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26 de maio de 2015

[Sermão] A Ascensão do Senhor - Capela N. Sr.ª das Dores Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] A Ascensão do Senhor

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Quarenta dias após a sua ressurreição, Nosso Senhor sobe ao céu. Durante quarenta dias Nosso Senhor quis ainda aparecer aos seus discípulos na terra e quis instruí-los nas coisas do reino de Deus. Muitas vezes, esses quarenta dias são quase esquecidos. Não deveria ser assim. São importantíssimos. Importantíssimos porque mostram a realidade da ressurreição de Cristo, nos confirmando na fé. Importantíssimos para a constituição e a vida da Igreja.
Nosso Senhor quis, durante esses quarenta dias, aparecer aos discípulos para mostrar que tinha verdadeiramente ressuscitado, com um corpo real, com o seu corpo. Assim, apareceu a eles, falou com eles, mostrou as cicatrizes de seu corpo, alimentou-se, fez milagres, e citou as Sagradas Escrituras. Tudo isso como prova de sua verdadeira ressurreição. E passou esse tempo a instruir os discípulos nas coisas do reino de Deus, que é a Igreja. Vemos expressamente que, nesses quarenta dias, Nosso Senhor instituiu o batismo, como nos deixa claro o Evangelho de hoje. Foi nesses quarenta dias também que Nosso Senhor instituiu o sacramento da penitência, soprando sobre os apóstolos e dizendo: “recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.” Foi também nesses quarenta dias entre a ressurreição e a ascensão que Nosso Senhor conferiu realmente o primado a São Pedro, dizendo ao apóstolo: apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas. Antes, Nosso Senhor tinha prometido isso a São Pedro: tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e te darei as chaves do reino dos céus… Tudo no plural. Aqui, entre a ressurreição e a ascensão, Nosso Senhor confere realmente a jurisdição universal a São Pedro: apascenta os meus cordeiros, que são os fiéis, e apascenta as minhas ovelhas, que são os membros do clero, bispos e padres. Esses quarenta dias são, portanto, de suma importância para a nossa fé e para a Igreja em sua constituição e nos seus sacramentos.
No quadragésimo dia, Nosso Senhor subiu ao céu, onde está sentado à direita de Deus Pai. Nosso Senhor subiu com seu corpo e sua alma, por sua virtude própria, quer dizer, em virtude de sua divindade e em virtude dos atributos de seu corpo glorioso. Com seu corpo glorioso, imortal e incorruptível após a ressurreição, já não convinha que Nosso Senhor continuasse nesse mundo cheio de vicissitudes. O lugar do corpo ressuscitado, do corpo glorioso, é o paraíso.
Ao ascender ao céu levou consigo as almas dos santos do Antigo Testamento, que estavam no limbo dos justos, aguardando a vinda do Messias prometido. Limbo dos justos que é o inferno mencionado no Credo. Diz-se, então, que Jesus está sentado e sentado à mão direita de Deus Pai. Diz-se que Jesus está à direita de Deus Pai. Evidentemente, Deus, sendo puro espírito, não tem direita nem esquerda. Empregamos aqui termos humanos para melhor compreender e explicar as verdades sobrenaturais. À direita de Deus Pai significa que Cristo, enquanto Deus, não está nem acima nem abaixo de Deus Pai. Ele é Deus como o Pai e como o Espírito Santo. Eles são um só Deus. À direita de Deus Pai significa que Cristo, enquanto homem, foi exaltado acima de todos os santos e anjos, estando no lugar mais nobre, à direita. E se diz que Nosso Senhor está sentado, para significar a posse pacífica dos poderes de rei e de juiz, poderes que Nosso Senhor tem como Filho de Deus e como redentor nosso. A coleta de hoje nos fala justamente dos dois motivos pelos quais Jesus mereceu ser exaltado acima de todas as coisas: Ele mereceu ser exaltado assim porque é o Filho unigênito de Deus, quer dizer, Ele é Deus, e porque ele é o nosso redentor.
A coleta nos indica, ainda, a graça própria dessa festa da Ascensão do Senhor: que tenhamos o nosso espírito nas coisas celestes. Que vivamos aqui no tempo, procurando alcançar os bens eternos, que vivamos aqui na terra procurando os bens celestes.Sursum corda, devemos ter o coração voltado para o alto. É esse um dos objetivos de Nosso Senhor com a Ascensão também: que tenhamos o espírito nas coisas celestes.
E podemos ver, ainda, uma circunstância interessante no mistério da Ascensão. Ela ocorre no monte das Oliveiras. No mesmo local em que Nosso Senhor teve a agonia tremenda na noite da Quinta-Feira Santa, após a Última Ceia. Que lição nos dá Nosso Senhor! As dores e as tribulações são caminho para subirmos ao céu. Pelo calvário chegaremos ao céu. Os sofrimentos e provações bem suportados nos levarão ao céu.
Alegremo-nos, caros católicos, porque Nosso Senhor, sentado à mão direita de Deus Pai, todo poderoso, governa todas as coisas com justiça e bondade, e prepara, para seus discípulos fiéis, uma morada na casa do Pai.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

