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30 de abril de 2015

História Eclesiástica - Terceira Época Capítulo 3

CAPÍTULO III

Carlos Magno - Domínio temporal dos Papas Os mártires de Bagdá - São Leão VI - Perseguição na Espanha - Heresia de Godescalco - Cisma de Fócio - Oitavo Concílio Ecumênico.

Carlos Magno - Entre os reis escolhidos pela Providência para beneficiar de um modo especial a humanidade e a Religião deve-se certamente contar Carlos Magno, filho de Pepino, rei de França. Tendo os Longobardos devastado a Itália, despojaram de seu patrimônio aos pontífices, fazendo-lhes vis insultos. Pelos fins do século oitavo, governando a Igreja São Leão III, chegaram as coisas a tal ponto, que dois miseráveis tiveram o atrevimento de atirar-se sobre o Papa, e fazer-lhe graves feridas. Carlos Magno tendo-se feito protetor da Igreja, dirigiu-se para a Itália à frente de poderoso exército; passou o monte Cenis, derrotou, a poucas milhas de Susa, ao rei Desidério, que queria impedir-lhe o passo, restabeleceu a observância das leis por onde passava, e chegou finalmente a Roma. Carlos Magno ignorava por certo a recepção esplêndida que aquela cidade estava-lhe preparando. Adiantaram-se para recebê-lo o Papa, os príncipes, os barões romanos e franceses e uma multidão imensa de povo. Era dia de Natal, e o Papa, enquanto celebrava a Missa, disse em voz alta: "A Carlos piíssimo, augusto, coroado por Deus, grande e pacífico imperador, vida e vitória!" Todos os presentes repetiram por três vezes em voz alta as mesmas palavras. Fora de si Carlos Magno por aquelas inesperadas aclamações, não sabia o que dizer nem fazer. Então o Pontífice o consagrou Rei e pôs-lhe na cabeça a coroa imperial. Ano 800.
Carlos Magno sobreviveu 14 anos àquele dia memorável, empregando-os todos em benefício de seus povos e da Religião. Cumulado de glória, e passavam eles as noites inteiras confessando aos que deviam combater no dia seguinte.

Domínio temporal dos Papas - Entre as grandes obras de Carlos Magno deve-se enumerar a de ter restituído ao Romano Pontífice o domínio temporal que quase em sua totalidade tinha sido invadido por Desidério, rei dos Longobardos. Entende-se por domínio temporal dos Papas o poder civil que o acatamento voluntário dos povos deu aos Sumos Pontífices sobre considerável parte da Itália, compreendendo também a cidade de Roma. Nos primeiros tempos do cristianismo os fiéis que possuíam alguma coisa a levavam aos pés dos Apóstolos para se servirem dela segundo suas necessidades, dando uma parte aos pobres, e provendo o sustento dos ministros sagrados. A Igreja, porém não deve tratar somente do sustento material dos ministros sagrados, senão também do bem moral de todos os cristãos espalhados em todas as partes do mundo. Daí nasce a necessidade de que a Igreja possua um lugar, em que possa com plena liberdade ensinar a verdade e exercer seu ministério com independência de outro poder civil qualquer. Jesus Cristo foi crucificado porque anunciava com inteira liberdade o Evangelho; os Apóstolos que o pregaram com igual franqueza foram martirizados, e todos os Papas que precederam a Constantino morreram para defender sua fé; e isto por quê? Porque lhes faltava, um lugar a propósito, donde pudessem proclamar a verdade sem depender da vontade de outros.
Constantino o Grande convenceu-se logo, apenas conheceu o cristianismo, de que os Romanos Pontífices deviam ser livres no exercício de seu apostólico ministério: por isso subministrou-lhes meios materiais para viver, e deu ao Papa o palácio de Latrão e vastíssimas possessões. Considerasse este como o primeiro domínio dos Papas. Em seguida este imperador transladou seu trono para Constantinopla; desde então começou a ser Roma não já a capital de todo o império romano, senão a capital de um território que pouco a pouco foi propriedade do Papa e da Igreja. Ligaram-se a Roma as cidades de Ancona, Umana, Pésaro, Fano e Rimini, que por serem cinco se chamaram Pentápolis. Quando o imperador Leão Isáurico se declarou, como já se disse, contra as sagradas imagens, pretendia que o Sumo Pontífice Gregório II as fizesse em pedaços na mesma cidade de Roma, e dispersasse as relíquias dos mártires, negando assim a intercessão dos santos perante Deus em proveito nosso, Gregório negou-se com firmeza a obedecer; então Leão enviou perfidamente a Roma alguns sicários para que lhe dessem morte aleivosa e despojassem as igrejas; porém o povo romano defendeu a pessoa do Papa, e rechaçou com as armas os soldados imperiais. Depois deste fato o senado e o povo se declararam independentes de um tirano herege e perseguidor, e se puseram da parte dos Papas para que os socorresse e fizesse justiça. Em princípios do século VIII o domínio temporal dos Papas já se achava pacificamente constituído por acatamento voluntário dos povos, e por aprovação tácita senão expressa, dos soberanos. Roma com seus territórios forma um estado suficientemente grande para a Igreja e para que os Papas gozem de independência em sua casa: porém bastante pequeno ao mesmo tempo para que estes não possam chegar a ser grandes potentados como os da terra. Por conseguinte os reis de França, Pepino e Carlos Martelo, não deram aos Papas todos os seus domínios temporais, mas somente algumas cidades, e Carlos Magno defendeu, reconheceu e confirmou solenemente tais doações.
Reconheçamos pois que o domínio temporal é necessário aos Papas, para que possam exercer livremente o seu augusto ministério, e sobretudo proclamar a verdade a todos os homens, ainda que sejam capitais inimigos do Evangelho; para que possam também obrigar a todos, inclusive príncipes e soberanos, a honrar as leis de Deus e da Igreja: por último para que se achem em atitude de oferecer a todos os homens do mundo um meio seguro, para melhor dizer, o meio mais acertado para acudir ao Pai universal dos homens, e de ir, quando melhor lhes aprouver, visitar e reverenciar ao Vigário de Jesus Cristo. Assim, pois, este governo civil da Santa Sé, não pertence absolutamente a nenhum outro soberano, nem ainda aos habitantes dos Estados Romanos, senão que realmente é propriedade dos católicos do mundo inteiro, que, quais filhos afetuosos, sempre concorreram e ainda tem obrigação de concorrer, para conservar a manter a liberdade e independência de seu Pai espiritual, do Chefe visível do cristianismo.

Os mártires de Bagdá - Tendo-se declarado naquele tempo uma guerra sanguinolenta entre Teófilo, imperador de Constantinopla, e o Califa, foram presos muitos cristãos e conduzidos à Bagdá cidade que se ergue hoje onde se achava a antiga Babilônia.
Tentou-se primeiramente fazê-los prevaricar; porém tendo permanecido firmes na fé foram atados e postos em escuros calabouços. Todo o seu alimento consistia em escasso pão e água, e dormiam sobre a terra nua, cobertos de miseráveis andrajos.
Alguns sedutores exortava-os a abandonar a Jesus Cristo para seguir a Maomé; mas aqueles generosos confessores respondiam em alta voz a suas exortações: "Seja anatematizado Maomé e sua doutrina." Enfurecidos por isto os Muçulmanos, os encarceraram amarrando-lhes as mãos por detrás das costas e os levaram assim às margens do no Tigre, onde em número de 42 coroaram com o martírio sete anos de penosíssimo cárcere. Ano 845.

São Leão IV - Contam-se entre as calamidades daqueles tempos as correrias dos Sarracenos, que, vindos do Oriente para os países ocidentais, infestavam também a Itália causando gravíssimos males por todo o lugar, onde passavam. ,Aflito o Papa Leão IV, porque muitos fiéis, despojados de seus bens, se viam obrigados a errar nos bosques, pós em campo toda sorte de esforços para ajudá-los; e para assegurar a cidade de Roma contra a ferocidade daqueles inimigos fez construir uma série de casas entre Castelo Sant' Angelo e o Vaticano murou-as e as incorporou ao resto da Cidade da qual as separava o Tevere. Esta nova parte foi chamada cidade Leonina ou Leópolis em honra do Pontífice que a edificara. São Leão IV também fundou e restabeleceu muitos mosteiros decorou e dotou grande número de Igrejas e foi muito pródigo em esmolas públicas e privadas Sua santidade foi assinalada com prodígios: extinguiu com efeito, com o sinal da cruz, um terrível incêndio que se tinha ateado em Roma, e com breve oração matou uma horrível serpente, que com suas picadas venenosas causava a morte a muitos cidadãos. Morreu no ano 855 depois de oito anos de pontificado e se conta no número dos Santos.

