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25 de janeiro de 2015

No Céu nos Reconheceremos.

III -  Conformidade de sentimento e de linguagem em todos os lugares. – S. Cipriano. – S. Teodoro Estudita. – Elogio que faz de sua mãe. – Cartas de consolação que ele escreve. – Pura alegria dos esposos no Céu. – Santa Francisca Romana e seu filho Evangelista. – Alegria dos pais e dos filhos no Paraíso.

 Mas esquecia-me de que prometera percorrer todo o horizonte da Igreja, para vos mostrar a sua conformidade de sentimentos e de linguagem sobre todos os pontos. Na África, eis S. Cipriano que foi educado no paganismo, e só abraçou a continência depois da sua conversão. Eleito Bispo de Cartago e condenado ao martírio, consolou os fiéis por ocasião duma epidemia que então grassava e que os ameaçava de morte. Que lhes disse ele? Dirigiu-lhes palavras que a Santa Igreja recorda aos seus sacerdotes, na oitava da festa de Todos os Santos. Ei-las: “Visto que vivemos na terra como estrangeiros e viajantes, suspiremos pelo dia que nos conduzirá à nossa habitação e nos reintegrará no Reino dos Céus. Qual é aquele que, estando exilado, não se apressaria a voltar à sua pátria? Qual é aquele que, obrigado a regressar por mar aos lares pátrios, não desejaria ardentemente um vento favorável, a fim de poder mais cedo abraçar aqueles que lhe são queridos?
A nossa pátria é o Paraíso, e os patriarcas, nossos antepassados, já aí nos precederam. Apressemo-nos, pois, e corramos para ver a nossa pátria e saudar os nossos maiores! Somos esperados por um grande número de pessoas que nos são queridas; somos desejados por uma grande multidão de parentes, de irmãos e de filhos que, seguros da sua imortalidade, se conservam ainda solícitos pela nossa salvação. Ir vê-los, ir abraçá-los, ah! que alegria para nós e para eles!”
Entre os gregos, em Constantinopla, um dos campeões mais intrépidos da ortodoxia contra os iconoclastas do Oriente, S. Teodoro Estudita, tinha entrado em religião na idade de vinte e dois anos, sob a direção dum tio materno, a quem sucedeu no governo. Teve a ventura de fazer, na presença de todos os religiosos, o elogio fúnebre de sua mãe, panegírico que o cardeal Mai traduziu e publicou, elogio que um coração amoroso não pode ler sem uma profunda comoção. Apenas soube que a sua enfermidade era mortal, escreveu-lhe uma carta afetuosa e consoladora, em que chegou a dizer:
“Ó minha mãe, se me retivessem somente cadeias de ferro, o amor que vos consagro as quebraria, e teríeis a alegria de me ver ainda. Mas, vós o sabeis, outros vínculos me retêm, vínculos que era indigno de gozar; e posso somente fazer-me representar junto de vós, por alguém que vos é agradável e querido”. No elogio que dela fez, diz que esta mãe, verdadeiramente cristã, ia todas as noites, quando seus filhos estavam deitados, fazer sobre eles o sinal da cruz; conta como ela levou após de si para a vida religiosa seu marido, três filhos, uma filha e três cunhados; diz com que docilidade ela foi mais tarde submissa a ele próprio. Teodoro termina a exposição das admiráveis virtudes desta heróica mulher, por este brado dum coração ternamente filial:
“Oh, minha mãe e minha filha, oh vós que fostes duas vezes minha mãe, quanto desejo tornar-vos a ver! Vós habitais com todos os santos, no meio das solenidades e das alegrias do Céu; habitais com os nossos irmãos que tanto amáveis nesta vida. Ah! não vos esqueçais de mim que sou o mais pequeno de vossos filhos; mas orai, orai por mim com mais instância do que em tempo algum. Dirigi-me, fortalecei-me e preservai-me de todos os perigos do pecado. Visitai-me por uma presença espiritual – Spiritali praesentia visita – e fazei ainda por mim o que fazíeis na minha infância: conduzi, observai como me levanto, como me deito, observai as agitações da minha alma e do meu corpo, a fim de que, depois da presente vida, obtenha estar com meus discípulos debaixo da vossa proteção, e ocupar um lugar convosco à direita de Jesus Cristo nosso Deus”. Este ilustre confessor da fé consolou muitas famílias aflitas. A um pai que tinha perdido todos os seus filhos, escrevia:
“Vossos filhos não estão perdidos, mas antes existem sãos e salvos para vós; e quando chegardes ao termo desta vida temporal, torná-los-eis a ver cheios da mais pura e santa alegria”. Também escrevia a uma viúva:
“O Deus que vos tirou do nada para dar-vos a existência, o Deus que vos conduziu a uma idade florescente para vos unir a um homem ilustre, saberá unir-vos ainda outra vez a ele pela ressurreição. Olhai, pois, a sua partida como uma viagem. Não vos resignaríeis se um rei da terra a ordenasse? Resignai-vos, portanto, com esta ausência, pois muito bem sabeis que aquele que ordenou esta viagem é o verdadeiro Rei, o único Rei do universo. Exorto-vos a isso, e espero que possuireis novamente vosso marido no dia do Senhor”. A um homem que acabava de perder sua mulher dirigiu também as seguintes linhas:
“Foi para junto de Deus que enviastes uma tão digna esposa; não será isto bastante para vossa consolação? E que é o que deveis procurar agora? Deveis trabalhar para encontrar no Céu, no momento fixado pela Providência, esta excelente companheira que se regozijará convosco, por todos os séculos, na participação de bens inefáveis”7. Sem dúvida, aqueles que na terra se acharem ligados pelo vínculo matrimonial, subindo ao Céu, serão como os anjos: Neque nubent, neque nubentur (Matth. XXII, 30). Mas, despidos de toda a sensualidade, gozarão sempre do casto prazer do espírito, e se recordarão que, na terra, não só foram dois corações num e duas almas numa, como os primeiros cristãos (Act., VI, 32), mas também uma só carne, como os nossos primeiros pais (Gen., II, 24; - Matth., XIX, 6). Na Itália, Santa Francisca Romana foi casada, teve filhos e, depois de viúva, fez-se religiosa. Despertando do sono ao romper da aurora de certo dia, levantava seu coração para Deus, e abaixava os olhos para sua jovem filha que dormia perto dela. De repente, viu o seu quarto cheio duma nova luz, no meio da qual apareceu um de seus filhos que, havia um ano, tinha falecido. A sua estatura e todo o seu exterior era o mesmo que quando vivo; mas a sua beleza era incomparavelmente mais arrebatadora: chamava-se Evangelista. Este filho, sempre amoroso, aproximou-se de sua mãe, e saudou-a com profundo respeito e uma graça encantadora. Que fez então Francisca, transportada duma inexplicável alegria? O que toda a mãe teria feito: estendeu ávidos os braços para estreitar ainda uma vez contra o peito este filho querido. E que lhe disse? O Céu é a lembrança de tua mãe: Num matris suae meminisset in coelis.
– “Ó minha mãe, respondeu Evangelista, vede se penso em vós e se vos amo! Não divisais um outro menino, de pé, a meu lado, duma beleza muito superior à minha? É meu companheiro no coro dos arcanjos, pois o meu lugar no Céu é no segundo coro da hierarquia angélica. Todavia, este arcanjo está colocado na glória em grau superior ao meu, e contudo, Deus vo-lo dá. Deus vai deixa-lo ocupar junto de vós o meu lugar e o de minha irmã Inês que, muito brevemente, voará ao Paraíso, para aqui gozar comigo das alegrias eternas. Este celestial espírito vos consolará na vossa peregrinação, vos acompanhará assiduamente e permanecerá dia e noite ao vosso lado, de maneira que o possais ver com os vossos próprios olhos”.
Este colóquio durou por espaço de uma hora; e, antes de se ausentar, o filho pediu a sua mãe licença para regressar ao Céu, deixando-lhe o arcanjo.
Se já lestes a vida de Santa Francisca Romana, composta por um nobre e zeloso católico da vossa província, não podeis ignorar o importante papel que desempenhou junto desta santa mulher, o arcanjo, este celestial companheiro, devido às orações dum filho que a precedera na pátria dos escolhidos. Deus é sempre admirável em seus santos (Ps. LXVII, 36). O que acabais de ver, mostra que o não é menos pela delicadeza das consolações de que inunda o seu coração, do que pela grandeza das provas ou dos milagres de que se serve para os conduzir à perfeição ou para fazer brilhar a sua santidade. Em volta deles, disse um orador francês, que foi confessor de Henrique IV, em volta deles estarão seus parentes, seus amigos, seus aliados e todos aqueles que lhes forem iguais em glória: todos, muito nobres, muito santos, muito sábios, muito opulentos, muito afáveis, muito eminentes, muito agradáveis de condição, de excelente temperamento, de belas maneiras, de inteligência, de coração, de discrição e de todas as virtudes; todos, lírios sem más ervas, rosas sem espinhos, ouro sem liga, grão sem palha e trigo sem joio! E, ainda que o seu número seja grande, todos se conhecem reciprocamente, e conversam com tanta familiaridade como se o seu número fosse pequeno. Então o filho agradecerá a seu pai a sã instrução que lhe tiver procurado, e a filha a sua mãe os bons exemplos que lhe tiver dado. Deus vos recompensa, minha muito querida e digna mãe, dirá a filha, Deus vos inunda para sempre de felicidade por tantos cuidados, que tivestes de mim! Sois minha mãe e duplamente minha mãe; porque me destes a vida temporal e a eterna. Foi por meio de vós que a divina bondade me tornou tão feliz.
– Bendito seja Deus, minha filha, bendita sejas tu nele para sempre! A tua bem-aventurança é um apanágio da minha, e esta é uma adição da tua; amemos o Senhor e louvemo-lo incessantemente. Felizes as entranhas que te geraram e o seio que te amamentou, e um milhão de vezes bendito ainda mais Aquele de quem possuímos todas as coisas! Glória a Ele, honra, luz e bênção em todos os séculos dos século. Eis aqui, Senhora, a conversa que tereis, eis a felicidade que gozareis tantas vezes quantos filhos tiverdes. Todavia, Deus não se contentará somente com vos consolar pelas alegrias da família que recomporá no Céu; mas ainda multiplicará vossas consolações pelas doçuras da amizade que ali transplantará.

