31 de outubro de 2015

Casamento e Família - Dom Tihamer Toth.

Conferência IV


Parte 5/5


Não terminarei, porém, com esta nota triste, e sim com a bênção que o salmista lança sobre a família do homem temente a Deus: "Felizes todos aqueles que amam o Senhor, e que andam em seus caminhos. Alimentar-te-ás com o trabalho de tuas mãos, e serás feliz, e coberto de bens. Tua esposa será no meio da casa como a vinha fecunda; teus filhos serão ao redor de tua mesa, como novas plantas de oliveiras. Assim será abençoado o homem que teme ao Senhor. Que o Senhor te bendiga de Sião... e possas ver os filhos de teus filhos" (Sl 127). Amém.

30 de outubro de 2015

Sermão para a Festa de Cristo Rei – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] Cristo Rei


Em nome do Pai…
Ave Maria…
Nós vos proclamamos, ó Cristo, o único Príncipe dos séculos, o único Rei das nações e juiz das almas e dos corações. A multidão ímpia grita: não queremos que Cristo reine. Nós, aclamando-Vos, dizemos que sois o Rei supremo de todas as coisas. Ó Cristo, Príncipe pacificador, sujeitai as mentes rebeldes e reuni, no vosso único rebanho e por vosso amor, os que se desviaram. É para isso (para salvar os homens) que vós pendeis do madeiro ensanguentado e que exibis o Coração amante ferido pela lança cruel. É para isso que vos ocultais nos altares sob a figura do vinho e do pão, derramando, do vosso peito transpassado, a salvação para os filhos de Deus. Que os governantes das nações vos honrem publicamente. Que os professores e os magistrados vos venerem e que as artes e as leis exprimam a vossa realeza. Que as coroas dos reis, consagradas a vós, possam brilhar por essa submissão. Pelo vosso cetro brando, subjugai a pátria e as famílias. Glória a Vós, Jesus Cristo, que reinais sobre os reis da terra, com o Pai e o Espírito Santo, por todos os séculos. Amém.
Essas são as palavras, caros católicos, do belo hino das vésperas da Festa de Cristo Rei. São palavras que devem nos levar às lagrimas. Nos levar às lagrimas porque parece que triunfou a multidão criminosa que grita: não queremos que Cristo reine. As nações já não reconhecem o seu criador e o seu redentor, tampouco reconhecem a Santa Igreja Católica pelo que ela é: a única religião verdadeira, a barca fora da qual não pode haver salvação. As almas e os corações parecem recusar-se a ter Cristo como Rei e juiz. Quem, hoje, proclama realmente Nosso Senhor Jesus Cristo como o Rei supremo de todas as coisas? Quem se preocupa com o homem-Deus pregado no madeiro para a nossa salvação? Quem dobra os joelhos em verdadeira adoração diante de Cristo realmente presente sob as espécies do pão e do vinho? Quem são os governantes que O honram publicamente e sinceramente? Quem são os professores e os juízes que veneram o Salvador? Quais são as leis e as obras humanas que exprimem a realeza de Cristo? Quais são as pátrias e quais são famílias que se submetem ao poder suave de Nosso Senhor Jesus Cristo?
E, todavia, Cristo reina sobre todos e sobre tudo. Cristo reina porque é Deus, evidentemente. Cristo reina também enquanto homem. Enquanto homem, Cristo é Rei em virtude da união hipostática, quer dizer, em razão da união da natureza humana e da natureza divina na pessoa do Verbo. Enquanto homem, Cristo é Rei também por direito de aquisição, em virtude da redenção que Ele operou, adquirindo-nos, assim, por seu sangue. Aqueles que não se submeterem voluntariamente ao seu cetro suave, aqueles que não submeterem voluntariamente a Cristo a inteligência, pela fé, e a vontade, pela caridade, cumprindo seus mandamentos, serão submetidos contra a própria vontade pela justiça divina, sofrendo os castigos devidos pelos seus atos de rebeldia. E que Nosso Senhor tenha piedade de nós, que vivemos nesses tempos tão rebeldes à sua realeza. Que Nosso Senhor tenha piedade de nós, que somos tantas vezes rebeldes à sua realeza pelos nossos pecados.
A realeza de Cristo precisa ser reconhecida pelo Estado, que deve, então, reconhecer Nosso Senhor como Salvador, como o homem-Deus, professando a religião fundada por Ele, a católica. O Estado é uma criatura e, como tal, deve reconhecer e cultuar o seu criador e o seu redentor. Os governantes das nações devem cultuar publicamente a Cristo e reconhecer os direitos da Santa Igreja Católica, submetendo-se também aos seus ensinamentos. A realeza de Cristo deve estar presente em todas as esferas da sociedade. A realeza de Cristo deve estar presente nas escolas, onde os ensinamentos não devem jamais se opor ao ensinamento de Cristo e de sua Igreja. A realeza de Cristo deve estar presente nas leis do país, que não podem se opor à lei natural nem à lei de Cristo e de sua Igreja. A realeza de Cristo deve estar presente nas artes, que têm a função justamente de transmitir a verdade, o bem e o belo, de modo que as almas possam, por meio dela, se elevar a Cristo e se inclinarem à submissão a Ele. A realeza de Cristo deve estar presente também nas famílias, que devem se submeter em tudo a Cristo e à sua Igreja, em particular no que toca aos deveres matrimoniais.
Devemos, então, fazer o que nos cabe para que a realeza de Cristo seja reconhecida em todas as esferas da sociedade. Para tanto, é preciso que Cristo seja verdadeiramente Rei de nossas almas. De nada adiantará, ou muito pouco adiantará reclamar da sociedade, das escolas, das leis, das artes, se não fazemos a nossa parte, se não colocamos Nosso Senhor Jesus Cristo realmente como o Rei de nossa alma. De nada adiantaria proclamar a realeza de Cristo com a boca, se com minhas ações, com meus pecados propago o reino do demônio. Para que Cristo reine na sociedade, é preciso, primeiro, que ele reine em boa parcela dos indivíduos que compõem essa sociedade. Devemos, então, caros católicos, protestar a realeza de Cristo sobre nós não somente com palavras, mas também com obras, nos submetendo inteiramente a Ele, observando suas santas leis, amando-o inteiramente, com todo o nosso ser e sendo filhos fiéis da Santa Igreja Católica. Comecemos o reinado de Cristo pela nossa alma.
A melhor forma, porém, para que Cristo reine de modo suave e duradouro sobre as almas, e termine reinando também sobre a sociedade, é que Ele reine sobre as famílias. Cristo é rei das famílias. Ele é Rei da família porque a redimiu, fazendo do casamento um sacramento e restaurando-o na sua dignidade e excelência primitivas com seus três bens: filhos, indissolubilidade e fidelidade, isto é, exclusividade entre um só homem e uma só mulher. As leis de Cristo sobre o matrimônio não mudam. Ningúem, nem mesmo o Vigário de Cristo na terra, pode mudá-las. Ninguém tem o direito de afastar-se delas nem na teoria, nem na prática, pastoralmente. A família prospera, isto é, avança espiritualmente, quando começa a se submeter a Cristo Rei, aos seus ensinamentos, às suas leis, em particular às leis estabelecidas por Ele para o matrimônio. Fazendo do matrimônio um sacramento, Cristo aplica-lhe de modo particular as graças obtidas na Cruz, ajudando não só os cônjuges, mas ajudando toda a sociedade. Leão XIII, em sua Encíclica Incrustabili dizia, há mais de cem anos, que “assim como de um tronco corrompido brotam ramos piores e frutos miseráveis, assim a corrupção que contamina as famílias contagia e vicia desgraçadamente cada um dos cidadãos. E, ao contrário, continua o Papa, em uma família ordenada à vida cristã, cada um de seus membros vão se acostumando pouco a pouco a amar a religião e a piedade, a abominar as doutrinas falsas e perniciosas, vão se acostumando a ser virtuosos, respeitar os superiores e a refrear essa procura insaciável do interesse puramente privado que tão profundamente abaixa e enerva a natureza humana.”
Cristo, Rei dos indivíduos, das famílias, da sociedade, dos Estados. Viva Cristo Rei.
Em nome do Pai…

29 de outubro de 2015

Casamento e Família - Dom Tihamer Toth.

Conferência IV

Parte 4/5

Quando os jovens se casam, a Igreja e o Estado registram oficialmente este acontecimento, e no fim indicam, em estatística, quantos casamentos foram celebrados, qual a idade dos nubentes, qual sua nacionalidade, a classe social a que pertenciam e assim por diante.
O que, porém, a estatística não diz é quais os casamentos felizes ou infelizes; as cifras esquecem as alegrias e os dramas que se desenrolam. Quem conheceria as lágrimas silenciosas de tantos jovens casais, derramadas no silêncio das noites de insônia? Quem poderia conhecer a terrível herança que filhos e pequeninos trazem consigo, no seu organismo arruinado, só porque este ou aquele, entre os esposos, ou talvez os dois não quiseram viver antes do casamento de acordo com o mandamento divino?
Ah! de vossos lábios caem facilmente queixas contra o rigor da Santa Igreja, porque ela não permite "viver a própria vida" e "divertir-se" fora do casamento; vós, a cujos ouvidos retumbam as sedutoras palavras de "casamentos de amigos" ou "casamento de experiência" ou "casamento de weekend", olhai para a bela flor, que se abre aos raios do sol primaveril. Sobre ela pousa uma borboleta... suga-lhe o mel... este, porém, rapidamente se acaba ... a borboleta voa para uma outra flor, pois há milhares delas... Mas a pequena flor abandonada lá ficou, corola emurchecida, fanando-se na solidão e no abandono... Assim também, para a flor humana que, igualmente jovem e bela, quiser, porém, gozar de sua juventude contra a lei de Deus...
Moços e moças, olhai essa dolorosa imagem, antes, de abrirdes os vossos lábios numa queixa contra o sexto preceito da lei divina, ou antes que tenhais calcado aos pés, a proibição divina...

