É entregue a Maria o corpo dilacerado de Jesus. Não podemos imaginar a dor da Virgem naquele momento. Nunca houve mãe alguma que mais amasse o seu filho como Maria amou Jesus; o seu coração materno fora formado pelo Espírito Santo para amar a um Homem Deus. Jamais coração humano pulsou com mais ternura para com o Verbo Incarnado do que o de Maria; ela era cheia de graça e o seu amor não encontrava obstáculo ao seu pleno desabrochar.
Depois, devia tudo a Jesus: a sua Imaculada Conceição, os privilégios que fazem dela criatura sem par, foram-lhe concedidos em previsão da morte do seu Filho. Que dor inexprimível não foi a dela, quando recebeu em seus braços o corpo ensanguentado de Jesus!
Lancemo-nos a seus pés, pedindo-lhe perdão dos nossos pecados, que foram causa de tanto sofrimento. «Ó Mãe, fonte de amor, fazei-me compreender a intensidade da vossa dor, para compartilhar da vossa aflição: fazei que o meu coração se abrase de amor a Jesus Cristo, meu Deus, para que só pense em Lhe agradar.
(Dom Columba Marmion, OSB)
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16 de abril de 2022
Maria Santíssima recebe o corpo dilacerado de Jesus
28 de setembro de 2017
Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.
VI
E aqui abordamos um ponto como não se encontraria melhor para terminar esta conferência, e é a razão profunda dessa admirável disposição da Providência que determina que a obra da nossa santidade se elabore na fraqueza e nas provações.
Dizia S. Paulo: «É à graça que deveis a vossa salvação, e não às vossas próprias obras, para que ninguém se glorie de si mesmo».
Quem merece então todo o louvor? A quem devemos a glória da nossa santidade? A Jesus Cristo.
Ao expor o plano divino aos seus caros fiéis de Éfeso, o Apóstolo indica-lhes o fim supremo com estas palavras: Deus ordenou assim de antemão todas as coisas «para que fosse exaltada a munificência da Sua graça»: In laudem gloriae gratiae suae.
Foi «para manifestar aos olhos de todos as abundantes riquezas da Sua graça» que Deus nos predestinou a sermos co-herdeiros do Seu Filho: Ut ostenderet abundantes divitias gratiae suae in bonitate super nos in Christo Jesu.
Neste mundo, tudo devemos a Jesus, que, pelos Seus mistérios, nos mereceu todas as gracas de justificação, de perdão, de santificação de que temos necessidade; Jesus Cristo é o princípio da nossa perfeição. Como a cepa distribui a seiva nutritiva pelos ramos para os tornar frutíferos, assim Jesus Cristo derrama incessantemente a Sua graça por todos aqueles que Lhe estão unidos. É esta graça que anima os Apóstolos, ilumina os Doutores, sustenta os Mártires, torna constantes os Confessores, adorna as Virgens com a sua incomparável pureza.
No céu, toda a glória dos Santos procede igualmente desta mesma graça; todo o esplendor do seu triunfo se alimenta nesta fonte única; por estarem tintas do sangue do Cordeiro é que as vestes dos eleitos são tão resplandecentes; e o grau da sua santidade mede-se pelo grau de semelhança com o divino modelo.
Por isso, no princípio desta magnífica solenidade de Todos os Santos, em que se reúnem num só louvor todos os eleitos, a Igreja convida-nos a adorar Aquele que, sendo seu Senhor, «é ao mesmo tempo a sua corôa: "IPSE est corona sanctorum omnium».
No céu compreenderemos que todas as misericórdias de Deus têm o seu ponto de partida no Calvário; que o sangue de Jesus é o preço da infinita bem aventurança de que gozaremos para sempre. Não nos esqueçamos de que na Jerusalém celeste seremos inebriados de felicidade divina; mas a plenitude desta felicidade será paga a cada instante pelos méritos do sangue de Jesus Cristo. «A torrente de felicidade que inundará eternamente esta cidade de Deus», terá a sua fonte no sacrifício do nosso divino Pontífice. Será para nós uma alegria imensa reconhecê-la e cantá-la a Jesus: «É a Vós que tudo devemos; a Vós seja dada toda a honra, todo o louvor, toda a ação de graças»!
Como todos os eleitos, lançaremos aos Seus pés as nossas coroas para proclamar que d'Ele as recebemos.
É a este fim último que se dirige todo o mistério de Cristo, Verbo Incarnado. Deus quer que o Seu próprio Filho Jesus seja para sempre exaltado, porque é o Seu próprio e único Filho, objeto das Suas complacências; porque este Filho, sendo Deus como é, Se aniquilou para santificar o Seu corpo místico: Propter quod et Deus exaltavit illum.
Compenetremo-nos, pois, com profunda fé, destes pensamentos divinos. Quando comemoramos os Santos, exaltamos o poder da graça que os elevou a tais alturas; nada mais agradável a Deus, pois que com esses louvores nos unimos ao mais íntimo dos Seus desejos, que é glorificar o Filho: Clarificavi et iteram clarificabo. Procuremos também nós realizar, com o auxílio dessa mesma graça, o pensamento de Deus sobre cada um de nós.
É a esta conformidade perfeita que se reduz toda a santidade.
Em todas estas conferências me esforcei por vos mostrar até que ponto o Pai nos une ao Seu Filho Jesus; procurei colocar diante de vossos olhos o nosso divino modelo, ao mesmo tempo tão incomparável e tão acessível; vistes que Jesus Cristo viveu cada um desses mistérios para nós, que nos une de modo muito íntimo para que, pouco a pouco, reproduzamos em nós, sob a ação do Seu Espírito, os Seus traços inefáveis e para que nos assemelhemos a Ele segundo o decreto da nossa predestinação.
Não deixemos nunca de contemplar este modelo. Jesus Cristo é Deus aparecido vivo no meio de nós para nos mostrar o caminho e nos conduzir à vida. Porque Ele próprio disse que a vida eterna consiste em proclamar, por palavras e obras, que o Pai é o verdadeiro Deus e Ele Deus como o Pai, mas vindo ao mundo na nossa carne para reconduzir a humanidade para Deus.
Se, durante a nossa existência, seguirmos fielmente a Jesus, se, em cada ano, O contemplarmos com fé e amor, no ciclo dos Seus mistérios, procurando imitá-Lo e conservar-nos unidos a Ele, podemos estar certos de que a oração incessante que Ele, na Sua qualidade de único Mediador, dirige por nós ao Pai, será ouvida; pelo Seu Espírito, gravará em nossas almas a Sua imagem viva; o Pai reconhecer-nos-á, no último dia, como membros do Filho da Sua predileção e far-nos-á coherdeiros Seus.
Entraremos nessa sociedade que Jesus Cristo, nosso divino chefe, quis constituir pura e resplandecente. No dia do triunfo final, deve, segundo a expressão de S. Paulo, apresentar este reino ao Pai, como maravilhoso troféu da Sua graça omnipotente. Assim possamos todos nós juntar-nos neste reino para maior alegria das nossas almas e glória do nosso Pai dos céus!
In laudem gloriae gratiae suae.
VERBUM MANENS APUD PATREM,
VERITAS ET VITA,
INDUENS SE CARNE,
FACTUS EST VIA.
(8
25 de setembro de 2017
Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.
v
Que conclusões práticas tiraremos destas benéficas verdades da nossa fé?
Primeiro, devemos celebrar com todo o fervor as solenidades dos Santos. Honrar os Santos é proclamar que eles são a realização dum pensamento divino, obras-primas da graça de Jesus. Deus põe neles as Suas complacências, porque são os membros já gloriosos do Seu amado Filho; fazem parte já daquele reino resplandecente, conquistado por Jesus para glória do Pai: Et fecisti nos Deo nostro regnum.
Depois, devemos invocá-los. É certo que Jesus Cristo é o nosso único Mediador: «Um só Deus, um só Mediador entre Deus e os homens», diz S. Paulo; é só por Ele que temos acesso junto do Pai. No entanto, Jesus Cristo, não para diminuir a Sua mediação mas para a dilatar, quer que os príncipes da corte celestial Lhe apresentem os nossos votos, que Ele mesmo apresentará ao Pai.
Além disso, os Santos têm o mais ardente desejo do nosso bem. No céu, contemplam a Deus, a vontade deles está inefavelmente unida à Sua; por isso, querem, como Ele, a nossa santificação. Depois, formam conosco um só corpo místico; e, como tais, são, segundo a expressão de S. Paulo, «os membros dos nossos membros»; têm para conosco uma caridade imensa, haurida na sua união com Jesus, único chefe desta sociedade de que eles são o escol e na qual Deus marcou o nosso lugar.
A estas relações de homenagens e orações que nos unem aos Santos, devemos acrescentar os nossos esforços para nos tornarmos semelhantes a eles. O nosso coração deve estar animado, não dessas veleidades inconstantes que nada conseguem, mas dum desejo firme e sincero de perfeição, duma vontade eficaz de corresponder aos desígnios misericordiosos da nossa predestinação divina em Jesus: Secundam mensuram donationis Christi.
E que é preciso para isso? Que meios empregaremos para realizar uma obra tão considerável, tão gloriosa para Cristo e tão fecunda para nós?
Conservar-nos sempre unidos a Jesus Cristo. Ele mesmo o disse: «Quereis produzir abundantes frutos? chegar a grande santidade? Permanecei em mim, como os ramos permanecem unidos à sepa». E como nos conservaremos unidos a Ele? Primeiro, pela graça santificante que nos faz membros vivos do Seu corpo místico; depois, por aquela intenção reta, frequentemente repetida, que nos faz «procurar em tudo», na vocação em que nos colocou a Providência, «a vontade do nosso Pai dos céus"; esta intenção orienta toda a nossa atividade para a glória de Deus, em união com os pensamentos, sentimentos e vontades do Coração de Jesus, nosso modelo e nosso chefe. Quae placita sunt ei facio semper. « Faço sempre o que Lhe é agradável"; e a fórmula, em que Jesus resumia todas as Suas relações com o Pai, traduz excelentemente toda a obra da santidade humana.
E as nossas misérias? - direis. Não devem de forma alguma levar-nos ao desânimo. As nossas misérias são bem reais; conhecemos bem as nossas fraquezas, as nossas escravidões; mas Deus conhece-as inda melhor do que nós. E o sentimento reconhecido, confessado, da nossa fraqueza, dá honra a Deus. Porquê? Porque há em Deus uma perfeição que é talvez a chave de tudo o que nos acontece neste mundo: é a misericórdia. A misericórdia é o amor em face da miséria; se não houvesse
misérias, não haveria misericórdia. Os Anjos proclamam a santidade de Deus; nós, porém, seremos no céu os testemunhos da misericórdia divina; coroando as nossas obras, Deus coroa o dom da Sua misericórdia: Qui coronat te in misericordia et miserationibus. E é a ela que exaltaremos por toda a eternidade, no meio da nossa beatitude: Quoniam in aeternum misericordia ejus.
Além disso, não devemos desanimar por causa das provações e contradições. Estas serão tanto maiores e mais intensas, quanto mais alto nos chamar Deus. Porquê esta lei?
Porque é o caminho por onde passou Jesus; e porque, quanto mais unidos a Ele quisermos estar, mais nos devemos assemelhar a Ele no mais profundo e íntimo dos Seus mistérios. Como sabeis, S. Paulo reduz toda a vida interior ao «conhecimento prático de Jesus, e de Jesus crucificado». E Nosso Senhor mesmo diz-nos que o « Pai, que é o divino vinhateiro, poda o ramo para dar mais fruto»: Purgabit eum ut fructum plus afferat. Deus tem a mão poderosa, e as Suas operações purificadoras descem a profundidades só dos Santos conhecidas; pelas tentações que permite, pelas adversidades que envia, pelo abandono e solidão terríveis que por vezes produz na alma, sujeita-a à prova para a desapegar das coisas criadas; escava-a para a esvaziar de si mesma; «persegue-a, atormenta-a para a possuir»; penetra até ao âmago, «esmigalha os ossos», como diz Bossuet, «para reinar sozinho».