Perseguição na Espanha - Foi causa desta terrível perseguição um desventurado cristão que se tinha feito judeu. Este fez acreditar aos muçulmanos que acabavam de se estabelecer na Espanha, que seu estado correria grave perigo se não obrigassem os cristãos a se fazerem judeus ou muçulmanos. Renovaram-se então os espetáculos de heroísmo dos primeiros séculos da Igreja. Homens, mulheres, crianças, eclesiásticos e leigos ilustraram a fé, fazendo os mais heroicos sacrifícios. Entre os mártires desta perseguição é célebre São Perfeito. Perguntando-lhe um dia o que pensava de Jesus Cristo e de Maomé, respondeu: "Jesus Cristo é Deus bendito sobre todas as coisas; Maomé é um daqueles sedutores que, segundo predisse o Evangelho, serão precipitados com seus sequazes nos abismos eternos." Mal acabou de pronunciar estas palavras; os infiéis arrojaram-se ferozmente sobre ele e o decapitaram. Muitas mulheres tiveram tamanha coragem que se ofereceram espontaneamente aos verdugos, não as intimidando nem o fogo nem o ferro, que para elas havia sido preparado.
Mitigou-se um tanto esta perseguição pelo terrível golpe de vingança divina sobre Aderramen II, seu ator. Achava-se este sobre um terraço recreando-se com o espetáculo da multidão de mártires que queria oferecessem sacrifícios, quando de súbito lhe sobreveio um acidente que o deixou sem vida. Não obstante isto, Maomé seu filho continuou a perseguição que durou 60 anos, isto é, desde o ano 822 até o ano 882.
Somente na cidade Caradigna foram degolados em um só dia mais de duzentos monges, cujo sepulcro se tornou glorioso por um fato extraordinário que ainda hoje se renova. O pavimento debaixo do qual se guardam as suas relíquias, vê-se todos os anos transpirar sangue vivo no aniversário do dia em que conseguiram a coroa do martírio.

Heresia de Godescalco - Entre os males que afligiram a Igreja no século nono, conta-se a heresia de Godescalco. Estimulado por sua vanglória, fez-se, monge beneditino na cidade de Orbais, diocese de Soissom, esperando nesciamente conseguir honras e riquezas na profissão religiosa. Excitado, porém, pelo desejo de mais ampla liberdade, saiu do convento e andou errante pela Itália, ensinando que Deus predestinou inevitavelmente uns para a glória e outros para o inferno; que Deus não quer que todos se salvem, e outros erros deste jaez.
Notingo, bispo de Verona, foi um dos primeiros a denunciar seus seguidores sendo logo condenados em diferentes concílios por muitos insignes prelados. Seu bispo metropolitano, Incmaro de Reims, fez tudo o que pode para trazê-lo a melhores sentimentos: porém trabalhou em vão; por isto foi degredado, desterrado e mais tarde preso, mas não deixou o herege de sustentar suas impiedade até a morte. Seus erros foram depois de muitos séculos reproduzidos por Lutero e Calvino.

Cisma de Fócio - Mal se tinham apaziguado no Ocidente as turbulências suscitadas por Godescalco e outros hereges, apareceu o fatal cisma grego; que foi causa de que a maior parte dos cristãos da igreja oriental começasse a se separar da unidade da Igreja Católica, da qual desgraçadamente ainda permanecem separados, não tendo sido suficientes para atraí-los os carinhosos esforços dos Romanos Pontífices. Fócio, seu autor, recebera da natureza, junto com raro talento, uma índole vaidosa e ardente; esta e os laços de parentesco que o uniam ao imperador do Oriente influíram para que se abrisse caminho para os cargos de primeiro escudeiro e primeiro secretário imperial.
Sua nova dignidade, suas abundantes riquezas e sua vasta erudição fizeram-lhe crer que ninguém era mais digno do que ele para ocupar o patriarcado de Constantinopla.
Ocupava então aquela sé Santo Inácio, homem de grande virtude e elevado saber. Este não cessava de censurar o escandaloso procedimento do imperador Bardas, a quem recusara dar a santa comunhão em uma solenidade. Soube Fócio aproveitar-se dos vícios e da cólera do soberano contra Inácio, ao qual, com efeito, por meio de fraude e de prepotência, conseguiu retirar daquela sé, e desterrar. Despojou-se logo Fócio dos hábitos seculares fez-se monge no mesmo dia, no outro dia fizeram-no leitor, ao terceiro dia subdiácono, ao quarto diácono, ao quinto sacerdote, ao sexto bispo e patriarca de Constantinopla. Ano 858.
Mas sabendo muito bem que sua eleição não seria válida, se não a confirmasse o Papa, escreveu ao Pontífice Nicolau I uma carta, em que por meio de mentiras tratava de caluniar a Santo Inácio e de justificar-se a si próprio para ganhar o favor do Pontífice.
Mas este, conhecedor de seus manejos deixou em sua sé santo Inácio que fora tratado barbaramente, e declarou que Fócio era um intruso, absolutamente indigno de ocupar o patriarcado de Constantinopla em lugar de Inácio. Estava preparando a condenação daquele cismático quando Deus o chamou a Si para recompensá-lo de suas fadigas.

Oitavo Concílio Ecumênico - Adriano II pós em campo o que seu antecessor tinha idealizado, com o fim de sufocar o cisma nos seus princípios, e convocou um concílio em Constantinopla, que é o oitavo ecumênico. Fócio foi citado para se apresentar; porém não o permitiu sua consciência culpável; por isso foi preciso levá-lo ali a força.
Quando lhe foi perguntado porque se atribuía o caráter de chefe da Igreja universal, (pois esta era sua principal pretensão) não respondeu, ou limitou-se a dar algumas respostas insolentes. Em vista disso os Padres do Concílio e os legados do Papa o excomungaram, e foi desterrado por ordem do imperador, ao passo que se restitui a Santo Inácio sua primeira dignidade. Ano 870.
Todavia, quando morreu santo Inácio, Fócio conseguiu, à força de enganos, introduzir-se de novo na sé donde tinha sido expulso. Desde a transladação da capital do Império de Roma para Constantinopla, os bispos desta cidade pouco a pouco chegaram a ter autoridade sobre a Tracia, a Ásia e o Ponto, e até pretenderam o título de Patriarca ecumênico, isto é, universal. Os Papas se opuseram a tais pretensões, pois era querer igualar-se ao Romano Pontífice. A vaidade porém dominou a muitos daqueles patriarcas e o orgulho dos imperadores do Oriente não deixou esquecer esse título que o mesmo Fócio, em sua ambição, quis tomar. Este durou pouco tempo, porque encerrado finalmente em um mosteiro, morreu nele impenitente no ano 891.

29 de abril de 2015

História Eclesiástica - Terceira Época Capítulo 2

CAPÍTULO II

Os lconoclastas - Sétimo Concílio Ecumênico - São João Damasceno.

Os lconoclastas -, Logo que a Igreja acabava de condenar uma heresia, o demônio suscitava outra em menoscabo da fé. Aos monotelitas sucederam os Iconoclastas, isto é, quebradores das sagradas imagens. Diziam estes, como ainda hoje dizem os protestantes, que de nenhum modo se devem venerar as sagradas imagens, e conforme isto, não só as desprezavam, como também as quebravam quando podiam fazê-lo. Esta heresia deu ocasião a muitos males, porque foi protegida pelos imperadores Leão Isáurico, Constantino Coprônimo e Leão IV. Estes, para propagá-la mais, tornaram a usar contra os cristãos inauditas crueldades. Mas Deus vingou o ultraje feito a seus santos, ferindo, com morte infelicíssima os autores desta perseguição.

Sétimo Concílio Ecumênico - Ao subir ao trono a piedosa imperatriz Irene, animada pelo desejo de restabelecer o culto católico, pediu ao Papa Adriano I que convocasse um concílio. O Pontífice consentiu e no ano 786 realizou-se a abertura do Concílio em Constantinopla, donde foi transladado no ano seguinte para Nicéia por causa de uma sublevação das guardas imperiais infectas de heresia. Este é o sétimo concílio ecumênico, chamado segundo de Nicéia porque, como o primeiro, foi celebrado na cidade deste nome. Foi condenada nele a impiedade dos Iconoclastas por 350 bispos presididos pelos legados do Papa, os quais declararam, que era uma prática lícita e piedosa honrar as imagens de Jesus Cristo, da Virgem e dos Santos e que era coisa muito útil colocá-las também nas ruas públicas. assim, pois, podem os protestantes ver condenados pela Igreja seus erros, setecentos anos antes que eles nascessem para dar nova vida a esta velha heresia.

São João Damasceno - São João Damasceno, ou da cidade de Damasco, foi o campeão que Deus opôs aos Iconoclastas. Nascido de família nobre, foi instruído nas ciências sagradas e profanas. Jovem ainda renunciou à avultada herança paterna, e abraçou a vida monástica. Do deserto em que se achava, combateu aos Iconoclastas, demonstrando com argumentos tirados da Sagrada Escritura e da Tradição que as santas imagens sempre foram honradas pela Igreja; e que os cristãos não tributam culto de adoração às relíquias ou imagens, mas sim que as veneram somente não tendo o propósito, fazendo assim, de adorar o objeto material ou as criaturas, mas sim a quem é Senhor e Criador delas. O imperador Leão irritou-se muito com estes escritos, e não podendo ter São João em suas mãos, caluniou-o vilmente perante o príncipe muçulmano, de quem era súdito e em cuja corte ocupava o emprego de secretário.
Para fazêlo aparecer réu de traição, fez chegar a este príncipe uma carta falsa, na qual apresentava o santo como culpado, e acusava-o de tramar uma conjuração. O príncipe em seu primeiro arrebatamento de furor, fez-lhe cortar a mão direita; porém na noite seguinte por um milagre da Bem-aventurada Virgem Maria, tornou a unir-se ao braço, de maneira que se desenganou o maometano, e somente deixou ao imperador a vergonha de uma atrocidade sem fruto. Então este desafogou sua cólera matando a muitos cristãos que a Igreja honra como mártires. São João Damasceno terminou em paz sua vida pelo ano de 780. Considera-se como o modelo dos teólogos; e sua maneira de tratar as questões, que se chama método escolástico, foi seguida mais tarde no ensino da teologia.

