30 de setembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

v

É  certo  que  na sua duração histórica, material, os mistérios da vida terrestre de Cristo já passaram ; mas a  sua virtude permanece. e a graça que nos faz participar deles opera e atua sempre.
No seu estado glorioso. Cristo já não merece : só pode merecer durante a Sua vida mortal, até à hora em  que, na Cruz, exalou o último suspiro. Mas os  méritos que adquiriu, não cessa de os fazer nossos. Cristo era ontem, permanece hoje, vive por todos os séculos: Christus heri. et hodie, ipse et in saecula. Não esqueçamos que Jesus quer a santidade do Seu Corpo Místico ; todos os seus mistérios têm por fim operar esta santidade :  Dílexit Ecclesiam et seipsum tradidit pro ea,  UT  illam sanctíficaret.  Mas que Igreja é esta? Será aquela pequenina porção de seres que tiveram o privilégio de ver em vida o Homem-Deus sobre a terra? Está claro que não. Nosso Senhor não incarnou apenas para os habitantes da Palestina que viveram no tempo d'Ele,  mas sim para todos os homens, de todos os séculos:  Pro omnibus mortuus est Christus.  O olhar de Jesus, .por isso que divino, atingia todas as almas : o Seu amor estendia-se a cada uma delas : a Sua vontade santificádora continua a ser tão soberana, tão eficaz, como no dia em que  o Seu sangue foi derramado pela salvação do mundo.
Se para Ele o tempo de merecer acabou, o tempo de comunicar o fruto dos Seus méritos continua e con­tinuará até  à  salvação do último dos eleitos : Cristo
continua sempre vivo!  Semper  vivens  ad  interpellandum  pro  nobis;
Elevemos o nosso pensamento para o céu, para o santuário para onde Cristo subiu, quarenta dias depois da Ressurreição; e vejamos Nosso Senhor sempre diante da face do Pai ;  Introivit  in caelum ut  appareat  NUNC vultui  Dei pro nobis.  Porque é que Jesus Cristo está constantemente diante da face do Pai?
Porque é seu Filho, o Filho único de Deus. «Para Ele não é injusta pretensão proclamar·se igual a
Deus», visto ser o verdadeiro Filho de Deus. O Pai Eterno contempla-O, e diz--lhe:  Filius  meus es tu ego hodie  genui te. Neste momento em que vos falo, Cristo está diante do Pai, e exclama:  Pater meus es tu:  «Tu és o meu Pai», eu sou verdadeiramente teu Filho. E, enquanto Filho de Deus, assiste·lhe o direito de contemplar o Pai face a face, de tratar com Ele de igual para igual, de reinar com Ele pm; todos  os  séculos.
Mas S. Paulo acrescenta que é  por  nós  que Jesus Cristo usa deste direito, que é por nós que Ele está diante do Pai. Quer isto dizer que Jesus Cristo está diante da face do Pai, não apenas a título de Filho único, objeto das complacências divinas, mas também na qualidade de Mediador. Chama-se Jesus, quer dizer, Salvador; este nome é divino, porque vem de Deus, foi imposto por Deus. Jesus Cristo está no céu,  à direita do Pai, como nosso representante, nosso Pon­tífice, nosso Mediador. Foi nesta qualidade que Ele cumpriu neste mundo, até ao último jota, a vontade do Pai ; que quis viver todos os Seus mistérios ; e é também nesta qualidade que vive agora  à  direita de Deus, para  Lhe apresentar os Seus méritos e comunicar inces­santemente às nossas almas, para as santificar, o fruto dos Seus mistérios:  Semper vivens ad interpellandum pro nobis.
Oh!  que poderoso motivo de confiança sabermos que Cristo, cuja vida lemos no Evangelho, cujos mistérios celebramos, está sempre vivo, sempre a interceder por nós : que a virtude da sua divindade está sempre operante ; que o poder que tinha a Sua santa Humanidade (como instrumento unido ao Verbo) de curar os doentes, de consolar os tristes, de vivificar as almas, é sempre o mesmo! Como outrora, Cristo é e continua a ser o caminho infalível que conduz a Deus, a verdade que ilumina todo o homem que vem a este mundo, a vida que salva da morte:  Christus herí et  HODIE.  ipse et in saecula.
Eu creio. Senhor Jesus, mas aumentai a minha fé! Tenho plena confiança na realidade e plenitude dos Vossos méritos. mas fortalecei esta confiança! Amo­-Vos, a Vós que em todos os Vossos mistérios nos manifestastes o Vosso amor,  in finem,  mas aumentai o meu amor ! ...

29 de setembro de 2016

Tesouro de Exemplos - Parte 187

O PEDACINHO DO VÉU

A menina recebeu a primeira comunhão aos sete anos. E com que fervor ela comungou! com quanta alegria, com quanta piedade voltou para casa naquele grande dia, o mais belo de sua vida! festejou-o com seus pais, andou com seu vestidinho branco de uma casa para outra. Assim foi, também, ao fotógrafo.
E passou o dia... e chegou afinal o momento de tirar o véu branco. Tirou-o com uma espécie de religioso pesar, e dobrou-o cuidadosamente. Naquele momento, porém, tomou uma tesoura e cortou um pedacinho do seu véu santificado por tantas recordações... Oh ! se vísseis com que devoção o encerrou num cofrezinho de prata que a mãe lhe dera de presente!
Daquele dia em diante a menina comungou todos os dias... Regressando da comunhão, antes de mais nada abria o seu cofrezinho de prata e beijava com ternura e devoção o pedacinho do véu e dizia a Jesus: “Jesus meu, que a minha alma seja sempre branca e pura, como o véu de minha primeira comunhão”.
Vive ainda aquela menina? Já terá morrido?
Não sabemos. Mas, se vive e continua comungando todos os dias e beijando o branco véu de sua primeira comunhão e dirigindo a Jesus a mesma fervorosa oraçãozinha, certamente ainda é bela, piedosa, santa e feliz.
Ai tendes um modelo. Não guardastes um pedacinho do vosso véu? Guardai ao menos uma terna lembrança daquele dia bendito, comungando e cumprindo as santas promessas que fizestes no dia inesquecível de vossa primeira comunhão.