Feliz da alma que se abandona às mãos do Eterno Obreiro! Pelo seu Espírito, todo de fogo e amor, que é o «dedo de Deus», o divino Artista gravará nela a imagem de Cristo, para a tornar semelhante ao Filho da Sua dileção, segundo o desígnio inefável da Sua Sabedoria e da Sua misericórdia.
Porque Deus põe a Sua glória em nos fazer felizes. Todos os sofrimentos que permite ou envia são outros tantos títulos de glória e felicidade celestes. S. Paulo declara-se incapaz de descrever o esplendor da glória e a imensidade da ventura que são a corôa do menor dos nossos sofrimentos suportados com a graça divina.
Eis por que ele tanto animava os seus fiéis. Vede, dizia ele, de quantas precauções se rodeiam aqueles que tomam parte nos jogos e corridas do estádio! quantas privações se impõem! quantos esforços fazem! E tudo isto para quê? Para receber aplausos que duram uma hora, para gozar duma glória efêmera e sempre disputada, para ganhar uma corôa corruptível. Ao passo que nós, se lutamos, é por uma corôa incorruptível, por uma glória sem fim, por uma alegria imperecível.
Nestes momentos, férteis em graças, a alma está, sem dúvida, mergulhada na dor e sofrimento, na aridez e secura. Mas é preciso manter-se firme sob os golpes do Pontífice supremo. Deus põe o lenitivo da Sua graça na própria amargura da cruz. Vede S. Paulo. Ninguém mais do que ele viveu da união íntima com Deus em Cristo; quem, pois, o poderia separar de Jesus? E eis que, por permissão divina, Satanás insulta e atormenta com seus golpes a alma e o corpo do Apóstolo. Por três vezes S. Paulo chega á bradar a sua angústia a Jesus. E que lhe responde Ele? «Basta-te a minha graça, porque a sua força nunca se manifesta com tanto brilho como nas dificuldades de que deve triunfar»: Sufficit tibi gratia mea, nam virtus in infirmitate perficitur.
22 de setembro de 2017
Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.
IV
Desta doutrina brotam os sentimentos que devem animar-nos na busca da santidade; profunda humildade em razão da nossa fraqueza, confiança absoluta em Jesus Cristo. A nossa vida sobrenatural oscila entre estes dois polos: dum lado, devemos ter a convicção íntima da nossa incapacidade para atingir a perfeição sem o auxílio de Deus; do outro, devemos estar possuídos de
inabalável esperança de tudo encontrarmos na graça de Jesus Cristo.
Porque é sobrenatural, porque Deus, soberanamente senhor dos Seus desígnios e dos Seus dons, a colocou acima das exigências e direitos de toda a natureza criada, a santidade a que somos chamados é inacessível sem a graça divina. Nosso Senhor o disse: «Sem mim nada podeis fazer»: Sine me NIHIL potestis facere. Santo Agostinho observa que Jesus Cristo não diz: «Sem mim não podeis fazer grande coisa»; mas sim: «Sem mim nada podeis fazer que vos leve à vida eterna».
S. Paulo explicou minuciosamente esta doutrina do nosso divino Mestre: «Somos incapazes de, por nós mesmos, quasi ex nobis, ter um só pensamento que valha para o céu; neste ponto, todo o nosso poder vem de Deus»: Sufficientia nostra ex Deo est; é Ele quem nos dá o poder de querer e de levar todas as coisas ao seu fim sobrenatural: Deus est qui operatur in vobis et velle et perficere, pro bona voluntate. Assim que, sem a graça divina, nada podendo fazer em ordem à nossa santidade.
Devemos então desanimar? Pelo contrário! A convicção íntima desta incapacidade não deve levar-nos ao desânimo, nem servir de desculpa à nossa preguiça. Se nada podemos sem Cristo, «com Ele tudo podemos»: Omnia possum in eo qui me confortat. «Tudo posso, é ainda S. Paulo quem o diz, não por mim mesmo, mas por Aquele que me fortalece». Sejam quais forem as nossas provações, dificuldades, fraquezas, podemos, por Jesus Cristo, chegar à mais elevada santidade.
Porquê? Porque n'Ele estão «contidos todos os tesouros de ciência e sabedoria», «porque n'Ele habita
a plenitude da Divindade» e porque, sendo nosso chefe, tem o poder de nos tornar participantes desses tesouros. É «dessa plenitude de vida e santidade que recebemos», de tal modo que, «em matéria de graças, nada nos falta»: Ita ut nihil vobis desit in ulla gratía!
Que confiança nos não dá a fé nestas verdades! Jesus Cristo pertence-nos, n'Ele encontramos tudo: Quomodo non etiam eum illo omnia nobis donavit? O que há então que possa impedir-nos de ser santos? Se no dia do Juízo final Deus nos perguntar: Porque não atingistes a santidade a que Eu vos chamava? - não poderemos responder: «Senhor, a minha fraqueza foi enorme, as dificuldades insuperáveis, as provações acima das minhas forças». Pois Deus nos replicará: «Por vós mesmos, é certo que nada podíeis fazer, mas Eu dei-vos o meu Filho; n'Ele nada vos faltou do que vos era necessário, a Sua graça é omnipotente e por ela podíeis unir-vos à própria fonte da vida ».
É tão verdade isto! Um grande gênio, talvez o maior que o mundo jamais conheceu, um homem que
passou a sua mocidade nos desregramentos, que esvaziou a taça dos prazeres, cujo espírito se deixou prender a todos os erros do seu tempo, Agostinho, vencido pela graça, converteu-se e chegou a uma sublime santidade. Um dia (é ele quem o conta ), solicitado pela graça, mas preso ainda por suas más inclinações, via meninos, donzelas, virgens brilhar pela pureza, viúvas veneráveis por suas virtudes; e parecia-lhe ouvir um meigo convite que lhe dizia: Tu non poteris quod isti, quod istae? «O que fazem estes meninos, estas virgens, não poderás tu fazê-lo também? O que eles são, não o poderás tu também ser?» E, apesar do turbilhão das paixões, dos longos hábitos do vício, Agostinho entregou-se à graça, e a graça fez dele, para toda a eternidade, um dos mais magníficos troféus.
Quando celebramos a solenidade dos Santos, devemos repetir, no nosso íntimo, as palavras que Santo Agostinho ouvia: Tu non poteris quod isti, quod istae ? Que motivos temos nós para não tender para a santidade? Oh! bem sei: cada um é tentado a dizer: «Tenho tal dificuldade, sinto tal contradição, não poderei ser santo»; mas podeis estar certos de que todos os Santos «encontraram a mesma dificuldade, sentiram a mesma contradição», e outras ainda muito maiores que as vossas.
Assim, pois, ninguém pode dizer: a santidade não é para mim. O que a pode tornar impossível? Deus deseja-a para nós; quer que sejamos santos para Sua glória e para nossa alegria: Haec est voluntas Dei, sanctificatio vestra. Deus não brinca conosco. Quando Nosso Senhor nos diz: «Sede perfeitos», sabe o que reclama de nós e que nada nos exige acima das nossas forças, uma vez que nos apoiemos na Sua graça.
Aquele que pretendesse lá chegar por suas próprias forças, cometeria o pecado de Lúcifer, que dizia: «Eu me elevarei, colocarei o meu trono nos céus, serei semelhante ao Altíssimo». Satanás foi abatido e precipitado no abismo. ·
Mas nós, que diremos? que faremos? Teremos a mesma ambição que este orgulhoso; desejaremos chegar ao termos visado par este soberbo. Mas, ao passo que ele o pretendia conseguir por si mesmo, nós proclamamos que sem Jesus Cristo nada podemos. Diremos que é por Ele e com Ele que podemos penetrar nos céus. «Ó Jesus, tenho tanta fé em Vós, que Vos creio assaz poderoso para fazerdes o prodígio de elevar uma criatura ínfima como eu, não só até às hierarquias dos Anjos, mas até ao próprio Deus; é unicamente por vós que podemos atingir essas culminâncias divinas. Aspiro com todas as veras da minha alma a essa sublimidade a que nos predestinou o Vosso Pai; desejo ardentemente, como o pedistes para nós, partilhar da Vossa própria glória, participar da Vossa própria alegria de Filho de Deus; aspiro a essa suprema felicidade, mas unicamente por Vós; desejo passar a eternidade a cantar os Vossos louvores e a repetir sem cessar com os eleitos: Redemisti nos, Domine,
in sanguine tuo. Sim, Senhor, fostes Vós que nos salvastes; foi o Vosso precioso sangue, derramado sobre nós, que nos abriu as portas do Vosso reino, nos preparou um lugar na incomparável sociedade dos Vossos Santos: a Vós louvor, honra e glória para sempre»!
A alma que vive sempre nestes sentimentos de humildade e confiança, dá grande glória a Jesus Cristo, porque toda a sua vida é o eco desta palavra do Salvador: «Sem mim nada podeis fazer»; porque proclama que Ele é a fonte de toda a salvação e de toda a santidade, e assim Lhe dá toda a glória.
«Ó Deus, diremos com a Igreja numa das suas mais admiráveis orações, creio que sois todo poderoso, que a Vossa graça é eficaz para me elevar, apesar de miserável como sou, a um alto grau de santidade; creio que sois igualmente misericórdia infinita, e que, se muitas vezes vos abandonei, o Vosso amor, cheio de bondade, nunca me abandona: é de Vós, ó meu Deus, Pai celeste, que vem todo o dom de perfeição; é a Vossa graça que faz de nós servos fiéis que Vos são agradáveis por obras dignas da Vossa Majestade e do Vosso louvor; fazei que, desapegado de mim mesmo e das criaturas, possa correr sem embaraço pelo caminho da santidade, onde o Vosso Filho, qual gigante, nos precede: para que, por Ele e com Ele, possa alcançar a felicidade que nos prometestes»!
Os Santos viviam estas verdades; por isso chegaram às alturas em que hoje os contemplamos. A diferença que existe entre nós e eles não está no maior número de dificuldades que temos a vencer, mas no ardor da sua fé na palavra de Jesus Cristo e na virtude da Sua graça, como também na sua mais ardente generosidade. Se quisermos, podemos recomeçar a experiência: Jesus Cristo é sempre o mesmo, igualmente poderoso e magnânimo na distribuição da Sua graça; só em nós encontra obstáculos à efusão dos Seus dons.
Almas de pouca fé, porque duvidamos de Deus, do nosso Deus?
19 de setembro de 2017
Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.
III
Devemos ir para Deus ao modo d'Ele; não seremos santos senão na medida em que nos adaptarmos ao plano divino. Indiquei-vos as linhas principais deste magnífico plano; vejamos mais minuciosamente como Jesus Cristo é para nós fonte de toda a santidade.
Suponhamos uma alma que, num impulso de generosidade, sob a inspiração do Espírito Santo, ajoelha diante do Pai dos céus e Lhe diz: «Pai, amo-Vos, desejo apenas a Vossa glória; quero, no tempo e na eternidade, glorificar-Vos pela minha santidade; que devo fazer? Mostrai-me o que esperais de mim». Que lhe responderia o Pai? Mostrar-lhe-ia o Seu Filho Jesus Cristo e dir-lhe-ia: «Eis aqui o meu Filho dileto, o objeto das minhas complacências; ouve-O». Depois retirar-se-ia, deixando aquela alma aos pés de Jesus.
E que nos diz Jesus? Ego sum via, et veritas, et vita - « Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida". Três palavras, de sentido muito profundo, que eu quisera meditar convosco e que deveriam ficar gravadas no fundo dos nossos corações.
Desejas ir para o meu Pai? pergunta Jesus. Queres unir-te Aquele que é a fonte de todo o bem e o princípio de toda a perfeição? Muito bem; sou eu quem faz nascer este desejo no teu coração; mas «não o podes realizar senão por mim»: Ego sum via: nomo venit ed Patrem nisi per me.
Como sabeis, há uma distância infinita entre a criatura e o Criador, entre aquele que tem o ser só por participação e Aquele que é o Ser subsistente por si mesmo. Tomai o anjo mais elevado nas hierarquias celestes; entre ele e Deus há um abismo que força alguma criada pode transpor.