28 de outubro de 2015

Espírito de Cura d'Ars - Parte 3

PEQUENO PREFÁCIO DO AUTOR

Caras almas:
É porque vos amava que o Cura d'Ars tão bem falou do Céu, que é a pátria das almas; de Deus, que lhes é o Pai; de Nosso Senhor Jesus Cristo, que lhes é o Salvador e o Amigo.
Fostes, caras almas, toda a poesia do Cura d'Ars, toda a sua eloquência, toda a sua doutrina. Reproduzindo-vos a palavra dele, dou-vos o que é vosso.
Este livro é um relicário em que reuni inestimáveis tesouros, dispersos como relíquias desconhecidas, em breve perdidas talvez...
Seja-me permitido dizer-vos, irmãos, bem amados, que pus em desempenhar esta piedosa tarefa o que de melhor há em mim: amor, respeito, consciência, cuidado escrupuloso em não deixar perder nada, desejo sincero de vos ser útil.
Se achastes o P. Vianney na sua biografia, melhor ainda o achareis nestas páginas em que ele difundiu o seu espírito sem que eu tivesse de lhe misturar o meu.
A verdadeira palavra, bem o sei, é a palavra viva.
Mas, assim como sentis sobre o túmulo de Ars a virtude daquele que nele está encerrado, haveis de sentir também, espero-o, passar o seu hálito nestas palavras arrefecidas.
Nosso Senhor dignou-se abençoá-las nos lábios do Cura d’Ars para a salvação de grande número; digne-se ainda abençoá-las sob a minha pena, para o bem de alguns de vós e para a glória eterna de seu Santo Nome!

A. MONNIN

27 de outubro de 2015

Casamento e Família - Dom Tihamer Toth.

Conferência IV


PREPARAÇÃO PRÓXIMA PARA O MATRIMÔNIO


Parte 3/5


A preparação próxima não mais depende dos pais, pertence aos jovens. E para isto, há uma instituição toda particular: o tempo de noivado.
A religião católica cuida de um modo especial e com tato particular do noivado. Não é um tempo de embriaguez, de fantasias e quimeras, e sim uma época de estudar a si mesmo, e o futuro companheiro de vida.

A) O noivado é tempo de estudo sério de si mesmo. Estudo que se deve realizar invocando-se o auxílio particular de Deus. Há com efeito, na vida humana, um momento mais importante, em que haja mais necessidade da direção divina, que o da escolha de um esposo? Não é esta a significação do provérbio russo: "Partes para a guerra? Reza uma vez. Vais andar pelo oceano? Reza duas vezes. Vais casar? Reza três vezes".
a - É impossível que um jovem sério, no momento de casar-se, não faça um profundo exame de consciência, pois empreende uma grande tarefa.
Eu vou fundar um lar. Deverei ocupar-me de uma mulher e de filhos. Contentar-me com alegrias silenciosas e puras. Trabalhar desinteressadamente. Renunciar, muitas vezes, tantas coisas... Eis a primeira parte desse exame de consciência.
A segunda parte oferece pensamentos consoladores e confortantes: serei o chefe responsável de um pequeno e feliz reino. Meu trabalho sustentará minha família. Meu amor edificará uma vida nova, e eu é que hei de assegurar a felicidade deste novo ninho. Será isto difícil, será uma tarefa penosa, um sacrifício perpétuo, mas serei indenizado de tudo isto, ao cêntuplo, quando ouvir estas palavras: "Papai, Papai".
b - É impossível que também uma jovem séria, no instante de casar-se não faça, igualmente, um bom exame de consciência.
Deve refletir: Serei uma boa esposa, boa mãe de família, boa dona de casa? Há, em mim bastante fidelidade e amor, bastante espírito de renúncia e amor ao trabalho, bastante energia e indulgência, bastante profundidade e amor de Deus, para realizar esta tríplice e pesada tarefa de esposa, mãe e dona de casa? Há, em mim, mais vida interior que vaidade? Amo eu mais o lar, que a vida mundana? É isto difícil, penoso, será um perpétuo sacrifício, mas serei mil vezes indenizada de todas as renúncias, de todas estas vigílias, de todos estes trabalhos, quando ouvir estas palavras: "Mamãe, Mamãe!"
O noivado é, pois, um tempo de sério estudo de si mesmo.

B) Mas é também um tempo de aprender a estudar seu futuro esposo. 
a - Os casamentos infelizes podem ter múltiplas causas, a mais frequente é a precipitação com que eles foram realizados. Viram-se ontem. Amam-se hoje, e casam-se amanhã. Juram uma "eterna fidelidade", mas não sabem a quem. Não sabem qual o temperamento do outro, quais suas idéias, seus hábitos, seus defeitos e seus planos... Pode-se ir para frente na vida com tal leviandade? Tem-se o direito de se casar por um entusiasmo irrefletido sob a impressão embriagadora de uma noite passada no baile?
b - A Igreja precisamente destinou o noivado para os interessados refletirem sobre este passo definitivo e se conhecerem reciprocamente não só nos dias da festas mas ainda nos dias de semana. 
Um poeta alemão compôs uma encantadora poesia intitulada " A prova do amor". Ensina ele, à jovem, só dar o seu coração ao moço que for capaz de apanhar um lírio, com tal delicadeza que não lhe caia uma gota de orvalho. Que profundo simbolo este belo pensamento! Que aviso! Jovens, não esqueçais de exigir um do outro uma grande e profunda delicadeza de alma.
Sim, eis o que é importante, e não o que poderão dizer de vosso noivado o astrólogo, a cartomante e a quiromante. Não se pode acreditar que haja pessoas, que consultem pássaros ou outros animais acerca da felicidade de seu casamento.
O noivado, na intenção da Igreja, deve permitir aos jovens verificar se eles possuem as condições necessárias para um bom casamento:
Quais são estas condições? Falaremos delas proximamente; mesmo porque ainda temos que expor uma outra ideia a respeito do noivado.

C) Não é curioso que a Igreja, desejando vivamente para seus filhos um feliz casamento, sente, contudo, temores a seu respeito, durante o noivado, sente uma certa angústia, que alguns julgam exagerada? De um lado ela quer que o noivado seja um tempo de conhecimento mútuo, de outra parte, porém, proíbe-lhe com firmeza inexorável muitas coisas a que o coração apaixonado dos noivos não poderia renunciar senão com pesar.
a - Muitos não compreendem isto. Muitos se lamentam com amargura que "A Igreja não confie neles, atribuindo-lhes maus pensamentos". De outro modo ela não exigiria que eles se encontrassem só na presença de seus pais ou conhecidos e não no abandono de uma entrevista particular. Por que não poderia eu fazer, com meu noivo, um passeio no fim da semana, ou viagem mais longa? Por que não poderíamos permanecer a sós, um com o outro? Como a nossa religião tem pouca confiança em mim, dizem amargamente muitas moças e moços.
Ora, não é de vós que a Igreja desconfia, nem de um tal moço ou de uma tal moça, mas sim do homem, da natureza humana tão fraca e inclinada ao pecado. Se vós e vossa noiva fosseis de madeira ou pedra, a Igreja não se insurgiria contra as excursões a sós, os passeios de lancha a sós, as voltas de motocicleta sozinhos, os weekend a sós. Mas vós sois jovens, e não sois de madeira nem de pedra. Sois criaturas humanas. Acreditai na experiência milenária da Igreja. Ficai sabendo que por mais puro que seja o vosso amor, no intimo de todo o coração humano, e do vosso também, tumultuam impulsos perigosos. E a Igreja, pelas suas leis, aparentemente muito rigorosas, quer somente impedir que as paixões cegas se desencadeiem dentro de vós.
b - Mas, realmente, é muito pouco o que a nossa religião permite aos noivos. Ela permite abraçarem-se respeitosamente ao se encontrarem ou ao se despedirem. E é tudo. Se eu não manifesto, porém, o meu amor ao meu noivo, de outro modo, ele se afastará, deixar-me-á...
Ao contrário, pela atitude recatada da moça séria, adquirirá esta uma confiança e uma estima ainda maior de seu noivo. Atualmente eu não estou unida a ele, definitivamente, não lhe pertenço ainda, e eis por que eu o trato com uma delicada reserva. Ele pode, contudo, confiar em mim, pois, quando eu lhe pertencer, serei unicamente dele e nunca de um outro. Mostrei-lhe que sei ser forte...
Cada jovem par noivo não deveria pensar assim?

26 de outubro de 2015

Espírito de Cura d'Ars - Parte 2

Abbé A. Monnin


Espírito do Cura d’Ars


NOS SEUS CATECISMOS, HOMILIAS E CONVERSAÇÃO



Vena Vitae os justi..
(Prov 10, 15). A boca do justo é
uma fonte de vida



Tradução de Lula Leal Ferreira

III EDIÇÃO

1959

EDITORA VOZES LIMITADA

PETRÓPOLIS RJ

25 de outubro de 2015

Casamento e Família - Dom Tihamer Toth.

Conferência IV


PREPARAÇÃO REMOTA PARA O MATRIMÔNIO


Parte 2/5


Entre os meios de preparação remota para o matrimônio, insistimos principalmente sobre três pontos, absolutamente necessários para a educação dos filhos, em relação à felicidade de seu futuro casamento. São: o domínio de si mesmo, a simplicidade e a pureza. 

A) Preparam os seus filhos para o matrimônio feliz os pais que os educam, seriamente, a se dominarem. Creio não haver necessidade de grandes argumentos para prová-lo.
Que é a vida conjugal? Uma comunidade de vida; ora, a vida comum não é possível, sem domínio sobre si, indulgência, e capacidade para perdoar.
A vida comum exige certamente muita indulgência, e domínio sobre si mesmo. E muitos dramas conjugais se originam justamente deste fato: os esposos, na infância, não aprenderam a se dominar, a respeitar a vontade alheia. Muito maior é este perigo para o filho único, que não tendo nem irmãos, nem irmãs, adquire o hábito de, em tudo e sempre, só se interessar por si mesmo.
Aquele, porém, que no casamento só se procura, buscando seus próprios interesses, suas próprias vantagens, e sua própria felicidade, não pode levar uma vida conjugal harmoniosa; pois sempre será tentado a ver, na sua união, apenas um objeto de prazer, um instrumento para garantir-lhe a própria satisfação. Ora, a base de uma vida conjugal harmoniosa é saber reconhecer o outro esposo como uma personalidade dotada de uma vontade própria, e tendo igualmente direitos, isto é, casar-se não para ser feliz, mas para tornar feliz, encontrando assim a felicidade própria.

