23 de julho de 2014

Pensamentos consoladores de São Francisco de Sales.

5/5  -  É preciso entregar-mo-nos à Deus na vida e na morte.

Entre os louvores que os santos dão a Abraão, São Paulo eleva acima de todos os outros, este:" que ele creu, esperando contra toda a esperança". Deus tinha-lhe prometido multiplicar a sua posteridade como as estrelas do céu e as areias do mar e no entanto recebeu ordem de sacrificar o seu único filho. Abraão não perdeu por isto a esperança, e creu que obedecendo, não deixaria de manter a sua promessa.
Grande, com certeza, foi a sua esperança; porque nada via em que a apoiasse senão a palavra de Deus.
Oh! como é um alicerce forte e sólido esta palavra de Deus! oh! como é um alicerce forte e sólido esta palavra, visto ser infalível!
Abraão vai pois cumprir a ordem de Deus com simplicidade nunca vista; porque não considerou nem replicou como quando Deus lhe ordenou que saísse da sua terra e dentre os seus parentes. Caminhando três dias e três noites com seu filho, sem saber precisamente para onde ia, levando a lenha para o sacrifício, seu filho lhe perguntou onde estava o holocausto, ao que respondeu Abraão: "Meu filho o Senhor proverá a isso".
Oh! Meu Deus! como seríamos felizes se nos acostumássemos a dar esta resposta aos nossos corações, quando se afligem por qualquer coisa: Nosso Senhor proverá; e depois disso não tivéssemos mais ansiedade e perturbação que Isaac! porque se calou logo, crendo que o Senhor proveria a isso como seu pai lhe tinha afirmado.
Grande é com certeza a confiança que Deus nos pede que tenhamos no seu cuidado paternal e da sua divina Providência; mas porque razão a não teremos nós visto que ninguém pode ser enganado e que ninguém confia em Deus sem tirar os frutos desta confiança?
Considerai que o Nosso Senhor disse aos seus apóstolos para estabelecer com eles esta santa e amorosa confiança: "Quando eu vos enviei ao mundo, sem dinheiro e sem provisão alguma, faltou-vos alguma coisa?" E eles disseram: Não." Ide lhes disse Ele, e não vos inquieteis nem do que comereis, nem mesmo do que bebereis, nem com o que vos cobrireis, e nem do que direis perante os magistrados; porque em todas as ocasiões meu Pai que esta no céu vos dará tudo o que é necessário e ensinar-vos-á o que haveis de dizer".
Mas eu sou tão pouco espiritual, me dirá alguém: não posso tratar com os grandes e não tenho ciência. É o mesmo: Ide e confiai em Deus, porque Ele disse: "Embora uma mãe se esqueça de seu filho, eu não vos esquecerei; porque vos tenho gravado no coração e nas mãos".
Pensais que aquele tem cuidado em provar ao alimento das aves do céu e dos animais da terra, que não semeiam nem recolhem, não proverá de tudo o que é necessário aquele que confiar plenamente na sua Providência? Ele que esta unido a Deus, que é o sumo bem?
Convém saber que abandonar a sua alma e entregar-se a si próprio nada mais é do que deixar a própria vontade para a entregar a Deus: porque de nada serviria renunciarmos a nós mesmos se não fosse para nos unirmos à divina bondade: fazer outra coisa, seria parecer-nos com esses filósofos que abandonaram tudo e a si mesmo para se entregarem a vãs pretensões e ao estudo da filosofia. Sirva de exemplo Epíteto, que sendo escravo, e querendo libertá-lo o seu Senhor por causa da sua grande sabedoria, não quis a liberdade por uma das maiores renúncias, e ficou na escravidão, com uma tal pobreza que depois de morrer só lhe encontraram uma lâmpada, que foi vendida muito cara por ter pertencido a um tal homem. Quanto a nós não queiramos deixar-nos senão para nos entregar-nos à mercê da vontade de Deus. Há muitos que dizem a Nosso Senhor: Entrego-me a vós sem reserva; mas há poucos que pratiquem este abandono, que é uma perfeita submissão em receber toda a sorte de acontecimentos, logo que seja por ordem da Providência de Deus, seja aflição ou consolação, doença ou saúde, pobreza ou riqueza, desprezo ou honra, opróbrio ou glória.
Isto entendo eu relativamente à parte superior do nosso ser; porque quanto à parte inferior, ninguém dúvida que ela e a inclinação natural tendem antes para o lugar da honra do que do desprezo; das riquezas do que da pobreza; embora ninguém ignore que o desprezo e a pobreza são mais agradáveis a Deus do que a honra e a abundância,
Vivamos, enquanto agradar a Deus, neste vale de misérias com uma inteira submissão à sua vontade. Noutro dia me recordava do que dizem os autores a respeito do alcião, ave pequena, que põe na margem do rio. Estas aves fazem ninho tão redondos e apertados, que as águas do mar não podem penetrar, e somente em cima deixam um orifício por onde podem respirar; dentro alojam os filhinhos, para que, se o mar os surpreender possam nadar com segurança e flutuar sobre as águas sem se encherem nem submergirem; e o ar que entra por esse pequeno orifício serve de contrapeso e é balanço por tal forma a estas barquinhas, que nunca se viram.
Oh! como eu desejo que os nossos corações estejam calafetados por toda a parte, para que, se a tempestade e as tormentas do mundo os agitarem, lhes não penetrem, e que só haja uma abertura para o céu, para respirarmos e aspirarmos ao nosso Salvador! E por quem será feito este ninho? Pelos filhinhos d'Aquele que o fez por amor de Deus, por afetos divinos e celestes. Mas, enquanto os alciões fabricamos seus ninhos e os seus filhinhos ainda estão tenros para suportar o embate das vagas, ah! Deus terá disso cuidado e usará de compaixão, impedindo que o mar entre neles e os leve.
Oh! Deus! eis a vossa bondade soberana, que manterá o ninho dos nossos corações, pelo seu santo amor contra os assaltos do mundo, e garantirá que eles sejam vencidos. Ah! como eu amo essas aves que estão carcadas pelo mar, e não vivem senão dar e só vêem o céu?
Nadam como peixes e cantam como aves; e o que mais me agrada é que a âncora é lançada da parte superior e não da inferior, para os garantir contra as vagas.
Queria o doce Jesus tornar-nos assim de maneira que, cercados pelo mundo e pela carne, vivamos do espírito; que, entre as vaidades da terra, contemplemos sempre o céu que, vivendo entre os homens, o louvemos com os anjos, e que o fundamento das nossas esperanças esteja sempre no paraíso; que em tudo por tudo o amor santo seja o nosso grande amor. Ah! mas quando será que nos consumirá e quando consumirá a nossa vida para fazer morrer a nós mesmos o fazer-nos reviver para o nosso Salvador? A ele só sejam dados glória, honra e louvor. Já que o nosso propósito inviolável tende incessantemente para o amor de Deus, nunca serão fora de propósito as palavras do amor de Deus.
Nada mais vos direi, nem sobre grande o abandono de tudo e de nós mesmos a Deus, nem sobre a saída do nosso país e da casa de nossos pais. Não, não quero falar. Queira Deus esclarecer-nos e mostrar-nos o seu gosto; porque embora perigue tudo o que há em nós, segui-lo-e-mo para toda parte onde nos conduza.
Oh! como é bom estar com Ele seja em que lugar for! Eu penso na alma do bom ladrão. Nosso Senhor tinha-lhe dito que naquele dia estaria com Ele no paraíso e apenas a sua alma se apartou do corpo, eis que o conduz ao inferno. Sim, porque devia estar com Nosso Senhor, e Nosso Senhor desceu aos infernos; foi pois aí com Ele. Deus verdadeiro! que pensaria ele ao descer e vendo esses abismos com a sua vista interior? Creio que diria em Jó: "Quem me fará a graça, Meu Deus, que me defendeis e conserveis no inferno?" e com Daví: "Não, nenhum mal temerei, porque Senhor, Vós estais comigo". Não, enquanto estão vivas as nossas resoluções, nada nos perturba. Quando morrermos, volte-se tudo, isso pouco me importa contando que isto subsista.
As noites são dias, quando Deus permanece em nosso coração, e os dias são noites quando Ele lá não esta.

22 de julho de 2014

Homilia 5º Domingo depois de Pentecostes - Pe. Luiz Fernando Pasquotto IBP - (06 de julho)

Sermão do IV Domingo depois de Pentecostes

"Em tua palavra lançarei a rede".
(S. Lucas 5, 5)
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria.
O Evangelho de hoje contém uma quantidade imensa de lições e de pontos interessantes para refletir. As multidões seguem Nosso Senhor e o rodeiam para ouvir sua doutrina. Quem era este homem que prende a atenção de uma multidão, que falava e jamais era interrompido, por causa das coisas extraordinárias que falava?
Vemos depois dois barcos. O que podem significar estes dois barcos, um dos quais era de São Pedro? Além disso, é justamente nele que Nosso Senhor entrará, justamente na barca de Pedro. O que simboliza o fato dos pescadores limparem suas redes? Não poderíamos ver aí a obrigação que os padres, pescadores de homens, têm de recolherem-se periodicamente e de limpar os intrumentos que usam para conquistar almas para Nosso Senhor, estudando, aprofundando a Teologia de Santo Tomás, o Doutor dos doutores da Igreja, de revisar o modo como confessam e rezam a Santa Missa e administram os outros Sacramentos, limpando-os dos defeitos e falhas que costumam surgir com o tempo?
Nosso Senhor pede que a barca na qual está se afaste um pouco da terra para que ele possa ensinar. Não devemos ver aqui o distanciamento que devemos ter das criaturas para poder receber os ensinamentos de Deus com frutos, mas um certo distanciamento, que não equivale a um desprezo por aquilo que é obra de Deus.
Nesta barca Nosso Senhor ensinará sentado, como os mestres que tinham autoridade faziam naquela época, e ensinará na barca de Pedro. Quem não vê aqui que é na Igreja de Pedro que só se pode encontrar o ensinamento que vem de Cristo com autoridade?
Cristo, depois, pede para São Pedro ir mais para dentro do mar e lançar as redes. Mais uma vez São Pedro! Como Nosso Senhor tem uma atenção especial por São Pedro nos Evangelhos! Afinal de contas, é sobre ele que Cristo fundará a sua Igreja, é ele que deverá apascentar, governar e dar de comer às suas ovelhas.
Após uma noite toda de trabalhos infrutuosos São Pedro obedecerá ao pedido de Nosso Senhor. Ele poderia, sob certo aspecto, negar este pedido, argumentando que era ele, Simão, que sabia bem pescar, que tinha experiência nestas coisas, que já fazia isso há anos e que não trabalharia uma segunda vez em vão. Mas Simão fez o que Cristo mandou fazer, contra toda esperança humana. E como Nosso Senhor havia instruído a multidão a partir da barca de Pedro, não o deixou sem recompensa e lhe deu dois benefícios: deu-lhe uma multidão de peixes e depois fez dele seu discípulo.
Os peixes apanhados foram tantos que São Pedro se viu obrigado a chamar outros companheiros para ajudá-los. Chamava-os por sinais, porque seu espanto era tão grande que não podia falar. Até agora os milagres de Cristo não o atingiam pessoalmente. Mas esta pesca milagrosa foi para ele, dirigida para São Pedro. Além disso, a quantidade de peixes quase fez o barco afundar, e Nosso Senhor fez assim para deixar claro que era um milagre, uma pesca que fugia do normal.
E que lição devemos tirar desta humildade de São Pedro depois da pesca milagrosa? "Senhor, afastai-vos de mim, pois sou um pecador!" Não devemos aprender que quanto mais bens Deus nos dá, menos presunçosos devemos ser? Que agrada a Deus o fato de sabermos distinguir entre o bom e o mau, entre o que é santo e o que é impuro, de não afirmarmos que o mau é bom, e que o bom é mau?
Ao dizer aos Apóstolos que não devem temer, porque serão pescadores de homens, não devemos concluir que Nosso Senhor dará aos sacerdotes todos os auxílios necessários ao apostolado que farão? Se Nosso Senhor se preocupou em abarrotar a barca de Pedro com meros peixes, porventura ele não se preocupará em encher a barca da Igreja com filhos de Deus, que valem mais do que peixes?
Mas se os padres querem trabalhar por Cristo e encher a Igreja com filhos de Deus, então o Evangelho ensina claramente como devem proceder: "Em tua palavra lançarei a rede".
É afirmando a doutrina revelada pelo Verbo de Deus, sem mistura de falsos princípios do mundo, que pescam-se filhos de Deus. É possível, mantendo o bom senso, querer ensinar algo melhor do que aquilo que nos ensinou a Sabedoria de Deus encarnada?
Dizer, aos que vivem em concubinato e aos que são divorciados e se juntaram com outra pessoa, que eles podem fazer muitas coisas na Igreja, que eles podem ajudar em tal ou tal organização da paróquia, etc, escondendo o fundamental, isto é, que eles encontram-se em estado de pecado grave, é pescá-los com arpão, é transpassá-los cruelmente, é afundá-los talvez de modo irremediável no erro grave em que estão. É necessário, com a prudência católica e com caridade, sem duvida alguma, dizer que se a morte os encontra neste estado a salvação eterna deles estará definitivamente perdida, para sempre, sem retorno, que a existência deles foi uma existência finalmente fracassada.
Como diz Santo Inácio de Loyola nos seus Exercícios Espirituais, com gente que vive em pecado mortal, o mau espírito prende o pecador e o empurra mais e mais ao pecado. Faz-lhe que veja os prazeres mais vivos, os deleites mais sensíveis. Apresenta-lhe estes objetos de pecado como se fossem a maior felicidade para que se afunde mais e mais, e isto faz com que tenha confiança e felicidade, como se tratasse de coisa normal, indispensável. "Todo o mundo faz". O Anjo bom, pelo contrário, envia-lhe um dardo, um aguilhão que o fere, que lhe impede de ficar tranquilo: são as censuras da razão. Mostra-lhe as consequências do pecado. O pecador se encontra em estado de condenação. Se seu carro bate contra um poste ou contra um muro, arrisca-se a passar do volante ao juízo de Deus e ao inferno. Isto é claro... indiscutível. O demônio, precisamente, faz que afaste estes pensamentos que converteram tantas almas. E, assim, aquele que confirma o pecador em seu pecado faz o jogo do demônio.
Dizer que cada um pode escolher indiferentemente a religião que bem quiser, e que o importante é ter alguma religião, é fazer o jogo do demônio. Não é lançar a rede na palavra de Cristo. É só da barca de Pedro que Cristo ensina a verdade e com autoridade, e não de outras canoas. Dizer também que as crianças devem ser livres para que escolham, quando adultas, a religião que mais lhes agrada é fazer o jogo do demônio, e não do bom espírito. É como se eles não devessem saber que Deus existe, que há Céu e inferno, que há uma só Igreja que salva, a Igreja Católica. É como se eles não tivessem uma alma capaz de praticar a virtude e que devesse evitar o pecado.
Do mesmo modo: "Padre, teremos somente um filho, assim o educaremos melhor". Podem ter certeza de que uma criança não é melhor educada que doze. Numa família numerosa e, portanto, como Deus quer, as repreensões que os filhos recebem geralmente não vêm dos pais, mas dos irmãos e irmãs, e isso ajuda muito na educação. Além disso, é importante lembrar, as pessoas se casam para ter filhos e educá-los na religião católica. É para isso que o casamento foi instituído. É esta a finalidade do matrimônio.
É ensinando a doutrina de Cristo, é lançando a rede na palavra de Cristo que os sacerdotes pescam homens. Cristo ordenou aos Apóstolos que ensinassem -- "Ide e ensinai" --, e não disse que deviam confirmar as pessoas no pecado, no erro, que continuassem a jogar com o demônio.
É na afirmação clara da fé católica, com a autoridade que Cristo deu aos sacerdotes, que pescamos muitos peixes para Deus. Esta pesca é, finalmente, impossível sem a graça e os auxílios de Deus, que age no interior das almas e que é o rei dos corações. Fazer o casamento entre a Igreja e os princípios da modernidade é esterilizar a graça de Deus e passar a noite toda esforçando-se infrutuosamente. Eis aqui como se deve pescar homens para Deus, não com meios humanos e falsos, mas lançando a rede na palavra de Cristo.
O nosso auxílio está no nome do Senhor, que fez o Céu e a terra.
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.
Escrito por Padre Luiz Fernando Pasquotto em Segunda Julho 7, 2014 
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A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 32ª Parte

