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24 de maio de 2015

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino

DEVE-SE SABER O QUE SE VAI RECEBER E PENSAR NISSO

D. — Padre, para bem comungar requer-se algo mais do que o estado de graça?
M. — É claro, pois é coisa sabida que para bem comungar são necessárias três coisas, a saber:
1º. - Estado de graça;
2º. - Saber o que se vai receber e pensar nisso;
3º. - Estar em jejum desde a meia-noite até o momento da comunhão. A primeira condição já foi explicada. Falemos agora sobre as outras duas.
D. — Poderá haver comunhões mal feitas por falta da segunda disposição?
M. — Sim. Principalmente por ocasião da Páscoa e outras grandes festas sucede que muitos cristãos vão comungar sem saber e nem pensar em quem vão receber. Quantas não são as mulheres que se acostumaram a receber diariamente a Comunhão, somente para imitar o que outras fazem. Caro amigo, você deve saber que há muita ignorância religiosa entre o povo, sobretudo a respeito da Sagrada Comunhão.
Muitos, muitíssimos são os cristãos modernos que são "tábua rasa" no que se refere à presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, isso porque não tiveram uma instrução catequética adequada. Ora, tais pessoas vão comungar como se fossem beijar uma relíquia ou cumprir qualquer ato de religião.
Muitos cristãos há em nossos dias que ainda não aprenderam bem o que seja a Comunhão e ignoram a essência e substância de tão grande Sacramento. Existem também muitos outros que ignoram completamente os efeitos admiráveis que a comunhão produz e as disposições necessárias para bem recebê-la. Se lhes perguntarmos sobre isso, respondem como criancinhas que se preparam para a Primeira Comunhão: sabem o que aprenderam no colo materno e nada mais. Com uma instrução assim deficiente será possível comungar bem?
D. — Impossível, Padre.
M. — Calcule, pois, quantas não serão as comunhões mal feitas!
D. — Número impressionante. Esses tais não deveriam comungar.
M. — Infelizmente dá-se bem o contrário: nem se abstem, nem se instruem. Pois estão convencidos que já sabem tudo, e que são dignos de comungar como os outros.
D. — E então?
M. — Então é preciso pregar, instruir o povo, levantar a voz bem alto contra os abusivos, vigiar constantemente e sobretudo examiná-los com prudência e rigor.
D. — Tudo quanto o senhor disse até agora está bem quanto ao saber o que se vai receber; mas diga-me também alguma coisa sobre o pensar no que vamos receber.
M. — Com muito prazer. Diz o catecismo que é preciso pensar, refletir no que vamos receber, por isso fazem mal os que vão comungar distraidamente, isto é, sem fé e devoção.
D. — Na Igreja vejo muitas vezes alguns, mormente meninos, que brincam, falam e ficam distraídos durante a Missa e no momento da comunhão vão comungar sem nenhuma preparação.
M. — Fazem mal, muito mal. Sendo crianças ainda têm desculpas, pois Deus terá em consideração a pouca idade e juízo; mas se forem adultos não terão nenhuma desculpa.
D. — E as senhoras e moças que enquanto vão comungar viram a cabeça para todos os lados, rindo e fazendo graças com o fim de se exibirem e mostrarem a todos, seus vestidos elegantes e pouco decentes?
M. — Fazem muito mal. Todas elas fazem mal a comunhão.
D. — E são coisas sérias?
M. — Muito sérias, pois se trata nada mais nada menos que desprezar o mais augusto dos Sacramentos. São pobres desgraçados, almas sem fé.
D. — Que fazer para acabar com tais abusos?
M. — Vigiá-las, corrigi-las, reprovar-lhes o procedimento e se não for suficiente, proibi-las de comungar.
D. — E o povo não estranhará?
M. — Quando se acostumarem a ver os indignos afastados da Santa Comunhão ninguém mais haverá de estranhar e não só, até hão de aprovar tal procedimento que visa impedir o desrespeito à pessoa adorável de Jesus Cristo realmente presente na Eucaristia.
D. — Mas, com isso não haverá perigo de que muitos se afastem da mesa da comunhão?
M. — Mão importa. Antes de tudo deve-se ter em vista o respeito e a adoração devidas ao Santíssimo Sacramento. Diminuirão de muito as comunhões, não há dúvida. Porém diminuirão também os sacrilégios e os que comungam mal aprenderão a comungar dignamente.
Esta é uma doença como as outras; se não lhe for aplicado um remédio progredirá cada vez mais.
"Fora com os cães" gritava S. Agostinho. Nós também gritemos "Fora os cães" e procuremos expulsá-los verdadeiramente. Agindo assim e somente assim as bênçãos divinas descerão com mais abundância sobre as cidades e povoados.

