23 de setembro de 2022

 BREVIÁRIO DA CONFIANÇA

11 de Julho

NEGOCIAR A FELICIDADE

    A felicidade é um negócio. E os que sabem empregar bem o capital em bancos e boas transações, gozam os juros de cem por um, aqui e na vida eterna. Que faz o bom negociante? Coloca o seu capital em negócios seguros e de vantagens certas. Compra e vende com lucros. Quereis ser felizes? Imitai o negociante. Com a moeda de vosso conforto, riqueza e saúde, comprai um pouco de felicidade para os que sofrem. E são tantos! O segredo da felicidade, segundo o Evangelho, esta em fazer os outros  felizes.      "Bem-aventurados  os misericordiosos - disse Nosso Senhor - porque eles alcançarão misericórdia".

    Vede os que padecem, os que chorão, os desgraçados, e sereis menos egoístas, e o vosso coração se há de abrir, cheio de ternura e bondade, para com os pobres e os que trazem também o coração a sangrar. O egoísmo é estéril e duro. No sofrimento, nos golpes da vida, nas desgraças que nos afligem, há um remédio eficaz e infalível para o alívio do coração: é entregarmo-nos às obras de misericórdia, visitar os pobres, os enfermos, encarcerados, dar esmolas, proteger os infelizes. É remédio eficaz nas tentações contra a fé! E, enxugando as lágrimas alheias, enxugamos também as nossas. Experimentai a boa receita e vereis. São Vicente de Paulo viu-se livre de uma terrível tentação contra a fé dando-se ao serviço dos pobres. E quantos e belos exemplos! Quereis ser felizes? Negociai a felicidade, pondo a vossa esmola no banco da pobreza, e o consolo, no coração dos que sofrem! É bom negócio! Sereis felizes.

10 de julho de 2022

O BREVIÁRIO DA CONFIANÇA

10 de Julho

Salomão e Jó

Salomão e Jó, observa Pascal, foram os que até hoje falaram melhor da miséria do homem. Um feliz, o outro desgraçado. Aquele conheceu pela experiência a vaidade dos prazeres; este, a realidade dos males. A pompa de Salomão deslumbrou todo o mundo. Foi o mais rico e feliz dos monarcas. Que lhe faltou? Tudo quanto pode desejar um coração, ele o possuía. A glória, o gênio, a beleza, o prazer, as honras, o ouro! E termina seus dias na solidão, no abandono! E tamanha glória passa como o vento.

Vanitas, vanitatum et omnia vanitas! – “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!”

Salomão é a triste experiência da vaidade, dos prazeres e de toda felicidade terrena. Que vale apegar-se loucamente ao que tão depressa se vai deixar? Não nos deslumbre a pompa de Salomão. Também não nos assuste a desgraça de Jó. Este começou feliz e rico, amigo do Senhor. Veio a sofrer as maiores desventuras e calamidades. Conheceu a realidade dos males. E a prosperidade faz Salomão pecador e idólatra. A desgraça purifica ainda mais e santifica maravilhosamente o pobre Jó. Livre-nos o Senhor da prosperidade de Salomão, que acaba no pecado e é vaidade das vaidades. E lembremo-nos de Jó, do qual diz a Escritura: “não pecou contra o Senhor, não blasfemou contra o Céu, na desgraça.”

Ó pobreza de Jó sem pecado, és verdadeira riqueza!

Ó riqueza de Salomão com o pecado, és verdadeira e real pobreza!

Mᴏɴs. Asᴄᴀɴɪᴏ Bʀᴀɴᴅᴀᴏ

9 de julho de 2022

O BREVIÁRIO DA CONFIANÇA

9 de Julho

Caminho da Casa Paterna

"Há muitas moradas na casa de meu Pai”, disse Nosso Senhor, mas, segundo comenta piedoso autor, é um só o caminho para lá chegar: o da Santa Cruz, de que nos fala a Imitação. O filho pródigo não teria voltado à casa paterna se a dor e a miséria o não tivessem batido. É tão grande a misericórdia Divina que nos obriga pelo sofrimento a ter saudades do Céu, desapegando-nos assim de toda vaidade e ilusão deste mundo. E, quando o coração se desiludiu das criaturas e já sofreu bastante, toma uma resolução:

Surgam et ibo ad Patrem – “Eu me levantarei e irei a meu Pai”.