B) Não é menos importante, porém, sobretudo em nossos dias, educar também os filhos na simplicidade, na modéstia e na renúncia a toda pretensão.
a - Na realidade, reconhecemos com tristeza que, muitas vezes, o obstáculo ao casamento é a falta de colocação, de meios materiais para a subsistência, e a insuficiência de rendimentos! Esta é a verdade. É preciso, porém, acrescentar: não é só a exiguidade de rendimentos, que para muitos, hoje, impossibilita a fundação de uma família. Há um outro fator, as numerosas exigências de alguns. E agora, os meus ouvintes não me queiram mal se lhes digo francamente que, principalmente, certas mulheres é que são, hoje, muito exigentes.
De fato, hoje, o jovem, na idade de se casar, não tem, muitas vezes, rendimentos necessários para sustentar uma esposa, que apenas cuida de visitas, dancings, que precisa manicura, cabeleireiro, que esta ao par das coisas de teatros, dos acontecimentos mundanos, nada conhecendo do governo da casa, nem da cozinha, e do cuidado dos filhos. Sim, quando os ordenados são modestos, modestas devem ser também as exigências.
Quando, ao contrário, um moço encontra uma jovem modesta, trabalhadora, discreta, que ao lado da instrução e da inteligência possui também o amor ao trabalho, e o espírito de economia, pode desposá-la corajosamente, ainda que seus rendimentos sejam módicos.
b - Permiti-nos, porém, uma objeção, dirão talvez algumas moças. Se procedemos para com os moços de um modo tão atrasado, tão antigo, com maneiras de outro século, então, nunca nos casaremos. Observai que eles querem se divertir, e certamente não o farão com moças simples e modestas, e sim com as que se pintam, que sabem namorar, procurando só o prazer!
Eis como se desculpam muitas excelentes jovens. Se refletissem, porém, um pouco, veriam como não tem razão. De fato, os jovens gostam de se distrair, sim, com moças frívolas e "coquetes", mas não as querem por esposas. E como eles tem razão! Porque desposar uma jovem que não vê o sentido e o interesse da vida, senão em continuas distrações, é evidentemente caminhar para uma catástrofe.
E as moças que não são nem frívolas, nem irrefletidas, nem pintadas, nem ricas, mas sim amáveis e modestas, serão consoladas pela comparação espirituosa daquele escritor italiano que encontra analogia entre os diferentes relógios e os diversos gêneros de moças.
As jovens mundanas e coquetes assemelham-se aos relógios de torres: todos olham, mas ninguém as toca.
As jovens bonitas, mas frívolas, assemelham-se aos carrilhões: distraem, a princípio, mas por fim aborrecem.
As jovens ricas são semelhantes aos relógios de ouro: apenas são vistas; informa-se de seu valor.
As jovens, que muito falam, são como despertadores: fatigam os ouvidos.
E as modestas?
Estas são como os relógios que regulam bem: pode-se contar com elas.
Concluamos que os filhos educados na modéstia e na simplicidade tornam-se, mesmo em modestas condições de vida, esposos felizes.

C) Ao lado do domínio de si e da simplicidade, e antes mesmo destes dotes, uma tarefa indispensável aguarda ainda o educador: Educar os filhos na moralidade e na pureza.
Qualquer que seja a ideia filosófica de um homem, quer ele pertença ao cristianismo ou outra religião, quer seja crente ou incrédulo, ele não poderá negar que a castidade e a continência total, na juventude, constituem a melhor preparação para o matrimônio e seu dote mais precioso.
A vida pura e casta é de grande valor cultural: é a escola incomparável da vontade, dá o espírito de disciplina indispensável à vida conjugal; aos céticos, que abanam incrédulos a cabeça, prova que a sensualidade não  absorve, de modo algum, a existência de um homem, ainda mesmo rico.
Tudo isto, nós já o sabíamos.
Em nossos dias, porém, uma nova ideia exige na juventude a castidade perfeita, até o casamento. É o eugenismo. Isto é, aquela ciência que mostra cada
 vez mais claramente, pelas suas experiências, que um sangue puro e sadio é a maior bênção, e o maior tesouro que um jovem par pode apresentar, fundando uma nova família.
E como, neste ponto, os pais têm uma grave missão a cumprir com relação aos filhos, permiti-me mostrar agora minuciosamente este seu duplo dever.
a - Eis o primeiro: Pais, instrui vossos filhos! Na idade do crescimento, os rapazes e as adolescentes, sentem em si fenômenos até então desconhecidos; quem os guiará nesta idade critica? Quem  os ajudará a se compreenderem, e a compreenderem estas misteriosas transformações físicas e morais, pelas quais deverão passar, conforme a vontade do Criador? Esta é a missão dos pais.
Quem, senão a mãe de família, dirá a seu filho ou a sua filha, ao crescerem, o que significa esta nova e natural evolução fisiológica, que traz consigo uma condição nova, e que é preciso conhecer tranquilamente e com uma santa emoção?
Quem, senão a mãe, dirá a seu filho moço o que deve pensar das moças, e à sua filha moça o que deve pensar dos moços? Ela é quem deve cuidar desta planta, que brota na alma de seus filhos, e donde sairá o respeito ideal para com o outro sexo, as ideias cavalheirescas, o tato, as atitudes respeitosas de uma pessoa delicada.
E quem, senão o pai, dirá aos filhos já crescidos que não há duas espécies de moral, uma antes do casamento e outra durante o casamento? Que o noivo e a noiva estão sujeitos às mesmas leis morais, e que por sua vez o marido esta obrigado às mesmas leis que sua esposa? Ah! se cada um compreendesse, se compenetrasse e observasse estas coisas, como os casamentos seriam mais felizes, mais harmoniosos e mais belos, e como os esposos e os filhos gozariam mais saúde! Sabeis quantas doenças terríveis desapareceriam da superfície da terra? Quantos dramas de mulheres em pranto, de mais decepcionadas, de esposas enganadas também se dissipariam? A própria prescrição eugênica tornar-se-ia então supérflua!
Mas se alguns pais querem se subtrair a este dever, sob o pretexto de que é uma tarefa difícil e penosa, apresento-lhes, apenas, esta comparação: a alma infantil é como a erva que quer agarrar-se ao carvalho robusto a fim de subir pelo seu tronco. Se não encontra porém o carvalho sobe por uma coluna cheia de teias de aranhas ou um tronco apodrecido. Sobe, mas depois compartilha da mesma sorte.
Pais, que me ouvis, repito-vos, instruí vossos filhos!
b - Ajudai vossos filhos, eis a segunda obrigação dos pais.
Aqui a ciência não basta. Tudo depende da força de vontade. Ajudai-os, pois, e obrigai-os a utilizarem-se de todos os meios naturais e sobrenaturais, que os auxiliarão a observar a continência e a pureza em sua juventude.
Os meios naturais são também necessários, como por exemplo a nobreza da vida sentimental, a resistência física, a força de vontade. Fazendo mesmo tudo isto, não poderemos atingir a nossa meta sem o concurso dos meios sobrenaturais, sem a recepção dos sacramentos e uma vida profundamente cristã. Escutemos estas palavras de Santo Agostinho: "Ó meu Deus, que vosso amor me inflame! Vós me ordenais a castidade: dai-me fazer o que pedis, e pedi-me o que quereis" (Confissões, 10, 29).
Ante os sofismas do mundo atual, sedutor e mentiroso, ensinai a vossos filhos a fé e a confiança. A fé e a confiança capazes de conservar uma castidade perfeita até o matrimônio, pois Deus, que a exige, conhece também a natureza humana, seus instintos e seus desejos, assim como conhece a força de vontade do homem e da graça sobrenatural. Só obtém a verdadeira liberdade aquele que sabe vencer as exigências cegas de seu instintos. Grande é a força adquirida pelo jovem na luta para conservar sua pureza quando lhe mostramos sua missão: goza e prova as alegrias da vitória, que alcançarás se souberes te libertar da escravidão dos desejos pecaminosos, para subires à liberdade da pureza.
Eis com que prudência e amor devem os pais preparar seus filhos, desde jovens, para a felicidade do matrimônio.

23 de outubro de 2015

Casamento e Família - Dom Tihamer Toth,

Conferência IV


PREPARAÇÃO PARA O MATRIMÔNIO


Parte 1/5

Um provérbio afirma: "Filhos pequenos - pequenos cuidados, filhos grandes - grandes cuidados". Pena que não haja uma continuação: os cuidados são, com efeito, maiores, quando, já maiores, se tornam eles moços ou moças, e querem voar para fora do ninho doméstico, e construir um novo lar. É, na realidade, o instante em que o coração dos bons pais são dominados por uma grande ansiedade: será para a felicidade o casamento que seu filho ou sua filha quer contrair perante o altar?
Não há pais que deixem de pensar, com o coração opresso e angustiado, no futuro casamento de seus filhos. Há, porém, muitos, infelizmente, que se atêm a este sentimento confuso e angustiante, abandonando tudo ao acaso, em lugar de, por meio de uma educação sábia e previdente, assegurarem a felicidade futura desse casamento.
Os filhos devem ser preparados para o casamento, e quantos pais negligenciam esta educação, Ensinam-lhes a polidez e as boas maneiras, ensinam-lhes a se apresentarem com desembaraço e elegância, ensinam-lhes os esportes, a dança, a música, as línguas, mas só não cuidam de lhes ensinar uma coisa, e de grande importância: a realizarem um casamento feliz. Para a felicidade no matrimônio, há necessidade de uma preparação: 1) remota e 2) próxima, e se nesta instrução indicamos, em linhas gerais, estas obrigações, é para que os pais se esforcem, graças a elas, por assegurar a paz e a felicidade no casamento de seus filhos.

