firmando melhor a vista, outra vez repetiu a oração.
E o caso foi que de novo claramente viu a imagem a acenar a cabeça, tal qual como da outra vez, de um para outro lado, a modos de quem diz que não.
Acabada a missa, saiu Mestre Pedro muito maravilhado, mas sem atinar ao certo no que lhe queria o Santo dizer com aqueles sinais: se não lhe era de proveito para a alma acompanhar o exército; ou se, de contrário, não devia no caso ter receios em partir.
Dali a pouco um mensageiro que chega da parte do senhor príncipe a dizer-lhe que sem tardança se fosse apresentar.
Meteu-se logo a caminho, e eis se não quando, sai-lhe ao encontro o senescal a perguntar:
— Estás disposto e pronto para acompanhar a Espanha o senhor príncipe, conforme as ordens que dele houveste?
Mestre Pedro, embora com o temor lá dentro a martelar, nem titubeou na resposta:
— Eu estou sempre pronto para em tudo cumprir a vontade do meu senhor.
Com rosto alegre, mesmo a sorrir, voltou-lhe então o senescal:
— Muito me apraz, Mestre Pedro! Nem outra coisa esperava de servo bom e leal. Fica, porém, sabendo que, para tua consolação, resolveu o senhor príncipe dispensar-te desta vez, se outra coisa não vier a ordenar.
Nem cabia em si de contente Mestre Pedro, com a boa nova; e logo dali se dirigiu à igreja dos Frades Menores a agradecer a Santo Antônio. E na presença de alguns frades contou as sobreditas coisas, e, pondo a mão nos Evangelhos, com juramento afirmou que era verdade tudo o que contara. Em louvor de Deus e de Santo Antônio.
Amém.
19 de fevereiro de 2021
Milagres que de Santo Antônio Provados Perante o Bispo de Pádua e Mais Outros Milagres que se Juntavam - Terceira Parte - Capítulo LVIII
CAPÍTULO LVIII
Como Santo Antônio curou a um frade de dolorosa rotura
Um frade da Província de Além-mar, de nome Câmbio, sofria de grande rotura. Mesmo com a funda de ferro que sempre usava, os intestinos saíam-lhe fora com dores insuportáveis.
Embaraçado com a doença e não encontrando remédio, veio a Pádua no dia de Santo António, a pedir ao Santo que lhe valesse.
Mas com a multidão dos enfermos que, na esperança de cura, se apresentavam em volta, por mais que fez não conseguiu chegar ao milagroso sepulcro. A custo, de longe, lhe pôde deitar a mão, que, depois, com muita confiança levou ao sítio da rotura. Oh! maravilha de contar! Naquele mesmo instante os intestinos recolheram, fechou-se a quebradura que era enorme, e tão solidamente soldou que não havia em seu corpo parte mais firme do que o sítio onde ela fora, afirmava depois o dito Frei Câmbio.
E, doido de alegria, até saltava o bom do frade, como antes o não podia fazer. E, agradecido, louvava a Santo Antônio.
18 de fevereiro de 2021
Milagres que de Santo Antônio Provados Perante o Bispo de Pádua e Mais Outros Milagres que se Juntavam - Terceira Parte - Capítulo LVII
CAPÍTULO LVII
Como Santo Antônio curou a certa mulher que sofria de grave enfermidade na cabeça
Havia dez anos que certa mulher de Forli, de nome Beatriz, sofria da terrível doença a que chamam nacta ou lumbenilho. Na cabeça, sobre o crâneo, crescera-lhe um tumor, tão grande como um punho.
Consultara médicos sabedores, mas sem resultado nenhum.
Pelo que, desanimada dos recursos humanos, voltou-se para Santo Antônio, a pedir que lhe valesse. E prometeu cercar-lhe o túmulo com fio de prata, se lhe alcançasse a saúde.
Pois naquela mesma noite, estava ela a dormir, veio Santo Antônio — pelo menos assim lhe pareceu — e talhou o tumor em quatro partes sem que ela, por isso, sentisse a menor dor, antes sim alívio e prazer.
E foi-se a aparição, mas a virtude do Santo ficou. Ao cabo de pouco tempo, como na visão fora mostrado, o tumor arregoou em quatro partes, e, saindo dele podridão de matéria e pus, ficou-lhe curada a cabeça e toda ao natural sem inchação nem costuras.
