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28 de fevereiro de 2015

Confessai-vos Bem - Padre Luiz Chiavarino.

Efeitos admiráveis

D. — Padre, além do perdão dos pecados, a confissão traz mais outras vantagens?
M. — Traz; e muitíssimas e surpreendentes. Nós todos temos três inimigos
implacáveis, deploráveis e obstinados, os quais, dia e noite armam ciladas contra a nossa
alma. São eles: a concupiscência, o demônio e o mundo. Da infância ao túmulo, perseguem-nos
sempre, onde quer que estejamos e ceifam inúmeras vítimas de todas as idades e
condições. Ai de quem não se previne com o remédio divino, que é a confissão.
D. — E a confissão consegue vencer esses inimigos?
M. — Uma confissão isolada, não; é preciso que seja repetida frequentemente. Esses
inimigos, feridos uma vez com a confissão, não morrem, mas tornam a tentar a prova, mais
maliciosos do que antes, modificam e multiplicam os seus lagos para nos causar danos
maiores. Oh! quantos, apesar de sinceramente arrependidos, tornam a cair, depois de breves
intervalos, nas mesmas faltas.
São Felipe Néri conta que um jovem o procurou, resolvido a abandonar, custasse o
que custasse, certos pecados impuros, que tinha o hábito de cometer. Ele ouviu-o, e, vendo a
firme vontade que tinha de se emendar, absolveu-o em nome de Jesus Cristo e lhe disse que
fosse em paz, e que, se por acaso, aquilo acontecesse de novo, voltasse logo para se
confessar.
No dia seguinte, eis de novo o rapaz aos pés de São Felipe.
— Padre, o demônio foi mais forte do que eu, tornei a cair na mesma falta.
— Você está arrependido?
— Sim, padre.
— Pois bem, eu o absolvo, vá em paz, mas na primeira recaída, volte.
No terceiro, no quarto, no quinto dia, ei-lo sempre de novo aos pés do Santo
confessando as recaídas de sempre, e assim aconteceu doze, treze vezes com intervalos mais
ou menos longos, até que finalmente venceu o seu defeito, tornou-se tão puro e tão casto que
São Felipe o acolheu entre os seus filhos e ele se tornou um apóstolo zeloso. E assim, a
confissão, constantemente repetida, acabou por ser a mais forte, venceu o demônio impuro e
os seus mais obstinados assaltos.
D. — Padre, podem se repetir tais casos de recaída?
M. — Por infelicidade podem, principalmente com os jovens.
D. — E então?
M. — Então, é preciso repetir cada vez e sem perda de tempo, a confissão. Assim
como uma única injeção não chega para matar o bacilo do tifo e da tuberculose, uma só
confissão não é suficiente para paralisar o micróbio da concupiscência que circula no nosso
sangue. A confissão tem uma força toda especial contra a sensualidade tanto que, segundo o
que dizem pessoas eminentes, quase não se pode crer na castidade daqueles que não se
confessam, sejam quais forem o estado e as condições em que se encontram. Conservar-se-ão
afastados de certos excessos, mas não terão a integridade absoluta de costumes sem a
confissão freqüente.
D. — Será então por esse motivo que a confissão é recomendada sobretudo à
juventude?
M. — Assim é, porque é precisamente no coração da juventude que aparece mais em
realce toda a eficácia vitoriosa da confissão. Nesse terreno virgem, revela-se como o "talismã
preservativo" da corrupção. Oh! que lindo espetáculo apresenta perante Deus e os homens
tantos jovens, encaminhados em tempo à freqüência deste Sacramento.
D. — Então, era com razão que São José Cottolengo e São João Bosco a inculcavam
com tanta insistência nos seus institutos?
M. — Sim, D. Bosco, e com ele os melhores educadores, compreenderam que,
quando se quer livrar a infância de ambos os sexos da perda da inocência, não há caminho
mais seguro do que a confissão freqüente.
D. — Parece-me que o Papa Pio X também decretou alguma coisa em relação à
confissão das crianças.
M. — Bendita seja a santa e muito querida memória deste Pontífice vigilante, que,
para remediar tantos abusos e hábitos que tomaram pé por culpa de extravagantes e perigosas
interpretações, estabeleceu pelo decreto de 8 de Maio de 1910, que a idade para a Confissão
e Comunhão é aquela em que a criança começa a julgar por si mesma, isto é mesmo antes
dos sete anos. Determinou também que o hábito de não confessar ou de não absolver as
crianças chegadas ao uso da razão é, sob todos os pontos de vista, repreensível, recaindo toda
a responsabilidade sobre os pais, sobre o confessor, sobre os institutos e sobre o Vigário.
D. — De modo que, segundo o senhor, Padre, a confissão freqüente é indispensável a
todos, pequenos e grandes?
M. — Sim, é indispensável a todos. Se quiserem realmente vencer o inimigo
mortífero da alma, previnam-se contra qualquer espécie de impureza? Querem que essas
mesmas vitórias sejam alcançadas pelos que dependem de vocês? Vão, conduzam, e mandem
à confissão. Experimentem e vejam o quanto Jesus é poderoso.
Um dia um sacerdote, Vigário de uma cidade importante do Monferrato, foi procurar
São João Bosco. Assim que chegou, desatou em pranto. O Santo ergue-o, e, amorosamente
começou a interrogá-lo sobre a razão de tal angústia.
— D. Bosco! Estou resolvido a abandonar a minha Paróquia, vejo que não posso
fazer nada de bem, os meus esforços são correspondido com indiferença e frieza sempre
crescentes. Por toda a parte abundam a blasfêmia, o modo de falar desonesto, o desrespeito
dos dias santificados, os maus hábitos, a dança, o escândalo. D. Bosco, aconselhe-me, por
piedade! — Desde quando reina este estado de coisas?
— Desde muitos anos, e vai sempre piorando.
— O senhor rezou, fez rezar?
— Imagine, Padre, se eu não havia de rezar! Muitas vezes fiz votos, mas tudo foi
inútil.
— Mas seus paroquianos vão à Igreja, freqüentam os Sacramentos?
— Vão à Igreja freqüentam bastante os Sacramentos, mas depois...
— As confissões são bem feitas?
— Qual nada! Esse é o meu maior desgosto!...
— Pois bem, faça assim: Volte para casa sossegado, e, de agora em diante faça
sermões Unicamente sobre a excelência da confissão bem feita.
O zeloso sacerdote obedeceu e quando, depois de três anos, encontrou D. Bosco na
sala de espera da estação de Asti, jogou-se novamente aos pé e beijando-lhe a mão com
afetuosa efusão, não acabava mais de lhe agradecer pelo conselho iluminado que lhe dera.
— Pus em prática o que me aconselhou, e a paróquia mudou como por encanto;
proporciona-me sempre novas e indizíveis consolações.
D. — D. Bosco era um santo, não era mesmo Padre?
M. — Era um homem repleto de espírito de Deus, mas conhecedor do mundo,
investigador profundo dos corações e, como S. Felipe Néri, batalhava com zelosa constância
pela confissão freqüente, a qual, se é muito pouco praticada, e não sempre com proveito, é
porque é muito pouco conhecida.
Ela, além de ser o remédio por excelência, é ainda o Sacramento milagre, capaz de
sozinha, refrear o mundo inteiro.
D. — Será possível?
M. — Eis aqui uma amostra num outro fato histórico de D. Bosco:
No ano de 1855, S. João Bosco tinha pregado três dias os Exercícios Espirituais aos
jovens da "Generala", de Turim, que é um instituto correcional dos indisciplinados. Tendo-os
confessado todos, pediu e obteve depois de muita insistência, do próprio ministro Urbano
Rattazzi, a licença de conduzi-los todos, em número de 350, a um passeio até o parque real
de Stupidini, a quatro milhas de distância de Turim. A mais espontânea alegria durou até à
tardinha e na hora de voltar para casa, ninguém deixou de responder à chamada. É
impossível descrever a surpresa de todos, que não podiam explicar como é que um pobre
padre sozinho, sem guardas nem soldados, tinha podido manter em ordem e submissos tão
grande número de internados, não sabiam que o grande segredo de D. Bosco era a confissão.
D. — É verdade, a confissão é poderosa. Oh! Se os pais o reconhecessem como
educariam melhor a juventude, e como haveria maior respeito, obediência e moralidade nas
próprias famílias!
M. — Sem dúvida! De fato, não tenho medo de exagerar dizendo que, confessando
com pessoas que freqüentam a confissão, dificilmente encontramos um pecado mortal!
Confessando só duas, as quais só se confessam de vez em quando, dificilmente não se encontram
pecados mortais.
D. — Uma casa que se varre frequentemente, como um vestido que se escova
sempre, como o rosto que se lava diariamente se conservam limpos; o mesmo se dá com a
alma que se confessa com freqüência: não é Padre?
M. — Justamente.

27 de fevereiro de 2015

Confessai-vos Bem - Padre Luiz Chiavarino.