É PRECISO ESTAR EM JEJUM DESDE A MEIA-NOITE

D. — Padre, diga-me algo sobre o jejum prescrito antes de receber a comunhão.
M. — Quem vai comungar sabendo não estar em jejum comete um sacrilégio, exceto no caso de dispensa por motivos de doença ou por outras razões graves.
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D. — E quais seriam esses motivos?
M. — Preste atenção e procure entendê-lo bem: A Igreja permite aos moribundos e doentes em estado grave, que comunguem sem estar em jejum. Nesses casos a Comunhão lhes é administrada como Viático. Permite também a Comunhão duas vezes por semana, aos que a mais de um mês se acham doentes sem esperança de melhora. Esses, se não podem ficar em jejum, podem tomar algum líquido como café, leite, remédios, ovos batidos, caldo, etc.
D. — Padre, não haverá perigo de abusos?
M. — Certo que sim. Feita a lei, feita a trapaça, diz o provérbio. Enganam-se nisso os mesmos doentes, os padres e confessores. Mas, a trapaça é sempre trapaça e, portanto uma ação perversa.
Piedade que nos induza a desobedecer à Igreja nunca será agradável a Deus.
D. — E os que estão dispensados?
M. — Desses existem muito poucos, pois a Igreja é prudente e rigorosa e procede com pés de chumbo ao conceder tais dispensas. E os que gozarem desse privilégio deverão ater-se estritamente ao que lhes foi concedido sem alargá-lo nem interpretá-lo conforme o próprio capricho. E para norma segura em questão tão importante submetam-se ao juízo do confessor que certamente saberá interpretar tal dispensa conforme as diretrizes eclesiásticas, antes que condescender com os caprichos individuais.
D. — E se alguém se achar nas mesmas condições de outrem que obteve a dispensa do jejum, poderá conforme seu critério, ir comungar sem estar em jejum?
M. — Por mais critério que um tenha, não poderá ir comungar sem estar em jejum, antes de pedir a devida dispensa à legítima autoridade eclesiástica. E se for comungar sem ela, cometerá toda vez um sacrilégio.
D. — O confessor poderá dispensá-lo?
M. — De modo algum. O confessor nunca pode conceder tais dispensas. Quem não puder ficar em jejum e desejar comungar após ter ingerido qualquer alimento líquido ou remédio, precisa pedir a dispensa ao Bispo, que a concederá segundo os ditames da Santa Sé. O confessor agiria muito mal intrometendo-se em tal assunto mesmo com o pretexto de piedade, mas em vez, fará bem se ele mesmo se dirigir ao Bispo para obter tal dispensa.
D. — Ele não pode dar essa dispensa?
M. — Absolutamente. Sei que existem confessores que por ignorância ou presunção pretendem saber mais que a Igreja e concedem facilmente aos seus penitentes essas dispensas. Fazem, porém, muito mal. Deus certamente não aprovará tal procedimento.
D. — E como se explica que Jesus Cristo distribuiu a Comunhão aos Apóstolos, sem que eles estivessem em jejum ? E também nos primeiros tempos da Igreja eram as crianças que sem estarem em jejum consumiam as sagradas espécies.
M. — É certo o que você diz: Porém, mais tarde por surgirem inconvenientes e abusos, a Igreja sempre inspirada por Deus achou melhor estabelecer o jejum absoluto (natural) para todos que quisessem comungar; portanto, precisamos abaixar a cabeça às determinações dos Papas, isto é, da Igreja; quem ouve e obedece a Igreja, escuta e obedece a Deus. Quem não faz assim não está com Deus.
Um zeloso missionário contou-me que um seu companheiro missionário, movido pelas insistências de uma sua penitente, permitiu-lhe comungar algumas vezes sem que estivesse em jejum. Vindo a saber disso o Bispo suspendeu-o de confessar por três meses e ameaçou suspendê-lo até da Missa se tornasse a dar tais permissões. Daqui você pode deduzir como os Bispos não concedem levianamente tais dispensas.
D. — Padre, mais uma pergunta: Não poderá suceder que algumas pessoas principalmente mulheres, levadas por falsa piedade, ousem comungar duas ou mais vezes no mesmo dia?
M. — Não só poderá suceder, mas sim muitas vezes já sucedeu isso. Um santo Bispo costumava dizer que as mulheres, (não todas) são como os chifres dos bois: duros, torcidos e http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
ocos. Duros, isto é, cerrados nas próprias ideias, quase sempre erradas; torcidos, no que se refere à instrução, no mais das vezes deficiente; ocas no sentido comum da palavra. Admitido isso não é de estranhar que algumas delas repitam a Comunhão duas ou três vezes por dia ocasionando assim grande desordem na própria alma.
D. — Logo, não é permitido comungar mais de uma vez no mesmo dia?
M. — Não, pois que depois da comunhão, verdadeira comida, não se está mais em jejum.
Há, porém, um caso excepcional: Se alguém de manhã, suponhamos, recebeu a comunhão e à tarde sobrevem-lhe um perigo de morte, então a Igreja permite que o doente receba pela segunda vez a comunhão em forma de Viático.
Impossível calcular o número de profanações que tem que aguentar na Eucaristia

25 de maio de 2015

História Eclesiástica - Quarta Época Capítulo 3

CAPÍTULO III

São Tomas de Aquino - São Boaventura - Segundo Concilio de Lion - O jovem Vicente Verner - São Celestino.

São Tomas de Aquino - Entre os santos que brilharam neste tempo por grande saber e virtude, merecem singular menção os doutores. São Boaventura, toscano, e Santo Tomas de Aquino. Este último, nascido, de nobre família napolitana aos cinco anos de idade entrou para ser educado no convento dos Beneditinos do Monte Cassino. Mais tarde, ao manifestar seus desejos de se consagrar a Deus na ordem dos Pregadores, os parentes para impedi-lo encerraram-no em um calabouço. Pessoas infames tentaram-no ali gravemente para ver se lhe faziam perder a pureza, porém saiu Tomas vencedor, afugentando-as com um tição aceso. Saindo do cárcere, foi a Paris, onde estudou teologia sob a direção do célebre Alberto Magno. Ainda que fizesse maravilhosos progressos nas Ciências e na piedade, sabia ocultar de tal sorte seu talento, que seu silêncio era julgado necessidade, pelo que seus condiscípulos chamavam-lhe boi mudo. Mas o mestre, que bem o conhecia, dizia aos que mofavam dele, que algum dia os sábios mugidos do boi mudo ressoariam em toda a terra. Aos 25 anos tomou a seu cargo a cadeira de filosofia e teologia na universidade de Paris. Os ouvintes que corriam para aprender em tão célebre mestre, apelidaram-no o Anjo das Escolas. Certo dia, estando em Nápoles, falou-lhe a Imagem de Jesus Cristo e disse-lhe: "Tomas tens escrito bem de mim; que prêmio desejas?”, Respondeu-lhe: "A Ti somente, ó meu Deus!" Sentado um dia à mesa de São Luiz rei da França, recordando uma questão teológica, encontrou de pronto a solução e dando um golpe com a mão sobre a mesa, exclamou: "Achei o argumento contra Manés". Lembrando-lhe seu superior que se achava em presença do rei, pediu humildemente perdão; porém o príncipe chamou logo um secretário, a quem ordenou escrevesse os argumentos do Santo Doutor. Ofereceram-lhe o arcebispado de Nápoles, que ele por humildade jamais quis aceitar. O Papa Gregório o convidou para o concílio ecumênico que devia reunir-se em Lion. O santo já se encaminhava para aquela cidade, ao chegar, porém, ao mosteiro de Fossanova adoeceu pediu o viático e completamente absorto em pensamentos celestiais, descansou no Senhor no ano 1274 aos 49 de idade.

São Boaventura - Boaventura chamou-se João até os quatro anos. Nessa idade foi curado de grave enfermidade pelas orações de São Francisco, que, ao vê-lo são, exclamou: Ó boa ventura! Desde então o menino se chamou Boaventura. Aos vinte e um anos professou as regras de São Francisco. Alexandre de Rales, seu mestre admirando a candura e inocência de seus costumes, costumava dizer: "Parece não ter entrado em Boaventura o pecado de Adão". Conhecido o talento e a rara prudência que o adornavam, foi eleito geral de sua ordem. Em seguida o Papa Clemente IV o elevou ao arcebispado de Iorque. na Inglaterra, porém fez o santo tantas instâncias junto ao Papa, que este o dispensou de tal encargo. Gregório X o obrigou a aceitar a dignidade de cardeal e de bispo de Albano. Quando lhe Comunicaram a notícia, acharam-no lavando o material da cozinha. Continuou em sua tarefa como se nada tivesse acontecido; tomou depois a carta e tendo-a examinado, prorrompeu em sinais de repugnância, e só para obedecer ao Papa aceitou a dignidade que este lhe propusera. O mesmo Pontífice ordenou-lhe que se preparasse sobre as matérias do concílio de Lion. Falou nele na segunda e terceira sessão, porém depois da quarta foi surpreendido por uma enfermidade que em pouco tempo causou-lhe a morte. Morreu no ano de 1274, aos 53 anos de idade. Tendo ido visitá-lo um dia seu grande amigo são Tomas de Aquino, achou-o escrevendo a vida de São Francisco. "Que não o interrompam, disse: deixemos que um santo escreva a vida de outro santo". Em outra ocasião perguntou-lhe o mesmo, onde tinha aprendido aquelas coisas admiráveis que ensinava em seus escritos: e ele apontando para o crucifixo respondeu-lhe: "Eis o livro onde aprendo o que ensino".