CAPÍTULO II

Reflexões particulares sobre os padecimentos de Jesus Cristo na sua morte O homem das dores.

1. Vamos considerar as penas particulares que Jesus Cristo sofreu na sua paixão e que já há muitos séculos foram preditas pelos profetas, especialmente por Isaías no capítulo 53. Este profeta, como dizem S. Ireneu, S. Justino, S. Cipriano, e outros falou tão claramente dos sofrimentos de nosso Redentor, que parece ser um outro evangelista. S. Agostinho afirma que as palavras de Isaías, referentes à paixão de Jesus Cristo, requerem mais as nossas reflexões e lágrimas que explicações dos sagrados intérpretes.
Hugo Grotius escreve que os próprios judeus antigos não puderam negar que Isaías falava do Messias prometido por Deus (De ver. relig. Cti. l.5, § 19). Alguns quiseram aplicar os passos de Isaías a outros personagens nomeados nas Escrituras, fora de Jesus Cristo.
Mas diz Grotius: “Quem poderá nomear um dos reis ou dos profetas a quem quadrem essas coisas? Seguramente ninguém”. Assim escreve esse autor, apesar de ele mesmo ter várias vezes tentado aplicar a outras pessoas as profecias que falavam do Messias.
Isaías escreve: “Quem deu crédito ao que nos ouviu? E a quem foi revelado o braço do Senhor?” (53,1). Isso se realizou exatamente, como diz S. João, quando os judeus, não obstante terem visto tantos milagres operados por Jesus Cristo, que bem o mostravam como o Messias enviado por Deus, não quiseram crer nele (Jo 12,37-38).
Quem dará crédito a quanto foi por nós ouvido? perguntava Isaías, e quem reconheceu o braço, isto é, o poder do Senhor? Com essas palavras predisse Isaías a obstinação dos judeus em não querer crer em Jesus Cristo como o seu Redentor. Figurava-se-lhes que o Messias deveria circundar-se neste mundo de uma grande pompa, vivendo entre homens de sua grandeza e poder, triunfando de todos os seus inimigos, enchendo de riquezas e honras o povo judeu. Mas a coisa era outra. O profeta ajunta as palavras acima referidas: “Subirá como arbusto diante dele e como raiz que sai de uma terra sequiosa” (Is 52,2). Julgavam os judeus que o Salvador deveria aparecer qual soberbo cedro do Líbano. Isaías, porém, predisse que se faria ver como um arbusto humilde ou como uma raiz que nasce de uma terra árida, privada de toda a beleza e esplendor: “Não tem beleza nem formosura!”

2. Continua então Isaías a descrever a paixão de Jesus Cristo: “E nós o vimos e não tinha aparência e nós o desejamos” (Is 53,2). Tendo-o contemplado, desejamos reconhecê-lo, mas não o pudemos, porque nada mais divisamos que um homem de dores: “Um objeto de desprezo e o último dos homens, um homem de dores... por isso nenhum caso fizemos dele” (Is 53,3). Adão, pelo orgulho de não querer obedecer ao preceito divino, trouxe a ruína para todos os homens.
O Redentor, com sua humildade, quis curar uma tal desgraça, contentando-se com ser tratado com o último e mais abjeto dos homens, reduzido a extrema baixeza. Isso faz S. Bernardo exclamar: “Ó baixíssimo e altíssimo! ó humilde e sublime! ó opróbrio dos homens e glória dos anjos! Ninguém mais sublime que ele, ninguém mais humilde” (Serm. 37). Se, pois, o Senhor mais alto que todos, ajunta o santo, se tornou o mais baixo, nenhum de nós deve ambicionar ser anteposto aos demais e temer ser preferido por alguém. Eu, porém, ó meu Jesus, tenho medo de ser posposto a alguém, e desejaria ser preferido a todos. Senhor, dai-me humildade. 
Vós, meu Jesus, com tanto amor abraçais os desprezos, para ensinar-me a ser humilde e amar a vida oculta e abjeta e eu quero ser estimado por todos e fazer figura em tudo. Ah, meu Jesus, dai-me o vosso amor, que ele me tornará semelhante a vós. Não me deixeis viver mais ingrato ao amor que me dedicais. Vós sois o todo poderoso, tornai-me humilde, tornai-me santo, tornai-me todo vosso.
“O varão de dores”, denominou-o ainda Isaías. A Jesus Crucificado muito bem se aplica o texto de Jeremias: “Grande como o mar é a tua dor” (Lm 2,13). Como no mar deságuam todas as águas dos rios, assim em Jesus Cristo se reuniram para atormentá-lo todas as dores dos enfermos, todas as penitências dos anacoretas e todas as contusões e vilipêndios suportados pelos mártires. Ele foi cumulado de dores na alma e no corpo. “E todas as tuas ondas fizeste vir sobre mim” (Sl 87,8). Meu Pai, dizia nosso Redentor pela boca de Davi, dirigistes sobre mim todas as ondas de vosso desprezo e na morte afirmava que expirava submerso num mar de dores e de ignomínias: “Cheguei ao alto mar, e a tempestade me submergiu” (Sl 68,3). Escreve o Apóstolo que Deus, mandando seu Filho pagar com seu sangue as penas devidas às nossas culpas, queria com isso demonstrar quão grande era a sua justiça. “Jesus Cristo, a quem Deus propôs para ser vítima de propiciação pela fé em seu sangue, a fim de manifestar a sua justiça” (Rm 3,25). Notai, para manifestação de sua justiça!

Em forma de escravo.

1. Para fazer idéia do quanto padeceu Jesus Cristo durante sua vida e especialmente na sua morte, é preciso considerar o que disse o mesmo Apóstolo na carta aos Romanos: “Deus, enviando seu Filho em carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne por causa do mesmo pecado” ( Rm 8,3). Jesus Cristo, enviado pelo Pai a remir o homem, revestido da carne infecta do pecado de Adão, apesar de não ter contraído a mancha do pecado, contudo tomou sobre si as misérias contraídas pela natureza humana em castigo do pecado, e se ofereceu ao Padre eterno a satisfazer com suas penas a justiça divina por todas as culpas dos homens: “Foi oferecido porque ele mesmo quis” e o Pai “carregou sobre ele a iniqüidade de todos nós”, como escreve Isaías (53,7 e 6). Eis, pois, Jesus carregado com todas as blasfêmias, com todos os sacrilégios, torpezas, furtos, crueldades, com todas as malvadezas que cometeram e cometerão ainda todos os homens. E ei-lo em suma feito o objeto de todas as maldições divinas aos homens por seus crimes. “Cristo nos remiu da maldição da lei, fazendo-se por nós maldito” (Gl 3,13). As dores, que Jesus sofreu, tanto internas como externas, sobrepujaram imensamente todas as possíveis nesta vida (III q. 46 a. 6).
Quanto à dor externa do corpo, basta saber que Jesus recebeu do Pai um corpo adaptado especialmente para sofrer. “Preparastes-me um corpo” (Hb 10,5). Nota S. Tomás que Nosso Senhor padeceu no tato, pois lhe foram rasgadas as carnes; no gosto, com fel e vinagre; no ouvido, com as blasfêmias e zombarias que lhe dirigiam; na vista, vendo sua mãe assisti-lo na morte. Padeceu também em todos os seus membros: a cabeça foi atormentada com os espinhos, as mãos e os pés com os cravos, a face com as bofetadas e escarros, todo o seu corpo com os açoites, na maneira já indicada por Isaías, isto é, que o Redentor na sua paixão ia se tornar semelhante a um leproso, que não possui um membro são, causando horror a quem o vê, por ser uma só chaga da cabeça aos pés. Basta dizer que Pilatos julgou poder livrar Jesus da morte, apresentando-o ao povo depois de flagelado, e por isso o conduziu à varanda, dizendo: “Eis aqui o homem”. S. Isidoro diz que os homens, quando a dor é intensa e persistente, perdem a sensação da dor pela agudeza da própria dor.
Mas isso não se deu com Jesus: as últimas dores foram igualmente mais atrozes como as primeiras e os primeiros golpes da flagelação foram tão dolorosos quanto os últimos, porque a paixão de nosso Redentor não foi obra dos homens, mas da justiça de Deus, que quis castigar o Filho com todo o rigor que mereciam os pecados dos homens.
E assim, meu Jesus, com a vossa paixão quisestes relevar-me a pena que por meus pecados me era devida. Por isso, se eu vos tivesse ofendido menos, menos teríeis de padecer na vossa morte. E eu, cônscio disso, poderei viver para o futuro sem vos amar e sem chorar as ofensas que vos fiz? Meu Jesus, arrependo-me de vos haver desprezado e amo-vos sobre todas as coisas. Logo, não me desprezeis: permiti que vos ame, pois não quero mais amar senão a vós. Muitíssimo ingrato seria eu se, depois de tantas misericórdias usadas para
comigo, amasse no futuro outro objeto além de vós.