28 de setembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

IV

Nas conferências seguintes, vamos ter o prazer de nos deter em cada um dos principais mistérios de Jesus, contemplar os Seus atos, receber as Suas palavras. Veremos quanto de inefavelmente divino e profundamente humano há em todos os gestos do Verbo lncarnado : veremos como cada  um  dos Seus mistérios en­cerra um ensinamento próprio, possui uma  luz  especial
e é para a nossa alma fonte de uma graça particular, cujo fim é  «  formar Jesus em nós».
Nesta primeira conferência, desejaria mostrar-vos
como  os mistérios de Jesus  têm isto de característico: são tanto Seus como nossos.
É  esta uma verdade basilar, que nunca será demais meditar no começo das nossas palestras, que nunca devemos perder de vista, no decurso delas, singularmente fecunda como é para a nossa vida sobrenatural.
Com efeito, sentir-se intimamente unida por Jesus a cada um dos Seus mistérios, é para a alma piedosa inesgotável fonte de confiança. Esta verdade desperta
na alma doces atos de reconhecimento e de amor que a entregam inteiramente Àquele que, com tanta generosidade. se quis dar e unir a ela.
Mas não será esta verdade um sonho, uma quimera? Será de fato uma realidade? Sim, é uma reali­
dade. uma realidade divina: mas só a fé a recebe, como só  o amor no-la deu:  Et nos  . .. credidimus caritati.
Por que é que os mistérios de Jesus Cristo são nossos mistérios?
Por tríplice razão.
Em  primeiro lugar. porque  Jesus Cristo os  viveu  por amor  de  nós.
O  amor do  Pai foi,  sem  dúvida o móbil de todos os atos da vida do verbo  Incarnado. No momento em que vai consumar  a Sua obra,  Cristo declara aos Apóstolos que «é por  amor do  Pai que se vai entregar:  Ut cognoscat mundus quia diligo Patrem».  Na admirável oração que naquele momento dirige ao Pai Jesus diz ter cumprido a Sua missão. que era glorificá-Lo na terra:  Ego te clarificavi super terram; opus consumavi quod dedisti mihi  ut  faciam .  Em cada mo­mento da Sua vida,  Jesus  podia realmente dizer que só procurou a vontade do Pai:  Quae placita sunt ei facio semper.
Mas o amor  do  Pai não é o único amor que faz pulsar o coração de Cristo; ama-nos também dum modo infinito. Foi por nós que desceu do céu, para nos resgatar, para nos salvar da morte :  Propter nos  et propter nostram salutem;  para nos dar a vida:  Ego veni ut uitam habeant, et abundantius habeant.  Para si mesmo, Cristo não tinha necessidade de satisfazer e merecer uma vez que Ele é  o  próprio Filho  de Deus,  igual ao Pai, a cuja direita está sentado no mais alto dos céus: mas foi por nós que tudo  suportou.  Se incarnou se nasceu em Belém, se viveu na obscuridade de uma vida de
trabalho, se pregou e fez  milagres, se morreu, se ressuscitou, se subiu ao céu, se enviou o Espírito Santo, se está presente na Eucaristia, é por nós, por amor de nós. «Cristo, diz S. Paulo,  amou  a Igreja, quer dizer, o Reino que há-de ser formado pelos eleitos. e por amor dela se entregou, a fim de a purificar, santificar e fazer dela uma conquista imacuíada».
Todos os mistérios são, pois, vividos por Jesus por amor de nós, para que um dia estejamos com Ele na glória do Pai, onde Ele está por direito. Sim, cada um de nós pode dizer com S. Paulo:  Dilexit me, et tradidit semetipsum  PRO ME  «Jesus Cristo amou-me e entregou-se por amor de mim». E a Sua imolação não é mais que o coroamento dos mistérios da Sua vida terrestre: foi por mim, porque me amou, que Ele tudo realizou.
Graças Vos sejam dadas, meu Deus, por este inenarrável dom que nos fizestes da pessoa do Vosso Filho, nossa salvação e nossa redenção:  Gratias Deo super inenarrabili dono ejus.
Outra razão pela qual os mistérios de Jesus nos pertencem é que em todos eles, Cristo se mostra nosso modelo.  Veio ao mundo para ser nosso modelo. Não foi só para nos anunciar a salvação e realizar, em principio, a nossa redenção, que o Verbo incarnou; foi para ser o ideal das nossa almas. Jesus Cristo é Deus a viver no meio de nós ; Deus aparecido, ·tornado visível, tangível, posto ao nosso alcance, a indicar-nos, tanto pela Sua vida como pelas Suas palavras, o caminho da santidade. Não temos de procurar noutra parte o modelo da nossa perfeição. Cada um dos Seus mistérios é uma revelação das Suas virtudes.  A  humildade do presépio, o trabalho e o apagamento da vida oculta, o zelo da vida pública, o aniquilamento da Sua imolação e a glória do Seu triunfo,
são virtudes que devemos imitar, sentimentos que devemos compartilhar, estados de que devemos participar. Na última Ceia, Nosso Senhor, depois de haver lavado os pés aos Apóstolos, dando-lhes assim, Ele, o Mestre e Senhor, exemplo de humildade, dizia-lhes: «Dei-vos o exemplo, para que façais como me vistes fazer». Isto podia Ele dizer de tudo quanto fez.
Aliás, Ele o disse: «Eu sou o caminho»  -Ego sum via;  mas não é o caminho senão para ir adiante de nós:  «Aquele que me segue não anda em trevas, mas chega  à  vida eterna  » . Jesus, pelos Seus mistérios, marcou, para assim dizer, todos os  estádios que,  na nossa vida sobrenatural, temos de percorrer depois d 'Ele e com Ele;  ou antes, Ele próprio arrasta a alma  fiel  «na carrei­ra que percorre como um gigante:  Exsultavit ut gígas ad currendam  viam ». «Eu  criei-vos  à  minha imagem e semelhança,  dizia Nosso  Senhor  a Santa Catarina de Sena : mais ainda, assumindo a vossa natureza, tornei- me semelhante a vós. Consequentemente, não cesso de trabalhar para que vos torneis semelhantes a mim, tanto quanto sois capazes, e esforço- me por renovar em vossas almas, no seu caminhar para o céu, tudo o que se passou no meu corpo».