28 de abril de 2015

História Eclesiástica - Terceira Época Capítulo 1

TERCEIRA ÉPOCA

Desde o estabelecimento do maometismo no ano de 622, até a celebração do IV Concílio de Latrão no ano 1215. (abrange um período de 593 anos.)

CAPÍTULO I

Maomé e sua religião - Milagre da Santa Cruz São Isidoro de Sevilha - Os Monotelistas e o Papa São Martinho I - Sexto Concílio Ecumênico.

Maomé e sua religião - Nasceu este famoso impostor em Meca, cidade da Arábia, de família pobre, de pai gentio e mãe judia. Errando em busca de fortuna, encontrou-se com uma viúva negociante em Damasco, que o nomeou seu procurador e mais tarde casou-se com ele. Como era epilético, soube aproveitar-se desta enfermidade para provar a religião que tinha inventado e afirmava que suas quedas eram outros tantos êxtases, durante os quais falava com o arcanjo Gabriel. A religião que pregava era uma mistura de paganismo, judaísmo e cristianismo. Ainda que admita um só Deus, não reconhece a Jesus Cristo como filho de Deus, mas como seu profeta. Como dissesse com jactância que era superior ao divino Salvador, instavam com ele para que fizesse milagres como Jesus fazia; porém ele respondia que não tinha sido suscitado por Deus para fazer milagres, mas para restabelecer a verdadeira religião mediante a força. Ditou suas crenças em árabe e com elas compilou um livro que chamou Alcorão, isto é, livro por excelência; narrou nele o seguinte milagre, ridículo em sumo grau. Disse que tendo caído um pedaço da lua em sua manga, ele soube fazê-la voltar a seu lugar; por isso os maometanos tomaram por insígnia a meia lua. Sendo conhecido por homem perturbador, seus concidadãos trataram de dar-lhe morte; sabendo disto o astuto Maomé fugiu e retirou-se para Medina com muitos aventureiros que o ajudaram a apoderar-se da cidade. Esta fuga de Maomé se chamou Egira, isto é, perseguição; e desde então começou a era muçulmana, correspondente ao ano 622 de nossa era. O Alcorão está cheio de contradições, repetições e absurdos. Não sabendo Maomé escrever, ajudaram-no em sua obra um judeu e um monge apóstata da Pérsia chamado Sérgio. Como o maometismo favorecesse a libertinagem teve prontamente muitos sequazes; e como pouco depois se visse seu autor à frente de um formidável exército de bandidos, pode com suas palavras e ainda mais com suas armas introduzi-lo em quase todo o Oriente. Maomé depois de ter reinado nove anos tiranicamente, morreu na cidade de Medina no ano 632.

Milagre da Santa Cruz - Tendo Santa Helena encontrado o Santo madeiro da cruz fez depositar uma parte dele na igreja da Anastásia, isto é, na Ressurreição, levantada no monte Calvário. Ali ficou cerca de trezentos anos, até que Cósroes, rei da Pérsia, indo a Jerusalém, despojou a cidade de todos os ornamentos preciosos. Quando, porém, o imperador Heráclito venceu os Persas obrigou-os entre outras coisas a que restituíssem essa preciosa relíquia que fora roubada quatorze anos antes. Cheio de alegria o imperador, por ter voltado a recuperar tão valioso tesouro, ordenou uma grande festa na qual quis ele mesmo revestido com as insígnias reais levar a Santa Cruz ao Calvário; mas ao chegar ao pé do monte, foi detido por força invisível que crescia à medida que fazia esforços para caminhar para diante. Todos os que se achavam presentes admiravam com assombro o fato, quando o bispo de Jerusalém falou ao rei do modo seguinte: "Atendei bem, ó príncipe! Que com vossas reais vestimentas talvez mui pouco imiteis a pobreza e humildade de Cristo quando carregava com essa mesma cruz".
Ouvindo isto se despojou o imperador das insígnias de sua dignidade e humildemente vestido, com a cabeça descoberta e pés descalços, voltou a por sobre seus ombros a sagrada carga, que sem a menor dificuldade levou então até o cume do Calvário e depositou no lugar mesmo onde a tinham levantado quando crucificaram o Salvador.
Este fato aconteceu no ano 629, a 14 de setembro.
Costumava-se celebrar nesse mesmo dia uma festa em honra da Santa Cruz, talvez por ter sido esse o dia em que tão augusto sinal apareceu a Constantino. Em memória do novo milagre tornou-se esta festa muito mais solene e chamou-se Exaltação da Santa Cruz.

São lsidoro de Sevilha - Entre os gloriosos heróis, que com sua doutrina e santidade sustentaram a fé na Espanha é digno de menção São Isidoro, bispo e doutor da Santa Igreja. Nascera ele em Cartago de família ilustre por sua nobreza e piedade; com efeito, pelo sangue era unido aos monarcas de Espanha ao passo que dois de seus irmãos, Leandro, bispo de Sevilha e Fulgêncio, bispo de Cartagena e sua irmã Florentina, mereceram a honra dos altares. Educado por seus santos irmãos em mui breve tempo foi um modelo das mais altas virtudes; tornou-se célebre também por seus conhecimentos nas letras latinas, gregas e hebraicas.
Como os Godos, senhores da Espanha, se achavam contaminados pelo arianismo, aplicou-se o santo com tal ardor em combater essa heresia que pouco faltou para que lhe não dessem a morte.
Falecido Leandro, seu irmão, apesar das oposições feitas, foi eleito para seu sucessor.
São Gregório Magno, além de confirmar a sua eleição honrou-o ainda com o pálio, nomeando-o Vigário Apostólico de toda a Espanha. Exerceu o seu apostólico ministério levando uma vida mais angélica que humana. Era humilde, paciente e misericordioso com todos; Solícito em revigorar a disciplina eclesiástica e incansável em pregar.
Promoveu as instituições monásticas, dando-lhes excelentes regras; construiu muitos mosteiros, edificando vários colégios, onde ele mesmo ensinava, reunindo assim muitos discípulos, que imitaram suas heroicas virtudes.
Entre estes se contam São Ildefonso, bispo de Toledo e São Bráulio, de Saragoza, ambos luminares da igreja espanhola.
Presidiu ainda o IV Concílio de Toledo, o mais célebre da Espanha; convocou outro em Sevilha, onde foram condenados os acéfalos, que ameaçavam infestar aquelas regiões.
Depois de quarenta anos de episcopado, em que quase extinguira o arianismo, e depois de ter predito publicamente a sua morte e a invasão dos Sarracenos, na Espanha, foi para o céu, aos oitenta anos de idade, no ano 636.
Ganhou tal fama de santidade e doutrina que dezesseis anos após sua morte mereceu ser proclamado pelos 50 bispos do Concílio que se reunira então em Toledo, doutor egrégio e novo lustre da Santa Igreja. 
Compara-se a São Gregório o Grande por suas virtudes, iguala-se a Santo Agostinho e São Jerônimo por seus escritos e diz-se que foi enviado do céu para instruir a Espanha, em lugar de São Tiago apóstolo que foi o primeiro pregador do Evangelho naquelas regiões. Femando I, rei de Castela, edificou um magnífico templo em sua honra e fez depositar nele seu corpo, glorificado por milagres e venerado com grande devoção. 