2. Eis como Isaías anunciou tudo de antemão: “E nós o reputamos como um leproso, ferido por Deus e humilhado. Mas ele foi ferido pelas nossas iniqüidades, foi quebrantado pelos nossos crimes: o castigo que nos devia trazer a paz caiu sobre ele e nós fomos curados por suas contusões. Todos nós andamos desgarrados, como ovelhas, cada um se extravia por seu caminho; e o Senhor carregou sobre ele a iniqüidade de todos nós” (Is 53,4-6). Jesus, cheio de caridade, de boa vontade, se ofereceu, sem réplica, a executar a vontade do Padre, que queria vê-lo dilacerado pelos carnífices a seu bel-prazer: “Foi oferecido porque ele mesmo o quis e não abriu sua boca... e, como um cordeiro diante do que o tosquia, não abriu sua boca” (Is 53,7). Como um cordeiro que se deixa tosar sem se lamentar, assim nosso amoroso Salvador em sua paixão deixou-se tosar, isto é, arrancar-lhe a pele sem abrir a boca. Que obrigação tinha ele de satisfazer por nossos pecados? Nenhuma, e contudo quis sobrecarregar-se deles para livrar-nos da condenação eterna. Cada um de nós, pois, tem obrigação de ser-lhe grato e dizer-lhe: “Vós, porém, livrastes a minha alma para que ela não perecesse; lançastes para trás de vossas costas todos os meus pecados” (Is 38,17).
E assim fazendo-se Jesus voluntariamente fiador de todas as nossas dívidas, por sua bondade, quis sacrificar tudo por nós, até dar a vida entre as dores da cruz, como ele mesmo o atesta em S. João: “Eu ponho minha vida... ninguém a tira de mim, mas eu de mim mesmo a ponho” (Jo 10,17).

Rei dos mártires.

1. S. Ambrósio, falando da paixão de nosso Senhor, escreve que Jesus, nas dores que por nós sofreu, “teve êmulos; nunca, porém, imitadores” (In Lc 22). Procuraram os santos imitar Jesus Cristo nos sofrimentos, para se tornarem semelhantes a ele, mas qual deles chegou a igualá-lo nos seus tormentos? Ele certamente padeceu por nós mais do que todos os penitentes, todos os anacoretas e todos os mártires, pois Deus o encarregou de satisfazer por todos os pecados dos homens ao rigor de sua divina justiça: “E o Senhor pôs sobre ele a iniqüidade de todos nós” (Is 53,2). S. Pedro diz que Jesus “carregou com os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro” (1Pd 2,24) e S. Tomás escreve que Jesus Cristo ao remir-nos não só teve em vista a virtude e o mérito infinito que possuíam as suas dores, mas quis também sofrer uma dor que bastasse para satisfazer plenamente e com rigor por todos os pecados do gênero humano (III q. 46, a. 6). E
S. Boaventura: “Quis sofrer tanta dor como se tivesse feito todos os pecados”! O próprio Deus soube agravar as penas de Jesus que elas fosse proporcionadas ao inteiro pagamento de todas as nossas dívidas, com o que combina o dito de Isaías: “E o Senhor quis triturá-lo na sua enfermidade” (Is 53,10).
“Pelo que se lê na vida dos santos mártires, parece que alguns deles sofreram dores mais acerbas que Jesus Cristo. Mas S.Boaventura diz que as dores de mártir algum poderão ser comparadas em vivacidade às do nosso Salvador, que foram as maiores possíveis na vida presente” (De pass. Cti.). O mesmo é confirmado por S. Tomás. “As dores de Cristo foram as maiores possíveis na vida presente” (III q. 46, a. 6). E S. Lourenço Justiniano diz que Nosso Senhor em cada tormento que sofreu, em razão da acerbidade da dor, experimentou todos os suplícios dos mártires (De agon. Cti.). Tudo isso já o predissera em poucas palavras o rei Davi, quando, falando da pessoa de Cristo, dizia: “Sobre mim se desfechou o teu furor... Sobre mim
passaram as tuas iras (Sl 87,8-17). Assim toda a ira divina concebida contra os nossos pecados foi descarregada sobre a pessoa de Jesus Cristo, tornando-se claro o que dele diz o Apóstolo: “Fez-se por nós
maldito” (Gl 3,13).

2. Até agora temos falado senão unicamente das dores externas de Jesus Cristo. Mas quem poderá explanar as suas dores internas, que sobrepujaram mil vezes as externas? Essas penas internas foram tão acerbas, que no horto de Getsêmani o fizeram suar sangue de todo o seu corpo e afirmar que bastavam para dar-lhe a morte: “Triste está a minha alma até à morte” (Mt 26,38). E se essa tristeza era suficiente para matá-lo, por que não morre? Porque ele mesmo impede a morte, responde S. Tomás, querendo conservar a vida para poder sacrificá-la pouco depois do patíbulo da cruz. Essa tristeza do horto afligiu tão dolorosamente a Jesus Cristo, porque ele a suportou durante sua vida inteira, visto que desde que começou a viver teve sempre diante dos olhos os motivos de sua dor interna. Entre esses motivos, o mais doloroso foi-lhe ver a ingratidão dos homens ao amor que lhes testemunhava na sua paixão.
Apesar de aparecer no horto um anjo a confortá-lo, segundo S. Lucas (22,43), contudo esse conforto em vez de aliviar-lhe a pena mais a acerbou. “O conforto não diminuiu, mas aumentou a dor”, diz o Ven. Beda. O anjo o confortou a padecer com mais ânimo pela salvação do homem, representando-lhe a grandeza do fruto de sua paixão, mas não lhe diminuiu a grandeza da dor. Imediatamente depois da aparição do anjo, escreve o evangelista, Jesus entrou em agonia e suou sangue em abundância, chegando a molhar a terra. (Lc 22,43 e 44).
S. Boaventura afirma que a dor de Jesus chegou ao auge, de maneira que o aflito Senhor ao ver as penas que devia sofrer no fim de sua vida ficou tão espavorido que suplicou a seu Pai que o livrasse desse tormento: “Meu Pai, se for possível, passe de mim este cálice” (Mt 26,39). Isso ele o diz não para se ver livre de tal pena, já que ele se oferecera a sofrê-la espontaneamente: “Foi oferecido porque ele mesmo o quis”, mas para nos fazer compreender a angústia que sentia, submetendo-se a essa morte tão dolorosa para os sentidos. Seguindo, porém, a razão, ele, tanto para secundar a vontade do Pai, como para obter-nos a salvação que tanto desejava, ajuntou imediatamente: “Contudo não se faça como eu quero, mas como vós o
quereis”. E continuou a rezar assim e a resignar-se: “E rezou pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras” (Mt 26,39 e 44).

A vítima.

1. Mas sigamos as predições de Isaías. Ele predisse as bofetadas, as punhadas, os escarros e outros maus tratos que Jesus sofreu na noite que precedeu a sua morte, por meio dos carrascos que o conservaram preso no palácio de Caifás para conduzi-lo na manhã seguinte a Pilatos, a fim de o condenar à morte de cruz: “Eu entreguei o meu corpo aos que me feriam e as minhas faces aos que me arrancavam cabelos da barba; não virei o meu rosto dos que me afrontavam e cuspiam em mim” (Is 50,6). Esses maus tratos foram descritos por S. Marcos, que ajunta que esses algozes, tratando Jesus de falso profeta, escarneceram-no, cobrindo-lhe a face com um pano, dando-lhe punhadas e bofetadas e o importunavam a que profetizasse quem lhe havia batido (Mc 14,65).
Continuando, Isaías fala da morte de Jesus: “Será levado à morte como uma ovelha ao matadouro” (53,7). Lê-se nos Atos dos Apóstolos (8,32) que o eunuco da rainha Candace, lendo esse passo, perguntou a S. Filipe de quem se entendiam essas palavras e o santo explicou-lhe todo o mistério da redenção, operado por Jesus Cristo.
O eunuco então por Deus iluminado quis ser batizado imediatamente. Isaías prediz em seguida o grande fruto que recolheria o mundo da morte do Salvador, devendo ela produzir espiritualmente muitos santos: “Se tiver dado sua alma pelo pecado, verá a sua descendência perdurável... com sua ciência, aquele mesmo justo, meu servo, justificará a muitos (53,10 e 11).

2. Davi também predisse outras circunstâncias mais particulares da paixão de Jesus, especialmente no salmo 21. Aí, afirmou que deveria ter as mãos e os pés atravessados por cravos, podendo-se contar todos os seus ossos (21,18 e 19).Predisse que antes de ser crucificado lhe arrancariam as vestes, que seriam distribuídas entre os carnífices: isso quanto às vestes exteriores, porque a interior, que era inconsútil, deveria ser posta em sorte (v. 19). Essa profecia foi relatada por S. Mateus (c. 27 v. 35) e S. João (c. 19 v. 23). O que escreve S. Mateus das blasfêmias e zombarias dos judeus contra Jesus pregado na cruz: “E os que passavam por ali o blasfemavam, movendo suas cabeças e dizendo: Ah, tu que destróis o templo de Deus e em três dias o reedificas! salva-te a ti mesmo; se és o Filho de Deus, desce da cruz!” Do mesmo modo também os príncipes dos sacerdotes, escarnecendo com os escribas e anciãos, diziam: Salvou a outros e a si mesmo não se pode salvar; se é o rei de Israel, desça agora da cruz e nós creremos nele. Confiou em Deus, livre-o agora se o ama, pois disse: “Que sou o Filho de Deus” (Mt 27,39 a 43), já Davi havia predito com estas palavras: “Todos os que me viam escarneciam de mim, falavam com os lábios e menearam com a cabeça.
Esperou no Senhor, livre-o, salve-o se é que o ama” (Sl 21,8-9).

Abandonado por todos.

1. Predisse ainda Davi o grande tormento que Jesus deveria sofrer na cruz, vendo-se abandonado de todos e até de seus discípulos, afora S. João e a Santíssima Virgem. Esta mãe amorosa com suas presença não diminuía a pena do Filho, mas antes a aumentava, em razão da compaixão que sentia Jesus, vendo-a tão aflita, por causa de sua morte. E assim é que o pobre Senhor nas angústias de sua morte não teve quem o consolasse, o que já foram profetizado por Davi: “Esperei que alguém se entristecesse comigo e ninguém apareceu e esperei que alguém me consolasse e não o achei” (Sl 68,21).
Mas a maior pena de nosso atribulado Redentor foi a de ver-se abandonado até por seu eterno Pai, exclamando então, como já previra Davi: “Deus, olhai para mim! Por que me abandonastes? Os clamores de meus pecados são causa de estar longe de mim a salvação” (Sl 21,2). Como se dissesse: Meu Pai, os pecados dos homens (que chamo meus, porque deles me encarreguei) me impedem de me libertar destas dores, que me dão cabo da vida e vós, meu Deus, por que me abandonais no meio de tantas aflições? A estas palavras de Davi correspondem as de S. Mateus, narrando o que disse Jesus pouco antes de sua morte: “Eli, Eli, lamma sabacthani?” Deus meu, Deus meu, por que me abandonastes? (Mt 27,46).

2. De tudo isso bem se deduz quão injustamente se recusaram os judeus a reconhecer Jesus Cristo como seu Messias e Salvador, por ter ele padecido uma morte tão ignominiosa. Eles, porém, não se dão conta de que se Jesus Cristo, em vez de morrer como réu na cruz, tivesse tido uma morte honrosa e gloriosa aos olhos dos homens, não seria mais o Messias prometido por Deus e predito pelos profetas, os quais muitos séculos antes haviam anunciado que nosso Redentor deveria morrer saciado de dores. “Oferecerá a face ao que o ferir e será saciado de opróbrios” (Lm 3,30). Todas essas humilhações e todos esses sofrimentos de Jesus Cristo, já preditos pelos profetas, não chegaram nem sequer ao conhecido de seus discípulos senão depois de sua ressurreição e ascensão ao céu. “Não tiveram conhecimento destas coisas anteriormente seus discípulos, mas quando Jesus foi glorificado recordaram-se de que essas coisas foram escritas a respeito dele e assim lhe fizeram” (Jo 12,16).

Copiosa redenção.

