23 de abril de 2014

Necessidade da Perseverança.

Qui autem perseveraverit usque in finem, hic salvus erit — “Quem perseverar até o fim, será salvo” (Matth. 24, 13).

Sumário. Meu irmão, puseste agora mãos à obra; começaste a viver bem. Dá por isso graças ao Senhor. Lembra-te, porém, que ao que começa a recompensa é apenas prometida, mas é dada somente ao que persevera até ao fim. Quantos começarem bem, talvez melhor do que tu, mas depois acabaram mal e agora ardem no inferno! Para obteres a perseverança, deves em primeiro lugar pedi-la a Deus, e de teu lado deves empregar os meios mais apropriados.

I. São muitos os que começam, diz São Jerônimo, mas são poucos os que perseveram. Um Saul, um Judas, um Tertuliano começaram bem, mas acabaram mal, porque não perseveram no bem. Devemos saber, continua o mesmo Santo, que Deus não pede somente o começo de vida boa, mas quer também o fim: o fim é que alcançará a recompensa. — Diz São Boaventura que a coroa se dá somente à perseverança: Sola perseverantia coronatur. Pelo que São Lourenço Justiniani chama a perseverança porta do céu: coeli ianuam. Ora, não poderá entrar no paraíso quem não der com a porta.

Agora, meu irmão, abandonaste o pecado, e crês com razão ter recebido o perdão. És, pois, amigo de Deus; sabe todavia que não estás ainda salvo. E quando estarás salvo? Quando tiveres perseverado até ao fim: Que perseveraverit usque in finem, hic salvus erit. Começaste a viver bem: agradece-o ao Senhor; mas avisa-te São Bernardo que a recompensa celeste é somente prometida ao que principia, mas é somente dada ao que persevera. Não basta olhar só ao fim: é preciso ir após ele até alcançá-lo, segundo a expressão do Apóstolo: Sic currite, ut comprehendatis (1) — “Correi de tal modo que o alcanceis”.

Já meteste a mão ao arado, principiaste a viver bem; mas agora, mais do que nunca, teme e treme: “Empenhai-vos na obra de vossa salvação com temor e tremor” (2), diz o Apóstolo. E por quê? Porque se olhares para trás — o que não permita Deus! — e voltares para a vida de pecado, Deus te declarará excluído do céu: Nemo mittens manum ad aratrum et respiciens retro, aptus est regno Dei (3) — “Nenhum que mete a sua mão ao arado e olha para trás é apto para o reino de Deus”.

II. A perseverança tão necessária para a salvação é um dom todo gratuito de Deus, que nós nunca podemos merecer. Mas, como ensina Santo Agostinho, obtê-la-ão da misericórdia divina todos os que lh'a pedem e por seu lado empregam os meios próprios para levar uma vida bem ordenada. — Se queres perseverar e salvar-te, freqüenta os santíssimos Sacramentos; faze todos os dias uma meditação e ouve uma santa missa; visita todos os dias a Jesus sacramentado e examina a tua consciência. Tem sobretudo grande devoção a Nossa Senhora, que se chama a Mãe da perseverança. Consagra-te também muitas vezes inteiramente ao Senhor, e dize-Lhe com ternura, especialmente de manhã, antes de te dares às ocupações:

“Ó Deus eterno, eis-me aqui prostrado em presença de vossa infinita majestade, e adorando-Vos humildemente, consagro-Vos todos os meus pensamentos, palavras e obras deste dia, e tenho tensão de fazer tudo por vosso amor, para vossa glória, para cumprir a vossa divina vontade, para Vos servir, louvar, e bendizer, para ser iluminado acerca dos mistérios de nossa santa fé, para assegurar a minha salvação e esperar na vossa misericórdia, para satisfazer à vossa divina justiça pelos meus muitos e gravíssimos pecados, em sufrágio das almas santas do purgatório e para obter para todos os pecadores a graça de uma verdadeira conversão.

“Numa palavra, tenho a intenção de fazer tudo em união com as intenções puríssimas que em sua vida tiveram Jesus e Maria, todos os santos do céu e todos os justos da terra. Quisera que me fosse possível assinar esta minha intenção com o meu próprio sangue e repeti-la a cada instante tantas vezes, quantos são os instantes de toda a eternidade. Recebei, ó meu Deus amado, esta minha boa vontade; dai-me a vossa santa benção com a graça eficaz de nunca cometer um pecado mortal em toda a minha vida, e particularmente neste dia, no qual desejo e tenciono ganhar todas as indulgências que possa ganhar, e assistir a todas as missas que hoje vão ser celebradas no mundo inteiro, aplicando-as todas em sufrágio das almas santas do purgatório, a fim de que sejam livradas daquelas penas. Assim seja.” (4) (*II 141.)

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1. I Cor. 9, 24.
2. Phil. 2, 12.
3. Luc. 9, 62.
4. Indulg. de 100 dias cada dia, e indulgência plenária para quem a recitar durante um mês inteiro, com tanto que se confesse, comungue e ore segundo as intenções do Sumo Pontífice.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 9-11.)

22 de abril de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

08/26  -  Desconfiança e confiança nas tentações.

A desconfiança nas nossas forças não é uma falta de resolução, mas reconhecimento verdadeiro das nossas misérias. É melhor desconfiar de poder resistir às tentações do que termo-nos por mui seguros e fortes, com tanto que, desconfiando das nossas forças, não desconfiemos da graça de Deus.
De forma que muitos que com grande consolação prometeram obrar maravilhas por Deus, quando chegou a ocasião faltaram; e outros, desconfiando das suas forças, e temendo faltar na ocasião, obraram maravilhas, porque o grande sentimento de sua fraqueza os impelia procurarem socorro e o auxílio de Deus, e a vigiarem, orarem e humilharem-se, para não caírem em tentação.
Embora não sintamos em nós força nem coragem alguma para resistir à tentação, se agora viesse, contanto que desejemos resistir-lhe e confiemos em que, se ela vier, Deus nos ajudará e lhe peçamos auxílio, nada nos deve entristecer; porque não é necessário sentir sempre força e coragem; basta desejar tê-la no tempo próprio, e também não é preciso sentir a manifestação dessa força, mas basta confiar no auxílio de Deus.
Sansão, cognominado o Forte, não sentia as forças sobrenaturais com que Deus o ajudara senão nas ocasiões; e por isto se diz que, quando encontrava os leões ou os inimigos, o espírito de Deus o impelia matá-lo, e Deus, que nada emprega em vão, não nos dá a força e coragem senão quando delas precisamos, e nas ocasiões nunca nos falta; convém portanto esperar que nos ajudara sempre que reclamemos o seu auxílio.
Devemos servir-nos sempre das palavras de Davi: "Porque te entristeces, minha alma? Porque te perturbas? Confia no Senhor"; e da oração de que ele usava: "Quando minhas forças enfraquecerem, não me abandoneis, Senhor". Se desejais ser toda de Deus, por que temeis a vossa fraqueza, quando nela nada podeis confiar? Não esperais em Deus? O que nela espera será confundido? Não, nunca. Peço-vos pois que sossegueis todas as dúvidas, que possam amontoar em vosso espírito, às quais basta responder que desejais ser fiel em tudo e esperais que Deus vô-lo concederá, sem ser necessário estar a considerar se o concede ou não; porque estes espíritos são enganadores e só são valentes na ausência do inimigo, quando outros pelo contrário temem antes do combate; mas dá-lhes coragem o perigo presente; nada pois de temer muito.
Caminhai, portanto, sempre à vista de Deus, porque  a sombra é mais salutar do que o sol.
Não é mau tremer algumas vezes diante daquele em cuja presença tremem os anjos, quando o contemplam em sua majestade; contanto que o santo amor que predomina em tudo também aqui predomine no princípio e fim de vossas considerações.
Quem teme o Espírito divino, nenhum outro espírito deve temer; estais abaixo de suas asas como um pintinho; que temeis? 

