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1 de setembro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

III

O amor é ativo: por natureza, não conhece limites. Em Jesus, tinha de ser para nós fonte inexaurivel
de dons.
Na oração da festa do Sagrado Coração, a Igreja convida-nos a «recordar pelo pensamento as graças principais que devemos ao amor de Jesus Cristo": Praecipua in nos caritatis ejus beneficia recolimus. Esta contemplação é um dos elementos da devoção ao Sagrado Coração. Como honrar um amor cujas manifestações nos são desconhecidas?
Este amor, como dissemos, é o amor humano de Jesus, revelação do amor incriado. A este amor incriado, comum ao Pai e ao Espírito Santo, devemos tudo. Não há dom que não tenha nele o seu principio mais profundo. Quem tirou os seres do nada? O amor. Canta-se no hino da festa: «a terra, o mar, os astros são obra do amor»:

Ille amor almus artifex
Terrae marisque et siderum.

Mais ainda do que a criação, a Incarnação é obra do amor. «Foi ele que fez descer o Verbo dos esplendores dos céus para O unir a uma natureza fraca e mortal».

Amor coegit te tuus
Mortale corpus sumere,

Mas os benefícios que principalmente devemos recordar são a Redenção pela Paixão, e a instituição
dos Sacramentos, sobretudo a Eucaristia. Devemo-los ao amor humano de Jesus tanto como ao Seu amor incriado.
Ao contemplarmos estes mistérios, vimos já que amor profundo e ardente eles traduzem. Nosso Senhor mesmo dizia: «Não há maior ato de amor do que dar a própria vida pelos seus amigos". Ele chegou a esse ponto. Muitas virtudes brilham nessa bendita Paixão; mas nenhuma como o amor atingiu nela o seu apogeu. Eram precisos nada menos do que excessos de amor para voluntariamente se submeter, em cada uma das fases da Paixão, a abismos de humilhações e opróbrios de sofrimentos e dores.
E, do mesmo modo que o amor operou a nossa Redenção, instituiu igualmente os Sacramentos, pelos
quais hão-de ser aplicados a toda a alma de boa vontade os frutos do sacrifício de Jesus.
Santo Agostinho chama a atenção para a expressão propositadamente escolhida pelo Evangelista para nos fazer conhecer a ferida feita pela lança no lado de Jesus, morto na cruz. O escritor sagrado não diz que a lança «bateu" ou «feriu», mas sim que «abriu» o lado do Salvador: Latus ejus aperuit.(Era a porta da vida que se abria, diz o grande Doutor; do Coração aberto de Jesus iam correr sobre o mundo rios de graças que deviam santificar a Igreja.
Esta contemplação dos benefícios de Jesus para conosco deve tonar-se a fonte da nossa devoção prática ao Sagrado Coração. O amor só se pode pagar com amor. De que se queixa Nosso Senhor a Santa Margarida Maria? De não ver retribuído o Seu amor: «Eis o Coração que tanto amou os homens e deles só recebe in gratidão». É, pois, pelo amor, pela doação do coração,  que devemos corresponder a Jesus Cristo. «Quem não há de amar Aquele que o ama? Qual o resgatado que não se prende ao seu Redentor»?

Quis non amantem redamet?
Quis non redernptus diligat?