Segundo Concílio de Lion - O XIV concílio geral, II de Lion, foi convocado na cidade deste nome, no mês de maio do ano de 1274. Principal fim deste Concílio era a reunião da Igreja grega cismática com a Igreja católica. Já havia quatro séculos que a Igreja grega, como já dissemos, por obra de Fócio, se tinha separado da Santa Sé apostólica. Ainda que pouco depois tivesse voltado à unidade, todavia pela soberba de Miguel Cerulário, patriarca de Constantinopla, tornou a separar-se completamente da obediência ao romano Pontífice. Porém Deus, no século XIII a chamou de novo à verdade por meio de gravíssimos castigos. Ameaçavam-na continuamente os Turcos e para não cair em suas mãos, necessitava da assistência do Papa. Por isto, o Imperador Miguel Paleólogo mandou uma carta por um legado seu, ao bem-aventurado Gregório X, protestando que ele e todos os seus súbditos desejavam tornar a fazer parte da unidade católica. Alegrou-se muitíssimo o Papa e, para que se tratasse o assunto com a maior, circunspeção, convocou o Concílio de Lion. Assistiram a ele, além dos patriarcas latinos, os representantes do Imperador de Constantinopla e vários patriarcas e bispos orientais, 500 bispos e 1070 abades e insignes teólogos. Os Gregos abjuraram seus erros, declararam acreditar que o Espírito procede não somente do Pai senão também do Filho, admitiram a existência do purgatório, a validade do Sacramento da Eucaristia consagrada com pão ázimo, e confessaram finalmente, que o romano Pontífice é o verdadeiro e legítimo sucessor de São Pedro, e que é impossível se salvar quem não permanecer unido a ele. O Papa que presidia o Concilio em pessoa, vendo voltar ao redil de Jesus Cristo, a tantos filhos extraviados, em um transporte de alegria, entoou um solene Te Deum, que a uma voz cantaram todos os presentes.

O jovem Vicente Verner - Naqueles tempos aconteceu um fato atroz que deu a conhecer quanto ódio abrigavam os Judeus contra nossa santa religião. Um jovem camponês de Treves (França) chamado Vicente Verner, tinha-se empregado, na idade de 15 anos, com alguns judeus de Vesel, para trabalhar a pagamento em uma adega. Um dia a mulher que caritativamente lhe dava morada lhe disse: "Verner, chegou a sexta-feira santa, os judeus te vão matar". O inocente jovem respondeu-lhe: "Eu não posso viver senão trabalhando; minha vida está nas mãos do Senhor." Na quinta-feira santa confessou e comungou e depois voltou para seu trabalho. Os judeus desceram com ele à adega: puseram-lhe uma bola de chumbo na boca para não se ouvirem os gritos, e em seguida ataram-no a um pau de cabeça para baixo, para que vomitasse a santa Hóstia; porém não podendo consegui-lo, açoitaram-no cruelmente. Abriram-lhe logo as veias e o espremeram com tenazes para que saísse todo o sangue de seu corpo. Foi conservado suspenso no ar durante três dias, já pelas pernas, já pela cabeça, até que exalou o último suspiro. Isto se deu no ano 1287. Seu cadáver ainda que enterrado em uma gruta, foi descoberto por luz portentosa que apareceu no lugar onde se achava sepultado. Foi tirado dali e com a honra devida, enterrado em uma capela. Martírio parecido a este sofreu em Damasco o Pe. Tomas de Sardenha, nos últimos anos do pontificado de Gregório XVI.

São Celestino V - Foi São Celestino um dos Papas que deram mui singular exemplo de humildade. Nascido em Sulmona; desde jovem dedicou-se inteiramente à contemplação das coisas celestiais e ao exercício da penitência. Depois de ter levado setenta anos de vida austera e penitente, em um deserto tiraram-no, quase à força, dali no ano 1294 para torná-lo Papa em lugar de Nicolau IV que falecera em 1292. De todas as partes acudiam as multidões para verem o novo Pontífice, que com a fama de suas virtudes e milagres atraia a admiração de todos. Mas cinco meses depois de ocupar o trono pontifício, levado por sua humildade e amor ao retiro, renunciou ao Papado, coisa nunca vista até então; e apesar das vivas instâncias dos cardeais, quis tornar a vestir os humildes hábitos de anacoreta; no fim de dez meses morreu em Sulmona, na Campanhia, com fama de santidade. Ano 1296. Foi ele fundador dos monges chamados Celestinos.

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

COM DEUS NÃO SE BRINCA

Conta a História Sagrada no I Livro dos Reis de como os Filisteus, atemorizados por tremendos castigos, resolveram devolver a Arca Santa aos Judeus. Durante o regresso a Arca ficou por algum tempo entre os Betsamitas os quais fizeram grande festa por tão insigne acontecimento; mas alguns mais curiosos, desejando conhecer o que havia dentro da Arca, a abriram. Esta falta de respeito, para nós tão insignificante, custou a vida de mais de cinquenta mil pessoas, fulminadas repentinamente pela ira divina enquanto o povo gritava: Quão terrível é a presença de um Deus tão poderoso e santo!
D. — Pelo que vejo, Padre, com Deus não se brinca.
M. — De fato. E se tivéssemos verdadeira fé quando vamos comungar, deveríamos prorromper nas mesmas exclamações diante de Jesus realmente presente na Santíssima Eucaristia; em vez quantos betsamitas existem ainda hoje que se dizem cristãos, e vão alegres e desejosos de ver e receber a Jesus Cristo, porém não fazem o que devem para honrá-Lo dignamente. Não conseguem ver as purulentas feridas da própria alma, por estarem atolados na matéria, no sensualismo, no egoísmo.
Não advertem que, cometendo sempre as mesmas faltas e permanecendo sempre nos mesmos defeitos sem vontade de se corrigir, aproximando-se temerariamente daquele insondável Mistério do qual a Arca era uma simples imagem, convertem o remédio em veneno, e vão buscar a morte na fonte da vida.
* * *