E se põe sem demora a caminho da casa paterna. A Divina Providência, em Sua Misericórdia, de tal modo dispõe as coisas neste mundo, que nos coloca na feliz impossibilidade de nos acostumarmos com a felicidade e o paraíso que a terra nos promete e oferece. O sofrimento é o nosso caminho para a casa paterna.

"Creio, no fundo de minha alma, e sinto em minha consciência – escreveu Demaistre – que, se o homem pudesse viver neste mundo isento de todo sofrimento, acabaria por se embrutecer a ponto de ficar inteiramente esquecido de todas as coisas celestes e do próprio Deus. E como nos poderíamos ocupar de uma ordem superior de coisas, se, nada em que vivemos, as misérias que nos acabrunham não nos desiludissem dos encantos enganadores desta vida infeliz!”

Dor bendita! És o caminho da casa de meu Pai!

Mᴏɴs. Asᴄᴀɴɪᴏ Bʀᴀɴᴅᴀᴏ

8 de julho de 2022

O BREVIÁRIO DA CONFIANÇA

8 de Julho

Exílio do Coração

O mais triste dos exílios é o do coração. Faz sofrer mesmo dentro da família e da pátria. Sofrimento do amor, é inevitável, pois, no dizer do fino psicólogo da Imitação, “não se vive sem amar e não se ama sem sofrer”. As almas nobres sentem no coração um abismo, que nada pode encher. Nem o prazer dos sentidos, nem as honras, nem as glórias, nem o amor da terra. Daí a melancolia dos grandes corações, prova evidente de que esta vida é um exílio, no qual quem mais sofre é o coração. Bendita seja a Misericórdia Divina por nos trazer o coração sempre inquieto e insatisfeito até que repouse plenamente em Deus. Esse exílio do coração foi o tormento de Santo Agostinho:

Inquietum est cor nostrum donec requiescat in Te, Domine – “Nosso coração está sempre inquieto, Senhor, enquanto não descansa em Vós”.

Jesus é a pátria do nosso coração. Só Nele se encontram repouso, alegria e paz. E fora de Jesus, fora do Seu amor, não há sossego, viveremos inquietos, agitados e tristes como o peregrino cansado, saudoso e faminto, em viagem penosa, à procura da pátria.

Quando o coração experimenta as tristezas do exílio, do abandono das criaturas, da incompreensão dos amigos, da ingratidão do amor, volte-se depressa para Jesus, verdadeira pátria dos corações.

Para o exílio do meu coração, ó Jesus, só a pátria de Vosso Coração!

Mᴏɴs. Asᴄᴀɴɪᴏ Bʀᴀɴᴅᴀᴏ

7 de julho de 2022

O BREVIÁRIO DA CONFIANÇA

7 de Julho

Imobilidade Penosa

Imóvel num leito, a sofrer, horas e horas eternas num quarto, silencioso, a contemplar as paredes, os móveis, a contar as tábuas do forro! Gemidos a cada agulhada que fere o corpo, na dor sem alívio! E sempre ali o pobre enfermo, condenado à imobilidade penosa, que já dura, talvez, meses e até anos. É preciso ter experimentado o peso dessa cruz para se avaliar como é duro!

Com razão escreveu Lacordaire:

“A doença me parece o que, neste mundo, mais virtudes exige, porque abate as forças justamente quando mais delas precisamos”.

São horríveis a tortura física e a tortura moral que nos vêm particularmente da inação a que ficamos condenados. Eis porque devemos ter paciência com os enfermos, que, por sua vez, devem ser pacientes consigo mesmos. Essa inação e imobilidade irritam, abatem e até desesperam certas almas acostumadas à vida e à luta.

Dizia o apostólico e ardente cardeal Lavigerie:

“O inferno, para mim, seria uma eternidade na imobilidade”.

Numa provação tão dura, quanto merecimento! Ah! Se soubéssemos aproveitar o tesouro de graça que acompanha essa cruz! Nessas horas de penosa imobilidade, precisamos lembrar-nos da imóvel eternidade do inferno! Sempre! Nunca! Eternamente! Sofrei a imobilidade de vossa doença, e vos fixareis um dia na Imobilidade Eterna, que é Deus, que é o Céu!

Mᴏɴs. Asᴄᴀɴɪᴏ Bʀᴀɴᴅᴀᴏ