No céu goza-se uma felicidade perfeita.

Satiabor cum apparuerit gloria tua  — “Saciar-me-ei, quando aparecer a tua glória” (Ps. 16, 15).

Sumário. Posto que no mundo se encontrem muitas coisas formosas, não são, todavia perfeitas, e sempre deixam alguma coisa para desejar. Se, porém, tivermos a ventura de entrar no céu, o nosso coração estará perfeitamente satisfeito nessa ditosa pátria. Ali nada haverá que possa desagradar, e haverá tudo aquilo que se possa desejar. Ah, meu Jesus! Peço-Vos o céu, não tanto para Vos gozar, como para Vos amar de todo o coração.

I. São Bernardo, falando do paraíso, diz: Ó homem, se queres saber o que seja a pátria bem-aventurada, fica sabendo que ali nada há que desagrade, e que se encontra tudo aquilo que se possa desejar; Nihil est quod nolis; totum est quod velis. — Se bem que nesta terra haja alguma coisa que agrada aos nossos sentidos, quantas coisas não há que afligem? Se agrada a luz do dia, aflige a escuridão da noite. Se agradam a amenidade da primavera, a abundância do outono, afligem o frio do inverno e o calor do verão. Acrescentai a isso os sofrimentos na enfermidade, as perseguições da parte dos homens, as privações da pobreza. Acrescentai as angústias interiores, os temores, as tentações dos demônios, as dúvidas da consciência, a incerteza da salvação.

Mas quando os bem-aventurados entram no céu, não terão mais nada a sofrer: Absterget Deus omnem lacrimam ab oculis eorum (1). Deus enxugará de seus olhos todas as lágrimas derramadas sobre a terra; e não haverá mais morte, nem luto, nem clamor, nem mais haverá dor; porquanto as coisas d'outrora desapareceram. — No céu não há doença, nem pobreza, nem incômodos. Deixam de existir a alternação dos dias e das noites, do frio e do calor; é um dia perpétuo e sempre sereno, uma primavera contínua e sempre deliciosa. Ali não há perseguições, nem ciúmes; neste reino de amor, todos os habitantes se amam mútua e ternamente e cada qual goza da ventura dos outros, como se fosse a própria. Não há receios, porque a alma confirmada na graça já não pode pecar; nem perder a seu Deus.

Ó meu Jesus, pelo sangue que derramastes por mim, fazei-me digno de entrar um dia na pátria bem-aventurada. Não mereço o paraíso, mas o inferno, porque Vos hei ofendido tantas vezes pelos meus pecados; porém, a vossa morte me faz esperar de possuí-Lo um dia.

II. Totum est quod velis. No céu não somente nada há que desagrade, mas encontra-se tudo quanto se possa desejar. Ali tudo é novo e saciará os nossos desejos: Ecce nova facio omnia (2) — Eis que faço novas todas as coisas. Os olhos se deslumbrarão com a vida daquela cidade, cuja beleza é perfeita. Que maravilha não nos causaria a vista de uma cidade cujas ruas fossem calçadas de cristal, cujas casas fossem palácios de prata, ornados de cimalhas de ouro e de festões de flores! Oh, quanto mais bela ainda é a cidade celeste! Que delicioso não será ver todos os seus habitantes vestidos com pompa real, porque todos efetivamente são reis, como os chama Santo Agostinho: Quot cives, tot reges! Que será o ver a Maria, que aparecerá mais bela que todo o paraíso! Que será o ver o Cordeiro divino! Um dia Santa Teresa viu apenas uma mão de Cristo e ficou arrebatada em êxtase à vista de tão grande beleza.

Os perfumes suavíssimos e incomparáveis do paraíso regalarão o olfato. O ouvido será deleitado pelas harmonias celestes. Um anjo deixou um dia ouvir a São Francisco  um único som da música celeste, e o Santo julgou morrer de contentamento. O que não será ouvir todos os santos e todos os anjos cantarem em coro os louvores de Deus? In saecula saeculorum laudabunt te (3) — “Eles te louvarão pelos séculos dos séculos”. O que não será ouvir Maria celebrar as glórias de Deus! A voz de Maria, diz São Francisco de Sales, é no céu o que é num bosque a do rouxinol, que vence a de todas as aves. Numa palavra, o paraíso é a reunião de todos os gozos que se podem desejar.

Ó meu Deus! Eu desejo e Vos peço o paraíso, não tanto para Vos gozar, como para Vos amar. Suplico-Vos, para glória de vossa misericórdia, fazei que os bem-aventurados vejam abrasado em vosso amor um pecador que tantas vezes Vos ofendeu. Tomo a resolução de ser d'aqui por diante todo vosso e de não pensar senão em Vos amar. — Assisti-me com a vossa luz e a vossa graça, que me dê força para executar esta resolução que Vós mesmo pela vossa bondade me inspirais. — Ó Maria, vós que sois a Mãe da perseverança, impetrai-me a fidelidade em minha promessa. (*II 133.)

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1. Apoc. 21, 4.
2. Apoc. 21, 5.
3. Ps. 83, 5.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 6-9.)

21 de abril de 2014

A ressurreição dos corpos no Juízo Universal.

Canet tuba, et mortui resurgent incorrupti; et nos immutabimur — “A trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados” (I Cor. 15, 52).

Sumário. É um ponto da nossa fé que todos nós ressurgiremos; porém não todos de maneira igual, mas cada um segundo a vida que tiver levado em terra. Felizes de nós, se agora nos aplicarmos à mortificação do nosso corpo, a fim de guardá-lo submisso ao espírito. Retomá-lo-emos ressurgido segundo a medida da idade plena de Cristo e dotado de dons perfeitíssimos. Excederá o sol em claridade, na agilidade os ventos, e em sutileza e impassibilidade será igual aos anjos.