23 de maio de 2015

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

BASTA NÃO ESTAR EM PECADO MORTAL

D. — Agora, Padre, diga-me: Para comungar basta não estar em pecado mortal?
M. — Sim, para quem está em jejum desde a meia-noite e sabe o que vai receber, basta estar em graça de Deus, isto é, não ter pecado mortal. Todavia requer-se também a reta intenção, isto é, comungar por amor de Jesus Cristo, para obter a graças espirituais e temporais, etc.
O fruto da comunhão depende das disposições de cada um. Quanto melhores forem as disposições maior será o fruto. Jesus Cristo, encarnando-se, procurou acomodar-se, por assim dizer, ao nosso teor de vida. Não agimos assim com nossos amigos, parentes e conhecidos? Quando alguém nos ama, favorece e respeita, procuramos também de retribuir-lhe da mesma forma e quanto maior é o amor que ele tem por nós, tanto mais procuramos de amá-lo.
Com a comunhão sucede o mesmo. Jesus Cristo será bondoso, e generoso conosco em proporção à fé, piedade e devoção que tivermos.
D. — Como faziam os santos, não é, Padre?
M. — Sim, como faziam os santos e como fazem ainda agora os verdadeiros cristãos, os que desejam alcançar o Paraíso e amam realmente a Jesus Cristo.
D. — Serão muitos esses verdadeiros cristãos?
M. — Muitíssimos. Graças a Deus, existem muitas almas, em todas as condições sociais que diariamente recebem o alimento eucarístico como verdadeiros anjos. Há pais e mães cristãos, jovens de ambos os sexos que todos os dias, com as melhores disposições vão receber o Pão dos Anjos!
Existem muitas almas que recebem o alimento eucarístico como verdadeiros Anjos
Oh! Somente os ventoinhas, os dissipados, os tíbios, os que têm uma fé mesquinha, comungam com indiferença e sem reflexão.
D. — E esses tais farão mal a comunhão?
M. — Não; se não estiverem em pecado mortal não comungam mal, pois comungar, conforme o catecismo é sempre uma coisa boa, porém perdem muitas graças.
D. — Que quer dizer isso, Padre?
M. — Com alguns exemplos, talvez, você poderá compreender melhor. São um pouco triviais, mas tenha a santa paciência de ouvi-los.
Dois camponeses trabalham juntos na mesma terra: um a cultiva com cuidado, extirpando as ervas daninhas, arando-a de vez em quando; lança adubos para torná-la mais fecunda; cerca-a de todos os lados para que as sementeiras não sejam pisadas, enfim, cuida verdadeiramente do seu campo. O outro ao invés pouco se incomoda. Lança a semente de qualquer modo. Qual dos dois terá melhor colheita?
D. — Sem dúvida, o primeiro.
M. — Pois bem, na Comunhão acontece a mesma coisa. Conforme as disposições e o interesse de cada um; conforme a piedade e a devoção que tem; conforme, sobretudo, o nosso amor a Jesus Cristo, receberemos a abundância de graças e favores.
Suponhamos também dois amigos que vão à feira a pé. Um se satisfaz em passear, respirando o ar puro dos campos ou admirando a beleza dos prados floridos. E na feira somente olha as mercadorias expostas nas barracas. O outro ao invés colhe as flores mais bonitas que encontra e compra as mercadorias que acha úteis para a família. De volta; qual dos dois terá aproveitado melhor o passeio?
D. — Sem nenhuma dúvida aquele que levou para casa tudo quanto encontrou de bom e útil.
M. — Daqui se pode compreender que a comunhão é um tesouro de valor inestimável, inesgotável para os cristãos que delas se aproximam, mais desfrutando aquele que for mais esperto.
D. — Se é assim, até agora infelizmente obtive pouco fruto em minhas comunhões; porém, de ora em diante vou fazer o possível para que sejam bem fervorosas e devotas e assim se tornem um verdadeiro tesouro para minha alma.
M. — Muito bem; persevere nesse propósito e verá quão abundantes serão os frutos.
D.— Mais uma coisa, Padre: se alguém for comungar sem fé e devoção, comungará mal?
M. — Não. Já lhe disse: somente quem comunga em pecado mortal ou sem as devidas disposições faz a comunhão mal feita. Do contrário sempre será boa e proveitosa, pois que, como ensinam os teólogos, a comunhão opera ex opere operato, isto é, por sua própria virtude sobrenatural e divina.
D. — Quem não tivesse essas disposições seria melhor que não comungasse, não é, Padre?
M. — À sua pergunta respondo com uma terceira comparação:
Frequentemente se encontram pessoas que, ou por indisposição, ou por doença, não tem nenhuma vontade de comer. E, se engolem algum alimento é só forçadamente e com muita repugnância. Não obstante, aquela migalha de alimento ingerido lhes é de grande proveito transformando-se em carne e sangue. E assim vão arrastando a própria existência. Que seria melhor para elas: comer ou não comer?
D. — Comer, se não morreriam.
M. — Logo, o mesmo deve-se dizer quanto à Comunhão, alimento de nossas almas. Se não comungarem morrerão, caindo irremediavelmente no pecado mortal que é a morte da alma.
O Espírito Santo na Sagrada Escritura faz o pecador exclamar: “Estou murcho como a erva que foi cortada; meu coração está seco como o feno do prado porque deixei de comer meu pão.” Isto é, sabia que devia comer o pão que Jesus me deixou para sustentar minha vida espiritual, mas por indiferença, por desleixo, me descuidei disso. Eis o remorso que atormenta muitas almas que, embora vivam bem, todavia desprezam o mandamento de Cristo: Tomai e comei: isto é o Meu Corpo.
D. — Então fazem mal os que não comungam porque não sentem nem piedade nem devoção?
M. — Certamente. São uns iludidos como aqueles que não comem porque não sentem apetite, como aqueles que estão doentes e não tomam remédios, como aqueles que sentem frio e não se aproximam do fogo, ou têm sede e não bebem água.

22 de maio de 2015

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

É SEMPRE PRECISO CONFESSAR-SE ANTES DE COMUNGAR?