Para ser perfeito, este amor deve ter um duplo caráter.
Há o amor afetivo, que consiste nos diversos sentimentos que fazem vibrar a alma para com a pessoa
amada: admiração, complacência, alegria, ação de graças. Este amor faz nascer nos lábios o louvor. Alegramo-nos com as perfeições do Coração de Jesus, celebramos as Suas belezas e grandezas, compraze-mo-nos na magnificência dos Seus dons: Exsultabunt labia mea cum cantavero tibi.
 Este amor afetivo é necessário. A alma, quando contempla a Cristo no Seu amor, deve abandonar-se à admiração, à complacência, ao júbilo. Porquê? Porque devemos amar a Deus com todo o nosso ser. Deus quer que o nosso amor para com Ele corresponda à nossa natureza. Ora nós não temos uma natureza angélica, mas humana, em que a sensibilidade tem o seu lugar. Jesus Cristo aceita esta forma de amor, porque se funda na nossa natureza que Ele próprio criou. Vede-O na Sua entrada triunfal em Jerusalém, poucos dias antes da Paixão. «Quando descia do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos, arrebatada de alegria, começou a louvar a Deus em altas vozes por todos os milagres que vira: Bendito o Rei que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus! Então alguns fariseus, do meio da multidão, disseram a Jesus: Mestre, repreendei os Vossos discípulos». E que responde Nosso Senhor? Faz cessar aquelas aclamações? Pelo contrário, responde aos fariseus: «Eu vos digo: se eles se calarem, gritarão as pedras».
Jesus Cristo recebe com agrado os louvores que sobem do coração aos lábios. O nosso amor deve traduzir-se em afetos. Vede os Santos. S. Francisco, o pobre de Assis, vivia tão enlevado no amor, que cantava os louvores de Deus pelas estradas; Santa Madalena de Pazzi percorria os claustros do convento a gritar: "Ó Amor! ó Amor! ». Santa Teresa vibrava toda, cada vez que cantava estas palavras do Credo: Cujus regni non erit finis - «O seu reinado não terá fim». Lede as suas «Exclamações»; vereis como nas almas dominadas pelo amor os sentimentos da natureza humana se expandem em louvores ardentes.
Não hesitemos, pois, em multiplicar os nossos louvores ao Coração de Jesus. As «Ladainhas», os atos de reparação e consagração são outras tantas expressões deste amor, de sentimento, sem o qual a alma humana não atinge a perfeição da sua natureza.
Todavia, este amor afetivo, por si só, não basta. Para ter todo o valor, deve "traduzir-se em obras": Probatio dilectionis exhibitio operis. "Se me tendes amor, dizia Jesus, guardai os meus mandamentos": Si diligitis me, mandata mea servate. Aqui é que está a pedra de toque. Encontrareis muitas almas ricas de afetos, com o dom das lágrimas, mas que não empregam o mínimo esforço para reprimir as más inclinações, destruir os hábitos viciosos, evitar as ocasiões de pecado; que abandonam tudo quando vem a tentação, que murmuram logo que se apresentam as contrariedades e contradições. Nelas o amor afetivo está cheio de ilusões; é uma fogueira de palha que não dura, que se desfaz em cinzas.
Se amamos deveras a Jesus Cristo, não só nos alegraremos com a Sua glória, cantaremos as Suas perfeições com todas as forças da nossa alma, nos entristecemos com as ofensas feitas ao Seu Coração e Lhe oferecemos condignas reparações, mas sobretudo esforçar-nos-emos por Lhe obedecer em tudo, aceitaremos de boa mente todas as disposições da Sua Providência a nosso respeito, trabalharemos por dilatar o Seu reino nas almas, por Lhe proporcionar toda a glória, "consumir-nos-emos com alegria, iremos, se preciso for, até ao nosso último alento", segundo a bela expressão de S. Paulo: Libentissime impendam et superimpendar! O Apóstolo refere-se à caridade para com o próximo; aplicada ao nosso amor a Jesus, esta fórmula resume admiravelmente a prática da devoção ao Seu Sagrado Coração.
Contemplemos o nosso Divino Salvador; nisto, como em todas as virtudes, é o nosso melhor modelo; n'Ele encontramos estas duas formas de amor.
Considerai o amor que Ele tem ao Pai. Jesus Cristo experimenta em Seu Coração os mais verdadeiros sentimentos de amor afetivo que podem fazer vibrar um coração humano. O Evangelho mostra-nos um dia o Seu Coração a transbordar de sentimentos de entusiasmo pelas perfeições insondáveis do Pai, a expandir-se em louvores diante dos discípulos. Exulta de alegria sob a ação do Espírito Santo e diz: «Eu te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, por teres ocultado estas coisas aos sábios e aos prudentes, e as teres revelado aos pequeninos. Sim. Eu te bendigo, Ó Pai, por que assim te
aprouve . .».