I. Porque o último fim do homem é a beatitude e esta não se pode gozar na vida presente, o Senhor dispôs que se possa obter na outra, onde será eterna. O homem porém, no dizer de Santo Tomás, não seria plenamente feliz, se a alma não se unisse ao corpo, porquanto, sendo o corpo parte natural da natureza humana, a alma dele separada seria apenas uma parte do homem e não o homem inteiro. Por isso é que no derradeiro dia haverá a ressurreição universal: Canet tuba, et mortui resurgent — “A trombeta soará, e os mortos ressuscitarão”.

Ao som da trombeta as almas formosas dos bem-aventurados descerão do céu, para se unirem a seus corpos, com os quais serviram a Deus. Ressuscitarão, como diz São Paulo, em estado de homem perfeito, segundo a medida da idade plena de Cristo (1). Além de serem dotados de sentidos perfeitíssimos, os quais terão cada qual a sua recompensa particular, serão ornados de quatro qualidades ou dotes.

Em primeiro lugar, os corpos dos bem-aventurados serão impassíveis; por isso não somente estarão livres da morte e da corrupção, mas também de qualquer lesão, de sorte que, se fossem enviados ao inferno, nenhuma pena poderiam padecer. — Em segundo lugar serão sutis, isto é, como que espiritualizados, de forma que a alma governará o corpo à maneira de espírito, porque este lhe obedecerá perfeitamente. — Em terceiro lugar os corpos dos bem-aventurados serão ágeis, podendo ser movidos e levados pela alma para qualquer parte, sem obstáculo, com máxima e quase imperceptível ligeireza. — O quarto dote finalmente será a claridade, em virtude da qual o corpo glorificado despedirá de si uma luz admirável, muito mais brilhante do que a do sol, mas sem deslumbrar a vista. — Se, além disso, alguém tiver dado a vida por Jesus Cristo, ou conservado intacta a açucena da pureza, ou pela pregação tiver sido para outros mestres da salvação, receberá a auréola de Mártir, de Virgem ou de Doutor. — Feliz daquele que, mortificando-se na vida presente, for digno de receber um dia em seu corpo todos esses dons, que agora nem sabemos avaliar devidamente!

II. Ecce mysterium vobis dico: omnes quidem resurgemus, sed non omnes immutabimur (2) — “Eis que vos digo um mistério: todos nós ressuscitaremos, mas nem todos seremos mudados”. Palavras terríveis, mas verdadeiras! Porquanto, como Jesus Cristo mesmo disse, posto que todos os que estiverem nos sepulcros tenham de ressuscitar ao ouvir a voz do Filho de Deus, todavia haverá entre eles grande diferença. Os que obraram o bem, sairão para a ressurreição da vida; mas os que obraram o mal, sairão ressuscitados para a condenação (3).

Minha alma, é certo que naquele dia tu também ressuscitarás; mas qual será a tua sorte?... achar-te-ás no número dos escolhidos ou dos réprobos?... Se queres estar entre os primeiros, é mister, como diz o Apóstolo, que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós andemos em novidade de vida (4). Esta ressurreição espiritual se deve manifestar na reforma de nossa conduta. — Por isso o espírito deve ocupar-se só com o pensamento da eternidade; os olhos só se devem abrir para as coisas celestiais; as mãos só devem servir para praticar o bem, e os nossos afetos devem seguir alegremente o caminho dos mandamentos divinos. Numa palavra, como diz o mesmo Apóstolo: Si consurrexistis cum Christo, quae sursum sunt, quaerite... quae sursum sunt sapite, non quae super terram (5) — “Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são lá do alto... tende gosto pelas coisas que são lá do alto, não pelas que estão na terra”.

Meu amabilíssimo Jesus, creio na ressurreição da carne no último dia, porque Vós revelastes; e porque a creio, bem como as demais verdades que a Igreja me propõe para crer, quisera dar por ela o meu sangue e a minha vida. Ah, Senhor, pela vossa santa ressurreição, dai-me a graça de mortificar aqui na terra o meu corpo; fazei que viva casto e longe de todos os prazeres proibidos, a fim de ter um dia parte na ressurreição gloriosa dos escolhidos. Amo-Vos, Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas, de todo o coração. Pesa-me de Vos haver ofendido. Não permitais que Vos torne a ofender; fazei que Vos ame sempre, e depois, disponde de mim segundo o vosso agrado. Doce Coração de Maria, sêde minha salvação. (*VIII 1043.)

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1. Eph. 4, 13.
2. I Cor. 15, 51.
3. Io. 5, 29.
4. Rom. 6, 4.
5. Col. 3, 1.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 3-6.)

Preparação para a Morte

PONTO II

Dirá, talvez, alguém: Já que Deus usou para comigo de tanta clemência no passado, espero que a terá também no futuro. Eu, porém, lhe respondo: E por ter sido Deus tão misericordioso contigo, queres de novo ofendê-lo? Desse modo — diz São Paulo — desprezas a bondade e paciência de Deus. Ignoras que se o Senhor te suportou até agora, não foi para que continuasses a ofendê-lo, senão para que te penitencies do mal que fizeste? (Rm 2,4) E se tu, fiado na divina misericórdia, não temes abusar dela, o Senhor te retirará. “Se não vos converterdes... entesará o seu arco e tem-no preparado (Sl 7,13).
Minha é a vingança, e eu lhes darei a paga a seu tempo (Dt 32,35). Deus espera; mas, chegada a hora da justiça, já não espera e castiga então.
Deus aguarda o pecador a fim de que se emende (Is 19,18); mas, quando vê que o tempo concedido para os pecados só serve para 54 multiplicá-los, vale-se desse mesmo tempo para empregar a justiça (Lm 1,15). De sorte que o próprio tempo concedido, a mesma misericórdia outorgada, servirão para que o castigo seja mais rigoroso e o abandono mais imediato. “Medicamos Babilônia e não há sanado. Abandonemo-la”. (Jr 51,9). E como é que Deus nos abandona? Ou envia a morte ao pecador, que assim morre sem arrepender-se, ou o priva das graças abundantes e só lhe deixa a graça suficiente com que o pecador se poderia salvar, mas não se salva. Obcecada a mente, endurecido o coração, dominado por maus hábitos, a salvação lhe será moralmente impossível; e assim ficará, senão em absoluto, pelo menos moralmente abandonado. “Derrubar-lhe-ei o muro, e ficará exposta...” (Is 5,5).
Que castigo! Triste indício quando o dono rompe o cercado e deixa entrar na vinha os que quiserem, homens e animais: é prova de que a abandona. É o que faz Deus, quando abandona uma alma: tira-lhe a sebe do temor, dos remorsos de consciência e a deixa nas trevas. Penetram, então, nela todos os monstros do vício (Sl 103,20). O pecador, entregue a essa obscuridade, desprezará tudo: a graça divina, a glória, avisos, conselhos e censuras; escarnecerá até de sua própria condenação (Pr 18,3).
Deus o deixará nesta vida sem castigo, e nisto consistirá seu maior castigo. “Compadeçamo-nos do ímpio... não aprenderá (jamais) justiça”. (Is 26,10). Referindo-se a esse texto, diz São Bernardo: “Não quero essa misericórdia, mais terrível que a ira”. (Serm. 42, in Ct). Terrível castigo, quando Deus deixa o pecador em seus pecados, e parece que nem lhe pede contas deles (Sl 10,4). Dir-se-á que já não se indigna contra ele (Ez 16,42) e que lhe permite gozar quanto neste mundo deseja (Sl 80,13).
Desgraçados os pecadores que prosperam na vida mortal! É sinal de que Deus os reserva para aplicar-lhes sua justiça na vida eterna! Jeremias pergunta: “Por que o caminho dos ímpios passa em prosperidade?” (Jr 12,1). E responde em seguida: “Reúne-os como o rebanho destinado ao matadouro” (Jr 12,3).
Não há, pois, maior castigo do que deixar Deus ao pecador amontoar pecados sobre pecados, segundo o que diz David: “pondo maldade sobre maldade... Riscados sejam do livro dos vícios” (Sl 28,28-29).
Observa Belarmino: “Não existe castigo mais terrível do que o pecado tornar-se pena do pecado”. Fora melhor a um desses infelizes que o Senhor o tivesse feito morrer após o primeiro pecado; porque, morrendo mais tarde, terá a padecer tantos infernos quantos foram os pecados cometidos.