Deus, porém, lançou uma ponte sobre este abismo. Jesus Cristo, Homem-Deus, liga o homem a Deus. O Verbo faz-se carne; n'Ele, uma natureza humana está unida à Divindade; as duas naturezas, divina e humana, estão unidas num amplexo tão íntimo, tão indissolúvel, que há uma só pessoa, a do Verbo, na qual subsiste a natureza humana. O abismo de separação está suprimido.
Jesus Cristo, como Deus que é, um com o Pai, é o caminho que nos conduz a Deus. Portanto, se queremos ir para Deus, esforcemo-nos por ter uma fé ilimitada no poder que Jesus tem de nos unir ao Pai. Pois que diz Nosso Senhor? «Pai, quero que onde Eu estiver, estejam também os meus discípulos»: Pater, volo ut ubi sum ego, et illi sint mecum. E onde está Cristo? «No seio do Pai».
Quando a nossa fé é viva e nos entregamos inteiramente a Jesus, Ele arrasta-nos consigo, faz-nos penetrar in sinu Patris. Porque Jesus é ao mesmo tempo o caminho e o termo; é o caminho pela Sua Humanidade - via qua imus; é o termo pela Sua Divindade - patria quo imus. É isto que torna este caminho tão seguro: é perfeito e contém em si o próprio termo.
É coisa excelente fazer na oração atos de fé na virtude omnipotente que Jesus tem de nos levar para o Pai. «Ó Cristo Jesus, creio que sois verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que sois um caminho divino, de infinita eficácia para me fazer transpor o abismo que me separa de Deus; creio que a Vossa santa Humanidade é perfeita, tão poderosa que pode, apesar das minhas misérias, faltas e fraquezas, atrair-me para onde Vós estais, para o seio do Pai. Fazei que eu ouça as Vossas palavras, siga os Vossos exemplos, e nunca me separe de Vós»!
E uma graça preciosa ter encontrado o caminho que conduz ao termo; mas é preciso também caminhar na luz. Este termo é sobrenatural, superior às nossas forças criadas; por isso, a luz que deve banhar o nosso caminho com a sua claridade deve igualmente vir-nos do alto.
Deus é tão generoso que Ele próprio será a nossa luz no céu, e a nossa santidade consistirá em contemplar a luz infinita, haurir no seu esplendor a fonte de toda a vida e de toda a alegria: In lumine tuo videbimus lumen.
Neste mundo, não nos é acessível esta luz por causa do seu fulgor; os nossos olhos são tão fracos que a não podem suportar. E, no entanto é-nos necessária para chegarmos ao termo. Quem será a nossa luz? Jesus Cristo. Ego sum veritas: «Eu sou a verdade». Só Ele nos pode revelar as claridades infinitas. «E Deus saído de Deus, Luz gerada da Luz»: Deus de Deo, lumen de lumine. Verdadeiro Deus, «Ele é a própria Luz, sem sombras nem trevas»: Deus lux est, et tenebrae in eo non sunt ullae; esta luz desceu aos nossos vales, atenuando sob o véu da humanidade o brilho infinito dos seus raios. Os nossos olhos tão fracos poderão contemplar esta luz divina que se oculta e ao mesmo tempo se revela sob a fraqueza duma carne passível: Illuxit in cordibus nostris . . . in facie Christi Jesu; «ela iluminará todo o homem que vem a este mundo»: Lux vera quae illuminat omnem hominem venientem in hunc mundum.
Jesus Cristo, Verbo eterno, ensina-nos a olhar para Deus e no-Lo revela. Diz-nos: Eu sou a Verdade; se crerdes em mim., não só aprendereis a conhecer a Verdade sobre todas as coisas, mas estareis com a Verdade; «aquele que me segue não caminha nas trevas, mas possuirá a luz da Vida».
Então, que devemos fazer para caminhar na luz? Guiar-nos pelas palavras de Jesus, pelas máximas do
Evangelho; considerar todas as coisas à luz das palavras do Verbo Incarnado. Jesus diz-.nos, por exemplo, que «os bem aventurados que possuem o Seu reino são os pobres de espírito, os mansos, os que choram, os corações puros, os pacíficos, os que sofrem perseguição por amor da justiça". Devemos crer n'Ele, unir-nos a Ele por um ato de fé, depor a Seus pés, como uma homenagem, o assentimento da nossa inteligência à Sua palavra; esforçar-nos por viver na humildade, na mansidão, na pureza, por viver em paz com todos, por suportar as contradições com paciência e confiança.
Se vivermos assim na fé, o espírito de Cristo apossar-se-á pouco a pouco da nossa alma, a qual, afastando as luzes puramente naturais do seu juízo próprio, tudo verá pelos olhos do Verbo: Erit tibi Dominus in lucem. Vivendo na verdade, irá sempre avançando no caminho; unida à Verdade, viverá do Seu Espírito; os pensamentos, os sentimentos, os desejos de Jesus tornar-se-ão os seus pensamentos, os seus sentimentos, os seus desejos; nada fará que não esteja inteiramente de acordo com a vontade de Cristo. Não está nisto a base de toda a santidade?
Não basta, porém, ter encontrado o caminho, caminhar na luz: é mister ainda o alimento que nos sustente na nossa peregrinação. Este alimento de vida sobrenatural é ainda Jesus Cristo quem no-lo dá: Et vita.
A vida infinita está em Deus: Apud te est fons vitae. A torrente desta vida inefável e subsistente encheu, com a plenitude da sua virtude, a alma de Cristo: Sicut Pater habet vitam in semetipso, sic dedit et Filio habere vitam in semetipso.
E que faz o Filho? «Vem-nos fazer participar dessa vida divina»: Ego veni ut vitam habeant, et abundantius habeant. «Assim como Eu vivo da vida que o Pai me comunica, assim aquele que me come viverá por mim»: Et qui manducat me, et ipse vivet propter me.
Viver esta vida divina é a santidade. Efetivamente, afastar desta vida tudo o que a pode destruir - pecado, infidelidades, apego às criaturas, vistas puramente naturais - , fazê-la desabrochar pelas virtudes da fé, esperança e caridade que nos unem a Deus, é para nós, como já vos disse, o duplo elemento da santidade.
Sendo o próprio Jesus Cristo a Vida, torna-se nossa santidade, porque é Ele a própria fonte: Christus
Jesus factus est nobis . . . sanctificatio. Dando-se a nós pela Comunhão, dá-nos a Sua Humanidade, a Sua Divindade; ativa o amor; transforma-nos pouco a pouco n'Ele, de modo que não vivamos já por nós, mas por Ele e para Ele. Estabelece entre os nossos desejos e os Seus, entre as nossas vontades e as Suas, tal semelhança, tal harmonia, que «já não somos nós que vivemos, mas é Ele que vive em nós»: Vivo autem, jam non ego: vívít vero in me Christus. Não há fórmula mais expressiva do que estas palavras do Apóstolo para resumir toda a obra da santidade.
16 de setembro de 2017
Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.
II
Perguntar-me-eis: Como chegar a esta santidade tão agradável a Deus, tão gloriosa para Jesus e, para
as nossas almas, fonte inexaurível de eterna alegria, cuja imensidade não podemos imaginar? «Não foi dado ao coração humano, diz S. Paulo, descobrir a beatitude que Deus reservava para os que O amam ». Que caminho seguir para chegar a esse feliz estado em que a alma contemplará toda a Verdade e gozará da plenitude de todo o Bem?
Esta pergunta é de capital importância: mas, antes de lhe responder, quero indicar o carácter próprio da nossa santidade. Com efeito, não podemos escolher com toda a segurança o nosso caminho, sem primeiro termos reconhecido o fim a atingir; e se compreendermos bem o carácter que, no plano de Deus, deve revestir a nossa santidade, o caminho a seguir para lá chegarmos não terá segredos para nós .
Qual é então esse carácter? Qual a qualidade essencial que Deus reclama da nossa perfeição?
É ser sobrenatural.
Conheceis esta verdade, que longamente expliquei noutra parte; é, porém, tão vital, que não será sem
interesse voltarmos a ela por uns instantes.
Como vos tenho dito muitas vezes, a aurora das misericórdias divinas para conosco data da escolha
eterna que Deus, livre e amorosamente, fez de nós, para que fôssemos santos. Elegit nos . . . ante mundi consititutionem ut essemus sancti.
Consideremos por um momento esta eleição.
Sabemos que o Eterno Pai contemplou sempre e contempla incessantemente o Verbo, o Filho; n'Ele,
vê-se totalmente a si mesmo, com as Suas infinitas perfeições, pois este Verbo único exprime, numa linguagem divina, tudo o que Deus é. Os nossos pensamentos são finitos, limitados, mesquinhos, e, para os exprimirmos, temos de recorrer a uma grande variedade de palavras. Deus, com uma só palavra, exprime duma só vez o Seu pensamento que é infinito; compreende-se a si próprio no Verbo.
Para conhecermos cabalmente uma coisa, diz algures S. Tomás, devemos conhecer as múltiplas imitações de que essa coisa é susceptível. Deus, que se compreende perfeitamente a si próprio, vê no Verbo todos os diferentes modos por que as criaturas poderão refletir ou reproduzir as Suas perfeições. Deus não lançou as coisas no espaço ao acaso; não criou por virtude de uma força cega; Inteligência infinita, fez tudo segundo os planos concebidos na Sua eterna sabedoria. Ao contemplar o Verbo, Deus vê, com um único olhar, a multidão ilimitada dos seres possíveis, e, desde toda a eternidade, decidiu escolher, nessa multidão, criaturas que em si realizassem e manifestassem exteriormente, posto que em medida limitada, as infinitas perfeições do Verbo.
Na ordem atual da economia divina, Deus previu que o homem, a quem fizera rei da criação terrestre, se não conservaria à altura da sua eleição e se afastaria do plano traçado pelo Criador para o unir a si. A Sabedoria divina não foi tomada de improviso; para levantar o homem decaído, o Seu pensamento deteve-se, antes de mais nada, n'Aquele que S. Paulo chama o «Primogênito de toda a criatura» - Primogenítus omnis creature - o Verbo Incarnado.
O Pai contemplou o Verbo lncarnado; viu nesta Humanidade hipostaticamente unida à Divindade o resumo, a síntese cabal de toda a perfeição criada; revelou-nos no Tabor que este Homem-Deus era a obra-prima dos Seus pensamentos e «o objecto das Suas complacências»: Hic est Filius meus dilectus in quo mihi bene complacui.
Esta Humanidade de Cristo exprime exteriormente o Verbo divino, sob forma terrestre; foi escolhida. livremente, por amor.
Mas há mais. Deus quis dar ao Seu Cristo um cortejo: a «multidão inumerável» dos Santos. Os Santos são outras tantas reproduções do Verbo, sob uma forma menos perfeita. Cada um de nós encontra o seu ideal no Verbo; cada um de nós devia ser para Deus uma interpretação especial de um dos aspectos infinitos do Verbo. Por isso, cantamos de cada Santo: «Não se encontrou outro semelhante a ele»: Non est inventus similis illí. Não há dois Santos que interpretem e manifestem
Jesus Cristo com igual perfeição.
Quando estivermos no céu, contemplaremos, no meio de indizível alegria, a Trindade beatíssima. Veremos o Verbo, o Filho, proceder do Pai como protótipo de toda a perfeição possível; veremos que Deus associou ao Seu Cristo outros tantos irmãos, que em si reproduzem as perfeições divinas, manifestadas e tornadas tangíveis na Humanidade de Cristo. De modo que Jesus Cristo é "o primogênito duma multidão de irmãos» que devem ser semelhantes a Ele: Ut sit ipse primogenitus in multis fratribus.
Nunca nos esqueçamos destas palavras de S. Paulo: «Deus escolheu-nos em Seu Filho Jesus»: Elegit nos in ipso. Neste decreto eterno encontramos a origem da nossa verdadeira grandeza. Quando, pela nossa santidade, realizamos o pensamento de Deus a nosso respeito, tornamo-nos para Ele como que uma parte da glória que Ele tem em Seu Filho Jesus: Splendor gloriae; somos como que o prolongamento, os raios dessa glória, quando nos esforçamos, cada qual em seu lugar e a seu modo, por interpretar e realizar em nós o ideal divino, cujo exemplar único é o Verbo Incarnado.