Quem manda, faz leis

D. — E agora, Padre, tenha a bondade de esclarecer ainda mais alguns pontos. Antes
de tudo, a Confissão é mesmo necessária para apagar os pecados?
M. — Sim, a confissão é indispensável. Assim como a água é necessária para lavar as
manchas, não podemos lavar e destruir os pecados sem a confissão. Foi estabelecida por
Deus, e Jesus Cristo a confirmou.
D. — Não lhe teria sido possível estabelecer as coisas diferentemente?
M. — Sim, podia tê-lo feito, sendo Ele Deus, mas desde que achou preferível
proceder assim, não nos resta senão obedecer. De mais a mais haveria uma maneira mais
fácil? Não! Suponhamos que, por exemplo, para cada pecado tivesse ordenado uma esmola
grande: quantas não a achariam penosa e impossível? Suponhamos ainda que tivesse
estabelecido um jejum; quantos não poderiam ou não quereriam fazê-lo? Suponhamos ainda
que tivesse exigido uma longa peregrinação; quantos nesse caso, mesmo querendo, não a
poderiam realizar? Mas com a confissão não há nada disso, para quem quer que seja, por
qualquer pecado e número de vezes, só é necessária uma coisa: confessar-se a um Ministro,
cuja escolha é livre, no modo mais secreto e tudo está perdoado. Ah! diga-me: se a lei
humana ou civil agisse da mesma maneira, se bastasse apresentar-se a um juiz e confessar a
culpa para receber o perdão, haveria ainda prisões e penitenciárias?
D. — Absolutamente não! todos se confessariam, mesmo os mais velhacos.
M. — Por que, então, achamos penosa a confissão sacramental?
D. — Pois seja: mas não chegaria uma confissão feita diretamente a Deus? Quê
necessidade há de se, correr ao Sacerdote, pondo-o ao corrente dos nossos interesses?
M. — Quem manda faz leis! Ouça: O Presidente e o governo mandam que paguemos
impostos; pois bem, faça uma experiência; vá ao Rio de Janeiro para pagar diretamente ao
Presidente e ao Governo. Dir-lhe-iam: vá ter com o nosso encarregado, o coletor e pague a
ele, você poderia protestar à vontade que a situação não mudaria. Querem que paguemos,
mas ao coletor. O mesmo dá-se com a confissão. Deus perdoa, mas por meio dos seus
encarregados, que são os confessores.
D. — É mesmo! E eu que nunca tinha pensado nisso!
M. — Quanto ao pormos outra pessoa a par dos nossos interesses, tenha paciência, de
que negócios se trata nesse caso? Trata-se de pecados e não de interesses.
Quando você sente uma forte dor de cabeça ou de dentes será que você, para não pôr
ninguém ao par dos seus casos, não corre ao médico ou ao dentista, para se ver livre dela?
E quando o acusam será que você não procura um advogado para que o salve de uma
condenação?
D. — Oh! eu corro logo ao médico ou ao advogado e conto tudo; procuro até explicar
as coisas direitinho.
M. — Então só no que diz respeito à Confissão, que é segredo impenetrável, divino,
é que receamos dar a conhecer os nossos interesses? Ora! Essas são desculpas muito magras
que denunciam má vontade!
D. — Todavia Padre, o senhor deve reconhecer que é duro manifestar misérias...
M. — Reconheço que realmente é bastante duro, porque o nosso amor próprio fica
um pouco humilhado, mas devemos pensar que isso é um dever, uma necessidade. E ao
médico, será que não se confessam certas misérias?
D. — Ah! contanto que ele nos cure...
M. — Pois bem, ou queremos receber a graça e voltar a ser filhos de Deus, ou
queremos ficar sendo filhos do demônio, escravos do inferno: não há outra saída, e para nos
conseguirmos livrar é indispensável que nos confessemos, sem o que não pode haver nem
paz, nem perdão, nem Paraíso. Quem manda faz leis. Eis a prova dos fatos.
São Bento conta nas suas crônicas que um religioso chamado Pelágio, tendo por
infelicidade cometido um pecado grave na mocidade, deliberou não o confessar.
Passava assim os meses e os anos numa aflição enorme, atormentado sempre pelo
remorso. Um peregrino, passando por lá, disse-lhe como se Deus o iluminasse: "Pelágio,
confessa-te; Deus conceder-te-á o perdão e terás sossego".
Mas ele teimou em não falar, e iludindo-se que poderia obter o perdão sem a
confissão, resolveu fazer grandes penitencias. Entrou num convento; e ali pela humildade,
pela obediência, pelos jejuns e mortificações, conquistou a admiração de todos, e foi
sepultado com muito pesar nos túmulos da Igreja, conforme o hábito da época. Na manhã
seguinte o Sacristão achou o corpo em cima do túmulo e o enterrou de novo. Mas, também
nos dias que se seguiram, achou-o novamente fora da sepultura. Avisou então o abade: este
correu para junto do cadáver com os outros monges, e disse:
— Pelágio, foste sempre obediente em vida, obedece também depois da morte. Dize-me,
estás por acaso no purgatório? Tens necessidade de sufrágios ou é desejo divino que
sejas posto num lugar mais digno?
— Ai de mim! Eu estou no inferno por causa de um pecado omitido desde muitos
anos e pelo qual esperava obter misericórdia por outros meios. Tirem-me daqui, e enterre-me
em campo aberto, como um jumento.
Conta-se que uma freira, tendo cometido um pecado desde sete anos, nunca o quis
confessar, na esperança de alcançar o perdão igualmente. Para esse fim, fechou-se em um
convento e se tornou religiosa. Devido à sua vida austera e a prática de todas as virtudes, foi
eleita abadessa, cargo que desempenhou com escrúpulo exemplar. Mas, depois de morta
apareceu às religiosas, toda rodeada de chamas, e, gritando desesperadamente dizia: "Não
rezem por mim que estou condenada por causa de um pecado que nunca confessei desde
"sete anos".
D. — Pobres! e uma só palavra na confissão teria chegado para os tornar felizes, não
é Padre?
M. — Justamente! e dessa maneira vivem num inferno quando em vida, e vão para
ele depois de mortos. E no entanto, creia-me, não é pequeno o número desses infelizes que
não querem convencer-se de que, para eliminar os pecados é indispensável a confissão, da
qual, além disso, o coração sente necessidade.
D. — Como é que o coração sente necessidade dela?
M. — Vou prová-lo.
Não há muito, os jornais da Itália divulgavam a notícia de que um sapateiro da cidade
de Bassano, no Vêneto, num ímpeto de cólera tinha arremessado um ferro contra um netinho
de poucos anos, matando-o. Apavorado, escondeu o cadáver, e, durante a noite, foi enterrá-lo
num bosque. Por muitos dias procuraram o pequeno desaparecido, cada qual fazia as mais
estranhas conjeturas, mas nem pensavam no sapateiro, cujo crime ninguém presenciara.
Podia, pois ficar tranqüilo e sossegado e viver alegremente. Mas, no entanto, desde o dia
fatal, não cantou mais as suas alegres canções, não bateu mais o martelo com ânimo, se
tornou triste e pensativo. Vendeu a casa, os apetrechos da profissão e fugiu para a América.
Lá estava completamente salvo; podia, pois esquecer tudo e ser feliz. Qual nada!
Depois de dois anos voltou, apresentou-se diretamente ao juiz e confessou o crime. A justiça
indagou, procuraram-se no bosque os míseros restos da vítima, fez se o processo. Antes de
pronunciar a sentença que o condenaria definitivamente, o juiz virou-se para o assassino e
perguntou:
— Diga-me, ó desgraçado, como é que o senhor, que tinha enganado a todos e podia
ficar sossegado na América, vem entregar-se à justiça e obrigar-nos a condená-lo?
— Senhor juiz, respondeu o réu, não é verdade que enganei a todos. Só enganei aos
homens, o mesmo não se deu com Deus. Desde aquele dia não tive mais sossego, a sombra
do menino perturba-me o sono, vejo sempre a minha mão escorrendo sangue. Condene-me à
prisão, condene-me à morte, mas que esta vida de remorso acabe para sempre.
O coitado tinha tomado o caminho errado, se, em lugar de ter tomado o rumo da
América, do tribunal, do cárcere, da desonra, tivesse corrido aos pés do confessor, ah! não
teria visto a sombra de sua vítima, nem a mão pingando sangue; mas, recebendo a absolvição,
teria tranqüilizado incontinente a consciência.
D. — É verdade, Padre; a Confissão é uma necessidade do coração.
M. — Tanto melhor para nós se nos servirmos dela em todas as ocasiões para
qualquer eventualidade. Quando um espinho se nos enterra no pé ou quando um cisco nos
entra nos olhos, não achamos mais sossego enquanto não nos livrarmos do espinho ou do
grãozinho de pó. O mesmo se dá com o pecado; não nos deixa em paz enquanto não o
extirparmos com a confissão. Deus assim o quis e quem manda, faz leis!
D. — Como deve ser consolador o perdão de Deus depois de anos e anos de
remorsos, não padre?
M. - Ah, sim! e nenhuma alegria no mundo se lhe pode comparar. A confissão, além
de ser uma necessidade do coração, é ainda o maior consolo das almas aflitas. O fato
seguinte bem o demonstra:
O Padre Bridaine, grande missionário francês, pregava durante as missões, numa
cidade dos Alpes. Um velho oficial da cavalaria foi ouvi-lo por curiosidade, porque já ouvira
falar naquele orador famoso. Deus quis, que, naquela noite, o Missionário falasse justamente
na necessidade da confissão. A palavra simples, mas quente e persuasiva do servo de Deus,
penetrou até o coração do militar, que resolveu confessar-se.
De fato, foi à sacristia, atirou-se aos pés do Padre Bridaine que o acolheu com
bondade e amor. Depois de feita a confissão levantou-se, e beijando a mão do Padre,
exclamou bem alto, para que todos o ouvissem: "Sinceramente, na minha vida nunca senti
tamanha consolação e nem uma alegria tão grande como agora que tenho comigo a graça de
Deus. Acho que nem o próprio rei, que sirvo há trinta anos pode ser mais feliz do que eu!"
As palavras que o velho oficial francês pronunciou, poderiam pronunciá-las todos os
que, depois de vencidas todas as dificuldades, vão confessar-se, e se confessam bem. Aqui
também não é demais repetir Quem manda, faz leis, mas as leis de Deus são tão doces e
suaves!