No segundo livro dos Reis encontramos o seguinte episódio: O rei Davi determinara transladar a Arca para a cidade onde ele residia em meio de grandes e jubilosos festejos do povo. Para isso colocaram-na em um carro de bois, ricamente adornado para tal fim. Sucedeu, porém, que os bois a certo ponto pararam e aos coices fizeram a Arca tombar de um lado. Ora, um levita, que ia ao lado do carro, levantou a mão para sustê-la. Imediatamente a ira divina fulminou-o e o levita caiu morto no mesmo lugar.
D. — Coitado! O que havia na Arca?
M. — Na Arca Santa, além das tábuas da Lei e a vara de Arão, se achava um vaso com Maná símbolo da Eucaristia. Isso serve para advertir-nos de que não devemos consentir que almas indignas recebam o adorável Sacramento da Eucaristia.
São Paulo recorda esta semelhança da Eucaristia com a Arca santa, quando diz que nos primeiros tempos da igreja eram castigados muitos cristãos com enfermidades e até com a morte por se haverem atrevido a comungar indignamente.
D. — Atualmente não temos exemplos de semelhantes castigos?
M. — Temos muitíssimos. Ouça o seguinte: Uma senhorita de dezesseis anos havia pasmado a noite dançando. Pela manhã seguinte foi atrevidamente comungar a fim de encobrir sua falta perante o vigário e suas colegas. Pobrezinha! Apenas voltara ao banco, sentiu um calafrio e um desarranjo interno seguidos de vômitos que a fizeram lançar fora a sagrada Partícula e tudo quanto havia ingerido e por fim até as próprias entranhas.
Na Arca Santa achava-se um vaso com Maná símbolo da Eucaristia
D. — Coisa horrível! Com Deus verdadeiramente não se brinca. Por isso procurarei de comungar sempre dignamente, com o maior respeito e reverência a tão grande Sacramento.
M. — Muito bem! Esse é o propósito que todos deveriam fazer. Comungar sempre com as devidas disposições possíveis, com os melhores sentimentos de piedade e devoção de que é capaz.
D. — E que hão de fazer os que mesmo querendo não conseguem ter essa piedade e devoção?
M. — Para muitos será suficiente a fé interna e os esforços que fazem para manter-se em graça; outros suprem essa falha com o cuidado em evitar as faltas veniais.
O que Jesus detesta são os desgraçados maliciosos, os indiferentes, tíbios e, sobretudo, aqueles que pretendem servir a dois senhores, ser cristãos ou o pagãos, crentes e liberais, bons e maus, castos e desonestos.
D. — Aqueles enfim, que cantam para espantar os próprios males, não é, Padre?
M. — Isso mesmo: Mas chegará o dia da Justiça Divina. Dia em que lhes será tolhida a venda dos olhos e aparecerão claros e diáfanos todos os sacrilégios cometidos. Que confusão e vergonha não experimentarão todos os que profanaram a Pessoa adorável de Jesus Cristo. Agora Jesus se oculta e permanece caladinho, mas naquele dia aparecerá em todo seu poder e majestade como um Juiz rigoroso.
D. — Basta, basta, Padre, já estou com medo...
M. — Oxalá! Ficassem com medo todos os indignos, os traidores, os miseráveis sacrílegos... Jesus na sua infinita bondade lhes conceda conhecimento, temor e conversão.
Naquele dia Jesus aparecerá como um Juiz rigoroso

24 de maio de 2015

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino

DEVE-SE SABER O QUE SE VAI RECEBER E PENSAR NISSO

D. — Padre, para bem comungar requer-se algo mais do que o estado de graça?
M. — É claro, pois é coisa sabida que para bem comungar são necessárias três coisas, a saber:
1º. - Estado de graça;
2º. - Saber o que se vai receber e pensar nisso;
3º. - Estar em jejum desde a meia-noite até o momento da comunhão. A primeira condição já foi explicada. Falemos agora sobre as outras duas.
D. — Poderá haver comunhões mal feitas por falta da segunda disposição?
M. — Sim. Principalmente por ocasião da Páscoa e outras grandes festas sucede que muitos cristãos vão comungar sem saber e nem pensar em quem vão receber. Quantas não são as mulheres que se acostumaram a receber diariamente a Comunhão, somente para imitar o que outras fazem. Caro amigo, você deve saber que há muita ignorância religiosa entre o povo, sobretudo a respeito da Sagrada Comunhão.
Muitos, muitíssimos são os cristãos modernos que são "tábua rasa" no que se refere à presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, isso porque não tiveram uma instrução catequética adequada. Ora, tais pessoas vão comungar como se fossem beijar uma relíquia ou cumprir qualquer ato de religião.
Muitos cristãos há em nossos dias que ainda não aprenderam bem o que seja a Comunhão e ignoram a essência e substância de tão grande Sacramento. Existem também muitos outros que ignoram completamente os efeitos admiráveis que a comunhão produz e as disposições necessárias para bem recebê-la. Se lhes perguntarmos sobre isso, respondem como criancinhas que se preparam para a Primeira Comunhão: sabem o que aprenderam no colo materno e nada mais. Com uma instrução assim deficiente será possível comungar bem?
D. — Impossível, Padre.
M. — Calcule, pois, quantas não serão as comunhões mal feitas!
D. — Número impressionante. Esses tais não deveriam comungar.
M. — Infelizmente dá-se bem o contrário: nem se abstem, nem se instruem. Pois estão convencidos que já sabem tudo, e que são dignos de comungar como os outros.
D. — E então?
M. — Então é preciso pregar, instruir o povo, levantar a voz bem alto contra os abusivos, vigiar constantemente e sobretudo examiná-los com prudência e rigor.
D. — Tudo quanto o senhor disse até agora está bem quanto ao saber o que se vai receber; mas diga-me também alguma coisa sobre o pensar no que vamos receber.
M. — Com muito prazer. Diz o catecismo que é preciso pensar, refletir no que vamos receber, por isso fazem mal os que vão comungar distraidamente, isto é, sem fé e devoção.
D. — Na Igreja vejo muitas vezes alguns, mormente meninos, que brincam, falam e ficam distraídos durante a Missa e no momento da comunhão vão comungar sem nenhuma preparação.
M. — Fazem mal, muito mal. Sendo crianças ainda têm desculpas, pois Deus terá em consideração a pouca idade e juízo; mas se forem adultos não terão nenhuma desculpa.
D. — E as senhoras e moças que enquanto vão comungar viram a cabeça para todos os lados, rindo e fazendo graças com o fim de se exibirem e mostrarem a todos, seus vestidos elegantes e pouco decentes?
M. — Fazem muito mal. Todas elas fazem mal a comunhão.
D. — E são coisas sérias?
M. — Muito sérias, pois se trata nada mais nada menos que desprezar o mais augusto dos Sacramentos. São pobres desgraçados, almas sem fé.
D. — Que fazer para acabar com tais abusos?
M. — Vigiá-las, corrigi-las, reprovar-lhes o procedimento e se não for suficiente, proibi-las de comungar.
D. — E o povo não estranhará?
M. — Quando se acostumarem a ver os indignos afastados da Santa Comunhão ninguém mais haverá de estranhar e não só, até hão de aprovar tal procedimento que visa impedir o desrespeito à pessoa adorável de Jesus Cristo realmente presente na Eucaristia.
D. — Mas, com isso não haverá perigo de que muitos se afastem da mesa da comunhão?
M. — Mão importa. Antes de tudo deve-se ter em vista o respeito e a adoração devidas ao Santíssimo Sacramento. Diminuirão de muito as comunhões, não há dúvida. Porém diminuirão também os sacrilégios e os que comungam mal aprenderão a comungar dignamente.
Esta é uma doença como as outras; se não lhe for aplicado um remédio progredirá cada vez mais.
"Fora com os cães" gritava S. Agostinho. Nós também gritemos "Fora os cães" e procuremos expulsá-los verdadeiramente. Agindo assim e somente assim as bênçãos divinas descerão com mais abundância sobre as cidades e povoados.