Tal é o plano divino; tal a nossa predestinação: «sermos conformes com o Verbo Incarnado, Filho de
Deus por natureza e nosso modelo de santidade»: Praedestinavit (nos) conformes fieri imaginis Filii Dei.
Deste decreto eterno, desta predestinação cheia de amor, provém, para cada um de nós, a série de todas as misericórdias, que recebemos. Para realizarmos este plano, para executarmos os Seus desígnios sobre nós, Deus dá-nos a graça, participação misteriosa da Sua natureza; por ela, tornamo-nos, em Seu Filho Jesus que no-la mereceu, verdadeiros filhos adotivos de Deus.
E assim já não teremos para com Deus apenas simples relações de criaturas; não devemos apenas unir-nos a Ele pelas homenagens e deveres duma religião natural, baseada na nossa qualidade de seres criados; sem nada destruir destas relações nem diminuir estes deveres, entramos em relações mais íntimas com Deus, relações de filhos, que criam em nós deveres especiais para com um Pai que nos ama: Estote imitatores Dei sicut filii carissimi. Relações e deveres inteiramente sobrenaturais, visto excederem as exigências e direitos da nossa natureza e que só a graça de Jesus torna possíveis.
Compreendeis agora qual o carácter fundamental da nossa santidade. Não poderemos ser santos, se o não formos segundo o plano divino: isto é, pela graça que devemos a Jesus Cristo; é esta a condição primordial. É por isso que esta graça se chama santificante. E isto é tão verdade, que fora desta graça não há salvação possível.
No reino dos eleitos só entram as almas que se assemelham a Jesus. Ora a semelhança fundamental que com Ele devemos ter só pela graça se realiza.
Já vedes que foi o próprio Deus quem fixou o carácter da nossa santidade; querer dar-lhe outro é, como diz S. Paulo, «bater no ar» - Aerem verberans.
O próprio Deus fixou o caminho que devemos seguir; não o seguir é extraviar-se e, finalmente, perder-se: Ego sum via; nemo venit ad Patrem nisi per me. Finalmente, Deus assentou o fundamento de toda a perfeição, fora do qual não se edifica senão sobre a areia: Fundamentum aliud nemo potest ponere praeter id quod positum est, quod est Christus Jesus.
Isto é verdade da salvação, como o é da santidade: não tem outro princípio nem encontra outro apoio senão na graça de Jesus Cristo.
13 de setembro de 2017
Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.
I
A primeira razão que temos de aspirar à santidade, é «a vontade de Deus»: Haec est voluntas Dei sanctificatio vestra. Deus quer, não só que nos salvemos, mas também que sejamos santos. E qual o motivo desta vontade de Deus? «É que Ele próprio é santo»: Sancti estote, quoniam ego sanctus sum. Deus é a própria santidade; nós somos criaturas Suas; Ele quer que a criatura reproduza a Sua imagem: mais ainda, quer que, «na nossa qualidade de filhos, sejamos perfeitos, como Ele, nosso Pai celeste, é perfeito»: Estote perfecti, sicut et Pater vester caelestis perfectus est. É o preceito de Jesus.
Deus encontra a sua glória na nossa santidade. Não esqueçamos nunca esta verdade: cada grau de santidade a que chegarmos, cada sacrifício que fizermos para a adquirir, cada virtude que com seu brilho ornar a nossa alma, será eternamente uma glória para Deus.
Diariamente cantamos, e parece-me que cada dia com mais satisfação: Tu solus sanctus, Jesu Christe
- «Só Vós sois Santo, ó Jesus Cristo»; e, por isso, sois a grande glória de Deus. Durante toda a eternidade Jesus Cristo dará uma glória infinita ao Pai, mostrando-Lhe as Suas cinco Chagas, magnifica expressão de soberana fidelidade e perfeito amor com que «sempre cumpriu o que o Pai reclamava d'Ele": Quae placita sunt ei facio semper.
O mesmo se dá com os Santos. Estão «diante do trono de Deus», e incessantemente Lhe dão alegria.
O zelo ardente dos Apóstolos, o testemunho dos Mártires purpureado de sangue, a profunda ciência dos Doutores, a radiante pureza das Virgens constituem outras tantas homenagens agradáveis a Deus.
Nesta « multidão que ninguém pede contar", cada Santo brilha com particular fulgor; e Deus olhará
com eterna complacência para os esforços, lutas, vitórias desse Santo, que são quais outros tantos troféus aos pés de Deus, a honrar as Suas infinitas perfeições e a reconhecer os Seus direitos.
É, portanto, para nós ambição legítima trabalhar com todas as forças para adquirir esta glória. que Deus recebe da nossa santidade; devemos aspirar ardentemente por fazer parte dessa sociedade bem-aventurada, em que o próprio Deus pôs as Suas complacências. É para nós motivo de não nos contentarmos com uma perfeição medíocre, mas de visarmos incessantemente a corresponder, o mais perfeitamente possível, ao desejo de Deus: Sancti estote, quia ego sanctus sum.
Outra razão é que, quanto mais elevada for a nossa santidade, mais exaltaremos o valor do sangue de Jesus.
Diz S. Paulo que «Jesus Cristo se entregou inteiramente à morte, e morte da cruz, para santificar a Igreja e fazer dela uma sociedade resplandecente, sem mácula nem ruga, santa e imaculada». Foi este o fim do Seu sacrifício.
Ora uma das causas mais vivas de aflição para o Coração de Jesus durante a agonia no Horto das Oliveiras, foi a perspectiva da inutilidade do Seu sangue para tantas almas que haviam de rejeitar o dom divino: Quae utilitas in sanguine meo? Jesus Cristo compreendia que uma só gota daquele sangue seria suficiente para purificar o mundo e santificar multidões de almas: mas, para obedecer ao Pai. consentiu, com indizível amor, em derramar até à última gota este sangue que continha a virtude infinita da Divindade. E, no entanto, temos de dizer: «Que utilidade resultou do derramamento deste sangue» ?
A grande ambição que faz palpitar o Coração de Jesus é glorificar o Pai; por isso, o seu mais veemente desejo - quomodo coarctor - era dar a vida para atrair ao Pai inúmeras almas que produzissem muitos frutos de vida e de santidade: In hoc clarificatus est Pater meus, ut fructum PLURIMUM afteratis.
Mas quantos há que compreendam o ardor do amor de Jesus? Quantos correspondem aos desejos do Seu Coração? Tantas almas que não cumprem as leis divinas! Outras guardam os mandamentos; mas pouquíssimas são as que se entregam a Jesus e à ação do Seu Espírito com essa plenitude que leva à santidade.
Felizes das almas que se abandonam sem reserva à vontade divina! Inteiramente unidas a Cristo, que é a vide, «produzem abundantes frutos e glorificam o Pai celeste»: proclamam sobretudo a virtude do sangue de Jesus.
Senão, vede. Qual é o cântico entoado pelos eleitos, que S. João nos mostra no Apocalipse prostrados diante do Cordeiro? "Fostes imolado e, pelo Vosso sangue, nos resgatastes para Deus, de toda a tribo, de toda a língua, de todo o povo, de toda a nação . . . A Vós glória e louvor»! Os Santos confessam que são os troféus do sangue do Cordeiro, troféus tanto mais gloriosos quanto mais eminente é a sua santidade.
Procuremos, pois, com todo o ardor das nossas almas, purificar-nos cada vez mais no sangue de Jesus, produzir esses frutos de vida e santidade que Jesus Cristo nos mereceu pela Sua Paixão e morte. Se formos santos, os nossos corações exultarão, durante toda a eternidade, com a alegria que daremos a Jesus Cristo, cantando os triunfos do Seu divino sangue e a omnipotência da Sua graça.
10 de setembro de 2017
Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.
X X
JESUS CRISTO, COROA DE TODOS
OS SANTOS
(Festa de Todos os Santos)
DEUS pôs todas as coisas sob os pés do Seu Filho: constituiu-O chefe de toda a Igreja, que é o Seu corpo e a Sua plenitude.
Estas linhas de S. Paulo indicam-nos o mistério de Cristo, considerado no Seu Corpo Místico que é a Igreja .
Em todas as conferências precedentes, tivemos a satisfação de contemplar a própria pessoa de Jesus, os Seus estados humilhações, lutas, grandezas, triunfos; não podemos desprender os nossos olhares dessa adorável Humanidade, que é para nós o modelo de toda a virtude e a fonte única de toda a graça.
Mas todos os mistérios do Homem-Deus têm como fim o estabelecimento e a santificação da Igreja : Propter nos et propter nostram salutem. Jesus Cristo veio para constituir uma sociedade que pudesse «aparecer diante d'Ele gloriosa, sem mancha nem ruga, santa e imaculada».
Tão estreita e íntima é a união contraída com ela, que Ele é a cepa e ela os ramos. Ele a cabeça e ela o
corpo, Ele o Esposo e ela a Esposa. Assim unidos, formam o que Santo Agostinho tão justamente chama o «Cristo total».
Cristo e a Igreja são inseparáveis; não se concebe um sem o outro. Por isso, ao terminar estas conferências sobre a pessoa de Jesus e Seus mistérios, devemos falar-vos dessa sociedade que S. Paulo chama «O complemento de Cristo», sem a qual o mistério de Jesus não atinge a sua perfeição.
Como sabeis, neste mundo, esta união inefável opera-se na fé, pela graça e pela caridade; consuma-se nos esplendores dos céus e na visão beatífica. Eis porque, chegada ao fim do ciclo que se propõe percorrer, a Liturgia celebra por uma festa solene - Todos os Santos - a glória do reino de Jesus. Reúne num mesmo louvor toda a multidão da sociedade dos eleitos para exaltar o seu triunfo e glória, incitando-nos ao mesmo tempo a seguir-lhes o exemplo, para compartilharmos da sua felicidade.
É que esta sociedade é una, como Jesus Cristo é um. Ao tempo deve seguir-se a eternidade; neste mundo as almas aspiram à perfeição, mas o termo não se encontra senão nessa sociedade gloriosa; além disto, o nosso grau de beatitude mede-se pelo grau de caridade que atingimos na hora em que deixamos este mundo.
Explicar-vos-ei, em primeiro lugar, as razões que temos para tender a esta beatitude celeste; veremos em seguida os meios de a conseguir
7 de setembro de 2017
Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.
v
E por isso que, sem perder de vista o temor (não o temor servil do escravo que tem medo do castigo, mas o temor de ofender a Deus que nos criou ), sem pôr de parte o pensamento da recompensa que nos espera se formos fiéis, devemos procurar ter habitualmente para com Deus aquela atitude de confiança filial e amor que Jesus Cristo nos revelou como sendo a da Nova Aliança.
Efetivamente, Jesus Cristo sabe, melhor do que ninguém, quais devem ser as nossas relações com Deus, pois conhece os segredos divinos. Ouvindo-O, não corremos risco algum de nos perdermos: Ele é a própria Verdade. Ora, que atitude quer Ele que tenhamos para com Deus? Sob que aspecto quer que O contemplemos e honremos? Ensina-nos, é certo, que Deus é o Senhor soberano a quem devemos adorar. «Está escrito: Adorarás ao Senhor e só a Ele servirás». Mas «este Deus que devemos adorar é um Pai»: Veri adoratores adorabunt Patrem in spiritu et veritate, nam et Pater tales quaerit qui adorent eum.
E será a adoração o único sentimento que deve fazer palpitar os nossos corações? Constituirá ela a única atitude que devemos ter diante desse Pai que é Deus? Não: Jesus Cristo ajunta-lhe o amor, um amor pleno, perfeito, sem reserva nem restrição. Quando perguntaram a Jesus qual era o maior dos mandamentos, o que é que respondeu? «Amarás ao Senhor teu Deus, com todo o coração, com todo o espírito, com toda a alma, com todas as forças». Amarás: amor de complacência para com este Senhor de tão grande majestade, para com este Deus de tão elevada perfeição; amor de benevolência com que se procura a glória d 'Aquele que é objeto desse amor; amor recíproco para com Deus «que primeiro nos amou».