E a mulher, conforme prometera, veio a Pádua a agradecer o milagre a Santo Antônio e a cercar-lhe o túmulo, a toda a volta, com fio de prata.
15 de fevereiro de 2021
Milagres que de Santo Antônio Provados Perante o Bispo de Pádua e Mais Outros Milagres que se Juntavam - Terceira Parte - Capítulo LVI
CAPÍTULO LVI
Como Santo Antônio ressuscitou um menino que se afogara numa tina de água
Tomasino que tinha uns vinte meses, vivia em Pádua com seus pais, mesmo ao pé da igreja de Santo Antônio.
Saiu a mãe para os cuidados da vida, e deixou o pequenito em casa, sozinho, junto de uma tina de água. Nem pela cabeça lhe passou que podia o filho correr perigo.
Ao voltar, reparou na tina e pareceu-lhe ver uns pezinhos a boiar ao lume da água. Achegou-se mais ao perto, e — o que havia ela encontrado! — o filho, dentro, afogado, de pés para cima e a cabeça no fundo. Num empuxão tirou-o para fora, aos gritos; mas estava já frio e morto.
Sobressaltada a vizinhança com a gritaria da mulher, veio muita gente em socorro. E os frades que andavam com os operários na reparação da igreja, também eles acudiram. E todos, diante do pequenino morto, se compadeciam das lágrimas e aflições da pobre mãe.
Mas ela, apegando-se com Santo Antônio, pedia-lhe a grandes vozes a sua intercessão; e prometia dar aos pobres tanto trigo quanto era o peso do filhinho, se o Santo de entre os mortos lho ressuscitasse.
E dali a pouco o menino que se levanta, vivo, e desata a correr para o colo da sua mãe. E todos os que eram presentes deram muitas graças a Deus e a Santo Antônio. Em louvor de Cristo.
Amém.
14 de fevereiro de 2021
Milagres que de Santo Antônio Provados Perante o Bispo de Pádua e Mais Outros Milagres que se Juntavam - Terceira Parte - Capítulo LV
CAPÍTULO LV
Como Santo Antônio curou a um frade que estava sem falar e de fraqueza morria
Chamava-se Frei Bernaldim e era natural de Parma. Ao fim de dois meses de doença, já não podia falar; e, de fraco, nem apagava candeia que lhe chegassem ao sopro.
Os médicos mais afamados da Lombardia, a ver se o curavam, nove vezes com ferro em brasa lhe haviam queimado a garganta e mais outra vez a cabeça.
Mesmo assim, nunca o pobre sentira alívio; antes, pelo contrário, a enfermidade crescera tanto que já corria perigo de o abafar. Lembraram-se então de o levar a Pádua ao túmulo de Santo António.
Apenas chegado ali, diante do sepulcro do Santo se prostou Frei Bernaldim, e com fervor pedia a cura. Em pouco tempo já podia resfolgar e cuspir, mas continuava sem fala. Prosseguindo, porém, na oração com outros frades e com o povo que acorrera por motivo da festa e do milagre, de repente golfou nojenta posta de pus, e logo cobrou a fala e ficou são.
E com muita alegria louvaram a Deus e a Santo Antônio ele mai-lo Ministro do convento e outros frades, cantando a Salve, Regina. À glória de Cristo. Amém.
12 de fevereiro de 2021
Milagres que de Santo Antônio Provados Perante o Bispo de Pádua e Mais Outros Milagres que se Juntavam - Terceira Parte - Capítulo LIV
CAPÍTULO LIV
Milagre que fez Santo Antônio a um homem de Pádua a quem os demônios arrancaram a língua e os olhos, e quiseram matar
Certo homem dos arredores de Pádua, a fim de desvendar uns segredos meteu-se uma noite na roda dos encantamentos em companhia de letrado sabedor das malas-artes de invocar os espíritos.
E estando já ambos dentro da roda, pôs-se o letrado a chamar os demônios, e ei-los que subitamente aparecem com grande alarido, estrépido e reboliço.
O homem de tão passado que ficou, nem atinava como responder aos demônios que por isso, enraivecidos, deitaram-se a ele e arrancaram-lhe a língua e vazaram-lhe os olhos. E quando, depois, o desgraçado abria a boca, nem sinal de língua se enxergava; e no sítio dos olhos era agora uma caverna funda.