1. Em suma, com a paixão de Jesus Cristo, suportada com tantas dores e ignomínias, se realizou o que escreveu Davi: “A justiça e a paz se deram o ósculo” (Sl 84,11), pois, pelos merecimentos de Jesus Cristo, os homens obtiveram a paz com Deus e em razão da morte do Redentor a justiça divina ficou satisfeita superabundantemente. Diz-se superabundantemente, porque, para remir-nos, não era necessário que Jesus sofresse tantos tormentos e tantos opróbrios, mas bastava uma só gota de seu sangue, uma simples súplica sua para salvar o mundo inteiro. Ele, porém, para aumentar a nossa confiança e para mais nos inflamar em seu amor, quis que nossa redenção não fosse simplesmente suficiente, mas superabundante, como predisse Davi: “Espere Israel no Senhor, porque no Senhor está a misericórdia e nele se encontra copiosa redenção”
(Sl 129,6). A mesma coisa exprimira Jó quando, falando da pessoa de Cristo, disse: “Oxalá pesassem numa balança os meus pecados, pelos quais mereci a ira e a calamidade que padeço: Ver-se-ia que esta era mais pesada que a areia do mar” (Jó 6,2). Também aqui Jesus por boca de Jó chamou pecados seus e nossos pecados, já que se obrigara a satisfazer por nós, para fazer nossa a sua justiça (st. Ag. s. 21).
Por isso a glossa assim comenta o citado texto de Jó: “Na balança da justiça divina a paixão de Cristo pesa mais que os pecados da natureza humana”. S. Lourenço Justiniano por essa razão encoraja todo pecador realmente arrependido a esperar com certeza o perdão pelos merecimentos de Jesus Cristo, dizendo-lhe: “Mede teus delitos com as aflições que Cristo padeceu”. As vidas de todos os homens não seriam suficientes para satisfazer por um só pecado, mas os tormentos de Jesus Cristo pagaram por todos os nossos delitos. “Ele é a propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 2,2). Isso significa: Pecador, não meças tuas culpas com tua contrição, desde que todas as tuas obras não podem obter-te o perdão; mede-as antes com os sofrimentos de Jesus Cristo e deles espera o perdão, pois teu Redentor pagou abundantemente por ti.

2. Ó Salvador do mundo, nas vossas carnes dilaceradas pelos flagelos, nos espinhos, nos cravos, reconheço o amor que me tendes e a minha ingratidão cumulando-vos de injúrias depois de tanto amor: vosso sangue, porém, é minha esperança, pois, com o preço desse sangue, me livrastes do inferno tantas vezes por mim merecido. Ó Deus, que seria de mim por toda a eternidade, se não tivésseis pensado em salvar-me por meio de vossa morte? Miserável que sou, eu sabia que, perdendo a vossa graça, me condenava a mim mesmo a viver para sempre no desespero e longe de vós no inferno, e assim mesmo ousei muitas vezes voltar-vos as costas. Torno, porém, a repetir: vosso sangue é minha esperança. Oh! tivesse antes morrido e não vos tivesse ofendido. Ó bondade infinita, mereceria ficar cego e vós me iluminastes com nova luz; mereceria ficar mais endurecido e vós me comovestes e compungistes. Agora detesto mais do que a morte os desprezos que vos fiz e sinto um grande desejo de vos amar. Estas graças que de vós recebi asseguram-me que já me perdoastes e que me quereis salvar. Ah, meu Jesus, e quem poderá deixar de amar-vos no futuro e amar alguma coisa fora de vós? Eu vos amo, ó meu Jesus, e em vós confio, aumentai em mim esta confiança e este amor, para que de hoje em diante me esqueça de tudo e não pense senão em amar-vos e dar-vos prazer. Ó Maria, Mãe de Deus, obtende-me que seja fiel a vosso Filho, e a meu Redentor.

Páginas de Vida Cristâ - Pe. Gaspar Bertoni

4/26  -  A LIBERDADE DO PECADO E DO DEMÔNIO 

1. - Dignidade do Cristão

Digam-me, ó irmãos, se verdadeiramente todos já estão livres por aquela nobre liberdade "com que Cristo os quer libertar" (Gl 4, 31). Parece-me ver - perdoem-me ao meu amor este passo avançado - alguns de vocês ainda entre as ignóbeis correntes da sua servidão; enquanto outros - que se crêem livres - os vejo ainda entretidos por uma vã ilusão dos seus próprios adversários, os quais todavia
os rodeiam e os apertam, embora mais de longe.
Agora eu lhes pergunto: Quem são vocês? Não olhem ao redor e fora de vocês. Entrem dentro: na sua parte mais sublime. Não são talvez uma imagem claríssima da Divina Face? Os patrões constituídos por Deus sobre a terra a fim de que todas as criaturas os sirvam? Os próprios céus com sua luz brilhante estão em seu obséquio; e isto pela própria natureza.
Pelas graças - vocês foram elevados à própria ordem da natureza divina que vocês participam. Sejam filhos de Deus. Cristo é seu irmão. São declarados herdeiros de Deus. Suas almas são esposas do Espírito Santo. Não lhes deu ele um penhor riquíssimo de preciosos dons? Não foram destinados Príncipes sublimes do céu para cortejá -las aqui na terra? Que mais? O próprio Filho de Deus não desceu talvez do Céu vestindo sua natureza, para conviver com vocês? E eu poderei ver
com olhos indiferentes, com coração tranqüilo, os patrões da terra, os príncipes dos céus, os filhos de Deus, os herdeiros de Deus, as esposas de Deus, aviltados debaixo da torpe escravidão de seus vis escravos, feitos senhores e tiranos?

2. - O pecado e o demônio
E quem são estes tiranos que subjugaram sua natural liberdade? O pecado, o
demônio.
O que mais horrível que o pecado? Ele se contrapõe às próprias perfeições de Deus, que bem pode dizer que quanto Deus é belo, bom, amável, tanto o pecado é disforme, péssimo, abominável.
O demônio é o eterno inimigo de Deus confirmado no mal, condenado a arder perpetuamente nas chamas, desterrado, banido do céu em que foi criado e galardoado pela divina magnificência do mais sublime lugar entre aquelas celestes delícias. Ingrato, soberbo, voltou-se contra Deus, arrastando na sua ruína, a terça parte daquele belíssimo exército de espíritos tão sublimes; e não domada ainda a sua soberba pela altíssima humilhação da sua pena, continua a fazer guerra a Deus,
depois de tantas derrotas sempre obstinado, com os impotentes esforços de sua ira, para contrastar na terra o soberano domínio e a glória.
É implacável inimigo, também do homem, que substituído para ocupar
aqueles lúcidos tronos dos quais ele foi deposto, tornou se o objeto mais queixoso
da sua inveja, do seu desespero.
Tentou no primeiro homem, com um só golpe, precipitar todos nós da bema venturada sorte na sua condenação; e se fomos pela Benignidade do nosso salvador recuperados para futuras esperanças, perdemos porém a felicidade terrena, inundando a terra uma formidável cheia de males. "Pela inveja do Demônio entrou a morte no mundo"' (Sab 2, 34).
Não satisfeito com isto, rodeia cada um de nós com particulares insídias, renova a cada momento seus assaltos, reforça os assédios; e intolerante no seu vergonhoso destino - pelo qual sua fronte soberba deve um dia ser pisada pelos
nossos pés - se esforça com artes, ilusões, violências para nos envolver no mesmo opróbrio, nos arrastar à sua perdição.

3. - A escravidão do pecado e do demônio
E se poderá ver sem lágrimas um mostro tão horroroso de malícia, um inimigo tão injusto de Deus e das nossas almas, assumir orgulho, subir no trono, exercer tirania? E onde mais? No seu coração. Naquele mesmo coração onde antes, quase um templo eleito, habitava Deus com nobre cortejo de seus dons e de santas virtudes. Oh! terrível mudança que se fez em vocês! Antes, sua alma decorada com a presença do Senhor dos Céus; agora, deturpada pela habitação infame dos escravos mais vis do inferno. Antes, reverenciada, amada pelos Anjos como filha e esposa do seu Rei, agora, abominada, confundida como serva, como prostituta.

4. - Degradação da alma no pecado
Mas isto é pouco. Considerem, ó míseros escravos do pecado e do demônio, a ignominiosa maneira com que os trata o seu patrão. Não só os faz servir ao seu fausto quase como bestas as mais vis de sua estrebaria, mas - isto que é inaudito e quase incrível se não se visse com os olhos - os transforma e os muda em bestas; aliás os desnatura tanto que os coloca mais embaixo.
Julguem vocês mesmos. Olhem aquele avarento, aquele iracundo. Enquanto os próprios animais respeitam os da sua espécie e vivem em paz com eles, o avarento, o iracundo, justamente com seus próximos, usam as maiores ferocidades.
Olhem aquele homem libidinoso, se é mais que um jumento! Olhem aquele jovem impudico, seus atos, sua feição; olhem aquela mulher impudente, aquela donzela lasciva... Vocês ficam envergonhados e quase enfadados contra mim. E não ficam aliás envergonhados ao reconhecer em você a sua vergonha? Ficam envergonhados pelas minhas palavras; não ficam envergonhados pelas suas ações!
Onde está a generosa e nobre índole do seu ânimo? Onde está o amor inato da sua natural liberdade?

5 - Deus está com vocês; basta só um "quero" para reconquistar a liberdade.
Eia pois! Reconheçam quem lhes fala; reconheçam em mim um ministro de Sua divina Majestade à qual indignamente sirvo e em cujo nome cumpro solene embaixada junto de vocês. Eis quanto Sua divina Majestade se compraz em prometer por meu intermédio a quantos entre você estão confundidos e arrependidos de sua ignominiosa escravidão, eficazmente desejam a restituição do
seu grau, da sua glória, da sua liberdade.
Irmãos, basta só um "quero" que cada um de vocês diga com toda eficácia do coração; e vocês ficarão livres, acorrendo em seu auxilio a própria onipotência de Deus. Não temam seus adversários que Deus está com vocês. Não temam suas fraquezas, se Deus está com vocês. Não temam suas fraquezas, se Deus está com vocês. Resolvam, determinem, proponham. Já o glorioso triunfador, Cristo Jesus, ressuscitou depois de haver vencido com sua morte o pecado, e o demônio.
Acrescentem a glória do seu triunfo fazendo que Ele vença o pecado, o demônio, também em cada um de vós em particular.
Oh! a festa solene que se fará no Céu! Oh! a paz que passará a gozar na terra a vossa boa vontade! Oh! as abundantes consolações que o seu amoroso Senhor lhes preparou! Oh! as doces congratulações que nós também faremos com vocês!
Eia pois, acompanhem-me com o coração, que eu lhes precederei com a língua: Maldito pecado, eu o detesto! Maldito demônio, eu o renuncio! Malditas correntes de modas desonestas, de imodestos vestidos, de devassidões, de embriaguez, de lascívias, de danças imorais, de amores infames, de avarezas, de fausto, de ambições, de vaidades! Malditas correntes, odiosos vínculos, abomináveis grilhões, eu os rompo neste dia, eu os rompo para sempre, e a Vós, meu Jesus, meu Deus, me submeto, me entrego, me abandono.