D. — Diga-me, Padre, será preciso confessar-se toda vez que vamos comungar?
M. — Para quem se acha em pecado mortal é claro que a confissão é necessária.
D. —E se hoje por exemplo não tenho tempo ou não consigo confessar-me e digo: "Bom, amanhã me confessarei; no entanto hoje vou comungar", faço mal?
M. — Se você sabe que está em pecado mortal, cometerá um sacrilégio.
D. Então, não há exceção nem pretextos que valham?
M. — Absolutamente não. Nem razões, nem pretextos, nem desculpas; nada. Se alguém não pode ou não quer confessar-se, também não comunguem. Deixando a comunhão não fará nenhum pecado; invés, se comungar em pecado mortal, perpetrará sempre um sacrilégio. São Paulo e Santo Tomás dizem terminantemente: Examine-se antes o homem... Antes de comungar, entre cada um em sua consciência e veja se cometeu algum pecado mortal; se verdadeiramente certificar-se disso, deixe a comunhão, não vá receber a própria condenação.
D. — Então, Padre, não basta arrepender-se dos pecados e fazer o propósito? É preciso também a confissão?
M. — Certamente que em tais casos é necessária a confissão, pois para comungar é preciso estar em graça de Deus, isto é, com a alma livre de pecados mortais, e sem a confissão não se obtém o perdão dos pecados.
Que lhe diria o rei se você fosse à sua presença com as mãos sujas, dizendo-lhe: perdão, majestade, depois irei lavá-las?
D. — Na certa expulsar-me-ia de sua presença.
M. — Então quer que Deus proceda de outro modo?
D. — Mas Deus vê o interior, conhece todos os pensamentos e as intenções.
M. — Assim é de fato. Mas isso não é razão suficiente para que se lhe falte ao respeito. Lembrete daquele sujeito que não tinha o traje nupcial... Além disso, se a Igreja, por meio de seus doutores e Concílios prescreveu essa norma, com que autoridade quer você corrigi-la? Em matéria religiosa a Igreja é mestra única e infalível.
D. — Quanto a mim estou de acordo. Porém, há outros que desejariam as coisas diversamente.
M. — Esses outros pensam assim ou porque são ignorantes ou porque são malvados. Quem se confessa fica perdoado, quem não se confessa não fica perdoado e basta!
Conta a História Sagrada, que Naamão, generalíssimo do rei da Síria, um dia foi procurar o profeta Eliseu pedindo-lhe que o curasse da lepra.
O profeta como remédio mandou-o lavar-se sete vezes no rio Jordão. Ele, porém, levou a mal a ordem do profeta, e respondeu:
— Para que isto? Acaso na Síria não haverá rios mais caudalosos que o Jordão? E ainda mais: por que sete vezes? Não basta uma?
E voltando para os que o acompanhavam: Vamos, vamos embora! Este homem não vale nada.
Mas os da comitiva puseram-se a insistir:
— General, o remédio é tão simples. Experimente, não custa nada e pode ser que seja eficaz.
Naamão, diante dessas razões, deu-se por vencido. Foi ao Jordão, lavou-se sete vezes e ficou completamente curado. Se não tivesse seguido o conselho não teria obtido a cura.
O mesmo sucede em nosso caso: a lepra representa o pecado; a ordem de Cristo é que nos lavemos por meio da Confissão. Quem obedece fica purificado e poderá comungar; quem não obedece, continuará sempre imundo e por consequência lógica não poderá comungar.
D. — E se o confessor negar a absolvição?
M. — Quando o confessor por motivos graves nega a absolvição, não se pode ir comungar.
D. — E no caso em que o confessor der a absolvição, mas proibir de comungar?
M. — É bem possível que às vezes e por justos motivos o confessor proceda assim, e diga ao penitente: Absolvo-te de teus pecados, porém, até segunda ordem ficas proibido de receber a comunhão. Pois bem, em tais casos é preciso obedecer cegamente, sem discutir nem apresentar desculpas.
Em se tratando de sacramentos o confessor é juiz responsável por seus atos, e não o penitente.
D. — E em se tratando de pessoas que vão casar-se?
M. — Nem neste caso, se o confessor proibir não poderão comungar.
D. — E em perigo de morte?
M. — Em perigo de morte, se estiver em pecado grave, ninguém poderá comungar se antes não se tiver confessado, exceto no caso de absoluta impossibilidade. O exemplo do rei Saul poderá servir-nos de tremenda lição.
D. — Conte-o, Padre.
* * *
M. — Samuel havia ordenado a Saul que não oferecesse nenhum sacrifício antes que ele chegasse; mas, Saul, soberbo e orgulhoso, cansado de esperar com o fim de acalmar o povo, disse:
— Que nos importa Samuel? Eu mesmo vou oferecer o sacrifício. Acaso não sou rei de Israel?
E dito isto ofereceu o sacrifício. Mas nesse ínterim chegou o profeta. Com palavras severas condenou o ato de Saul, dizendo:
— Hoje mesmo vais ser castigado por teres desobedecido a ordem do Senhor. Teu nome já foi riscado da lista dos reis de Israel e a coroa de Israel já foi destinada a um outro mais digno do que tu.
D. — Portanto, quem se atreve a desobedecer a ordem do confessor, torna-se um sacrílego e inimigo de Deus?
M. — Certamente.

21 de maio de 2015

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

AMOR IMENSO DE JESUS

D. — Padre, estou cada vez mais satisfeito com suas explicações. Faça o favor de explicar-me o seguinte:
Jesus Cristo é Deus e por isso, na sua onisciência, previra todos estes abusos e sacrilégios cometidos por seus filhos através dos séculos. Por que então mesmo assim, instituiu a Eucaristia?
M. — Ah! Meu amigo! Jesus Cristo é Deus e previu também a ingratidão dos homens, por Ele remidos, a traição de Judas, o ódio dos fariseus, a vileza de Pilatos, sua paixão e morte horrorosas.
Apesar disso submeteu-se a todas estas provas somente visando àqueles que aproveitariam os frutos de sua redenção.
Deus também previu que o pão causaria indigestão a muitos, e que muitos ficariam embriagados com vinho; não obstante, Ele criou o pão e criou o vinho. Assim também Ele previra todos os sacrilégios na Comunhão, contudo instituiu-a igualmente, com o único fim de proporcionar a todos um penhor eterno de seu imenso amor; para ser o alimento e a força de nossas almas débeis, o remédio para nossas enfermidades espirituais. Sobretudo Ele instituiu a Eucaristia para nos facilitar o caminho para o céu.
D. — Logo, Jesus Cristo instituindo a Eucaristia preferiu o próprio desprezo antes que privar-nos de tão grande benefício?
M. — Precisamente. Jesus Cristo é semelhante a uma carinhosa mãe. Você nunca pensou como é que se formou na terra o amor materno? As mães já sabem por experiência comum quanto irão padecer antes e depois do nascimento dos filhinhos; preveem e conhecem que eles serão ingratos, revoltosos, desobedientes; cientes de que terão amargas desilusões em troca de tantos sacrifícios, têm diante dos olhos o exemplo de tantas mães, suas companheiras, amigas e até parentes; contudo, resignadas e decididas exclamam: que iremos fazer? Faça-se a vontade de Deus.