24 de janeiro de 2015

No Céu nos Reconheceremos.

II -  A segurança de se reconhecerem os parentes no Céu tem consolado todos os santos. – O B. Henrique Suso. – S. Tomás de Aquino. – S. Francisco Xavier. – Santa Tereza. – O seu pensar a respeito da felicidade de uma mãe. – Felizes as pais que têm filhos religiosos.

 Esta certeza de uma especial união com os nossos parentes na eterna bem-aventurança, é uma consolação tão pura e tão doce que tem chegado a fazer as delícias dos próprios santos. Por todos os ventos do Céu, do Oriente, do meio dia, do Ocidente e do Setentrião, nos chegam vozes que testemunham esta verdade.
A Alemanha apresenta-nos, entre muitos outros, o B. Henrique Suso, religioso da Ordem de S. Domingos. O seu nome era Henrique Besg, mas preferiu o nome de Suso, que era o de sua mãe, para honrar a sua piedade e recordar-se dela incessantemente. Esta virtuosa mãe morreu numa Sexta-feira Santa, à mesma hora em que Nosso Senhor foi crucificado. Henrique estudava então em Colônia. Ela apareceu-lhe durante a noite, toda resplandecente de glória: “Meu filho, lhe disse, ama com todas as tuas forças o Deus onipotente, e fica bem persuadido de que ele nunca te abandonará em teus trabalhos e aflições. Deixei o mundo; mas isto não é morrer, pois que vivo feliz no Paraíso, onde a misericórdia divina recompensou o imenso amor que eu tinha à Paixão de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. – Ó minha santa mãe, ó minha terna mãe, exclamou Henrique, amai-me sempre no Céu, como fizestes na Terra, e não me abandoneis jamais nas minhas aflições!”
A bem-aventurada desapareceu, mas seu filho ficou inundado de consolação. Em outra ocasião viu a alma de seu pai, que tinha vivido muito apegado ao mundo. Apareceu-lhe cheia de sofrimentos e aflições, fazendo-lhe assim compreender os tormentos que sofria no Purgatório, e pedindo-lhe o socorro das suas orações.
Henrique derramou tão ferventes lágrimas que alcançou quase logo a sua entrada no Paraíso, donde ele veio agradecer-lhe a sua felicidade.
Os gauleses poderiam reivindicar, quase tanto como os italianos, o Anjo da escola. A alma de S. Tomás de Aquino não estava absorvida pela ciência, mas a caridade conservava em seu coração um lugar distinto para seus irmãos e irmãs segundo a natureza. Durante a sua estada em Paris, uma de suas irmãs lhe apareceu para dizer-lhe que estava no Purgatório. Pediu-lhe que dissesse um certo número de missas, esperando que a bondade de Deus e a intercessão de seu irmão a livrariam das chamas. O Santo pediu aos seus alunos que orassem e dissessem missas pela alma de sua irmã. Depois disto, quando ele estava em Roma, tornou-lhe a aparecer, dizendo que estava livre do Purgatório e já gozava da glória do Céu, por virtude das missas que ele tinha dito ou feito dizer. “– E quanto a mim, minha irmã, exclamou o Santo, nada sabeis?” – Quanto a vós, meu irmão, sei que a vossa vida é agradável ao Senhor. Vireis muito breve reunir-vos a mim; mas o vosso diadema de glória será muito mais belo do que o meu. – E onde está meu irmão Landulfo? – Está no Purgatório. – E meu irmão Reinaldo?
– Está no Paraíso entre os mártires, porque morreu pelo serviço da Santa Igreja”.Na Espanha, encontramos S. Francisco Xavier, partindo para as Índias, e passando perto do castelo de seus pais. Excitaram-no para que entrasse em casa de sua família, representando-lhe que, deixando a Europa para talvez nunca mais a ver, não podia honestamente dispensar-se de visitar os seus naquela ocasião, e de dizer um último adeus a sua mãe que ainda vivia.
Não obstante todas estas solicitações, o Santo seguiu caminho direto, e somente respondeu que se reservava para ver seus pais no Céu, não de passagem e com o pesar que os adeuses causam ordinariamente, mas para sempre e com uma alegria verdadeiramente pura.
Encontramos a ilustre reformadora do Carmelo, a seráfica Teresa de Jesus. Dentro das grades do seu convento, apesar da austeridade da sua vida, cultivava em seu coração as puras afeições da família; e esperava que o Deus que promete o cêntuplo a quem deixar tudo pelo seu nome (Math., XIX, 29), lhe restituiria centuplicado o amor dos seus parentes no Céu. Uma tarde, Teresa, encontrava-se tão incomodada e aflita que julgava não poder fazer oração, e tomou o seu Rosário para orar verbalmente sem algum esforço de espírito. Que fez Nosso Senhor para a consolar? Ela mesma no-lo diz por estas palavras:
“Tinham decorrido apenas alguns instantes, quando um arrebatamento veio, com irresistível impetuosidade, roubar-me a mim mesma. Fui transportada em espírito ao Céu, e as primeiras pessoas que vi foram meu pai e minha mãe”.
Sabeis, Senhora, que uma igual graça foi concedida à Senhora Acaria, que depois veio a ser carmelita no mesmo convento de Pontoise, onde uma de vossas irmãs ora por vós e se santifica entre as filhas de Santa Teresa, e que é agora honrada sob o nome de Beata Maria da Encarnação? Ela viu um dia seu esposo, um ano depois dele ter falecido, no meio dos santos do Paraíso. Deus compraz-se em tomar o coração da esposa cristã, como recebeu em suas mãos o pão no deserto (Marc. VI., 41), para o multiplicar, abençoando-o tantas vezes quantas lhe dá filhos, que estão esfaimados do seu amor, aos quais ela deve saciar, não só para glória do Senhor, mas também para a sua própria felicidade. Santa Teresa louva uma piedosa senhora que, para ter posteridade, praticava grandes devoções e dirigia ao Céu ferventes súplicas. “Dar filhos à luz que, depois da sua morte, pudessem louvar a Deus, era a súplica que incessantemente dirigia ao Céu. Sentia muito não poder, depois do seu último suspiro, reviver em filhos cristãos, e oferecer ainda por eles ao Senhor um tributo de bênçãos e de louvores”. A austera carmelita diz de si mesma: “Penso algumas vezes, Senhor, que vos comprazeis em derramar sobre aqueles que vos amam a preciosa graça de lhes dar, em seus filhos, novos meios de vos servir.”
Diz ainda: “Demoro-me muitas vezes neste pensamento: Quando estes filhos gozarem no Céu das eternas alegrias, e conhecerem que as devem a sua mãe, com que ações de graças lhe não testemunharão o seu reconhecimento, e com que reduplicada ventura se não sentirá palpitar o coração desta mãe em presença da sua felicidade!”. Eis o que pensaram, eis o que disseram, a respeito da família recomposta no Céu, santos que têm direito à auréola da virgindade, e que passaram nalguma Ordem ou comunidade religiosa quase toda a sua vida. Livrai-vos, pois, de acreditar que o filho que, desde seus primeiros anos, se consagra a Deus para sempre, olvide seu pai, sua mãe e seus irmãos. Pelo contrário, o seu coração torna-se o depósito da caridade. Se, pelas fendas das paixões, ela se escapasse de todos os outros para só deixar neles a indiferença e o esquecimento, o seu guardaria este precioso tesouro para incessantemente o derramar por todos os canais da virtude. Tanto o religioso ancião, como o jovem, é ouvido muitas vezes pelo seu bom anjo durante o silêncio do sacrifício ou da oração, dizendo ao Senhor: Memento, lembrai-vos de meus parentes que ainda vivem; memento, lembrai-vos de meus parentes que já morreram; e abençoai uns e outros para além de quanto o meu coração pode desejar. Feliz mãe que tivestes a ventura de poder dar a Jesus dois filhos e duas filhas para glória do seu nome e amor do seu Coração; não temais que estes filhos sejam infiéis ao quarto preceito da lei divina. Frutos separados da família, os religiosos, voltam-se muitas vezes, pela mesma força da sua tendência à perfeição da caridade, para a árvore que os produziu, a fim de a louvar e abençoar. Todas as bênçãos, temporais ou espirituais, que lhe obtêm de Deus, serão conhecidas somente no Céu.