21 de julho de 2014

Homilia 5º Domingo depois de Pentecostes - Pe. Luiz Fernando Pasquotto IBP - (13 de julho)

Sermão do V Domingo depois de Pentecostes

"Se a vossa justiça não for mais excelente do que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus".
(S. Mateus 5, 22)
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria.
Todos os vícios, defeitos e imperfeições são filhos e discípulos de nosso amor próprio e do demônio. Ambos, nosso amor próprio e o demônio, se esforçam por cobrir os vícios e defeitos com o nome de virtudes, para enganar os que os têm.
De fato, muitos modos de agir e muitas intenções parecem, num primeiro olhar, virtuosos. A pessoa que as tem está muito satisfeita com eles. Mas quando chega a ocasião da virtude ser testada, aí então ela se mostra falsa. Por isso os autores espirituais comparão estas falsas virtudes com o ouro ou a prata falsificados, aos quais foi acrescentado uma liga de metal ordinário e sem valor, mas com tal habilidade que eles ainda parecem ser ouro ou prata puros. Porém, quando colocados no fogo, o ouro e a prata se separam dos outros metais sem valor aos quais estavam unidos, e deixam a descoberto a liga que os falsificava.
Agora, assim como os falsificadores buscam falsificar aquilo que é mais precioso, prata e ouro, para compensar todo o trabalho e risco que têm, também o demônio se esforça por falsificar a caridade, que é a maior das virtudes, e sua prática na pessoa do próximo. Consideraremos aqui as falsas caridades que existem, porque no Evangelho de hoje Nosso Senhor pede que nossa caridade seja excelente, sem mistura de outras impurezas.
Primeiramente, não pode ser verdadeira caridade o amor que têm entre si os cúmplices e cooperadores em qualquer ofensa contra Deus. Tão longe está de ser verdadeiro amor que, antes, é verdadeira inimizade. O Sagrada Escritura se refere a eles nos seguintes termos: "A reunião dos pecadores é como um emaranhado de estopa e eles terminarão consumidos pelo fogo" (Eclesiástico 21, 9). De fato, quando o fogo da malícia pega em um deles, todos os outros se queimam juntamente; e como nesta vida foram companheiros na culpa, serão companheiros, na outra, dos tormentos.
Não é caridade verdadeira os sinais exteriores de afeto, de benefícios, as correspondências, as visitas, as conversas familiares que têm os que vivem em pecado grave. Pode ser uma amizade natural, como existe também entre os que não são católicos, mas não é verdadeira caridade sobrenatural. O motivo é que não há fruto sem raíz, e o amor para com o próximo procede do amor para com Deus. É amar a Deus no próximo. Ora, se a alma não é amiga de Deus, não pode ter verdadeira caridade para com o próximo. Mais: o preceito da caridade manda que amemos ao nosso próximo como nos amamos a nós mesmos; ora, quem está em pecado mortal não se ama a si mesmo, pois ama ao pecado que é o seu maior mal: "Quem ama a iniquidade odeia a sua alma" (Salmo 10, 6). Tais demonstrações de amizade podem ser honestas, louváveis e necessárias, pertencendo a outras espécies de virtudes morais. Porém, não serão, naqueles que vivem em pecado, verdadeira caridade sobrenatural.
Existe uma outra falsificação da caridade que é mais difícil de discernir, e que está muitas vezes presente naqueles que são amigos de Deus, mas que não se fundamenta em Deus. São Paulo, ao falar de qual era a sua caridade para com o próximo, diz: "Deus é testemunha de que vos amo a todos nas entranhas de Cristo" (Filipenses 2, 8).
Temos aqui três sinais que caracterizam a caridade: 1) Ela deve ser para com todos. Se nosso afeto se extende a alguns próximos e exclui outros, então não se fundamenta em Deus. Deus amanda amar a todos, inclusive os inimigos: "Vos amo a todos"2) É uma amizade que não foge da presença de Deus mas, ao contrário, a busca; ninguém que ama o próximo por amor a Deus tem medo de o fazer diante de Deus: "Deus é testemunha"; 3) É amizade que não nasce das próprias entranhas, mas das de Jesus Cristo, isto é, que nos faz amar o próximo não com amor humano, mas espiritual: "nas entranhas de Cristo".
O que significa amar nosso próximo nas entranhas de Cristo?
Primeiramente, se ao mesmo tempo em que lhe desejo bens materiais me entristeço também com seus males espirituais, pecados e imperfeições, que acendem em mim o zelo e me faz acudi-lo com esmolas espirituais de correção fraterna e de admoestações.
Depois, assim como os frutos de uma árvore serão bons se ela se nutre em boa terra, assim também devo ver do que se alimenta o amor que tenho pelo meu próximo. Se me interesso por ele porque é jovem e simpático; por suas qualidades naturais; por sua capacidade de manter uma conversa; por guardar segredo dos erros que cometo, sendo cúmplice deles; por concordar sempre com o que digo; porque posso fazer diante dele ações que são menos dignas ou que não são dignas de Deus; porque passa seu tempo comigo; porque divide comigo algum bem; porque se junta comigo contra um inimigo comum e isso faz com que nossos defeitos fiquem menos visíveis; porque me prefere mais do que a outras pessoas; então, em todos estes casos este amor não é verdadeira caridade sobrenatural, mas amor pecaminoso ou, no melhor dos casos, meramente natural.
Ao contrário, se o amor se alimenta das virtudes que o outro tem, como humildade, modéstia, espírito de sacrifício, obediência, pobreza; nas ajudas que me dá para evitar o pecado; nos bons conselhos que me dá; porque vejo que é espírito de oração, que reza muito e fala pouco; que cumpre bem suas obrigações e combate até as menores imperfeições; então amo ao meu próximo nas entranhas de Jesus Cristo.
Podemos acrecentar um último sinal: quando falo com alguém, ou se ela me vem à memória, e isso me faz crescer na piedade e na devoção, então é sinal de ser amor espiritual. Mas se vejo em mim os efeitos contrários, ou mesmo se não há em mim fruto algum, me vendo tão devoto ao conversar com uma pessoa quanto se não conversasse com ela, então é sinal de que é amor terreno.
O motivo de tudo isso é o princípio seguinte: "as coisas semelhantes, quando se juntam, reforçam-se mutuamente, crescem e se conservam melhor". Muitas brazas duram mais se estão juntas; dois homens sábios que vivem juntos tornam-se mais sábios.
Por estes critérios já podemos ver que, se provarmos o metal de nossa caridade, muitas vezes se verá que a maior parte não é ouro.
Porém, Nosso Senhor disse que nossa justiça deve ser mais excelente do que a dos fariseus. Os fariseus convidavam outros para banquetes em suas casas, na esperança de também receber outro convite como retribuição; também se uniam porque concordavam entre si nos juízos que tinham; também viviam em pecado mas manifestavam entre si sinais exteriores de afeto e de amabilidade; também criticavam Nosso Senhor para que seus vícios ficassem menos visíveis. Como ser mais excelentes que eles, então?
Primeiramente, devemos retificar nossas intenções sempre que podemos, antes de agir. Parar por alguns instantes e se determinar a falar com alguém, ou fazer algo, somente para a maior glória de Deus, durante o tempo necessário e não mais, não por erudição orgulhosa mas para crescer no amor de Deus. Ter, assim, bem diante de nós, o fim último para o qual fomos criados: conhecer, amar e servir a Deus neste mundo, para tê-lo no outro.
Em segundo lugar, praticar a mortificação dos sentidos, dos nossos gostos e opiniões. Se afogamos nossos interesses não lutaremos por eles, porque ninguém lutar para ter o que não deseja. Evidentemente, aqui, falamos de interesses mesquinhos e que não se orientam ao bem das almas. Uma opinião ou convicção que se dirige para a glória de Deus deve ser mantida, sem dúvida. Porém, por causa do amor próprio, corremos o risco de nos enganar nesta avaliação e devemos ter cuidado.
Em terceiro lugar, compreendermos o que é o homem, colocando-o no seu justo lugar. Com isso não buscaremos nos unir a outros, por interesse pessoal, ou querer aparecer. Santo Inácio, nos seus Exercícios Espirituais, nos dá uma meditação que nos ajuda muito a combater nosso amor próprio: "Considerarei quem eu sou (...). Primeiramente, o que sou em comparação a todos os homens? Depois, o que são todos os homens em comparação com todos os anjos e todos os Santos do Paraíso? Em terceiro lugar, quem são todas as criaturas em comparação com Deus? Logo, enfim, o que eu sou? Depois, considerarei toda a corrupção e infecção de meu corpo. Finalmente, me verei como uma úlcera e um abscesso de onde saíram tantos pecados, crimes e sujeiras vergonhosas".
Em quarto lugar, examinar todos os dias nossa consciência, vendo com que afetos, finalidades e inclinações fizemos nossas obras e usamos nossa boca. Devemos prestar atenção para vermos qual foi o peso que predominou em nossas almas nos atos qui fizemos: se foi para as criaturas, para mim mesmo, ou para Deus. O peso da pedra a inclina para baixo. O "peso" do fogo o dirige para o alto. Como diz Santo Agostinho, "o amor que tenho é o meu peso", isto é, é aquilo que me inclina para algo. Se me amo excessivamente, buscarei meus interesses acima dos de Deus. Se amo a Deus sobre todas as coisas, então buscarei Deus em tudo.
Finalmente, pedindo a Deus que sua lei de caridade esteja inscrita nos nossos corações, isto é, nas nossas inteligências, vontades e afetos. A devoção ao Sagrado Coração é um meio excelente de obter essa graça: "Jesus, manso e humilde de coração, fazei o meu coração conforme ao vosso".
Assim nossa caridade será perfeita. Sem mistura de impurezas, será mais excelente do que a dos fariseus e poderemos ouvir de Nosso Senhor: "Vinde, benditos de meu Pai, receber a recompensa que vos foi preparada desde o começo do mundo".
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.
Escrito por Padre Luiz Fernando Pasquotto em Quarta Julho 16, 2014 
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Pensamentos consoladores de São Francisco de Sales.



4/5  -  Pensamentos consoladores acerca da rapidez do tempo.


Os anos temporais passam; os seus meses reduzem-se em semanas; as semanas em dias, os dias a horas; as horas a momentos, que são os únicos que possuímos, mas que não gozamos senão à medida que acabam e tornam a nossa natureza mortal, a qual no entanto deve para nos ser amável; e visto esta vida estar cheia de miséria, não poderíamos ter consolação mais sólida do que a de estarmos certos de que aquela se vai dissipando para dar lugar à santa eternidade, que nos esta preparada na abundância da misericórdia de Deus, e à qual a nossa alma aspira incessantemente por contínuos pensamentos que sua própria natureza lhe sugere, embora não possa esperar senão por outro pensamento mais elevado que o autor da natureza sobre ela derrama.
Eu não estou atento a eternidade senão com muita suavidade; porque, digo eu, como é que a minha alma poderá estender o seu pensamento a este infinito se não tivesse alguma proporção com ele? Porém, quando conheço que o meu desejo corre com o meu pensamento para esta mesma eternidade, a minha alegria cresce sobremaneira; porque sei que não desejamos com um verdadeiro desejo senão coisas possíveis. O meu desejo certificar-me pois de que posso ter a eternidade; que me resta pois senão esperar possuí-la? E isto concede-me pela infinita bondade daquele que não criaria uma alma capaz de pensar e tender para a eternidade se não quisesse dar-lhe os meios de a conseguir.
Digamos pois muitas vezes: tudo passa, e após poucos dias desta vida mortal que nos restam, virá a infinita eternidade. Pouco nos importa que tenhamos aqui comodidades ou não, contanto que sejamos felizes por toda a eternidade.Seja esta eternidade santa que nos espera, a nossa consolação, e o sermos cristãos, membros de Jesus Cristo, regenerados com o seu sangue, porque só consiste a nossa glória em este divino Salvador ter morrido por nós.
Uma alma grande eleva os seus melhores pensamentos, afetos e desejos ao infinito da eternidade, e visto que é eterna, reputa em pouco o que não é; tem por pequeno o que não é infinito, e elevando-se acima de todas as delícias, ou antes dos vís joguetes que esta vida nos apresenta, tem os olhos fixos na imensidade dos bens e anos eterno.
Oh! quanto é desejável a eternidade comparada com estas miseráveis e perecíveis vicissitudes! Deixemos correr o tempo, com o qual corremos a pouco e pouco para sermos transformados na glória dos filhos de Deus. Ah! quando penso como empreguei o tempo de Deus, afligi-me o pensar que ele não me queira dar a sua eternidade, pois que só a dará aos que empregaram bem o tempo.
Oh! Deus! - os anos correm imperceptivelmente uns após outros; e terminando a sua duração, terminam a vossa vida mortal, e acabando, acabam a nossa vida.
Oh! como é incomparável mais amável a eternidade, visto que a sua duração tem fim e que os seus dias são sem noite, e os seus contentamentos invariáveis!
Possais vós possuir este bem admirável da santa eternidade em tão alto grau quanto eu vos desejo! Que felicidade para a minha alma se Deus concedendo-lhe misericórdia, lhe patenteasse esta doçura.

20 de julho de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni.

3/26  -   QUÃO FELIZ É O NOSSO ESTADO NA LEI EVANGÉLICA.