Enquanto averiguam a realidade do que haviam previsto, e as humilhações, as ingratidões e os desprezos vêm bater-lhes à porta, elas não se arrependem, não maldizem sua própria sorte e os próprios filhinhos. Antes, pacientemente suportam e toleram as suas diabruras, sempre prontas a dar a própria vida por amor dos filhos. Sentem-se mais felizes e gozam muito mais com um beijo de um filho carinhoso, do que sofrem com as má-criações e ingratidões de todos os outros filhos.
D. — Isso é verdade. Dia a dia se pode verificar o que o senhor diz, em todas as mães.
M. — Então, se o amor materno, que é um amor humano, possui tais prerrogativas, que diremos do amor divino?
D. — Está bem, Padre. Porém, Jesus Cristo, quando instituiu a Eucaristia para alimento das almas, deveria tê-la deixado unicamente como prêmio para os bons cristãos.
M. — Pois Ele fez isso mesmo. Deixou a Eucaristia como alimento e prêmio para os bons; Jesus, porém, não excluiu os maus, nem os afasta, somente os condenou.
D. — Então, por quê é que os maus comungam sacrilegamente?
M. — Porque são perversos e dominados por inominável malícia. Se Jesus Cristo os tolera é porque sua misericórdia é infinita. Jesus veio ao mundo para salvar todos os homens embora pecadores, aos quais tem um amor especial não como pecadores, mas sim para que se convertam e possam salvar-se. Por esta razão suporta-os por muito tempo, dirigindo-lhes continuamente aquele misericordioso convite: Vinde a mim todos. Vinde a mim todos vós, fatigados e oprimidos sob o peso de vossos pecados e Eu vos aliviarei. Em suma, permite que vivam pecaminosamente, esperançoso de que um dia se convertam e voltem à casa paterna. Você conhece a parábola do joio no meio do trigo?
Na Última Ceia Jesus institui a Eucaristia
* * *
Um grande fazendeiro comprou boas sementes e mandou os servos semeá-las em seu campo. Os servos executaram a ordem. Mas, quando as sementes nasceram, notaram com grande surpresa que juntamente com o trigo havia nascido também o joio. Imediatamente foram avisar ao patrão, dizendo-lhe:
— Se o senhor quiser, iremos imediatamente arrancar aquela em daninha.

— Absolutamente não — respondeu o patrão — a fim de que não aconteça que juntamente com o joio arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita, e então separaremos o trigo para os celeiros e o joio atirá-lo-e-mos ao fogo.
Veja aqui, meu querido discípulo, o conselho sapientíssimo de Deus: Esperar, ter paciência, e no tempo da colheita, isto é, na hora da morte, o trigo, os bons e os justos irão para o céu; os maus, o joio, serão lançados no fogo eterno.
A mesmíssima coisa acontece na Comunhão: os que a recebem dignamente irão para o Céu, pois a comunhão é um penhor de vida eterna: pelo contrário os sacrílegos, por si mesmos, já estão condenados ao inferno.
D. — Que adianta então, comungar mal? Que proveito os maus tiram disso?
M. — O mesmo proveito que auferem os criminosos com seus delitos e traições contra a Pátria e a família. Eles cometem tão bárbaros crimes levados unicamente por ódio, má vontade ou ganância, e pelos mesmos motivos é que os sacrílegos comungam.
São os piores criminosos, pobres desgraçados pelos quais devemos rezar.
D. — Hei de rezar muito por eles, pois que aprendi que rezar pelos pecadores é um dever de caridade. Agora passemos a outra questão.

20 de maio de 2015

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

SERÁ NECESSÁRIO POR UM FREIO?