E aqui está por que  a  contemplação  dos mistérios de  Cristo é tão fecunda para a alma.  A  vida, a morte, a glória de Jesus são o modelo da nossa vida, da nossa morte, da nossa glória. Nunca esqueçais esta verdade: não agradamos ao Pai Eterno senão na medida em que imitarmos o Seu Filho, na medida em que reproduzirmos em nós a Sua imagem. Porquê? Porque «foi a esta  imagem que desde toda a eternidade Ele nos predestinou». Para  nós não  existe  outra forma  de santidade, a  não ser a que nos ensinou Jesus Cristo : o grau da  nossa  imitação de Jesus fixa a medida da nossa perfeição.
Finalmente, terceira razão, esta mais íntima e profunda, que faz nossos os mistérios de Jesus Cristo. Não só Jesus os viveu por nós, não só eles são para nós modelo, mas ainda em Seus Mistérios Jesus Cristo  é  um conosco. Não há verdade em que  S. Paulo mais tenha insistido ; e o meu maior desejo é que possais comprendê-la em toda a sua profundeza.
No pensamento divino, nós formamos um só todo com Cristo.
Foi n'Ele, e não fora d'Ele, que Deus Pai nos escolheu  :  Elegit nos in ipso;  Deus não nos separa
do Seu Filho Jesus ; se nos predestina para sermos conformes a Seu Filho, é para que o Seu  Filho  seja o primogénito duma multidão de irmãos. Praedestinavit  nos conformes  fieri imaginis Filii sui  UT  sit ipse promigenitus in  multis fratribus.
Tão íntima é esta união que Deus quer realizar entre Seu Filho Jesus e os eleitos, que  S.  Paulo a compara com a que existe entre os membros  e  a cabeça dum só e mesmo corpo. A Igreja, diz o grande Apóstolo, é o Corpo de Cristo, e Cristo a Cabeça. da Igreja ; unidos, formam o que  Santo  Agostinho chama o «Cristo Total»: Totus Christus. caput et corpus est: caput unigenitus Dei Filius  et  corpus ejus Ecclesia. Tal é o plano divino: Deus omnia subjecit sub pedibus ejus; et ipsum  dedit  caput supra omnem Ecclesiam. Cristo é a Cabeça deste Corpo Místico que Ele forma com a Igreja, por isso que é o seu Chefe  e  para todos os seus membros fonte da vida. Igreja e Cristo são, para assim dizer, um único e mesmo ser :  Membra sumus corporis ejus, de carne ejus et de
ossibus e jus. Deus Pai une de tal modo os eleitos a Seu Filho, que todos os mistérios vividos por Cristo, Ele os viveu na qualidade de Cabeça da Igreja.
Vede como S. Paulo é explícito neste ponto: «.Deus, diz ele, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, quando, pelas nossas ofensas, estáavamos mortos para a vida eterna, vivificou-nos  com Cristo. n'Ele  nos ressuscitou,  juntos  com  Cristo  nos fez sentar no céu, para mostrar aos séculos vindouros, pela bondade que nos manifesta em Jesus Cristo, as
infinitas riquezas da Sua graça.
Este pensamento aparece repetidas vezes nos escritos do Apóstolo: «Deus sepultou-nos com Cristo:
Consepulti enim sumus  CUM  ILLO  ;  quer que sejamos um com Cristo na Ressurreição e na Ascensão: CoNresuscitavit  nos,  CONsedere fecit nos IN ILLO.
Nada mais certo do que esta união de Cristo com os Seus eleitos no pensamento divino ; e o que faz que os mistérios de Jesus Cristo sejam nossos, é principal­mente o fato de o Pai Eterno nos ver com Seu FiIho em cada um deles e Jesus os ter vivido como Chefe da Igreja. Por este motivo, eu diria até que estes mistérios são mais nossos do que d'Ele.  Jesus Cristo, enquanto Filho de Deus, não teria suportado  as  humilhações da lncarnação, nem os sofrimentos e dores da Paixão :
não teria necessidade do triunfo da Ressurreição, a seguir à ignomínia da morte. Passou por tudo isto como Chefe da Igreja ; tomou sobre Si as  nossas  misé­rias e as  nossas  enfermidades  :  Vere languores NOSTROS ipse tulit;  quis passar por onde nós também tería­mos de passar, e, como chefe, mereceu-nos a graça de  O seguirmos  em  cada um dos Seus mistérios.
Nem tão-pouco Jesus Cristo nos separa de Si em tudo o que faz. Declara que «Ele é a videira e nós
os ramos».  Que união mais perfeita do que esta, em que a mesma seiva, a mesma vida circula na raiz e nos sarmentos?  Cristo  une-nos  de tal modo a Si, que tudo o que  fazemos  a uma alma que nele crê, é a Ele próprio que o  fazemos: Quamdiu  fecistis uni ex his fratribus  meis  minimis mihi.  fecístís.  A união que O prende aos Seus discípulos. pela graça, quer que seja a mesma que, por natureza,  O  identifica com o Pai:  Ut unum  sint, sícut tu,  Pater, in  me, et ego  in
te.  E. este o fim sublime a que nos quer conduzir pelos Seus mistérios.
E assim é que todas as graças que  mereceu por cada  um  dos Seus mistérios, mereceu-as para no--las distribuir a nós. Recebeu do Pai a plenitude da graça: Vidímus  eum  plenum gratiae;  mas recebeu--a, não apenas para Si; S. João acrescenta que desta plenitude todos nós recebemos:  Et de  plenitudine  ejus  omnes  nos accepimus;  é d'Ele que a recebemos, pois Ele é o nosso Chefe e  o  Pai tudo a Ele submeteu:  Omnia subjecít  sub pedibus ejus; et ipsum dedít caput supra
omnem Ecclesiam.
De modo que a sabedoria, a justiça, a santidade, a força de Cristo tornaram-se  nossa  sabedoria,  nossa santidade,  nossa  justiça.  nossa  força:  [Christus]  factus est  NOB!S  sapientia a  Deo et  justitia ,  et  sanctificatio  et redemptío.  Tudo o que é d 'Ele é nosso ; somos ricos das Suas riquezas e santos da Sua santidade : « Ó homem, diz o Venerável Ludovico Blósio, se dese­jas verdadeiramente amar.  Deus. és rico em Cristo, por mais pobre que sejas. Porque podes humildemente apropriar-te do que Cristo fez e sofreu por  ti».
Cristo é verdadeíramente nosso, porque somos Seu Corpo Místico. As Suas satisfações,  os  Seus méritos, as Suas alegrias, as Suas glórias são nossas  . . .  Ó  ine­fável condição a do cristão, tão intimamente associado a Jesus e aos Seus estados! Ó grandeza admirável  a da alma a quem nada falta da graça merecida por Cristo em Seus mistérios!  Ita ut nihil vobis desit in ulla gratia!