Grande pesar lhe entrou no coração ao infeliz, tanto pelo pecado cometido como pelo castigo que sofreu. E porque não podia confessar a culpa, voltou-se para Santo Antônio.
Passou no convento, em oração, dias após dias, até que certa vez ao tempo em que os frades cantavam na missa o Benedictus qui venit in nomine Domini e o celebrante levanta a Deus, viu-se de repente com outros olhos novos na cara.
Correu notícia de milagre tamanho. Juntou-se muita gente e todos com o homem rezavam, a pedir a Deus, por intercessão de Santo Antônio, fosse servido dar-lhe também a língua assim como já lhe dera os olhos.
E, no coro acabava o canto de Agnus Dei com as palavras dona nobis pacem, quando ao homem, num instante, lhe cresceu a língua e começou de poder falar. E louvava a Deus, a apregoar as maravilhas do seu benfeitor Santo Antônio.
11 de fevereiro de 2021
Milagres que de Santo Antônio Provados Perante o Bispo de Pádua e Mais Outros Milagres que se Juntavam - Terceira Parte - Capítulo LIII
CAPÍTULO LIII
Começam os milagres de Santo Antônio confirmados por testemunhos, perante o bispo de Pádua
Um irmão converso que há vinte anos servia as Donas do Mosteiro de Pádua, era surdo-mudo de nascença. A língua tinha-a tão pequena que mal lhe saía da garganta, e retorcida a modo de toco de videira, pelo que, à vista, parecia seca e enverrugada.
Primeira e segunda vez uma visão lhe inspirou que recorresse com alma ao patrocínio de Santo Antônio; mas o homem, ignorante e rude como era, não compreendeu a visão, e andou a procurar o Santo, primeiro pela casa, e depois pelas ruas da cidade.
Terceira vez o inspirou a visão, e desta feita o homem acertou, e veio à igreja de Santo Antônio. E ali passou toda a noite com a maior devoção que pôde, a encomendar-se ao Santo glorioso.
E chegou o dia, e ele ainda em oração. E lá pela hora de Noa — ia a tarde em meio — viu-se rodeado por luz divinal, grande suor lhe banhou o corpo, fortes estremeções lhe sacudiram a cabeça e os membros, e, em dada altura, a língua cresceu-lhe de repente, e ei-lo que entrou de ouvir e falar.
E prorrompeu em louvores a Santo Antônio, a agradecer-lhe favor tamanho.
E — o que foi mais de maravilhar! — falava como se fora numa língua nova e de modo que não se entendia bem o que dizia.
Repetia apenas poucas palavras que por inspiração aprendera, as suficientes para o uso do falar corrente; mas referia coisas que de ninguém tinha aprendido. O que a todos espantava, pois o sabiam surdo-mudo de nascença.
À voz do milagre acorreu muito povo. E todos o aconselhavam a mudar o nome que tinha de Pedro, pelo de Antônio, em reconhecimento da graça recebida. Em louvor de Cristo bendito.
Amém.
10 de fevereiro de 2021
Milagres que Fez Santo Antônio depois da sua morte - Segunda Parte - Capítulo LII
CAPÍTULO LII
Como a pregação de Santo Antônio levou certos ladrões à penitência
Pelos anos do Senhor de mil duzentos e oitenta e dois, um velho muito velho contou a um Frade Menor como conhecera e tratara a Santo Antônio:
Fora ladrão e salteador de caminhos, e com mais outros, em número de doze, vivia nos montes a espreitar e a roubar os vizinhos.
Como chegasse até eles a fama dos sermões de Santo Antônio, combinaram uns com os outros:
— Vamo-nos um dia, disfarçados em traje de toda a gente, a ouvir a pregação.
É que não acreditavam no que lhes tinham dito: que a palavra do Santo era feita de chamas e queimava assim como o facho do profeta Elias.
E se bem combinaram, melhor fizeram. Pregava o servo de Deus e vieram eles, os ladrões, a escutá-la. E sua palavra de fogo de tal modo lhes queimou na alma que entraram logo de arrepender-se e compungir-se de seus pecados. E, acabado o sermão, muito contritos dos crimes e traições que haviam praticado, era de ver quem primeiro se abeirava de Santo Antônio para com ele se confessar.