AFETOS E SÚPLICAS

Bem reconheço, meu Deus, que, no miserável estado em que me acho, mereci ser privado da vossa luz e da vossa graça. Pela inspiração, porém, que me dais e ouvindo-vos a voz que me chama à penitência, estou persuadido, entretanto, de que não me abandonastes. Já que assim é, multiplicai, meu Senhor, vossa misericórdia sobre minha alma; aumentai-me a luz divina e o desejo de vos amar e servir. Transformai-me, ó meu Deus; de traidor e rebelde que fui, convertei-me em fervoroso amante de vossa bondade, a fim de que chegue para mim o venturoso dia em que parta para o céu e louve eternamente as vossas misericórdias.
Vós, Senhor, quereis perdoar-me, e eu só desejo que me outorgueis vosso perdão e vosso amor. Dói- me, ó Bondade infinita, de vos ter ofendido tantas vezes. Amo-vos, ó sumo Bem, porque mo ordenais, e porque sois digníssimo de ser amado. Fazei, pois, meu Redentor, que vos ame este pecador por vós tão amado, e com tal paciência por vós esperado. Tudo espero de vossa bondade inefável. Espero amar-vos sempre no futuro, até à more e por toda a eternidade (Sl 83,2).
Que vossa clemência, meu Jesus, seja constante objeto de meus louvores! Louvarei também, por todo o sempre, a vossa misericórdia, ó Maria, pelas graças inumeráveis que me tendes alcançado. À vossa intercessão as devo. Assisti-me, Senhora minha, auxiliai-me e alcançai-me a santa perseverança.

20 de abril de 2014

DOMINGO DA PÁSCOA.

Fisionomia de Jesus Cristo

É a ressurreição de Jesus Cristo a grande prova da sua divindade.

Jesus predisse que seria entregue a seus inimigos, açoitado, condenado à morte, mas que ressuscitaria no terceiro dia.

Assim aconteceu.

Ora, só Deus pode prever e indicar o futuro.

Ele é, pois, verdadeiramente Deus.

Continuemos a estudar a fisionomia resplandecente de Jesus Cristo.

Já vimos, a última vez: a elevação de seu espírito e a fecundidade de suas palavras. É um reflexo luminoso da sua divindade, porém há outros reflexos não menos luminosos que devemos conhecer, e entre eles os que vamos meditar hoje, a saber:

1. O amor de seu Coração.
2. A força da sua vontade.

O homem, de fato, é uma inteligência, um coração e uma vontade; são as três faculdade da nossa alma; e são as três faculdades que nos manifestam claramente a alma de Jesus.

I. O amor de seu Coração

O homem ama, porém, ama pouco, e ama a poucos.

Todos os homens sentem esta triste chaga no coração, de não poderem sofrer muito tempo para aqueles que amam.

Há apenas uma exceção: é o coração de Jesus Cristo.

Ele ama e Ele dá tudo.

E, como não há maior prova de amor do que dar a própria vida para os que se amam, desde o primeiro até ao último instante da sua vida, Jesus Cristo aspira ao sacrifício.

A sua hora, como Ele diz, a que espera com impaciência, é a hora em que poderá enfim, no Calvário, elevar as suas dores até à altura de seu amor.

E não somente os homens amam pouco, mas amam poucas pessoas.

O homem sente que o seu amor é pequeno, tem receio de derramá-lo sobre os outros. Ele elege um pequeno número de escolhidos, faz-se um ninho onde coloca as pessoas que lhe são mais queridas: um pai, uma mãe, a esposa, os filhos e uns raros amigos.

O homem sente que tem apenas umas gotas de amor... e que espargindo-as não lhe sobrará bastante para os que mais estima.

Como o coração de Jesus é diferente do nosso! Ele ama todos os homens... e os ama com o mesmo ardor.

Os pequenos, os grandes, os pobres, os ricos, os justos, os pecadores, os banidos da sociedade, Ele não exclui ninguém.

Percorramos o Evangelho e procuremos quem Ele excluiu de seu amor.

Qual foi o ser bastante manchado para este coração tão puro... ou bastante vulgar para este coração tão nobre... ou demais grande para este coração humilde... ou demais pequenino para este coração sublime?...

E notemos que este coração tão terno e tão imenso é de uma pureza que não podemos chamar angelical; é pouco demais, pois é divino.

Ele vive no meio do mundo... senta-se à mesa dos pecadores... vê a seus pés todas as fraquezas... e nunca, nem sequer a sombra de um dúvida que surge numa consciência honesta, nem a sombra de um ultraje toca os seus lábios.

Os ímpios atacaram tudo na vida de Jesus Cristo, exceto a pureza deste ser celestial.

E este coração tão divinamente puro possui uma auréola única neste mundo, a de ter formado pelo seu contato e o seu exemplo uma legião de corações virginais, amantes e puros como Ele.

Oh! Só Deus pode realizar tais fenômenos. Jesus Cristo é, pois, Deus.

II. A força da sua vontade

A vontade é a terceira irradiação da nossa alma; vontade que se concentra na força.

Esta força é incomparável em Jesus Cristo e n’Ele reveste todas as modalidades da vida.

É a força modesta no triunfo, no meio do entusiasmo das multidões.
É a força paciente diante da ignorância e teimosia dos seus discípulos.
É a força misericordiosa diante da hipocrisia e da perversidade dos fariseus.
É a força serena e radiante em face das injúrias, das bofetadas, dos escarros, dos açoites.
É a força resignada na agonia, no meio dos mais atrozes desfalecimentos da natureza humana.

Eis já o que é divinamente grande e o que há de mais belo na ordem da força; entretanto não é tudo.