23 de maio de 2015

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

BASTA NÃO ESTAR EM PECADO MORTAL

D. — Agora, Padre, diga-me: Para comungar basta não estar em pecado mortal?
M. — Sim, para quem está em jejum desde a meia-noite e sabe o que vai receber, basta estar em graça de Deus, isto é, não ter pecado mortal. Todavia requer-se também a reta intenção, isto é, comungar por amor de Jesus Cristo, para obter a graças espirituais e temporais, etc.
O fruto da comunhão depende das disposições de cada um. Quanto melhores forem as disposições maior será o fruto. Jesus Cristo, encarnando-se, procurou acomodar-se, por assim dizer, ao nosso teor de vida. Não agimos assim com nossos amigos, parentes e conhecidos? Quando alguém nos ama, favorece e respeita, procuramos também de retribuir-lhe da mesma forma e quanto maior é o amor que ele tem por nós, tanto mais procuramos de amá-lo.
Com a comunhão sucede o mesmo. Jesus Cristo será bondoso, e generoso conosco em proporção à fé, piedade e devoção que tivermos.
D. — Como faziam os santos, não é, Padre?
M. — Sim, como faziam os santos e como fazem ainda agora os verdadeiros cristãos, os que desejam alcançar o Paraíso e amam realmente a Jesus Cristo.
D. — Serão muitos esses verdadeiros cristãos?
M. — Muitíssimos. Graças a Deus, existem muitas almas, em todas as condições sociais que diariamente recebem o alimento eucarístico como verdadeiros anjos. Há pais e mães cristãos, jovens de ambos os sexos que todos os dias, com as melhores disposições vão receber o Pão dos Anjos!
Existem muitas almas que recebem o alimento eucarístico como verdadeiros Anjos
Oh! Somente os ventoinhas, os dissipados, os tíbios, os que têm uma fé mesquinha, comungam com indiferença e sem reflexão.
D. — E esses tais farão mal a comunhão?
M. — Não; se não estiverem em pecado mortal não comungam mal, pois comungar, conforme o catecismo é sempre uma coisa boa, porém perdem muitas graças.
D. — Que quer dizer isso, Padre?
M. — Com alguns exemplos, talvez, você poderá compreender melhor. São um pouco triviais, mas tenha a santa paciência de ouvi-los.
Dois camponeses trabalham juntos na mesma terra: um a cultiva com cuidado, extirpando as ervas daninhas, arando-a de vez em quando; lança adubos para torná-la mais fecunda; cerca-a de todos os lados para que as sementeiras não sejam pisadas, enfim, cuida verdadeiramente do seu campo. O outro ao invés pouco se incomoda. Lança a semente de qualquer modo. Qual dos dois terá melhor colheita?
D. — Sem dúvida, o primeiro.
M. — Pois bem, na Comunhão acontece a mesma coisa. Conforme as disposições e o interesse de cada um; conforme a piedade e a devoção que tem; conforme, sobretudo, o nosso amor a Jesus Cristo, receberemos a abundância de graças e favores.
Suponhamos também dois amigos que vão à feira a pé. Um se satisfaz em passear, respirando o ar puro dos campos ou admirando a beleza dos prados floridos. E na feira somente olha as mercadorias expostas nas barracas. O outro ao invés colhe as flores mais bonitas que encontra e compra as mercadorias que acha úteis para a família. De volta; qual dos dois terá aproveitado melhor o passeio?
D. — Sem nenhuma dúvida aquele que levou para casa tudo quanto encontrou de bom e útil.
M. — Daqui se pode compreender que a comunhão é um tesouro de valor inestimável, inesgotável para os cristãos que delas se aproximam, mais desfrutando aquele que for mais esperto.
D. — Se é assim, até agora infelizmente obtive pouco fruto em minhas comunhões; porém, de ora em diante vou fazer o possível para que sejam bem fervorosas e devotas e assim se tornem um verdadeiro tesouro para minha alma.
M. — Muito bem; persevere nesse propósito e verá quão abundantes serão os frutos.
D.— Mais uma coisa, Padre: se alguém for comungar sem fé e devoção, comungará mal?
M. — Não. Já lhe disse: somente quem comunga em pecado mortal ou sem as devidas disposições faz a comunhão mal feita. Do contrário sempre será boa e proveitosa, pois que, como ensinam os teólogos, a comunhão opera ex opere operato, isto é, por sua própria virtude sobrenatural e divina.
D. — Quem não tivesse essas disposições seria melhor que não comungasse, não é, Padre?
M. — À sua pergunta respondo com uma terceira comparação:
Frequentemente se encontram pessoas que, ou por indisposição, ou por doença, não tem nenhuma vontade de comer. E, se engolem algum alimento é só forçadamente e com muita repugnância. Não obstante, aquela migalha de alimento ingerido lhes é de grande proveito transformando-se em carne e sangue. E assim vão arrastando a própria existência. Que seria melhor para elas: comer ou não comer?
D. — Comer, se não morreriam.
M. — Logo, o mesmo deve-se dizer quanto à Comunhão, alimento de nossas almas. Se não comungarem morrerão, caindo irremediavelmente no pecado mortal que é a morte da alma.
O Espírito Santo na Sagrada Escritura faz o pecador exclamar: “Estou murcho como a erva que foi cortada; meu coração está seco como o feno do prado porque deixei de comer meu pão.” Isto é, sabia que devia comer o pão que Jesus me deixou para sustentar minha vida espiritual, mas por indiferença, por desleixo, me descuidei disso. Eis o remorso que atormenta muitas almas que, embora vivam bem, todavia desprezam o mandamento de Cristo: Tomai e comei: isto é o Meu Corpo.
D. — Então fazem mal os que não comungam porque não sentem nem piedade nem devoção?
M. — Certamente. São uns iludidos como aqueles que não comem porque não sentem apetite, como aqueles que estão doentes e não tomam remédios, como aqueles que sentem frio e não se aproximam do fogo, ou têm sede e não bebem água.