Deus quer, portanto, que as nossas relações com Ele estejam impregnadas de reverência e ao mesmo tempo de profundo amor. Sem a reverência, o amor corre perigo de degenerar em negligência grosseira, altamente perigosa: sem o amor que nos impele com todo o entusiasmo para o Pai, a alma vive no erro e faz um ultraje ao dom divino.
E, para conservar em nós estes dois sentimentos aparentemente contraditórios, Deus comunica-nos o Espírito do Seu Filho Jesus que, pelos dons de temor e piedade, harmoniza em nós, na justa proporção que reclamam, a mais íntima adoração com o mais temo amor: Quoniam estis fílli, misít Deus spiritum Filli sui in corda vestra.
É este o espirito que, segundo os ensinamentos do próprio Jesus, deve reger e governar toda a nossa vida; é «O espírito de adoção da Nova Aliança», que S. Paulo opôs ao «espirito de completa escravidão» da Antiga Lei.
Perguntar-me-eis talvez a razão desta diferença. É que, desde a Incarnação, Deus vê a humanidade no
Seu Filho Jesus: por causa d' Ele, envolve toda a humanidade no mesmo olhar de complacência de que é objeto Seu Filho, nosso irmão mais velho; por isso, quer que, como Ele, com Ele, por Ele, vivamos «como filhos muito amados».
Dir-me-eis ainda: Como é possível amar a Deus que não vemos? Deum nemo vidit unquam. -É verdade que «a luz divina é inacessível neste mundo »; Deus, porém, revelou-se-nos em Seu Filho Jesus: lpse illuxít cordibus nostris . . . in facie Christi Jesu. O Verbo Incarnado é a revelação autêntica de Deus e das Suas perfeições; e o amor que Jesus Cristo nos mostrou não é mais do que a manifestação do amor que Deus nos tem.
Com efeito, o amor de Deus é, em si, incompreensível: ultrapassa completamente o nosso entendimento; não entra no espírito do homem conceber o que é Deus; n'Ele as perfeições não são distintas da natureza; o amor de Deus é o próprio Deus: Deus caritas est.
Como poderemos então ter uma ideia verdadeira do amor de Deus? Vendo a Deus, que se nos manifesta duma forma tangível. E que forma é esta? A Humanidade de Jesus. Cristo é Deus, mas Deus que se revela a nós. A contemplação da Santa Humanidade de Jesus é o caminho mais seguro para chegar ao verdadeiro conhecimento de Deus. «Quem me vê, vê o Pai»; o amor que nos mostra o Verbo Incarnado revela o amor do Pai para conosco, pois «O Verbo e o Pai são um só»: Ego et pater unum sumus.
Uma vez estabelecida esta ordem, nunca mais se altera. O cristianismo é o amor de Deus a manifestar-se ao mundo por Jesus Cristo; e toda a nossa religião deve resumir-se na contemplação deste amor em Cristo e corresponder a este amor de Cristo para chegar até Deus.
Tal é o plano divino; tal é o pensamento de Deus a nosso respeito. Se não nos adaptarmos a ele, não haverá para nós nem luz nem verdade; não haverá segurança nem salvação.
Ora a atitude essencial que de nós reclama este plano divino é a de filhos adotivos. Somos seres tirados do nada, e diante «deste Pai de imensa majestade» devemos prostrar-nos com o sentimento da mais profunda reverência; mas a estas relações fundamentais que nascem da nossa condição de criaturas sobrepõem-se, não para as destruir, mas para as completar, relações infinitamente mais extensas e íntimas, que resultam da nossa adoção divina e se resumem todas em servir a Deus por amor.
Esta atitude fundamental, que deve corresponder à realidade da nossa adoção celeste, é particularmente favorecida pela devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Fazendo-nos contemplar o amor humano de Cristo para conosco, esta devoção introduz-nos nos segredos do amor divino; inclinando as nossas almas a reconhecê-Lo por uma vida toda movida pelo amor, conserva em nós
aqueles sentimentos de piedade filial que devemos ter para com o Pai.
Quando recebemos a Nosso Senhor na Sagrada Comunhão, possuímos em nós este Coração divino que é uma fornalha de amor. Peçamos-Lhe instantemente que nos faça compreender esse amor, pois nisto um raio de luz do alto é mais eficaz do que todos os raciocínios humanos; peçamos-Lhe que acenda em nós o amor à Sua pessoa. «Se, por uma graça do Senhor, dizia Santa Teresa, o Seu amor se gravar um dia no nosso coração, tudo nos será fácil; rapidamente e sem a menor dificuldade, chegaremos às obras».
Se este amor à pessoa de Jesus estiver em nosso coração, dele nascerá a nossa atividade. Poderemos encontrar dificuldades, ser submetidos a grandes provações, sofrer violentas tentações; mas, se amarmos a Jesus Cristo, estas dificuldades, estas provações, estas tentações achar-nos-ão firmes: Aquae multae non potuerunt exstínguere caritatem. Porque, «quando o amor de Jesus Cristo nos impele, já não queremos viver para nós mesmos, mas para Aquele que nos amou e que morreu por nós»: Ut et qui vivunt, jam non sibi vivant, sed ei qui pro ipsis mortuus est.
4 de setembro de 2017
Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.
IV
Assim como o Espírito Santo não chama todas as almas a brilhar de igual modo pelas mesmas virtudes, assim também, em matéria de devoção particular, lhes deixa uma santa liberdade que, por nosso lado, devemos cuidadosamente respeitar. Algumas almas sentem-se levadas a venerar especialmente os mistérios da infância de Jesus; outras são atraídas pelos encantos interiores de Sua vida oculta; outras ainda não podem privar-se da meditação da Paixão.
Todavia, a devoção ao Sagrado Coração é daquelas que nos devem ser mais caras. Porquê? Porque honra a Jesus Cristo, não num dos Seus estados ou mistérios particulares, mas na generalidade e na totalidade do Seu amor, daquele amor em que todos os mistérios têm a sua mais profunda explicação. Conquanto especial e nitidamente caracterizada, esta devoção reveste algo de universal: ao honrar o Coração de Jesus, não é a Jesus menino, adolescente ou vítima, que se dirigem as nossas homenagens, mas à pessoa de Jesus na plenitude do Seu amor.
Além disso, a prática geral desta devoção tende, em última análise, a pagar a Nosso Senhor amor com amor - Movet nos ad amandum mutuo - a tomar toda a nossa atividade para a saturar de amor, a fim de ser agradável a Jesus Cristo. Os exercícios particulares são apenas meios de exprimir ao nosso divino Mestre esta reciprocidade de amor.
Eis um efeito preciosíssimo desta devoção. É que toda a religião cristã se reduz para nós a este ponto: entregar-nos, por amor, ao serviço de Jesus Cristo e, por Ele, ao Pai e ao Espírito Santo. Este ponto é de capital importância e quero, ao terminar esta conferência, meditá-lo convosco uns instantes.
É uma verdade confirmada pela experiência das almas que a nossa vida espiritual depende, em grande parte, da ideia que habitualmente fazemos de Deus.
Há entre nós e Deus relações fundamentais, baseadas na nossa natureza de criaturas; existem relações
morais resultantes da nossa atitude para com Ele; e esta atitude é, a maior parte das vezes, condicionada pela ideia que fazemos de Deus.
Se fizermos de Deus uma ideia falsa, os nossos esforços para progredir serão muitas vezes vãos e estéreis, porque se realizam fora do bom caminho; se tivermos uma ideia in completa de Deus, a nossa vida espiritual será cheia de lacunas e imperfeições; mas se a ideia que temos de Deus for verdadeira, tão verdadeira quanto neste mundo é possível a uma criatura que vive da fé, a nossa alma dará largas à sua expansão, segura e radiante de luz.
Esta ideia habitual que fazemos de Deus é, pois, a chave da nossa vida interior, não só porque regula a nossa atitude para com Ele, mas também porque muitas vezes determina a atitude do mesmo Deus para conosco; em muitos casos, Deus trata-nos como nós O tratamos a Ele.
Mas, dir-me-eis, a graça santificante não nos faz filhos de Deus? Claro que sim. Todavia, na prática,
há almas que não se comportam como filhos adotivos do Eterno Pai. Dir-se-ia que esta condição de filhos de Deus tem para elas apenas valor nominal. Não compreendem que é este um estado fundamental que se deve manifestar incessantemente por atos correspondentes e que toda a vida espiritual deve ser o desenvolvimento do espírito de adoção divina, espírito que recebemos no Batismo pela virtude de Jesus Cristo.
Assim, encontram-se almas que habitualmente olham para Deus à maneira dos israelitas. Deus revela-se-lhes no meio dos trovões e relâmpagos do Sinai. Para este povo «de dura cerviz», propenso à infidelidade e à idolatria, Jeová era um Deus que se devia adorar, um Senhor que se devia servir, um Juiz que se devia temer. Os israelitas tinham recebido, como diz S. Paulo, Spiritum servitutis in timore - «um espírito de servidão para viver no temor». Deus não lhes aparecia senão na majestade da Sua grandeza e na soberania do Seu poder. Sabeis que os tratava com rigorosa justiça: a terra abria-se para tragar os hebreus culpados; aqueles que tocavam na arca da aliança sem as suas funções a isso lhe darem direito, eram feridos de morte; serpentes venenosas matavam os murmuradores; mal se atreviam a pronunciar o nome de Jeová; uma vez por ano o sumo sacerdote entrava sozinho e a tremer no Santo dos santos, com o sangue das vítimas imoladas pelo pecado. Era «O espírito de servidão».
Há almas que vivem habitualmente nestes sentimentos de temor puramente servil; se não temessem os castigos de Deus, não achariam inconveniente algum em O ofender. Consideram habitualmente Deus apenas como um senhor, e não se preocupam com Lhe agradar. Assemelham-se àquele servo de que fala Jesus na parábola das moedas. Um rei, tendo de partir para uma região longínqua, chama os seus servos e entrega-lhes umas moedas de prata que deviam fazer render até ele voltar. Um dos servos arrecada a moeda e não a faz render. «Aqui está a vossa moeda, diz ao rei, depois do regresso deste; Escondi-a embrulhada num pano, pois tive medo de vós, por serdes homem severo; retirais o que não depositastes e colheis o que não semeastes». E que responde o rei? Pega na palavra do servo preguiçoso para o condenar. «Julgo-te por tuas próprias palavras, servo mau; sabes que sou homem severo . . . Então porque não puseste o meu dinheiro a render?» E o rei manda tirar a este servo o que lhe havia sido confiado.
Tais almas tratam com Deus como que de longe, consideram-No unicamente como um grande senhor. E Deus trata-as do mesmo modo; não se dá a elas inteiramente; entre elas e Deus não pode haver intimidade pessoal; nelas é impossível a expansão interior.
Outras almas, talvez mais numerosas, consideram habitualmente a Deus como o grande benfeitor; trabalham de ordinário apenas «com o fito na recompensa»: Propter retributionem. Esta ideia não é inteiramente falsa. Vemos Jesus Cristo comparar o Pai a um senhor que recompensa (e com que magnífica liberalidade !) o servo fiel: "Entra na alegria do teu senhor». Ele próprio nos diz que sobe ao céu para «nos preparar lá um lugar».
Mas, quando esta atitude é habitual a ponto de se tornar exclusiva, como se dá com certas almas, além de ser uma falta de nobreza, não corresponde plenamente ao espírito do Evangelho. A esperança é uma virtude cristã, alenta poderosamente a alma no meio da adversidade, das provações, das tentações; mas não é a única nem a mais perfeita das virtudes teologais, virtudes específicas da nossa condição de filhos de Deus. Qual é então a virtude mais perfeita? Qual de entre elas leva a palma?
A caridade, responde S. Paulo: Nunc manent fides, spes, caritas, tria hac: major autem horum est caritas.
1 de setembro de 2017
Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.