23 de janeiro de 2015

Oração do Terço

Prezados leitores, Salve Maria!



Para quem mora em Curitiba ou na região Metropolitana, e para quem está de passagem pela cidade, comunicamos que haverá Oração do Terço no dia 23/01/2015:

Local: Capela Nossa Senhora Aparecida - Capela da Polícia Militar
Endereço: Av. Marechal Floriano Peixoto, 2057 - Rebouças - Curitiba - Paraná (fica entre as ruas Almirante Gonçalves e Baltazar Carrasco dos Reis)

Horário do Terço: 19:30 horas

Administração do Blog São Pio V

No Céu nos Reconheceremos.

QUARTA CARTA

 Reconhecimento dos parentes ou a família no Céu

 I -  Reflexo dos três principais mistérios da nossa religião na família cristã. – A família recomposta no Céu. – Palavras de Tertuliano. – Exemplo de Nosso Senhor. – Tocante espetáculo que oferecerá o Paraíso. – Jesus e Maria reconhecem-se. – Maria tem cuidado de Jesus no Sacramento do seu amor. – Ela conserva sobre o seu Coração um soberano poder.

SENHORA, Desejaríeis saber, particularmente, o que acontece à família no Céu, isto é, se Deus ali a recompõe, e se a esperança de possuir vossos parentes na pátria celeste é uma consolação de que possais gozar sem receio, sem escrúpulo e sem imperfeição. Podereis duvidá-lo, quando tantos santos personagens vô-lo afirmam, tanto por seus exemplos como por suas palavras? Deus coroou de glória e honra a família cristã, e faz brilhar em sua fronte o reflexo dos três principais mistérios da nossa religião. Vede por onde ela começa: – Por um Sacramento que é o sinal sagrado da união do Verbo de Deus com a natureza humana, da união de Jesus Cristo com a sua Igreja, e da união do mesmo Deus com a alma justa.
Quem o disse? Um grande Papa, Inocêncio III. Vede por onde continua: “Maridos, amai vossas mulheres como Jesus Cristo amou a sua Igreja e se entregou por ela; mulheres, amai vossos maridos como a igreja ama a Jesus Cristo e se entrega por Ele”. Quem o disse? O grande apóstolo S. Paulo (Eph., V, 25).
Vede por onde acaba: – Pelas relações de origem que os anjos nos enviam, tanto elas nos recordam as da Trindade e nos procuram alegrias; porque o homem é do homem como Deus é de Deus. Homo est de homine, sicut Deus de Deo. Assim o disse um grande doutor, S. Tomás de Aquino.
Mas teria mais poder o sopro da morte para destruir esta obra prima, do que a virtude força para lhe conservar o esplendor? E visto que o amor é forte como a morte (Cant., VIII, 6), dar-se-á que a caridade de Deus, que criou a família, que a caridade do homem que lhe santifica o uso, não queira ou não possa refazer eternamente no Céu o que a morte desfez temporariamente na terra? Tertuliano dizia:
“Na vida eterna, Deus não separará aqueles que unira na terra, cuja separação também não permite nesta vida inferior. A mulher pertencerá a seu marido, e este possuirá o que há de principal no matrimônio – o coração. A abstenção e ausência de toda a comunicação carnal, nada lhe fará perder. Não será tanto mais honrado um marido quanto mais puro for?”. Aquele que nos deu este preceito: Não separe o homem o que Deus uniu (Math., XIX, 6), deu-nos também o exemplo. O Verbo contratou com a humanidade um divino desponsório: repudiou ele porventura a sua esposa subindo ao Céu? Pelo contrário, fê-la assentar consigo à direita do seu Eterno Pai. O Homem Deus tem uma Mãe que é bendita entre todas as mulheres: dedignou-se Ele de fazê-la participante da sua glória? Depois de associá-la à sua Paixão na terra, fê-la gozar das alegrias da sua Ressurreição e dos esplendores do seu triunfo, atraindo ao Céu, após de si, o seu corpo e sua alma. Jesus Cristo tinha dado a alguns homens o nome de irmãos: desconhecê-los-ia mais tarde? Não. Reconheceu os seus Apóstolos no martírio que sofreram por Ele, e fez-se reconhecer por eles no esplendor de que os cerca na Corte Celeste. Mas o Filho de Deus que assim se dignou recompor, em redor de si, a sua família por natureza e por adoção, não quereria recompor da mesma forma, no Paraíso, esta cristã e religiosa família, que é a vossa e também a sua? Quer, sim, e o Céu oferecerá um espetáculo não menos tocante do que admirável. Assim como a primeira pessoa da Augustíssima Trindade, dirigindo-se à segunda, lhe diz: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei (Act., XIII, 33); e a segunda diz à primeira, com o acento da piedade filial: Meu Pai, Pai justo, Pai santo, guarda aqueles que me foram dados em teu nome para que sejam um, como nós somos um, vós em mim e eu neles (Joan., XVII, 11, 22-25): assim também uma criatura humana se voltará para outra e lhe dirá com ternura: Meu filho, minha filha! E do coração desta subirá para aquela, esta exclamação de amor: Meu Pai! Assim como o único Filho de Deus se regozija de poder dizer a uma mulher: Vós sois minha Mãe; também inumeráveis escolhidos exultarão de alegria dizendo igualmente a uma mulher: Minha mãe!
Ora, se fosse verdade que os membros da mesma família se não reconhecessem no Céu, Jesus não reconheceria já sua Mãe nem seria reconhecido por ela. Não será horrível pensar nisto e muito mais dizê-lo? Um piedoso autor estava por certo mais bem inspirado, quando escrevia: “A Santíssima Virgem conserva intacta a sua autoridade maternal sobre o corpo do seu Filho, Nosso Senhor, mesmo depois da Ressurreição e Ascensão; porque o seu direito é perpétuo e inalienável.
Depois de se ter deleitado, durante a sua vida mortal, na submissão a Maria, Jesus compraz-se ainda em mostrar-se seu filho na bem-aventurada imortalidade, e em reconhecê-la por sua Mãe. Temos a prova disto nessas numerosas aparições, em que ele se tem feito ver sob a forma de um menino entre os braços de sua Mãe, e se tem mesmo dado a alguns Santos por suas virginais mãos. Na glória, os parentes conservam um contínuo cuidado de seus próximos, e particularmente dos filhos, que são uma parte deles mesmos, e por assim dizer, outros eles. É, pois, indubitável que a Mãe de Jesus tem sempre o pensamento unido a tudo o que toca ao corpo do seu querido Filho, tanto na obscuridade do Sacramento como nos esplendores da glória. Segue-o, do alto do Céu, com a vista e com o coração em todos os lugares em que se encontra presente na terra, pela consagração eucarística”. A eterna duração desta maternal ternura e desta filial piedade, explica e justifica o belo titulo de Nossa Senhora do Sagrado Coração, dado a Maria pelos nossos contemporâneos. “Tomando a natureza humana, disse o sr. Bispo de Rodes, o Verbo Divino apropriou-se de todos os elementos que a compõem, no estado de perfeição a que a elevou a união hipostática – Debuit per omnia fratribus similiari (Hebr., II, 17). Nosso Senhor possui no mais alto grau o sentimento do amor filial, um dos mais nobres do coração humano, e longe de se despojar dele depois da ressurreição e da sua gloriosa ascensão, tê-lo-ia dilatado, fortificado e elevado no seu mais sublime poder, se fora permitido dizê-lo, no seu estado de bem-aventurada transfiguração, em que está assentado à direita de seu Pai.
Daqui é fácil de concluir que a augusta Virgem Maria possui sobre o seu divino Coração um soberano poder, de que ela é verdadeiramente a Senhora ou a Rainha”.

22 de janeiro de 2015

No Céu nos Reconheceremos.

II Exemplo tirado da vida de Santa Gertrudes. – Esta verdade não é mais do que uma particular aplicação do princípio geral da Redenção. – A fecundidade que ela pode dar à dor.

