24 de junho de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

I

Não poderemos compreender as palavras de Jesus a respeito do Espírito Santo, se não recordarmos primeiramente o que nos ensina a Revelação da vida deste Espírito na Santíssima Trindade. Já conheceis o mistério; mas ao contemplá-lo de novo a vossa fé encontrará nele aumento de alegria. Penetremos então, com profunda reverência, no santuário da Divindade.
Que nos diz a fé? Que há em Deus o Pai, o Filho e o Espírito Santo: três Pessoas distintas na unidade
de natureza.
Como sabeis, o Pai não procede de ninguém; é o Princípio sem fim, o primeiro princípio de toda a vida íntima de Deus, a origem de todas as inefáveis comunicações na SS. Trindade. O Pai conhecendo-Se a Si mesmo, gera, por uma palavra infinita, um Filho único e perfeito, a quem comunica tudo o que é, exceto a propriedade pessoal de ser Pai: Sicut enim Pater habet vitam in semetipso, sic dedit et Filio habere vitam in semetipso. O Filho é em tudo igual ao Pai; é a expressão adequada, a imagem perfeita do Pai: com Ele possui a mesma natureza divina.
O Pai e o Filho dão-se mutuamente com perfeito amor, e desta doação de amor do Pai ao Filho e do Filho ao Pai procede, de modo misterioso, o Espírito Santo, terceira pessoa. O Espírito Santo completa o ciclo das operações íntimas em Deus, é o termo final das comunicações divinas na Trindade adorável.
Entre estas pessoas distintas, como sabeis, não há superioridade nem inferioridade: seria erro grave crer o contrário; todas as três são iguais em poder, sabedoria, bondade, pois todas três possuem, de modo indivisível, a mesma e única natureza divina com todas as suas infinitas perfeições. Eis por que o nosso louvor se dirige ao mesmo tempo ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo: Gloria Patri, et Filio et Spiritui Sancto.
No entanto, se não hã entre elas desigualdades nem independência, há uma ordem de natureza, de origem. que caracteriza essas comunicações. A «processão» do Filho pressupõe (sem que haja, porém, diferença de tempo ) o Pai, primeiro princípio; a «processão» do Espírito Santo pressupõe o Pai e o Filho, dos quais é dom recíproco.
Isto é um modo de falar que não podemos pôr de lado. Jesus quer que todos os Seus discípulos sejam
batizados «em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo»: é a própria linguagem do Verbo Incarnado ; encerra uma realidade divina cuja compreensão não atingimos; mas, como se trata de linguagem de Jesus, devemos respeitar inviolavelmente a ordem entre as Pessoas da Santíssima Trindade. Assim como devemos conservar intacta, na doutrina e na oração a unidade da natureza, assim também devemos reconhecer a distinção das pessoas, distinção esta baseada nas comunicações que têm entre si e nas suas mútuas relações. Há, ao mesmo tempo, igualdade e ordem; há idêntica perfeição e distinção de propriedades.
Estas verdades constituem um mistério inefável, acerca do qual mais não podemos fazer do que balbuciar. No entanto, Nosso Senhor quis revelar-nos a existência deste mistério; quis fazer-nos esta revelação nos últimos colóquios com os discípulos. na véspera de morrer, «para que a nossa alegria fosse completa». Chega até a dizer que, se somos Seus amigos, foi porque Ele nos revelou estes segredos da vida intima de Deus, até que um dia deles vamos gozar na eterna felicidade. E ter-nos-ia revelado estes segredos, se não julgasse, Ele a sabedoria infinita, que esta revelação nos seria útil?
Mas notai ainda. Não foi só por palavras que Deus revelou esta ordem de princípio, de origem, que existe nas inefáveis comunicações das pessoas entre si (fundamento da sua distinção ); quis também manifestá-la em Suas obras.
Jesus diz no Evangelho que «a vida eterna consiste em conhecer que o Pai é o verdadeiro Deus e Jesus Cristo o Seu enviado»; diz muitas vez-es que "o Pai O enviou». Este termo "enviar», frequentemente empregado por Jesus Cristo, indica a distinção das pessoas. É o Pai que "envia» ; é o Filho que "é enviado». A ordem de origem que existe desde toda a eternidade no céu entre o Pai e o Filho é assim manifestada no tempo. Pois, no mesmo lugar, Jesus Cristo, referindo-se ao Pai diz:
"Nós somos um"; "tudo o que é do Pai é meu, e tudo o que é meu é do Pai».
Jesus emprega o mesmo termo "enviar", ao falar do Espírito Santo. Diz aos Apóstolos que «o Pai lhes
enviará o Espírito Santo »: Paraclitus autem Spíritus Sanctus quem mittet Pater; diz também que "Ele
próprio O enviará": Si autem abiero, mittam eum ad vos. Como vedes, é o Pai e o Filho que O enviam. Assim fala Jesus do Espírito. Nosso Senhor quer por esta forma indicar a ordem que existe em Deus na "processão» do Espírito Santo.