22 de outubro de 2015

Sermão para o 21º Domingo depois de Pentecostes – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] Armadura para o combate espiritual


Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
“Revesti-vos da armadura de Deus, para poderdes resistir aos estratagemas do demônio.” (Epístola do dia)
Na coleta da Missa de hoje, pedimos a Deus que proteja a sua família, que somos nós, das adversidades, dos inimigos. Pedimos isso a fim de que possamos servi-lo pela prática das boas obras.
Na Epístola de hoje, São Paulo nos dá o meio para nos protegermos do inimigo: a armadura de Deus, com a qual devemos nos revestir. Pedimos a Deus a proteção contra os inimigos e devemos nos revestir da armadura de Deus.
Está claro, então, que existe um combate. Todavia, nesse combate, qual é o inimigo a ser enfrentado? É indispensável, em uma guerra, conhecer o inimigo para saber que armas devemos adotar para enfrentá-lo, para combatê-lo eficazmente. As armas devem ser proporcionais ao inimigo. O inimigo, nos diz São Paulo, não é a carne nem o sangue, quer dizer, não são os nossos próximos. Os nossos verdadeiros inimigos são os principados e as potestades, os espíritos do mal. Nosso combate é contra o demônio e os outros anjos caídos, rebeldes a Deus. Nossos inimigos são os demônios, que querem nos levar ao pecado, que é a inimizade com Deus.
Trata-se, assim, de um combate espiritual e que não é puramente humano. Temos que combater contra os demônios, superiores a nós, pois são puro espírito. Sozinhos, com nossas próprias forças, perderemos. Precisamos nos revestir, então, da armadura de Deus, para podermos resistir nos dias maus, nos momentos em que somos tentados.
A armadura de Deus tem a verdade como cinturão. A justiça como couraça. O zelo para propagar o Evangelho da paz como calçado. A fé como escudo. A salvação como elmo, como capacete. E a palavra de Deus como espada.
O cinturão amarra os rins e significa a pureza, a castidade. Todavia, São Paulo não fala do cinturão da castidade, mas do cinturão da verdade. O apóstolo nos indica, então, que, para guardar a castidade, é preciso ter um amor profundo à verdade. Devemos estar amarrados, presos, dominados pela verdade. Somente esse amor profundo pela verdade é que nos possibilitará resistir a um amor desordenado pelos prazeres. É somente com o amor à verdade que conseguiremos guardar a castidade, a pureza. Sem esse amor, naufragaremos, tragados por amores desordenados. O inimigo nos ferirá mortalmente. Primeira parte da armadura de Deus: o cinturão da verdade.
A justiça como couraça. Devemos estar protegidos sem brechas, pela nossa vida irrepreensível. Devemos buscar a justiça, que aqui é entendida não somente como a virtude particular de dar a cada um o que lhe é devido, mas como a santidade. Se não tivermos a justiça como couraça, isto é, se não tivermos o desejo sincero e a busca real da santidade como couraça, daremos alguma brecha para o inimigo nos atacar e nos ferir mortalmente. Segunda parte da armadura de Deus: a couraça da justiça.
O zelo para propagar o Evangelho da paz como calçado. Nosso calçado deve ser a prontidão, o zelo para fazer o bem, para propagar o Evangelho pelo exemplo e pelas palavras. Para propagar o Evangelho da paz, que não é a paz do mundo, mas a paz de Cristo, que existe quando se seguem os seus ensinamentos. Aquele que está calçado está pronto para fazer a viagem, para se deslocar, sem mais tardar. Aquele que possui o zelo está sempre pronto para fazer o bem, com boa vontade, sem murmurar, sem tardar, sem perder tempo. E assim devemos ser. Terceira parte da armadura de Deus: o calçado do zelo para propagar o Evangelho.
A fé como escudo. Sim, é pela fé que poderemos nos defender contra os ataques à verdade e ao bem. Sem a fé, nossa inteligência é capaz de conhecer várias verdades da lei natural, mas ela tende, pouco a pouco, a cair em erros cada vez mais graves e a negar verdades cada vez mais elementares. É o que acontece hoje, por exemplo, ao se admitir o assassinato dos mais indefesos pelo aborto. De forma que, muitas vezes, apenas os que têm a fé continuam a afirmar tais verdades elementares, opondo-se ao aborto, ao divórcio, à dissolução da família, por exemplo. E, claro, pela fé conhecemos Deus em sua vida íntima, conhecemos a verdade sobrenatural: a Santíssima Trindade, a Encarnação, a redenção… Sem a fé, abandonados às nossas próprias forças, seremos feridos mortalmente. Quarta parte da armadura de Deus: o escudo da fé.
A salvação como elmo. O elmo, o capacete, está na cabeça, para protegê-la. Nosso elmo deve ser o desejo pela salvação. Nossa cabeça, nosso pensamento e nossas ações devem estar protegidos pelo desejo de alcançar a salvação. Com esse desejo de alcançar a salvação, não faremos nada contrário a ela. E dirigiremos tudo para a minha salvação. Quinta parte da armadura de Deus: o elmo da salvação.
Finalmente, a palavra de Deus como espada. Não devemos apenas nos defender contra o inimigo maligno, mas é preciso também atacar. E o atacamos com a palavra de Deus, com o Verbo de Deus, que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Unidos a Nosso Senhor Jesus Cristo não somente resistiremos ao demônio e ao pecado, como o derrotaremos, como o fez Nosso Senhor com sua vida, paixão, morte e ressurreição. Sexta e última parte da armadura de Deus: a espada da palavra de Deus.
O devedor da parábola do Evangelho de hoje é o exemplo de alguém que não compreendeu em nada o combate. Não compreendeu quem é realmente o inimigo, que é o pecado e o demônio. Ele pensa que seu real inimigo é o seu devedor, o seu próximo. Ele não tem amor pela verdade, mas se deixa guiar pelo desejo dos bens desse mundo. Ele não está revestido de justiça. Sua dívida imensa foi perdoada pelo rei, mas ele se nega a perdoar quem lhe deve pouco, colocando a pessoa e sua família na prisão. Não tem zelo para fazer o bem, mas, ao contrário, faz o mal. Não se defende do mundo e de suas máximas com a fé nem se preocupa com a salvação, esquecendo-se da sentença do Rei, do justo juiz, que é Deus. Sua espada não é a palavra de Deus, mas o desejo pelos bens do mundo.
Por outro lado, Jó, citado no ofertório, é o exemplo de um homem revestido da armadura de Deus. Está claro, para ele, que o inimigo a ser combatido é o demônio que o tenta. Ele não se preocupa com os bens desse mundo. Tendo perdido tudo o que tinha – e Jó tinha muitos bens materiais, uma bela família e tudo de legítimo que se pode desejar – ele permanece fiel a Deus. Ele ama a verdade e sofre por ela. Ele busca a santidade, a justiça, e apenas isso lhe interessa. Jó tem prontidão para fazer o bem, tem a fé, acreditando em Deus. Seu objetivo é a salvação e, por isso, suporta todas as provações, apoiando-se na palavra de Deus, nas promessas divinas.
Aqui nesse mundo, caros católicos, somos membros da Igreja militante, quer dizer, militamos, combatemos contra os nossos pecados e combatemos para amar a Deus cada vez mais. Não somos simplesmente uma Igreja peregrina ou em caminho. Somos uma Igreja militante. O inimigo é o demônio e o pecado. Nossa armadura deve ser a armadura de Deus: o cinturão do amor à verdade, a couraça do desejo pela santidade, o calçado do zelo para fazer o bem, o escudo da fé, o elmo do desejo pela salvação e a espada da palavra de Deus.
Em nome do Pai…


21 de outubro de 2015

Casamento e Família - Dom Tihamer Toth.

Conferência III

Parte 4/4

Talvez tudo isto vos pareça cheio de idealismo, de otimismo e presunção.
Quando hoje, toda a sociedade, por assim dizer, pensa diferentemente, quando a avalanche da vida moderna arrastou consigo a indissolubilidade do matrimônio, quando hoje, mesmo na melhor sociedade, se anuncia sem admiração o terceiro divórcio deste, ou o quarto casamento daquele, será razoável e prudente, ou, ao contrário, será uma empresa desesperada, trabalhar para a reconstrução de lar demolido?
Realmente, quando uma imensa avalanche se despenha, acarreta terríveis prejuízos, e ante esta desgraça pasma-se admirado. Isto, porém, não dura senão um curto momento. Momentos depois pás e enxadas da equipe de salvamento esforçam-se para salvar aquilo que pode ser salvo.
A concepção frívola da vida, como imensa avalanche, abateu sobre o santuário, outrora tão forte, da família, e transformou-o. A Santa Igreja também ficou horrorizada ante esta tragédia. Não cruzou, contudo,os braços inertes, mas movimentou sua equipe de salvação.
Eis por que a Igreja clama atualmente, com uma força sempre maior, a toda humanidade:
Homens, despertai-vos!
O casamento não é uma coisa puramente profana. Não, mil vezes não! O matrimônio é um sacramento. Assim como falamos do sacramento da penitência e da eucaristia, assim também deveríamos falar do matrimônio. É pena que a expressão "santo matrimônio" não seja de uso cotidiano. Talvez cada um compreenderia mais claramente que suas raízes, sua origem e sua força vivificadora ultrapassam a ordem natural.
A Igreja clama incessantemente ao mundo, e clamará enquanto a humanidade não a ouvir de novo; o casamento é também um dos sete rios que derramam sobre nós a graça da redenção. O casamento é igualmente uma das sete fontes sagradas, donde jorram as águas da vida sobrenatural. O casamento é um dos sete cálices quase a transbordar o sangue de Cristo. O casamento é uma das sete mesas, em que Cristo serve a graça que fortifica a vida da alma. O casamento é um dos sete bronzes cujo som reconfortante e argentino guiará os viajores no caminho da vida eterna...
Agradeçamos à Igreja a força com que proclama, e a coragem inabalável com que defende, em nossa época de ruínas morais, o rochedo, base da sociedade humana: o sacramento do matrimônio. Amém.