A todos ouviu o Santo, cada um por sua vez. Impôs-lhes penitência salutar, e não esqueceu advertir que de maneira nenhuma haviam de tornar à vida de pecados em que andavam. Aos que perseverassem no bem, prometeu a glória eterna; e aos que reincidissem nos crimes costumados, anunciou desgraças espantosas.
E comentava o bom do velho: deles, alguns, infelizmente, voltaram a ser ladrões e em pouco tempo morreram na ignomínia; e os outros que perseveraram no bem, em paz de Deus e em suas próprias casas acabaram seus dias.
E contava ainda que a ele lhe dera o Santo, em penitência, visitar doze vezes a igreja dos Santos Apóstolos em Roma.
E vinha então na volta da última visita, quando com muitas lágrimas contou ao frade a sua história. E dizia que, depois de tão longo peregrinar na terra, toda a esperança a tinha na glória do céu que Santo Antônio lhe prometera.
9 de fevereiro de 2021
Milagres que Fez Santo Antônio depois da sua morte - Segunda Parte - Capítulo LI
CAPÍTULO LI
Como Santo Antônio em dia de sua festa apareceu, glorioso, a uma mulher de Torres Novas
Numa aldeia de Portugal chamada Alvorão, que é cerca de Torres Novas, vivia certa mulher casada com quem se deu este milagre.
Em companhia de outra moça da dita aldeia, dirigia-se ela para a vila com sua taleiga de trigo à cabeça, em dia de Santo Antônio. E, indo ambas seu caminho, eis que se levantou rijo vendaval a bater de frente. E, de tão forte, o vento derribou por terra a mulherzinha, e deixou-a estendida de costas no chão.
Logo neste ponto apareceu diante dela um mancebo, formoso de rosto, arrebatou-lhe a alma, e, levando-lha consigo, meteu por caminho largo que foi parar a um poço horrível, tenebroso, de cuja boca saíam medonhas e denegridas fumações à mistura com labaredas de fogo que subiam até o céu. Isto era o que se via de fora; lá dentro ouviam-se clamores e rugidos.
A mulher, toda a tremer, espreitou para o fundo, e viu muito desvairadas figuras de homens, de várias maneiras atormentados pelos demônios. Todos pareciam brasas vivas ou pastas de fogo que sempre hão-de arder. Sobre isto, a cada um atormentavam penas várias, conforme ao ofício em que haviam pecado: os mercadores onzeneiros traziam, por ignomínia, bolsas de fogo lançadas ao pescoço; aos avarentos e usurários recheavam-nos os demônios com moedas incandescentes que à força lhes metiam pela boca abaixo; os ladrões, adúlteros, homicidas, perjuros e mais pecadores sofriam todos eles tormentos especiais.
E perguntou a mulher ao mancebo como se chamava aquele tal lugar. E o mancebo respondeu que era ali o poço do inferno.
E — que é coisa mais de espantar! a mulher viu lá dentro a muitos que ao presente viviam neste mundo, mas que haviam de cair no inferno pois andavam na má companhia dos demônios. E eram de Lisboa e Santarém. E posto que, segundo a mulher afirmava, nunca visitara tais cidades, nomeava a cada um pelo seu
nome. E não pode ser motivo para descrer da visão o aparecerem nela as coisas por vir como se foram presentes.
E, depois, a mulher foi levada a um lugar ameno e deleitoso, todo matizado de ervas variegadas e de formosas árvores, e enfeitado com todo o gênero de flores. No meio erguia-se a modos de uma tenda muito branca e de maravilhosa estrutura, donde saíam dois a dois, como em procissão, muitos homens envoltos em resplendores, com coroas na cabeça e vestidos de branco mais claro que o sol. E atrás deles, todo adornado como se fora esposo em dia de noivado e aformosentado com maravilhoso trajar, vinha outro homem cercado de maior glória, em honra de quem — era de dizer — se fazia a procissão.