Os Monotelitas e o Papa São Martinho - A heresia de Montano foi um dos erros de Êutiques, isto é, daqueles que sustentavam que em Jesus Cristo há uma só vontade e uma só operação, ao passo que a Igreja Católica sempre ensinou que em Jesus Cristo há uma só pessoa e duas naturezas, a divina e a humana, tendo cada uma sua vontade e sua operação própria; de sorte que há em Jesus Cristo duas vontades e duas operações, isto é, a vontade e a operação divina, a vontade e a operação humana. Chefes dos monotelitas foram Sérgio e Pirro, patriarcas ambos, o primeiro de Constantinopla e o segundo de Alexandria. Estes hereges empregaram toda a sorte de meios para arrastar o Papa Honório I a seu erro, pois os favorecia o imperador Constante. Para este fim escreveu Sérgio uma carta ao Papa em que lhe dizia que, em vista da efervescência de opiniões, seria coisa muito prudente proibir que se afirmasse, haver em Jesus Cristo uma só vontade e operação ou duas, e que se impusesse silêncio a respeito. Respondeu-lhe o Papa com duas cartas em que expunha claramente a doutrina católica; porém, não tendo advertido o laço que lhe havia armado Sérgio, aprovou como prudente o silêncio aconselhado por este. Não há dúvidas que o Papa teria condenado expressamente estes hereges, se antes de sua morte tivesse podido ver os progressos de seus erros e a maldade com que se interpretaram as cartas que ele tinha escrito. Isto o fizeram seus sucessores, e São Martinho I, especialmente, que desejando por um dique à difusão destes erros, os condenou definitivamente, dando nisto prova de grande valor, porque irritado o imperador, mandou a Roma um capitão para matar o Papa ou levá-lo preso a Constantinopla. O ímpio capitão, chegando a Roma, manda a um seu escudeiro que entre na Igreja de Santa Maria maior e mate ao pontífice, enquanto se achava celebrando o Santo Sacrifício. Obedece o sicário; porém ao por os pés nos umbrais do templo, perdeu repentinamente a visão. Não obstante isto, apoderaram-se do Papa, arrastaram-no vergonhosamente para Constantinopla, e este concluiu seus dias desterrado no Quersoneso, no ano 655, mártir da fé de Jesus Cristo. Pouco tempo depois, Constante recebeu o castigo que merecia, sendo assassinado por um seu criado enquanto o servia num banho. Sucedeu-lhe seu filho Constantino chamado Pugonato, bom príncipe e sinceramente católico.

Sexto Concílio Ecumênico - Desejando o novo imperador reparar de algum modo os graves males ocasionados por seu pai à religião, escreveu uma carta ao Papa santo Agatão, pedindo-lhe que, no uso de sua autoridade, se dignasse convocar um Concílio em Constantinopla. O Papa, que não desejava outra coisa, reuniu no ano 680, o sexto Concílio Ecumênico, terceiro Constantinopolitano. A abertura teve lugar a 7 de novembro desse mesmo ano a ele concorreram mais de 160 bispos, presididos pelos legados do Papa. Depois de um maduro exame foram condenados os erros dos Monotelitas, e se definiu, como tinha ensinado constantemente a Igreja, que se devia crer como verdade de fé, que há em Jesus Cristo duas vontades e duas operações, a vontade e a operação divina e a vontade e a operação humana. Escreveram logo ao Papa o que se tinha feito no Concílio, pedindo-lhe sua aprovação e confirmação. É bom saber que este Concílio de que se servem os adversários dos Papas para combater a infalibilidade Pontifícia, nos oferece ao contrário uma prova luminosa do acatamento à autoridade e superioridade do romano Pontífice nos Concílios. Com efeito, nessa ocasião, chamava-se a Agatão, santíssimo arcebispo da Apostólica e suprema Sé de Roma. Suas cartas foram recebidas e acatadas pelos padres do Concílio, como ditadas pelo Espírito Santo por boca do bem-aventurado Pedro. O que mais se pode exigir? Até a mesma definição de fé foi por eles feita inteiramente conforme às cartas de Santo Agatão e com suas mesmas palavras, afirmando que eles não tinham feito mais do que seguir a doutrina do Papa que era a mesma dos Apóstolos. Na carta sinodal que lhe dirigiram depois de se ter encerrado o Concílio, para que desse sua aprovação, falam-lhe nestes termos: "A ti como primeira sede da Igreja universal, fundada sobre a pedra firme da fé, remetemos o que se há de fazer... pedimos à tua paternal santidade, confirme nossa definição de fé com teus veneráveis rescritos."

27 de abril de 2015

História Eclesiástica - Segunda Época Capítulo 8

CAPÍTULO VIII

São Gregório o Grande - Missões na Inglaterra - Feitos memoráveis de São Gregório e sua morte - Disciplina e estado da Igreja nesta época.

São Gregório o Grande - São Gregório I, chamado o Grande por sua extraordinária santidade, eloquência e sabedoria, nasceu em Roma de pais nobres e ricos. Por seu admirável talento ocupou os principais cargos do Estado: conhecendo porém que as ocupações mundanas lhe roubavam os afetos do coração, renunciou a todas as suas dignidades, vendeu a todos os bens, distribuiu o total entre os pobres e outras obras de caridade abraçando a vida monástica. Era tão grande sua humildade, que foi necessário obrigá-lo, para se ordenar sacerdote. Tendo falecido em uma peste o Papa Pelágio II, os Romanos unânimes elegeram a Gregório para suceder-lhe. Espantado este ao ouvir tal noticia, fugiu e foi esconder-se em um bosque; mas uma coluna de fogo descobriu ao povo romano, e por último se viu obrigado a aceitar a dignidade pontifícia. Ano 590.

Missões na Inglaterra - Um dos primeiros pensamentos do novo pontífice foi o restabelecimento do cristianismo na ilha da Grã-Bretanha, chamada hoje com o nome de Inglaterra, pelos Anglos que se apoderaram dela em união com os Saxões pelo ano de 450. Como estes eram idólatras, aboliram completamente a religião e restabeleceram a idolatria. São Gregório enviou quarenta religiosos sob as ordens de seu discípulo Santo Agostinho, para pregarem a fé. Apenas os santos missionários começaram a pregação, converteu-se à fé grande número de idólatras. O rei de Kent (Cantuária), os magnatas de sua côrte e quase todos seus súditos em breve abraçaram a fé. Querendo o pontífice dar forma estável àquela cristandade, criou ali uma hierarquia de doze bispos, nomeando arcebispo ao mesmo Santo Agostinho. A santidade dos missionários e os milagres que por todas as partes os acompanhavam multiplicaram de tal modo as conversões, que perto da cidade de Cantuária receberam o batismo no espaço de um só dia cerca de dez mil pessoas. Tomando-se, por conseguinte, sensível cada vez mais a falta de sagrados ministros que conhecessem bem o idioma e os costumes do país, quis o Papa que fosse enviados a Roma jovens ingleses, com o fim de se instruirem nas ciências sagradas e na piedade, e pudessem voltar a seu pais sagrados sacerdotes. assim no espaço de 80 anos foi convertida esta grande ilha a Jesus Cristo merecendo São Gregório o nome de apóstolo da Inglaterra. Igual solicitude empregou em benefício da Espanha e da Itália, esta última se achava então ocupada pelos Longobardos, em sua maior parte arianos ou idólatras.

Outros fatos memoráveis de São Gregório - Excede a toda ponderação o que este pontífice disse, escreveu, e fez em benefício da Igreja. Pode-se dizer obra dele o antifonário e o breviário que se usa hoje. Em uma epidemia que afligiu Roma, muitos morriam no ato de espirrar ou bocejar; São Gregório estabeleceu que se usasse a palavra Ave (Deus te salve) para os primeiros e que aos segundos se fizessem cruzes ,sobre a boca; estes sinais exteriores feitos com fé serviram de eficaz remédio para curar aos que eram molestados por aquela enfermidade. Instituiu as Ladainhas dos Santos, a procissão do dia de São Marcos e ordenou que não se dissesse a Aleluia desde Septuagésima até a Páscoa. Foram realizados por suas mãos vários milagres e, entre eles, o seguinte que tem relação com o SS. Sacramento: Achava-se o santo celebrando, quando na ocasião de dar a comunhão a uma matrona que duvidava da verdade deste sacramento tomou a santa hóstia visivelmente a forma de carne. Finalmente depois de ter ocupado quase quatorze anos a Santa Sé, morreu no ano 604, aos 64 anos de idade.

Disciplina desta Segunda Época - Já no século quarto São Paulo; o eremita, costumava contar suas orações com três pedrinhas, assim como nós fazemos com as contas do Rosário. Observava-se grande rigor para com os pecadores que voltavam à penitência. Estes eram divididos em quatro classes, a saber: Gementes, Ouvintes, Prostrados e Consistentes. Os Gementes vestiam um saco e choravam seus pecados no átrio da Igreja, durante as sagradas funções, encomendando-se as orações dos que entravam; os ouvintes eram admitidos na Igreja perto da porta, e saiam com os catecúmenos depois de terem ouvido o sermão e o evangelho; os Prostrados ficavam ajoelhados e se lhes permitia receber várias bençãos dos sacerdotes porém deviam sair ao ofertório; os Consistentes já podiam ouvir a Missa, mas não comungar. Passava-se o tempo da penitência guardando rigoroso jejum; frequentemente consistia este em pão e água; rezavam sem cessar, ou dormiam sobre a terra núa. O pecador também devia submeter-se por muitos anos a esta disciplina antes que fosse admitido à sagrada comunhão; tamanho era o horror que se tinha ao pecado! No quinto século São Zósimo, Papa, estabeleceu que se concedesse também às paróquias a faculdade de benzer o círio pascoal que não se podia acender então a não ser nas grandes Basílicas. São Felix II ordenou que somente os bispos pudessem sagrar as Igrejas novas. São Mamerto, bispo de Viena, na França, introduziu em suas dioceses as procissões, chamadas das Rogações, nos três dias que precedem a festa da Ascensão, durante os quais também se costumava jejuar; mais tarde São Leão III prescreveu esta prática para toda a Igreja. No sexto século, São Gregório decretou que se começasse o jejum quaresmal pondo as sagradas cinzas sobre a cabeça dos fiéis. Os meninos que se julgavam aptos para os ofícios da Igreja, eram educados geralmente em colégios especiais ou nos mosteiros, vestidos com o hábito clerical. O Papa Sabiniano propagou na Igreja o uso dos sinos, já introduzido por São Paulino de Nola. Todos os eclesiásticos e todas as Igrejas gozavam de imunidade; não estavam ligados ao juízo dos seculares, e dependiam tão somente do foro eclesiástico. Este direito que deriva do mesmo Jesus Cristo, tinha sido reconhecido por Constantino e pelos imperadores cristãos que lhe sucederam.