20 de outubro de 2015

Sermão para o 20º Domingo depois de Pentecostes – Padre Daniel Pereira Pinheiro, IBP

[Sermão] Carpe Diem: redimir o tempo e o plano de vida



Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
“Irmãos, tende cuidado em andar com prudência: não como insensatos, mas como pessoas circunspectas, aproveitando o tempo, porque estão a correr maus dias.” Essas são as palavras de São Paulo no início da Epístola de hoje, tirada de sua Epístola aos Efésios.
O apóstolo nos diz para andar com prudência. A prudência é escolher os melhores meios para chegar a fins bons. Em última instância, a prudência é escolher os melhores meios para que cheguemos a nosso fim último, que é a felicidade eterna. A imprudência pode vir do fato de que escolhemos meios ruins para chegar a um fim bom ou porque temos em vista um fim mal a ser atingido. Se somos prudentes, escolhemos os melhores meios – lícitos, claro -, para chegarmos ao céu.
São Paulo acrescenta que não devemos ser insensatos, tolos, mas circunspectos. A circunspecção é parte da virtude da prudência. Pela circunspecção, eu considero as circunstâncias, aquilo que está em torno de mim, para poder agir da melhor maneira possível e atingir meu objetivo, que é a salvação. O texto original latino nos fala, porém, não propriamente da circunspecção, mas da sabedoria: não sede insensatos, mas sábios. O sábio é aquele que considera todas as coisas a partir de uma visão elevada. O sábio enxerga as coisas como Deus as vê, dando importância a cada coisa segundo a sua ordenação a Deus. O sábio considera todas as coisas com o olhar da fé, sabendo que estamos aqui nessa vida para ganhar o céu. O sábio não se deixa enganar pelas máximas do mundo, pelo naturalismo que nos faz esquecer de Deus, pelo ateísmo prático, que desconsidera Deus no quotidiano, como se Ele não existisse. O sábio não se deixa levar pelas falsas soluções contrárias à fé ou que não colocam Cristo e sua Igreja em primeiro plano.
E o sábio sabe aproveitar o tempo. Ele não o aproveita como os pagãos ou como os cristãos que vivem como pagãos. Estes, tolos, dizem como Horácio, poeta pagão de antes de Cristo: carpe diem, aproveite o dia, aproveite o tempo. Ele dizia isso para que as pessoas vivessem afogadas em suas desordens, agindo segundo suas paixões. Colocavam a felicidade nisso: nas satisfações das paixões e dos sentimentos. Carpe diem, devemos dizer nós, os católicos, aproveitemos o dia para ganhar o céu, como sábios. É assim que o sábio aproveita o dia, aproveita o tempo. Movido pela perspectiva da eternidade, o sábio sabe que cada instante é precioso para que possa acumular o verdadeiro tesouro, para que possa multiplicar os talentos que lhe foram dados por Deus. Sabe que não pode desperdiçar o tempo com coisas vãs e fúteis. Sabe que não deve consumir seu tempo diante da televisão para ver não somente coisas vãs e fúteis, mas ofensivas a Deus e prejudiciais para a sua alma. E assim também com a internet, muitas vezes. Se consumir seu tempo com isso, será consumida a própria pessoa por essas coisas. O sábio sabe que cada instante de sua vida é precioso para estar em estado de graça, pois o instante seguinte pode ser o de sua morte.
Mais do que aproveitar o tempo, o sábio sabe redimir o tempo, como nos faz compreender o original latino do texto. O sábio redime o tempo, usando-o para o bem de sua alma. O sábio sabe que deve procurar aproveitar ao máximo o tempo, redimir o tempo, principalmente quando os dias são maus. Maus eram os dias no tempo de São Paulo. É bem provável que o Apóstolo faça menção à perseguição sangrenta, com a qual ele mesmo sofreria pouco tempo depois, sendo martirizado pelos romanos. Vivemos também nós dias maus. Os maus dias hoje são maus pela apostasia generalizada, pela tentativa de mudar e de corromper as palavras de vida de Nosso Senhor mesmo nas questões mais elementares. Maus dias porque os homens são insensatos, tolos, dizendo em seus corações: Deus não existe ou, se existe, Ele está sempre de acordo com a minha vontade. Maus dias porque vamos caminhando para o abismo. Cícero, autor pagão de antes de Cristo, exclama diante da depravação de costumes de sua época: “o tempora, o mores” (ó tempos, ó costumes). O que devemos nós exclamar diante de uma sociedade que volta aos mais bárbaros costumes pagãos depois de ter conhecido a luz sublime do Evangelho? Devemos redimir o tempo, dobrando o joelho diante de Nosso Senhor Jesus Cristo, fazendo boas obras, vivendo a fé católica. Não devemos, então, perder o nosso tempo, mas devemos redimi-lo. Aproveitá-lo realmente para a nossa salvação. Fazer tudo com caridade, mesmo as coisas mais simples e necessário. Como nos diz São Paulo (1Cor 10, 31): “quer comais, quer bebais, fazei tudo para a maior glória de Deus”, isto é, por amor a Deus e para que Ele seja mais conhecido e amado.
Devemos, então, caros católicos, evitar a ociosidade, que consiste em ficar à toa ou desperdiçar o tempo com coisas vãs, inúteis. A ociosidade é mãe de todos os vícios, em particular ela é mãe da impureza e da preguiça, sobretudo da preguiça espiritual. Para redimirmos o tempo e evitarmos a ociosidade, devemos fazer um plano de vida. É o que nos sugere a sabedoria católica.
O plano de vida é estabelecer um horário completo e detalhado das ocupações do dia, para procurar cumpri-lo fielmente. Do levantar ao dormir e abarcando todas as atividades. Quais orações e em que momentos do dia as farei. Horários de trabalho, de estudo. Horário também para as distrações, moderadas e não contrárias a Deus. Devemos fazer um horário para cada dia da semana e procurar cumpri-lo, a não ser que haja motivo proporcional para deixá-lo de lado. Chama-se plano de vida, mas é, na verdade, um plano diário, para cada dia. Tampouco precisa ser o mesmo para cada dia, pois cada dia pode ter suas particularidades, com suas obrigações e atividades próprias.
A utilidade do plano de vida é muito clara, sobretudo para os espíritos inconstantes, como tendemos a ser todos na sociedade atual. Sem o plano de vida, perdemos muito tempo, ficamos indecisos sobre o que fazer, nos descuidamos das obrigações ou as cumprimos de modo desordenado e chegamos à inconstância e seremos volúveis. Sem saber o que fazer, terminaremos à toa na internet ou em alguma outra distração inútil. Com o plano de vida sabiamente estabelecido, ao contrário, e tendo definido com precisão as atividades de cada dia, não ficaremos sem saber o que fazer, não perderemos tempo, nada de importante nos escapará, teremos facilidade para fazer todas as nossas ações com espírito sobrenatural e educaremos nossa vontade. É bom que mesmo a família tenha alguns horários estabelecidos para cada dia, sobretudo para a oração.
Para tirar do plano de vida todo o bem que ele pode nos dar, é preciso traçá-lo com sabedoria e não adotá-lo definitivamente a não ser depois de tê-lo provado durante certo tempo, para ver se ele se adapta realmente a nossas obrigações ou se é preciso modificá-lo em algo.
Algumas regras básicas na elaboração do plano de vida: 1º) o plano de vida deve estar completamente de acordo com os deveres de estado da pessoa, de acordo com suas obrigações habituais. Deve levar em conta o seu caráter, para corrigir os defeitos próprios do caráter e para favorecer as virtudes próprias do caráter. Ele deve levar em consideração a sua saúde física. De nada adiantaria estabelecer um plano de vida em que se dorme 5 horas por noite, se no dia seguinte a pessoa não consegue fazer nada bem por causa do cansaço. 2º) O plano de vida deve ser flexível e rígido a um só tempo. Flexível para não nos sentirmos escravizados por ele quando a caridade para com o próximo ou uma circunstância importante imprevista nos obrigue a mudanças. Isso se aplica muito aos pais e mães de família, principalmente de crianças menores. Mas deve ser rígido, pois é preciso procurar segui-lo a não ser que algo relevante o impeça. 3º) O plano de vida deve conter não somente o horário, do acordar ao dormir, mas próximo a ele deve estar também a lista com as minhas más inclinações, que devo combater, e a lista com as virtudes que mais devo procurar adquirir. E a isso devemos juntar o exame de consciência diário.
Caros católicos, devemos aproveitar o tempo. Devemos redimi-lo. Se redimirmos o tempo, o tempo vai nos redimir, pois iremos aproveitá-lo para conquistar o céu.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

19 de outubro de 2015

Casamento e Família - Dom Tihamer Toth.

Conferência III

QUAL O PRESENTE DE CRISTO AOS ESPOSOS?


Parte 3/4


A) Os recém casados costumam ser presenteados pelos pais e conhecidos. Qual será o presente de casamento, que Nosso Senhor lhes oferece? Creio não fazer uma comparação forçada, dizendo que o presente de Nosso Senhor "é o sacramento do matrimônio e as suas graças abundantes".
a - Ah! se os jovens esposos, ante o altar, contemplassem com olhos admirados o magnífico presente, que recebem das mãos de Deus, no dia do casamento! 
Desgraçadamente, muitos jovens nem sequer pensam nisto ao se prepararem para o casamento. Todos os seus pensamentos são para outros problemas, como o dos convidados, o da toilette, o da decoração do altar, ou quem cantará o solo durante a missa, ou, se o terno do noivo, o véu da noiva são elegantes... e assim por diante. Quão poucos, porém, os que compreendem ser este luxo e esta pompa apenas o exterior, símbolos, o símbolo do grande tesouro que Nosso Senhor quer dar à sua alma, no sacramento do matrimônio.
b - E neste ponto não somos obrigados a pensar como os incrédulos. Hoje, mesmo os que possuem melhores sentimentos deixam-se influenciar pela ideia de que o casamento é exclusivamente um contrato terrestre, uma coisa material; e como se casaram atendendo apenas à beleza física ou os interesses materiais, é natural que desaparecendo estas qualidades efêmeras, também mutuamente eles se separem.
Este estado de espírito também existe, entre os que se julgam religiosos, e que, de nenhum modo, se contentariam apenas com o casamento puramente civil.
"Oh! isto nunca! Por nada deste mundo! Queremos nos casar na Igreja..."
"Por que? Por que quereis o casamento religioso?" pergunto eu.
Por que? Porque é cem vezes mais belo que o casamento civil, indiferente e frio. Como é comovente quando a jovem noiva entra na Igreja, envolta em seu véu branco, ao som do órgão, altar resplandecente na policromia de suas flores perfumadas, enquanto a Igreja esta repleta de conhecidos e curiosos! Que instante solene! Poderia eu dispensar tudo isto? por nada deste mundo!
Quantos assim falam! Ou pelo menos assim pensam. Deviam compreender que o casamento religioso é bem mais, é cem vezes mais do que esta impressão fugidia: é um juramento sagrado e solene de recíproca fidelidade e de amor até o sacrifício. É mais ainda, cem vezes mais: é a recepção de um sacramento, a origem de uma fonte divina, de uma fonte, donde brotam ondas de graças e forças, durante toda a sua vida.
Pouco tempo tem eles para nisto pensar!