A última palavra da força de Jesus Cristo é o modo com que levantou o mundo conforme a sua expressão: Omnia traham ad meipsum. Arquimedes dizia: dai-me um ponto de apoio e eu levantarei o mundo. Jesus Cristo levantou o mundo sem ponto de apoio. Tomou doze operários pobres, grosseiros, sem gênio; e fez o que é mais difícil que levantar o mundo: mudou-os, transformou-os.

E para que o fato fosse mais incontestável, não o fez quando vivo, mas depois que se deixou pregar e morrer num patíbulo...

Morreu abandonado numa cruz e na hora em que a sua obra parecia aniquilada com Ele, Ele prova a sua força divina com maravilhas de além túmulo.

A impiedade julgou-O sepultado para sempre sob a pedra e sob o esquecimento e eis que de repente reaparece a sua obra, repleta de vida infinita e de eterna fecundidade.

Tudo isso é mais do que humano, é divino... e deve-se concluir que aquele que perpetra tais obras, é verdadeiramente Deus.

III. Conclusão

Como conclusão e para completar a bela e suave fisionomia de Jesus, digamos que esta beleza da inteligência, esta bondade do coração e esta força da vontade, encontram-se n’Ele numa harmonia, num equilíbrio perfeitos.

Não se encontra nenhuma lacuna, nenhum desfalecimento, nenhuma mancha, nem tão pouco se encontra n'Ele qualquer excesso ou qualquer esforço.

Cada faculdade atinge o grau máximo da sua intensidade; porém nenhuma eclipsa ou diminui as outras. São harmoniosamente unidas, ao ponto de constituir o que é o traço divinamente belo da vida de Jesus: grandeza tranquila, doce simplicidade, paz sublime.

Jesus Cristo é o homem ideal em sua natureza humana: Ele é o Deus sublime em sua natureza divina.

E estas duas naturezas: a divina e a humana estão reunidas numa harmonia perfeita, numa única pessoa: a pessoa divina do Verbo Eterno, Filho de Deus e Filho do homem.

Todos nós somos um filho de um homem; Jesus Cristo é o filho do homem, no sentido absoluto. O Filho de Deus feito homem no seio da Virgem Imaculada.

EXEMPLO

A fisionomia de Jesus Cristo

O Cavalheiro de Beauterno, reproduzindo os sentimentos de Napoleão, nos deixou esta página de uma fé admirável e de uma expressão tão veemente que se sente nela a pata do leão de Sant' Helena: o grande Napoleão:

“Não haveria Deus no céu se um homem fosse capaz de conceber e de executar, com pleno êxito, o plano gigantesco de fazer-se adorar pelo mundo inteiro, usurpando o nome de Deus!

Jesus é o único que tem tido tal ousadia! Jesus é o único que disse claramente: Eu sou Deus!

A história não menciona nenhum outro que se tenha intitulado Deus, no sentido absoluto desta palavra.

As fábulas nunca contaram que Júpiter ou outros deuses do Olimpo se tenham denominado a si próprios, o que aliás teria sido da parte deles um cúmulo de orgulho, uma monstruosidade e uma extravagância absurda.

São os homens que os deificaram.

Alexandre pôde chamar-se: filho de Júpiter, porém, a Grécia inteira zombava dele por tal embuste. Nem sequer a apoteose dos imperadores romanos foi tomada a sério pelos romanos.

Maomé e Confúcio deram-se simplesmente como agentes da divindade; a deusa Egéria de Numa Pompilio nunca passou de uma inspiração haurida na solidão da floresta; os deuses de Brahma, da Índia, são uma simples invenção psicológica.

Como é, pois, possível que um judeu, cuja existência histórica está mais averiguada do que todas aquelas de seu tempo, ele só, filho de um carpinteiro, se tenha apresentado como Deus, como o Ser por excelência e o Criador do mundo?

Ele pede a adoração das criaturas; e por um prodígio que ultrapassa todos os prodígios, Jesus exige o amor dos homens, isto é: aquilo que há de mais difícil de obter, o que um sábio pede em vão a seus amigos... um pai a seus filhos... uma esposa a seu marido... um irmão a seus irmãos... numa palavra: o coração. Ele exige absolutamente este coração e o obtém imediatamente.

Concluo que Ele é Deus!

Alexandre, César, Aníbal, Luiz XIV, com todo o seu gênio malograram-se nesta empresa; conquistaram o mundo, mas não alcançaram nenhum amigo sequer!

Talvez seja eu hoje o único a amar a César, Aníbal, Alexandre.

O grande Luiz XIV, que tanto esplendor espargiu sobre a França e sobre o mundo, não tinha nem um amigo em seu reino inteiro, nem sequer em sua família.

Apenas havia exalado o último suspiro, foi deixado no isolamento de seu quarto de Versailles, abandonado pelos seus cortesões e talvez até sendo escarnecido. Não era mais o seu mestre... era um cadáver, um esquife, um túmulo e o horror de uma iminente decomposição.

Eu mesmo tenho apaixonado as multidões, que se deixavam massacrar para mim... A minha presença, a eletricidade de meu olhar, de meu acento, minha palavra ascendia neles o fogo do entusiasmo e agora que estou aqui, só, desterrado sobre este rochedo, quem luta e quem conquista impérios para mim?

Onde estão os cortesões de meu infortúnio?

Quem pensa em mim? Quem se agita por mim na Europa? Quem me ficou amigo fiel?

Onde estão os meus amigos?

Sim, dois ou três, que a vossa fidelidade imortaliza, vos partilhais e consolais o meu exílio.

Assassinado pelo revez das armas, morro aqui, antes do tempo e o meu cadáver será restituído à terra para ser o pasto dos vermes!...

Eis o próximo destino do grande Napoleão! Que abismo profundo sobre a minha miséria, o meu abandono e o reino eterno de Jesus Cristo, pregado há já 18 séculos, amado, adorado, invocado e cada dia vivo sobre os altares e em todas as partes do mundo... Será isso morrer? Não é antes viver? Eis a morte de Cristo, eis a vida de um Deus... Concluo que Jesus Cristo não é simplesmente homem, Ele é Deus verdadeiro!”

(MARIA, P. Júlio. Comentário Apologético do Evangelho Dominical. O Lutador, 1940, p. 164-171)

DOMINGO DA RESSURREIÇÃO.

A ressurreição de Jesus Cristo e a esperança do cristão.

Haec dies quam fecit Dominus: exultemus et laetemur in ea — “Este é o dia que fez o Senhor; regozijemo-nos e alegremo-nos nele” (Ps. 117, 24).

Sumário. Façamos um ato de fé viva na ressurreição de Jesus Cristo; cheguemo-nos a Ele em espírito para Lhe beijar as chagas glorificadas, e regozijemo-nos com Ele por ter saído do sepulcro vencedor da morte e do inferno. Lembrando-nos em seguida que a ressurreição de Jesus é o penhor e a norma da nossa, avivemos nossa esperança, e ganhemos ânimo para suportar com paciência as tribulações da vida presente. Lembremo-nos, porém, que para ressuscitarmos gloriosamente com Jesus Cristo devemos primeiro morrer com Ele a todos os afetos terrestres.