Perguntou a mulher que lugar era aquele e quem eram tais personagens de tão nobres vestimentas e em tão boa ordem. E respondeu o mancebo que era ali o lugar onde repousam os Santos, e que todos aqueles que via, eram os eleitos do Senhor Deus, e o último de todos, assim vestido com tantas galas, era Santo Antônio a quem os outros Santos festejavam, pois como os homens lá na terra solenizam os Santos no seu dia, do mesmo modo ali no céu os Bem-aventurados uns aos outros celebram o dia de sua festa. E neste ponto acrescentou:
— E agora hás-de saber o motivo por que foste aqui trazida e se te mostraram tantas maravilhas: foi para que aprendas a guardar os dias de festa, abstendo-te de trabalhos servis, e para que neles prestes aos Santos a reverência que lhes é devida, sobretudo guardando-te de cometer algum pecado.
E enquanto a alma da mulher andou assim em tais andanças, o povo levou seu corpo à vila de Torres Novas a fim de ser enterrado, pois de todo o ponto parecia morto. E já desciam à cova a mulher, quando, com grande espanto, ela se levantou e começou de contar a quantos ali eram presentes, tudo o que vira e ouvira. E o mesmo tornou depois a contar a muita gente, e também a mim que escrevo esta narrativa e a vera história desta visão. Á glória de Santo Antônio.
Amém.
7 de fevereiro de 2021
Milagres que Fez Santo Antônio depois da sua morte - Segunda Parte - Capítulo L
CAPÍTULO L
Como Santo António acudiu a uma mulher que se queria enforcar
Na vila de Serpa, em Portugal, vivia uma mulher de nome Sara, singularmente devota de São Francisco e Santo Antônio.
Seu marido, dissoluto e mau, fazia vida com mancebas, desprezando a esposa, a quem, ainda por cima, feria muitas vezes, e de muitas maneiras atormentava. E a tal ponto as coisas chegaram, que Sara, ralada de desgostos e desesperos, resolveu acabar com a vida, enforcando-se. Assim por uma vez se veria livre de tantos maus tratos, quantos o marido lhe fazia sofrer.
E uma noite, andava ausente o marido e todos em casa já dormiam, pendurou a corda em trave do seu quarto, fez o laço, e metia já nele o pescoço quando com grande clamor chamaram à porta da casa.
Sara numa pressa escondeu a corda, e foi saber quem chamava.
E encontrou-se com dois Frades Menores que humildosamente lhe pediram agasalho para aquela noite, por amor de Deus.
No sobressalto em que ficou por tão inesperadas visitas, perguntou quem eram e donde vinham. E responderam os frades:
— Somos dois Frades Menores. Um de nós chama-se Frei Francisco e o outro Frei Antônio, e vimos de muito longe.
— Então entrai — lhes disse ela — por amor de São Francisco e de Santo Antônio de quem sempre fui devota.
E pôs-lhe a mesa para que comessem. E com tão santas palavras foram eles entretendo a refeição, que a mulher começou de se sentir mudada. E em reveria de tão santos hóspedes, resolveu não se enforcar aquela noite, como antes planeara por instigação do demônio.
Recolheram-se os frades nos aposentos que lhes destinou, e a mulher voltou para o seu quarto.
Precisamente naquela hora os dois frades apareceram em sonhos ao marido de Sara. Começaram de estranhar-lhe suas torpezas e vícios, e vieram a dizer:
— Nós somos São Francisco e Santo Antônio e vimos a ti, mandados por Deus, com este aviso: se não deixas a má vida em que andas com mancebas, e de ora avante não tratas com amor tua mulher que por nós tem grande devoção, ao fim de três dias morrerás e cairás no fogo do inferno. Tua mulher vive em desespero com os maus tratos e desgostos que lhe dás, e esta mesma noite houvera-se enforcado se não lhe acudíramos indo hospedar-nos em tua casa. Vai, pois, ter com ela, e para sinal de que falamos verdade, pergunta-lhe pela corda com que se quis enforcar.
O homem, ao acordar, ficou passado de medo, e houve contrição de seus pecados. E, manhãzinha, logo recolheu a casa.
Já então a mulher se levantara e andava pasmada sem saber o que pensar. Os frades tinham desaparecido como por encanto.
Aberta a porta dos aposentos onde os deixara: e, dentro, a cama composta como se ninguém nela dormira. Não podia compreender como tivessem saído, pois todas as portas estavam trancadas.