Estado da Igreja - O Estado da Igreja durante esta Segunda Época foi assáz glorioso. Os Papas dos três primeiros séculos coroaram seus trabalhos com o martírio; assim também seguiram seu exemplo uma multidão de cristãos que derramaram seu sangue pela fé. Quase todos os mesmos pontífices desta segunda época se contam no número dos santos já por trabalhos que tiveram de vencer e também pelas leis com que explicaram e defenderam a doutrina da Igreja. A par dos pontífices defenderam a fé contra os hereges muitos santos doutores, escritores eclesiásticos, monges, penitentes, virgens e confessores, os quais com sua ciência e santidade formaram uma das épocas mais luminosas da Igreja. Os Francos, que pareciam os mais apegados à superstição, também receberam o batismo, seguindo o exemplo de seu rei Clovis. Os Longobardos que se tinham estabelecido novamente no Piemonte e na Lombardia e deixavam entrever grande apego ao Arianismo e à idolatria, finalmente todos abraçaram a fé católica, levados a fazê-lo especialmente pela conversão de Agilulfo duque de Turim e mais tarde rei dos Longobardos. Este príncipe excitado por sua esposa Teodolinda, mulher piedosa e muito religiosa, rechassou a heresia e abraçou a verdadeira fé, pondo em prática todos os meios a seu alcance para fazê-la florescer. Com o fim de garantir a paz em seus estados, expulsou deles os arianos e os pagãos que se tinham mostrado turbulentos; e de acordo com São Columbano, fundou o célebre mosteiro de Bóbio. Tendo devoção especial para com São João Batista, escolheu-o como padroeiro de seus estados e consagrou-lhe a catedral de Turim no mesmo lugar onde se levanta a basílica metropolitana. Agilulfo morreu no ano 615.

26 de abril de 2015

História Eclesiástica - Segunda Época Capítulo 7

CAPÍTULO VII 

São Bento e o monte Cassino - Feitos memoráveis deste santo - Os três capítulos de Nestório e o quinto Concílio Ecumênico.

São Bento e o monte Cassino - A vida monástica iniciada por São Paulo primeiro eremita e alentada, propagada e vinculada a determinadas regras por Santo Antão na Tebáida, aplicada ao clero por São Eusébio de Vercelli e espalhada na África por Santo Agostinho, recebeu por obra de São Bento na Itália e em toda a Europa ocidental, um regulamento fixo e uma difusão assombrosa. Este astro luminoso da Igreja nasceu em Núrcia no ducado de Spoleto. Enviado a Roma para seguir seus estudos encheu-se de tal espanto vendo a corrupção de seus companheiros, que na idade de quinze anos decidiu-se a abandonar o mundo e a retirar-se em uma profunda caverna a quarenta milhas da cidade. Deus, porém, que o destinava para maiores coisas, permitiu que o encontrassem muitos de seus companheiros e condiscípulos que atraídos por sua virtudes e milagres, iam em grande número visitá-lo. As famílias romanas se consideravam ditosas em confiar-lhe a educação de seus filhos, e lhe consagravam tanto afeto que já não queriam separar-se dele; por isso teve de edificar doze mosteiros para os receber. (Ano 528). O mais célebre entre estes é o do Monte Cassino, no reino de Nápoles, centro da ordem de São Bento. Quando se estabeleceu ali o Santo, ainda existia sobre o monte um templo dedicado a Apolo, deus adorado pelos habitantes daqueles arredores. São Bento quebrou o ídolo e o altar e converteu aquele povo à verdadeira fé. Ano 529.

Feitos memoráveis deste Santo - Fez Deus brilhar a santidade de seu servo com o dom de profecia e de milagres. Não podendo os invejosos sofrer suas correções e ocultar os remorsos que despertava a vista de sua santa vida, deliberaram matá-lo secretamente. Para este fim, ao sentar-se certo dia na mesa, ofereceram-lhe de beber em um copo que continha vinho envenenado; mas como o santo abade costumava fazer o sinal da cruz, antes de tomar alimento, mal acabou de fazer este sinal augusto, quebrou-se o copo com estrépito, como se tivesse sido ferido por uma pedra. Pondo-se então de pé disse-lhes com semblante sereno e tranquilo: "Perdoe Deus o vosso pecado", e saiu. Em outra ocasião, achando-se em presença de numeroso povo, somente com o sinal da cruz, ressuscitou a um morto que ficara esmagado debaixo das ruínas de uma montanha. A Tótila, rei dos Godos, que tinha ouvido contar os prodígios que fazia Bento, vieram desejos de presenciar algum milagre, e com este fim mandou-lhe dizer que desejava visitá-lo; porém em vez de ir ele em pessoa, enviou um de seus capitães vestido com as insígnias reais e acompanhado de seus oficiais. Apenas o avistou o santo disse-lhe: "Depõe, meu filho, o hábito que vestes, pois não te pertence". Quando soube isto, Tótila foi ele mesmo ao santo, e assim que o viu, prostrou-se por terra e ali. ficou até que Bento foi levantá-lo; este lhe predisse as vitórias que devia ganhar e a ano preciso de sua morte. O santo, seis dias antes de sua morte, predita a seus discípulos, quis que lhe, preparassem a sepultura. No último dia de sua enfermidade pediu que o levassem. à Igreja para receber a Eucaristia; e pouco depois, reclinando sua cabeça em um de seus discípulos, levantando as mãos ao céu, entregou tranquilamente sua alma ao Senhor no ano 543. São Bento deixou uma regra admirável que abraçaram mais tarde quase todos os cenobitas do ocidente. Multiplicaram-se de tal modo os monges beneditinos, que alguns séculos depois não havia cidade ou vila da Europa em que não se tivesse levantado. algum mosteiro. Tão grande é o bem que estes fazem à Igreja, que só Deus o pode calcular.

Quinto Concílio Ecumênico e os três Capítulos - O quinto Concílio Ecumênico é o segundo Constantinopolitano, assim chamado por ser o segundo celebrado em Constantinopla. Convocou-se para examinar os três livros, comumente chamados Os três capítulos com os quais pretendiam os Nestorianos justificar seus erros. O primeiro destes escritos se referia à pessoa e aos escritos de Teodoro de Mopsuéstia, do qual Nestório tinha tirado sua doutrina; o segundo continha: escritos de Teodoreto bispo de Cirne, onde havia alguma coisa contra São Cirilo; e o terceiro consistia numa carta de Ibas, bispo de Edessa, escrita a um herege da Pérsia chamado Mari, igualmente infecta de nestorianismo. As três obrazinhas, posto que condenáveis, não o tinham sido no Concílio de Calcedônia em consideração a seus autores, dois dos quais, (Teodoro e Ibas presentes no Concílio), tinham feito profissão de fé sinceramente católica. Pois bem, esta atenção era considerada pelos Nestorianos como uma aprovação dos ditos capítulos e consequentemente também dos erros que neles se professavam. Neste estado de coisas pareceu conveniente reprovar expressamente estas três obras para tirar todo pretexto aos ditos hereges. Celebrou-se um Concílio no ano 553, ao qual, por outra parte, não puderam intervir os bispos do Ocidente pela prepotência exercida contra eles pelo imperador Justiniano; por isso se apresentaram só 165 bispos, e estes quase em sua totalidade orientais. Foram examinados neste Concílio os três capítulos e condenados como contrários à fé: condenaram também de novo as doutrinas de Nestório e de Êutiques e alguns outros erros que se achavam nas obras de Orígenes. Conquanto este Concílio, por si não possa ser chamado ecumênico, tendo obtido, contudo, a aprovação e confirmação do Papa Virgílio, foi recebido e venerado como tal pela Igreja. Isto claramente confirma como desde a mais remota antiguidade se fazia consistir o valor dos Concílios, principalmente na autoridade do Papa. Também é bom notar aqui que este Concílio nos oferece uma brilhante prova do direito que em todo tempo tem exercido a Igreja, de condenar os maus escritos, de dar seu parecer sobre o sentido dos livros e exigir que seus filhos respeitem suas sentenças como o têm feito neste Concílio.