I. O grande mistério que em todo o tempo pascal, e especialmente no dia de hoje, deve ocupar as almas amantes de Deus, e enchê-las de dulcíssima esperança, é a felicidade de Jesus ressuscitado. Já meditamos que Jesus, no tempo de sua Paixão, perdeu inteiramente as quatro espécies de bens que o homem pode possuir na terra. Perdeu os vestidos até a extrema nudez; perdeu a reputação pelos desprezos mais abomináveis; perdeu a florescente saúde pelos maus tratos; perdeu finalmente a vida preciosíssima pela morte mais horrível que se pode imaginar. Agora porém, saindo vivo do fundo do sepulcro, recebe com lucro abundantíssimo tudo quanto perdeu.

O que era pobre, ei-Lo feito riquíssimo e Senhor de toda a terra. O que a si próprio se chamava verme e opróbrio dos homens, ei-Lo coroado de glória, assentado à direita do Pai. O que pouco antes era o Homem das dores e provado nos sofrimentos, ei-Lo dotado de nova força e de uma vida imortal e impassível. Finalmente o que tinha sido morto do modo mais horrível, ei-Lo ressuscitado pela sua própria virtude, dotado de sutileza, de agilidade, de clareza, feito as primícias de todos os que dormem com a esperança de ressuscitarem também um dia à imitação de Cristo: Christus resurrexit a mortuis, primitiae dormientium (1)

Detenhamos-nos aqui para tributar a nosso Chefe divino as devidas homenagens. Façamos um ato de fé viva na sua ressurreição, e cheguemo-nos a Ele para beijarmos em espírito os sinais de suas cinco chagas glorificadas. Alegremo-nos com Ele, por ter saído do sepulcro, vencedor da morte e do inferno, e digamos com todos os santos: “O Cordeiro que foi imolado por nós, é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a fortaleza, a honra, a glória e a bênção.” (2)

II. Regozijemo-nos com Jesus Cristo; mas regozijemo-nos também por nós mesmos, porquanto a sua ressurreição é o penhor e a norma da nossa, se ao menos, como diz São Paulo, morrermos primeiro interiormente ao afeto das coisas terrestres: Si commortui sumus, et convivemus (3) — “Se morrermos com Ele, com Ele também viveremos”. Ó doce esperança! “Virá a hora em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus” (4); e então pelo poder divino retomaremos o mesmo corpo que agora temos, mas formoso e resplandecente como o sol. Nós também ressuscitaremos!

A esperança da futura ressurreição é o que consolava o santo Jó no tempo de sua provação. “Eu sei”, disse ele, e nós, digamos o mesmo no meio das cruzes e tribulações da vida presente: “eu sei que o meu Redentor vive, e que no derradeiro dia surgirei da terra; e serei novamente revestido de minha pele, e na minha própria carne verei a meu Deus... esta minha esperança está depositada no meu peito.” (5)

Meu amabilíssimo Jesus, graças Vos dou que pela vossa morte adquiristes para mim o direito à posse de tão grande bem, e hoje pela vossa ressurreição avivais a minha esperança. Sim, espero ressurgir no último dia, glorioso como Vós, não tanto por meu próprio interesse, como para estar para sempre unido convosco, e louvar-Vos e amar-Vos eternamente. É verdade que pelo passado Vos ofendi com os meus pecados; mas agora arrependo-me de todo o coração e pela vossa ressurreição peço-Vos que me livrais do perigo de recair na vossa desgraça: Per sanctam resurrectionem tuam, libera me, Domine — “Pela vossa santa ressurreição, livrai-me, Senhor”.

“E Vós, Eterno Pai, que no dia presente nos abristes a entrada da eternidade bem-aventurada, pelo triunfo que vosso Unigênito alcançou sobre a morte: aumentai com o Vosso auxílio os desejos que a vossa inspiração nos instila” (6). Fazei-o pelo amor do mesmo Jesus Cristo e de Maria Santíssima.

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1. 1 Cor. 15, 20.
2. Ap 5,12.
3. 2 Tim. 2, 11.
4. Io. 5, 28.
5. Iob 19, 25.
6. Or.festi curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 1-3.)

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

07/26 - Como devemos proceder nas tentações.