D. — Se tantos são os abusos, não seria conveniente por um freio à comunhão frequente?
M. — Que está dizendo? Pôr freio quando apenas se começou a caminhar? Fazendo assim, voltaríamos ao impiedoso e cruel Jansenismo. E ainda mais, chegaria a tal ponto a indiferença religiosa que em breve, como sequela inevitável, seria deixado no esquecimento o augusto e prodigioso sacramento, único sustentáculo do mundo.
D. — Então nada de freios?
M. — Nada, nem sequer devemos pensar em diminuir minimamente a frequência à comunhão; o que é preciso é por freio ao pecado que é causa de tais abusos; acabar com as más companhias, os costumes depravados, as ocasiões perigosas, os caprichos e o egoísmo. E não pôr freio à comunhão cotidiana bem feita, meio seguro para chegarmos ao céu.
D. — E, diante de tão poucas comunhões bem feitas, em comparação com tantos e tantos sacrilégios, o senhor continua pensando o mesmo?
M. — Também neste ponto você está enganado.
É verdade que muitos comungam sacrilegamente, há, porém, um número muito maior de pessoas que comungam bem. Esse número supera imensamente aos sacrílegos, pois se assim não fosse de há muito o mundo já teria acabado.
* * *
Uma basílica de Roma ostenta em sua cúpula dois célebres quadros de Leonardo da Vinci representando o começo e o fim do mundo. O segundo quadro tem por fundo um altar suntuoso onde um padre celebra a última missa; ao redor um grande número de fiéis preparam-se devotamente para receber a Santa Comunhão, enquanto que ao alto se vê uma multidão de anjos que esperam o fim da missa para anunciar com suas trombetas de ouro o advento do dia terrível da Justiça Divina. Nesse quadro o autor quis demonstrar que ele estava convencido de que sem a Santa Missa e sem a Santa Comunhão o mundo já estaria submergido no abismo aberto pelos seus mesmos crimes.
Vê-se uma multidão de Anjos que esperam o fim da Missa para anunciar o advento do dia terrível da Justiça Divina.
D. — E com isso, Padre?
M. — Com isso, devemos concluir que é preciso fomentar cada vez mais a prática da Comunhão frequente bem feita, fazendo ao mesmo tempo guerra às comunhões sacrílegas.
D. — Será verdade que Deus aniquilará o mundo ou enviará tremendos castigos em vista de tantos sacrilégios?
M. — Não leu ou ouviu contar aquele episódio da Bíblia no qual se fala da oração do patriarca Abraão?
D. — Sim, já ouvi contar, todavia não o recordo bem. Queira contá-lo.
M. — Lê-se no Antigo Testamento que um dia Deus apareceu ao patriarca Abraão e lhe disse:
— Abraão, estou farto com os inumeráveis pecados cometidos pelo meu povo, e por isso vou exterminá-lo com uma chuva de fogo.
— Senhor, exclamou Abraão, será que não o perdoarias se entre eles houvesse cem justos?
— Sim, em vista dos cem justos haveria de perdoá-lo.
— E se ouve-se somente cinquenta?
— Assim mesmo haveria de perdoá-lo.
— E se houvesse vinte e cinco?
— Mesmo que fossem só vinte e cinco, não os exterminaria.
Abraão, confiado na misericórdia divina, continuou:
— Senhor, perdoarias a teu povo ainda que houvesse só dez justos?
Respondeu o Senhor: — Infinita é minha misericórdia. Em atenção a esses dez pouparia todo o meu povo.
Satisfeito, Abraão saiu à procura dos dez justos; não conseguiu, porém encontrá-los e Deus destruiu com uma chuva de fogo e enxofre as cidades de Sodoma e Gomorra.
D. — Como se mostrou bondoso Nosso Senhor!
M. — Deus é bom também agora. Ele não muda. É sempre o mesmo, e hoje como outrora sente delícias em perdoar os pecados dos homens. Embora os sacrílegos sejam como espinhos agudos a pungir-lhe as pupilas ou como espadas que lhe transpassam o coração, todavia Ele se cala e perdoa sempre, em vista do consolo e alegria que recebe dos que comungam bem. E, como as comunhões bem feitas superam em número as más, Ele permite estas últimas.

19 de maio de 2015

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

CASTIGOS TERRÍVEIS

É assustador o caso de um desgraçado que se gloriava publicamente de ser ateu e de não gostar de Padres, nem de Igreja e muito menos dos sacramentos.
Quando lhe notavam que assim não agia bem, pretendiam convencê-lo de seus desatinos e vãs palavras, mostrando-lhe o perigo a que se expunha de uma morte má, ele respondia:
— Na hora da morte, entender-me-ei sozinho com Deus, e no que se refere honra de minha família, não me faltará tempo para simular que comungo convencido e bem preparado.
Pobre infeliz! Sobreveio-lhe uma doença mortal e advertiram-lhe que seria conveniente chamar o Padre. Ele respondeu: — Eu sempre estou bem com Deus; ao confessor não tenho nada para dizer; só quero que me tragam a comunhão. — Com muito pesar levaram-lhe a comunhão a pedido dos parentes, na secreta esperança que talvez com isso entrasse em si. Recebeu-a como a pode receber um incrédulo: sem fervor, sem devoção, sem respeito, com a maior indiferença possível. Mas, que sucedeu? Apenas recebida a Santa Comunhão, estremeceu, começou a agitar-se em horríveis convulsões e pôs-se a gritar: Estou me queimando, estou me queimando, estou ardendo! — E assim entre gritos horríveis, morreu desesperado, deixando nos presentes uma segura impressão de um merecido castigo.
E entre gritos horríveis, morreu desesperado...
* * *

Muito pior sorte teve este outro indivíduo do mesmo lugar. Esse não era irreligioso, pois lhe era conveniente proceder de outra forma; era muito amigo dos padres, frequentava a igreja e recebia os sacramentos. Mas ao mesmo tempo vivia com maus companheiros e era assíduo frequentador de casas de perdição, sem preocupar-se com sua consciência nem com o bom exemplo. Acendia duas velas, como dizemos nós; amigo, tanto de Deus como do demônio. Estando para morrer, pois a morte não respeita ninguém, chamou em tempo o Padre, confessou-se e pediu o Viático; porém, minutos antes de recebê-lo seus olhos incharam-se tanto até desaparecerem nas órbitas. A boca alargou-se horrivelmente e de tal forma cerraram-se-lhe os dentes que não foi possível, fazer passar nem sequer uma particulazinha da Hóstia.
Jesus Cristo, infinitamente bom, não quis mais entrar naquele corpo, réu de tantos sacrilégios.
Os fiéis que haviam acompanhado o Santíssimo Sacramento comentavam o fato que lhes serviu de proveitosa lição.
Estes dois casos, por demais assustadores, mas destinados a fazer grande bem, não são mais do que a fiel realização daquelas palavras da Sagrada Escritura: ''Deus non irridetur" — “Com Deus não se brinca’. — Maiores ainda seriam os castigos se estes sacrilégios (que Deus tal não permita) fossem cometidos por pessoas religiosas ou ministros de Deus.
* * *
Conta a História, que certo rei do antigo país da Etiópia havia confiado a educação do seu único filho a um dos generais do seu exército. Aquele general, com a maior indignidade possível, abusando da confiança que o rei depositara nele, resolveu envenenar lentamente o filho real e assim usurpar a dignidade suprema, após a morte do velho monarca.
Certificando-se o rei de tão sinistros e cruéis planos, tomado de justa cólera, mandou atá-lo na praça principal da cidade e presente todo o exército, com os arcos retesados, desmascarou-o com estas palavras: — Miserável! Assim desejavas corresponder aos meus desejos e à confiança que depositava em ti? Recebe, pois o castigo que mereces.
E fazendo um aceno, centenas e milhares de flechas envenenadas transpassaram o peito e o coração daquele general cruel e traidor. Pois bem, esta terrível cena repetir-se-á eternamente no inferno, contra os sacrílegos que tenham correspondido mal aos favores de Deus, às graças da Santa Comunhão; para esses a sorte será ainda pior. Já conhece a história do cortiço de abelhas?
D. — Não, conte-a, Padre.
M. — Um fulano, certo dia, passeando pelo campo, topou com um monte de terra na forma de um guarda-chuva todo esburacado donde saía um leve e airoso sussurro. Levado pela curiosidade, deteve-se e com a ponta da bengala remexeu os buracos. Coitado, nunca tivesse feito isso.
Era um enorme cortiço. Os insetos, irritados, aos milhares, formando uma negra e ululante nuvem, atacaram o pobre curioso. O infeliz procurou defender-se debatendo-se por todos os lados; porém, com isso mais ainda irritava as abelhas, que enfezadas faziam penetrar seus ferrões naquele desventurado. E tanto o picaram, que afinal, ele com o rosto e a cabeça inflamados caiu desfalecido e morreu entre terríveis convulsões.
Assim também os sacrilégios com tanta frequência cometidos por centenas e milhares de vezes, serão no inferno, como vespas que atormentarão sem cessar a todos os sacrílegos, não excluindo os religiosos e sacerdotes que, abusando da própria vocação e ministérios, se tenham tornado réus de sacrilégios no mistério de amor. Com a diferença, porém, de que essas abelhas infernais nunca desaparecerão e nem causarão a morte a esses infelizes, mas somente lhes serão causas de tortura constante.