III
O amor é ativo: por natureza, não conhece limites. Em Jesus, tinha de ser para nós fonte inexaurivel
de dons.
Na oração da festa do Sagrado Coração, a Igreja convida-nos a «recordar pelo pensamento as graças principais que devemos ao amor de Jesus Cristo": Praecipua in nos caritatis ejus beneficia recolimus. Esta contemplação é um dos elementos da devoção ao Sagrado Coração. Como honrar um amor cujas manifestações nos são desconhecidas?
Este amor, como dissemos, é o amor humano de Jesus, revelação do amor incriado. A este amor incriado, comum ao Pai e ao Espírito Santo, devemos tudo. Não há dom que não tenha nele o seu principio mais profundo. Quem tirou os seres do nada? O amor. Canta-se no hino da festa: «a terra, o mar, os astros são obra do amor»:
Ille amor almus artifex
Terrae marisque et siderum.
Mais ainda do que a criação, a Incarnação é obra do amor. «Foi ele que fez descer o Verbo dos esplendores dos céus para O unir a uma natureza fraca e mortal».
Amor coegit te tuus
Mortale corpus sumere,
Mas os benefícios que principalmente devemos recordar são a Redenção pela Paixão, e a instituição
dos Sacramentos, sobretudo a Eucaristia. Devemo-los ao amor humano de Jesus tanto como ao Seu amor incriado.
Ao contemplarmos estes mistérios, vimos já que amor profundo e ardente eles traduzem. Nosso Senhor mesmo dizia: «Não há maior ato de amor do que dar a própria vida pelos seus amigos". Ele chegou a esse ponto. Muitas virtudes brilham nessa bendita Paixão; mas nenhuma como o amor atingiu nela o seu apogeu. Eram precisos nada menos do que excessos de amor para voluntariamente se submeter, em cada uma das fases da Paixão, a abismos de humilhações e opróbrios de sofrimentos e dores.
E, do mesmo modo que o amor operou a nossa Redenção, instituiu igualmente os Sacramentos, pelos
quais hão-de ser aplicados a toda a alma de boa vontade os frutos do sacrifício de Jesus.
Santo Agostinho chama a atenção para a expressão propositadamente escolhida pelo Evangelista para nos fazer conhecer a ferida feita pela lança no lado de Jesus, morto na cruz. O escritor sagrado não diz que a lança «bateu" ou «feriu», mas sim que «abriu» o lado do Salvador: Latus ejus aperuit.(Era a porta da vida que se abria, diz o grande Doutor; do Coração aberto de Jesus iam correr sobre o mundo rios de graças que deviam santificar a Igreja.
Esta contemplação dos benefícios de Jesus para conosco deve tonar-se a fonte da nossa devoção prática ao Sagrado Coração. O amor só se pode pagar com amor. De que se queixa Nosso Senhor a Santa Margarida Maria? De não ver retribuído o Seu amor: «Eis o Coração que tanto amou os homens e deles só recebe in gratidão». É, pois, pelo amor, pela doação do coração, que devemos corresponder a Jesus Cristo. «Quem não há de amar Aquele que o ama? Qual o resgatado que não se prende ao seu Redentor»?
Quis non amantem redamet?
Quis non redernptus diligat?
Para ser perfeito, este amor deve ter um duplo caráter.
Há o amor afetivo, que consiste nos diversos sentimentos que fazem vibrar a alma para com a pessoa
amada: admiração, complacência, alegria, ação de graças. Este amor faz nascer nos lábios o louvor. Alegramo-nos com as perfeições do Coração de Jesus, celebramos as Suas belezas e grandezas, compraze-mo-nos na magnificência dos Seus dons: Exsultabunt labia mea cum cantavero tibi.
Este amor afetivo é necessário. A alma, quando contempla a Cristo no Seu amor, deve abandonar-se à admiração, à complacência, ao júbilo. Porquê? Porque devemos amar a Deus com todo o nosso ser. Deus quer que o nosso amor para com Ele corresponda à nossa natureza. Ora nós não temos uma natureza angélica, mas humana, em que a sensibilidade tem o seu lugar. Jesus Cristo aceita esta forma de amor, porque se funda na nossa natureza que Ele próprio criou. Vede-O na Sua entrada triunfal em Jerusalém, poucos dias antes da Paixão. «Quando descia do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos, arrebatada de alegria, começou a louvar a Deus em altas vozes por todos os milagres que vira: Bendito o Rei que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus! Então alguns fariseus, do meio da multidão, disseram a Jesus: Mestre, repreendei os Vossos discípulos». E que responde Nosso Senhor? Faz cessar aquelas aclamações? Pelo contrário, responde aos fariseus: «Eu vos digo: se eles se calarem, gritarão as pedras».
Jesus Cristo recebe com agrado os louvores que sobem do coração aos lábios. O nosso amor deve traduzir-se em afetos. Vede os Santos. S. Francisco, o pobre de Assis, vivia tão enlevado no amor, que cantava os louvores de Deus pelas estradas; Santa Madalena de Pazzi percorria os claustros do convento a gritar: "Ó Amor! ó Amor! ». Santa Teresa vibrava toda, cada vez que cantava estas palavras do Credo: Cujus regni non erit finis - «O seu reinado não terá fim». Lede as suas «Exclamações»; vereis como nas almas dominadas pelo amor os sentimentos da natureza humana se expandem em louvores ardentes.
Não hesitemos, pois, em multiplicar os nossos louvores ao Coração de Jesus. As «Ladainhas», os atos de reparação e consagração são outras tantas expressões deste amor, de sentimento, sem o qual a alma humana não atinge a perfeição da sua natureza.
Todavia, este amor afetivo, por si só, não basta. Para ter todo o valor, deve "traduzir-se em obras": Probatio dilectionis exhibitio operis. "Se me tendes amor, dizia Jesus, guardai os meus mandamentos": Si diligitis me, mandata mea servate. Aqui é que está a pedra de toque. Encontrareis muitas almas ricas de afetos, com o dom das lágrimas, mas que não empregam o mínimo esforço para reprimir as más inclinações, destruir os hábitos viciosos, evitar as ocasiões de pecado; que abandonam tudo quando vem a tentação, que murmuram logo que se apresentam as contrariedades e contradições. Nelas o amor afetivo está cheio de ilusões; é uma fogueira de palha que não dura, que se desfaz em cinzas.
Se amamos deveras a Jesus Cristo, não só nos alegraremos com a Sua glória, cantaremos as Suas perfeições com todas as forças da nossa alma, nos entristecemos com as ofensas feitas ao Seu Coração e Lhe oferecemos condignas reparações, mas sobretudo esforçar-nos-emos por Lhe obedecer em tudo, aceitaremos de boa mente todas as disposições da Sua Providência a nosso respeito, trabalharemos por dilatar o Seu reino nas almas, por Lhe proporcionar toda a glória, "consumir-nos-emos com alegria, iremos, se preciso for, até ao nosso último alento", segundo a bela expressão de S. Paulo: Libentissime impendam et superimpendar! O Apóstolo refere-se à caridade para com o próximo; aplicada ao nosso amor a Jesus, esta fórmula resume admiravelmente a prática da devoção ao Seu Sagrado Coração.
Contemplemos o nosso Divino Salvador; nisto, como em todas as virtudes, é o nosso melhor modelo; n'Ele encontramos estas duas formas de amor.
Considerai o amor que Ele tem ao Pai. Jesus Cristo experimenta em Seu Coração os mais verdadeiros sentimentos de amor afetivo que podem fazer vibrar um coração humano. O Evangelho mostra-nos um dia o Seu Coração a transbordar de sentimentos de entusiasmo pelas perfeições insondáveis do Pai, a expandir-se em louvores diante dos discípulos. Exulta de alegria sob a ação do Espírito Santo e diz: «Eu te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, por teres ocultado estas coisas aos sábios e aos prudentes, e as teres revelado aos pequeninos. Sim. Eu te bendigo, Ó Pai, por que assim te
aprouve . .».
aprouve . .».
Vede ainda na Ceia como o Seu Coração Sagrado está cheio de afeto para com o Pai e como os Seus
sentimentos se manifestam numa inefável oração.
E para mostrar ao mundo inteiro a sinceridade e vivacidade desse amor - Ut cognoscat mundus quia diligo Patrem - , Jesus encaminha-se logo para o Jardim das Oliveiras, onde vai começar a longa série de humilhações e dores da Sua Paixão.
Este duplo carácter encontra-se igualmente no Seu amor para com os homens. Havia já três dias que uma multidão de povo O seguia atraída pelo encanto das Suas palavras divinas e pela fama dos Seus milagres. Mas o cansaço começa a apoderar-se daquela pobre gente que não tem com que restaurar as forças. Jesus sabe disso: «Tenho compaixão desta gente, diz: há já três dias que não me deixam e não têm nada que comer. Se os mandar embora sem comer, cairão desfalecidos pelo caminho, pois muitos vieram de longe». Misereor super turbam. Que profundo sentimento de compaixão confrange o Seu Coração humano! Bem sabeis como Jesus pôs em prática este sentimento. Em Suas mãos benditas multiplicaram-se os pães para saciar as quatro mil pessoas que o acompanhavam.
Vede-O sobretudo junto ao túmulo de Lázaro. Jesus chora, derrama lágrimas humanas. Haverá mais tocante e autêntica manifestação dos sentimentos do Seu Coração? E imediatamente põe a Sua omnipotência ao serviço do amor: «Lázaro, sai desse túmulo»!
É o amor que se revela no dom de si mesmo; é o amor que, transbordando do coração, se apodera de
todo o ser, de toda a atividade, para os consagrar aos interesses e à glória do objeto amado.
Até onde deve ir este amor que devemos mostrar a Jesus Cristo em paga do Seu amor para connosco?
Deve, em primeiro lugar, incluir o amor essencial e soberano que nos faz considerar a Cristo como o Bem supremo que preferimos a todas as coisas. Praticamente, este amor reduz-se ao estado de graça santificante. A devoção, como dissemos, é a dedicação; mas onde está a dedicação duma alma que não procura conservar em si, a todo o custo, por uma fidelidade vigilante, o tesouro da graça do Salvador? que, na tentação, hesita entre a vontade de Cristo e as sugestões do seu eterno inimigo?
Sabeis que é este amor que dá à nossa vida todo o seu valor e faz dela como que uma perpétua homenagem agradável ao Coração de Jesus. Sem este amor essencial, nada tem valor aos olhos de Deus. Ouvi em que termos expressivos S. Paulo põe em relevo esta verdade: «Ainda que eu fale a linguagem dos Anjos e dos homens, se não tiver caridade, serei apenas um bronze que ressoa, um címbalo que retine; posso ter o dom da profecia, conhecer todos os mistérios, possuir toda a ciência, ter uma fé capaz de transportar montanhas; se não tiver caridade, nada sou; mesmo que distribua todos os meus bens aos pobres, entregue o meu corpo às chamas, se não tiver caridade, de nada me serve tudo isto». Por outras palavras, não posso ser agradável a Deus, se não tiver em mim aquela caridade essencial pela qual me uno a Ele como ao soberano Bem. É mais que evidente que não pode existir verdadeira devoção onde não há este amor.
Depois, habituemo-nos a fazer tudo, mesmo as coisas mais insignificantes, por amor, para agradar a Jesus Cristo. Trabalhar, aceitar os sofrimentos e as dores, cumprir os deveres do próprio estado por amor para agradar a Nosso Senhor, em união com os sentimentos do Seu Coração enquanto vivia neste mundo, constitui uma excelente prática de devoção ao Sagrado Coração. Toda a nossa vida Lhe é assim dedicada por uma orientação cheia de amor.
De resto é isto que dá à nossa vida um aumento de fecundidade. Como sabeis, todo o ato de virtude, de humildade, de obediência, de religião, feito em estado de graça, possui o seu mérito próprio, a sua perfeição especial, o seu esplendor particular; mas, quando este ato é imperado pelo amor, redobra de beleza e eficácia; sem perder nada do seu valor próprio, vai-se-lhe ajuntar o mérito dum ato de amor. «Senhor, cantava o salmista, a rainha está sentada à Vossa direita, ornada dum vestido de ouro, de cores variadas»: Adstitit regina a dextris tuis in vestitu deaurato, circumdata varietate. A rainha é a alma fiel, em quem Jesus Cristo reina pela graça; está sentada à direita do Rei, com um vestido tecido de ouro, que significa o amor; as cores variadas simbolizam as diferentes virtudes; cada uma delas conserva o seu reflexo, mas o amor, que delas é a fonte profunda, realça-lhes o brilho.