27 de setembro de 2016

Tesouro de Exemplos - Parte 186

CINCO QUILOS DE MANTEIGA

Um camponês vinha todos os dias à cidade para entregar a um padeiro a manteiga necessária para a fabricação de pães; e, conforme ajuste, levava também todos os dias cinco quilos de pães.
Ora, aconteceu que certo dia o padeiro se lembrou de pesar a manteiga e descobriu que faltava meio quilo. No dia seguinte, interpelou o camponês, mas este, sem se perturbar, respondeu tranquilamente: “Meu caro senhor, não sei que fazer; pois, não tendo em casa um peso de cinco quilos, ponho num prato da balança o pão que o senhor me dá e no outro prato peso igual de manteiga”. O padeiro corou de vergonha e dali em diante deu sempre ao seu cliente o peso exato.
Jesus Cristo disse: “Com a medida com que medirdes aos outros, será medido também a vos”.

26 de setembro de 2016

Informações do Apostolado do IBP em Curitiba

Prezados Leitores, Salve Maria!
Clicar na imagem para acessar informações do apostolado do IBP em Curitiba - Site do Instituto Bom Pastor - Distrito da América Latina.

Apostolado IBP em Curitiba

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

III

Este conhecimento adquirido na oração, pela fé, sob a inspiração do Espírito Santo é realmente a fonte de água viva que jorra até à vida eterna : Fons  aquae salientis in vitam aetemam. Com  efeito  (e esta é  uma verdade capital que será esclarecida no  decurso destas palestras), o Pai  Eterno depositou em  Jesus Cristo todas as graças, todos os dons de santificação que destina às almas.
 « Ninguém pode ir ao Pai  senão  pelo Filho» Nemo venit ad Patrem, nisi per me; sem Cristo nada temos, mas com Ele tudo possuímos, «tudo podemos», porque n'Ele habita a plenitude da divindade. Quem tiver compreendido o mistério de Cristo e dele viver, encontrou a pérola de inestimável preço de que fala o Evangelho e que por si só vale mais do que todos os tesouros, pois com ela adquire a vida eterna.
Quanto melhor conhecermos a Jesus Cristo, quanto mais aprofundarmos os mistérios da Sua pessoa e da Sua vida e estudarmos, na oração, as circunstâncias e pormenores que a Revelação  nos transmitiu,  tanto mais verdadeira será a nossa piedade e sólida a nossa santidade.
A  nossa piedade deve ser baseada na fé e no conhecimento que Deus nos concedeu  das  coisas sobrenaturais e divinas. Uma piedade baseada apenas  no sentimento é tão frágil e efêmera como o próprio sentimento que lhe serve de base: é uma casa construída sobre areia e que ao primeiro abalo se desmorona. Pelo contrário, quando a nossa piedade assenta na fé e nas convicções resultantes dum profundo conhecimento dos mistérios de Jesus, único Deus verdadeiro como Pai e o Espírito Santo, então é inabalável, como edifício construído sobre rocha firme: Fundata enim erat super petram.
Além disso, este conhecimento é para nós fonte inexaurível de alegria.
A alegria é o sentimento que brota da alma consciente do bem possuído. O bem da nossa inteligência é a verdade; quanto mais abundante e luminosa for esta verdade, tanto mais profunda é a alegria do espírito.
Jesus traz-nos a verdade: Ele é a própria verdade,  verdade cheia de doçura, que nos mostra a
munificência do nosso Pai dos céus ; «do seio do Pai, onde vive sempre, Cristo revela-nos os segredos divinos», que possuímos pela fé. Que festim, que satisfação, que alegria para a alma fiel, contemplar a Deus, o Ser infinito e inefável, na pessoa de Jesus Cristo; ouvir a Deus nas palavras de Jesus ; descobrir os sentimentos de Deus, se assim me posso exprimir, nos sentimentos do Coração de Jesus; considerar os gestos divinos, penetrar no seu mistério, para nele haurir, como  em sua fonte, a própria vida de Deus:  Ut impleamini  in omnem plenitudinem Dei!
Ó Cristo Jesus, nosso Deus e nosso Redentor, revelação do Pai, nosso irmão mais velho e nosso amigo, fazei que Vos conheçamos! Purificai os olhos do nosso coração para Vos podermos contemplar com alegria; fazei cessar o bulício das criaturas para Vos podermos seguir sem bstáculo. Revelai-Vos Vós mesmo às nossas almas, como fizestes aos discípulos de Emaús, expli­cando-lhes as páginas sagradas que falavam dos Vossos mistérios, e sentiremos «os nossos corações inflama­dos»,  para Vos amarem e se unirem firmemente a Vós !

25 de setembro de 2016

Tesouro de Exemplos - Parte 185

UM DEFUNTO QUE FALA

Santo Estanislau, bispo, foi acusado perante o rei da Polônia de haver usurpado uma fazenda.
O santo declarou que a comprara e pagara, mas, como não possuía escritura e as testemunhas não se atreviam a dizer a verdade por temor do rei, o santo propôs fazer comparecer o dono para provar o que afirmava. Seus inimigos aceitaram logo a proposta, porque sabiam que o antigo dono da fazenda falecera fazia já três anos.