B) Rápida emurcheceu-se a coroa de flores, secou-se o belo ramalhete de noiva, os convidados dispersaram-se, a recordação deste brilhante casamento apagou-se, o que, porém, não passa e sempre permanece é o sacramento que recebeste ao pé do altar.
a - O matrimônio é, de fato, um sacramento que permanece. "O Sacramento do matrimônio, escreve São Belarmino em linhas bastante expressivas, pode ser encarado sob dois pontos de vista. Tal qual ele é, e depois tal como vem a ser. Assemelha-se ele a Eucaristia, enquanto é sacramento, não apenas no instante em que é recebido, mas porque permanece. E, de fato, enquanto vivem os esposos, sua união será o sinal místico da graça de Cristo e da Igreja".
Santo Agostinho dá-lhe ainda uma responsabilidade maior, porque, segundo ele, o matrimônio é análogo ao sacramento da ordem, dando ao homem e à mulher uma força especial e sagrada, que não lhe pode ser arrebatada.
Eis por que podemos afirmar que, figuradamente, pelo matrimônio, o homem e a mulher tornam-se sacerdotes, dos quais Deus aguarda o cumprimento de imensas obrigações.
b - É verdade que lhes dá auxílio poderoso para realizar a sua tarefa. Somente é preciso que os esposos cooperem com a graça sacramental. No instante do casamento Deus infunde na alma dos esposos este dom precioso; deles depende utilizá-lo, guardá-lo e fazê-lo frutificar.
Infelizmente muitos cristãos se esquecem de que, se o matrimônio é "um sacramento", produz também a graça.
Os sacramentos, com efeito, produzem na alma a graça santificante (como o batismo e a penitência), ou então aumentam-na (como os outros 5 sacramentos).
Quando os esposos ante o altar pronunciam o seu juramento, administrando um ao outro o matrimônio, eles produzem em si o aumento da graça santificante que Nosso Senhor conferiu à veste nupcial. Podemos afirmar que, de certo modo, a veste nupcial de sua alma recebe no instante de seu casamento um novo brilho, e um novo ornamento de pérolas.
Mas além do aumento da graça santificante, recebem eles ainda graças especiais. Tem direito ao auxílio divino, para satisfazerem seus deveres conjugais.

C) Examinemos melhor este auxílio divino e vejamos quais "as graças sacramentais" que o matrimônio confere aos esposos.
a - É, em primeiro lugar, uma união sobrenatural das almas, enobrecendo as mútuas relações de ambos os sexos, assegurando-lhes duradoura felicidade em seu casamento.
Só esta união intima de almas poderá assegurar-lhes a harmonia, mesmo nos instantes em que a vida comum lhes manifeste ainda mais os comuns defeitos, momentos em que eles verão mais claramente quanto necessitam, um do outro, de paciência ou de indulgência, e no dia em que a beleza física, a robustez e a saúde começarem a se empalidecer, a se fanar para aos poucos desaparecer completamente.
Percebeis como ela é necessária, neste momento! Não falo agora aos meus ouvintes solteiros, mas aos que já se casaram. Pais e mães de família, quando entrais em casa, tristes e abatidos, porque os cuidados da vida presente pesam sobre vós, pedi, então, a graça sacramental: "Senhor, ajudai-nos agora!" Quando um de vós sente as tentações da infidelidade, ou percebe que se esfria o afeto e a união, recorrei à graça sacramental: "Senhor, ficai conosco!" Quando se torna necessário um grande império sobre si mesmo, uma vontade firme e um sentimento de heroísmo cristão, para se abster temporariamente do uso da vida conjugal, seja pela saúde, seja por razões econômicas, pedi a graça: "Senhor, queremos viver conforme vossos mandamentos; vinde em nosso auxílio!" Quando vossos filhos vos dão bastantes cuidados e sofrimentos, dizei então: "Senhor, ajudai-nos a educá-los!" E finalmente, quando a desgraça, ou a morte visitar vossa família, curvai a fronte e rezai: "Senhor, consolai-nos agora!"
Eis os inúmeros e preciosos socorros que a graça sacramental nos prodigaliza.
b - Alguém, contudo, após anos de feliz matrimônio, poderá, talvez, dizer: "É interessante. Nunca soube de semelhantes coisas, e nunca senti os dons de Deus em meu casamento".
Não os sentistes!
Quando, porém, ao lado do fidelíssimo amor recíproco, surgiu entre vós uma desavença, que generosamente soubestes aplainar - foi Deus quem vos concedeu o dom daquela reconciliação.
Quando vosso esposo entrou em casa tão abatido, algumas vezes, após o duro trabalho de um dia, e o reconfortastes com vossa delicadeza, - é ainda  a graça divina que brilhou em vossa casa!
Quando surgiram dias árduos, e vossa dispensa esta vazia, enquanto vossos filhos choravam de fome, e vós vos entregastes ao trabalho, intrepidamente, - era a graça divina que vos encorajava.
Quando fostes assaltados pela tentação de infidelidade, e com alma forte soubestes afastar a voz sedutora - foi a graça que vos deu aquela força.
E, finalmente, quantas dezenas e dezenas de anos passaram sobre vossas cabeças, e vossos cabelos se embranqueceram, e vossas frontes se enrugaram, e sempre com o amor de outrora, e com um amor hoje ainda mais profundo, e intimo, unistes-vos um ao outro, como se o tempo nada pudesse sobre vós - deveis ainda tudo isto à graça divina.
Não haveria, dizei-me, sobre a terra muito mais famílias felizes, pacíficas e abençoadas, se os esposos pensassem em todas estas coisas, ao se apresentarem ao pé do altar para receberem a graça de Deus?

18 de outubro de 2015

Catecismo Ilustrado - Parte Final

Obrigado a todos os leitores que acompanharam as publicações do Catecismo Ilustrado. Esperamos ter contribuído para o crescimento espiritual de cada um, com a revisão das verdades da nossa fé.
Administração Blog São Pio V


17 de outubro de 2015

Casamento e Família - Dom Tihamer Toth.

Conferência III

QUAL, O PENSAMENTO DA IGREJA, QUANTO AO MATRIMÔNIO?

Parte 2/4

Para esta primeira pergunta: que pensa a Igreja a respeito do matrimônio, há necessidade de uma resposta bastante curiosa.
A Igreja Católica, com efeito, sobre o matrimônio tem de um lado idéias inteiramente terrestres, e, de outro, inteiramente celestes. Podemos afirmar que sua concepção quanto ao matrimônio é em parte realista, e, em parte, idealista.
Examinemos bem estas duas idéias.

A) As idéias da Igreja Católica, a respeito do matrimônio, são em parte inteiramente terrestres.
a - Mostra ela, de fato, o seu modo de pensar inteiramente realista, inserindo o casamento, que, aparentemente, é um negócio de coração e sentimento, nos parágrafos rígidos de seu código. O cânon 1081 do Código do Direito Canônico diz: " O casamento existe, quando duas pessoas, juridicamente capazes, exprimem legitimamente o seu consentimento". Como estas fórmulas jurídicas se expressam com uma frieza desconcertante!
Quem não conhecesse já suas idéias a respeito do matrimônio poderia com certeza se escandalizar."Como? O matrimônio é, apenas, um ato da vontade? É um contrato calculado e expresso, friamente, entre duas pessoas? E o coração? Para ele, nada? E os sentimentos, o amor e a união das almas? não os levamos em conta? Por que reunir em parágrafos as relações tão ternas e ardentes de dois corações? Por que estas formalidades exteriores, quando se trata de concluir um matrimônio?"
Tudo isto, porém, é necessário. É necessário, porque o casamento não é apenas um negócio de coração entre dois seres, mas encerra uma multidão de coisas, que interessam ao Estado, à sociedade e à Igreja. Torna-se, pois, necessário que esta instituição seja protegida contra a inconstância e os caprichos da natureza humana, e que sua força e sua duração sejam favorecidas também pelas formalidades exteriores. E é justamente por isso que há leis matrimoniais na Igreja.
b - A respeito destas formas legais, precisamos distinguir bem a parte essencial, dogmática, baseada no preceito de Deus, e a parte não essencial, proveniente das prescrições humanas.
A parte essencial, dogmática, do matrimônio nunca será transformada, por quem quer que seja. Permanecerá sempre como Deus a ordenou: união indissolúvel entre um homem e uma mulher. Eis a parte essencial.
Quanto ao modo pelo qual deve ser realizada a união, diante de quem, e com que cerimônia, a Igreja pode prescrever mudanças de acordo com as épocas e condições culturais. Assim se explicam as modificações introduzidas pelo novo Código Eclesiástico de 1918. 
E quando o Código Eclesiástico fala do matrimônio, expressa-se em termos jurídicos, graves, objetivos e realistas.

B) Não podemos, portanto, nos escandalizar desta "frieza jurídica" da Igreja, porque em outra parte suas idéias sobre o casamento são totalmente idealistas e sobrenaturais.
a - Declara, com efeito, o cânon 1012 do Código do Direito Canônico: Nosso Senhor Jesus Cristo elevou à dignidade de sacramento o contrato matrimonial entre dois batizados. Assim não pode existir, entre batizados, contrato matrimonial que não seja sacramento ao mesmo tempo. Eis uma linguagem bem diversa! Que imensas perspectivas se abrem! Que elevação ideal e sobrenatural! Tudo porque o matrimônio cristão é um sacramento.
b - Cada vez que um jovem par se coloca ante o altar, para fazer a promessa de fidelidade eterna um ao outro, é, propriamente falando, um sacerdote e uma sacerdotisa que se põem um ao lado do outro para administrarem reciprocamente um sacramento: o sacramento do matrimônio. É o único que não é administrado pelo sacerdote, e sim pelos próprios esposos. No instante em que pronunciam "sim" recíproco, administram o sacramento. Eles o recebem, e estão unidos por toda a eternidade. Deus porém, por intermédio do sacerdote, esta diante deles, abençoa esta união, a fim de que sejam um para o outro, com a graça de Deus, um apoio, uma força, um sustentáculo, e assim caminhem juntamente até o último instante de sua vida.