Vede ainda na Ceia como o Seu Coração Sagrado está cheio de afeto para com o Pai e como os Seus
sentimentos se manifestam numa inefável oração.
E para mostrar ao mundo inteiro a sinceridade e vivacidade desse amor - Ut cognoscat mundus quia diligo Patrem  - , Jesus encaminha-se logo para o Jardim das Oliveiras, onde vai começar a longa série de humilhações e dores da Sua Paixão.
Este duplo carácter encontra-se igualmente no Seu amor para com os homens. Havia já três dias que uma multidão de povo O seguia atraída pelo encanto das Suas palavras divinas e pela fama dos Seus milagres. Mas o cansaço começa a apoderar-se daquela pobre gente que não tem com que restaurar as forças. Jesus sabe disso: «Tenho compaixão desta gente, diz: há já três dias que não me deixam e não têm nada que comer. Se os mandar embora sem comer, cairão desfalecidos pelo caminho, pois muitos vieram de longe». Misereor super turbam. Que profundo sentimento de compaixão confrange o Seu Coração humano! Bem sabeis como Jesus pôs em prática este sentimento. Em Suas mãos benditas multiplicaram-se os pães para saciar as quatro mil pessoas que o acompanhavam.
Vede-O sobretudo junto ao túmulo de Lázaro. Jesus chora, derrama lágrimas humanas. Haverá mais tocante e autêntica manifestação dos sentimentos do Seu Coração? E imediatamente põe a Sua omnipotência ao serviço do amor: «Lázaro, sai desse túmulo»!
É o amor que se revela no dom de si mesmo; é o amor que, transbordando do coração, se apodera de
todo o ser, de toda a atividade, para os consagrar aos interesses e à glória do objeto amado.
Até onde deve ir este amor que devemos mostrar a Jesus Cristo em paga do Seu  amor para connosco?
Deve, em primeiro lugar, incluir o amor essencial e soberano que nos faz considerar a Cristo como o Bem supremo que preferimos a todas as coisas. Praticamente, este amor reduz-se ao estado de graça santificante. A devoção, como dissemos, é a dedicação; mas onde está a dedicação duma alma que não procura conservar em si, a todo o custo, por uma fidelidade vigilante, o tesouro da graça do Salvador? que, na tentação, hesita entre a vontade de Cristo e as sugestões do seu eterno inimigo?
Sabeis que é este amor que dá à nossa vida todo o seu valor e faz dela como que uma perpétua homenagem agradável ao Coração de Jesus. Sem este amor essencial, nada tem valor aos olhos de Deus. Ouvi em que termos expressivos S. Paulo põe em relevo esta verdade: «Ainda que eu fale a linguagem dos Anjos e dos homens, se não tiver caridade, serei apenas um bronze que ressoa, um címbalo que retine; posso ter o dom da profecia, conhecer todos os mistérios, possuir toda a ciência, ter uma fé capaz de transportar montanhas; se não tiver caridade, nada sou; mesmo que distribua todos os meus bens aos pobres, entregue o meu corpo às chamas, se não tiver caridade, de nada me serve tudo isto». Por outras palavras, não posso ser agradável a Deus, se não tiver em mim aquela caridade essencial pela qual me uno a Ele como ao soberano Bem. É mais que evidente que não pode existir verdadeira devoção onde não há este amor.
Depois, habituemo-nos a fazer tudo, mesmo as coisas mais insignificantes, por amor, para agradar a Jesus Cristo. Trabalhar, aceitar os sofrimentos e as dores, cumprir os deveres do próprio estado por amor para agradar a Nosso Senhor, em união com os sentimentos do Seu Coração enquanto vivia neste mundo, constitui uma excelente prática de devoção ao Sagrado Coração. Toda a nossa vida Lhe é assim dedicada por uma orientação cheia de amor.
De resto é isto que dá à nossa vida um aumento de fecundidade. Como sabeis, todo o ato de virtude, de humildade, de obediência, de religião, feito em estado de graça, possui o seu mérito próprio, a sua perfeição especial, o seu esplendor particular; mas, quando este ato é imperado pelo amor, redobra de beleza e eficácia; sem perder nada do seu valor próprio, vai-se-lhe ajuntar o mérito dum ato de amor. «Senhor, cantava o salmista, a rainha está sentada à Vossa direita, ornada dum vestido de ouro, de cores variadas»: Adstitit regina a dextris tuis in vestitu deaurato, circumdata varietate.  A rainha é a alma fiel, em quem Jesus Cristo reina pela graça; está sentada à direita do Rei, com um vestido tecido de ouro, que significa o amor; as cores variadas simbolizam as diferentes virtudes; cada uma delas conserva o seu reflexo, mas o amor, que delas é a fonte profunda, realça-lhes o brilho.
Assim, o amor reina como soberano no nosso coração para orientar todos os seus movimentos para a glória de Deus e de Seu Filho Jesus .

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