Depois de passar toda a noite em fervorosas orações, Santo Estanislau foi ao cemitério e mandou que levantassem a pedra da sepultura; com seu báculo tocou aqueles restos mortais e ordenou ao defunto que se levantasse e o seguisse.
Chegados ao tribunal, o defunto falou e diante de todos declarou que recebera do bispo a importância da compra, ficando desmascarados os inimigos do santo.
Santo Estanislau perguntou-lhe, então, se queria viver ou morrer. Prefiro morrer — disse — porque me falta muito pouco para sair do purgatório.
Voltou, pois, a sua sepultura acompanhado de muita gente e, depois de pedir orações, expirou.

24 de setembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

II
                                                                  

Aliás, neste particular, o grande Apóstolo, ins­truido como foi pelo próprio Cristo durante três anos,
não  é  mais que o eco fiel do seu Divino Mestre.
Naquela inefável oração depois da Ceia, em que o nosso bendito Salvador deixa transbordar, diante
dos discípulos arrebatados, os sentimentos íntimos da Sua alma, no momento supremo da Sua existência terrestre, ouvimos estas palavras:  « Pai, a vida eterna consiste em reconhecer-te a Ti como único Deus ver­dadeiro e a Jesus Cristo como Teu enviado»:  Haec est autem vita aeterna : ut cognoscant te solum Deum verum, et quem misisti Jesum Christum.
Aprendemos assim, da própria boca de Jesus, ver­dade infalível, que toda a vida cristã - de que a vida eterna é apenas o normal desabrochar e o termo natural - se resume no conhecimento prático de Deus e do seu Filho.
Dir-me-eis que não vemos a Deus:  Deum nemo vidit unqua.  É  verdade. Só conheceremos a Deus perfeitamente, quando  O  virmos face a face na eterna bem-aventurança.
Mas, neste mundo, Deus manifesta-se  à  nossa  fé pelo seu Filho. Jesus Cristo, "Verbo Incarnado.  é  a grande revelação de Deus ao mundo  :  lpse illuxit  in cor­dibus nostris... in  facie Christi Jesu.
Cristo é Deus aparecido no meio dos homens, a  conviver  com eles sob o céu da Judeia, a mostrar-lhes, pela Sua vida humana, como um Deus vive entre os homens, para que os homens saibam como devem viver para serem agradáveis a Deus.
É,  portanto, em Jesus Cristo que se devem concen­trar todos os nossos olhares. Abri o Evangelho : vereis que a voz: do Pai Eterno apenas se fez ouvir no mundo por três vezes . E que nos diz: esta voz divina? De cada uma dessas três vezes, o Pai celeste manda-nos
contemplar e escutar o Seu Filho para que Ele seja glorificado : «Eis o meu Filho muito amado em quem pus todas as minhas complacências : ouvi-o » ; Hic est Filius meus dilectus ...  ipsum audite.- Tudo quanto nos pede o Pai Eterno se resume nisto : contemplar a Jesus, Seu Filho, ouvi-Lo, para  O  amar e imitar, porque Jesus, sendo como é Seu Filho, é igualmente Deus.
E havemos de O contemplar na Sua pessoa, em todos os atos da Sua vida e da Sua morte, nos estados da Sua glória. Por isso que Nosso Senhor é Deus, as mais insignificantes circunstâncias da Sua vida, os mais pequeninos traços dos Seus mistérios, tudo é digno de atenção. Nada é pequeno na vida de Jesus. O Pai Eterno contempla a mais pequena ação de Cristo com muito maior complacência do que contempla o universo inteiro. Antes da vinda de Cristo, Deus tudo faz convergir para Ele : depois da Sua Ascensão tudo reconduz  para Ele. A respeito de Cristo, tudo foi previsto e predito: todas as particularidades importantes da Sua existência, todas as circunstâncias da Sua morte, foram assinaladas pela Sabedoria eterna  e  anunciadas pelos profetas muito tempo antes de se realizarem.
Para quê este cuidado de Deus em  preparar  com tanta antecedência a vinda do Seu Filho? Para que nos deixou Cristo tantos ensinamentos divinos? Para que inspirou o Espírito Santo os escritores sagrados a que  notassem tantos  pormenores, por vezes aparentemente insignificantes? Para que escreveram os Apóstolos às suas cristandades epístolas tão extensas e instantes?
Para que todos estes ensinamentos ficassem enter­rados, como letra morta, no fundo dos livros sagrados? De forma alguma; mas sim para que perscrutássemos, como deseja S. Paulo, o mistério de Cristo; para que contemplássemos a Sua pessoa, para que estudássemos os Seus atos - pois os Seus atos revelam-nos as Suas virtudes e a Sua vontade. Devemos contemplá-Lo, não num estudo puramente intelectual, as mais das vezes árido e estéril, mas  in omni sapientia et intellectu
spirituali,  «  com um espírito cheio de sabedoria celeste » que nos faça buscar no dom divino a verdade que ilumina a nossa vida. Devemos contemplá-Lo para confor­marmos a nossa existência com este modelot que nos torna Deus acessível, haurirmos assim nele a vida divina
e ficarmos plenamente saciados :  Haec est autem  vita aeterna.