... Os sacrilégios serão no inferno, como vespas que atormentarão sem cessar a todos os sacrílegos...
D.—Meu Deus, que castigos terríveis! Porém, Padre, eu acho que ao menos entre religiosos e sacerdotes sejam poucos esses desgraçados.
M. — Confiemos que sejam poucos, porque Deus os protege e guarda e Jesus Cristo defende-os como a pupila de seus olhos; todavia não será difícil uma surpresa desagradável.

18 de maio de 2015

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

NOVOS JUDAS

Em meados do século XVIII, uma religiosa da Visitação, em Turim, teve uma visão tremenda e por demais impressionante. Enquanto estava em oração fervorosa diante de Jesus Sacramentado, apareceu-lhe a Sagrada Hóstia gotejando sangue fresco.
A visão repentinamente desapareceu, e a irmã, como por encanto, se encontrou no átrio das duas igrejas situadas no começo da praça S. Carlos, e ali começou a ouvir uma algazarra de vozes dissonantes, blasfêmias e gritos que vinham das ruas laterais... O barulho ia aumentando cada vez mais, por fim uma enorme multidão invade a praça.

Aí representam uma comédia asquerosíssima e logo após saem precipitadamente pelas ruas da direita em direção ao rio Pó; imediatamente uma grande enxurrada de sangue inunda toda a praça e depois escorre pelas mesmas ruas até perder-se no rio, juntamente com aquela gentalha horrível, verdadeiros demônios.
A irmã, horrorizada, volta-se para Nosso Senhor e exclama: "Ó Jesus, salvai-nos!" E Jesus responde-lhe: "Não tenhas medo, pois a enxurrada já passou. Fique sabendo, porém, que todos esses são os profanadores do meu Sangue Eucarístico. São todos os que nesta cidade eucarística, calcam aos pés a Sagrada Eucaristia, comungando sacrilegamente. São novos Judas que se sucedem através dos séculos. Vai e conte a todos o que lhe mostrei".
A religiosa cumpriu o encargo. A narração desse fato impressionou grandemente, fazendo muito bem.
D. — Estou trêmulo de medo, Padre, mas... será que isso é verdade?
M. — Fato autêntico! Existem documentos Comprobatórios nos arquivos da Igreja e na Cúria de Turim.
D. — Será possível que existam tantos Judas?
M. — Mais do que certo, e como já disse, em todas as classes sociais.
D. — E por que Jesus Cristo, sendo Deus não previu estes abusos?
M. — Sim, Ele previu, mas instituiu a Comunhão e o Sacerdócio, pois sabia também que muitos comungariam digna e santamente, prestando-lhe grande honra e grande amor, e sabia também que sem a comunhão muitos cristãos não conseguiriam manter-se fiéis e constantes na fé.
D. — Então Jesus Cristo, ao instituir a Santíssima Eucaristia, preferiu nosso proveito, à custa de ser desprezado?
M. — Realmente preferiu nosso proveito à custa de ser desprezado. Jesus é sempre Jesus, infinita bondade e misericórdia. Faz como a mãe que se deixa arranhar pelo filhinho e depois quase o come com tantos beijos; ou como aquela outra que, apesar de ser ameaçada e desprezada pelo filho, contudo continua amá-lo e atendê-lo em tudo. Jesus é sempre o Divino Mestre, amante, paciente, resignado, indulgente.
D. — Mesmo assim, acho que Jesus não deveria permitir tantos sacrilégios.
M. — Sua opinião e juízo são demasiado curtos e terrenos; o de Jesus é muito diverso. Mais alegria e felicidade experimenta Ele quando uma alma comunga bem, do que a amargura que lhe podem causar todos os sacrilégios de todos os tempos. É como o sol, que embora reverbere seus raios sobre todas as imundícies da terra, não obstante a enche de luz, vida e calor. É como aquela mãe que se sente feliz e contente com os carinhos de um bom filho, que triste com os desgostos que lhe dão os maus.
D. — Oh! Jesus tão bondoso e tão mal correspondido.
M. — Sim, infinitamente bondoso é Jesus. Por isso é que tantos abusam de sua bondade. Porém, ai dos ingratos e dos traidores!
D. — Serão terríveis os seus castigos?
M. — Terribilíssimos, mas bem merecidos. Não haverá desculpas para eles; as palavras de Jesus Cristo são eternas e infalíveis: "Quem come indignamente a minha carne, come sua mesma condenação".
D. — Logo, ai dos sacrílegos!
M. — Em verdade são bem infelizes, como veremos no capítulo seguinte.