Encontra-se nas célebres revelações de Santa Gertrudes um exemplo que confirma esta doutrina e lhe dá uma nova luz.
Em presença de Gertrudes, deu-se a uma pessoa a notícia da morte de um de seus parentes. Temendo esta que ele não tivesse morrido no estado de graça, mostrou-se muito aflita. Foi tão grande a sua perturbação que, comovida a Santa, se ofereceu para pedir a Deus pela alma do defunto, o que fez, principiando por dizer a Nosso Senhor: “Vós podíeis bem ter-me dado o pensamento e a graça de orar por esta alma sem que a isso fosse levada por este movimento de ternura e compaixão”. Jesus respondeu-lhe: “Comprazo-me singularmente nas súplicas que se me dirigem pelos mortos, quando nelas se encontra a natural compaixão junto à boa vontade que a torna meritória, e estas duas coisas se aliam e concorrem para darem a esta obra a plenitude e perfeição de que é capaz”. Tendo a abadessa orado depois disto, por muito tempo a favor desta alma, conheceu que o seu estado era lastimoso; porque lhe apareceu horrivelmente disforme, negra como um carvão, e semelhante àquelas pessoas que se confrangem pela violência das dores. Contudo ninguém se via que a atormentasse; mas parecia claramente que eram seus antigos pecados que faziam sobre ela o ofício de carrasco. “Senhor, exclamou a caritativa religiosa, não quereis ceder aos nossos rogos, perdoando a esta criatura? – Queria por amor de ti, responde o divino Salvador, ter piedade não só desta, mas ainda dum milhão de outras. Queres, pois, que lhe perdoe todos os seus pecados e a livre de toda sorte de sofrimentos? – Talvez, replicou a Santa, não é isso conforme ao que ordena a vossa justiça!
– Não seria contrário, acrescentou Nosso Senhor, se mo pedisses com bastante confiança. Porque a minha divina luz, que penetra no futuro, tendo-me feito conhecer que me farias esta súplica, excitei nessa alma boas disposições, para prepará-la a gozar dos frutos da tua caridade. Oh! palavras cheias de consolação! Primeiramente, Deus, prevendo nossas futuras súplicas, digna-se de conceder ao pecador moribundo boas disposições que assegurem a salvação da sua alma; depois, por virtude das nossas orações presentes, consente em livrar esta mesma alma de toda a sorte de penas, e em retirá-la das chamas expiatórias. A última confidência do Salvador à sua virginal esposa, não é mais do que uma aplicação particular dum principio geral.
Antes que os homens tivessem podido abaixar seus olhos sobre o Presépio e levantá-los para o Calvário; antes que o Sol da Redenção fosse para eles visível, neste humilde vale do nosso exílio, já podiam deixar-se conduzir pela sua luz e vivificar pelo seu calor. Por quê? Porque Deus Pai, da sublimidade das eternas colinas, via já as orações, os sofrimentos, as virtudes e os merecimentos do seu único Filho, que devia encarnar-se para salvar o mundo.
Não é assim que a Virgem bendita, que devia ser a Mãe deste único Filho, foi preservada de toda a mancha em sua própria conceição, porque, diz-nos a Igreja, Deus considerava antecipadamente a Jesus Cristo crucificado? – Ex morte ejusdem Fielii tui praevisa, eam ab omni labe preservasti.Esta verdade, bem compreendida e posta em prática, pode dar à dor a sua maior fecundidade. “Toda a minha vida está nisto presentemente”, dizia a pessoa que me fez notar esta passagem das revelações de Santa Gertrudes; “antes que meu marido morresse, Deus sabia o que eu faria por ele!”.
E assim fez um completo sacrifício de si mesma. Consagrou-se ao Senhor, tomando por divisa: Orar, sofrer, trabalhar e o Senhor a consolou, dando-lhe por família, com os pobres enfermos da terra, as atribuladas almas do Purgatório. Orai, pois, e fazei orar: o Deus cuja misericórdia é alta e vasta como o Céu (Ps. LVI, 2; CVI1, 5), conheceu, no momento em que ia expirar o vosso parente ou amigo, as orações que mais tarde faríeis por ele, hoje, amanhã, depois de terdes lido estas páginas e seguido o meu conselho. Orai e fazei orar: vossas orações, santificando-vos e consolando-vos nesta vida, concorrerão para salvar aqueles que amais.

21 de janeiro de 2015

No Céu nos Reconheceremos.

APÊNDICE À TERCEIRA CARTA
Oremos pelos pecadores mesmo depois da sua triste morte Mistérios da graça por ocasião da morte. - Como se podem explicar. - Eficácia das orações feitas pelos pecadores depois do seu falecimento, segundo a opinião do P. de Ravignam. – Testemunho de S. João Crisóstomo.

SENHORA, A Igreja não condena pessoa alguma. Publica os seus decretos em que nos declara que esta ou aquela pessoa está no Céu, o que nunca fez a respeito dos condenados. Tenho a satisfação de saber que lendo vós uma obra que merece toda a consideração, notastes particularmente estas linhas: “O Padre de Ravignam gostava de falar dos mistérios da graça, que cria passarem-se no momento da morte, e parece ter sido o seu sentimento de que um grande número de pecadores se convertem nos seus últimos momentos, e expiram reconciliados com Deus. Há, em certas mortes, mistérios de misericórdia e rasgos de graça em que os olhos humanos só vêem golpes de justiça. À luz dum último raio, Deus revela-se algumas vezes a certas almas cuja maior desgraça fora ignorá-lo; o último suspiro, compreendido por Aquele que sonda os corações, pode ser um gemido que implore o perdão”. O marechal Exelmans, a quem uma queda do cavalo subitamente precipitou no túmulo, não praticava a religião. Tinha prometido confessar-se, mas não teve tempo. Todavia, no mesmo dia da morte, uma pessoa habituada às celestes comunicações acreditou ouvir uma voz interior que lhe dizia:
“Quem conhece a extensão da minha misericórdia? Sabe-se porventura a profundeza do mar e as águas que encerra? Muito será perdoado a certas pessoas que muito ignoram”.
Como explicar estes rasgos da graça? Pelo preço duma alma que vale o sangue de Jesus Cristo, vertido por ela, e pela misericórdia que não conhece limites, por alguma boa obra, esmola ou oração que o pecador tiver feito durante a sua vida; pelo invisível ministério do Anjo da Guarda, sempre disposto a trabalhar a bem da salvação do seu protegido; pelas precedentes orações dos santos do Céu e dos justos da terra, e sobretudo pela intercessão da Virgem Maria; finalmente, pelas orações feitas pelos pecadores depois da sua morte, quando mesmo não tenham dado algum sinal de arrependimento. É este último ponto que me limito a explicar-vos aqui. Lestes com prazer na obra que há pouco citei, as seguintes linhas traçadas pelo santo religioso para consolar uma rainha cujo filho morrera, caindo duma carruagem. “Cristãos, colocados sob a lei da esperança não menos que da fé e do amor, devemos erguer-nos incessantemente do fundo das nossas aflições, até ao pensamento da infinita bondade do Salvador. Nenhum limite, nenhuma impossibilidade se mete de permeio entre a graça e a alma enquanto restar um sopro de vida. Convém, pois, esperar sempre e dirigir ao Senhor humildes e perseverantes instâncias. Não se poderá dizer até que ponto elas podem ser atendidas. Grandes santos e eminentes doutores estiveram bem longe, falando desta poderosa eficácia das orações por almas queridas, de dizerem qual tenha sido o seu fim.
Conheceremos um dia estas inefáveis maravilhas da divina misericórdia, as quais nunca devemos deixar de implorar com uma profunda confiança”. Visto que o P. de Ravignan apela para os santos e para os doutores, quero apresentar-vos o testemunho dum grande doutor e duma grande santa. O mais eloqüente Arcebispo de Constantinopla, provando que não é conveniente chorar muito pelos nossos queridos defuntos, mas antes auxiliá-los com as nossas orações e boas obras, supõe que um de seus ouvintes o interrompe para lhe dizer: –“Mas eu choro este querido defunto, porque morreu como um pecador - Prop-ter hoc ipsum plango, quod peccator excessit!”. Que responde S. João Crisóstomo?
“Não será isto um vão pretexto? Pois se tal é o motivo das vossas lágrimas, por que não fazíeis mais esforços para convertê-lo durante a vida? E se morreu verdadeiramente pecador, não devereis regozijar-vos, por isso mesmo, que a sua morte veio pôr termo ao número de seus pecados que, desde então, já não pode aumentar? É sobretudo necessário ir em seu socorro, tanto quanto puderdes, não por meio de lágrimas, mas de orações, súplicas, esmolas e sacrifícios. Nenhuma destas coisas são efetivamente loucas invenções. Não é inutilmente que nos divinos mistérios comemoramos os mortos; não é infrutiferamente que nos aproximamos do sagrado altar e oramos por eles ao Cordeiro que apaga os pecados do mundo; pelo contrário, tudo isto lhes serve de muita consolação. Se Job purificava seus filhos, oferecendo por eles um sacrifício, de quanto mais alívio deve ser para os nossos defuntos aquele que por eles oferecermos ao Senhor? Não costuma Deus fazer bem a uns em consideração a outros? Mostremo-nos cuidadosos em socorrer os nossos queridos defuntos, e ofereçamos por eles as nossas orações. A Missa é uma expiação comum de que todo o mundo se pode aproveitar. Portanto oramos na Missa por todo o Universo, e nesta multidão nomeamos os mortos com os mártires, com os confessores e com as virgens. Pois todos nós somos um só corpo, ainda que este tenha membros mais brilhantes do que outros. Pode mesmo acontecer que obtenhamos para nossos defuntos um completo perdão. Et fieri potest ut veniam eis omni ex parte conciliemos – pelas súplicas e dons que oferecem em seu benefício aqueles que são nomeados com eles.
Por que estais ainda angustiado? Para quê estas lamentações? Não se poderá obter uma tão sublime graça para aquele que perdestes?”