25 de abril de 2015

Catecismo Ilustrado - Parte 16

O Símbolo dos Apóstolos

9º artigo: Creio na Santa Igreja Católica - Constituição da Igreja

Constituição da Igreja

1. A Igreja é a sociedade dos fiéis que professam a religião de Nosso Senhor Jesus Cristo sob a direção do Papa e dos Bispos.
2. Entende-se por fiéis, aqueles que, estando batizados, creem tudo o que a Igreja ensina, submetendo-se aos pastores legítimos.
3. O Papa é o vigário de Jesus Cristo, o sucessor de São Pedro, o chefe visível e o doutor de toda a Igreja, e pai comum dos pastores e dos fiéis.
4. O primeiro papa foi São Pedro, que Jesus Cristo nomeou chefe da Igreja universal.
5. O Papa é sucessor de São Pedro porque é Bispo de Roma, e foi em Roma que São Pedro estabeleceu a sua residência e sofreu o martírio.
6. Os pastores legítimos da Igreja são, com o Papa, os bispos, que Jesus Cristo encarregou de instruir e governar a sua Igreja.
7. Os bispos são sucessores dos Apóstolos, encarregados de governar as dioceses, sob a autoridade do Papa.
8. Os Párocos são padres que os Bispos escolhem para estarem à frente das paróquias.
9. Os membros da Igreja são os indivíduos batizados e que acreditam o que a Igreja ensina, estando sujeitos ao nosso Santo Padre o Papa, e ao seu Bispo.
10. Não fazem parte da Igreja os infiéis, os hereges, os cismáticos, os apóstatas e os excomungados.
11. Um infiel é o indivíduo não batizado e que não crê em Jesus Cristo.
12. Um herege é o indivíduo batizado que recusa obstinadamente crer uma ou mais verdades reveladas por Deus, e que a Igreja ensina como artigo de Fé.
13. Um cismático é o indivíduo batizado que se separa da Igreja negando-se a reconhecer os pastores legítimos, e a obedecer-lhes.
14. Um apóstata é o indivíduo batizado que renega a Fé de Jesus Cristo depois de a ter professado.
15. Um excomungado é o indivíduo batizado que a Igreja eliminou do seu seio por causa dos seus crimes.
16. Os pecadores são membros da Igreja, mas são membros mortos.
17. É uma grande desgraça não pertencer à Igreja, porque não podem ser salvos aqueles que voluntariamente e por sua culpa estão fora do grêmio da Igreja.

Caracteres da verdadeira Igreja

18. Há uma só Igreja verdadeira, porque uma só foi fundada por Jesus Cristo. São quatro os caracteres ou sinais para a reconhecer: é una, santa, católica e apostólica.
19. A verdadeira Igreja romana, que tem por chefe o Papa, Bispo de Roma e sucessor de São Pedro.
20. A Igreja romana é una, porque todos os seus membros creem as mesmas verdades e obedecem ao mesmo chefe visível, que é o Papa.
21. É santa, porque nos oferece todos os meios para nos santificarmos, e sempre tem formado santos.
22. É católica ou universal, porque está espalhada por toda a terra e sempre tem subsistido desde Jesus Cristo.
23. É apostólica, porque foi fundada pelos Apóstolos, é governada pelos seus sucessores, e crê e ensina a sua doutrina.

Explicação da gravura

24. Ao alto, Jesus Cristo institui São Pedro chefe visível da Igreja. Entregando-lhe o báculo pastoral, dá-lhe a missão de apascentar os seus cordeiros e as suas ovelhas, isto é, de governar os pastores e os fiéis de que se compõe a Igreja e que constituem o rebanho de Nosso Senhor Jesus Cristo.
25. Em baixo vê-se: 1º o Papa, vestido de hábitos brancos e tendo na cabeça uma tiara; 2º de ambos os lados do Papa vêem-se os cardeais; 3º em frente do papa um Arcebispo com o pálio; um Bispo com a mitra e o báculo, e numerosos prelados, religiosos e religiosas; 4º mais acima e à direita, um padre ministrando a sagrada comunhão, um outro pregando o Evangelho aos fiéis, e um missionário que de crucifixo na mão anuncia Jesus Cristo aos infiéis.
26. A Igreja durará até ao fim do mundo, e triunfará de todas as perseguições, segundo a promessa de seu divino fundador, Jesus Cristo.

24 de abril de 2015

História Eclesiástica - Segunda Época Capítulo 6

CAPÍTULO VI

FALTAM AS PÁG's. 176 E 177 (Caso algum leitor possua a obra completa, sendo possível, enviar cópia em arquivo pdf para o e-mail degregodke@yahoo.com.br, para que possamos completar a nossa publicação. Agradecemos antecipadamente. Blog São Pio V)

confiado na proteção do céu, saiu, vestido de hábitos pontificais ao encontro de Átila perto de Mântua, onde o rio Míncio deságua no Pó. O altivo guerreiro, ainda que bárbaro e idólatra, recebeu-o cortesmente; e depois de tê-lo ouvido, aceitando sem mais as condições propostas, tornou a passar os Alpes, deixando a Itália em paz. Admiraram-se os soldados de Átila vendo em seu general aqueles insólitos atos de obséquio: "Como é possível, diziam, que nosso chefe se humilhasse tanto diante de um homem só, quando o não têm aterrorizado formidáveis exércitos?" Ele porém respondeu-lhes que enquanto falava com o romano Pontífice, viu sobre ele uma personagem vestida com hábito sacerdotal, que empunhava uma espada desembainhada, ameaçando ferí-lo se não obedecesse a Leão. Este Pontífice, depois de ter escrito e trabalhado muito em benefício da Igreja, cheio de méritos perante Deus e os homens, foi receber a recompensa no ano 401, após 21 anos de glorioso pontificado.

São Máximo de Turim - São Máximo bispo de Turim, é muito conhecido na história pela santidade de sua vida, por seus escritos e sobretudo por seus sermões, que constituem ainda agora um dos ornamentos do breviário romano. Combateu. com ardor os erros de Nestório e de Eutiques, e era tido em tão alta estima, que no Concílio romano, celebrado sob o Papa Hilário, sucessor de São Leão, ocupava o primeiro assento depois do Pontífice. Trabalhou muito para não permitir que a heresia invadisse o Piemonte, e para desarraigar a superstição dos pagãos, que ainda existiam em Turim, e lugares vizinhos. Era tão caritativo para com os pobres que, se algum estrangeiro perguntasse pela casa do bispo, respondiam-lhe que podia entrar com confiança na casa que visse rodeada de mendigos, pois essa seria certamente a casa do bispo. Sustentava e promovia uma terníssima devoção para com a Mãe de Deus e falava dela com muito zelo em seus sermões, afirmava que esta fora achada digna de ser morada do Filho de Deus antes por sua graça original do que por suas virtudes. Conta-se este santo entre os mais doutos escritores da Igreja. Descansou no Senhor no ano 474 mais ou menos.

São Gelásio Papa - São Gelásio, romano, eleito para no ano 652, é muito conhecido por suas instituições em pról da Igreja. Reuniu em Roma um Concílio ao qual assistiram muitos bispos; nele se declarou quais os livros autênticos do Antigo e do Novo Testamento e quais os apócrifos; recomendou a honra em que se devem ter os quatro concílios ecumênicos de Nicéia, Constantinopla e de Calcedênia; compôs um catálogo das obras dos santos padres e dos escritores eclesiásticos; mandou publicar um livro chamado Sacramentale, no qual se acha a ordem de quase todas as missas que temos no missal romano e a fórmula para dar as bênçãos (missal anteror ao Concílio Vaticano II). Aboliu as festas lupercais que se celebravam em Roma, no mês de fevereiro, em honra do deus Pan, e em lugar delas mandou celebrar a festa da Purificação, como já se fazia em muitos paises; por último confirmou o antigo costume de conferir as ordenações aos eclesiásticos nas quatro têmporas. Ainda que se achasse elevado à primeira dignidade do mundo, levava entretanto uma vida pobre, praticando rigorosa austeridade; dava de comer a todos os pobres que conhecia e ele mesmo os servia na mesa. O tempo que lhe deixavam livre suas ocupações, empregava-o na oração ou em piedosos colóquios com os mais dignos servos do Senhor. Morreu santamente no ano 496.