26 de fevereiro de 2015

Confessai-vos Bem - Padre Luiz Chiavarino

Segredo inviolável

D. — Padre, será que alguma vez não acontece que o confessor conte algum pecado
ouvido na confissão?
M. — Absolutamente nunca! Um tríplice segredo fecha-lhe a boca; nisto entra a
vontade de Deus que não permite que se cometam faltas no que diz respeito a este capítulo.
De fato, a confissão existe há mil e novecentos anos, e nunca aconteceu que um confessor,
por nenhum motivo, tenha divulgado um único pecado ouvido na confissão.
Martinho Lutero que era um frade zeloso, renegou a sua fé, fez se protestante,
tornou-se inimigo da igreja falou e escreveu contra a Igreja calúnias infâmias sem fim, mas
nunca, nem uma vez sequer, falou de coisas ouvidas na confissão.
Um dia, achava-se ele numa estalagem com alguns amigos, estes, vendo-o meio
embriagado, tiveram a idéia de interrogá-lo, justamente a esse respeito. Antes nunca o
tivessem feito! Lutero, de um momento para o outro, ficou furioso, e, agarrando uma garrafa,
teria quebrado a cabeça daqueles malvados se eles, mais do que depressa, não tivessem
fugido.
O segredo da confissão é inviolável, mesmo diante da morte.
D. — Até diante da morte?!
M. — Certamente! Eis aqui um dos mil fatos que eu poderia citar como prova:
Justamente durante a quaresma de 1873, um missionário famoso pregava com grande
sucesso numa das principais Igrejas de Paris. No meio da multidão enorme que acorria para
ouvi-lo, havia também alguns incrédulos, os quais, tendo-o ouvido falar sobre a inviolabilidade
da confissão, quiseram fazer uma experiência. Depois de terem combinado o
plano, um deles se finge de doente e outros dois procuram o sacerdote e o convidam para
acudir junto ao leito do enfermo. O missionário de Deus, concorda de pronto, e acompanha
os dois homens que, fazendo-o entrar num carro fechado, vendam-lhe os olhos; depois de
uma meia hora de corrida, fazem-no descer na frente de um palacete, e subindo por uma
escada o introduzem em um apartamento junto a cabeceira de um homem que se confessa
realmente. Acabada a confissão, voltam os dois companheiros e o fazem descer por escadas
até um subterrâneo, onde lhe tiram a venda e apontando-lhe duas pistolas carregadas o
intimam a referir o que ouvira na confissão .
Muito calmo o Missionário responde:
— Os senhores, talvez, não sabem que a confissão é um segredo?
"Um tríplice segredo fecha-lhe a boca”
— Deixe de desculpas! Aqui ninguém nos vê, ninguém nos ouve; fale ou morrerá.
— Se assim é, estou em suas mãos, disparem à vontade, e que Deus seja testemunha
do meu dever. Assim dizendo, ajoelha-se, desabotoa a batina, e apresenta o peito às balas.
Nesse ponto a cena se transforma, os dois homens erguem-no, pedem-lhe perdão pela
dura prova a que o submeteram e acrescentam: "Agora nós também acreditamos na confissão
e, dentro em pouco, estaremos de joelhos no confessionário".
Vendaram-lhe novamente os olhos e o reconduziram de carro até à casa, renovando
as desculpas e promessas, que depois foram mantidas.
D. — Padre, todo o sacerdote, num caso desses, seria obrigado a fazer o mesmo?
M. — Certamente! e Deus não deixaria de dar-lhe a graça e a força necessárias, não
faltam mártires do sigilo sacramental. Ouça:
São João Nepomucemo era confessor da rainha Joana, mulher de Venceslau, rei da
Boêmia. Este por causa de injustas suspeitas motivadas pelo ciúme, pretendia que João
referisse as culpas da rainha, ouvidas em confissão. Como o Santo se opôs com inabalável
resistência, o rei impiedoso mandou que o trancassem numa prisão, onde seria tratado com
barbaridade extrema. Finalmente, chamando-o à sua presença, depois de novas promessas e
ameaças ainda mais terríveis, ordenou que o costurassem num saco de couro, fechado por
uma corda, na extremidade da qual deviam amarrar uma pedra pesadíssima, e que o
jogassem ao rio Moldava. Queria que lá em baixo, no fundo do rio o padre morresse e
apodrecesse, escondido de todos.
Mas oh! prodígio!... Naquela mesma noite o saco flutuava levemente sobre as ondas,
escoltado por uma luz vivíssima e uma harmonia suave como vozes de anjos acompanhavam.
Depois de tirado das águas, enterraram-no com pompa e solenidade. E quando, em 1729,
quase quatrocentos anos mais tarde, foi proclamado santo, a sua língua estava intacta, e
fresquíssima, como se fosse um prêmio do seu silêncio.
Foi então que São João Nepomucemo foi chamado "o mártir do segredo da
confissão".
Não faz muito tempo que, pelos jornais da Rússia, se espalhava a notícia de um
vigário condenado aos trabalhos forçados, como assassino de um rendeiro do lugarejo. O seu
fuzil descarregado, encontrado na sacristia, atestava o crime. Passaram-se vinte anos: o
organista da paróquia está à morte; chama o juiz e confessa que ele mesmo matara o infeliz
rendeiro para casar com a viúva, o que de fato se dera. Tinha acusado o Vigário, e para
provar-lhe a culpabilidade tinha posto o fuzil na sacristia. Como meio seguro de impedir que
o Padre falasse, tinha-se confessado com ele, contando-lhe tudo o que fizera.
Diante disso, as autoridades telegrafaram sem demora a Petersburgo, ordenando que
o Vigário Kobjlowes fosse posto em liberdade imediatamente. Responderam que o Vigário
tinha morrido havia já alguns meses. O heróico padre tinha carregado à sepultura
o segredo da confissão, porque o Confessor pode ser um mártir, mas nunca será um traidor.
E agora, você está bem convencido do grande segredo da confissão?
D. — Estou convencidissimo! Mas esse segredo dura, porém até à morte do
penitente; depois, não há mais obrigação?
M. — O segredo perdura sempre, estando o penitente em vida e depois da sua morte;
é eterno, assim como Deus é eterno. Isto deve inspirar-nos coragem e confiança absolutas,
sem limites, de confessar sinceramente os nossos pecados, desde que podemos estar certos
de que eles ficarão sepultados num silêncio eterno. Se pelo contrário, nos deixarmos levar
por um pudor mal compreendido a escondê-los e a calá-los diante do confessor, serão um dia
manifestados diante de todo o mundo no juízo universal, contra a nossa vontade, para a nossa
vergonha e para a nossa ruína irreparável. Sinceridade, portanto, sinceridade!
D. — Então, Padre, procede mal quem diz: eu não ouso confessar os meus pecados,
porque tenho medo de que o Confessor os conte a terceiros?
M. — Quem fala assim, mente a si mesmo e lança contra os confessores a mais
infame das calúnias.
D. — Mais uma pergunta: não pode o confessor servir-se em seu próprio favor, das
coisas ouvidas na confissão?
M. — Não, não pode, não deve fazê-lo absolutamente, e jamais o fará. Pelo contrário,
se acontecer que o confessor venha a saber na confissão de uma culpa que já conhecia
anteriormente ou por tê-la visto ou porque lhe tenha sido referida, nunca mais fala, nela,
justamente para que não pensem que ele se serviu da confissão e que violou o segredo. Eis
até a que ponto chega o sigilo sacramental.

25 de fevereiro de 2015

Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem - Parte 20

Capítulo VI

Figura bíblica desta perfeita devoção: Rebeca e Jacó

183. De todas as verdades que acabo de descrever em relação à Santíssima Virgem, o Espírito Santo nos apresenta, na Sagrada Escritura (Gn 27), uma figura admirável na história de Jacó, o qual recebeu a bênção de Isaac, graças à solicitude e engenho de sua mãe Rebeca.
Ei-la tal como conta o Espírito Santo. Em seguida ajuntarei a explicação.

Artigo I

Rebeca e Jacó
§ I. História de Jacó.

184. Esaú vendera a Jacó, seu direito de primogenitura. Anos depois, Rebeca, mãe dos dois irmãos, assegurou a Jacó, – que ela amava ternamente, – as vantagens daquele privilégio, empregando, para isto, uma astúcia santa e cheia de mistério. Pois Isaac, sentindo-se extremamente velho, quis, antes de morrer, abençoar seus filhos, e, chamando Esaú, o preferido, ordenou-lhe que fosse caçar algo para ele comer. Depois o abençoaria. Rebeca, prontamente, pôs Jacó ao corrente do que se passava, e disse-lhe que fosse buscar dois cabritos no rebanho. Assim que ele lhos trouxe, ela os preparou do modo que Isaac mais gostava. Em seguida, com as vestes de Esaú, que ela guardava, vestiu Jacó e com as peles dos cabritos envolveu-lhe o pescoço e as mãos, a fim de que Isaac, que não podia ver, acreditasse, tateando-lhe as mãos, que fosse Esaú, embora ouvindo a voz de Jacó. Isaac, com efeito, ficou surpreso ao ouvir a voz que ele reconhecia como de Jacó, mas, fazendo-o aproximar-se e tateando-lhe os pelos que cobriam as mãos do filho, murmurou: Em verdade a voz é de Jacó, mas as mãos são de Esaú. E, convencido, comeu. Em seguida, ao beijar Jacó sentiu a fragrância das roupas de Esaú, o que acabou por dissipar-lhe as dúvidas. Abençoou-o, então, e desejou-lhe o orvalho do céu e a fecundidade da terra; estabeleceu-o senhor de todos os seus irmãos, e terminou a bênção com estas palavras: “Aquele que te amaldiçoar seja amaldiçoado, e aquele que te abençoar seja cumulado de bênçãos”.
Apenas Isaac acabara de falar, entrou Esaú trazendo um guisado da caça que abatera, e o apresentou ao pai, pedindo-lhe que comesse e em seguida o abençoasse. O santo patriarca ficou extremamente surpreendido, ao ficar ciente do engano, mas, longe de retratar o que fizera, confirmou-o, pois reconhecia no fato, evidentemente, o dedo de Deus. Então Esaú, como observa a Sagrada Escritura, gritou com grande clamor, e acusando em altas vozes o embuste do seu irmão, perguntou ao pai se ele não tinha outra bênção. Neste ponto, notam os Santos Padres, ele era a imagem dos que facilmente conciliam Deus com o mundo, querendo gozar ao mesmo tempo as consolações do céu e as da terra. Isaac, comovido pelos gritos de Esaú, abençoou-o, enfim, mas a bênção que lhe deu foi uma bênção terrena, sujeitando-o ao irmão. Por isso Esaú concebeu um ódio tão profundo contra Jacó que, para matá-lo, só esperava a morte do pai. E Jacó não teria podido evitar a morte, se sua extremosa mãe Rebeca não o protegesse com sua habilidade e os bons conselhos que lhe deu e que ele seguiu.

§ II. Interpretação da história de Jacó.

185. Antes de explicar esta história tão bela, é preciso notar que, conforme todos os Santos Padres e intérpretes da Sagrada Escritura, Jacó é figura de Jesus Cristo e dos predestinados, enquanto Esaú é figura dos réprobos; basta, apenas, examinar a atitude de um e de outro para verificá-lo.
1º Esaú, figura dos réprobos
1º Esaú, o mais velho, era forte e robusto de corpo, destro e habilidoso no manejo do arco e na arte da caça.
2º Quase não parava em casa, e, confiante em sua força e destreza, só trabalhava fora, ao ar livre.
3º Pouco se incomodava de agradar a sua mãe Rebeca, e nada fazia por ela.
4º Era guloso e gostava tanto de satisfazer o paladar, que chegou a vender seu direito de progenitura por um prato de lentilhas.
5º Estava, como Caim, cheio de inveja de seu irmão Jacó, e o perseguia sem tréguas.