Assim, o amor reina como soberano no nosso coração para orientar todos os seus movimentos para a glória de Deus e de Seu Filho Jesus .
29 de agosto de 2017
Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.
II
Examinando agora rapidamente os diversos elementos deste culto, veremos quanto ele se justifica.
O objeto próprio e direto é o Coração físico de Cristo. Este Coração é de fato digno de adoração.
Porquê? Porque fez parte da natureza humana e o Verbo se uniu a uma natureza perfeita: Perfectus homo. A mesma adoração que prestamos à Pessoa divina do Verbo abrange tudo o que Lhe está pessoalmente unido, tudo o que subsiste nela e por ela. Isto é verdade relativamente à natureza humana de Jesus na sua totalidade, e é verdade com relação a cada uma das partes de que essa natureza se compõe. O Coração de Jesus é o Coração dum Deus.
Mas este Coração, que veneramos e adoramos nesta Humanidade unida à pessoa do Verbo, serve aqui de símbolo. Símbolo de quê? Do amor. Na linguagem corrente, o coração é considerado como símbolo do amor. Quando Deus diz na Sagrada Escritura: «Meu filho, dá-me o teu coração» , compreendemos que o coração aqui significa o amor. Pode dizer-se de alguém: estimo-o, respeito-o, mas não lhe posso dar o meu coração; estas palavras indicam que é impossível a amizade, a intimidade, a união.
Na devoção ao Sagrado Coração veneramos, portanto, o amor que nos tem o Verbo Incarnado.
Em primeiro lugar, o amor criado. Jesus Cristo é ao mesmo tempo Deus e Homem, Deus perfeito, Homem perfeito: é o próprio mistério da Incarnação. Na Sua qualidade de "Filho do Homem», Jesus Cristo tem um Coração como o nosso, um Coração de carne, um Coração que palpita por nós com o amor mais terno, mais verdadeiro, mais nobre, mais fiel.
Na epístola aos Efésios, dizia-lhes S. Paulo que pedia com instância a Deus que os fizesse conhecer a
extensão, a largura, a altura e a profundidade do mistério de Jesus, tão deslumbrado estava com as riquezas incomensuráveis que este mistério encerra. Outro tanto podia dizer do amor do Coração de Jesus por nós; aliás, disse-o quando proclamou que «este amor ultrapassava toda a ciência».
E realmente, nunca esgotaremos os tesouros de ternura, amabilidade, benevolência, caridade, de que o Coração do Homem-Deus é ardente foco. Basta abrir o Evangelho: em cada página vemos refulgir a bondade, a misericórdia, a condescendência de Jesus para com os homens. Ao expor-vos alguns dos aspectos da Sua vida pública, procurei mostrar o que esse amor tem de profundamente humano, de in finitamente delicado.
Este amor de Cristo não é uma quimera; é bem real, pois se baseia na realidade da própria Incarnação. A Virgem Maria, S. João, a Madalena, Lázaro, bem o sabiam. Não era unicamente um amor de vontade, era-o também de sentimento. Quando Jesus dizia: «Tenho pena desta multidão», sentia realmente a compaixão ferir-lhe as fibras do Seu Coração de homem. Ao ver Marta e Madalena a chorar pelo irmão, chorou com elas lágrimas bem humanas, provocadas pela emoção que Lhe apertava o Coração. Por isso, os judeus, testemunhas do fato, diziam entre si: «Vede como o amava» !
Jesus Cristo não muda. Era ontem, é hoje, continua a ser lá no céu o mais amoroso e o mais amável dos corações que encontrar se podem. S. Paulo diz-nos em termos claros que devemos ter confiança em Jesus, porque é um Pontífice compassivo, conhecedor dos nossos sofrimentos, das nossas misérias e enfermidades, pois Ele próprio tomou sobre si as nossas fraquezas, exceto o pecado. É certo que Jesus Cristo já não pode sofrer - Mors illi ultra non dominabitur; mas é sempre Aquele que se compadeceu, que sofreu, que resgatou os homens por amor: Dilexit me et tradidit semetipsum pro me.
Qual a origem deste amor humano, deste amor criado de Jesus: Donde procede? Do amor incriado e
divino, do amor do Verbo eterno, ao qual está indissoluvelmente unida a natureza humana. Em Cristo, emhora haja duas naturezas perfeitas e distintas, cada uma das quais com as suas energias específicas e operações próprias, há uma só pessoa divina. Já vos disse que o amor criado de Jesus não é mais do que uma revelação do Seu amor incriado. Tudo quanto faz o amor criado fá-lo unicamente em união com o amor incriado e por causa dele; o Coração de Cristo hauria a Sua bondade humana no oceano divino.
No Calvário vemos morrer um homem como nós, que foi atormentado pela angústia, que sofreu, que foi esmagado pelos tormentos, como homem algum o será jamais; compreendemos o amor que este homem nos mostra. Mas esse amor que, pela Sua intensidade excede a nossa ciência, é a expressão concreta, tangível do amor divino. O Coração de Jesus, rasgado na cruz, revela-nos o amor humano de Cristo; mas, por detrás do véu da Humanidade de Jesus, vê-se o inefável e incompreensível amor do Verbo.
Que largas perspectivas nos abre esta devoção! Como é próprio para atrair a alma fiel! É que lhe permite venerar o que há de maior, mais elevado, mais eficaz em Jesus Cristo, Verbo Incarnado: o amor que tem ao mundo e de que é fornalha o Seu Coração.
26 de agosto de 2017
Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.
O CORAÇÃO DE JESUS
l
«Devoção» deriva da palavra latina devovere, "dedicar-se", consagrar-se a uma pessoa amada. A devoção para com Deus é a mais alta expressão do amor. "Amarás a Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu espírito, com todas as tuas forças»: Diliges Dominum Deum tuum ex TOTO corde tuo, et ex TOTA anima tua, et ex TOTA mente tua. Este - totus - marca a devoção. Amar a Deus com todo o seu ser, sem nada reservar para si, sem nunca parar, amá-Lo a ponto de a criatura se dedicar ao Seu serviço pronta e livremente, tal é a devoção em geral; e, assim entendida, a devoção constitui a perfeição, visto ser a flor da caridade.
A devoção a Jesus Cristo é a dedicação de todo o nosso ser e de toda a nossa atividade à pessoa do Verbo Incarnado, abstraindo deste ou daquele estado particular da pessoa de Jesus, deste ou daquele mistério especial da Sua vida. Por esta devoção a Jesus Cristo procuramos conhecer, honrar, servir o Filho de Deus, que se nos manifesta pela Sua santa Humanidade.
Uma devoção particular é ou a « dedicação» a Deus considerado especialmente num dos Seus atributos ou perfeições - como a santidade, a misericórdia - ou ainda a uma das pessoas divinas ou a «dedicação" a Jesus Cristo contemplado num dos Seus mistérios, num ou noutro dos Seus estados.
Como vimos no decurso destas conferências, é sempre o mesmo Jesus Cristo que honramos, é sempre à Sua pessoa adorável que se dirigem as nossas homenagens: consideramos, porém, a Sua pessoa sob um aspecto particular ou como manifestando-se num mistério especial. Assim, a devoção à santa Infância é a devoção à própria pessoa de Cristo, contemplado especialmente nos mistérios da Natividade e da vida de adolescente em Nazaré. A devoção às Cinco Chagas é a devoção à pessoa do Verbo Incarnado, considerado nos Seus sofrimentos, sofrimentos estes simbolizados nas mesmas Cinco Chagas, cujas gloriosas cicatrizes Jesus Cristo conserva depois da Ressurreição. A devoção pode ter um objeto especial, próprio, imediato, mas termina sempre na pessoa em si mesma.
Compreendeis agora o que se deve entender por devoção ao Sagrado Coração. É, dum modo geral, a dedicação à pessoa de Jesus, enquanto manifesta o Seu amor por nós e nos mostra o Seu Coração como símbolo deste amor. A quem honramos nesta devoção? A Jesus Cristo em pessoa. Mas qual o objeto imediato, especial, próprio desta devoção? O Coração de carne de Jesus, o Coração que por nós pulsava no peito do Homem-Deus; porém, não o veneramos separado da natureza humana de Jesus nem da pessoa do Verbo eterno a que esta natureza humana se uniu na Incarnação. E devemos ainda acrescentar o seguinte: veneramos este Coração como símbolo do amor de Jesus para conosco.
A devoção ao Sagrado Coração reduz-se, pois, ao culto do Verbo Incarnado, enquanto nos manifesta o Seu amor e nos mostra o Seu Coração como símbolo desse amor.
Não é preciso justificar perante vós esta devoção, que vos é familiar; não será, todavia, inútil, dizer-vos alguma coisa sobre o assunto.
Sabeis que, no pensar de alguns protestantes, a Igreja é como um corpo sem vida; teria recebido toda a sua perfeição logo no princípio e assim devia ficar; tudo o que veio depois, ou seja em matéria dogmática ou seja no domínio da piedade, não é outra coisa, segundo eles, senão superfluidade e corrupção.
Para nós, porém, a Igreja é um organismo vivo, que, como todo o organismo vivo, se deve desenvolver e aperfeiçoar. O depósito da revelação foi selado com a morte do último Apóstolo. Desde então, ·nenhum escrito é admitido como inspirado, nem as revelações particulares dos santos entram no depósito oficial das verdades da fé. Há, todavia, muitas verdades que estão contidas na revelação oficial apenas em germe; só pouco a pouco, sob a pressão dos acontecimentos e a inspiração do Espirito Santo, vai surgindo a oportunidade de chegar a definições explicitas que fixam, em fórmulas precisas e determinadas, o que anteriormente era conhecido apenas de modo implícito.
Desde os primeiros instantes da Incarnação, Jesus Cristo possuía na Sua santa alma todos os tesouros da ciência e sabedoria divinas. Mas só a pouco e pouco é que se foram revelando. A medida que Jesus Cristo ia crescendo em idade, aquela ciência e sabedoria iam-se manifestando, iam-se vendo aparecer e florescer as virtudes cujo germe em si continha.
Algo de análogo se passa com a igreja, Corpo Místico de Cristo. Por exemplo, encontramos no depósito da fé esta magnífica revelação: «O Verbo era Deus, e o Verbo fez-se carne». Esta revelação contêm tesouros que só pouco a pouco se foram apresentando em toda a sua luz; é como uma semente que se transformou em frutos de verdade para aumentar o nosso conhecimento de Jesus Cristo. Quando surgiram as heresias, a Igreja, guiada pelo Espírito Santo, definiu que em Jesus Cristo há uma só pessoa divina, mas duas naturezas distintas e perfeitas, duas vontades, duas fontes de atividade; que a Virgem Maria é Mãe de Deus; que todas as partes da santa Humanidade de Jesus são adoráveis em virtude da Sua união com a pessoa divina do Verbo. Serão novos estes dogmas? Não. É o depósito da fé que se explica, se torna explícito, se desenvolve.
O que dizemos dos dogmas aplica-se perfeitamente às devoções. No decorrer dos séculos, surgiram devoções que a Igreja, inspirada pelo Espírito Santo, admitiu e fez suas. Não são inovações propriamente ditas; são efeitos dimanados dos dogmas estabelecidos e da atividade orgânica da Igreja.
Desde que a Igreja docente aprove uma devoção e a confirme com a sua autoridade soberana, devemos aceita-la com alegria; proceder doutro modo não seria «partilhar dos sentimentos da Igreja» - sentire cum Ecclesia - não seria compartilhar dos pensamentos de Jesus Cristo, pois Ele disse aos Apóstolos e seus sucessores: «Quem vos ouve, a mim ouve; quem vos despreza, a mim despreza». Ora, como ir para o Pai, se não ouvirmos a Cristo?