23 de abril de 2015

Sermão para o 2º Domingo depois da Páscoa – Domingo do Bom Pastor – Pe Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] O Sacerdócio, o Bom Pastor

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém,
Ave Maria…
“Eu sou o bom pastor, e conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem.”
Tivemos a graça, recentemente, de reviver, durante a Semana Santa, a obra da redenção realizada pro NSJC. Essa obra admirável que nos permite a santidade, que nos permite chegar ao céu. Todavia, nosso Salvador não quis que a obra da redenção se limitasse aos seus contemporâneos. Ele quis, claro, que os frutos da redenção se aplicassem até o fim dos tempos. Para que sua obra fosse continuada ao longo dos séculos, NS institui o sacerdócio. O sacerdócio católico. O sacerdote, o padre, foi instituído por Cristo para continuar a obra dEle ao longo dos séculos. O Padre é propriamente um outro Cristo, alter Christus. Quando o padre é ordenado pelo bispo, sua alma é marcada para sempre com o caráter sacerdotal, uma marca espiritual que não pode jamais ser apagada. Pela ordenação, o sacerdote participa do sacerdócio de Nosso Senhor. Pelo batismo, o cristão se distingue do não cristão. Pela crisma, o simples batizado se torna soldado de Cristo. Pelo sacramento da ordem, o homem participa do sacerdócio de Jesus Cristo, se torna sacerdote do altíssimo, ele pode administrar as coisas sagradas, aplicar os frutos da redenção.
O sacerdote é, então, um homem oficialmente constituído para ser o mediador entre Deus e os homens, para oferecer as orações oficiais a Deus, e para oferecer o sacrifício a Deus em nome da sociedade. O sacerdote, como nos diz São Paulo, é um homem escolhido (por Deus) dentre os homens, e estabelecido para os homens para tratar das coisas que dizem respeito a Deus. Assim, o sacerdote não tem por função tratar das coisas humanas e transitórias, por mais importantes que pareçam ser, mas tem por função tratar das coisas divinas e eternas. Entre elas, a primeira função do sacerdote é cultuar devidamente a Deus em nome da sociedade. Portanto, a primeira função do sacerdote é oferecer o sacrifício a Deus. O sacrifício é o ato de culto mais perfeito que se pode prestar a Deus. E o único sacrifício agradável a Deus, depois da vinda e morte de Cristo, é a Missa, que renova o sacrifício de Cristo na Cruz. O primeiro dever do sacerdote é a Missa, é o sacrifício. O Padre é, em primeiro lugar, o homem do sacrifício, é o homem da Missa, pela qual Deus é perfeitamente adorado, pela qual podemos agradecer a Deus devidamente por todos os seus benefícios. Missa pela qual podemos pedir com toda confiança o perdão de nossos pecados e as graças de que precisamos para a nossa salvação. Tanto o padre é o homem da Missa e da Eucaristia que o sacerdócio foi instituído no mesmo momento em que a Missa e a Eucaristia, na Última Ceia.
O sacerdote é, primeiramente, o homem da Missa. Mas ele é também o homem que oferece a Deus as orações em nome da Igreja, pela recitação do Breviário. No Breviário Tradicional, Tridentino, a cada semana o Padre reza os 150 Salmos e hinos e outras orações como representante oficial da Igreja.
Como dissemos, o sacerdote é mediador. Ele oferece o sacrifício a Deus e dirige as orações dos homens até Deus. O sacerdote apresenta diante de Deus as súplicas dos homens e as honras que os homens prestam a Deus. Mas o sacerdote é mediador também no sentido inverso: o sacerdote traz aos homens as graças de Deus, sobretudo pelos sacramentos, mas também pela transmissão fiel dos ensinamentos de NSJC. Ele foi instituído para o bem dos homens nas coisas que dizem respeito a Deus. O sacerdote deve santificar as almas, deve levá-las até Deus, pelos sacramentos, pela pregação da verdade. O sacerdote, em todas as suas ações, deve ter em vista, a salvação das pessoas. É assim que o sacerdote dá a sua vida pelas ovelhas, se Deus não lhe permitir o martírio. Nisso, está a vida do sacerdote, do bom pastor: prestar o culto devido a Deus e santificar as almas. E como são necessários sacerdotes que realmente se preocupem com essas coisas. Deus quis utilizar-se dos sacerdotes para perpetuar o seu sacerdócio, para perpetuar a obra da redenção. Quando não há sacerdotes, ou quando não há sacerdotes realmente conscientes de seus deveres, o mundo vai se afogando nas trevas do pecado. O sacerdote não foi feito tal para agradar ao povo, nem esgotar seu tempo em reuniões sem fim. O sacerdote tampouco é um funcionário. O sacerdote não é um mercenário, mas um bom pastor, que conhece as suas ovelhas e que vai em busca da salvação delas. O sacerdote é o mediador entre Deus e os homens. Ele foi feito para cultuar a Deus e salvar as almas. E, para isso, o sacerdote renuncia até mesmo a formar uma família, para poder dedicar-se inteiramente a Deus e às almas, sem divisão com outros amores.
Então, o sacerdócio é constituído para os homens naquelas coisas que dizem respeito a Deus. Mas o sacerdote é escolhido dentre os homens. Os sacerdotes não são anjos enviados por Deus. Eles são escolhidos dentre os homens. Eles são fruto de boas famílias católicas, muitas vezes. Outras vezes, são fruto de uma conversão. O fato é que eles são escolhidos dentre os homens. É preciso, então, que os jovens, que levam uma vida católica séria, considerem o sacerdócio. Que considerem a dignidade do sacerdócio, que considerem a necessidade do sacerdócio, para se cultuar devidamente a Deus e para o bem das almas. Nós precisamos de padres. O mundo precisa de padres. Mesmo um padre precisa de outro padre, para confessar-se, para receber a extrema-unção. Deus quis servir-se dos sacerdotes para perpetuar a obra da salvação. Nós precisamos de padres.
É enorme a messe, mas os operários são poucos. É enorme o rebanho, mas são poucos os pastores. Quantas coisas a fazer pelas almas, pelas ovelhas, nesse mundo, que, praticamente, respira o pecado. Mas são poucos os operários, são poucos os pastores. São poucos os jovens católicos sérios que consideram a possibilidade de se tornarem padres. São poucos os que consideram a necessidade do sacerdócio para restaurar tudo em Cristo. São poucos os que consideram a dignidade do sacerdócio. São poucos os que consideram o tanto que um sacerdote pode fazer pela glória de Deus e pela salvação das almas. E quantos que começam a pensar no sacerdócio abandonam rapidamente a idéia, por medo, por vergonha, ou às vezes iludidos de que são necessários como leigos para isso ou para aquilo, dando inúmeras desculpas que não são realmente sérias. Os operários são poucos. A messe é grande. São inúmeras as ovelhas sem pastor. Deus quis servir-se dos sacerdotes. E o mundo precisa dos sacerdotes. Sem eles, os homens se tornam semelhantes a animais brutos, como nos diz o Santo Cura d’Ars.
Nesse Domingo do Bom Pastor, peçamos a Deus, que nos envie bons pastores, que nos envie sacerdotes. E rezemos por aqueles que já são pastores, para que sejam bons pastores e não mercenários.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

22 de abril de 2015

Sermão Domingo in Albis - Padre Renato Coelho - IBP

Sermão: Domingo in Albis

A alegria de pertencer à única Igreja de Cristo

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Estamos no Domingo Quasimodo, devido às primeiras palavras ditas no Introito da Missa, que fala do renascimento em Cristo do novo homem que não busca mais pecar. Esse domingo também é conhecido como Domingo in Albis, isto é, Domingo Branco, pois antigamente nessa época os catecúmenos recém-batizados ainda se vestiam de branco devido ao batismo feito na Vigília Pascal e permaneciam assim até esse domingo inclusive. Esse branco simboliza a pureza na vontade e o brilho da luz na inteligência recebidos pelo Espírito Santo através do caráter batismal. Tantas graças não devem ser recebidas em vão, por isso antes de receber o batismo, deve-se entender bem as consequências reais que isso acarretará na vida de alguém. Não é um mero símbolo, mas algo que tem uma eficácia real, sendo um grave sacrilégio caso alguém o receba mais de uma vez ou de modo indevido.
A eficácia do batismo é o próprio Cristo. Não apenas Cristo simplesmente, mas Cristo ressuscitado. Todavia é impossível ressuscitar sem ter antes morrido, algo que parece escapar à compreensão de muitos carismáticos que falam apenas de Cristo ressuscitado e esquecem da morte de Cristo. E para uma pessoa morrer, passa-se antes por grandes sofrimentos, sendo o da separação da alma do corpo o maior de todos, sendo vão se perguntar se morrer de um jeito ou de outro é mais doloroso ou não, visto que todos passarão por esse sofrimento máximo que é  o da alma como que sendo arrancada do corpo. E para alguém sofrer e morrer, é preciso antes viver. E para alguém viver é preciso antes nascer. E para um homem nascer é preciso que tenha uma mãe. Nesse sentido, um verdadeiro católico não deve ser um festeiro que pensa apenas na ressurreição de Cristo como se isso justificasse que ele pudesse fazer o que quiser de sua vida, como pensam os protestantes. O verdadeiro católico sabe que Cristo não apenas ressuscitou, como nasceu, viveu, padeceu e morreu por nós. Essa visão completa de Cristo diferencia radicalmente o modo de ser de um católico de um protestante que aceita Cristo como que pela metade, mutilado. Buscar a Cristo e ignorar sua mãe, Maria Santíssima, também é uma forma de mutilação. Não é correto chamar os protestantes de cristãos, pois não seguem a Cristo mas sim a si mesmos e suas opiniões puramente humanas. Cristão é quem segue a Cristo integralmente, o qual deixou apenas a Igreja Católica como fiel guardiã de seus ensinamentos e sacramentos. Fora da Igreja Católica Apostólica Romana não há salvação.
E isso entenderam muito bem os catecúmenos que foram batizados na Vigília Pascal, algo que muitos ditos católicos, mesmo padres e bispos, ou esqueceram ou não querem entender. Nos tempos atuais é altamente temerário e beira a má-fé dizer que “Cristo fundou a Igreja”. Não. Deve-se dizer a verdade de modo claro e completo: “Cristo fundou a Igreja Católica Apostólica Romana”, para não confundir a Sua Igreja com os dejetos frutos do trabalho das mãos dos homens. Excluem-se aqui até mesmo os ortodoxos, que são tão parecidos com os católicos, mas que, por exclusiva culpa própria, se separaram da Igreja de Cristo e se mantêm unidos numa espécie de cadáver congelado no tempo. Que Deus tenha piedade dos cismáticos e dos hereges que estão fora da única Igreja de Cristo. Que eles abandonem seus erros e busquem a verdadeira Igreja de Cristo, como rezamos na Sexta-Feira Santa.
Devemos dar graças a Deus de estarmos na única e verdadeira Igreja de Cristo, pela qual morreu e ressuscitou Nosso Senhor.
Ao longo da oitava de Páscoa, isto é, dos oitos dias seguidos ao domingo de Páscoa, as leituras da Missa falam sempre das várias aparições de Cristo ressuscitado. De modo gradual, vemos primeiro que o sepulcro onde foi posto estava vazio. Tal ainda não prova a ressurreição, mas dá indícios dela. Depois Cristo aparece diante de alguns discípulos, algo muito mais impressionante, mas ainda restaria a possibilidade de ser uma aparição, um fantasma ou uma ilusão da imaginação dos presentes. Enfim, Cristo aparece e se deixa tocar, mostrando que ele era 100% real, tinha um corpo sólido, comia e bebia, tinha as chagas, só que agora ressuscitado para nunca mais morrer.
Todas essas coisas nos devem reviver o fervor que devemos ter de sermos católicos, de termos um santo orgulho, o qual não deve ser egoísta, mas irradiar nos nossos próximos para que todos possam compartilhar dessa alegria imensa que a Igreja deseja a Nossa Senhora quando cantamos no final da missa: Rainha do Céu, alegre-se, aleluia!
Renovemos nossas promessas do batismo e sejamos alegres por sermos católicos, com uma sábia alegria, pois um católico triste não é digno de crédito!