23 de setembro de 2016

Sermão para a Festa de Nossa Senhora das Dores – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] Devoção a Nossa Senhora das Dores

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Agradecemos ao Eminentíssimo e Reverendíssimo Cardeal Dom José Freire Falcão, por todo o apoio e ajuda. Deus lhe pague, Eminência.
Caros católicos, percorrendo as antigas Igrejas do Brasil que se conservaram um pouco mais, podemos reparar em uma constante. Em praticamente todas elas, existe uma Capela, um altar ou uma imagem de Nossa Senhora das Dores. Os fiéis católicos sempre reconheceram a importância de venerar Nossa Senhora das Dores. Sempre reconheceram a importância de recorrer à Virgem das Dores. Evidentemente, além da devoção do povo católico, está também a mão poderosa e suave da Providência Divina, conduzindo os homens à devoção a Nossa Senhora das Dores. Tão importante é a devoção a Nossa Senhora das Dores que, além dessa festa principal no dia 15 de setembro, a Igreja faz também a sua comemoração na sexta-feira que antecede o Domingo de Ramos, durante o tempo da paixão.
Muito nobre, importante e necessária a devoção a Nossa Senhora das Dores. Nas dores de Nossa Senhora, podemos entrever toda a obra da redenção, desde a infância do Salvador até a sua paixão e morte na Cruz. A primeira dor ocorre 40 dias depois do nascimento do Menino Jesus, com a profecia do velho Simeão no Templo dizendo a Maria que uma espada lhe transpassaria a alma. A última dor é Nosso Senhor colocado no sepulcro. Claro, Nossa Senhora sofreu ainda antes de saber que ia ser mãe de Deus e começou a sofrer muito mais desde a Anunciação, desde que o Verbo se fez carne em seu seio. Mas é com a profecia do velho Simeão no Templo de Jerusalém que Maria Santíssima tem as suas dores agravadas enormemente. Claro também que ela sofreu depois da ressurreição e da ascensão de Cristo, principalmente vendo a ingratidão dos pecadores. Mas é entre a profecia do velho Simeão na apresentação do Menino ao templo e a sepultura de Jesus que a Igreja coloca as principais dores de Maria. Com as dores de Maria podemos entrever toda a obra da redenção nos sofrimentos de Cristo e de Maria, corredentora.
As dores de Maria nos mostram todos os outros privilégios de Maria. Se ela sofre tanto ao lado de Cristo e ao ver Cristo sofrer, é porque ela é a Mãe de Cristo, homem e Deus. A mãe das dores é a mãe das dores porque é a Mãe de Deus.
Ao ver Maria sofrendo tanto, devemos nos lembrar que ela é a Virgem Imaculada, isto é, concebida sem pecado original. E é também a Virgem que não conheceu pecado algum ao longo de sua vida. Se Maria sofre tão bem, é porque não tem pecado.
Se Maria sofre tanto e tão bem, é porque ela ama a Deus mais do que qualquer criatura. Ela ama a Deus mais do que o mais santo dos anjos. Na verdade, o sofrimento dela é causado, principalmente, pelo seu amor a Deus. Ela sofre não tanto com os sofrimentos físicos de Cristo. Ela sofre principalmente porque compreende profundamente que o amor de Deus é desprezado pelos homens. Ela sofre porque ofendemos a Deus com os nossos pecados. Ela sofre porque zombamos de Deus com a nossa vida morna e tíbia. Ela sofre porque não compreendemos tudo aquilo que Deus nos preparou desde toda a eternidade. Ela sofre porque preferimos o pecado a Deus. Ela sofre porque muitos morrem obstinados no pecado. Maria, no seu sofrimento, nos dá o exemplo de amor a Deus. Seu sofrimento é esse sofrimento porque ela ama a Deus e seu sofrimento é tão bom e meritório porque ele é suportado por amor a Deus. Amando a Deus, ela despreza todo outro amor que não leve a Deus.