20 de janeiro de 2015

Sermão para o 2º Domingo depois da Epifania – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] Sentido espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 4: Do Gloria à Epístola

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Prezados Católicos, havíamos começado na Septuagésima do ano passado a explicação espiritual das cerimônias da Missa. A primeira parte tratou dos paramentosA segunda parte da Aspersão até a subida ao altarA terceira parte tratou da incensação até o Kyrie. Retomemos hoje e nos próximos domingos essa explicação do sentido espiritual das cerimônias da Santa Missa no Rito Romano Tradicional.
Terminamos o último sermão sobre o assunto no Kyrie. Depois do Kyrie vem o Gloria in excelsis Deo. Passou, provavelmente, do Breviário para a Santa Missa. O Gloria é um dos cantos Cristão mais antigos. Alguns chegam a dizer que o Gloria estaria entre aqueles hinos que menciona Plínio, o Jovem, em ao Imperador Trajano, dizendo que os cristãos cantam hinos a Jesus Cristo, que consideram Deus. Isso em torno do ano 100 depois de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Gloria é um canto Trinitário. A primeira parte se dirige a Deus Pai, a segunda, a Deus Filho e a última frase ao Espírito santo. Conclui-se com o sinal da cruz, que é sinal de Cristo, mas também da Santíssima Trindade. É um canto profundamente contrário à heresia ariana, que nega a divindade de Cristo. No Gloria, a divindade de Cristo está claramente afirmada: “Só Vós sois Santo, só Vós sois o Senhor, só Vós sois o Altíssimo”. O Gloria contém a menção clara às quatro finalidades da Missa: a finalidade latrêutica, isto é, de adoração a Deus, quando dizemos nós “vos adoramos”; finalidade eucarística, isto é, de ação de graças, quando dizemos “nós vos damos graças por vossa imensa glória”; finalidade impetratória, isto é, em que pedimos que Deus atenda às nossas orações e nos conceda as graças de que precisamos, quando dizemos “ouvi a nossa prece; finalmente está presente também a finalidade propiciatória, isto é, de pedido de perdão pelos nossas pecados, quando dizemos “vós que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós”.
Considerando a Missa como a vida de Nosso Senhor, vimos que o Introito anuncia o seu nascimento. Vimos que no Kyrie esse nascimento é implorado pelos clamores de misericórdia, fazendo menção aos patriarcas e profetas que imploravam a vinda do Messias. No Gloria, esse nascimento já é festejado, retomando em suas primeiras palavras o canto dos anjos na noite de Natal: Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade. O Gloriase diz apenas nos dias de festa e não é dito nos dias de penitência ou na missa de defuntos, pois nos dias de penitência devemos olhar mais para os nossos pecados do que para a glória do céu. São Tomás diz: não ousamos cantar a glória do céu quando choramos nossa própria miséria ou a miséria das almas do purgatório.
Depois do Gloria ou diretamente depois do Kyrie, se não houver o Gloria, vem a oração chamada de Coleta. Coleta quer dizer reunido, junto. A Coleta recebe esse nome por dois motivos, basicamente. Primeiro, porque ela se faz, a princípio, sobre o povo reunido. Segundo, porque ela reúne e expressa os desejos dos fiéis para aquela Missa.
O sacerdote, então, beija, ou melhor, oscula o altar. Cada vez que ele dá as costas para o altar, para se voltar para o povo, o sacerdote oscula antes o altar no meio. Oscula o altar como sinal de respeito por Nosso Senhor Jesus Cristo. Como já mencionamos, o altar representa Jesus Cristo. Esse ósculo no altar, além do respeito pelo altar, significa também que aquilo que vai dizer para os fiéis, ele recebeu no altar, que ele recebeu de Cristo. Tudo vem do altar, vem de Cristo.
O sacerdote, tendo osculado o altar, vira-se para o povo, e diz Dominus Vobiscum, abrindo e fechando as mãos. Dominus vobiscum é um pedido para que os fiéis estejam na graça de Deus, ou na paz de Cristo, que só pode existir na graça dEle. O Bispo diz, em missas festivas, Pax Vobis: a Paz esteja convosco. São as palavras de Nosso Senhor depois de sua ressurreição. ODominus vobiscum é, assim, uma oração para que Deus esteja com os fiéis e por isso o sacerdote abre os braços, em posição de oração quando diz isso. Os fiéis retribuem o desejo do sacerdote dizendo: et cum spiritu tuo, e com o teu espírito. Responder “ele está no meio de nós”, como manda a tradução brasileira na Missa Nova é um despropósito completo. É como dizer: Deus já está conosco, não precisamos de sua oração, Padre, e também não rezamos pelo senhor. Ou, no mínimo, é compreender muito mal o significado das palavras Dominus vobiscum, ditas pelo sacerdote. Sete vezes o sacerdote saúda os fiéis dizendo Dominus vobiscum, para que recebam os sete dons do Espírito Santo, a não confundir com os dons carismáticos. Sete vezes para que recebam a plenitude da graça. O ste é o número da plenitude. São sete os sacramentos, por exemplo.
Tendo saudado o povo com o Dominus vobiscum, o sacerdote vai para o lado da epístola fazer a oração chamada Coleta. Ele diz Oremus, inclinado-se para a cruz, abrindo e fechando as mãos. Diz Oremus para convidar os presentes a se unirem espiritualmente à sua oração. Inclina-se para que sua oração seja agradável a Deus, em movimento de súplica e de humildade. Abre as mãos que é a posição de oração, fecha-as na posição do vassalo, submetendo-se à vontade divina. O sacerdote, em seguida, diz ou canta a oração com as mãos estendidas, uma palma voltada para a outra, sem passar da altura dos ombros. A palma da mão direita representa o Novo Testamento, a da esquerda o Antigo Testamento. Não passam dos ombros porque é Cristo, cabeça, que domina os dois Testamentos. Como falamos, as mãos estendidas e elevadas é a posição do orante, daquele que faz a oração pública, a exemplo de Moisés, intercedendo por seu povo na batalha contra os amalecitas. Com as mãos elevadas, o povo hebreu vencia; com as mãos abaixadas, perdia (Ex 17, 12). Também Salomão estende as mãos ao céu, rezando pelo povo (3Reis 8, 22). Essas mãos elevadas lembram também as mãos de Cristo na cruz, oferecendo a Deus a oração mais perfeita, seu sacrifício. Algumas liturgias guardaram o braço em cruz em algumas orações. Rezar com as mãos estendidas já era a posição de rezar na Igreja primitiva, vide pinturas nas catacumbas. Portanto, o sacerdote reza a Coleta com as mãos estendidas. Os leigos e o sacerdote fora da Missa devem rezar com as mãos postas em posição de vassalagem, de submissão a Deus.
As Coletas, junto com o Cânon Romano – Cânon Romano que é a única oração eucarística no rito romano tradicional – são o melhor exemplo e o modelo mais perfeito do latim eclesiástico, latim eclesiástico que se formou a partir do momento em que a liturgia passou a ser em latim.  As coletas são, em geral, composições dos séculos IV, V, VI, em prosa, com ritmo, vocabulário e estilo sóbrios e solenes, com várias figuras de linguagem. É um latim acessível, mas bem trabalhado. Os reformadores da liturgia diziam que era um latim decadente. Era um pretexto para se abandonar o latim e adotar cada vez mais a língua vernácula. Não é verdade que o latim eclesiástico seja um latim decadente. As orações em latim eclesiástico são uma poesia em prosa. Melhor e mais claro exemplo disso é o venerável Cânon Romano. A origem desse estilo do Cânon Romano e das coletas é o panegírico, isto é, o elogio que se fazia ao príncipe, agora dirigido a Deus. As coletas têm, via de regra, quatro elementos: 1º) elevação da alma a Deus; 2º) ação de graças, ou uma glorificação, ou um elogio; 3º) o pedido e 4º) conclusão. É a mesma ordem do Pai Nosso. Elevação da alma a Deus: Pai Nosso. Glorificação de Deus: que estais nos céus. Pedidos, que no Pai Nosso são sete e a conclusão. Portanto, as coletas se baseiam profundamente na estrutura do Pai Nosso também e não só no panegírico latino profano. As coletas não acrescentam nada ao Pai Nosso, apenas tornam mais explícitos os pedidos feitos ali. Essas orações são de uma precisão teológica imensa. Assim, Santo Agostinho as utilizou para combater a heresia do pelagianismo, heresia que negava a necessidade da graça para a salvação, como se cada um pudesse se salvar por conta própria.
A conclusão habitual da coleta é per Dominum Nostrum Iesum Christum… por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, que convosco vive e reina, Deus, por todos os séculos dos séculos.  Pedimos ao Pai por intermédio do Filho, em união com o Espírito Santo. Seguimos os conselhos de Nosso Senhor, que disse: tudo o que pedirdes em meu nome vos será dado. Às vezes as coletas se dirigem diretamente a Cristo ou ao Espírito Santo, que são igualmente Deus com o Pai. Ao pronunciar o nome de Jesus, o sacerdote sempre se inclina para a cruz, salvo no Evangelho, em que se inclina ao Missal, por respeito às palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pouco antes de se inclinar, fecha as mãos, em posição de vassalagem, de submissão, confiando em Deus para que atenda às suas súplicas. O per omnia saecula saeculorum… por todos os séculos dos séculos, abolido da tradução brasileira na liturgia nova, é confissão na eternidade da Santíssima Trindade.
A coleta se conclui com o Amen. Amém pode exprimir uma afirmação, um desejo ou um consentimento. No Credo, é uma afirmação. Também quando Nosso Senhor diz “Amen, Amen, dico vobis”, traduzido por “em verdade, em verdade vos digo”, o “amém” significa uma afirmação solene. O “amém” depois de uma oração que não nos obriga a nada, é um simples desejo. Quando ele vem depois de uma oração que nos obriga a alguma coisa, é um consentimento. Nos três casos, é uma espécie de adesão ao que está sendo dito. O uso litúrgico do “amém” é apostólico. São Paulo o utiliza em suas epístolas. É preciso pronunciar essa palavra curta, mas cheia de significado, com convicção.
Depois da Coleta vem a leitura de um trecho da Sagrada Escritura que pode ser tirada de qualquer livro dela, menos do Evangelho. Essa leitura é chamada de Epístola porque, na maioria das vezes, é tirada de uma Epístola dos Apóstolos. Epístola é justamente o nome dado aos escritos dos apóstolos, excetuando o Apocalipse. (Quando tem mais de um texto, os primeiros se chamam lições, o último, Epístola).  Epístola quer dizer não simplesmente algo enviado, mas algo enviado a mais, por que as epístolas foram dadas aos homens além da lei, dos salmos, dos profetas. Uma mensagem escrita, uma carta, é chamada epístola porque é algo enviado a mais, além da mensagem oral. Embora a epístola seja tirada na maioria das vezes dos escritos dos apóstolos (daí o nome de epístola), ela representa o Antigo Testamento e mais propriamente São João Batista, pois ela precede quase que imediatamente o Evangelho. A pregação de Cristo (Evangelho) já está bem próxima. Nosso Senhor também mandou os apóstolos preparem as cidades pelas quais Ele passaria depois. Como já dissemos, o lado esquerdo do altar (esquerdo a partir da cruz e não a partir de quem olha para o altar), isto é, o lado da epístola, significa o Antigo Testamento, os judeus. A Epístola é lida ou cantada na direção do altar, pois o Antigo Testamento e São João Batista estavam completamente voltados para Cristo, a missão deles era anunciá-Lo. O Padre canta ou recita a Epístola com as mãos tocando o livro ou o porta-missal. As mãos representam as obras. Isso significa que ele está disposto a aceitar e colocar em prática a doutrina ali expressa. Na Missa Solene, é o subdiácono que canta a epístola, acompanhado somente do cerimoniário, pois poucos foram os que seguiram a pregação de São João Batista e as profecias. Muito poucos judeus se converteram. Terminado o canto, o subdiácono se ajoelha do lado da Epístola. O sacerdote coloca a mão sobre o epistolário e o subdiácono beija a mão do sacerdote, que o abençoa em seguida. O sacerdote, que é Cristo, coloca a mão sobre o livro, para mostrar que Cristo cumpriu tudo o que está escrito (a mão são as obras) e para mostrar que é Ele quem pode manifestar o significado profundo das Sagradas Escrituras. Cristo não veio para abolir a lei, mas para cumpri-la. E aperfeiçoá-la. O ósculo do subdiácono na mão do sacerdote significa justamente o reconhecimento de que Cristo é o Messias anunciado e de que as profecias se cumpriram. Tendo reconhecido isso, recebe a recompensa, que é a salvação, simbolizada na bânção. Os que reconhecem que Cristo cumpriu as profecias do Antigo Testamento recebem a bênção de Cristo. No sentido literal, o sacerdote dá a bênção pelo fato de que o subdiácono proclamou com fidelidade e sem adulterações a palavra divina.
Terminada a Epístola, se responde Deo gratias, “demos graças a Deus”. Agredecemos a Deus pelo alimento espiritual que nos Deus com a Sagrada Escritura. Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Agradecimento por todos os benefícios que nos são trazidos pela Revelação. Não se diz Laus tibi Christe, “Louvor a Vós, ó Cristo”, pois estamos, simbolicamente, ainda no Antigo Testamento, e não no Novo Testamento, no Evangelho.
Tendo considerado brevemente o Gloria, a Coleta e a Epístola, podemos compreender um pouco mais os significados riquíssimos dessas partes da Missa, com seus gestos e ritos, compreender que elas expressam verdades perenes e que são profundamente agradáveis a Deus e benéficas para a nossa alma.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito santo. Amém.