23 de junho de 2017

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.

Nossa Senhora Jovem

Parte 4/7

Ao chegar a juventude, conhece qual é a sua situação com respeito à sociedade e com respeito aos jovens de outro sexo. A Virgem não é uma pobre inconsciente. Porém com todo esse conhecimento, ela manterá inflexível a orientação do seu coração. Será sempre e toda de Deus. Terá que amar outras pessoas, terá que amar seu esposo; mas por isso não amará menos a Deus. A seu esposo amará porque Deus quer que o ame, e amá-lo-á para que os dois unidos amem mais a Deus.
É tão importante este traço característico da Virgem jovem, que as jovens cristãs devem deter-se a contemplá-lo com gosto.
Levado pela tendência natural que Deus pôs em todos os corações, o coração da menina instintivamente dirige-se para Deus, sobretudo se tem uns pais que a  orientem para Ele.
Porém ao chegar à juventude, o coração facilmente se desorienta. Sente fome de amar com mais força cada dia. Sente um vazio imenso e umas ânsias crescentes de enchê-lo. Tão grande é esse vazio, que fez Deus para si, que só pode encher-se com Deus.
Nestes momentos, facilmente se desorienta a jovem. Procura outras pessoas a quem amar, e para as amar desvia-se de Deus. Crê que o vazio que sente lho encherão os homens e até pensa que Deus é um estorvo para saciar os anelos do seu coração.
Os homens prometem-lhe um amor sem medida e um amor eterno, um amor que cumulará todos os seus anseios, e a jovem inexperiente crê-o e até chega a desviar-se de Deus, pensando que Deus é um impedimento para satisfazer as suas aspirações.
Vêm momentos de reação, sobretudo quando sobrevém algum desengano.
Quando o jovem que lhe oferecia um amor único a abandona para amar a outra a quem prometerá o mesmo. Quando reconhece que, o que julgava ser amor puro e desinteressado, estava misturado com escória de egoísmo.
Quando descobre que entre as qualidades que lhe pareciam belíssimas, se escondiam repugnantes defeitos.
Perante estes desenganos, o coração da jovem tem necessidade de orientar-se de novo para Deus; porém essa necessidade dura muito pouco.
Outras pessoas, outros atrativos aparecem ao seu alcance e de novo o coração dirige-se para eles e prescinde de Deus. A jovem quer convencer-se. Nem todos serão iguais. Em alguns homens também há amor puro e desinteressado. É verdade, jovem, no mundo há amor puro e desinteressado, ainda que não abunde muito esse amor.
Os crescentes desenganos não devem produzir em ti um ceticismo completo.
A Virgem encontrou em São José um coração fiel e desinteressado e tu também o podes encontrar. O importante é que acertes em orientar e ordenar o amor em teu coração. Como o orientarás?
Pensa que o vazio imenso que sentes na alma só pode enchê-lo Deus, porque foi Deus quem o fez para ocupá-lo Ele, e Deus é imenso.
Pensa que podes amar outras pessoas: ao companheiro que Deus te destine, aos filhos que Deus te dê; podes amá-los e deves amá-los porque Deus o manda; mas por isso não deves afastar a Deus do teu coração. Se os amas em Deus e para Deus, Deus e eles cabem em teu coração.
Pensa que se nesse coração entra Deus, o vazio ficará cumulado por completo, ainda que nenhum outro ser criado entre nele; e exclamarás com Santa Teresa de Jesus: Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta.
Numa palavra, procura que o amor de nenhuma criatura esfrie na tua alma o amor de Deus.
Se for necessário, sacrifica o amor à criatura, para que triunfe o amor ao Criador. Isto é ordenar o amor.