Relativamente moderna sob a forma que reveste atualmente, a devoção ao Sagrado Coração tem as suas raízes dogmáticas no depósito da fé. Estava contida em germe nas palavras de S. João: «0 Verbo fez-se carne e habitou entre nós . . . Levou ao último extremo o amor que tinha pelos Seus». Com efeito, o que é a Incarnação? É a manifestação de Deus. «É Deus que se revela pela Humanidade de Jesus»: Nova mentis nostrae oculis lux tuae claritatis infulsit. É a revelação do amor divino ao mundo: «Deus amou o mundo a ponto de lhe dar o seu Filho único»;e «não há maior amor do que o dar a vida por seus amigos»: Majorem hac dilectionem nemo habet. Toda a devoção ao Sagrado
Coração está contida em germe nestas palavras de Jesus. E para mostrar que este amor atingiu o mais elevado grau, Jesus Cristo quis que, logo depois de exalar o último suspiro na cruz, o Seu coração fosse atravessado pela lança de um soldado.
Como vamos ver, o amor que nesta devoção é simbolizado pelo Coração é antes de mais nada o amor
criado de Jesus; mas, como Jesus Cristo é o Verbo Incarnado, os tesouros deste amor criado manifestam-nos as maravilhas do amor divino do Verbo eterno.
Estais a ver a que profundezas do depósito da fé lança esta devoção as suas raízes. Longe de ser uma
adulteração ou corrupção, é uma adaptação, ao mesmo tempo simples e magnífica, das palavras de S. João sobre o Verbo que se fez carne e se imolou por amor de nós.
23 de agosto de 2017
Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.
XIX
O CORAÇÃO DE JESUS
(Festa do Sagrado Coração)
Tudo o que possuímos no domínio da graça nos vem de Jesus Cristo; «é da Sua plenitude que todos
nós recebemos »: De plenitudine ejus nos omnes accepimus. Ele derrubou o muro de separação que nos impedia de chegar até Deus; com abundância infinita, mereceu para nós todas as graças; divina cabeça do Corpo Místico, tem o poder de nos comunicar o Espírito dos Seus mistérios, para nos transformar em Si.
Quando consideramos estes mistérios de Jesus, qual das Suas perfeições vemos brilhar neles de modo particular? - O amor.
O amor realizou a lncarnação: Propter nos . . . descendit de caelis . . . et incarnatus est; foi o amor que fez nascer Jesus Cristo numa carne passível e enferma, inspirou a obscuridade da Sua vida oculta, alimentou o zelo da Sua vida pública. Se Jesus se entrega por nós à morte, é porque cede ao «excesso dum amor sem medida»; se ressuscita, é « para nossa justificação»; se sobe ao céu, é «como precursor que vai preparar-nos um lugar» naquela morada de beatitude; envia «o Espírito consolador» para não «nos deixar órfãos": institui o sacramento da Eucaristia como memorial do Seu amor. Todos estes mistérios têm a sua origem no amor.
É preciso que a nossa fé neste amor de Jesus Cristo seja viva e constante. E porquê? Porque é um dos mais poderosos sustentáculos da fidelidade.
Vede S. Paulo. Jamais homem algum trabalhou e se consumiu como ele por amor de Jesus. Um dia em que os inimigos atacam a legitimidade da sua missão, é obrigado, para se defender, a fazer a narração das suas obras, trabalhos e sofrimentos. Esta descrição viva, conhecei-la muito bem; mas é sempre uma alegria para a alma reler essa página, única nos anais do apostolado: «Muitas vezes, diz o grande Apóstolo, vi a morte de perto; cinco vezes sofri o suplício de flagelação: três vezes fui vergastado, e uma vez apedrejado; três vezes naufraguei; passei um dia e uma noite no fundo do mar. E as minhas viagens inúmeras, cheias de perigos; perigos por parte dos salteadores, perigos por parte dos meus patrícios, por parte dos infiéis; perigos nas cidades, perigos nos desertos, perigos no mar; os meus trabalhos e sofrimentos, as minhas numerosas vigílias; as torturas da fome e da sede, os múltiplos jejuns, o frio, a nudez; e, sem falar de tantas outras coisas, lembrarei as minhas preocupações diárias, a solicitude de todas as igrejas que fundei». Noutro lugar aplica a si as palavras do Salmista: «Por amor de Vós, Senhor, todos os dias somos entregues à morte, somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro ... » Não obstante, acrescenta logo a seguir: «Mas em todos estes perigos saímos vencedores»: Sed in his omnibus superamus. E onde encontra ele o segredo desta vitória? Perguntai-lhe porque suporta tudo, até mesmo o «tédio de viver»; por que é que em todas essas provações permanece unido a Cristo, com tão inabalável firmeza que «nem a tribulação nem a angústia, nem a perseguição, nem a fome, nem a espada o podem separar de Jesus"? Responder-vos-á: Propter eum, qui dilexit nos - « por amor d'Aquele que nos amou». O que o sustenta, fortalece, anima, estimula, é a profunda convicção do «amor que Jesus Cristo lhe tem»: Dilexit me et tradtidit semetipsum pro me.
De fato, o sentimento que nele faz nascer esta ardente convicção é que «não quer mais viver para si",
ele que blasfemou o nome de Deus e perseguiu os cristãos, «mas quer viver para Aquele que o amou a ponto de dar a própria vida por ele». Caritas Christi urget me . . . - "É o amor de Cristo que me impele», exclama; «por isso me entregarei por Ele, de bom grado me sacrificarei sem reserva, sem conta»; esgotar-me-ei pelas almas que são conquista sua: Libentissime impendam et superimpendar.
Esta convicção de que Jesus Cristo o ama explica realmente toda a obra do grande Apóstolo.
Não há nada que tanto incite ao amor, como o saber-se e sentir-se amado. "Todas as vezes que pensamos em Jesus Cristo, diz Santa Teresa, lembremo-nos do amor com que nos cumulou de benefícios . . . O amor chama o amor».
Mas como havemos de conhecer esse amor, que é a base de todos os estados de Jesus, que os explica e resume todos os seus motivos? Onde haurir esta ciência, tão salutar e fecunda, que S. Paulo dela fazia o objeto da sua oração pelos cristãos? Contemplando os mistérios de Jesus, se o fizermos com fé, o Espírito Santo, que é o amor infinito, descobrir-nos-á as suas profundezas e levar-nos-á ao amor em que têm a sua origem.
Há uma festa que, pelo seu objeto, nos recorda dum modo geral o amor que o Verbo Incarnado nos
mostrou: é a festa do Sagrado Coração. Em consequência das revelações de Nosso Senhor a Santa Margarida Maria, a Igreja fecha, para assim dizer, com esta festa, o ciclo anual das solenidades do Salvador; como se, chegada ao termo da contemplação dos mistérios do seu Esposo, nada mais lhe restasse do que celebrar o amor que os inspirou a todos.
A exemplo da Igreja, depois de termos passado em revista os principais mistérios do nosso divino chefe, dir-vos-ei algumas palavras sobre a devoção ao Sagrado Coração, seu objeto e prática. Mais uma vez nos daremos conta desta verdade capital: para nós, tudo se resume no reconhecimento prático do mistério de Jesus.
24 de julho de 2017
Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.
v
Mas, perguntar-me-eis, por que é que a Igreja parece reduzir à «veneração» todas as disposições para com este divino Sacramento? Que razão tem para assim proceder?
É que este respeito é uma homenagem de fé. O homem que não tem fé não dobra o joelho diante da hóstia consagrada. Esta reverência nasce e alimenta-se unicamente da fé.
Ora já vos tenho dito muitas vezes que a fé, base de toda a justificação e condição fundamental de todo o progresso na vida sobrenatural, é a primeira das disposições para receber o «fruto da Redenção» de Cristo.
Com efeito, que fruto é este para as nossas almas? Resume-se numa palavra: renascer para a vida divina da graça, tornar-nos participantes da adoção eterna. E isto não o conseguiremos senão pela fé. A fé é a condição primordial para nos tornarmos filhos de Deus e colhermos, na sua substância, o fruto da árvore divina da cruz: Quotquot autem receperunt eum, dedit eis potestatem filios Dei fieri, HIS QUI CREDUNT IN NOMlNE EJUS . . . qui ex Deo nati sunt.
A recepção da Eucaristia une-nos primeiramente à santa Humanidade de Cristo; e esta união opera-se
pela fé. Quando credes que a Humanidade de Jesus é a Humanidade do Filho de Deus, a própria Humanidade do Verbo, e que n'Ele há só uma pessoa divina, quando, com toda a força e plenitude da vossa fé, adorais esta santa Humanidade, por ela entrais em contato com o verbo, pois é ela o caminho que vos leva à Divindade.
Quando Jesus Cristo Se dá a nós na Sagrada Comunhão, faz-nos a pergunta que fazia aos Apóstolos: Quem dicunt homines esse Filium hominis? Que dizem de mim os homens? Ao que devemos responder com Pedro: « Tu es Christus, Filius Dei vivi - «Vós sois o Cristo, o Filho do Deus vivo». O que vejo é apenas um pedaço de pão e um pouco de vinho: mas Vós, que sois o Verbo, a Sabedoria Eterna e a Verdade infinita, dissestes: Hoc est corpus meum, hic est sanguis meus - «Este é o meu corpo, este é o meu sangue»; e por isso que o dissestes, creio que estais presente sob estas humildes e ínfimas aparências. Os nossos sentidos nada nos dizem, a fé é que nos faz penetrar até à realidade divina oculta sob os véus eucarísticos: Praestet fides supplementum sensuum defectui.
E Nosso Senhor diz-nos, como ao centurião: Sicut credidisti, fiat tibi - «Faça.-se conforme a tua fé».
Porque acreditais que sou Deus, dou-me a vós com todos os tesouros da minha Divindade, para vos cumular e transformar em mim; dou-me a vós com as inefáveis relações da minha vida íntima de Deus.
É que não nos unimos apenas com Cristo; Cristo é «um com o Pai» - Ego et Pater unum sumus - um, na unidade do Espírito Santo. A Comunhão une-nos ao mesmo tempo ao Pai e ao Espírito Santo. Jesus Cristo, Verbo Incarnado, é todo para o Pai. Quando comungamos Ele toma conta de nós, une-nos ao Pai como Ele mesmo Lhe está unido. Na última Ceia, depois de instituir a Sagrada Eucaristia, dizia Jesus: «Rogo-te, ó Pai, não só pelos meus Apóstolos, mas também por todos aqueles que, pela sua palavra, acreditarem em mim, para que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que sejam um em nós . . . Que eles sejam um, como nós somos um, eu neles e tu em mim»:
Ego in eis et tu in me.
O Verbo une-nos também ao Espírito Santo. Na adorável Trindade, o Espírito Santo é o amor substancial do Pai e do Filho, Jesus Cristo dá-no-Lo como O dava aos Apóstolos, para nos dirigir por Ele; comunica-nos este Espírito de adoção, o qual, provando-nos que somos realmente filhos de Deus, nos auxilia, pelas Suas luzes e inspirações, a viver como « filhos prediletos ».
Que santuário não é a alma que acaba de comungar! A Eucaristia dá-lhe primeiramente o Corpo e o Sangue de Cristo, dá-lhe a Divindade do Verbo indissoluvelmente unida, em Jesus, com a natureza humana; pelo Verbo, a alma fica unida ao Pai e ao Espírito Santo, na indivisibilidade da Sua natureza incriada. A SS.ma Trindade habita em nós; a nossa alma torna-se o céu onde se realizam as misteriosas operações da vida divina. Podemos então oferecer ao Pai o Filho da Sua predileção para que ponha de novo n'Ele as Suas complacências; podemos oferecer estas complacências a Jesus para que na Sua santa alma se repitam as inefáveis alegrias que sentiu no momento da Incarnação; podemos pedir ao Espírito Santo que seja o laço de amor que nos una ao Pai e ao Filho.
Só a fé nos pode fazer compreender estas maravilhas e penetrar nestes abismos: Mysterium fidei . . .
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