22 de maio de 2015

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

É SEMPRE PRECISO CONFESSAR-SE ANTES DE COMUNGAR?

D. — Diga-me, Padre, será preciso confessar-se toda vez que vamos comungar?
M. — Para quem se acha em pecado mortal é claro que a confissão é necessária.
D. —E se hoje por exemplo não tenho tempo ou não consigo confessar-me e digo: "Bom, amanhã me confessarei; no entanto hoje vou comungar", faço mal?
M. — Se você sabe que está em pecado mortal, cometerá um sacrilégio.
D. Então, não há exceção nem pretextos que valham?
M. — Absolutamente não. Nem razões, nem pretextos, nem desculpas; nada. Se alguém não pode ou não quer confessar-se, também não comunguem. Deixando a comunhão não fará nenhum pecado; invés, se comungar em pecado mortal, perpetrará sempre um sacrilégio. São Paulo e Santo Tomás dizem terminantemente: Examine-se antes o homem... Antes de comungar, entre cada um em sua consciência e veja se cometeu algum pecado mortal; se verdadeiramente certificar-se disso, deixe a comunhão, não vá receber a própria condenação.
D. — Então, Padre, não basta arrepender-se dos pecados e fazer o propósito? É preciso também a confissão?
M. — Certamente que em tais casos é necessária a confissão, pois para comungar é preciso estar em graça de Deus, isto é, com a alma livre de pecados mortais, e sem a confissão não se obtém o perdão dos pecados.
Que lhe diria o rei se você fosse à sua presença com as mãos sujas, dizendo-lhe: perdão, majestade, depois irei lavá-las?
D. — Na certa expulsar-me-ia de sua presença.
M. — Então quer que Deus proceda de outro modo?
D. — Mas Deus vê o interior, conhece todos os pensamentos e as intenções.
M. — Assim é de fato. Mas isso não é razão suficiente para que se lhe falte ao respeito. Lembrete daquele sujeito que não tinha o traje nupcial... Além disso, se a Igreja, por meio de seus doutores e Concílios prescreveu essa norma, com que autoridade quer você corrigi-la? Em matéria religiosa a Igreja é mestra única e infalível.
D. — Quanto a mim estou de acordo. Porém, há outros que desejariam as coisas diversamente.
M. — Esses outros pensam assim ou porque são ignorantes ou porque são malvados. Quem se confessa fica perdoado, quem não se confessa não fica perdoado e basta!
Conta a História Sagrada, que Naamão, generalíssimo do rei da Síria, um dia foi procurar o profeta Eliseu pedindo-lhe que o curasse da lepra.
O profeta como remédio mandou-o lavar-se sete vezes no rio Jordão. Ele, porém, levou a mal a ordem do profeta, e respondeu:
— Para que isto? Acaso na Síria não haverá rios mais caudalosos que o Jordão? E ainda mais: por que sete vezes? Não basta uma?
E voltando para os que o acompanhavam: Vamos, vamos embora! Este homem não vale nada.
Mas os da comitiva puseram-se a insistir:
— General, o remédio é tão simples. Experimente, não custa nada e pode ser que seja eficaz.
Naamão, diante dessas razões, deu-se por vencido. Foi ao Jordão, lavou-se sete vezes e ficou completamente curado. Se não tivesse seguido o conselho não teria obtido a cura.
O mesmo sucede em nosso caso: a lepra representa o pecado; a ordem de Cristo é que nos lavemos por meio da Confissão. Quem obedece fica purificado e poderá comungar; quem não obedece, continuará sempre imundo e por consequência lógica não poderá comungar.
D. — E se o confessor negar a absolvição?
M. — Quando o confessor por motivos graves nega a absolvição, não se pode ir comungar.
D. — E no caso em que o confessor der a absolvição, mas proibir de comungar?
M. — É bem possível que às vezes e por justos motivos o confessor proceda assim, e diga ao penitente: Absolvo-te de teus pecados, porém, até segunda ordem ficas proibido de receber a comunhão. Pois bem, em tais casos é preciso obedecer cegamente, sem discutir nem apresentar desculpas.
Em se tratando de sacramentos o confessor é juiz responsável por seus atos, e não o penitente.
D. — E em se tratando de pessoas que vão casar-se?
M. — Nem neste caso, se o confessor proibir não poderão comungar.
D. — E em perigo de morte?
M. — Em perigo de morte, se estiver em pecado grave, ninguém poderá comungar se antes não se tiver confessado, exceto no caso de absoluta impossibilidade. O exemplo do rei Saul poderá servir-nos de tremenda lição.
D. — Conte-o, Padre.
* * *
M. — Samuel havia ordenado a Saul que não oferecesse nenhum sacrifício antes que ele chegasse; mas, Saul, soberbo e orgulhoso, cansado de esperar com o fim de acalmar o povo, disse:
— Que nos importa Samuel? Eu mesmo vou oferecer o sacrifício. Acaso não sou rei de Israel?
E dito isto ofereceu o sacrifício. Mas nesse ínterim chegou o profeta. Com palavras severas condenou o ato de Saul, dizendo:
— Hoje mesmo vais ser castigado por teres desobedecido a ordem do Senhor. Teu nome já foi riscado da lista dos reis de Israel e a coroa de Israel já foi destinada a um outro mais digno do que tu.
D. — Portanto, quem se atreve a desobedecer a ordem do confessor, torna-se um sacrílego e inimigo de Deus?
M. — Certamente.

21 de maio de 2015

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

AMOR IMENSO DE JESUS

D. — Padre, estou cada vez mais satisfeito com suas explicações. Faça o favor de explicar-me o seguinte:
Jesus Cristo é Deus e por isso, na sua onisciência, previra todos estes abusos e sacrilégios cometidos por seus filhos através dos séculos. Por que então mesmo assim, instituiu a Eucaristia?
M. — Ah! Meu amigo! Jesus Cristo é Deus e previu também a ingratidão dos homens, por Ele remidos, a traição de Judas, o ódio dos fariseus, a vileza de Pilatos, sua paixão e morte horrorosas.
Apesar disso submeteu-se a todas estas provas somente visando àqueles que aproveitariam os frutos de sua redenção.
Deus também previu que o pão causaria indigestão a muitos, e que muitos ficariam embriagados com vinho; não obstante, Ele criou o pão e criou o vinho. Assim também Ele previra todos os sacrilégios na Comunhão, contudo instituiu-a igualmente, com o único fim de proporcionar a todos um penhor eterno de seu imenso amor; para ser o alimento e a força de nossas almas débeis, o remédio para nossas enfermidades espirituais. Sobretudo Ele instituiu a Eucaristia para nos facilitar o caminho para o céu.
D. — Logo, Jesus Cristo instituindo a Eucaristia preferiu o próprio desprezo antes que privar-nos de tão grande benefício?
M. — Precisamente. Jesus Cristo é semelhante a uma carinhosa mãe. Você nunca pensou como é que se formou na terra o amor materno? As mães já sabem por experiência comum quanto irão padecer antes e depois do nascimento dos filhinhos; preveem e conhecem que eles serão ingratos, revoltosos, desobedientes; cientes de que terão amargas desilusões em troca de tantos sacrifícios, têm diante dos olhos o exemplo de tantas mães, suas companheiras, amigas e até parentes; contudo, resignadas e decididas exclamam: que iremos fazer? Faça-se a vontade de Deus.