22 de junho de 2017

Sermão para a Festa de Pentecostes – Pe. Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] Pentecostes, Crisma e o combate ao respeito humano


Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
No dia de Pentecostes, 50 dias após a Páscoa, comemoramos a descida do Espírito Santo sobre Nossa Senhora e os Apóstolos, que, obedecendo à ordem de Cristo, perseveravam na oração no Cenáculo em Jerusalém. Todavia, devemos sempre nos lembrar que as festas da Igreja não são meramente uma memória do passado. As festas litúrgicas da Igreja, ao comemorarem os mistérios, nos transmitem a graça própria de cada mistério. Vimos, na Ascensão a graça de nos fazer ter os olhos no céu, o desejo do céu, da santidade, da perfeição.
A graça própria de Pentecostes é, sem dúvida, o amor a Deus. E um amor com vigor. Antes de Pentecostes, não tinham ainda saído os apóstolos para pregar o Evangelho. Depois de Pentecostes, repletos do Espírito Santo, São Pedro, em um só discurso, converte e batiza 3 mil. O amor a Deus cresce muito, bem como o zelo pela salvação das almas. E fica diminuído o temor, o receio, o respeito humano.
Se o Espírito Santo é dado desde o batismo a cada um, Ele é dado em abundância no sacramento da Crisma, o sacramento da maturidade espiritual. O sacramento que faz de nós soldados de Cristo. A Crisma é, para cada um de nós, como um Pentecostes particular. Não se está dizendo que recebemos exatamente a mesma graça dos apóstolos. Evidentemente, não. Mas há certa semelhança.
Em Pentecostes, o Espírito Santo desce sobre os apóstolos com a aparência de línguas de fogo. O fogo tem luz e calor. A descida do Espírito Santo iluminou a inteligência dos apóstolos, esclarecendo melhor os ensinamentos de Nosso Senhor, fazendo que os apóstolos compreendessem melhor. Foi um aumento da fé dos apóstolos, no sentido de que passaram a crer nos ensinamentos de Cristo com maior firmeza. Essa é a luz do fogo. Mas o fogo tem também calor. O calor incendeia, aquece, e se espalha rapidamente. O calor incendiou a vontade dos apóstolos com o amor a Deus e com o amor ao próximo. Foi um aumento enorme da caridade dos apóstolos. E o Espírito Santo vem em forma de língua. Ora, os apóstolos devem comunicar a verdade e o bem aos outros. Nosso Senhor lhes deu esse mandamento: ide e ensinai a todos os povos. A língua significa que, conhecendo a verdade pela fé e amando a Deus e o próximo intensamente pela caridade, é preciso propagar a fé e a caridade aos outros, para que creiam em Deus e amem a Deus e ao próximo. Com essas graças do Espírito Santo, os apóstolos pregaram o Evangelho a toda a criatura. A voz deles, diz a Sagrada Escritura e a Igreja, foi ouvida em todo o orbe da terra. Com a força do Espírito Santo, confirmados por Ele, revigorados por ele.
Na Crisma, o Bispo, colocando a mão sobre a cabeça do crismando, unge a sua testa com o óleo do Santo Crisma, perfumado com bálsamo, e diz: eu te assinalo com o sinal da cruz e te confirmo com o crisma da salvação, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. A testa é assinalada, significando a iluminação da inteligência. O óleo significa a caridade, isto é, o amor a Deus e o amor ao próximo, que deve inflamar a nossa vontade. O bálsamo, que perfuma o óleo do crisma, significa a propagação da verdade e da caridade. O cheiro do bálsamo rapidamente se espalha, como devem se espalhar a fé e o amor a Deus. O sinal é marcado na testa, testa sempre muito visível, testa que não pode ser escondida, mostrando o vigor e a coragem que devemos ter para professar a fé católica e praticar a caridade, sem respeito humano, sem medo, sem temor.