17 de maio de 2015

Sermão para o 5º Domingo depois da Páscoa – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] A oração pública da Igreja e a oração privada


Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito santo. Amém.
Ave Maria…
“Em verdade, em verdade vos digo que, se pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vo-la dará.”
Nosso Senhor nos fala hoje, no Evangelho, da oração e da necessidade dela para podermos alcançar as graças de que precisamos, para podermos ser, como nos diz São Thiago na Epístola, realizadores da Palavra de Deus, para podermos praticar a religião pura e sem mácula.
 De modo geral, podemos afirmar que existem dois tipos de oração. A oração litúrgica, ou oração pública da Igreja, e a oração privada ou particular. A oração litúrgica ou oração pública da Igreja é a oração oficial da Igreja, é a oração em que intervém todo o corpo místico de Cristo com a sua divina Cabeça, isto é, com Jesus Cristo como chefe. Ela é realizada pelo ministro da Igreja, constituído para isso. Essa oração litúrgica será considerada pública ainda que o sacerdote a realize sozinho, pois ele o faz enquanto ministro da Igreja e representando os seus membros. A oração privada é aquela que faz o simples fiel, ainda que seja na Igreja e acompanhando de outras pessoas, e também a oração que faz o sacerdote quando reza em nome próprio ou quando faz suas devoções particulares.
Na oração pública da Igreja, se destaca, em primeiro lugar, o Santo Sacrifício da Missa, que Jesus realiza sobre os nossos altares por meio dos padres. Destacam-se, também, os outros sacramentos, que operam a nossa redenção. Merece particular destaque também a recitação do Breviário pelos sacerdotes e religiosos. Como já tivemos oportunidade de mencionar, no Breviário se recitam os 150 salmos na semana, além de inúmeras outras orações em honra de Deus e dos santos. Tradicionalmente, inclusive, o sacerdote tem a obrigação de rezar quotidianamente o Breviário, mas não a Missa, embora todo padre consciente de seus deveres deva celebrar quotidianamente a Missa.
 Objetivamente, nenhuma outra oração tem a força e a eficácia santificadora da oração litúrgica. Para julgar o valor objetivo de uma coisa devemos considerar o quanto de glória ela dá a Deus, já que Deus criou todas as coisas para a sua glória, para manifestar as suas perfeições, para ser mais conhecido, amado e servido. Assim, quanto mais uma coisa manifestar a glória de Deus, quanto mais uma coisa fizer Deus conhecido, amado e servido, melhor ela será. E esse é o único critério realmente verdadeiro para se julgar a bondade de uma coisa: o quanto de glória ela dá a Deus.
A partir desse critério podemos afirmar que a oração litúrgica, a oração pública da Igreja é a mais agradável a Deus, a mais perfeita, a mais eficaz. Primeiro, porque é a Igreja que reza, Igreja que é santa, que é a Esposa Imaculada Cristo. Segundo, pela excelência das próprias fórmulas litúrgicas, formadas ao longo dos séculos sob a guia do Espírito Santo, compondo um verdadeiro tesouro de espiritualidade e de doutrina. Terceiro, porque a oração da Igreja sobe sempre a Deus Pai por meio de Jesus Cristo, ainda que implicitamente. E finalmente, mas não menos importante, é o próprio Cristo que reza na oração litúrgica, na oração pública da Igreja, já que a Igreja é o corpo místico de Cristo. Assim, a pessoa que reza é a mais perfeita e as orações são as mais perfeitas. Está claro, então, que a oração litúrgica agrada imensamente a Deus e que ela é extremamente eficaz.
Todavia, para que ela seja eficaz para nós, devemos participar da liturgia em verdadeira união com Nosso Senhor Jesus Cristo e em união com toda a Igreja militante (nós aqui na terra), triunfante (anjos e santos no céu) e padecente (almas do purgatório). Devemos participar dignamente, com atenção e devoção. E devemos nos preparar bem para a liturgia da Igreja, em particular para a Santa Missa, buscando o arrependimento de nossos pecados, fazendo atos de fé, de esperança e de caridade. Para isso, convém chegar um pouco antes à Igreja, para se preparar devidamente. A verdadeira participação ativa na liturgia não é uma participação meramente física, de falar, de gesticular, de balançar folheto. A verdadeira participação na liturgia é unir-se a ela procurando ter as mesmas disposições de Jesus Cristo. Assim, na Missa, a participação mais profunda é aquela em que a pessoa se une realmente ao sacrifício de Cristo renovado pelo sacerdote, para oferecê-lo à Santíssima Trindade em união com a sua própria vida. Junto com o sacrifício de Cristo, devemos oferecer o sacrifício da nossa própria vida, entregando-a inteiramente a Ele, com todas as nossas alegrias e consolos, com todas as nossas angústias e cruzes. A participação verdadeiramente ativa na Missa é uma participação espiritual. E mesmo os pais que devem cuidar dos filhos durante a Missa e que aparentemente não conseguem se concentrar tanto nela, podem ter uma participação frutuosa, oferecendo a Deus, justamente, esses cuidados, unidos ao sacrifício de Cristo.
A liturgia da Igreja é a fonte de onde corre a água viva que alimenta a nossa vida espiritual. Se a água não é perfeitamente límpida, haverá prejuízo para a vida espiritual dos homens. Daí a importância de uma liturgia límpida, na espiritualidade e na doutrina. E se a fonte é límpida, mas não vamos até ela ou vamos até ela com um recipiente muito pequeno, também não avançaremos no amor a Deus. Devemos, então, amar a liturgia católica e devemos nos dispor bem – do modo que já mencionamos – para receber bem as graças abundantes que ela nos proporciona.  Mesmo a nossa vida de oração particular deve encontrar a sua raiz, a sua fonte, na liturgia da Igreja. Se não encontrar na liturgia a sua fonte, nossa vida de oração tende a secar rapidamente. Isto é, se não nos unimos bem à liturgia da Igreja, é toda a nossa vida espiritual que começará a desmoronar.
Dada a excelência da oração litúrgica, alguns poderiam ser tentados a menosprezar a importância da oração privada. Seria um erro grave. Não existe oposição entre oração litúrgica e oração privada, mas necessária complementaridade. As duas procedem de Deus. Não pode haver, portanto, oposição. Elas devem andar lado a lado, a fim de influenciarem-se mutuamente e aumentar o grau de eficácia que cada uma delas tem. Como vimos, a oração litúrgica alimenta a nossa oração individual e a oração privada nos dispõe bem para a oração litúrgica. Muitas vezes recebemos com certa frequência os sacramentos, recebemos com frequência a eucaristia e a confissão, mas não avançamos como era de se esperar no amor a Deus. Por que não avançamos? Porque muitas vezes nos falta a oração individual que nos dispõe melhor para as graças dos sacramentos e nos falta a oração individual para prolongar os frutos do sacramento, por exemplo, com a devida ação de graças após a Santa Missa. Muitas vezes, a família vem junta para a Missa, mas não reza unida em casa, impedindo também frutos mais abundantes. Rezem em família. De quase nada adiantará a liturgia, se não fazemos nossas orações individuais. Não nos deixemos esmagar pelas atividades do dia-a-dia, por mais importantes que sejam.
 E essas orações privadas, ainda que ditas na maior solidão, são úteis não só para a alma que as reza, mas são úteis para todo a Igreja, em virtude da comunhão dos santos.
Portanto, caros católicos, devemos rezar e rezar muito, unindo a oração da Igreja às nossas orações individuais, deixando que elas se complementem e aumentem a eficácia uma da outra. Como tão bem nos diz Santo Afonso: quem reza se salva, quem não reza se condena.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Comungai Bem. Padre Luiz Chiavarino.