Não desespereis por maiores que sejam as tentações a que estejais sujeitos. É preciso deixarmo-nos levar pela corrente e tempestade? Deixai enraivecer o inimigo à porta; fira, bata, faça ruído quanto puder; estejamos seguros de que não entra em nossa alma senão pela porta do consentimento. Fechemo-la bem e vejamos muitas vezes se está bem fechada, e de nada mais cuidemos, porque nada devemos temer.
Humilhai-vos muito e não desanimeis. Os lírios que crescem entre espinhos são mais brancos e as rosas ao pé dos álamos são mais odoríferas e musgosas. "Que sabe o que não é tentando?"
Tendes demasiado medo das tentações; eis o vosso mal. Não temais porque todas as tentações do inferno não mancharão uma alma que as não ama; deixai-as pois correr. O apóstolo São Paulo sofre-as terríveis, e Deus não lhes quer tirar, e tudo por amor. Coragem; elevai sempre o vosso coração a Deus e deixai a este inimigo bater a porta quantas vezes quiser. Vivei com o doce Jesus e sua amável Mãe, nas trevas, entre os cravos, os espinhos, as lanças, os desprezos, as injúrias.
Viveis muito tempo nas lágrimas, sem nada obter; Deus vos alegrará e cumprirá o desejo do vosso coração. Se o não faz, não deixeis por isso de o ouvir que Ele não deixará de ser vosso Deus, porque o afeto que lhe devemos, é de natureza imortal.
Vejo claramente este formigueiro de inclinações que o amor próprio alimenta e lança em vosso coração e sei que a condição do vosso espírito sútil, delicado e fértil contribui alguma coisa para isso; contudo estas inclinações não são das aceitas por consentimento algum, ou pelo menos por consentimento deliberado, embora vos aflijam e vos sejam importunas.
Não, como a vossa querida alma compreendeu o grande desejo que Deus lhe inspirou de não pertencer senão a Ele, não creias com facilidade que ele preste o seu contentamento a estes movimentos contrários. Pode atormentar-se o vosso coração pelo sentimento das vossas paixões; mas entendo que raras vezes peca por consentimento. Ó homem miserável, dizia o grande Apóstolo, que me livrará este corpo da morte? O apóstolo, sentia um exército composto destas aversões, hábitos e inclinações naturais, que conspiraram contra a vida espiritual; e temendo-os, dá testemunho de que os aborrece; e odiando-os, não os pode sofrer sem dor, e a dor lhe faz soltar esta interrogação, à qual responde que " a graça de Deus, por meio de Jesus Cristo, o guardará", não do temor, do alarme, do combate, mas da derrota, e impedi-lo-á  de ser vencido.
É verdade, direis vós; mas já tantas vezes tenho cortado e circuncidado as minhas paixões, e embora tenha feito o que posso e empregado por muito tempo todos os cuidados e vigilâncias possíveis, sinto sempre desgostos, repugnâncias e aversões. Ah! minha pobre alma, não sabes que não viemos a este mundo para gozar, mas para padecer? Esperai um pouco; quando estiverdes no céu, tereis uma paz perfeita e um contentamento completo então não sentireis movimentos desordenados da natureza viciada e corrompida pelo pecado, e possuíreis uma alegria e repouso duradouro, porque lá é que se goza da paz, e não neste mundo, onde devemos padecer e circuncidar-mo-nos. O que não tiver aqui paixões não sofrerá, mas gozará, o que não é possível, porque enquanto vivermos havemos de as ter e só depois da morte seremos livres delas, segundo a opinião dos doutores, aprovada pela Igreja. Porém, porque nos havemos de mortificar, se destes embates e paixões nasce a vitória e o triunfo?
Estar no mundo e não sentir estes movimentos da paixão, são coisas incompatíveis. O nosso glorioso São Bernardo diz que é uma heresia dizer que podemos perseverar no mesmo estado neste mundo, pois que o próprio Espírito Santo disse pela boca de Jó falando do homem, "que nunca estará no mesmo estado". Assim respondo ao que dizeis a respeito da inconstância da alma; porque creio firmemente que esta continuamente agitada pelos ventos das paixões; mas também creio firmemente que permanecem em vosso espírito a graça de Deus e a resolução que vos concedeu, e que tendes sempre arvorado o estandarte da cruz e nele a fé, a esperança  e a caridade clamam sempre seus tesouros.
Enfim, notai o seguinte: enquanto vos desagradar a tentação nada receeis, porque se vos desagrada é porque não a admitis!
Estas tentações tão importunas vêm da malícia do demônio; mas o tormento e desgosto que sentimos, vêm da misericórdia de Deus, que, contra a vontade do seu inimigo, tira da malícia o ouro quer guardar em seus tesouros.
Portanto digo: As vossas tentações nascem do demônio e do inferno; mas as penas e aflições nascem de Deus e do Paraíso: as mães são de Babilônia, mas as filhas de Jerusalém. Desprezai as tentações; mas abraçai as tribulações.
É preciso que um soldado tenha ganho muito na guerra para viver comodamente na paz. Nunca teremos perfeita doçura e caridade se não for exercitada entre repugnâncias, aversões ou desgostos. A verdadeira paz não vem de não combater, mas de vencer. Os vencidos não combatem, e contudo não tem paz sólida. Vamos; é preciso que nos humilhemos muito, pois ainda não somos senhores de nós mesmos, e amamos o repouso e comodidades.
Não temos recompensa sem vitória, nem sem guerra. Tende coragem e convertei as vossas penas em matéria de virtudes. Olhai muitas vezes para Nosso Senhor, que vos contempla, embora sejais uma criatura miserável, nos vossos trabalhos e distrações. Envia-vos socorro e abençoa as vossas aflições. Deveis, considerando isto, receber com doçura e paciência os incômodos, por amor daquele que os envia para nosso proveito.
Elevai muitas vezes a Deus o coração: pedi-lhe o seu auxílio e fundai a consolação no prazer que tendes de lhe pertencer. Todos os desgostos serão pequenos se tiverdes um amigo assim, e um tal refúgio.

Preparação para a Morte

PONTO III

Começará o julgamento, abrindo-se os autos do processo, isto é, as consciências de todos (Dn 7,10). Os primeiros testemunhos contra os réprobos serão do demônio, que dirá — segundo Santo Agostinho: “Justíssimo juiz, sentencia, que são meus aqueles que não quiseram ser teus”. A própria consciência dos homens os acusará depois (Rm 2,15). A seguir, darão testemunho, clamando vingança, os lugares em que os pecadores ofenderam a Deus (Hb 2,11). Virá, enfim, o testemunho do próprio Juiz que esteve presente a quantas ofensas lhe fizeram (Jr 29,23).
Disse São Paulo que naquele momento o Senhor “porá às claras o que se acha escondido nas trevas” (1Cor 4,5). Descobrirá, então, ante os olhos de todos os homens as culpas dos réprobos, até as mais secretas e vergonhosas que em vida eles ocultaram aos próprios confessores (Na 3,5). Os pecados dos eleitos, no sentir do Mestre das Sentenças e de outros teólogos, não serão manifestados, mas ficarão encobertos, segundo estas palavras de David: “Bem-aventurados aqueles, cujas iniqüidades foram perdoadas, e cujos pecados são apagados” (Sl 31,1). Pelo contrário — disse São Basílio — as culpas dos réprobos serão vistas por todos, ao primeiro relancear d’olhos, como se estivessem representadas num quadro. Exclama São Tomás, “Se no horto de Getsêmani, ao dizer Jesus: Sou eu, caíram por terra todos os soldados que vinham para o prender, que sucederá quando, sentado no seu trono de Juiz, disser aos condenados: “Aqui estou, sou aquele a quem tanto haveis desprezado!” Chegada a hora da sentença, Jesus Cristo dirá aos eleitos estas palavras, cheias de doçura: “Vinde, benditos de meu Pai, e possuí o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo” (Mt 25,34).
Quando São Francisco de Assis soube por revelação que era predestinado, sentiu altíssimo e inefável consolo. Que consolação não sentirão aqueles que ouvirem estas palavras do soberano Juiz: “Vinde, filhos benditos, vinde a meu reino. Já não há mais a sofrer, nem a temer.
Comigo estais e permanecereis eternamente. Abençôo as lágrimas que sobre os vossos pecados derramastes. Entrai na glória, onde juntos permaneceremos por toda a eternidade”. A Virgem Santíssima abençoará também os seus devotos e os convidará a entrar com ela no céu. E assim, os justos, entoando gozosos Aleluias, entrarão na glória celestial para possuírem, louvarem e amarem eternamente a Deus.
Os réprobos, ao contrário, dirão a Jesus Cristo: “E nós, desgraçados, que será feito de nós?” E o Juiz Eterno dir-lhes-á: Já que desprezastes e recusastes minha graça, apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno (Mt 24,34). Apartai-vos de mim, que nunca mais vos quero ver nem ouvir. Ide, ide, malditos, que desprezastes minha bênção...” Mas para onde, Senhor, irão estes desgraçados?... Ao fogo do inferno, para arder ali em corpo e alma... E por quantos séculos?... Por toda a eternidade, enquanto Deus por Deus.
Depois desta sentença — diz Santo Efrém — os réprobos despedir-se-ão dos anjos, dos santos e da Santíssima Virgem, Mãe de Deus.
“Adeus, justos; adeus, cruz; adeus, glória; adeus, pais e filhos; jamais nos tornaremos a ver! Adeus, Mãe de Deus, Maria Santíssima”. Nesse instante, abrir-se-á na terra um imenso abismo e nele cairão conjuntamente demônios e réprobos. Verão como atrás deles se fechará aquela porta que nunca mais se há de abrir... Nunca mais durante toda a eternidade!...
Ó maldito pecado! A que triste fim levarás um dia tantas pobres almas!... Ai! das almas infelizes às quais aguarda tão deplorável fim.

AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus e meu Salvador! Que sentença me reservais no dia do juízo? Se agora me pedísseis, Senhor, contas de minha vida, que poderia eu responder senão que mereço mil vezes o inferno? Sim, meu Redentor, é verdade que mereço mil vezes o inferno, mas sabei que vos amo mais que a mim mesmo, e que das ofensas que vos fiz de tal modo me arrependo, que preferiria ter sofrido todos os males do que ter-vos injuriado.
Condenais, ó meu Jesus, os pecadores obstinados, mas não a quem se arrepende e vos quer amar. Aqui estou, a vossos pés, arrependido... Dai-me a vossa palavra de perdão... Mas já me declarastes pela boca do vosso Profeta: “Convertei-vos a mim, e eu me voltarei a vós” (Zc 1,3). Tudo abandono, renuncio a todos os gozos e bens do mundo, e converto-me, abraçando a vós, meu amantíssimo Redentor. Recebei-me no vosso Coração e inflamai-me no vosso santo amor, de modo que jamais cogite em separar-me de vós... Salvai-me, meu Jesus, e que minha salvação seja amar-vos sempre e louvar sempre vossas misericórdias (Sl 88,2).
Maria, minha esperança, meu refúgio e minha mãe, ajudai-me e alcançai-me a santa perseverança. Ainda se não perdeu ninguém, que tenha recorrido a vós... A vós, pois, me recomendo. Tende piedade de mim.

19 de abril de 2014

SÁBADO SANTO – TARDE.

Soledade de Maria Santíssima depois da sepultura de Jesus.

Posuit me desolatam, tota die maerore confectam — “Pôs-me em desolação, afogada em tristeza todo o dia” (Thren. 1, 13).

Sumário. Ah, que noite de dor foi para Maria a que se seguiu à sepultura do seu divino Filho! A desolada Mãe volve os olhos em torno de si, e já não vê o seu Jesus, mas representam-se-lhe diante dos olhos todas as recordações da bela vida e da desapiedada morte do Filho. Como se não pudesse crer em seus próprios olhos: Filho, pergunta a João, aonde está o teu mestre? E à Madalena: Filha, dize-me onde está o teu dileto?... Minha alma, roga a Santíssima Virgem, que te admita a chorar consigo. Ela chora por amor, e tu, chora pela dor dos teus pecados.

I. Diz São Boaventura que, depois da sepultura de Jesus, as mulheres piedosas velaram a Bem-aventurada Virgem com um manto lúgubre, que lhe cobria todo o rosto. Acrescenta São Bernardo, que na volta do sepulcro para a sua casa a pobre Mãe andava tão aflita e triste, que comovia muitos a chorarem, ainda que involuntariamente: Multos etiam invitos ad lacrimas provocabat. De modo que, por onde passava, todos aqueles que a encontravam, não podiam conter as lágrimas. Os santos discípulos e as mulheres que a acompanhavam, quase que choravam mais as penas de Maria do que a perda de seu Senhor.

Quando a Virgem passou por diante da Cruz, banhada ainda com o sangue do seu Jesus, foi a primeira a adorá-la. Ó santa Cruz, disse então, eu te beijo e te adoro, já que não és mais madeiro infame, mas trono de amor e altar de misericórdia, consagrado com o sangue do Cordeiro divino, que em ti foi imolado pela salvação do mundo. — Deixa depois a Cruz e volta à sua casa. Chegada ali, a aflita Mãe volve os olhos em torno, e não vê mais o seu Jesus; em vez da presença do querido Filho, apresentam-se-lhe aos olhos todas as recordações da sua bela vida e da sua desapiedada morte.

Recorda-se dos abraços dados ao Filho no presépio de Belém, da conversação com ele por trinta anos na casa de Nazaré; recorda-se dos mútuos afetos, dos olhares cheios de amor, das palavras de vida eterna saídas daquela boca divina. E depois se lhe representa a cena funesta presenciada naquele mesmo dia; vêem-lhe à memória os cravos, os espinhos, as carnes dilaceradas do Filho, as chagas profundas, os ossos descarnados, a boca aberta, os olhos escurecidos. E com tão funesta recordação, quem poderá dizer qual tenha sido a dor, a desolação de Maria?

II. Ah, que noite de dor foi para a Bem-aventurada Virgem aquela que se seguiu à sepultura do seu divino Filho! Voltando-se a dolorosa Mãe para São João, perguntou-lhe com voz triste: Ah! Filho. Onde está o teu mestre? Depois perguntou à Madalena: Filha, dize-me onde está o teu dileto? Ó Deus! Quem no-Lo tirou?... Chora Maria, e todos os que estão com ela choram também. E tu, minha alma, não choras? Ah! Volta-te a Maria, e roga-lhe que te admita consigo a chorar. Ela chora por amor, e tu, chora pela dor de teus pecados: Fac ut tecum lugeam.

Minha aflita Mãe, não vos quero deixar só a chorar; não, quero acompanhar-vos também com as minhas lágrimas. Eis a graça que hoje vos peço; alcançai-me uma memória contínua, junto com uma terna devoção para com a paixão de Jesus e a vossa; a fim de que todos os dias que me restam de vida, não me sirvam senão para chorar as vossas dores e as do meu Redentor. Espero que, na hora de minha morte, essas dores me darão confiança e força para não desesperar à vista das ofensas que tenho feito ao meu Senhor. Elas devem impetrar-me o perdão, a perseverança e o paraíso.

E Vós, † “ó meu Senhor Jesus Cristo, que para resgatar o mundo quisestes nascer, receber a circuncisão, ser condenado pelos judeus, traído por Judas com um ósculo, acorrentado, levado para o sacrifício como inocente cordeiro, arrastado com tanta ignomínia diante de Anás, Caifás, Pilatos e Herodes, acusado por falsas testemunhas, flagelado, esbofeteado, carregado de opróbrios, coberto de escarros, coroado de espinhos, ferido com uma cana, vendado, despojado de vossos vestidos, pregado e levantado na cruz entre dois ladrões, abeberado de fel e vinagre e traspassado por uma lança; suplico-Vos, ó Senhor, em nome dessas santas penas que venero, ainda que indigno, suplico-Vos por vossa santa cruz e morte, livrai-me do inferno e dignai-Vos levar-me para onde levastes o bom ladrão crucificado convosco, ó meu Jesus, que viveis e reinais com o Pai e o Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Assim seja.”(1) (*I 252)

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1. Ajuntando-se 5 Pais-Nosso, Aves Maria, Glória ao Pai e esta oração, pode-se ganhar uma indulgência de 300 dias uma vez por dia.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 423-425.)