No Céu nos Reconheceremos.

IV -  No Céu, os bem-aventurados não se afligem pela condenação de pessoa alguma. – Não têm já afeição alguma por um condenado. – Ele não conserva um só elemento de amabilidade. – A vontade dos bem-aventurados é inteiramente conforme à de Deus, mesmo para a reprovação dum amigo, como diz Santa Catarina de Sena, Honório e os teólogos.

 O Céu é amor e luz; não digais, pois: –Imensa será a aflição dum santo ao lembrar-se do parente ou do amigo que jamais irá reunir-se-lhe. Das sublimidades da glória descobre-se melhor o horror e a justiça de sua condenação. Sol do mundo moral, Deus é o centro cuja atração livremente sujeita mantém nossa alma na órbita da salvação, apesar das paixões que sempre nos impelem a afastar-nos dela. Das eternas colinas, os santos seguem atentamente as vicissitudes desta luta, cujos resultados devem ocasionar às pessoas que lhes são queridas, o Céu ou o Inferno. Vêem, desde há muito tempo, a divina atração, que é a mesma força da misericórdia, obrar sobre o pecador e vencer resistências insensatas ou culpadas. Mas, enfim, vêem este pródigo obstinado, este homem que segunda vez crucifica a Jesus Cristo, ceder voluntariamente às seduções do pecado e ao ímpeto das paixões, e sair inteiramente da órbita da salvação. Como um astro extinto ou quebrado, projetado no espaço, corre veloz, afastando-se cada vez mais do seu centro, e chega assim, pela condenação, a uma infinita distância de Deus. Ora, a afeição dos bem-aventurados, por qualquer pessoa, enfraquece e diminui em proporção da distância em que esta se achar do soberano bem; e como é infinita a distância que medeia entre Deus e o condenado, nenhuma afeição pode haver por este.
O afeto que lhe consagravam na terra, não era mais do que uma irradiação dos atrativos divinos. Esta afetuosa inclinação será destruída pela reprovação divina, e o raio que os iluminava e atraía voltará para Deus da mesma forma que, no mundo material, quando uma nuvem se mete de permeio entre o sol e um corpo, o raio que iluminava este corpo desaparece no mesmo instante, e volta para o astro donde saíra. Rompida assim a cadeia do afeto, esta criatura, que outrora nos era tão querida, deixou inteiramente de o ser. Só veremos nela uma estranha, uma inimiga, a inimiga do nosso Deus, do nosso Pai, do nosso bem supremo. Não teremos a fazer esforço nem violência para nos desligar dela. Proferida a sentença de reprovação pelo supremo Juiz, o afeto que nutríamos pela pessoa condenada, desaparecerá de nosso coração como por encanto. Porque entre nós e ela não havia atrativo necessário, assim como não há qualidade alguma de atração entre dois fragmentos de ferro antes de um deles ser tocado pelo ímã, ou depois de ter perdido esta propriedade emprestada. Não podemos, é verdade, eximir-nos de um imenso desgosto na vida presente, lembrando-nos desta separação. Mas aqui é só a sensibilidade que raciocina e se entristece; a fé não entra nisto: não é mesmo propriamente a sensibilidade, que é um dom de Deus e tem uma razão de ser. Pelo contrário, esta perseverança na afeição por criaturas que já não têm elemento algum de amabilidade, é um contrassenso e uma espécie de aberração: é a ilusão da sensibilidade. As recordações das nossas antigas e verdadeiras afeições fixam-se em nós e molestam-nos, como as impressões dum sonho, quando se está meio acordado, apesar mesmo duma suficiente luz para nos demonstrar a sua frivolidade.
A nossa sensibilidade em relação a estas afeições está atualmente neste estado que tem uma espécie de meio entre o sonho e a vigília; mas apenas soe o eterno despertar, veremos claramente que tudo eram fantasmas, e a nossa sensibilidade não se preocupará mais delas. Esta objeção é, algumas vezes, apresentada e sustentada por pessoas que se consolam muito facilmente com a indiferença prática ou triste fim de seus parentes, e que pouco fazem por convertê-los neste mundo, ou socorrê-los no outro. Mas, será possível porventura que no Céu amemos pessoas condenadas a eternas penas mais do que a nós mesmos? Todavia cada um de nós saberá quais foram as suas próprias faltas, verá os graus de glória que estas lhe fizeram perder, e nem por isso seremos infelizes, nem mesmo nos entristeceremos. Será possível que os amemos ainda mais do que os amaram Deus e Jesus Cristo? Contudo a felicidade de Deus não é perturbada pela sua condenação, e Jesus Cristo não se aflige com a perda de Judas.
Finalmente, como só amam o que Ele ama, os bem-aventurados querem unicamente o que o Senhor quer. Assim dizia ele a uma grande santa: “Os habitantes do Céu têm os seus desejos inteiramente completos, e nunca estão comigo em desacordo. O seu livre arbítrio está de tal sorte ligado pela caridade, que eles só podem querer o que eu quiser. A sua vontade está tão conforme e unida à minha que os pais que vêem seus filhos no Inferno, ou filhos que vêem seus pais condenados, não se afligem por isso; regozijam-se até de vê-los punidos pela minha justiça, visto que estes filhos ou estes pais se obstinaram em ser meus inimigos”. Honório exprime por outros termos, e com não menos energia, o meu pensamento:
“Os bem-aventurados não se afligirão à vista dos condenados e de seus tormentos. Quando mesmo o pai vir seu filho no meio dos suplícios, o filho a seu pai, a filha a sua mãe ou esta àquela, não só se não entristecerão, mas ainda se deleitarão à vista deste espetáculo, como nos acontece quando vemos os peixes brincarem num pego. Não está escrito (Ps. LVII, 11): ‘O justo se alegrará quando vir tirar vingança dos pecadores?’”.
Neste mundo, segundo o parecer do Cardeal Caetano, um pai cristão, um bom pai, não seria feliz se soubesse que seu filho estava condenado às penas eternas; mas, no Céu é ainda feliz na mesma hipótese, ainda que se possa dizer que, em certo sentido, tem pesar desta condenação. E por que será ele feliz? Porque uma grande parte da nossa eterna felicidade, segundo Vasquez, consistirá na inteira conformidade da nossa vontade com a divina. Efetivamente, na eterna glória, a nossa vontade e a vontade divina estarão tão perfeitamente de acordo, como estão os olhos do mesmo rosto, um dos quais não pode olhar para um objeto sem que o outro o siga.
Veremos, pois, todas as coisas como Deus as vê: assim como cada um de nossos olhos encontra no mesmo objeto a mesma aparência. Mas, Senhora, ouço-vos repetir-me o que me dissestes por tantas vezes: –Como nos consolaremos neste mundo depois da desgraçada morte duma pessoa querida que se viu expirar sem alguma aparência de reconciliação com Deus? Ainda que esta proposta se afaste um pouco do meu objeto, não quero deixá-la sem resposta. Vou, pois, acrescentar algumas páginas a esta carta para vos dizer: Consolai-vos, orando. Previstas por Deus, vossas atuais orações talvez obtivessem, antes da morte, a secreta conversão do pecador cuja perda chorais.