Precisamente disso gostaria de falar: do respeito humano. Respeito humano que essa festa de Pentecostes deve nos fazer vencer. O respeito humano é a excessiva atenção ao que os homens julgarão ou dirão de nós, das nossas palavras e das nossas ações. O respeito humano é, como se vê pela experiência, um dos maiores inimigos da perfeição, e tanto mais prejudicial quanto mais universal é o seu domínio, pois não há lugar nem estado, sexo nem condição, onde não exerça mais ou menos a sua influência perniciosa. Penetra em todas as classes de indivíduos da sociedade, tanto no homem público como no homem privado, no rico como no pobre, no velho como no novo, no homem como na mulher.
O respeito humano age de duas maneiras: primeiro, executando alguma ação só para agradar aos homens e obter deles o julgamento favorável; segundo, deixando de praticar a virtude e o que a consciência dita para não desagradar aos outros. Aquele que se deixa levar pelo respeito humano injuria a Deus, porque coloca o juízo dos homens na frente do juízo de Deus; em vez de pensar no seu interior sobre o que julgará e que dirá Deus Nosso Senhor, só pensa no que julgarão e dirão os outros, convertendo, portanto, o juízo dumas miseráveis criaturas em norma suprema dos seus atos. E as palavras de Nosso Senhor são bem claras: O que se envergonhar de mim ou da minha doutrina, ou me negar diante dos homens também eu me envergonharei dele e o negarei quando vier a julgar o mundo na presença de meu Pai revestido da sua glória. Mas o Salvador diz também: aquele que me confessar diante dos homens, também eu o reconhecerei diante do meu Pai que está nos céus.
Não devemos claro, confundir o combate ao respeito humano com a falta total de respeito, com a falta de caridade e com o total desprezo do conselho dos outros. O juízo dos outros pode também ser justo. Não devemos é basear nossas ações em juízos contrários à lei de Deus. O respeito humano é aquele respeito que nos leva ao pecado, que nos faz omitir um dever ou que nos barra o progresso na virtude que poderíamos fazer. Não é respeito humano atender às ordens legítimas da autoridade legítima, por exemplo. Não é respeito humano evitar práticas de piedade muito peculiares, excêntricas e singulares na Igreja, por exemplo. Feita essa distinção, que podemos facilmente perceber, devemos vencer o respeito humano. Avancemos, preocupados com o juízo de Deus e não com o juízo dos mundanos.
Outro inimigo contra o qual devemos nos fortalecer é um inimigo interno. Com o nosso propósito de conversão, com o início da prática séria da religião, nosso interior, acostumado e inclinado ao pecado, se revolta. Vem, por vezes, um sentimento de tristeza por termos dito um adeus definitivo às loucuras e ninharias do mundo. Por ter dito adeus aos nossos pecados e vícios. Quando vier isso, tenhamos paciência. Essa tristeza e essa revolta passarão. E virão as verdadeiras alegrias. As vãs diversões se reapresentarão ao nosso coração, querendo que voltemos para elas. Voltaríamos a elas para perder a eternidade? Tendo colocado a mão no arado, não devemos olhar para trás. Procuremos esquecer essas coisas passadas. Devemos ter coragem. O caminho da perfeição é para os fortes. Para os fortes que se fazem forte com a graça de Deus, apoiados em Deus porque sabem que, por eles mesmos, são fracos.
Sejamos fiéis a essa graça que o Espírito Santo quer hoje nos dar: a força, a coragem contra o respeito humano, contra o inimigo interior, contra o velho homem, para que nos salvemos, para que propaguemos a fé e a caridade.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