186. Eis a conduta dos réprobos, todos os dias:
1º Fiam-se em sua força e indústria nos negócios temporais; são muito fortes, muito hábeis e esclarecidos para as coisas da terra, mas extremamente fracos e ignorantes nas coisas do céu: “In terrenis fortes, in caelestibus debiles”. Por isso:

187. 2º Não se demoram ou se demoram muito pouco em sua própria casa, quer dizer no seu interior, que é a casa interior e essencial dada por Deus a cada homem para aí morar, conforme seu exemplo, pois Deus mora sempre em sua casa. Os réprobos não amam o retiro, nem a espiritualidade, nem a devoção interior e chamam de espírito acanhados, carolas e selvagens aqueles que são espirituais e retirados do mundo, e que trabalham mais no interior do que fora.

188. 3º Os réprobos não se preocupam de modo algum com a devoção à Santíssima Virgem, a Mãe dos predestinados. É verdade que não a odeiam formalmente, fazem-lhe às vezes um elogio, dizem que a amam, praticam até alguma devoção em sua honra, mas, de resto, não suportariam vê-la amada ternamente, porque não têm para ela as ternuras de Jacó. Acham motivo de censura nas práticas de devoção, a que se entregam os bons filhos e servos da Santíssima Virgem para obter sua afeição, na certeza de que esta devoção lhes é necessária
à salvação, e acham mais que, desde que não odeiam formalmente a Santíssima Virgem, e que não desprezam abertamente sua devoção, isso é bastante e já ganharam as boas graças da Santíssima Virgem e são seus servos, ao recitarem ou resmungarem algumas orações em sua honra, sem a menor ternura por ela nem emenda para eles.

189. 4º Esses réprobos vendem seu direito de primogenitura, isto é, os gozos do paraíso, por um prato de lentilhas, os prazeres da terra. Riem, bebem, comem, divertem-se, jogam, dançam, etc..., sem a mínima preocupação, como Esaú, de se tornarem dignos da bênção do Pai celeste. Em três palavras, eles só pensam na terra, só amam a terra, só falam e agem pela terra e pelos prazeres terrenos, vendendo, por um instante de prazer, por uma vã fumaça de honra, e por um pedaço de matéria amarela ou branca, a graça batismal, sua veste de inocência, sua celestial herança.

190. 5º Os réprobos, finalmente, em segredo ou às claras, odeiam e perseguem diariamente os predestinados. Prejudicam-nos quanto podem, desprezam-nos, roubam-nos, enganam-nos, empobrecem-nos, expulsam-nos, reduzem-nos a pó; enquanto eles mesmos fazem fortuna, gozam seus prazeres, vivem em situação esplêndida, enriquecem, se engrandecem e levam vida folgada.

2º Jacó, figura dos predestinados

191. 1º Jacó, o caçula, era de compleição franzina, meigo e sossegado. Permanecia em casa o mais possível, para ganhar as graças de sua Mãe Rebeca, que o amava ternamente. Se saía de casa, não o fazia por vontade própria, nem por confiança em sua própria habilidade, mas para obedecer a sua mãe.

192. 2º Amava e honrava sua mãe: por isso ficava em casa junto dela. Seu maior contentamento era vê-la; evitava tudo que pudesse desagradar-lhe e fazia tudo que imaginava agradar-lhe. Tudo isso concorria para aumentar em Rebeca o amor que dedicava ao filho.

193. 3º Em todas as coisas ele era submisso a sua mãe, obedecia-lhe inteiramente em tudo, com obediência pronta, sem tardanças, e amorosa, sem queixas; ao menor sinal da vontade materna, o pequeno Jacó corria e trabalhava. Acreditava piamente, sem discutir, em tudo que a mãe lhe dizia: por exemplo, quando Rebeca o mandou buscar os dois cabritos, e ele os trouxe a fim de ela os preparar para Isaac, Jacó não replicou nem observou que bastava um para satisfazer o apetite de um só homem, mas, sem discernir, fez exatamente como ela mandou.

194. 4º Ele depositava uma confiança sem limites em sua querida mãe; como não contava absolutamente com sua própria experiência, apoiava-se unicamente na proteção e nos desvelos maternos. Chamava por ela em todas as suas necessidades e consultava-a em todas as suas dúvidas: por exemplo, quando lhe perguntou se, em vez da bênção, não receberia a maldição de seu pai, creu e confiou na resposta que ela lhe deu de que tomaria sobre si a maldição.

195. 5º Ele imitava, enfim, na medida de sua capacidade, as virtudes que via em sua mãe; e parece que uma das razões por que ele permanecia em casa, tão sedentário, é que procurava imitar sua virtuosa mãe, e afastar-se de más companhias, que corrompem os costumes. Por tal motivo tornou-se digno de receber a dupla bênção de seu querido pai.

196. Eis também a conduta diária dos predestinados:
1º Vivem em casa, sedentáriamente, com sua mãe, quer dizer, amam o recolhimento, são interiores, e se aplicam à oração, mas conforme o exemplo e a companhia de sua Mãe, a Santíssima Virgem, cuja glória está toda no interior e que, durante a vida inteira, tanto amou o retiro e a oração. É verdade que aparecem às vezes fora, no mundo; fazem-no, porém, em obediência à vontade de Deus e de sua querida Mãe, para cumprir os deveres de seu estado.
Por grandes coisas que façam no exterior e que apareçam, preferem muito mais as que se fazem no interior, em companhia da Santíssima Virgem, porque aí executam a grande obra de sua perfeição, ao lado da qual todas as outras são como brinquedos de criança. Por isso, enquanto que seus irmãos e irmãs trabalham muitas vezes para o exterior com mais entusiasmo, habilidade e sucesso, recebendo os louros e aprovações do mundo, eles sabem, pela luz do Espírito Santo, que há muito mais glória, bem e prazer em permanecer oculto no reconhecimento com Jesus Cristo, seu modelo, numa submissão inteira e perfeita a sua Mãe, do que em realizar, por si próprio, maravilhas naturais e da graça no mundo, como tantos Esaús e réprobos. “Gloria et divitiae in domo eius” Sl 111, 3) – a glória para Deus e as riquezas para os homens encontram-se na casa de Maria.
Senhor Jesus, quão amáveis são vossos tabernáculos! O pardal encontrou uma casa para se alojar, e a rola, um ninho, onde abrigar seus filhotes. Oh! como é feliz o homem que mora na casa de Maria, na qual fizestes, primeiro, a vossa morada! É nesta casa de predestinados que ele de vós somente pede socorro, e em seu coração dispôs subidas e degraus de todas as virtudes, para elevar-se à perfeição neste vale de lágrimas. “Quam dilecta tabernacula...” (Sl 83).

197. 2º Eles amam ternamente e honram em verdade a Santíssima Virgem, como sua boa Mãe e Senhora. Amam-na não só com a boca, mas verdadeiramente; honram-na não só no exterior, mas no fundo do coração; evitam, como Jacó, tudo que pode desagradar-lhe, e praticam com fervor tudo que crêem poder adquirir-lhes sua benevolência. Trazem-lhe e lhe entregam não só dois cabritos como Jacó a Rebeca, mas seu corpo e sua alma, com tudo que do corpo e da alma depende, de que são figura os dois cabritos de Jacó, 1º para que ele os receba como um dom que lhe pertence; 2º para que os sacrifique e faça morrer ao pecado e a si próprios, escorchado-os e despojando-os da própria pele de seu amor-próprio, e para agradar, por este meio, a Jesus, seu filho, que não quer para amigos e discípulos, senão aqueles que estiverem mortos a si mesmos; 3º para que os prepare ao gosto do Pai celeste, e para servir à sua maior glória, que ela conhece melhor que nenhuma outra criatura; 4º para que, por seus cuidados e intercessões, este corpo e esta alma, purificados de toda mancha, bem mortos, bem despojados e bem preparados, sejam um manjar delicado, digno do paladar e da bênção do Pai celeste. Não é o que farão as pessoas predestinadas, que apreciarão e praticarão a consagração perfeita a Jesus Cristo pelas mãos de Maria, como lhes ensinamos, para testemunhar a Jesus e Maria um amor efetivo e corajoso?
Os réprobos dizem que amam a Jesus, que honram Maria, mas não com sua substância76, com os seus haveres, ao ponto de lhes sacrificar seu corpo com os sentidos, sua alma com todas as paixões, como fazem os predestinados.
76) Cf. Prov 3, 9: “Honora Dominum de tua substantia” – Honra o Senhor com os teus haveres.

198. 3º Eles são submissos e obedientes à Santíssima Virgem, como a sua boa Mãe a exemplo de Jesus Cristo, que, dos trinta e três anos que viveu sobre a terra, dedicou trinta a glorificar a Deus seu Pai, por uma perfeita e inteira submissão a sua Mãe Santíssima. A ela obedecem, seguindo com exatidão os seus conselhos, como o pequeno Jacó seguia os de sua mãe, que lhe diz: “Acquiesce consiliis meis” (Gn 27, 8) – Meu filho, segue meus conselhos; aos quais a Santíssima Virgem diz: “Quodcumque dixerit vobis facite” – Fazei tudo o que ele vos disser (Jo 2, 5). Por ter obedecido a sua mãe, Jacó recebeu a bênção, como por milagre, embora por direito natural não devesse recebê-la; porque os servos nas bodas de Cana seguiram o conselho da Santíssima Virgem, foram honrados com o primeiro milagre de Jesus Cristo, que nessa ocasião, a pedido de sua Mãe, converteu a água em vinho. Assim, todos aqueles que até ao fim dos séculos receberem a bênção do Pai celeste, e forem honrados com as maravilhas de Deus, só receberão estas graças em conseqüência de sua perfeita obediência a Maria; os Esaús, ao contrário, perderão sua bênção, por falta de submissão à Santíssima Virgem.

