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7 de setembro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

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E por isso que, sem perder de vista o temor (não o temor servil do escravo que tem medo do castigo, mas o temor de ofender a Deus que nos criou ), sem pôr de parte o pensamento da recompensa que nos espera se formos fiéis, devemos procurar ter habitualmente para com Deus aquela atitude de confiança filial e amor que Jesus Cristo nos revelou como sendo a da Nova Aliança.
Efetivamente, Jesus Cristo sabe, melhor do que ninguém, quais devem ser as nossas relações com Deus, pois conhece os segredos divinos. Ouvindo-O, não corremos risco algum de nos perdermos: Ele é a própria Verdade. Ora, que atitude quer Ele que tenhamos para com Deus? Sob que aspecto quer que O contemplemos e honremos? Ensina-nos, é certo, que Deus é o Senhor soberano a quem devemos adorar. «Está escrito: Adorarás ao Senhor e só a Ele servirás». Mas «este Deus que devemos adorar é um Pai»: Veri adoratores adorabunt Patrem in spiritu et veritate, nam et Pater tales quaerit qui adorent eum.
E será a adoração o único sentimento que deve fazer palpitar os nossos corações? Constituirá ela a única atitude que devemos ter diante desse Pai que é Deus? Não: Jesus Cristo ajunta-lhe o amor, um amor pleno, perfeito, sem reserva nem restrição. Quando perguntaram a Jesus qual era o maior dos mandamentos, o que é que respondeu? «Amarás ao Senhor teu Deus, com todo o coração, com todo o espírito, com toda a alma, com todas as forças». Amarás: amor de complacência para com este Senhor de tão grande majestade, para com este Deus de tão elevada perfeição; amor de benevolência com que se procura a glória d 'Aquele que é objeto desse amor; amor recíproco para com Deus «que primeiro nos amou».
Deus quer, portanto, que as nossas relações com Ele estejam impregnadas de reverência e ao mesmo tempo de profundo amor. Sem a reverência, o amor corre perigo de degenerar em negligência grosseira, altamente perigosa: sem o amor que nos impele com todo o entusiasmo para o Pai, a alma vive no erro e faz um ultraje ao dom divino.
E, para conservar em nós estes dois sentimentos aparentemente contraditórios, Deus comunica-nos o Espírito do Seu Filho Jesus que, pelos dons de temor e piedade, harmoniza em nós, na justa proporção que reclamam, a mais íntima adoração com o mais temo amor: Quoniam estis fílli, misít Deus spiritum Filli sui in corda vestra.
É este o espirito que, segundo os ensinamentos do próprio Jesus, deve reger e governar toda a nossa vida; é «O espírito de adoção da Nova Aliança», que S. Paulo opôs ao «espirito de completa escravidão» da Antiga Lei.
Perguntar-me-eis talvez a razão desta diferença. É que, desde a Incarnação, Deus vê a humanidade no
Seu Filho Jesus: por causa d' Ele, envolve toda a humanidade no mesmo olhar de complacência de que é objeto Seu Filho, nosso irmão mais velho; por isso, quer que, como Ele, com Ele, por Ele, vivamos «como filhos muito amados».
Dir-me-eis ainda: Como é possível amar a Deus que não vemos? Deum nemo vidit unquam. -É verdade que «a luz divina é inacessível neste mundo »; Deus, porém, revelou-se-nos em Seu Filho Jesus: lpse illuxít cordibus nostris . . . in facie Christi Jesu. O Verbo Incarnado é a revelação autêntica de Deus e das Suas perfeições; e o amor que Jesus Cristo nos mostrou não é mais do que a manifestação do amor que Deus nos tem.
Com efeito, o amor de Deus é, em si, incompreensível: ultrapassa completamente o nosso entendimento; não entra no espírito do homem conceber o que é Deus; n'Ele as perfeições não são distintas da natureza; o amor de Deus é o próprio Deus: Deus caritas est.
Como poderemos então ter uma ideia verdadeira do amor de Deus? Vendo a Deus, que se nos manifesta duma forma tangível. E que forma é esta? A Humanidade de Jesus. Cristo é Deus, mas Deus que se revela a nós. A contemplação da Santa Humanidade de Jesus é o caminho mais seguro para chegar ao verdadeiro conhecimento de Deus. «Quem me vê, vê o Pai»; o amor que nos mostra o Verbo Incarnado revela o amor do Pai para conosco, pois «O Verbo e o Pai são um só»: Ego et pater unum sumus.
Uma vez estabelecida esta ordem, nunca mais se altera. O cristianismo é o amor de Deus a manifestar-se ao mundo por Jesus Cristo; e toda a nossa religião deve resumir-se na contemplação deste amor em Cristo e corresponder a este amor de Cristo para chegar até Deus.
Tal é o plano divino; tal é o pensamento de Deus a nosso respeito. Se não nos adaptarmos a ele, não haverá para nós nem luz nem verdade; não haverá segurança nem salvação.
Ora a atitude essencial que de nós reclama este plano divino é a de filhos adotivos. Somos seres tirados do nada, e diante «deste Pai de imensa majestade» devemos prostrar-nos com o sentimento da mais profunda reverência; mas a estas relações fundamentais que nascem da nossa condição de criaturas sobrepõem-se, não para as destruir, mas para as completar, relações infinitamente mais extensas e íntimas, que resultam da nossa adoção divina e se resumem todas em servir a Deus por amor.
Esta atitude fundamental, que deve corresponder à realidade da nossa adoção celeste, é particularmente favorecida pela devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Fazendo-nos contemplar o amor humano de Cristo para conosco, esta devoção introduz-nos nos segredos do amor divino; inclinando as nossas almas a reconhecê-Lo por uma vida toda movida pelo amor, conserva em nós
aqueles sentimentos de piedade filial que devemos ter para com o Pai.
Quando recebemos a Nosso Senhor na Sagrada Comunhão, possuímos em nós este Coração divino que é uma fornalha de amor. Peçamos-Lhe instantemente que nos faça compreender esse amor, pois nisto um raio de luz do alto é mais eficaz do que todos os raciocínios humanos; peçamos-Lhe que acenda em nós o amor à Sua pessoa. «Se, por uma graça do Senhor, dizia Santa Teresa, o Seu amor se gravar um dia no nosso coração, tudo nos será fácil; rapidamente e sem a menor dificuldade, chegaremos às obras».
Se este amor à pessoa de Jesus estiver em nosso coração, dele nascerá a nossa atividade. Poderemos encontrar dificuldades, ser submetidos a grandes provações, sofrer violentas tentações; mas, se amarmos a Jesus Cristo, estas dificuldades, estas provações, estas tentações achar-nos-ão firmes: Aquae multae non potuerunt exstínguere caritatem. Porque, «quando o amor de Jesus Cristo nos impele, já não queremos viver para nós mesmos, mas para Aquele que nos amou e que morreu por nós»: Ut et qui vivunt,  jam non sibi vivant, sed ei qui pro ipsis mortuus est.

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