21 de junho de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

XVII

MISSÃO DO ESPIRITO SANTO

"Se me amásseis, dizia Jesus Cristo aos Apóstolos, regozijar-vos-íeis por Eu voltar para o Pai »:
Si diligeretis me, gauderetis utique quia vado ad Patrem.
Com efeito, para os que amam a Cristo, a Ascensão é uma fonte inesgotável de júbilo. É a glorificação suprema de Jesus no mais alto dos céus; é a realização da prece de Jesus: «Pai, glorifica-me com a glória que tive em ti, antes de o mundo existir: Clarifica-me, Pater, apud temetipsum, claritate quam habui, priusquam mundus esset apud te. Enchemo-nos de alegria, quando contemplamos Jesus, nosso Redentor e nosso chefe, sentado à direita do Pai, depois de ter cumprido neste mundo, nos aviltamentos da Sua incarnação e nas humilhações da Sua morte, a Sua missão salvadora.
Mas Nosso Senhor não dizia apenas aos discípulos: «A minha Ascensão deve alegrar-vos"; acrescentava: "É vantajoso para vós». Veritatem dico: expedit vobis ut ego vadam; si enim non abiero, Paraclitus non veniet ad vos; si autem abiero, mittam eum ad vos: "Digo-vos a verdade: é bom para vós que eu vá; porque, se Eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, se Eu for, enviar-vô-lo-ei».
Todas as palavras do Verbo Incarnado são, como Ele próprio diz, «espírito e vida»: Verba quae ego locutus sum vobis, spiritus et vita sunt. São graves e profundas, por vezes misteriosas. Algumas são difíceis de compreender e só na oração se podem penetrar bem. As palavras de Jesus, que acabamos de ouvir sobre a Sua partida da terra, são deste número.
Expedit vobis ut ego vadam: «É bom para vós que Eu vá». Como? Pode ser bom para os Apóstolos que Jesus vá, que os deixe e suba para o Pai? Não é para eles a fonte de todos os bens, a causa de toda a graça? Não é Ele «o caminho, a verdade e a vida»? Não disse Ele: «Ninguém pode ir ao Pai senão por mim»? Como pode então convir aos Apóstolos que Jesus os deixe?
Não poderiam eles responder-Lhe, com toda a verdade: «Ó divino Mestre, que estais a dizer? de ninguém mais precisamos do que de Vós, Vós nos bastais»: Ad quem ibimus? Não possuímos convosco todas as graças? Ficai, pois, conosco»: Mane nobiscum.
Mas a palavra do divino Mestre é formal: "Digo-vos a verdade»: Veritatem dico: «Não posso demorar-me mais; é tempo de voltar para meu Pai, e é vantajoso para vós que Eu vos deixe». Por que razão? "Para vos enviar o Espírito Santo».
Aqui é que está o mistério; e é este mistério que vamos contemplar, na medida em que nos for dado; pois nisto tudo é sobrenatural, e só a fé nos pode guiar.
Embora nesta conferência se trate constantemente do Espírito Santo, vamos ver que a descida visível deste Espírito sobre os discípulos (descida esta que constitui o tema próprio da solenidade do Pentecostes) é obra de Jesus na Sua natureza divina (como o é também do Paí ) e, por esse motivo, está enquadrada no ciclo dos Seus mistérios.
Primeiramente, porque Jesus Cristo pediu que o Espírito Santo fosse enviado, e disso fez o objeto duma prece muito especial. Nosso Senhor dizia aos discípulos, na última Ceia: "Vou pedir ao Pai e Ele vos dará outro Consolador, o Espírito de verdade, para que permaneça sempre convosco».
Em segundo lugar, Jesus prometeu aos Apóstolos que lhes enviaria esse Espírito. "Quando vier o Consolador, que Eu vos mandarei da parte do Pai, o Espírito de verdade que procede do Pai, dará testemunho de mim . . . Se Eu for, enviar-vos-ei o Consolador".
Além disso, mereceu que o Espírito fosse enviado. Jesus Cristo, pela Sua oração como pelo Seu sacrifício, obteve do Pai que o Espírito de verdade, de amor, de força e de consolação, descesse sobre os Apóstolos. Toda a graça é o prêmio da oração e da imolação do Salvador: e como isto se verifica admiravelmente na vinda deste Espírito tão poderoso e cheio de bondade, que o próprio Jesus proclamou igual a Si, em quem os Apóstolos encontrarão um outro Ele mesmo!
Finalmente e sobretudo, a vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos não tem outro fim, como sabeis, senão concluir o estabelecimento da Igreja. Jesus fundara esta Igreja sobre Pedro, mas quis deixar ao Espírito Santo (vamos ver porque) o cuidado de a aperfeiçoar. Efetivamente, antes da Ascensão, estando à mesa com os Apóstolos, recomenda-lhes que «não se afastem de Jerusalém, mas que esperem pelo Espírito. A vinda deste Espírito devia servir para a glorificação de Jesus»: ao mesmo tempo, o Espírito «enchê-los-ia de força", para que pudessem «dar testemunho de Jesus na cidade santa, na Judeia, na Samaria e até ao extremo do mundo». São as próprias palavras de Jesus Cristo.
Já vedes, pois, como a vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos pertence a Jesus. E isto é tão verdade, que S. Paulo chama ao Espírito Santo «o Espírito de Cristo, o Espírito de Jesus ". Eis por que não podemos percorrer o ciclo dos mistérios de Cristo sem contemplar esta obra maravilhosa que se realizou dez dias depois da Ascensão.
Peçamos ao Espírito Santo que Ele mesmo nos dê a conhecer o que Ele é, em que consiste a Sua missão e a Sua obra no dia do Pentecostes. "Vinde, Espírito de verdade, iluminai as nossas inteligências para que em nossos corações se acenda o fogo do amor de que sois o foco infinito».