199. 4º Os predestinados têm uma grande confiança na bondade e no poder da Santíssima Virgem; reclamam sem cessar o seu socorro; olham-na como a estrela polar guiando-os a
seguro porto; comunicam-lhe, com o coração aberto, suas penas e suas necessidades; acolhem-se à sua misericórdia e doçura para, por sua intercessão, alcançar o perdão de seus pecados, ou para gozar de seus maternais carinhos em suas aflições e contrariedades. Atiram-se até, escondem-se e se perdem dum modo admirável em seu regaço amoroso e virginal, para aí ficarem abrasados de amor, para aí se purificarem das menores manchas, e para aí encontrarem plenamente a Jesus, que aí reside como no mais glorioso dos tronos. Oh! que felicidade! “Não creais, diz o abade Guerrrico, que seja maior felicidade habitar o seio de Abraão que o seio de Maria, pois neste colocou o Senhor o seu trono: Ne credideris maioris esse felicitatis habitare in sinu Abrahae quam in sinu Mariae, cum in eo Dominus possuerit thronum suum”.77
77) Sermo 1 in Assumptione, n. 4.
Os réprobos, ao contrário, põem toda a confiança em si próprios, só comem, como o filho pródigo, o que comem os porcos; como vermes, só se alimentam de terra; e porque amam somente as coisas visíveis e passageiras, como os mundanos, não apareciam as doçuras e suavidades do seio de Maria. Não sentem aquele apoio e aquela confiança que os predestinados sentem pela Santíssima Virgem, sua boa Mãe. Amam miseravelmente sua fome exterior, como diz São Gregório78, porque não querem provar a suavidade que está preparada no próprio íntimo deles e no íntimo de Jesus e de Maria.
78) “Amamus foris miseri famem nostram” (Homil. 36 in Evangel.).

200. 5º Finalmente, os predestinados mantêm-se nos caminhos da Santíssima Virgem, isto é, imitam-na, e nisto eles são verdadeiramente felizes e devotos, trazendo assim o sinal infalível de sua predestinação. Esta boa Mãe lhes diz: “Beati qui custodiunt vias meas” (Prov 8, 32) – Bem-aventurados os que praticam minhas virtudes, e caminham sobre as pegadas de minha vida, com o socorro da divina graça. Eles são felizes neste mundo, durante sua vida, devido à abundância de graças e de doçuras que eu lhes comunico de minha plenitude e com muito mais abundância que aos outros que não me imitam tão esforçadamente; eles são felizes em sua morte, que é doce e tranqüila, e na qual eu os assisto, para os conduzir às alegrias da eternidade; serão finalmente, felizes na eternidade, porque jamais se perdeu algum dos meus servos, que durante a vida tenha imitado fielmente as minhas virtudes.
Os réprobos, ao contrário, são infelizes durante a vida, em sua morte e na eternidade, porque não imitam a Santíssima Virgem em suas virtudes, contentando-se com pertencer a alguma de suas confrarias, com recitar uma ou outra oração em sua honra ou fazer qualquer devoção exterior.
Ó Virgem Santíssima, minha boa Mãe, quão felizes são aqueles – eu o repito com transportes de coração – quão felizes são aqueles que, sem se deixar seduzir por uma falsa devoção, guardam fielmente vossos caminhos, vossos conselhos e vossas ordens! Quão infelizes, porém, e malditos, aqueles que, abusando de vossa devoção, não guardam os mandamentos de vosso Filho! “Maledicti omnes qui declinant a mandatis tuis” – Malditos os que se afastam de teus mandamentos (Sl 118, 21).

Confessai-vos Bem - Padre Luiz Chiavarino

Terno pai

D. — E agora, diga-me Padre: ao ouvir certos pecados, será que o confessor não se
surpreende, não fica ofendido, não perde a estima... não nega a absolvição?
M. — Mas como é que ele deve ficar surpreendido? Qualquer que seja o
confessor, ele já conhece o mundo. Os mesmos pecados que você cometeu, ele já os
ouviu mil vezes; por mais que você lhe diga, não lhe dirá nada de novo. Além disso, ele
está ali para ouvir misérias e não para ouvir milagres. Nem se ofende se você lhe disser
coisas graves, porque, com os pecados, não foi ele que você ofendeu; pelo contrário, como
um terno pai, ficará mais comovido, terá mais compaixão de você; alegrar-se-á, pensando
que, perdoando muito, aumentará a alegria e a glória de Deus. Será que os pescadores se
sentem ofendidos quando puxam na rede peixes enormes?
D. — Nunca, pelo contrário, ficam satisfeitíssimos .
M. — Pois bem, o mesmo acontece com o Confessor. Ouça o que lhe vou contar:
Um dia, um pecador que tinha culpas bem graves foi confessar-se com S. Luiz
Bertrano. Apesar de intensamente arrependido, tinha ainda muito medo e muita vergonha,
por isso a cada pecado deitava uma olhadela para o confessor para ver qual a impressão que
causavam as suas culpas.
Tendo observado que o Santo não mostrava nem um sinal de espanto, criou coragem
e confessou até os pecados mais feios e enormes, e então, muito admirado viu passar pelos
lábios do Santo um sorriso muito doce. Como o Padre lhe perguntasse se ainda tinha mais
coisa a dizer, respondeu tristonho:
— Padre; ainda tenho mais uma coisa a dizer, mas me falta a coragem...
— Como é que não ousas, se já disseste tantas e com tamanha bravura?
— Porque cometi essa falta neste momento.
— Tanto melhor; assim ela será morta agora mesmo, enquanto está fresca.
— Mas, Padre, eu a cometi contra o Senhor...
— Contra mim? Pois bem, quê importa? Se eu devo perdoar os pecados cometidos
contra Deus, por que, não perdoarei um pecado contra mim?
— Padre, quando eu estava confessando aqueles pecados enormes o vi sorrir e disse
comigo mesmo "Este certamente ainda os cometeu maiores do que eu..."
A estas palavras, São Luiz Bertrano respondeu sorrindo:
— Não, por graça de Deus, não cometi esses graves pecados, apesar de ter podido
cometê-los se o Senhor não me tivesse ajudado. Sabes por quê eu sorria?
A confissão é o principal meio de santificação
Porque à medida que dolorosa e sinceramente, confessavas as tuas culpas, eu via
afastar-se de ti o demônio e entrar em ti a graça de Deus.
Eis aqui meu caro, quais são os sentimentos do confessor. Ele não repara nos pecados
mas nas disposições e na coragem do penitente.
Quando eu ainda não era sacerdote, não podia convencer-me disso: mas tive depois
cem mil provas desta realidade, na prática do ministério. É justamente por isso que, nos meus
sermões, falo com freqüência na sinceridade da confissão, e sempre falarei com muito
prazer. Oh! quantos corações eu já consegui consolar com este meio e quantas vezes eu
mesmo me senti cheio de consolações.
D. — E o confessor não perderá a estima que tem pelo penitente?
M. — Aumenta-a pelo contrário, pensando no esforço feito para se confessar bem,
pensando na boa vontade que tem de se emendar, pensando que Jesus o encherá de favores e
de graças. O confessor é como o médico. Como um bom médico que tem predileção pelos
doentes mais graves, assim é o Confessor.
Um dia, apresentou-se a São Francisco de Sales uma senhora que fez uma confissão
geral durante a qual confessou muitas misérias, depois da absolvição, antes de sair,
interrogou-o:
— E agora, Padre, o que pensa de mim?
— Penso que a senhora é uma santa.
— Desculpe, Padre, mas o senhor está caçoando comigo?
— Não, absolutamente não estou caçoando, penso que é uma santa desde que teve a
coragem e a graça de fazer uma confissão tão dolorosa e sincera.
O confessor, portanto, repito não perde a estima, aumenta-a pelo contrário, quanto
mais graves e numerosos são os pecados que se confessam e se perdoam, quanto mais
sincera e dolorosa é a confissão.
D. — Padre, nunca se nega a absolvição?
M. — Em casos raríssimos: isto é, quando o penitente não está mesmo disposto a
deixar o pecado, ou a ocasião próxima de pecar; quando não se está disposto a reparar na
medida do possível, os danos, o escândalo dado, ou quando tem intenções de continuar no
pecado. Em todos esses casos, a absolvição seria inútil, danosa mesmo, porque cometer-se-ia
um sacrilégio, confessor e penitente comprometer-se-iam ao mesmo tempo.
O Padre Fusignano conta que um senhor tinha um mau costume havia muito tempo, e
não obstante achava sempre algum confessor que o absolvia. Sua mulher chorava, rezava e
não deixava de fazer-lhe notar o seu péssimo estado. Mas ele sorrindo dizia-lhe: "Você é
bem louca para se aborrecer tanto por minha causa. Se fosse uma coisa assim tão má, o
confessor não me absolveria".
E assim continuou até à morte com a sua desonestidade. Mas, depois de morto,
apareceu à mulher, rodeado de chamas, nas costas de outro, também horrivelmente
atormentado e com gritos desesperados disse: "Estou condenado por não ter deixado a
ocasião de pecar e este que me carrega nas costas, é o meu confessor que me absolvia, apesar
de eu ser indigno".
D. — Coitados!... Em caso contrário, Padre, isto é, quando o penitente está
arrependido e tem boas disposições, o confessor absolve sempre?
M. — Sim, sempre absolve e perdoa, mesmo quando se trata de alguma culpa
enorme e gravíssima.
O muito douto teólogo francês João Gaume contava que um dos perversos que,
durante a revolução francesa, se tinha manchado com os mais terríveis crimes e mais de uma
vez tinha feito correr sangue dos sacerdotes, tinha caído gravemente enfermo. Esse homem
tinha jurado que nenhum sacerdote teria posto os pés no seu quarto e que, se entrasse, dali
não sairia. Tendo-se agravado a doença, um bom padre ofereceu a vida, contanto que
pudesse salvar o infeliz. Ao vê-lo, o homem encolerizou-se e, juntando todas as forças
gritou:
— O quê? Um sacerdote na minha casa? As minhas armas, depressa!
— O quê quer fazer com elas? perguntou-lhe com muita doçura o sacerdote.
— Quero matar-te, tu que ousas aparecer na minha frente! Não sabes que com estas
mãos já degolei doze padres?
— Engana-se, ,meu irmão; para esse número ainda falta um; o décimo segundo não
morreu; o décimo segundo sou eu. Deus conservou-me a vida para que eu o salvasse.
— Para salvar-me? E quem poderá salvar-me depois de tantos crimes?
— O seu arrependimento e a minha absolvição.
Mas o senhor ainda não sabe de tudo; se eu lhe contasse tudo o senhor me
amaldiçoaria.
— Amaldiçoá-lo?! absolutamente nunca!
— E o senhor ainda me dará a absolvição?
— Sim, porque Jesus Cristo assim o quer.
E, muito caridosamente, começou a instruí-lo e a prepará-lo para uma boa morte.
D. — Que heróico e santo Sacerdote! Mas será que todos os confessores são assim?
M. — Sim, todos eles são assim porque todos representam Jesus Cristo, que ordenou
que perdoássemos sempre.
D. — Pois então, se o confessor absolve sempre, não devemos ter medo, não é
mesmo?
M. — Não, nada de medo, nunca! Ele é sempre um pai carinhoso.
Francisco Renato, visconde de Chateaubriand, celebérrimo escritor francês, escreve
nas suas "Memórias de Além-túmulo": "Aproximava-se a época da minha primeira
Comunhão. (Na França fazia-se naquele tempo a primeira Comunhão aos quatorze anos). A
minha piedade parecia sincera; eu edificava todos os meus companheiros. Tinha eu um
confessor de aspecto um tanto rígido; cada vez que me apresentava ao tribunal da Penitência,
ele me interrogava com ansiedade surpreendido com a insignificância das minhas culpas, não
sabia explicar o meu embaraço diante da pouca importância dos segredos que eu lhe
confiava. Quanto mais perto íamos chegando da Páscoa, mais insistentes se tornavam as suas
perguntas. "Você não esconde nada?", perguntava ele. E eu respondia: "Não, Padre..."
— Você não cometeu este ou aquele pecado?
— Não, Padre... e sempre' "Não, Padre".
Ele me dispensava duvidoso, suspirando, procurando ler no fundo da minha alma, e
eu voltava do confessionário pálido e desfigurado como um culpado. Escondia pecados.
Chegou a tarde de quarta-feira santa, véspera da Comunhão Pascoal. Chegando à
igreja, prostrei-me diante do altar e ali fiquei como se estivesse aniquilado. Quando me
levantei para ir à Sacristia, onde o Confessor me esperava, meus joelhos tremiam, atirei-me
aos pés do Sacerdote, e, com a voz mais alterada do que nunca, fiz a confissão de sempre.
— Você não se esqueceu de nada? perguntou-me o Ministro de Deus.
Eu calei-me. Às suas perguntas recomeçaram e o fatal "Não, Padre" saiu de novo dos
meus lábios. Ele recolheu-se, rezou, e, fazendo um esforço, preparou-se para dar-me a
absolvição. Se naquele instante um raio tivesse caído em cima de mim o meu pavor teria sido
menor e eu gritei:
— Eu não disse tudo!
Aquele juiz tão temido, aquele Ministro de Deus cujo rosto me inspirava tanto temor,
tornou-se o pai mais carinhoso, abraçou-me chorando, e:
— Coragem, meu filho, tenha coragem! Um momento como aquele, nunca mais
viverei. Eu chorava de alegria, depois da primeira palavra, o resto não me custou mais
esforço algum. O sacerdote, erguendo a mão pronunciou as palavras da absolvição. Esta
segunda vez, a sua mão fez descer sobre a minha cabeça o orvalho celeste e abaixei a fronte
para recebê-la. Eu participava da felicidade dos anjos.
No dia seguinte, quando a Hóstia Santa pousou nos meus lábios, senti-me iluminado
por uma luz vivíssima.
“Senti então em mim a coragem dos mártires, naquele instante, eu teria sido capaz de
confessar a minha fé em Cristo sobre o acúleo ou no meio dos leões...”
Eis aí, meu filho, quem é o Confessor, na opinião dos maiores entre os grandes
homens. Ele é sempre, repito, "o pai mais carinhoso".