Enquanto averiguam a realidade do que haviam previsto, e as humilhações, as ingratidões e os desprezos vêm bater-lhes à porta, elas não se arrependem, não maldizem sua própria sorte e os próprios filhinhos. Antes, pacientemente suportam e toleram as suas diabruras, sempre prontas a dar a própria vida por amor dos filhos. Sentem-se mais felizes e gozam muito mais com um beijo de um filho carinhoso, do que sofrem com as má-criações e ingratidões de todos os outros filhos.
D. — Isso é verdade. Dia a dia se pode verificar o que o senhor diz, em todas as mães.
M. — Então, se o amor materno, que é um amor humano, possui tais prerrogativas, que diremos do amor divino?
D. — Está bem, Padre. Porém, Jesus Cristo, quando instituiu a Eucaristia para alimento das almas, deveria tê-la deixado unicamente como prêmio para os bons cristãos.
M. — Pois Ele fez isso mesmo. Deixou a Eucaristia como alimento e prêmio para os bons; Jesus, porém, não excluiu os maus, nem os afasta, somente os condenou.
D. — Então, por quê é que os maus comungam sacrilegamente?
M. — Porque são perversos e dominados por inominável malícia. Se Jesus Cristo os tolera é porque sua misericórdia é infinita. Jesus veio ao mundo para salvar todos os homens embora pecadores, aos quais tem um amor especial não como pecadores, mas sim para que se convertam e possam salvar-se. Por esta razão suporta-os por muito tempo, dirigindo-lhes continuamente aquele misericordioso convite: Vinde a mim todos. Vinde a mim todos vós, fatigados e oprimidos sob o peso de vossos pecados e Eu vos aliviarei. Em suma, permite que vivam pecaminosamente, esperançoso de que um dia se convertam e voltem à casa paterna. Você conhece a parábola do joio no meio do trigo?
Na Última Ceia Jesus institui a Eucaristia
* * *
Um grande fazendeiro comprou boas sementes e mandou os servos semeá-las em seu campo. Os servos executaram a ordem. Mas, quando as sementes nasceram, notaram com grande surpresa que juntamente com o trigo havia nascido também o joio. Imediatamente foram avisar ao patrão, dizendo-lhe:
— Se o senhor quiser, iremos imediatamente arrancar aquela em daninha.

— Absolutamente não — respondeu o patrão — a fim de que não aconteça que juntamente com o joio arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita, e então separaremos o trigo para os celeiros e o joio atirá-lo-e-mos ao fogo.
Veja aqui, meu querido discípulo, o conselho sapientíssimo de Deus: Esperar, ter paciência, e no tempo da colheita, isto é, na hora da morte, o trigo, os bons e os justos irão para o céu; os maus, o joio, serão lançados no fogo eterno.
A mesmíssima coisa acontece na Comunhão: os que a recebem dignamente irão para o Céu, pois a comunhão é um penhor de vida eterna: pelo contrário os sacrílegos, por si mesmos, já estão condenados ao inferno.
D. — Que adianta então, comungar mal? Que proveito os maus tiram disso?
M. — O mesmo proveito que auferem os criminosos com seus delitos e traições contra a Pátria e a família. Eles cometem tão bárbaros crimes levados unicamente por ódio, má vontade ou ganância, e pelos mesmos motivos é que os sacrílegos comungam.
São os piores criminosos, pobres desgraçados pelos quais devemos rezar.
D. — Hei de rezar muito por eles, pois que aprendi que rezar pelos pecadores é um dever de caridade. Agora passemos a outra questão.

20 de maio de 2015

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

SERÁ NECESSÁRIO POR UM FREIO?

D. — Se tantos são os abusos, não seria conveniente por um freio à comunhão frequente?
M. — Que está dizendo? Pôr freio quando apenas se começou a caminhar? Fazendo assim, voltaríamos ao impiedoso e cruel Jansenismo. E ainda mais, chegaria a tal ponto a indiferença religiosa que em breve, como sequela inevitável, seria deixado no esquecimento o augusto e prodigioso sacramento, único sustentáculo do mundo.
D. — Então nada de freios?
M. — Nada, nem sequer devemos pensar em diminuir minimamente a frequência à comunhão; o que é preciso é por freio ao pecado que é causa de tais abusos; acabar com as más companhias, os costumes depravados, as ocasiões perigosas, os caprichos e o egoísmo. E não pôr freio à comunhão cotidiana bem feita, meio seguro para chegarmos ao céu.
D. — E, diante de tão poucas comunhões bem feitas, em comparação com tantos e tantos sacrilégios, o senhor continua pensando o mesmo?
M. — Também neste ponto você está enganado.
É verdade que muitos comungam sacrilegamente, há, porém, um número muito maior de pessoas que comungam bem. Esse número supera imensamente aos sacrílegos, pois se assim não fosse de há muito o mundo já teria acabado.
* * *
Uma basílica de Roma ostenta em sua cúpula dois célebres quadros de Leonardo da Vinci representando o começo e o fim do mundo. O segundo quadro tem por fundo um altar suntuoso onde um padre celebra a última missa; ao redor um grande número de fiéis preparam-se devotamente para receber a Santa Comunhão, enquanto que ao alto se vê uma multidão de anjos que esperam o fim da missa para anunciar com suas trombetas de ouro o advento do dia terrível da Justiça Divina. Nesse quadro o autor quis demonstrar que ele estava convencido de que sem a Santa Missa e sem a Santa Comunhão o mundo já estaria submergido no abismo aberto pelos seus mesmos crimes.
Vê-se uma multidão de Anjos que esperam o fim da Missa para anunciar o advento do dia terrível da Justiça Divina.
D. — E com isso, Padre?
M. — Com isso, devemos concluir que é preciso fomentar cada vez mais a prática da Comunhão frequente bem feita, fazendo ao mesmo tempo guerra às comunhões sacrílegas.
D. — Será verdade que Deus aniquilará o mundo ou enviará tremendos castigos em vista de tantos sacrilégios?
M. — Não leu ou ouviu contar aquele episódio da Bíblia no qual se fala da oração do patriarca Abraão?
D. — Sim, já ouvi contar, todavia não o recordo bem. Queira contá-lo.
M. — Lê-se no Antigo Testamento que um dia Deus apareceu ao patriarca Abraão e lhe disse:
— Abraão, estou farto com os inumeráveis pecados cometidos pelo meu povo, e por isso vou exterminá-lo com uma chuva de fogo.
— Senhor, exclamou Abraão, será que não o perdoarias se entre eles houvesse cem justos?
— Sim, em vista dos cem justos haveria de perdoá-lo.
— E se ouve-se somente cinquenta?
— Assim mesmo haveria de perdoá-lo.
— E se houvesse vinte e cinco?
— Mesmo que fossem só vinte e cinco, não os exterminaria.
Abraão, confiado na misericórdia divina, continuou:
— Senhor, perdoarias a teu povo ainda que houvesse só dez justos?
Respondeu o Senhor: — Infinita é minha misericórdia. Em atenção a esses dez pouparia todo o meu povo.
Satisfeito, Abraão saiu à procura dos dez justos; não conseguiu, porém encontrá-los e Deus destruiu com uma chuva de fogo e enxofre as cidades de Sodoma e Gomorra.
D. — Como se mostrou bondoso Nosso Senhor!
M. — Deus é bom também agora. Ele não muda. É sempre o mesmo, e hoje como outrora sente delícias em perdoar os pecados dos homens. Embora os sacrílegos sejam como espinhos agudos a pungir-lhe as pupilas ou como espadas que lhe transpassam o coração, todavia Ele se cala e perdoa sempre, em vista do consolo e alegria que recebe dos que comungam bem. E, como as comunhões bem feitas superam em número as más, Ele permite estas últimas.