20 de junho de 2017

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.

Nossa Senhora Jovem

Parte 3/7

A pincelada mais certa para o retrato de Maria jovem, deu-a o anjo ao sondar Maria: És a cheia de graça. Este é o seu traço característico; o que desenha a sua fisionomia interna e a diferencia de todas as pessoas.
Este é o seu nome específico, que só a ela se pode aplicar, nome que é a expressão de uma excelsa realidade: a cheia de graça.
Maria jovem tinha a alma cheia de graça, e por isso Deus estava com ela, vivia naquela alma: O Senhor é contigo.
Que maravilhoso é este traço da fisionomia da Virgem Santíssima jovem!
Quero dizer que Maria solucionou de uma maneira ideal o problema principal que tem a jovem: o problema do coração.
O homem foi feito para amar a Deus e a todas as coisas em Deus. Assim como o olho esta feito para receber os raios do sol, e contemplar as belezas do universo, o coração do homem esta feito para amar a Deus, possuir a Deus e em Deus possuir a criação inteira.
O amor palpita no coração do homem desde o seu nascimento. A princípio esse amor do coração parece confundido com o instinto da natureza.
A criança instintivamente estende a mão para os objetos que atraem a sua atenção e lhe agradam.
Se Deus se apresentasse à criança de uma maneira sensível, as mãos da criança estender-se-iam para possuir a Deus.
Mas ao coração do homem apresentam-se uma infinidade de seres que o atraem e lança-se inconsideradamente para eles, esquecendo-se de Deus e o pobre coração humano fica descentralizado, inquieto, porque não se orientou bem.
Fizeste-nos, Senhor, para Ti; e o nosso coração esta inquieto até que descanse em Ti, dizia Santo   Agostinho.
Não foi assim o coração da Santíssima Virgem.
Desde os primeiros momentos Deus apresentou-se à alma de Maria com todos os encantos, com todas as suas perfeições infinitas; apresentou-se com todos os direitos a ser amado sobre todas as coisas.
E o coração de Maria não vacilou um momento, orientou-se para Deus e nunca se desviou dele.
Amará a Deus com todas as suas forças. Será toda d'Ele.
Se ama as pessoas deste mundo, ama-as por Deus e para Deus.
Será sempre d'Ele. Ninguém desviará um ápice aquele coração. Ninguém, nunca.
Daí a sua constância no trabalho.
Conforme for avançando a vida, irão surgindo dificuldades.