Maria, ao sofrer, nos ensina como sofrer. A devoção do povo católico pela Virgem Dolorosa talvez encontre aqui a sua principal razão de ser. Nossa Senhora das Dores é um exemplo muito concreto para o nosso cotidiano, para cada passo de nossa vida nesse vale de lágrimas. Nós sofremos. A cada dia, teremos pelo menos algum sofrimento. Maior ou menor. Nossa tendência, diante deles, é a impaciência, a murmuração, às vezes, até mesmo a revolta contra Deus, pecado gravíssimo. Nesse momento, a Virgem Dolorosa nos dá uma grande lição: sofrer bem. Ela é a Mãe de Deus, a pessoa mais digna que já passou e passará nesse mundo depois de seu Filho. E, sendo a pessoa mais digna, sofreu mais do que cada um de nós e mais do que todos nós juntos. Nós, sendo miseráveis pecadores, nos achamos muito dignos para o sofrimento. Ela é Virgem Imaculada, concebida sem pecado e isenta de pecado durante toda a sua vida. E, sendo a Virgem Imaculada e Puríssima, ela sofreu mais do que cada um de nós e mais do que todos nós juntos. Nós, que ofendemos a Deus com nossos pecados, achamos injustos os nossos sofrimentos. Ela, amando mais a Deus do que todos os anjos e santos do céu juntos, sofreu mais do que cada um de nós e mais do que todos nós juntos. Nós, que amamos a Deus de forma tão vacilante, tão fria, achamos que não somos dignos de sofrer porque fizemos uma ou outra boa obra. Maria nos ensina a sofrer nas grandes coisas e nas pequenas coisas, nas pequenas cruzes do dia-a-dia. A piedade popular compreende isso. Se alguém sabe o que é sofrer, esse alguém é Nossa Senhora. Se alguém sabe o que é sofrer bem, esse alguém é Nossa Senhora. Se alguém pode nos ensinar a sofrer e carregar a nossa Cruz, e nos fazer seguir Jesus Cristo em tudo, esse alguém é Maria. Maria das Dores, a Virgem Dolorosa.
A piedade do povo católico vê facilmente em Nossa Senhora das Dores o modelo do bom sofrimento. Sofrimento, cruz, que é o caminho necessário para chegar a Jesus. Maria, Mãe de Deus. Maria sem pecado, Maria que tanto amou a Deus. Por que sofreu? Sofreu porque Deus a amou… Sofreu para amar a Deus ainda mais. Sofreu para crescer em todas as virtudes. Sofreu para cooperar na reparação pelos nossos pecados, unindo-se aos méritos infinitos de seu Filho. Sofreu para ter maior glória no céu. Sofreu para assemelhar-se a Cristo. Que modelo é Nossa Senhora das Dores para nós nesse vale de lágrimas!
Modelo e grande conforto. Temos uma mãe que sabe muito melhor do que nós o que é o sofrimento. Temos uma Mãe que sofreu enormemente mais que nós, não havendo comparação possível. Temos uma Mãe que nos ajuda no sofrimento a nos mantermos fiéis, que nos ajuda a abraçarmos as cruzes com profunda caridade.
Temos uma Mãe que nos mostra que, nas dores, se pode encontrar a alegria. A alegria de servir a Deus, a alegria de crescer nas virtudes, a alegria de reparar pelos nossos pecados, a alegria de purificar nosso amor a Deus. Na ladainha de Nossa Senhora das Dores, composta pelo Papa Pio VII, depois das invocações que exprimem as dores de Maria Santíssima, ela é invocada como a alegria de todos os santos. Essa alegria profunda da alma em meio às cruzes, que não é uma alegria sentimental, só se consegue com o amor a Deus.
Tenhamos, caros católicos, essa devoção a Nossa Senhora das Dores. Devoção tão enraizada no povo católico. Devoção tão favorecida pela Providência. Devoção que nos ensina o amor a Deus até o desprezo de todos os outros amores que não levem a Ele. Devoção que nos ensina a suportar qualquer sofrimento para permanecer fiéis a Deus.
Viva Nossa Senhora das Dores! Virgem Dolorosa, rogai por nós!
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

22 de setembro de 2016

Sermão para 17º Domingo depois de Pentecostes – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] Não ter medo de conhecer, amar e servir a Nosso Senhor Jesus Cristo