C) Quem conhece isto compreende e compreende bem a própria essência do casamento cristão. Aqueles que não o sabem costumam dizer: "Não posso compreender por que o casamento religioso é tão importante". É, com efeito, somente uma formalidade exterior, como também é o contrato feito perante o oficial civil.
Não é isto suficiente?
É claro que não. Isto não basta. E aquele que assim pensa nada compreende da essência do matrimônio cristão.
a - No casamento religioso dos cristãos dão-se um ao outro, sem reservas. Somos, porém, senhores de nossa vida? Assim como não podemos dar a vida a nós mesmos, também não podemos dá-la a outrem - sem a vontade de Deus.
O homem batizado, como ensina a fé cristã, não só se libertou de seus pecados anteriores, não só obtém a graça, como também pelo seu batismo torna-se membro do corpo mistico de Cristo, torna-se parente, irmão de Jesus Cristo. Batizando-se, o homem torna-se, pois, também participante da grandeza de Cristo, e deve viver em Cristo, para Cristo, e consagrar-se a Cristo. É o que claramente nos ensina São Paulo: "Nenhum de nós vive para si mesmo, e ninguém morre para si mesmo; quer vivamos, vivemos para o Senhor; quer morramos, morremos para o Senhor" (Rom 14, 7 - 8).
Quando também os batizados querem contratar casamento, e querem se dar um ao outro, não podem fazê-lo sem Cristo, porque depois do batismo eles não dispõem mais de si mesmos, mas tornam-se todos propriedade de Cristo. O seu casamento, pois, só terá valor se Jesus Cristo também der o seu consentimento, isto é, se eles se casarem ante o altar de Jesus Cristo. 
Eis porque é necessário casar-se diante da Igreja.
b - Há ainda outra razão. É porque o casamento deve dar origem a uma nova vida. Pais e mães de família, quando exerceis este poder extraordinário, quando dais a vida a um novo ser humano, sois apenas instrumentos entre as mãos de um Poder superior. Como podeis vos empenhar sem Deus, num caminho em que sua força criadora acompanhará vossa atividade?
Eis por que há necessidade de contrair matrimônio diante da Igreja.
c - Mais outra razão ainda: o casamento civil não é realmente senão a forma exterior da união conjugal; o casamento religioso, ao contrário, não é apenas uma cerimônia exterior, mas um sacramento. Um sacramento instituído por Nosso Senhor, a fim de que os esposos possam satisfazer as graves obrigações da vida conjugal e conservar sua perpétua fidelidade. Ante as circunstâncias que mudam, tantas vezes, a existência humana, não basta apenas uma promessa humana, mesmo saída de uma nobre solução. Basta-lhe, porém, a força da graça sacramental.
Chegamos, pois, ao segundo ponto de nossa instrução.

16 de outubro de 2015

Catecismo Ilustrado - Parte 70

As Obras de Misericórdia

Obras Espirituais de Misericórdia

1. As obras espirituais de misericórdia são sete: 1º dar bom conselho; 2º ensinar os ignorantes; 3º corrigir os que erram; 4º consolar os tristes; 5º perdoar as injúrias; 6º sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo; 7º rogar a Deus por vivos e defuntos.
2. Chamam-se espirituais porque se referem à alma do próximo.
3. No Juízo Final seremos julgados segundo as obras de misericórdia. Com efeito, assim fala Nosso Senhor no Evangelho: “Quando, pois, vier o Filho do Homem na Sua majestade, e todos os anjos com Ele, então Se sentara sobre o trono de Sua majestade. Todas as nações serão congregadas diante Dele. Separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos, e porá as ovelhas à sua direita, e os cabritos à esquerda. Dirá então o Rei aos que estiverem à Sua direita: Vinde, benditos de Meu Pai, possuí o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome, e Me destes de comer; tive sede, e Me destes de beber; era peregrino, e Me recolhestes; nu, e Me vestistes; enfermo, e Me visitastes; estava na prisão, fostes ver-Me. Então, os justos Lhe responderão: Senhor, quando é que nós Te vimos faminto, e Te demos de comer; com sede, e Te demos de beber? Quando Te vimos peregrino, e Te recolhemos; nu, e Te vestimos? Ou quando Te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-Te? O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos digo que todas as vezes que vós fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequenos, a Mim o fizestes”. (Mat XXV, 31-46)

Explicação da gravura

5. A gravura representa as quatro principais obras espirituais de misericórdia.

Ensinar os ignorantes

6. Acima vê-se São João Batista ensinando o povo, e dando bons conselhos à multidão que o interroga.
7. No ângulo superior esquerdo, vê-se um Irmão das Escolas Cristãs ensinando e educando crianças.

Dar bons conselhos

8. Esta obra está representada na gravura, à esquerda, por São João Batista censurando Herodes, repreendendo-lhe o seu mau comportamento e dizendo-lhe: “Não te é lícito viver com a mulher do teu irmão ainda vivo”.
9. No ângulo inferior esquerdo, vê-se um homem que distribui bons livros e bons jornais para favorecer a boa leitura e combater a má imprensa.

Consolar os tristes

10. Esta obra está representada à direita por Nosso Senhor consolando a viúva de Naim e ressuscitando-lhe o filho. Lemos no Evangelho: “No dia seguinte foi para uma cidade, chamada Naim. Iam com Ele os Seus discípulos e muito povo. Quando chegou perto da porta da cidade, eis que era levado a sepultar um defunto, filho único de uma viúva; e ia com ela muita gente da cidade. Tendo-a visto, o Senhor, movido de compaixão para com ela, disse-lhe: “Não chores”. Aproximou-Se, tocou o esquife, e os que o levavam pararam. Então disse: “Jovem, Eu te ordeno, levanta-te”. E o que tinha estado morto sentou-se, e começou a falar. Depois, Jesus entregou-o à sua mãe”. (Lucas VII, 11-17)
11. No ângulo superior direito, vê-se um rapaz que, separando-se dos pais, consola o irmão mais novo mostrando-lhe o Céu, onde hão de encontrar-se um dia.

Rogar a Deus por vivos e defuntos

12. Esta obra está representada na parte inferior da gravura por Judas Macabeu rogando a Deus com o exército pelos soldados mortos na batalha. Acabando de rezar, fez um peditório, mandando o produto a Jerusalém com ordem de oferecer um sacrifício pelos pecados dos soldados defuntos.

13. Vê-se também no ângulo direito inferior uma mulher rezando na campa dos seus defuntos. 

15 de outubro de 2015

Casamento e Família - Dom Tihamer Toth.

Conferência III

O MATRIMÔNIO DEPOIS DE CRISTO

Parte 1/4

O casamento foi criado pelo próprio Deus, quando, fazendo um homem e uma mulher, colocou-os no paraíso terrestre, preceituando-lhes: "Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra" (Gn 1, 28). É, portanto, o casamento, uma coisa importante; antes mesmo da vinda de Cristo era a realização da vontade divina, como já o dissemos.
Vêm Nosso Senhor, e com Ele uma nova ordem: a ordem da salvação. Esta instituição divina, já sublime em sua origem, revestiu-se, então, de uma nova dignidade. O casamento foi elevado à altura de sacramento. Isto o transformou completamente. Deu-lhe traços essencialmente novos, e aí o motivo pelo qual lhe consagramos esta instrução. Após estudarmos o casamento ideal dos séculos anteriores a Cristo, veremos, hoje o ideal do matrimônio cristão.
Fixaremos melhor a imagem ideal do matrimônio cristão, se respondermos a estas duas perguntas;
1) Que pensa do matrimônio a Igreja de Cristo?
2) Que é que Cristo dá aos esposos?

14 de outubro de 2015

Sermão para a Solenidade Externa do Rosário – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] O Rosário: remédio para os problemas atuais


 Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Como sabemos, caros católicos, o terço tem 50 Ave Marias, 5 Pai Nossos, além do Credo. O Rosário é composto por três terços e se juntarmos as três Ave Marias iniciais, teremos 153 Ave Marias, oferecidas como uma coroa de rosas a Nossa Senhora. Nós vemos, na Sagrada Escritura, um fundamento remoto para o Terço. No Evangelho de São João, nos é narrado que, após a ressurreição de Cristo, houve mais uma pesca milagrosa em que os apóstolos pescaram 153 peixes, sem que a rede se rompesse. O Rosário completo é composto de 153 Ave Marias. O Rosário e a terça parte dele – o nosso Terço – é como uma rede que captura graças abundantes sem se romper.
A recitação de 150 Ave-Marias teve início muito cedo na Igreja, quando aqueles que não sabiam ler recitavam a primeira parte da Ave Maria para substituir os 150 salmos. É nisso e, portanto, bem cedo na história da Igreja que tem início o Rosário, o Terço.
Na forma em que o conhecemos hoje, o Rosário foi dado por Nossa Senhora a São Domingos – cuja relíquia se encontro sobre o altar e cujo quadro se encontra atrás de mim – no início do século XIII. O Terço foi a arma dada por Nossa Senhora a São Domingos de Gusmão, fundador da Ordem dos Dominicanos, para ele vencer a heresia cátara, heresia descendente do maniqueísmo, e que atingia, particularmente, o sul da França. Tratava-se de uma heresia monstruosa, que considerava a matéria como um mal, que considerava o corpo como um mal. Assim, os adeptos praticavam o suicídio – muitas vezes por fome, pois se negavam a comer -, eles se opunham ao matrimônio, pois o matrimônio, pela procriação, geraria almas presas a corpos. Por outro lado, favoreciam qualquer outro ato de luxúria, desde que se evitasse a concepção, e não viam com maus olhos a união entre pessoas do mesmo sexo. Eles negavam, evidentemente, a ressurreição da carne, mas acreditavam na reencarnação e negavam o livre-arbítrio. Eram contra a pena de morte e contra qualquer guerra, ainda que defensiva. Destruíam, portanto, a família e combatiam muitas outras instituições e princípios básicos da sociedade. Era uma heresia que conduzia ao caos social, à destruição da família e da sociedade. Muitas dessas coisas vemos hoje amplamente espalhadas em nossa sociedade, não por acaso. Tratava-se, então, de uma heresia que se opunha, claro, à fé e que trazia grandes prejuízos à sociedade. São Domingos, apenas com suas pregações e com suas virtudes, conseguiu pouca coisa diante desses hereges, mesmo sendo um grande santo. Foi com o Rosário dado por Nossa Senhora que ele conseguiu tirar as almas desse erro tremendo.
Se o Rosário tem seu fundamento remoto no Evangelho, tomou forma no início da Igreja e foi dado, tal como o conhecemos hoje, a São Domingos por Nossa Senhora no século XIII, a festa de Nossa Senhora do Rosário tem sua origem com a Batalha de Lepanto, que foi uma batalha naval entre os católicos e os mulçumanos. Em 7 de outubro de 1571 os católicos venceram definitivamente os mulçumanos, que ameaçavam conquistar a Europa e destruir o catolicismo. A vitória pelas armas veio graças à recitação do Terço. O Papa da época, São Pio V, pediu a todos os católicos que recitassem o Terço, para que Deus concedesse a vitória aos católicos por meio de Nossa Senhora. Os soldados levavam, cada um, seu Terço nos barcos. Posteriormente e por causa dessa vitória, a festa de Nossa Senhora do Rosário terminou sendo instituída no dia 7 de outubro. Foi pelo Rosário que Deus nos livrou, naquele momento, do flagelo mulçumano.
Hoje, caros católicos, devemos enfrentar batalhas semelhantes às de São Domingos e de Lepanto. A heresia, mais do que nunca, ameaça a fé e a moral católicas. Não apenas exteriormente, por grupos separados da Igreja, mas mesmo no seio da Santa Igreja. A heresia que tem destruído a fé em tantas almas é o modernismo, que São Pio X chamou de síntese de todas as heresias. Essa heresia diz (de modo simplificado) que podemos acreditar no que quisermos, podemos ter a moral que quisermos, desde que nos sintamos bem com Deus. Esse erro diz que não importa o que Deus nos revelou, não importam seus ensinamentos, não importam os ensinamentos da Igreja. A única coisa que interessa, nos diz o modernismo, é nos sentirmos bem. Não existe uma verdade à qual eu devo aderir e me submeter, não existem regras morais objetivas. Eu mesmo decido o que é a verdade, eu mesmo decido o que é o bem e o que é o mal. E se me sinto bem, está tudo certo. Vemos uma manifestação clara dessa heresia quando se tenta adaptar a doutrina da Igreja ao pensamento atual, simplesmente para que as pessoas se sintam bem na Igreja. É o que muitos membros da hierarquia tentarão, infelizmente, fazer durante o Sínodo dos Bispos sobre a família que tem início hoje: tentarão adaptar a Igreja ao pensamento moderno. Dirão, por exemplo, que nossa sociedade já não aceita mais a indissolubilidade do matrimônio e que é preciso, então, aceitar a situação dos divorciados recasados e aceitá-los, sem mais, à comunhão. Farão isso não mudando expressamente a doutrina católica, mas dando soluções pastorais contrárias à doutrina católica, o que é absurdo. A pastoral, a misericórdia não pode ir contra a verdade, contra a doutrina católica. Só existe misericórdia na verdade e na doutrina que nos foi ensinada por Nosso Senhor Jesus Cristo. Só existe misericórdia quando a pessoa é conduzida, com toda a caridade, do pecado para a virtude e não quando ela é confortada no seu erro. Contra a heresia, devemos rezar o Rosário.
Temos também hoje a ameaça islâmica, caros católicos, como no tempo de São Pio V. Ameaça mais presente na Europa e para os cristãos do oriente, mas cada vez mais presente também em nosso país. E é interessante notar como governos liberais, que favorecem uniões homossexuais e todo tipo de liberdade desordenada, se unem com os mulçumanos, favorecendo-lhes de todas as formas. Por que a união de coisas tão contrárias? Devemos nos lembrar, no Evangelho, de que os inimigos Pilatos e Herodes se tornaram amigos quando da Paixão e morte de Cristo. Uniram-se para condenar Nosso Senhor. Assim, hoje, inimigos se unem para tentar fazer desaparecer a Igreja, pelo liberalismo ocidental ou pelo totalitarismo islâmico. Lembremo-nos daquele discurso de Bento XVI, em Ratisbona, em que ele cita o Imperador de Bizâncio no século XIV, Manuel II, Paleólogo, que diz: «Mostra-me também o que trouxe de novo Maomé, e encontrarás apenas coisas más e desumanas tais como a sua norma de propagar, através da espada, a fé que pregava.” Contra o flagelo do Islã, devemos, caros católicos, rezar o Rosário.
Mas ainda mais importante para cada um de nós, é o combate pela salvação de nossas almas e pela santificação de nossas famílias. Sem isso, não conseguiremos vencer nos outros campos. Sem isso, não conseguiremos restaurar tudo em Cristo e em sua Igreja. Para alcançarmos a santidade, para alcançarmos a santificação de nossas famílias, precisamos rezar o Terço. E fazer o maior esforço possível (e por que não impossível?) para rezá-lo em família. A família deve unir-se e reunir-se em torno dos principais mistérios de nossa fé, presentes no Terço, procurando imitar as virtudes da Sagrada Família. Imitar as virtudes da Sagrada Família em sua vida simples e nos trabalhos do quotidiano: é o que aprendemos nos mistérios gozosos. Imitar a Sagrada Família nas provações, nas dificuldades, nos sofrimentos: é o que aprendemos nos mistérios dolorosos. Imitar a Sagrada Família naquilo que é o nosso objetivo: a vida eterna, a glória eterna. É o que aprendemos nos mistérios gloriosos. A família unida e reunida assim pelo Rosário tende a avançar na santidade, adquirindo as virtudes necessárias para a vida familiar. Pais e mães de família tomem hoje a resolução séria de rezar o Terço quotidianamente em família, fazendo realmente todo o possível (e por que não o impossível?).
Chegamos a um ponto em que, humanamente, praticamente, já não há solução. Como na época de São Domingos de Gusmão e como na época da Batalha de Lepanto, não basta agir. Não podemos ficar esperando uma intervenção extraordinária de Deus, até mesmo porque talvez não a mereçamos. É preciso rezar, é preciso rezar o Terço. Devemos, caros católicos, recorrer a essa arma espiritual tremenda que é o Terço. É a devoção mais agradável a Nossa Senhora, de quem nos vêm todas as graças. Portanto, se recorremos a Maria com o Terço, podemos alcançar grandes graças e todas as vitórias.
Todavia, não basta rezar o Terço pura e simplesmente. É preciso rezá-lo bem. Mas como rezá-lo bem? O Terço é uma oração vocal e mental, caros católicos. Isso significa que devemos rezá-lo com todas as condições necessárias para uma boa oração vocal: estar em estado de graça, ou, ao menos, desejar verdadeiramente sair do estado de pecado mortal, se nos encontramos nele. Em seguida, devemos pedir coisas úteis para a nossa salvação, bens espirituais, antes de tudo. Devemos rezar com recolhimento, com atenção, evitando as distrações voluntárias, combatendo as involuntárias. Devemos rezá-lo com humildade, sabendo que não somos dignos de sermos atendidos. Devemos rezar com resignação, aceitando a vontade de Deus, que conhece perfeitamente o que é o melhor para nós. Devemos rezar com perseverança e grande confiança de sermos atendidos, se pedimos o que é bom para nossa alma. Se deixarmos uma dessas coisas de lado, nosso Terço já não será muito eficaz, perderá muito de sua potência.
Mas o Terço é também oração mental, caros católicos. Isso significa que, ao rezar o Terço, devemos considerar os mistérios da vida de Cristo e de Nossa Senhora e devemos tirar frutos, resoluções práticas, para a nossa vida, para nos corrigirmos em tal erro, para progredirmos em tal virtude, etc. O Terço bem rezado supõe essa oração mental, essa consideração dos mistérios do Terço e a resolução prática para progredirmos na prática do bem. Nessa união de oração vocal e mental está a profunda riqueza do Terço. Ao rezarmos bem as mais excelentes e perfeitas orações – Pai Nosso e Ave Maria – e considerarmos os mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, nos fixaremos no bem, nos tornaremos santos, nos dirigiremos para o céu, trabalharemos para o bem da Igreja e da sociedade.
Não é, porém, tarefa fácil conciliar a oração vocal e mental no Santo Terço. Cada um pode procurar uma maneira de conjugar a oração vocal e mental no Terço. Podemos, por exemplo, nas três primeiras Ave Marias de uma dezena, prestar atenção nas palavras que estão sendo ditas. Aqui está a oração vocal. Nas três Ave Marias seguintes, podemos considerar o mistério em questão: a encarnação, a agonia de Jesus, a coroação de Nossa senhora, etc. Nas quatro últimas Ave Marias, devemos fazer uma pequena resolução para nossa vida espiritual, de acordo com o mistério considerado. A humildade para a encarnação, por exemplo. No começo, talvez tenhamos dificuldade, mas o importante é não desistirmos nem desanimarmos, mas perseverarmos e avançarmos, ainda que lentamente. Se não conseguirmos rezar o Terço perfeitamente, vamos rezando da melhor maneira que nos é possível, procurando fazê-lo cada vez melhor. Não devo deixar de fazer o que é bom porque não consigo fazer o que é melhor. Assim, é melhor rezar o Terço de maneira ainda imperfeita procurando melhorar aos poucos do que simplesmente não rezá-lo.
Aproveitemos esse mês de outubro, mês do Rosário, para aderirmos de todo o coração a essa belíssima e tão eficaz oração que é o Terço. Aqueles que já rezam o Terço diariamente procurem rezá-lo cada vez melhor. Aqueles que ainda não o rezam, tomem a resolução de rezá-lo. Famílias, rezem o terço unidas. Nossa Senhora do Rosário, Mãe de misericórdia, nos ajude.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.