19 de junho de 2017

Tesouro de Exemplos - Pate 372

ANTES MORRER QUE MENTIR

Entre as heroicas vitimas da tristemente famosa Revoluto Francesa, conta-se o P. Firmino, carmelitano. Obrigado a depor o hábito e abandonar o convento, pôs-se a percorrer com zelo infatigável as vilas e aldeias, empregando-se dia e noite nas funções do seu sagrado ministério. Visitava os fiéis e confortava-os na fé para que não se deixassem vencer pelo terror e apostasia geral daqueles tempos tristes.
Foi finalmente descoberto pelos espiões do governo e em seguida preso e levado para a cadeia de Amiens.
Os juízes, perante os quais teve de comparecer, não eram daqueles homens sanguinários de que estava cheia a Franca naquela época infeliz. Pretendiam salvá-lo, sem no entanto obrigá-lo ao juramento iníquo que as leis revolucionárias impunham aos sacerdotes. O próprio presidente do tribunal deu-lhe a entender que, para escapar, à morte, era suficiente declarar que ignorava os decretos fulminados contra os padres que não haviam prestado juramento.
Momento angustiante! Tratava-se de salvar ou perder a vida. Para evitar o patíbulo, bastaria uma simulação, uma mentira leve... Mas o valoroso sacerdote, sem hesitar um só instante, recusa-se a salvar a vida por aquele prego. Está resolvido a antes morrer que trair a verdade.