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

21 de abril de 2015

DOMINGO DA OITAVA DA PÁSCOA (IN ALBIS) Capela N. Sr.ª das Dores Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] Guardar a fé

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…
Quasi modo geniti infantes, Como crianças recém-nascidas, mas já com o uso da razão, desejai sinceramente o leite espiritual.”
Durante oito dias a Santa Igreja prolonga a alegria pela ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. A alegria é tal que a Igreja não pode contê-la em um só dia. Durante toda a oitava de Pácoa, nas Missas, a Igreja repetiu as seguintes palavras, falando do dia da ressurreição: “este é o dia que fez o Senhor, alegremo-nos e exultemos nele”. Sim, o dia da ressurreição é o dia que fez o Senhor. É o dia da nova criação. Não é que Deus tenha criado novos céus e novas terras no dia da ressurreição. Não, nesse dia, Deus criou um homem novo. Um homem capaz de vencer o pecado, a morte e o demônio. Com a morte de Cristo podemos efetivamente morrer para o homem velho, para o pecado, e podemos nascer um homem novo e jovem. Jovem não pela idade, mas pela graça, pela virtude. A alma que vive na graça é uma alma sempre jovem, em virtude do entusiasmo que tem pelas coisas de Deus, pela prontidão da vontade em servir a Deus. Devemos ter uma alma jovem, não no sentido de que um idoso ou de que pessoa madura deva se comportar como inconsequente ou de maneira inadequada para sua idade e condição, mas no sentido de que devemos ter grande generosidade e prontidão para servir a Deus em todas as coisas.
São Pedro, de quem são tiradas as palavras do Intróito, vai além, e diz que devemos ser como crianças recém nascidas. Portanto, morrendo para o pecado com Cristo na Cruz, devemos renascer para a vida da graça, para a vida da virtude com Ele na ressurreição. Devemos ser, então, como crianças recém-nascidas, mas já com o uso da razão, nos diz São Pedro. Ou seja, devemos ser como os recém-nascidos não para fazer o que quisermos, irracionalmente, mas, para buscar, com sinceridade e simplicidade, a doutrina de Cristo, que é o leite espiritual.
E é acreditando na doutrina de Cristo, é acreditando naquilo que Nosso Senhor nos ensinou que seremos salvos, que teremos uma vida nova aqui na terra e a vida eterna no céu, como nos diz São João no final do Evangelho de hoje. É acreditando em Jesus Cristo que poderemos vencer o mundo. É pela fé, que poderemos vencer o mundo. E o centro de nossa fé deve ser as palavras de São Tomé no Evangelho de hoje, dirigidas a Jesus: “Meu Senhor e meu Deus”. A base da nossa fé é a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Jesus Cristo é homem e Deus. E, sendo assim, devemos acreditar em seus ensinamentos e devemos colocá-los em prática. E somente com uma fé viva, quer dizer, com uma fé acompanhada das boas obras é que poderemos vencer o mundo. Uma fé morta, sem as obras, não basta. É preciso ter uma fé viva e firme. Não é um sistema político, não é um político, não é uma personalidade, não é uma filosofia qualquer, que vencerá o mundo. É a Igreja Católica com a fé que ensina aos homens e que deve permear todas as ações humanas. O que transformou a antiguidade pagã na civilização cristão foi a Igreja, foi a fé católica dos mártires, dos confessores, das virgens, das pessoas simples e importantes, das famílias… a fé do anônimo bem como do homem público. Foi a fé dos grandes santos, que cultuamos hoje sobre os nossos altares, mas também a fé de tantos outros que ficaram esquecidos nos séculos passados. A fé que os levava a querer restaurar tudo em Cristo, a fé que os leva a desejar e agir pelo reinado de Cristo na sociedade.
Mas como é grande a tentação do desânimo diante do mundo em que vivemos. Alguns poderiam dizer: é tão difícil ser católico, educar bem os filhos, evitar as ocasiões de pecado, evitar as diversões pecaminosas, que são inúmeras, bastando ligar a televisão para encontrá-las, por exemplo. Tantas cruzes que existem porque somos católicos. Quantas cruzes porque temos que nos indispor – às vezes mesmo no seio da família – em virtude de nossa fé. O mundo parece nos apresentar tantas facilidades, tantas alegrias. Uma vida tranquila, nos diz o mundo. E, então, desanimamos. Um sintoma claro do desânimo é começar a deixar as orações de lado. Outro sintoma, a preguiça espiritual, quer dizer, a preguiça para se dedicar às coisas de nossa santa religião. Ainda outro sintoma claro: a entrega  cada vez maior a diversões. No início, uma entrega sem moderação a diversões lícitas, logo a diversões ilícitas, que se opõem à fé e à moral católicas. Pouco depois, a pessoa passará a pensar como vive, isto é, de modo cada vez mais afastado de Deus. E se perguntará: por que continuar sendo católico, porque continuar tendo a fé católica e sofrer por causa disso? E já não saberá a resposta. Já não saberá dizer: “ora, porque na fé católica está a verdade, na fé católica está o bem”. E na verdade e no bem estão a nossa felicidade. Nossa felicidade não está nas facilidades e alegrias aparentes do mundo… As facilidades mundanas são facilidades para o pecado, para ofender a Deus e prejudicar-nos a nós mesmos. As alegrias mundanas são alegrias passageiras. Nossa felicidade está em Cristo Jesus, nosso Senhor e nosso Deus. Só Ele tem palavras de vida eterna. As cruzes, os sofrimentos dessa vida são nada comparados às alegrias do céu, alegrias que alcançaremos se tivermos uma fé viva, isto é, uma fé que se traduz em obras e que evita o pecado. Não se pode nem se deve desanimar, caros católicos, mas é preciso continuar com ânimo e com a alma jovem, jovem porque fundada em Deus, jovem porque encontra em Deus a força para vencer o mundo. As dificuldades existem e não são poucas, mas se Nosso Senhor sofreu antes de seu triunfo, antes de sua ressurreição, por que nós, pobres pecadores, não deveríamos sofrer? E devemos sofrer com alegria… É Nosso Senhor quem o diz: “Bem aventurados sois vós, quando vos injuriarem e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim”. E continua: “Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa no céu.” Portanto, não devemos desanimar, não devemos perder a coragem nem a alegria de sermos católicos.
Como nos diz a epístola de hoje, devemos continuar a festa da Páscoa em nossa vida e em nossos costumes. Devemos continuar a festa da Páscoa, mantendo a fé, pois a páscoa, a ressurreição é a festa da fé por excelência. Devemos continuar a festa da páscoa mantendo a alegria própria da páscoa, que é a alegria de morrer para o pecado, e de viver em Jesus Cristo. Precisamos imprimir em nossas almas as palavras de São Paulo: “combati o bom combate… guardei a fé”. Fidem servavi. Guardei a fé. Que grande será a nossa alegria, quando, na hora de nossa morte pudermos dizer essas palavras: guardei a fé. Guardei o maior tesouro que existe: a fé e uma fé viva, que se traduz em obras, isto é, que se traduz na observância dos mandamentos.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.