NECESSIDADE DA VESTE NUPCIAL

D. — Padre, tenha a bondade de explicar-me a parábola dos convidados às núpcias, e o que sucedeu ao que não tinha a veste nupcial.
M. — Com muito gosto. Preste, pois atenção.
* * *
Narra o Santo Evangelho que um rei quis, com a maior pompa possível, celebrar o casamento de seu filho. Preparou um grande banquete e convidou todos os parentes e amigos.
Muitos, porém se recusaram em atender ao convite de tão bondoso rei. Vendo isto, o rei disse aos seus criados que fossem às praças e ruas da cidade e convidassem a todos que encontrassem.
Quando a sala ficou repleta e os lugares todos ocupados, entrou o rei para passar em revista os convidados. Encontrou um que não tinha a veste nupcial, e lhe disse: "Amigo, como entraste aqui não tendo a veste nupcial?" E sem mais detença ordenou aos criados: "Tirai-o daqui, e atado de mãos e pés lançai-o no calabouço".
Amigo, como entraste aqui não tendo a veste nupcial.
D. — Padre, que significa esta veste nupcial da qual não estava revestido aquele infeliz e por isso foi metido no cárcere, sendo ele pobre?
M. — Este banquete representa a Eucaristia, ou seja, a Sagrada Comunhão. O rei que faz festa por motivo das núpcias de seu filho é o Padre Eterno; o filho é Jesus Cristo que se desposa com a natureza humana. Os convidados são todos os homens da terra.
Esta parábola significa que Deus criou todos os homens para o paraíso; e por isso, os convida a todos a alcançá-lo pela senda da fé, da caridade, da penitência e dos sacramentos; porém, dentre estes convidados, muitos não querem crer: são os ateus; outros apresentam desculpas: são os pecadores que adiam a própria conversão; finalmente alguns vão ao banquete, porém sem a veste nupcial: são os sacrílegos, representados naquele infeliz que foi expulso do banquete, atado e metido em um calabouço.
D. — Então, porque o obrigaram a vir ao banquete?
M. — Ele sabendo que era indigno, devia opor-se, apresentar pretextos, ou pedir desculpas antes de entrar.
O fato é bem claro: todo aquele que vai comungar com pecado mortal na alma se encontra nas mesmas condições daquele infeliz e, portanto em perigo de ser condenado.
Ademais, Deus mesmo o disse pela boca do grande apóstolo São Paulo: “Aquele que come a minha carne indignamente, come a sua mesma condenação e a si mesmo se julga”.
Lê-se em um capítulo do Sagrado Livro dos Números que, quando o marido, por uma suspeita fundada, duvidasse da fidelidade de sua mulher, tinha o direito, conforme a lei de Moisés, de apresentá-la ao Sacerdote. Este, para dissipar a dúvida, tomava um pouco de pó do chão do templo e misturando-o com água dava-o à mulher para beber. Se ela era culpada, caía imediatamente morta, como corroída por um terrível veneno; mas se era inocente, nada lhe sucedia e voltava para casa, no meio do contentamento e alegria de seus parentes.

O mesmo sucede, embora invisivelmente, na Santa Comunhão. Ai da alma em pecado mortal, que ousa aproximar-se da mesa sagrada para receber a Comunhão das mãos do Sacerdote!... Ser-lhe-á um veneno mortal.
Feliz, ao invés, mil vezes feliz aquele que se alimentar desse Pão da Vida, tendo o coração limpo e contrito; receberá bênçãos e graças e os aplausos dos anjos, e a comunhão será para ele penhor de glória eterna.
D. — Serão muitos os que comungam sem a veste nupcial, ou seja, em pecado mortal?
M. — Quem poderá dizer com certeza que sejam muitos? O certo é que, infelizmente, existem muitos em todas as classes sociais.
Ai da alma em pecado mortal, que ousa aproximar-se da mesa sagrada.

Missa Tridentina