1. - Felizes os olhos que vêem o que vocês vêem.
"Felizes os olhos que vêem o que vocês vêem" (Mt 16, 13.). Estas são as palavras de Cristo aos seus discípulos, não só os presentes, como eram então os Apóstolos e os que o seguiam, mas também os futuros, em cujo número também nós somos chamados.
A nossa sorte não é realmente em nada inferior à deles. Que viam eles, porque foram chamados "felizes"? E o que vemos nós para que não possamos ser como eles também "felizes"? "Seus olhos viam o seu Mestre, segundo o que foi profetizado por Isaías. Mas ao mesmo tempo foi também predito a toda a futura Igreja, "que jamais será tirado dela o seu Mestre (Is 30, 20). E a nós também Cristo prometeu: "Eu estarei com vocês todos os dias até a consumação dos séculos" (Mt
28, 20).
Talvez os "que segundo a carne conheceram o Cristo", serão mais felizes do que nós, "que segundo a carne já não o conhecemos"? Ao contrário eu leio: "Felizes os que não viram e creram" (Jo 20, 29). Como, portanto, "felizes os olhos que vêem"?
Existem dois modos com que se pode ver Cristo: pelos sentidos e pela fé. No primeiro modo Cristo foi visto também pelos seus inimigos; e tanto é falso que esta visão tenha podido fazer-lhes bem, que ao contrário os fez mais miseráveis, dizendo Ele mesmo: "Se eu não viesse e não lhes tivesse falado, não teriam pecado" (Jo 15,22).
Nos dois modos os viram os Apóstolos, e por isso mereceram seus olhos serem chamados felizes. No segundo e mais perfeito o vemos nós agora, isto é, pela fé; e por isso se a nós falta a visão sensível, não somos menos "felizes" que eles.
Consideremos porém brevemente esta nossa felicidade, que consiste em Deus nos "ter chamados à sua luz admirável, junto aos Santos" (1Pd 2, 9) e "por ter iluminado os olhos da nossa mente" (Ef 1, 18) e "justificados os nossos corações por meio da lei da Fé" (Rm 3, 26-27). Vejamos finalmente quanto seja feliz o nosso estado no seu Evangelho e na sua Graça.
Para realçar um tão grande benefício - quase esquecido por muitos - empenha-nos a gratidão que devemos a Deus: o amor da nossa salvação necessariamente nos une a ele para tê-lo e usar sempre em aumento da nossa justiça, para não abusar mais em aumento do nosso suplício.
2. - A condição dos cristãos na lei evangélica é a mais honrosa e digna.
Três coisas concorrem para fazer um homem feliz sobre a terra: honra, riqueza, diversão. Mas que estado jamais foi ou será mais honrado ao mundo do que o nosso?
Eu sei que em louvor da nação Hebréia foi dito pelo Salmista, que "Deus com nenhum outro povo agiu assim, a nenhum deles manifestou os seus mandamentos" (Sl 147, 20) como a ela. Disse também o Apóstolo que aos Hebreus foi confiada a eloqüência divina. Moisés de fato recebeu a Lei por todo aquele povo, escrita por Deus "Sobre tábuas de pedra, e foi tão gloriosa essa 'missão' que os filhos de Israel não podiam olhar o rosto de Moisés pelo grande esplendor que dele saia" (Ef 1, 17-20).
Mas muito inferior que a nossa é essa glória. Pois aquela Lei foi dada a eles num mármore externo; nós a temos escrita internamente nos corações: para eles a letra, para nós o Espírito (2Cor 3, 3, 7).
"Eis - diz Deus por meio de Jeremias falando dos nossos tempos - dias hão de vir - oráculo do Senhor - em que firmarei nova aliança com as casas de Israel e de Judá. Será diferente da que conclui com seus pais no dia em que pela mão os tomei para tirá-los do Egito, aliança que violaram embora eu fosse o esposo deles.
Eis a aliança que, então, farei com a casa de Israel - oráculo do Senhor: - Incutir-lhe ei a minha lei; gravá-la-ei em seu coração. Serei o seu Deus e Israel será o meu povo. Então ninguém terá encargo de instruir seu próximo ou irmão, dizendo: 'Aprende a conhecer o Senhor", porque todos me conhecerão, grandes e pequenos - oráculo do Senhor, - pois a todos perdoarei as faltas, sem guardar nenhuma lembrança de seus pecados" (Is 31, 31-34).
3. - A nova lei é a própria graça do Espírito Santo.
Para maior clareza do assunto não será talvez inoportuno apresentar uma doutrina muito clara do Doutor Angélico, que antes foi de Santo Agostinho. Na Lei evangélica deve-se considerar duas coisas: "A principal é a graça do Espírito Santo e se dá por meio da fé em Cristo. A segunda é letra, ou seja a escritura do S. Evangelho, na qual se contêm as coisas pertencentes à graça, ou como disposição para recebê-la, ou como meio em relação ao uso da mesma. (2.)
Como dispositivas quanto ao intelecto pela fé, por meio da qual se recebe a graça, se contêm no Evangelho aquelas coisas que dizem respeito a manifestar a Humanidade de Cristo; quanto ao afeto, se contém no Evangelho aquelas coisas que dizem respeito ao desprezo do mundo, pelo qual o homem se torna capaz da graça do Espírito Santo; pois "o mundo - isto é os amantes do mundo - não pode receber o Espírito Santo", como se lê em S. João (Santo Tomás, citando Jo 14, 17).
O uso, pois, desta graça espiritual está nas obras da virtude, às quais de muitas maneiras a Escritura no Novo Testamento exorta os fiéis.
Ora assim como toda outra coisa se define e parece que seja constituída por aquilo que nela é principal, como a "razão" ao homem, assim "principalmente a nova Lei é a própria Graça do Espírito Santo dada aos fiéis; daí o Apóstolo a chama "Lei de Fé, Lei de Espírito e de vida em Cristo Jesus" (Rm 3, 27; 8, 2).
E o acima louvado S. Agostinho: "Quais são - diz - estas leis de Deus pelo próprio Deus escritas nos corações, se não a própria presença do Espírito Santo?". Eis até que ponto se eleva a "glória" do nosso estado.
4. - Não pode haver estado de maior excelência e dignidade.
Não só não houve jamais estado no mundo mais digno do que este, mas o que é mais - não pode nem menos existir, como dizia no princípio. Pois "tanto é mais perfeita uma coisa quanto mais próxima do fim último. E nenhuma coisa pode ser mais próxima do fim último do que aquele que ao último fim introduz imediatamente.
Mas isto é justamente o que faz a Lei nova segundo o que diz o Apóstolo: "Tendo portanto, ó Irmãos, confiança no intróito dos Santos no Sangue de Cristo, aproximemo-nos pelo caminho em que ele nos iniciou". Daí que na presente vida não pode haver estado de excelência e dignidade maiores.
5. - A condição dos cristãos na Lei Evangélica é a mais rica promessa de uma felicidade não terrena, mas celeste.
Vejamos se este estado - tão ilustre pela honra - seja abundante igualmente pela riqueza. Falando dela o Apóstolo aos Efésios: "Rogo ao Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória vos dê um espírito de sabedoria que vos revele o conhecimento dele; que ilumine os olhos do vosso coração, para que compreendais a que esperança fostes chamados, quão rica e gloriosa é a herança que Ele reserva aos santos, e qual a suprema grandeza de seu poder para conosco, que abraçamos
a fé" (Ef, 17-20).
Os Hebreus tiveram na antiga Lei promessas temporais, riquezas terrenas, opulências visíveis; uma terra fértil onde corria leite e mel, ricos espólios, copiosos tributos dos seus inimigos vencidos, os palácios de seus reis repletos de preciosos tesouros de ouro e de gemas e de tudo que é mais raro no mundo. E para ele estava bem, pois eram "servos"; assim Deus pagará prontamente cada dia seu salário.
Nós somos "filhos"; e como tais nosso Pai celeste não nos oferece agora o salário diário que não se convém, mas nos prepara a herança que nos convém.
Talvez porque o mercenário pode mostrar na mão algum pagamento, diremos que ele é mais rico do que o filho que aguarda a herança, ao qual o Pai diz: Tudo que é meu é teu? Não certamente.
E se existe alguma mesmo entre os cristãos que nesta vida estime mais alguma coisa do bem presente que a glória futura, eu não me espanto, dizendo S. Agostinho, que na lei evangélica existem muitíssimos que, cristãos de nome e não de espírito, vivem debaixo da Lei, e não da Graça, e "pertencem ao Antigo Testamento que gera na escravidão".
Aqueles, pois, que pertencem ao Novo Testamento entendem bem e gostam de ouvir o que a cada um deles grita o mesmo santo Doutor: "Não foi chamados a abraçar a terra, mas a conquistar o céu, não a uma felicidade terrena, mas celeste, não a sucessos temporais a prosperidades fugazes, mas a uma vida eterna com os Anjos". Antes de boa vontade ouvem ainda o que diz S. Paulo: "Ninguém se amedronte em meio às tribulações presentes, pois vós bem sabeis que esta é a nossa sorte" (I TS, 3, 3). Que é o mesmo que dizer: Isto é aquilo que agora nos convém.
6. - A riqueza dos cristãos é também atual pela posse de eminentes bens.
A nossa riqueza não é somente direito à futura herança; temos aqui também a posse de muitos eminentes bens.
Quem de fato dirá que não possui uma grande riqueza, quem possui uma coisa "da qual não se pode saber o valor, a cujo confronto não podem se manter o ouro ou a prata, e que supera em valor quanto mais são as coisas excelsas em valor e admiração dos homens?" E esta é a "sabedoria" (Jó 27, 15; Pr 8, 2; Sb 7, 9); que por outro lado é assim própria de todos aqueles que neste estado receberam o "Espírito e a infusão dos seis dons ou da unção do próprio Espírito", segundo o que
diz S. João: "A unção vos ensina todas as coisas" (1Jo 2, 27) .
Que direi pois da "caridade infundida em nossos corações?" (Rm 5, 5) O Anjo do Apocalipse falando desta ao Anjo de Laodicéia, que de fato era pobre, embora abastado de riquezas temporais, assim se exprime: Pois dizes: sou rico, faço bons negócios, de nada necessito - e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que compres de mim outro provado ao fogo, para ficares rico" (Ap3, 17).
E em outro lugar: "se alguém desse toda a riqueza de sua casa em troca do Amor, só obteria desprezo" (Ct 8, 7) ; tanto é inestimável.
Bem pois se pode dizer com o Apóstolo a todos os que são fiéis da Nova Lei em Cristo: "Nele fostes ricamente contemplados com todos os dons... Assim, enquanto aguardais a manifestação de nosso senhor Jesus Cristo, não vos falta dom algum" (1Cor 1, 5, 7).
7. - A condição dos cristãos na Lei Evangélica é a mais agradável.
Resta agora que para provar completa a felicidade de um estado tão nobre e rico, eu passe a demonstrar ainda o doce, o "agradável".
"Vinde a mim vós todos, assim suavemente nos convida o Cristo, vinde a mim vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós, porque meu jugo é suave e meu peso é leve" (Mt 11, 2 , 30). Que é justamente o que diz S. João: "Os preceitos dele não são penosos" (1Jo 5, 3). "Não são penosos - comenta S. Agostinho - a quem ama, embora sejam graves a quem não ama" (7). E a razão é clara, porque - como diz o Filósofo - "fazer aquilo que faz o justo é fácil, mas fazer do modo como faz o justo - isto é com amor e prontidão - é dificílimo para quem não tem a justiça" (Id).
E justamente "na justiça, na paz, na alegria do Espírito Santo está o reino de Deus", atesta S. Paulo (Rm 14, 17). A quem ama, pois, tudo é suave, tudo é fácil.
De modo que "as próprias adversidades - continua S. Tomás - que sofrem os observadores da nova Lei, embora não sejam impostas pela própria Lei, todavia pelo amor no qual consiste a própria Lei, facilmente são toleráveis" (Rm 8, 15). De resto o que há de mais doce, mais agradável, mais alegre que o amor? Que coisa mais suave que ser guiados e dirigidos pelo Espírito de Amor? Este é o especial sinal característico daqueles que na nova Lei receberam a "adoção dos filhos"; pois "os que agem pelo espírito de Deus, estes são Filhos de Deus" (Rm 8, 14).
"Ó quão suave é o teu Espírito, ó Senhor", exclamava o Salmista" (Sb 12, 1).
Que coisa mais agradável que agir conforme o instinto da graça interior, a qual nos inclina a agir retamente e nos faz livremente agir como convém à graça, e evitar tudo o que a ele repugna. Donde se possa dizer que "onde existe o Espírito de Deus, aí está a liberdade" (2Cor 2, 17). Liberdade verdadeira, liberdade santa, liberdade "pela qual Cristo nos libertou segundo o juramento que Deus havia feito aos antigos Pais; que sem temor, livres das mãos dos nossos inimigos, sirvamos a Ele em santidade e justiça diante Dele todos os dias da nossa vida" (Gl 4, ,31; Lc 10, 17).
Este é o estado feliz de quem "habita no monte santo de Deus" (Lc 10, 23), isto é na sua Igreja, plantada com o sangue do seu Filho, que pertence à Lei nova do seu Evangelho. Feliz pela honra, feliz pela riqueza, feliz pelo amor. "Felizes os olhos que vêem o que vocês vêem".