19 de janeiro de 2015

No Céu nos Reconheceremos.

III -  Não haverá necessidade de desviar os olhos do Criador para ver as criaturas – O Céu não é um êxtase onde se esquecem os parentes e os amigos. – A natureza, no que tem de bom, existirá sempre. – A graça não a repele, mesmo na terra.

 O Céu é luz; não digais pois: –Encontrando-se em Deus em toda a sua plenitude a perfeição que nos torna amável um ser criado, poder-se-á desviar os olhos do centro dos eternos esplendores e do oceano das perfeições infinitas, para seguir com a vista um raio separado, um pequeno regato? Os bem-aventurados nunca têm necessidade de desviar os olhos do Criador para reconhecerem uma criatura. É nele, é no Verbo que contemplam ao mesmo tempo o centro luminoso e os raios, o fecundo manancial e os arroios. “É no Verbo divino, escrevia o autor da Vida dos predestinados, que se verá a verdade claramente, e sem estes véus que nos não deixam vê-la neste mundo em toda a sua pureza e a descoberto. No Céu já não haverá dúvida, ou incerteza. É neste Verbo que o predestinado verá, como num admirável espelho, este espetáculo do mundo desenvolver-se na mais pequena circunstância de cada sucesso. Será n’Ele que aprenderá a série dos eternos conselhos de Deus nos interesses da sua glória. Aí divisaremos ao mesmo tempo o presente, o pretérito e o futuro, e marcharemos, com a graça desta luz, nos imensos caminhos da eternidade, sem nos perdermos nem ainda nos afastarmos deles.
–Leremos aí a descrição universal de todos os tempos, e o que se passou de mais curioso no decurso de cada século, não só no mundo exterior, mas ainda no interior, isto é, nos lugares mais recônditos do coração humano. Será neste livro, patente aos escolhidos, que se terá o prazer de estudar a história secreta da celeste Jerusalém, que contém o mistério da salvação de cada predestinado, e que encerra a narração do procedimento de Deus em relação aos homens, no admirável desejo da sua predestinação”.
O Céu é amor; não digais portanto: –Não há necessidade de amigos. Os santos no êxtase esquecem até os seus parentes, e além disso a maior parte das nossas afeições têm um princípio inteiramente natural que deixará de existir na eternidade. Pobre filosofia, que circunscreve os sentimentos do coração nos limites da utilidade presente, e não compreende que o principal bem da amizade é o mesmo amor ou a correspondência estabelecida entre duas pessoas sinceramente unidas entre si! Quantos sábios monarcas se têm crido mais felizes por terem um amigo do que por terem um reino! Não nego que os santos, em certos momentos de consolação espiritual, sobre-tudo no êxtase ou arrebatamento, tenham banido toda a lembrança de seus parentes e ainda das pessoas mais virtuosas; não nego que tenham perdido todo o sentimento exceto o de Deus. Mas estavam na terra e em provação; cumpriam penosamente a primeira palavra do Mestre: “Deixai casa e campos, irmão e irmã, pai e mãe, mulher e filhos”, e não viam ainda cumprir-se a segunda: “Recebereis o cêntuplo e possuireis a vida eterna” (Math., XIX, 29). O Céu não é um êxtase, nem um estado violento e transitório; é a cidade permanente, onde não há mortificação nem sacrifícios a fazer para subir mais alto, mas onde se encontra em Deus o que se deixou por Deus. É o termo da viagem e dos combates, onde se repousa na posse tranqüila de uma eterna recompensa. No Céu, o Senhor prodigaliza a todos, luzes que recusa na terra a seus maiores servos; e dá à caridade para com o próximo uma liberdade de expansão que a prudência cristã ou religiosa deve, muitas vezes, restringir neste mundo. A natureza, no que tem de bom, existirá sempre. Será no Céu para a glória o que é na terra para a graça, o apoio necessário. A natureza é uma árvore silvestre, mas a graça é-lhe engatada como um enxerto divino. Este enxerto dá primeiramente flores, pintadas com as cores de Jesus Cristo, que exalam no tempo a sua ótima fragrância. Produz em seguida frutos de salvação que serão a glória dos bem-aventurados na eternidade. Toda esta árvore com o seu fruto será transplantada no Céu. Teremos aqui mesmo, com todas as faculdades da nossa alma, todos os sentidos do nosso corpo sem defeito algum. Aquele que morrer ainda criança ressuscitará homem feito. Ouviram-se os vossos gemidos quando a morte arrebatou do berço uma de vossas filhas; sentir-se-ão vossas alegrias e cânticos ao Senhor, quando tornardes a encontrar junto do mesmo Deus, sobre um trono, esta filha querida, chegada de impro-viso a uma permanente madureza, eternamente bela, eternamente jovem!
Chamando-a para si, Deus encarregou-se de a criar, e ele mesmo cuidou da sua educação. Ora, não receeis que ele não vos deixasse lugar em seu coração. Na terra, ela não pôde conhecer-vos nem amar-vos; mas no Céu, por causa destas relações de origem que são naturais, Deus lhe fará conhecer sua mãe, e lhe dará a piedade filial como virtude sobrenatural. Mesmo na terra, como já se disse, a graça não repele a natureza; pelo contrário, estende-lhe a mão, torna-se seu guia e seu apoio. Algumas vezes mesmo leva a condescendência até ao ponto de deixá-la marchar diante de si, vigiando sobre os seus movimentos com uma doce solicitude maternal, tendo sempre a mão levantada para regular os seus passos e prevenir suas quedas. O autor da graça, não contente com amar sobrenaturalmente sua divina Mãe, amou-a também naturalmente, e não se dedignou de ser por ela amado. E quando verteu lágrimas sobre o túmulo de Lázaro, seu amigo, foi a natureza que as deixou cair.
“A graça e a natureza são, ambas, filhas do Céu; mas uma pode ser considerada como filha da esposa, a outra como filha da escrava. A primeira será herdeira do pai de família, por direito de nascimento; a segunda será admitida a uma parte da herança, pelo privilégio duma benévola e gratuita adoção. Aquela será a rainha, esta a favorita da mesma rainha”.