19 de maio de 2015

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

CASTIGOS TERRÍVEIS

É assustador o caso de um desgraçado que se gloriava publicamente de ser ateu e de não gostar de Padres, nem de Igreja e muito menos dos sacramentos.
Quando lhe notavam que assim não agia bem, pretendiam convencê-lo de seus desatinos e vãs palavras, mostrando-lhe o perigo a que se expunha de uma morte má, ele respondia:
— Na hora da morte, entender-me-ei sozinho com Deus, e no que se refere honra de minha família, não me faltará tempo para simular que comungo convencido e bem preparado.
Pobre infeliz! Sobreveio-lhe uma doença mortal e advertiram-lhe que seria conveniente chamar o Padre. Ele respondeu: — Eu sempre estou bem com Deus; ao confessor não tenho nada para dizer; só quero que me tragam a comunhão. — Com muito pesar levaram-lhe a comunhão a pedido dos parentes, na secreta esperança que talvez com isso entrasse em si. Recebeu-a como a pode receber um incrédulo: sem fervor, sem devoção, sem respeito, com a maior indiferença possível. Mas, que sucedeu? Apenas recebida a Santa Comunhão, estremeceu, começou a agitar-se em horríveis convulsões e pôs-se a gritar: Estou me queimando, estou me queimando, estou ardendo! — E assim entre gritos horríveis, morreu desesperado, deixando nos presentes uma segura impressão de um merecido castigo.
E entre gritos horríveis, morreu desesperado...
* * *

Muito pior sorte teve este outro indivíduo do mesmo lugar. Esse não era irreligioso, pois lhe era conveniente proceder de outra forma; era muito amigo dos padres, frequentava a igreja e recebia os sacramentos. Mas ao mesmo tempo vivia com maus companheiros e era assíduo frequentador de casas de perdição, sem preocupar-se com sua consciência nem com o bom exemplo. Acendia duas velas, como dizemos nós; amigo, tanto de Deus como do demônio. Estando para morrer, pois a morte não respeita ninguém, chamou em tempo o Padre, confessou-se e pediu o Viático; porém, minutos antes de recebê-lo seus olhos incharam-se tanto até desaparecerem nas órbitas. A boca alargou-se horrivelmente e de tal forma cerraram-se-lhe os dentes que não foi possível, fazer passar nem sequer uma particulazinha da Hóstia.
Jesus Cristo, infinitamente bom, não quis mais entrar naquele corpo, réu de tantos sacrilégios.
Os fiéis que haviam acompanhado o Santíssimo Sacramento comentavam o fato que lhes serviu de proveitosa lição.
Estes dois casos, por demais assustadores, mas destinados a fazer grande bem, não são mais do que a fiel realização daquelas palavras da Sagrada Escritura: ''Deus non irridetur" — “Com Deus não se brinca’. — Maiores ainda seriam os castigos se estes sacrilégios (que Deus tal não permita) fossem cometidos por pessoas religiosas ou ministros de Deus.
* * *
Conta a História, que certo rei do antigo país da Etiópia havia confiado a educação do seu único filho a um dos generais do seu exército. Aquele general, com a maior indignidade possível, abusando da confiança que o rei depositara nele, resolveu envenenar lentamente o filho real e assim usurpar a dignidade suprema, após a morte do velho monarca.
Certificando-se o rei de tão sinistros e cruéis planos, tomado de justa cólera, mandou atá-lo na praça principal da cidade e presente todo o exército, com os arcos retesados, desmascarou-o com estas palavras: — Miserável! Assim desejavas corresponder aos meus desejos e à confiança que depositava em ti? Recebe, pois o castigo que mereces.
E fazendo um aceno, centenas e milhares de flechas envenenadas transpassaram o peito e o coração daquele general cruel e traidor. Pois bem, esta terrível cena repetir-se-á eternamente no inferno, contra os sacrílegos que tenham correspondido mal aos favores de Deus, às graças da Santa Comunhão; para esses a sorte será ainda pior. Já conhece a história do cortiço de abelhas?
D. — Não, conte-a, Padre.
M. — Um fulano, certo dia, passeando pelo campo, topou com um monte de terra na forma de um guarda-chuva todo esburacado donde saía um leve e airoso sussurro. Levado pela curiosidade, deteve-se e com a ponta da bengala remexeu os buracos. Coitado, nunca tivesse feito isso.
Era um enorme cortiço. Os insetos, irritados, aos milhares, formando uma negra e ululante nuvem, atacaram o pobre curioso. O infeliz procurou defender-se debatendo-se por todos os lados; porém, com isso mais ainda irritava as abelhas, que enfezadas faziam penetrar seus ferrões naquele desventurado. E tanto o picaram, que afinal, ele com o rosto e a cabeça inflamados caiu desfalecido e morreu entre terríveis convulsões.
Assim também os sacrilégios com tanta frequência cometidos por centenas e milhares de vezes, serão no inferno, como vespas que atormentarão sem cessar a todos os sacrílegos, não excluindo os religiosos e sacerdotes que, abusando da própria vocação e ministérios, se tenham tornado réus de sacrilégios no mistério de amor. Com a diferença, porém, de que essas abelhas infernais nunca desaparecerão e nem causarão a morte a esses infelizes, mas somente lhes serão causas de tortura constante.

... Os sacrilégios serão no inferno, como vespas que atormentarão sem cessar a todos os sacrílegos...
D.—Meu Deus, que castigos terríveis! Porém, Padre, eu acho que ao menos entre religiosos e sacerdotes sejam poucos esses desgraçados.
M. — Confiemos que sejam poucos, porque Deus os protege e guarda e Jesus Cristo defende-os como a pupila de seus olhos; todavia não será difícil uma surpresa desagradável.