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 31ª Parte

VOLUME II

1. Quanto agrada a Jesus Cristo que nós nos lembremos continuamente de sua paixão e da morte ignominiosa que por nós sofreu, muito bem se deduz de haver ele instituído o Santíssimo Sacramento do altar com o fito de conservar sempre viva em nós a memória do amor que nos patenteou, sacrificando-se na cruz por nossa salvação.
Já sabemos que na noite anterior à sua morte ele instituiu este sacramento de amor e depois de ter dado seu corpo aos discípulos, disselhes — e na pessoa deles a nós todos — que ao receberem a santa comunhão se recordassem do quanto ele por nós padeceu: “Todas as vezes que comerdes deste pão e beber de deste cálice, anunciareis a morte do Senhor” (1Cor 11,26). Por isso a santa Igreja, na missa, depois da consagração , ordena ao celebrante que diga em nome de Jesus Cristo: “Todas as vezes que fizerdes isto, fazei-o em memória de mim”. E S. Tomás escreve: “Para que permanecesse sempre viva entre nós a memória de tão grande benefício, deixou seu corpo para ser tomado como alimento” (Op. 57). E continua o santo a dizer que por meio de um tal sacramento se conserva a memória do amor imenso que Jesus Cristo nos demonstrou na sua paixão.
2. Se alguém padecesse por seu amigo injúrias e ferimentos e soubesse que o amigo, quando se falava sobre tal acontecimento nem sequer nisso queria pensar e até costumava dizer: falemos de outra coisa — que dor não sentiria vendo o desconhecimento de um tal ingrato? Ao contrário, quanto se consolaria se soubesse que o amigo reconhece dever-lhe uma eterna obrigação e que disso sempre se recorda e se lhe refere sempre com ternura e lágrimas? Por isso é que todos os santos, sabendo a satisfação que causa a Jesus Cristo quem se recorda continuamente de sua paixão, estão quase sempre ocupados em meditar as dores e os desprezos que sofreu o amantíssimo Redentor em toda a sua vida e particularmente na sua morte. S. Agostinho escreve que as almas não podem se ocupar com coisa mais salutar que meditar cotidianamente na paixão do Senhor.
Deus revelou a um santo anacoreta que não há exercício mais próprio para inflamar os corações com o amor divino do que o meditar na morte de Jesus Cristo. E a S. Gertrudes foi revelado, segundo Blósio, que todo aquele que contempla com devoção o crucifixo é tantas vezes olhado amorosamente por Jesus quantas ele o contempla. Ajunta Blósio que o meditar ou ler qualquer coisa sobre a paixão traz-nos maior bem que qualquer outro exercício de piedade. Por isso escreve S. Boaventura: “A paixão amável que diviniza quem a medita” (Stim. div. amor. p. 1. c. 1). E falando das chagas do crucifixo, diz que são chagas que ferem os mais duros corações e inflamam no amor divino as almas mais geladas.
3. Narra-se na vida do Beato Bernardo de Corleone, capuchinho, que desejando seus confrades instruí-lo na leitura foi aconselhar-se com seu crucifixo e o Senhor lhe respondeu: Que ler, que livros! Teu livro quero ser eu crucificado, no qual lerás o amor que te consagro. Jesus crucificado era igualmente o livro predileto de S. Filipe Benício.
Ao morrer, o santo pediu que lhe dessem seu livro. Os assistentes não sabiam a que livro se referia; Frei Ubaldo, porém, trouxe-lhe a imagem do crucificado e então exclamou o santo: Este é o meu livro, e beijando as sagradas chagas entregou a Deus sua bendita alma.
Nas minhas obras espirituais escrevi repetidas vezes sobre a paixão de Jesus Cristo: julgo, contudo, não ser inútil às almas piedosas ajuntar aqui muitas outras coisas e reflexões, que li em diversos livros ou que me vieram ao espírito. Eu quis aqui escrevê-las para proveito dos outros, mas ainda mais para meu próprio proveito, pois, ao escrever este livrinho, acho-me perto da morte, na idade de 77 anos, e por isso quis reproduzir estas considerações para aparelhar-me para o dia das contas. E de fato eu faço minhas pobres meditações sobre esse assunto, lendo muito a miúdo qualquer trecho, para, quando chegar a hora extrema de minha vida, achar-me acostumado a ter diante dos olhos Jesus crucificado, que é toda a minha esperança: dessa forma conto ter, então, a sorte de entregar minha alma nas suas mãos. Entremos, pois, nas tais reflexões.

O Salvador.

1. Adão peca e se rebela contra Deus e sendo ele o primeiro homem, pai de todos os homens, perdeu-se com todo o gênero humano.
A injúria foi feita a Deus, motivo por que nem Adão nem os outros homens, com todos os sacrifícios, mesmo oferecendo sua própria vida, poderiam dar uma digna satisfação à Majestade divina; para aplacá-la plenamente era necessário que uma pessoa divina satisfizesse a justiça divina. E eis que o Filho de Deus, movido à compaixão pelos homens, arrastado pelos extremos de sua misericórdia, se oferece a revestir-se da carne humana e a morrer pelos homens, para assim dar a Deus uma completa satisfação por todos os seus pecados e obter-lhes a graça divina que perderam.

Desce, pois, o amoroso Redentor a esta terra e fazendo-se homem quer curar os danos que o pecado causara ao homem. Portanto, quer não só com seus ensinamentos mas também com os exemplos de sua santa vida induzir os homens a observar os preceitos divinos e por essa maneira conseguir a vida eterna. Para esse fim Jesus Cristo renunciou a todas as honras, às delícias e riquezas de que podia gozar neste mundo e que lhe eram devidas como ao Senhor do mundo, e escolhe uma vida humilde, pobre e atribulada até morrer de dor sobre uma cruz. Foi um grande erro dos judeus pensar que o Messias devia vir à terra para triunfar de todos os seus inimigos com o poder das armas e, depois de os ter debelado e adquirido o domínio do mundo inteiro, deveria tornar opulentos e gloriosos os seus sequazes. Mas se o Messias fosse qual os judeus o desejavam, príncipe soberano e honrado de todos os homens como senhor de todo o mundo, não seria o Redentor prometido por Deus e predito pelos profetas. É o que ele mesmo declara quando responde a Pilatos:
“O meu reino não é deste mundo” (Jo 18,36). Por esse motivo repreende S. Fulgêncio a Herodes por ter tão grande temor de ser privado do seu reino pelo Salvador, quando ele não viera para vencer o rei pela guerra, mas a conquistá-lo com sua morte (Serm. 5 de Epiph.).

2. Dois foram os erros dos judeus a respeito do Redentor esperado: o primeiro foi que, quando os profetas falavam dos bens espirituais e eternos, eles o interpretavam dos bens terrenos e temporais.“E a fé reinará nos teus tempos; a sabedoria e a ciência serão as riquezas da salvação; o temor do Senhor esse é o teu tesouro” (Is 33,6).
Eis os bens prometidos pelo Redentor, a fé, a ciência das virtudes, o santo temor, eis as riquezas da prometida salvação. Além disso promete que dará remédio aos penitentes, perdão aos pecadores e liberdade aos cativos dos demônios: “Enviou-me para evangelizar os mansos, para curar os contritos de coração e pregar remissão aos cativos e soltura aos encarcerados” (Is 61,1).

O outro erro dos judeus foi que pretenderam entender da primeira vinda do Salvador o que fora predito pelos profetas da segunda vinda, para julgar o mundo no fim dos séculos. Assim, escreve Davi do futuro Messias que ele deverá vencer os príncipes da terra e abater a soberba de muitos e com a força da espada subjugar toda a terra (Sl 109,6). E o profeta Jeremias escreve: “A espada do Senhor devorará a terra de um extremo a outro” (Lm 12,12). Isso, porém, entende-se da segunda vinda, quando vier como juiz a condenar os malvados. Falando, porém, da primeira vinda, na qual deveria consumar a obra da redenção, mui claramente predisseram os profetas que o Redentor levaria neste mundo uma vida pobre e desprezada. Eis o que escreve o profeta Zacarias, falando da vida abjeta de Jesus Cristo: “Eis que o teu rei virá a ti, justo e salvador; ele é pobre e vem montado sobre uma jumenta e sobre o potrinho da jumenta” (Zc 9,9).

Esta profecia realizou-se plenamente quando Jesus entrou em Jerusalém, assentado sobre um jumento, sendo recebido com todas as honras, como o Messias desejado, segundo o testemunho de S. João (Jo 12,14). Também sabemos que ele foi pobre desde o seu nascimento, tendo vindo a este mundo em Belém, lugar desprezado, e numa manjedoura: “E tu, Belém Efrata, tu és pequenina entre os milhares de Judá, mas de ti é que há de sair aquele que há de reinar em Israel e cuja geração é desde o princípio, desde os dias da eternidade” (Mq 5,2). E essa profecia foi assinalada por S. Mateus (2,6) e S. João (7,42). Além disso escreve o profeta Oséias:“Do Egito chamarei o meu Filho” (11,1), o que se realizou quando Jesus Cristo, como menino, foi levado para o Egito, onde permaneceu sete anos como estranho no meio de gente bárbara, dos parentes e dos amigos, devendo viver necessariamente mui pobremente. Continuou, depois de voltar à Judéia, a levar uma vida pobre. Ele mesmo predisse pela boca de Davi que pobre deveria ser durante toda a sua vida e atribulado pelas fadigas: “Eu sou pobre e vivo em trabalhos desde a minha mocidade” (Sl 87,16).

A expiação.

1. Deus não podia ver plenamente satisfeita a sua justiça com os sacrifícios oferecidos pelos homens, mesmo sacrificando-lhe suas vidas e, por isso, dispôs que seu próprio Filho tomasse um corpo humano e fosse a digna vítima que o reconciliasse com os homens e lhes obtivesse a salvação. “Não quiseste hóstia nem oblação, mas tu me formaste um corpo” (Hb 10,5). E o Filho unigênito se ofereceu voluntariamente a sacrificar-se por nós e desceu à terra para completar o sacrifício com sua morte e assim realizar a redenção do homem: “Eis, aqui venho para fazer, ó Deus, a tua vontade, como está escrito de mim no princípio do livro” (Hb 10,7).

Pergunta o Senhor, referindo-se ao pecador: “Que importará que eu vos fira de novo?” (Is 1,5). Isso dizia Deus, para nos dar a entender que, por mais que punisse os seus ofensores, suas penas não seriam suficientes para reparar a sua honra ultrajada, e por isso enviou seu próprio Filho a satisfazer pelos pecados dos homens, visto que ele podia dar uma digna reparação à justiça divina. Depois declarou por Isaías, falando de Jesus feito vítima para expiar nossas culpas: “Eu o feri por causa dos crimes de meu povo” (53,8), e não se contentou com uma pequena satisfação, mas quis vê-lo abatido pelos tormentos: “E o Senhor quis quebrantá-lo na sua enfermidade” (Is 53,10).
Ó meu Jesus, ó vítima de amor, consumida de dores na cruz para pagar os meus pecados, desejaria morrer de dor, pensando quantas vezes vos tenho desprezado depois de tanto me haverdes amado.
Não permitais que eu continue a viver tão ingrato a tão grande bondade.
Atraí-me todo a vós: fazei-o pelos merecimentos desse sangue que derramastes por mim!

Quando o Verbo divino se ofereceu para remir os homens, de duas maneiras se podia fazer essa redenção: uma por meio do gozo e da glória, outra das penas e dos vitupérios. Ele, porém, que com sua vinda não só pretendia livrar o homem da morte eterna, mas também ganhar a si o amor de todos os corações humanos, repeliu o caminho do gozo e da glória e escolheu o das penas e dos vitupérios (Hb 10,34). A fim, portanto, de satisfazer por nós a justiça divina e juntamente para inflamar-nos com seu santo amor, quis qual criminoso sobrecarregar-se de todas as nossas culpas e, morrendo sobre uma cruz, obter-nos a graça e a vida feliz. É justamente o que exprime Isaías quando afirma: “Verdadeiramente ele foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas e ele mesmo carregou com as nossas dores” (Is 53,4).