18 de junho de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

VI

Quando, nestes santos dias, receberdes a Comunhão, deixai a Vossa alma entregar-se a estes pensamentos de alegria a confiança.
Unindo-vos a Jesus Cristo, incorporais-vos n'Ele; Ele está em vós e vós n'Ele; estais diante do Pai. Não O vedes, é certo; mas, pela fé, sabeis que estais diante de Deus, com Jesus que vos apresenta a Ele; estais com Ele no seio do Pai, no santuário da Divindade. Eis, para nós, a grande graça da Ascensão: participar, na fé, da intimidade inefável que Jesus Cristo possui no céu com o Pai.
Conta-se na vida de Santa Gertrudes que um dia, na solenidade da Ascensão, depois de receber da mão do sacerdote a sagrada hóstia, ouviu Jesus dizer-lhe: «Eis-­me aqui; venho, não para me despedir de ti, mas para te levar comigo ao céu e te apresentar a meu Pai». " Apoiada em Jesus, a nossa alma é poderosa, porque Jesus Cristo lhe comunica todas as Suas riquezas, todos os Seus tesouros»: Quae est ista quae ascendit de deserto, deliciis affluens innixa super dilectum suum? Apesar das nossas misérias e fraquezas, nunca receemos, portanto, aproximar-nos de Deus; pela graça do Salvador, e com Ele, podemos estar sempre no seio do nosso Pai dos céus.
Apoiemo-nos em Jesus Cristo, não somente na oração, mas em tudo o que fizermos. E seremos fortes. Se «sem Ele nada podemos » - sine me, nihil potestis facere - , « com Ele podemos tudo »: Omnia possum in co qui me confortat. Nele encontraremos, com a fonte duma grande confiança, o motivo mais eficaz da fidelidade e paciência no meio das tristezas, contrariedades, provações, sofrimentos por que temos de passar neste mundo até ao fim do nosso desterro.
No momento de terminar a Sua vida mortal, Jesus dirige ao Pai, a favor dos discípulos que em breve vai deixar, uma tocante oração: «Pai santo, quando estava com eles, Eu mesmo os guardava: agora que volto para junto de ti, peço, não que os tires deste mundo, mas que os livres do mal»: Cum essem cum eís, ego servabam eos; nunc autem ad te venio, non rogo ut tollas eos de mundo, sed ut serves eos a malo.
Que solicitude toda divina se traduz nesta oração! Foi por todos nós que Nosso Senhor a disse. E a 
Igreja, que sempre compartilha dos sentimentos do seu Esposo, nela se inspirou na secreta da Missa da Ascensão. «Recebei, Senhor, os dons que Vos oferecemos em memória da gloriosa Ascensão do Vosso Filho; concedei-nos propício a graça de sermos livres dos perigos da vida presente e alcançarmos a vida eterna, pelo mesmo Jesus Cristo Senhor Nosso». Por que é que repete a Igreja esta oração de Jesus?
Porque há obstáculos que nos impedem de ir para Deus; e estes obstáculos resumem-se todos no pecado, que nos afasta de Deus. Nosso Senhor pede que sejamos livres do mal, isto é, do pecado que, afastando-nos do Pai dos céus, é o único e verdadeiro mal: Ut serves eos a malo. Abandonados a nós mesmos, à nossa ingenita fraqueza, não podemos evitar esses obstáculos; mas podemo-lo, se nos apoiarmos em Cristo. Ele sobe hoje até ao céu, vencedor de Satanás e do mundo: Confidite, ego vici mundum . . .  Princeps mundi hujus in me non habet quidquam. Entra, como Pontífice todo poderoso, no santuário divino: Per hostiam suam apparuit. Pela comunhão, Nosso Senhor torna-nos participantes do Seu poder e do Seu triunfo. É por isso que nos devemos apoiar tanto n'Ele e só n'Ele confiar.
Com Cristo, que por nós oferece ao Pai os Seus méritos, não há tentação que não possamos vencer, dificuldade que não possamos superar, alegria insensata de que não nos possamos desprender. Enquanto não nos vamos juntar com Jesus no céu, ou antes, enquanto Ele não nos leva para lá (visto «estar-nos a preparar ali um lugar» ),  vivamos no céu, pela fé no poder ilimitado da Sua oração e do Seu valimento, pela esperança de um dia participarmos da Sua felicidade, pelo amor que, alegre e generosamente, nos leva ao fiel e exato cumprimento da Sua vontade e do Seu bel prazer. É assim que participaremos plenamente deste admirável mistério da gloriosa Ascensão de Jesus: lpsi quoque mente in caelestibus habitemus.

17 de junho de 2017

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.

Nossa Senhora Jovem

Parte 2/7

Em que marco geográfico colocaremos o retrato da Santíssima Virgem jovem?
Em que ambiente se desenvolveu a juventude de Maria?
Quando o anjo lhe trouxe a embaixada do céu, Maria estava desposada com José, porém era uma jovem e vivia em Nazaré. 
Quando se mudou de Jerusalém para Nazaré? Em que casa vivia? A todas estas perguntas não pode responder a história. O que parece ser certo é que perdeu muito cedo seus bons pais e ficou muito só no mundo.
É a primeira faceta que vamos traçar de Maria jovem; faceta amável, simpática. A Virgem Santíssima era uma órfãzinha . . . Porque o dispôs Deus assim? 
Preparava-a para que fosse para com os homens mãe de piedade e de misericórdia, e quis que ela mesma experimentasse o que é viver sem mãe na idade mais difícil da vida. Assim, quando estivesse no céu compadecer-se-ia melhor de tantos órfãos de corpo e alma que procurariam nela proteção maternal.
Quis Deus que presenciasse a morte de seus próprios pais, que estivesse a seu lado naqueles momentos tristes, e sentisse a emoção dos que vão e dos que ficam, porque todos os cristãos lhe haviam de pedir para estar também a seu lado na hora da morte, e com a experiência própria compreenderia melhor a necessidade da sua presença nesses momentos. Maria jovem foi órfã de pai e mãe.