Nisto chega o marido que benignamente a salvou. E, sem mais, desfecha logo a pergunta:
— Ó mulher, onde tens a corda com que esta noite te quiseste enforcar?
E ela, assombrada, nem sabia que responder.
— Sim — continuou o marido a explicar-se — sim, que eu bem sei a graça que a nós ambos nos fizeram São Francisco e Santo Antônio a quem esta noite deste pousada, pois nos livraram da morte do corpo e da perdição da alma.
Então confessou ela a verdade. E também de sua parte o marido lhe descobriu a visão que tivera e humildemente lhe pediu perdão.
E ambos viveram ainda largos anos em muita caridade e mútuo amor, entregues à prática da virtude. E a Deus e a Santo Antônio e São Francisco davam graças pelos favores que haviam recebido.
6 de fevereiro de 2021
Milagres que Fez Santo Antônio depois da sua morte - Segunda Parte - Capítulo XLIX
CAPÍTULO XLIX
Como Santo Antônio livrou da tentação a certa mulher de Santarém
No mesmo reino de Portugal, em Santarém, nos tempos del-rei Dom Dinis, vivia certa mulher mui pecadora, mas também mui devota de Santo Antônio.
Apertava com ela o demônio constantemente a induzi-la a que se matasse. E à pobre até lhe parecia que o próprio Jesus Cristo lhe segredava ao coração:
— Ó mesquinha, tantas maldades tens cometido que, só matando-te, te poderás salvar!
E o demônio que assim lá dentro a desinquietava com estas e semelhantes tentações, querendo também vexá-la exteriormente apareceu-lhe em forma humana a falar:
— Eu sou aquele Senhor a quem tens ofendido gravemente, e venho dizer-te que, se fores ao rio Tejo e nele te afogares em satisfação de tuas culpas, todas te hei-de perdoar e te darei a eterna glória.
Ora, aconteceu que, depois de o demônio muitas vezes lhe ter assim falado, o marido, num momento de qualquer arrelia, chamou-lhe “mulher endemoninhada”. Sanhuda por se ver escarnecida, desceu em direcção ao Tejo — era ao meio da manhã — na intenção de nele se afogar conforme o demônio tantas vezes aconselhara.
Quando passou junto à igreja dos Frades Menores, lembrou-se que era o dia da festa de Santo Antônio, e entrou dentro a encomendar-se ao Santo. Prostrada diante de sua imagem, toda em lágrimas fez sua oração:
— Ó meu Padre Santo Antônio, bem sabeis quanto vos quero!
Valei-me nesta aflição. Sê benigno para comigo, e mostrai-me se apraz a Deus que me vá no rio afogar ou se de todo em todo devo pôr de lado tal ideia.
Quando assim rezava, passou por ela um sono leve, e apareceu Santo Antônio a falar-lhe:
— Levanta-te, filha, e guarda este bilhete. Com ele serás livre dessa forte tentação.
E, acordando, viu a mulher que tinha ao pescoço um pedaço de pergaminho, no qual, a letras de oiro, estava escrito: “Eis a Cruz do Senhor! Fugi, inimigos da alma, pois venceu o Leão da tribo de Judá, raiz de David. Aleluia, Aleluia”.
E desde aquele momento foi livre da tentação, e enquanto guardou consigo o bilhete ou breve, nunca mais o demônio a apoquentou.
Soube do prodígio el-rei Dom Dinis — pois o marido o divulgou — e pediu para si o milagroso pergaminho. E o caso foi que, apenas sem ele, logo a pobre da mulher começou outra vez a ser tentada.
Compadeceu-se o marido, e como já não podia haver o breve, que dele não se desfazia el-rei, valeu-se dos Frades Menores que a Dom Dinis pediram uma cópia e a trouxeram. E quando a entregaram à mulher, eis que ficou livre da tentação, como dantes quando e consigo trazia o breve. E confessou devotamente seus pecados com lágrimas de contrição, e toda se converteu ao serviço do Senhor.
E por vinte anos ainda viveu santamente, e em paz acabou seus dias.
E el-rei Dom Dinis guardou o pergaminho original entre as suas relíquias que mais prezava, e com ele, por intercessão de Santo Antônio, muitos milagres se fizeram. Em louvor de Cristo bendito.
Amém.