24 de fevereiro de 2015

Essência do Santo Sacrifício da Missa - Explicação da Santa Missa 7

VII. NA SANTA MISSA, JESUS CRISTO RENOVA A SUA ORAÇÃO

"Temos, por advogado, junto ao Pai, Jesus Cristo, que é justo e santo; porque é a vítima de propalação por nossos pecados" (I Jo., 2, 1).
De certo é consoladora garantia de nossa Salvação, termos por advogado o próprio Filho de Deus, o Juiz dos vivos e dos mortos! Mas onde e quando Jesus Cristo desempenhou este ofício?
A Igreja ensina ser Ele nosso advogado não somente no céu, mas também na terra.
Eis a doutrina de Suarez: "Cada vez que o santo Sacrifício da Missa é oferecido, Jesus Cristo intercede por quem o oferece e também pelas pessoas em cuja intenção é oferecido" (Tom. 3, disp. 79, sect. 21).
S. Lourenço Justiniano descreve assim a maneira de orar de Nosso Senhor: "Enquanto o Cristo é imolado sobre o altar, clama a seu Pai e mostra-lhe suas chagas para preservar os homens da condenação eterna".
Este zelo do Sagrado Coração pela nossa salvação foi indicado por Lucas: "Jesus subiu ao monte para fazer oração, onde passou a noite, orando a Deus".
E noutro lugar: "De dia, ensinava no templo, e de noite, retirava-se à montanha, chamada das Oliveiras". Ou então: "Foi segundo seu costume, ao monte das Oliveiras, para nele orar".
Isto diz, claramente, que Jesus tinha o costume de passar a noite em oração. Durante sua peregrinação, cada um de seus atos era acompanhado da oração; no término desta santa vida, o adeus aos discípulos foi a oração suprema do Sumo Sacerdote por excelência; suspenso na Cruz, orava por seus inimigos e, quando chegou o momento de voltar ao Pai celeste, levantou a mão sobre os discípulos, em uma última bênção, e subiu ao céu, onde seu Coração continua a interceder pelo gênero humano.
Ora, na santa Missa, Jesus dirige a seu Pai todas estas orações reunidas; mostra-Lhe as lágrimas, os gemidos que as acompanharam; enumera as noites passadas em jejum e oração; oferece todos esses méritos pela salvação do mundo, particularmente por cada um dos que assistem à Missa. Ó Deus, que eficaz oração! Como o perfume do incenso, eleva-se para o Pai celeste, para o trono da Santíssima Trindade! Jesus Cristo não ora somente, imola-se também pela salvação do mundo.
Santa Gertrudes explica este mistério do seguinte modo: "Vi, na elevação, Nosso Senhor erguer, com as próprias mãos e sob a forma de um cálice, o dulcíssimo Coração que apresentou a seu Pai. Imolou-se então em favor de sua Igreja, de maneira incompreensível à criatura". Jesus isto confirmou, quando disse a Santa Matilde: "Eu somente sei e compreendo, perfeitamente, como me ofereço cada dia a meu Pai pela salvação dos fiéis; nem os Querubins nem os Serafins nem as Potestades podem concebe-lo inteiramente".
Notai que Nosso Senhor não se oferece na santa Missa com a majestade que tem no céu, porém em uma incomparável humilhação. Do abismo de sua humildade, a voz eleva-se-lhe tão poderosa para o céu que traspassa as nuvens e atinge o trono da misericórdia.
Quando o rei de Nínive teve conhecimento dos castigos que ameaçavam a cidade no prazo de quarenta dias, levantou-se do trono, despiu as vestes reais, cobriu-se de roupas de luto, deitou cinza sobre a cabeça e pediu a todo o povo que implorasse a misericórdia divina.
Por esta humildade e esta penitência, o rei pagão obteve perdão para si e para a cidade culpada.
Que não obterá Jesus Cristo, que se humilha muito mais na santa Missa, em que, deixando o trono de sua glória, reveste as pobres aparências do pão e do vinho e clama ao Deus de misericórdia: "Graça e perdão para meu povo! Meu Pai, considera minha abjeção; eis-me aqui diante de Vós, não como um homem, mas semelhante a um verme da terra. Os pecadores levantam-se contra Vós cheios de orgulho. Eu me humilho em Vossa presença. Eles Vos irritam, eu, por meu aniquilamento, quero aplacar-Vos. Eles clamam sobre si Vossa justa vingança, eu quero desvia-La por minhas instantes súplicas. Tende piedade deles por amor de mim, meu Pai, e não os castigueis à medida de suas iniqüidades. Não os entregueis a Satanás, porque são meus, resgatei-os com o preço de meu Sangue. E, Pai Santíssimo, imploro, sobretudo, a Vossa misericórdia em favor dos pecadores aqui presentes, pelos quais renovo, durante esta Missa, minha vida e minha morte. Dignai-Vos, em virtude de meu Sangue e de minha morte, preservá-los da morte eterna".
Oh Jesus, até onde vos arrasta o amor para conosco e por que meio poderíamos melhor corresponde-lo senão assistindo, cheios de piedade, à santa Missa?
Quando o divino Salvador se achou suspenso na Cruz, recomendou a seu Pai os fiéis que estavam no pé da árvore da Salvação e lhes aplicou, mui especialmente, os preciosos frutos. Do mesmo modo, ora pelos assistentes, principalmente pelos que recorrem à sua mediação. Ora por eles tão ardentemente, como o fez no momento de sua morte, pelos seus inimigos.
Oh poderosa oração! Quanto não fortifica a esperança da vida eterna, vermos o mesmo Filho de Deus tomar nas mãos os interesses de nossa salvação!
Se a Santíssima Virgem te aparecesse e dissesse: "Não temas, meu filho, prometo-te encarregar-me de teus interesses; pedirei, instantemente, a meu Filho, Jesus Cristo, e não cessarei de pedir até que Ele me assegure tua felicidade eterna", a tua alma não ficaria transportada de júbilo e não exclamaria: "Agora estou consolado, não tenho que duvidar, minha salvação está segura"?
Se temos, pois, uma tão grande confiança na intercessão de Maria Santíssima, por quê esta confiança não será absoluta, quando se trata da intercessão de seu divino Filho, que não promete somente o socorro, mas ora por nós em cada Missa que ouvimos, e faz, por assim dizer, violência à Justiça de Deus, para nos poupar o castigo merecido?
E não era somente. Com ele intercedem, como outras tantas vozes, suas lágrimas, suas chagas, seu sangue, todos os seus suspiros de amor. Quem poderá medir o efeito dessas súplicas sobre o coração do Pai celeste?
Muitas vezes te lastimas da falta de fervor em tuas orações. Na santa Missa, Jesus Cristo orará contigo e suprirá a imperfeição de tua oração. Escuta como convida a todos afetuosamente:
"Vinde a mim vós que sofreis e vos achais em tribulações" (Mt. 11, 28); isto é: vós todos que não podeis orar com ardor, vinde a mim e orarei por vós. Por quê, alma aflita e atribulada, não te rendes a este tão terno convite? Por que não corres à santa Missa?
Em tuas tribulações recorres a amigos para pedir-lhes uma oração. Que é, todavia, a oração dos homens comparada com a oração e intercessão de Jesus Cristo? Tua miséria é extrema, o perigo de tua condenação, iminente. Dize, pois, a Jesus: "Senhor, quem poderá salvar-se?" e Ele responder-te-á: "O que é impossível aos homens é fácil a Deus".
Recorre, pois, a este Deus Salvador que quer te assegurar uma morada na casa de seu Pai.
"Como?, talvez digas, um pobre indigente como eu, pode reclamar as orações do Filho de Deus? Sou indigno disso, e não o ousarei". - oh, não fales deste modo! Convence-te que um só de teus suspiros te dá todo o poder sobre seu Coração. São Paulo o afirma: "O pontífice que temos, não é tal que não possa compadecer-se de nossas fraquezas, porque todo o pontífice é tomado dentre os homens e é estabelecido para os homens no que diz respeito ao culto de Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados".
Jesus Cristo é pontífice, exerce o sacerdócio na santa Missa, sua missão é, portanto, orar pelo povo e oferecer o sacrifício por ele; e não se desobriga desta missão por todos em geral, mas por cada um em particular; assim como sofreu por todos e por cada um, assim se interessa por cada alma de tal sorte, como se fosse a única a salvar.
Eis o zelo, o poder da oração de Jesus no santo altar. Juntemos-lhe nossas pobres súplicas e elas se tornarão excelentes. "As orações feitas em união com o Santo Sacrifício da Missa, disse o bispo Fornero de Hebron, são mais poderosas que todas as outras, mesmo do que as que duram longas horas, e até as orações extáticas, por causa da paixão e morte do Senhor que lhe manifestam a eficácia na santa Missa, por uma admirável efusão de graças. Porque, como a cabeça ultrapassa, em dignidade, todas as outras partes do corpo, assim a oração de Jesus Cristo, que é nossa cabeça, ultrapassa as orações de todos os cristãos, que são os membros de seu corpo místico.
Uma moeda de cobre torna-se preciosa, se é lançada no ouro em fusão; a pobre oração do homem, unida à de seu Salvador, adquire um caráter de alta nobreza e pode ser ofertada como um dom agradável à divina Majestade. Deste modo, uma oração menos fervorosa, oferecida na Missa, vale mais que uma oração fervorosa feita em casa.