2. Disso encontram-se duas figuras claras no Antigo Testamento: a primeira era a cerimônia usada todos os anos do — bode emissário — sobre o qual o sumo pontífice entendia impor todos os pecados do povo e por isso todos, cumulando-o de maldições, o enxotavam para a floresta para servir aí de objeto à ira divina (Lv 16,5). Esse bode figurava nosso Redentor, que quis espontaneamente sobrecarregar-se com todas as maldições a nós devidas por nossos pecados (Gl 3,13), feito por nós maldição, para nos obter as bênçãos divinas. E assim escreve o Apóstolo em outro lugar:“Aquele que desconhecia o pecado, fê-lo por nós, para que nós fôssemos feitos justiça de Deus nele” (2Cor 5,21). Como explicam S. Ambrósio e S. Anselmo, aquele que era a mesma inocência, fê-lo pecado; revestiu-se com as vestes do pecador e quis tomar sobre si as penas devidas a nós pecadores, para nos obter o perdão e nos tornar justos aos olhos de Deus.

A segunda figura do sacrifício que Jesus Cristo ofereceu por nós a seu eterno Pai na cruz, foi a “serpente de bronze” suspensa em um poste, que curava os hebreus mordidos pela serpente de fogo, quando para ela olhavam (Nm 21,8). Assim escreve S. João:“Como Moisés suspendeu a serpente no deserto, assim importa que seja levantado o Filho do homem, para que todo o que crê nele não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,14).

À luz das profecias.

1. É preciso refletir que no capítulo 2.º da “Sabedoria” está predita a morte ignominiosa de Jesus Cristo. Ainda que as palavras desse capítulo possam se referir à morte de qualquer homem justo, contudo, afirma Tertuliano, S. Cipriano, S. Jerônimo e muitos outros santos Padres, que de modo especial quadram à morte de Cristo: Aí se diz no versículo 18: “Se realmente é o verdadeiro filho de Deus, ele o amparará e o livrará das mãos dos contrários”. Essas palavras correspondem perfeitamente ao que diziam os judeus, quando Jesus estava na cruz: “Confiou em Deus: livre-o agora, se o ama; pois disse que era filho de Deus” (Mt 27,43). Continua o sábio a dizer: “Façamos-lhe perguntas por meio de ultrajes e tormentos... e provemos a
sua paciência. Condenemo-lo a uma morte a mais infame” (Sb 2,1920).
Os judeus escolheram para Jesus Cristo a morte da cruz, que era a mais ignominiosa, para que seu nome ficasse para sempre aviltado e não fosse mais relembrado, segundo um outro testemunho de Jeremias: “Ponhamos madeira no seu pão e exterminemo-lo da terra dos viventes e não haja mais memória de seu nome” (Jr 11,19). Ora, como podem dizer hoje em dia os judeus ser falso que Jesus fosse o Messias prometido, por ter sido arrebatado deste mundo por uma morte torpíssima, quando seus mesmos profetas haviam predito que ele deveria ter uma morte tão vil?
2. Jesus aceitou, porém, semelhante morte porque morria para pagar os nossos pecados: também por esse motivo quis qual pecador ser circuncidado, ser resgatado quando foi apresentado ao templo, receber o batismo de penitência de S. João. Na sua paixão finalmente quis ser pregado na cruz para pagar por nossos licenciosas liberdades, com a sua nudez reparar a nossa avareza, com os opróbrios a nossa soberba, com a sujeição aos carnífices a nossa ambição de dominar, com os espinhos os nossos maus pensamentos, com o fel a nossa intemperança e com as dores do corpo os nossos prazeres sensuais. Deveríamos por isso continuamente agradecer com lágrimas de ternura ao eterno Pai por ter entregue seu Filho inocente à morte para livrar-nos da morte eterna. “O qual não poupou seu próprio Filho, mas entregou-o por todos nós: como não nos deu também com ele todas as coisas?” (Rm 8,32). Assim fala S. Paulo e o próprio Jesus diz, segundo S. João (3,16): “Assim Deus amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito”. Daí exclamar a santa Igreja no sábado santo:“Ó admirável dignação de vossa piedade para conosco!
Ó inestimável excesso de vossa caridade! Para resgatar o escravo, entregastes o vosso Filho”. Ó misericórdia infinita, ó amor infinito de nosso Deus, ó santa fé! Quem isto crê e confessa, como poderá viver ser arder em santo amor para com esse Deus tão amante e tão amável?
Ó Deus eterno, não olheis para mim, carregado de pecados, olhai para vosso Filho inocente, pregado numa cruz, e que vos oferece tantas dores e suporta tantos ludíbrios para que tenhais piedade de mim. Ó Deus amabilíssimo e meu verdadeiro amigo, por amor, pois, desse Filho que vos é tão caro, tende piedade de mim. A piedade que desejo é que me concedais o vosso santo amor. Ah, atraí-me inteiramente a vós do meio do lodo de minhas torpezas. Consumi, ó fogo devorador, tudo o que vedes de impuro na minha alma e a impede de ser toda vossa.

Nosso fiador

1. Agradeçamos ao Pai e agradeçamos igualmente ao Filho que quis tomar a nossa carne e juntamente os nossos pecados para dar a Deus com sua paixão e morte uma digna satisfação. Diz o Apóstolo que Jesus Cristo se fez nosso fiador, obrigando-se a pagar as nossas dívidas (Hb 7,22). Como mediador entre Deus e os homens, estabeleceu um pacto com Deus por meio do qual se obrigou a satisfazer por nós a divina justiça e em compensação prometeu-nos da parte de Deus a vida eterna. Já com muita antecedência o Eclesiástico nos
advertia que não nos esquecêssemos do benefício deste divino fiador, que, para obter a salvação, quis sacrificar a sua vida (Eclo 29,20).
E para mais nos assegurar do perdão, diz S. Paulo, foi que Jesus Cristo apagou com seu sangue o decreto de nossa condenação, que continha a sentença da morte eterna contra nós, e a afixou à cruz, na qual, morrendo, satisfez por nós a justiça divina (Cl 2,14). Ah, meu Jesus, por aquele amor que vos obrigou a dar a vida e o sangue no Calvário por mim, fazei-me morrer a todos os afetos deste mundo, fazei que eu me esqueça de tudo para não pensar senão em vos amar e dar-vos gosto. Ó meu Deus, digno de infinito amor, vós me amastes sem reserva e eu quero também amar-vos sem reserva. Eu vos amo, meu sumo Bem, eu vos amo, meu amor, meu tudo.

2. Em suma, tudo o que nós podemos ter de bens, de salvação, de esperança, tudo possuímos em Jesus Cristo e nos seus merecimentos, como disse S. Pedro: “E não há em outro nenhuma salvação, nem foi dado aos homens um outro nome debaixo dos céus em que nós devemos ser salvos” (At 4,12). Assim para nós não há esperança de salvação senão nos merecimentos de Jesus Cristo. Donde S. Tomás, com todos os teólogos, conclui que depois da promulgação do Evangelho nós devemos crer explicitamente, por necessidade não só de preceito, como também de meio, que somente por meio de nosso Redentor nos é possível a salvação.
Todo o fundamento de nossa salvação está, portanto, na redenção humana do Verbo divino, operado na terra. É preciso, pois, refletir que ainda que as ações de Jesus Cristo feitas no mundo, sendo ações de uma pessoa divina, eram de um valor infinito, de maneira que a mínima delas bastava para satisfazer a justiça divina por todos os pecados dos homens, contudo só a morte de Jesus foi o grande sacrifício com o qual se completou a nossa redenção, motivo pelo qual as Sagradas Escrituras se atribui a redenção do homem principalmente à morte por ele sofrida na cruz: “Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2,8). Razão por que escreve o Apóstolo que, quando tomamos a sagrada eucaristia, nos devemos recordar da morte do Senhor: “Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste vinho, anunciareis a morte do Senhor, até que ele venha” (1Cor 11,26). Por que é que diz da morte e não da encarnação, do nascimento, da ressurreição? Porque foi esse tormento, o mais doloroso de Jesus Cristo, que completou a redenção.

Por isso dizia S. Paulo: “Não julgueis que eu sabia alguma coisa entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1Cor 2,2). Muito bem sabia o apóstolo que Jesus Cristo nascera numa gruta, que habitara por trinta anos uma oficina que ressuscitara e subira aos céus.
Por que então escreve que não sabia outra coisa senão Jesus crucificado?
Porque a morte sofrida por Jesus na cruz era o que mais o movia a amá-lo e o induzia a prestar obediência a Deus, a exercer a caridade para com o próximo, a paciência nas adversidades, virtudes praticadas e ensinadas particularmente por Jesus Cristo na cátedra da cruz. S. Tomás escreve: “Em qualquer tentação encontra-se na cruz o auxílio; aí a obediência para com Deus, aí a caridade para com o próximo, aí a paciência nas adversidades, donde assevera Agostinho:
A cruz não foi só o patíbulo do mártir, como também a cátedra do mestre”. (In c. 12 ad Heb.).

À sombra da cruz.

1. Almas devotas, procuremos ao menos imitar a esposa dos Cânticos, que dizia: “Eu assentei-me à sombra daquele que tanto desejei” (Ct 2,3). Oh! que doce repouso as almas que amam a Deus encontram nos tumultos deste mundo e nas tentações do inferno e mesmo nos temores dos juízos de Deus, contemplando a sós em silêncio o nosso amado Redentor agonizando na cruz, gotejando seu sangue divino de todos os seus membros já feridos e rasgados pelos açoites, pelos espinhos e pelos cravos. Oh! como a vista de Jesus crucificado afugenta de nossas mentes todos os desejos de honras mundanas, das riquezas da terra e dos prazeres dos sentidos! Daquela cruz emana uma vibração celeste, que docemente nos desprende dos objetos terrenos e acende em nós um santo desejo de sofrer e morrer por amor daquele que quis sofrer tanto e morrer por amor de nós.
Ó Deus, se Jesus Cristo não fosse o que ele é, filho de Deus e verdadeiro Deus nosso criador e supremo senhor, mas um simples homem, quem não sentiria compaixão vendo um jovem de nobre linhagem, inocente e santo, morrer à força de tormentos sobre um madeiro infame, para pagar, não os seus delitos, mas os de seus mesmos inimigos e assim libertá-los da morte em perspectiva? E como é possível que não ganhe os afetos de todos os corações um Deus que morre num mar de desprezos e de dores por amor de suas criaturas?
Como poderão essas criaturas amar outra coisa fora de Deus?
Como pensar em outra coisa que em ser gratos para com esse tão amante benfeitor? “Oh! se conhecesses o mistério da cruz!” disse S. André ao tirano que queria induzi-lo a renegar a Jesus Cristo, por ter Jesus se deixado crucificar como malfeitor. Oh! se entendesses, tirano, o amor que Jesus Cristo te mostrou querendo morrer na cruz para satisfazer por teus pecados e obter-te uma felicidade eterna, certamente não te empenharias em persuadir-me a renegá-lo; pelo contrário, tu mesmo abandonarias tudo o que possuis e esperas nesta terra para comprazeres e contentares um Deus que tanto te amou.
Assim já procederam tantos santos e tantos mártires que abandonaram tudo por Jesus Cristo. Que vergonha para nós, quantas tenras virgenzinhas renunciaram a casamentos principescos, riquezas reais e todas as delícias terrenas e voluntariamente sacrificaram sua vida para testemunhar qualquer gratidão pelo amor que lhes demonstrou este Deus crucificado.

2. Como explicar então que a muitos cristãos a paixão de Cristo faz tão pouca impressão? Isso provém do pouco que consideram nos padecimentos sofridos por Jesus Cristo por nosso amor. Ah, meu Redentor, também eu estive no número desses ingratos. Vós sacrificastes vossa vida sobre uma cruz, para que não me perdesse, e eu tantas vezes quis perder-vos, ó bem infinito, perdendo a vossa graça! Ora, o demônio, com a recordação de meus pecados, pretenderia tornar-me dificílima a salvação, mas a vista de vós crucificado, meu Jesus, me assegura que não me repelireis de vossa face se eu me arrepender de vos haver ofendido e quiser vos amar. Oh! sim, eu me arrependo e quero amar-vos com todo o meu coração. Detesto aqueles malditos prazeres que me fizeram perder a vossa graça. Amo-vos, ó amabilidade infinita, e quero amar-vos sempre e a recordação de meus pecados servirá para me inflamar ainda mais no vosso amor, que viestes em busca de mim quando eu de vós fugia. Não, não quero mais separar-me de vós, nem deixar mais de vos amar, ó meu Jesus. Maria, refúgio dos pecadores, vós que tanto participastes das dores de vosso Filho na sua morte, suplicai-lhe que me perdoe e me conceda a graça de o amar.