18 de janeiro de 2015

No Céu nos Reconheceremos.

Continuação da Terceira Carta.

II Com a ciência cresce no Céu o amor. – Aumento deste mesmo amor. – Pa-lavras de S. Bernardo em diferentes ocasiões. – Doutrina de S. Tomás de Aqui-no. – Revelação feita a Santa Catarina de Sena. - Harmonia do conhecimento e do amor. - Nem inveja nem ciúme, mas completa resignação.

 Ora, no Céu, com a ciência cresce a caridade, o amor. Assim como o Sol nos envia num só e mesmo raio duas coisas ao mesmo tempo: a luz e o calor; assim também este mútuo conhecimento que Deus permite aos seus escolhidos, é sempre acompanhado de amor. E da mesma forma que se tornariam mais abrasados, à medida que se aproximassem da chama; assim também, quanto mais se aproximam deste grande Deus que é um fogo consumidor (Deut., IV, 24), tanto mais amam e são amados. A caridade nunca se extingue, diz o Apóstolo, (I Cor., XIII, 8); e este amor infinito, abraça a Deus em sua unidade, a nós mesmos e ao próximo. E efetivamente não existem duas ou três virtudes da caridade, mas só uma. Se, pois, o amor do justo sobe com ele ao Céu depois da sua morte, se brilha mesmo com um esplendor mais radioso sobre o imaculado horizonte da bem-aventurada eternidade, como um astro que, elevando-se, aumenta os seus esplendores, por que razão deixaria este justo de inflamar-se também em caridade para com todos aqueles que amou santamente na terra? Por que motivo, quando é maior o seu amor para com Deus, e para consigo mesmo, não seria maior também para com o seu próximo? O santo abade de Claraval chorou a perda de seu irmão Gerardo com uma ternura maravilhosa. Um de seus sermões sobre o Cântico dos Cânticos, não é mais do que uma oração fúnebre a respeito deste irmão querido. Que diz ele sobre este ponto? Atendei e consolai-vos: “Quanto mais se estiver unido a Deus, mais cresce o amor. Ora, se Deus não pode sofrer, pode condoer-se; porque ter piedade dos desgraçados e perdoar aos culpados, é próprio da sua infinita misericórdia.
É forçoso, pois, meu irmão, que estejais comovido das misérias do próximo, visto que estais tão intimamente unido à divina misericórdia. Assim a vossa afeição por nós, longe de diminuir, chegou, pelo contrário, à sua perfeição; e tendo-vos revestido de Deus, não vos despojastes da vossa solicitude para conosco, visto que o mesmo Deus tem cuidado de nós (1 Petr. V, 7). Ter-vos-eis despojado de tudo o que era fraqueza, mas nunca da piedade ou compaixão.
Enfim, visto que a caridade não morre, vós nunca me olvidareis.”  Baseado neste motivo do amor para com o próximo, o abade de Claraval dirigia-se a S. Malaquias nos termos seguintes: “Longe de nós o pensamento de que a vossa caridade, tão ativa na terra, esteja, não digo esgotada, mas somente diminuída, quando vos achais junto da mesma nascente da eterna caridade, tirando dela a longos tragos aquilo de que anteriormente tínheis sede e que só podíeis beber gota a gota!
O amor nunca pode ceder à morte, pois que é mais forte do que ela”. O santo abade dizia a respeito de outro seu amigo:
“Ele era meu em quanto vivia, será meu depois da sua morte, e reconhecê-lo-ei por meu na pátria celeste – Meum in patria recognoscam”. Num sermão de S. Vítor, mostrava-o tão cheio de solicitude por nós como de segurança a seu respeito; “porque, dizia ele, não é numa terra de esquecimento que habita a alma de Vítor. Porventura a celeste habitação endurece as almas que recebe, ou priva-as da memória, ou despoja-as da piedade?
Meus irmãos, a amplidão do Céu dilata os corações e não os restringe, dilata os espíritos e não os dissipa, não diminui as afeições, mas aumenta-as. Na eterna luz, a memória é aclarada e não obscurecida, aprende-se o que se ignora e não se esquece o que se sabe – discitur quod nescitur, non quod scitur dediscitur.” . O doutor angélico, S. Tomás de Aquino, diz que os bem-aventurados se amam entre si tanto mais quanto maior é a sua união com Deus; entretanto, na terra nos amamos mais ou menos, segundo a maior ou menor união entre nós, pelas diferentes relações que nos são necessárias ou permitidas.
Todavia, ainda que no Céu não tenhamos de prover às necessidades uns dos outros, cada um conservará uma afeição especial por aqueles que lhe foram unidos, e continuará a amá-los com mais particularidade, ou por motivo de parentesco, de amizade, de aliança, de benefícios concedidos ou recebidos, por serem patrícios ou da mesma vocação. Porque nenhum motivo de pura afeição deixará de operar sobre o coração dum bem-aventurado – Non enim cessabunt ab animo beati honestae dilecti-onis causae.
O próprio Deus dizia a Santa Catarina de Sena: “Ainda que todos os meus escolhidos estejam indissoluvelmente unidos por uma perfeita caridade, todavia, entre aqueles que se amavam reciprocamente neste mundo, reina uma singular comunicação e uma alegre e santa familiaridade. Por este mútuo amor se esforçavam por crescer na minha graça, caminhando de virtude em virtude; por ele, um era para o outro um meio de salvação; por ele, todos se auxiliavam reciprocamente em me glorificar em si mesmos e no seu próximo. Assim, este santo amor nada diminui entre eles na vida eterna; pelo contrário, ocasiona-lhes muito maior alegria e contentamento espiritual”. Sem esta admirável harmonia do conhecimento e do amor, o Céu seria triste. Acendei nele o facho da ciência sem a fornalha da caridade, e os ciúmes estenderão suas redes, como na terra. Fazei do amor um cego correndo nas trevas em procura do seu objeto, e vê-lo-eis, dentro em pouco, vítima dos mais sombrios pesares. Sem o amor, nada faria contrapeso à desigualdade, porque deixaríamos de possuir no próximo o que não temos em nós mesmos. Sem a luz, nada nos consolaria do desgraçado fim dum ente querido, infiel ao comparecimento no ponto determinado para a reunião, porque não se veriam já os decretos da eterna justiça, nem a marcha da amável Providência. Mas, unir à perfeição da ciência a perfeição da caridade é excluir do Céu os ciúmes do egoísmo e os amargos pesares. Os santos gozam do que têm, e não se afligem do que não têm. Aqueles mesmos que passaram uma parte da sua vida no pecado, nem por isso gozam menos duma pura alegria e duma completa felicidade, ainda mesmo que o seu grau de glória seja inferior.
O grande Bispo de Hipona dizia às virgens: “A multidão que vos vir seguir o Cordeiro, sem poder acompanhar-vos, não terá ciúme. Tomando parte na vossa alegria, ela terá em vós o que não tem em si mesma – collaectando vobis, quod in se non habet, habebit in vobis. Sem dúvida, ela não poderá entoar o novo cântico, que só vos é próprio (Apoc. XIV, 3, 4); mas poderá ouvi-lo e regozijar-se com a vossa imensa felicidade”. Dizia ainda:
“Na mesma bem-aventurança, nenhum daqueles que tiver um grau mais inferior terá inveja dos que estiveram colocados numa ordem mais superior, assim como Sainte Catherine de Siene, os anjos não têm ciúme dos arcanjos. Ninguém quererá ser mais do que aquilo para que Deus o fez, assim como em nosso corpo o olho não pode invejar a sorte do dedo. A todo aquele que recebeu dons menores, dá Deus a graça de os não ambicionar maiores”. Se vos repugna consultar, sobre esta matéria, os sérios e mui importantes livros dos doutores, lançai mãos da Divina Comédia, e lede uma página deste poema, que vos agradará, por isso mesmo que tem nele grande parte a teologia. Na sua graciosa viagem ao Paraíso, o autor perguntava a uma alma que encontrou no mais ínfimo grau, se ela não desejava subir mais acima para mais ver e mais amar. “Irmão, respondeu ela, há uma virtude de caridade que modera o nosso querer e que, fazendo que queiramos somente o que temos, nos impede de desejar outra qualquer coisa. É mesmo essencial à nossa bem-aventurada existência manter-se ca-da qual na vontade divina, de maneira que todas as nossas vontades não façam mais do que uma. Que sejamos distribuídas em graduações diversas neste reino, é uma disposição que agrada a todo ele, assim como ao Rei que absorve o nosso querer no seu. Na sua vontade está a nossa paz. A sua vontade é este mar para o qual se move não só o que ela diretamente criou, mas também o que a natureza produz.
Conheci então, conclui o poeta, que todo o lugar no Céu é Paraíso, ainda que a graça do Soberano Bem se não derrame por toda a parte com a mesma intensidade”41.
40 Ibid.,