Muitos se prejudicam os que, podendo assistir à santa Missa e, durante esta, ocupar-se com os exercícios de piedade que costumam fazer em casa, se afastam do santo Sacrifício. Porque, se fizessem as orações durante a santa Missa com a intenção de assisti-la e somente durante os momentos da consagração interrompessem as orações, a fim de adorar o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor, ganhariam graças e méritos muito maiores do que se rezam em seu oratório particular.

Confessai-vos Bem - Padre Luiz Chiavarino

Deus perdoa sempre

D. — Porém, se alguém reconhece a tempo as suas faltas e se confessa bem, Deus
perdoa sempre não é verdade, Padre?
M. — Sim, Deus perdoa sempre a quem volta arrependido. Você se lembra da
parábola do "Filho pródigo?"
D. — Ouvi-a mais de cem vezes e acho-a sempre lindíssima e. muito consoladora.
Conte-ma, Padre.
M. — O infeliz rapaz foge de casa, gasta todos os seus bens em excessos. Reduzido à
miséria extrema é obrigado a ser guardião de porcos, e reparte com os animais imundos os
restos de comida, para não morrer de fome. Por fim cansado de uma vida tão mesquinha,
cheio de remorso, resolve voltar para junto do pai. Vence a vergonha e decidido exclama:
"Surgam, et ibo ad patrem meus. — Erguer-me-ei irei para junto de meu pai". De fato volta,
e assim que chega atira-se aos pés do pai implorando: Pai, perdão, porque pequei.
O pobre pai, que desde o triste dia em que o filho partira, não tinha conhecido nem
paz nem sossego, não o repele: abre-lhe os braços, ergue-o, aperta-o contra o peito, beija-lhe
a fronte, cobre-o com o próprio manto para que ninguém o veja naquele estado. Ordena aos
servos: Corram, tragam as roupas mais belas para que eu vista de novo o meu filho; tragam
os anéis de ouro e os colares preciosos para que eu o enfeite. E vocês, diz a outros, matem a
vitela mais gorda e preparem um grande jantar. Convidem parentes e amigos, chamem
também os músicos; quero uma grande festa, porque meu filho que estava perdido voltou!
Poucas horas depois, já cada coisa está em ordem: cheia a sala, postas as mesas. O filho que,
pouco antes causava dó, aparece todo enfeitado, radiante de alegria, ao lado do pai. E,
sentado no lugar de honra, torna-se o "rei da festa".
Você sabe quem é ele? É o pobre pecador, e seu pai é Jesus. Cada vez que o mais
infeliz pecador atira-se aos pés de Jesus e diz, arrependido: "Padre, perdoai-me porque
pequei" a mesma cena se repete. O confessor, que representa Jesus, ergue o infeliz; aperta-o
nos braços, dá-lhe o beijo do perdão, reveste-o da graça santificante, adorna-o com seus
conselhos, leva-o ao casamento de Jesus que é a Comunhão. Assim, o coitado que, poucos
minutos antes, era escravo do demônio e presa do inferno, torna-se o rei da festa porque,
como você sabe, Jesus mesmo disse: "Há mais regozijo no céu por um pecador que se
converte do que por noventa e nove justas que já vivem na graça de Deus!"
D. - Bendita seja a Confissão! Ela é realmente o sacramento do perdão e do consolo.
Mas por que nem todos se confessam?
"Bendita seja a confissão!
Ela é realmente o sacramento do perdão e do consolo."
M. — Porque não conhecem, não amam Jesus suficientemente. Ah! Se todos
pudessem vê-lo como O viu e ouviu aquela mulher do Evangelho...
D. — A pobre adúltera, não é? Conte, Padre, esse também é um fato consolador.
M. — Um dia, foi apresentada a Jesus uma mulher surpreendida em adultério para
que Ele a condenasse, segundo a lei, a ser lapidada. Ele, vendo-a toda envergonhada,
abaixou-se e começou a escrever na poeira palavras misteriosas, e, ao mesmo tempo que Ele
escrevia, os acusadores se retiravam confusos e cabisbaixos. Quando todos já se tinham ido,
Jesus levantou-se, e virando-se para a mulher pecadora, disse-lhe:
— Ninguém te condenou?
— Ninguém, respondeu a mulher, tremendo.
— Pois bem, nem eu tão pouco te condenarei: vai em paz e não peques mais.
Eis aí meu caro, a vontade de Jesus: não condenar, mas perdoar; e, mesmo que todo o
mundo nos condenasse, Ele nos absolveria, satisfeito se não tornarmos a pecar.
D. — Mas, Padre, Ele era Jesus, ou seja, Deus; mas estará o Confessor sempre
disposto a perdoar?
M. — Sim, o Confessor perdoa sempre, mesmo que se trate de qualquer falta enorme,
porque ele representa Jesus. Ouve o que nos conta um dos maiores oradores franceses,
Monsabré.
Lá pelo fim da terrível Revolução, que causou tantas vítimas e derramou tanto sangue
inocente, um velho miserável, tão pobre quanto tinha sido mau, estava moribundo, num
imundo sótão de Paris. Acode à sua cabeceira um jovem sacerdote: êle o recebe com
grande temor, e, depois de angustiosos suspiros, começa a contar:
— Ouví-me, Padre, e Deus queira que possais não me amaldiçoar. Eu era criado
de uma família nobre, que me enchera de benefícios. Quando chegaram os dias terríveis
da Revolução, o meu coração ingrato correspondeu-lhes com a mais monstruosa traição.
Combinando com os revolucionários, revelei-lhes o esconderijo dos meus patrões,
acompanhei-os ao patíbulo e apoderei-me dos seus haveres, que esbanjei em pagodes. Ah,
Padre, eu sou um monstro. Veja-os, veja-os; são os meus patrões, tão amáveis, tão
bondosos... e, enquanto falava abriu um estojo que continha os retratos dos antigos amos.
Horror! O sacerdote reconheceu naqueles retratos seu pai e sua mãe...
Então a cena foi espantosa. O ministro de Deus, rijo, pálido, trêmulo, olhava
chorando para o assassino de sua família. O moribundo como um espectro, erguia-se na
cama, e mostrando o peito nú e descarnado, gritava: "Vingai-vos, vingai-vos!..
Mas o zeloso sacerdote lembrou-se de que, naquele momento, tão trágico para
ele, não era mais um homem, mas o representante de Jesus Cristo. Caindo em cima do
assassino, pôs-lhe o Crucifixo sôbre os lábios para sufocar os gritos de desespêro e:
— "Meu amigo, meu filho, meu irmão, disse, enganas-te. Eu sou Jesus Cristo, e
Jesus Cristo perdoa".
E, sempre abraçando o pecador, absolve-o e consola-o, e o mendigo morre
perdoado e abençoado nos braços daquele cuja vida envenenara.
D. — Padre, depois de ouvir êsses fatos, será que alguém ainda teme manifestar os
seus pecados ao confessor? Oh! a Confissão é realmente o sacramento do perdão e das
consolações. Eu gostaria de ter mil línguas para gritar para o mundo inteiro:
experimentem e vejam o quanto Jesus é bom.
M. — Portanto, nada de mêdo, nada de vergonha; confessem-se sempre bem não só
para fugir do inferno, mas também para ter nesta vida consolações e paz, porque de uma
boa confissão pode depender todo o nosso futuro.
A beata Ângela Foligno tinha cometido, na juventude, certas faltas que não tinha
ousado confessar. Continuou assim por muito tempo, mas como o remorso da consciência
não a deixava tranquila nem de dia nem de noite, depois de ter rezado muito, resolveu
fazer finalmente com coragem, uma confissão sincera de todos os pecados e sacrilégios.
A acusação franca proporcionou-lhe a maior glória, porque além da paz e da alegria
do coração, teve a fôrça de se tornar santa. Há mais de seiscentos anos que honrada pela
Igreja e pelo mundo inteiro com o título do Beata.
A Venerável Maria Fornari, romana, conta que, quando criança, teve a
infelicidade de cometer algumas faltas contra a modéstia. Assim que lhes percebeu a
gravidade, absteve-se delas, mas, por vergonha, nunca ousou confessá-las e assim foi
ajuntando sacrilégios a sacrilégios. Vivendo sempre com o coração angustiado, resolveu
tornar-se freira. Entrou no convento de Lodi, na Úmbria: fez a vestição, fez a profissão
religiosa, porém sempre com o inferno no coração. Que miseráveis e angustiosos eram
seus dias! Finalmente durante a novena da Assunção sentiu no coração um desejo muito
grande de pedir a Maria Santíssima a graça tantas vêzes implorada inútilmente. Fêz o
pedido com tanto ardor, que, no mesmo instante, sentiu uma fôrça tão grande que pôde
manifestar as suas culpas, não só ao Confessor, mas a tôda Comunidade.
Reparou tudo com uma confissão geral, e começou a viver uma vida tão santa que
mereceu a honra de ser elevada ao altar.
Por aí você vê meu caro, que, mediante a Confissão, Jesus não só perdoa, mas nos
dá a possibilidade de nos tornarmos santos. É por isso que, muito acertadamente, os
teólogos dizem que a confissão é o principal meio de santificação .
D. — Oh, Padre, reze por mim, afim de que eu possa aproveitar da Confissão.