O Evangelho de hoje começa nos mostrando a sabedoria de Nosso Senhor Jesus Cristo e termina pela afirmação clara de sua divindade. A cena narrada no Evangelho de hoje ocorre na última semana de vida de Cristo, entre o Domingo de Ramos e a Quinta-Feira Santa. Nesses dias, os inimigos do Salvador procuravam, de todas as formas, que ele caísse em suas armadilhas, plantadas por perguntas mais ou menos complicadas. No Evangelho desse Domingo, temos um escriba da seita dos fariseus que faz uma pergunta tentando-O. Pouco antes, no Evangelho, está dito que Nosso Senhor havia reduzido os saduceus ao silêncio. Os saduceus eram uma outra seita que havia na época, negando a ressurreição da carne e a imortalidade da alma, por exemplo. Os inimigos de Jesus, de um lado e de outro, faziam-lhe perguntas difíceis para ver se Ele errava, pois se errasse, não seria o Messias. Ou para ver se Ele alterava algum preceito divino, fazendo-se, consequentemente, Deus, o que seria motivo para condená-lO.
Hoje, o escriba pergunta a Nosso Senhor qual o maior dos mandamentos. A resposta que Jesus Cristo dá ao fariseu nos parece bastante simples. Todavia, na época de Nosso Senhor, os fariseus tinham inventado, por conta própria, inúmeros preceitos e havia grande discussão para saber qual deles era o mais importante. Ora, Jesus Cristo coloca as coisas no seu devido lugar, lembrando que o maior preceito é o de amar a Deus. E não de amá-lo de qualquer jeito, mas de amá-lo com todo o coração, com toda a alma e com todo o espírito. Isto é, devemos amar a Deus com todas as potências ou faculdades de nossa alma. Tudo o que fazemos deve ser inspirado, em última instância, pelo amor a Deus. Amor a Deus que não é um sentimento, como Nosso Senhor deixa claro em outro momento. Amor a Deus que se manifesta, diz Ele, na guarda, na observância dos mandamentos. É evidente que esse é o máximo e primeiro mandamento. Todavia, aqueles homens estavam cegos. Cegos pela vontade própria, cegos pelo orgulho, cegos porque seguiam cegos e falsos profetas. Cegos porque seguiam as próprias paixões.
O segundo mandamento, diz o Salvador, é semelhante ao primeiro: amar ao próximo como a si mesmo. Esse segundo mandamento é semelhante ao primeiro porque o verdadeiro amor ao próximo decorre do amor a Deus. O amor ao próximo e o amor a Deus não podem existir separadamente. Quem ama a Deus, amará ao seu próximo. E só ama ao próximo ordenadamente quem o ama por amor a Deus. E amar ao próximo como a si mesmo porque devemos amar a nós mesmos também por amor a Deus, isto é, para agradar a Deus, para alcançar o céu.
Desses dois mandamentos dependem todos os outros mandamentos da lei de Deus. Assim se representam tradicionalmente os mandamentos: na primeira tábua, temos os três mandamentos que se referem diretamente a Deus e, na segunda tábua, temos os sete mandamentos que se referem ao próximo.
Nosso Senhor respondeu perfeitamente à pergunta do fariseu. Todavia, o Salvador sabia que a pergunta vinha da falta de fé dos fariseus nEle. Não acreditavam que Ele fosse o Messias, não acreditavam que Ele fosse Deus. E tinham a ideia de um Messias meramente político. Como muitos hoje colocam praticamente toda a esperança na política, num homem, ou numa forma de governo. Nosso Senhor irá remediar isso. Tendo respondido à pergunta do fariseu, faz Ele mesmo duas perguntas: “que vos parece do Cristo? De quem é Ele filho?” Os fariseus respondem: “Ele é filho de Davi.” Responderam bem. De fato, as Sagradas Escrituras deixam muito claro que o Messias é filho de Davi. Nosso Senhor cita, então, o Salmo 109, escrito por Davi e inspirado por Deus, como inspirada é toda a Sagrada Escritura, como toda a Bíblia. Nesse Salmo, Davi chama o Messias de seu Senhor, dizendo: “disse o Senhor ao meu Senhor, senta-te à minha direita.” Ora, como Davi chama o Messias de Senhor, sendo que o Messias é seu filho? E como o chama de Senhor igualando-o ao Senhor Deus? Se Davi o chama de Senhor como pode o Messias ser seu filho? A resposta é muito clara: o Messias não é somente filho de Davi. O Messias é também filho de Deus. Por isso, Davi o chama de Senhor. Os fariseus compreenderam isso muito bem com a pergunta de Cristo. Compreenderam que o Messias era homem e Deus, compreenderam que Jesus era o Messias, que Ele era o Filho de Deus feito homem. Mas diante das perguntas de Cristo, não responderam, calaram. Não responderam porque não queriam se submeter a Cristo. Se reconhecessem abertamente que Cristo era o Messias e Deus encarnado, teriam que mudar de vida, teriam que abandonar os seus pecados. Desse dia em diante, não lhe perguntaram mais nada. Simplesmente procuraram, por intrigas políticas e religiosas, matá-lo. Tendo a possibilidade de conhecer a verdade e de segui-la, preferiram persegui-la, para continuar em seus pecados, para continuar em seus pensamentos e ideias tortas. Preferiram continuar cegos. Assim acontece com muitos. Não querem reconhecer Nosso Senhor Jesus Cisto, não querem se aprofundar no conhecimento da religião, para não se verem obrigados a mudar de vida, para não se verem obrigados a abandonar os próprios pecados, para não se verem obrigados a abandonar os próprios caprichos, para não se verem obrigados a ter de combater o mundo. Preferem ficar cegos. E na cegueira perseguem Jesus com seus pecados ou chegam até a combatê-lo frontalmente.
Não tenhamos medo, caros católicos, de reconhecer Nosso Senhor Jesus cristo, o Messias, o Salvador, homem e Deus. Não tenhamos medo de praticar os seus mandamentos os seus preceitos. Não tenhamos medo de amá-lo inteiramente, com todo o nosso coração, com toda a nossa alma, com todo o nosso espírito.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.