23 de fevereiro de 2015

Confessai-vos Bem - Padre Luiz Chiavarino

As terríveis conseqüências do pecado

D. — Padre, o senhor disse também que a desonestidade é o pecado que traz
conseqüências horríveis?
M. — Infelizmente assim é! As desonestidades tiram as forças de qualquer obra
generosa. Sansão, o mais forte dos homens, porque Deus o dotara de uma força
extraordinária, deu-se a um amor impuro e tornou-se o joguete de Dalila, companheira dos
seus pecados; por três vezes ela o traiu e o vendeu aos seus inimigos.
As desonestidades idiotizam a mente. Salomão, o mais sábio de todos os reis, perdese
junto das mulheres amalecitas e, abandonando o seu Deus, dá-se à idolatria.
As desonestidades viciam o coração de Henrique VIII, o mais cristão dos reis, tendose
apaixonado por Ana Bolena, repudia a rainha sua esposa, abandona a Igreja Católica, faz
da Inglaterra uma nação protestante, e morre excomungado pelo Papa.
As desonestidades fazem perder a fé. Se grande número de cristão não crêem, não
têm fé, é por causa das desonestidades. De fato quando é que a juventude começa a deixar a
oração, a desertar a Igreja, a abandonar os Sacramentos? Justamente quando começa a
freqüentar as más companhias, quando se junta às más conversas, às impurezas. Não faz
muito tempo, encontrei-me com um médico meu conhecido e o repreendi docemente porque
não praticava a religião. “Faça com que eu me case, respondeu, e tornarei a ser católico
praticante”. E o que me confessava era verdade: se não tinha fé era por causa das
desonestidades.
As desonestidades são a causa dos crimes mais hediondos. As desonestidades
estragam a saúde, diminuem as forças, encurtam a vida. A existência de tantos moços fracos,
de tantas doenças, de tantas velhices precoces, a multiplicação de hospitais para os débeis,
para os raquíticos, para os dementes, para os abandonados, aí estão para atestar quantos
danos causam as desonestidades, mesmo à saúde.
Na América do Sul e na Guiana existe um animal chamado vampiro, que suga o
sangue dos homens enquanto estão adormecidos, e quando está satisfeito, foge, deixando a
veia aberta, o que frequentemente causa a morte. Pois bem, as desonestidades sugam o
sangue, diminuem as forças, gastam a vida de quem se torna escravo delas. A desonestidade
é parecida com a chama de uma vela; ou bem apagamos a chama, isto é desistimos do vício,
ou bem acabamos a vela, isto é extinguimos a própria vida. Mas quantos há que não querem
acreditar e perdem a juventude, perdem a saúde, a alegria e a paz para ir ao encontro de uma
morte precoce e desonrosa! Pensam que vão colher e gozar o perfume das rosas, quando, na
verdade não traem senão espinhos venenosos.
E, por falar em rosas, ouça um fato histórico que agora vem ao caso.
Heliogábalo, imperador romano, suspeitando de uma traição dos seus generais e
cortesãos, pensou em preveni-los e puni-los de um modo terrível. Feito no maior segredo os
preparativos, convidou-os todos para um suntuoso banquete. Ao fim da festa, quando mais
expansiva é a alegria, quando as músicas tocam as notas mais alegres, eis que surge a grande
surpresa!... Abre-se o teto da grande sala, o, do alto começa cair uma chuva, leve, de rosas
lindas, frescas e perfumadas. Diante dessa novidade o prazer chega ao auge, transforma-se
em delírio; todos se levantam gritando: "Viva Heliogábalo! Viva o imperador!" E deliciam-se
com as rosas: pegam-nas e adornam-se com elas: as palmas e os vivas multiplicam-se.
Enquanto isso, o imperador sai sem ser visto. Abrem-se hermeticamente as portas e a
chuva continua, aumenta, torna-se copiosa, tão forte que chega a cobrir as mesas e os
convivas perdem os sentidos por causa do perfume asfixiante. Procuram uma saída, mas as
portas estão fechadas e as janelas altíssimas protegidas por grades de ferro. Tarde demais
descobrem o engano, e morrem todos sufocados pelo perfume e o peso daquelas rosas
belíssimas.
D. — Padre, é essa a triste história daqueles que se dão aos prazeres da impureza?
M. — Precisamente! Infeliz da juventude que, enganada pelo perfume lascivo e
sedutor de tais rosas, passa os anos mais belos gritando: amor, amor. O amor, ou seja, o
vício, transformar-se-á bem cedo em veneno que castiga terrivelmente.
Eu mesmo conheci um jovem forte e sadio, bem disposto, que, dando-se a esse vício
aos 17 anos, morreu de uma morte raivosa e convulsa, que despertou pavor em todos os que
rodeavam. O seu cadáver tomou um aspecto tão disforme, a sua fisionomia tornou-se tão
horrenda, que os próprios parentes não tinham coragem de fita-lo; os poucos que puderam
entrar no quarto afirmaram nunca terem visto uma coisa tão assustadora e horrorosa.
Um outro rapaz, que pecava por desonestidade, morreu, e do seu corpo,
horrivelmente inchado, emanava um mal cheiro tal que foram obrigados a tirá-lo da casa
antes do tempo. Nem os companheiros mais corajosos conseguiram levá-lo ao cemitério por
causa do cheiro nauseabundo, e foi preciso carregá-lo numa carroça puxada por um jumento.
O quarto onde morreu teve que ser desinfetado por muitas vezes antes que se pudesse tornar
habitável.
Conta-se também o caso de uma moça habituada a atos impuros, que, depois de uma
morte aparentemente cristã, foi vestida de branco pela mãe e pelas irmãs. Enfeitaram-na com
flores e estenderam-na na cama com um crucifixo nas mãos, a fim de que, segundo o
costume, as amigas pudessem vê-la pela última vez e orar por ela.
Mas oh, prodígio! O Crucifixo saiu do lugar, e, por mais que o tornassem a pôr nas
mãos da morta, por mais que procurassem fazê-lo parar, tudo foi inútil: achavam-no sempre
jogado na cama. Jesus não queria ficar naquelas mãos que tinham servido para o pecado.
D. — O Senhor conta coisas cada vez mais horripilantes! Mas então não haverá
mesmo saída para quem teve a infelicidade de enveredar por asse caminho?
M. — Sim, há um modo de reconhecer suas faltas e emendar-se e isto consiste em:
1.° — Uma vontade firme.
2.° — Eliminar e afugentar as ocasiões.
3.° — Praticar os Sacramentos.É sobretudo numa vontade firme que isto consiste.
Santo Agostinho levou uma vida de libertino até aos trinta anos, mas quando abriu os
olhos, sentiu tamanha vergonha que se converteu, abandonou os prazeres e as loucuras da
mocidade, se tornou sacerdote, bispo, Santo, e célebre doutor da Igreja.
O mesmo aconteceu a Santo Inácio de Loiola, que com trinta anos se aborreceu da
vida até então tida: e com uma vontade resoluta foi correndo bater à porta de um convento,
onde fez duras penitências; lavou as culpas passadas, e fundou a Ordem dos Jesuítas, de
quem é glória e orgulho.
São Camilo de Lelis, da nobre família dos “Abbruzzi” muito jovem também se
entrega aos divertimentos e aos prazeres mundanos, mas aos vinte e cinco anos toma o hábito
e consagra a Deus e a Maria Santíssima a sua vida, em favor dos doentes e dos moribundos.
O quê diremos então de uma Madalena Penitente? de uma Pelágia, de uma Santa
Margarida de Cortona, que de vasos de corrupção e de escândalo, transformaram-se em lírios
celestes? A vontade resoluta foi suficiente para salvá-las.
Em segundo lugar, eliminar e afugentar as ocasiões. Aqui também os Santos nos
ensinam. Santo Tomás de Aquino, jovem elegante de família nobre, é fechado numa torre e ali
é tentado por uma mulher infame. Não tendo outro meio de se livrar dela, pega no fogão um
tição ardente e brandindo-o grita: “Saia, saia, ou eu a queimo”, consegue assim a fuga da
tentadora sem escrúpulos.
São Francisco de Sales era também nobre e elegante. Quando aos dezoito anos
estudava em Pádua, certa ocasião, uma moça dessas não muito sérias, aventurou-se a abraçálo
maliciosamente. Quê fez então? Cuspiu na cara da impudica, dizendo-lhe: "Afasta-te
missionária de Satanás".
O moço Dióscoro, depois de vencer todas as insídias dos inimigos de sua fé, foi
amarrado numa cama de rosas, na impossibilidade completa de se livrar de quem o queria
induzir a pecar. Recomendou-se a Deus, e, cortando a língua com os dentes, cuspiu no rosto
da tentadora miserável que borrifada pelo sangue de um mártir, fugiu horrorizada, chorou e
se converteu.
D. — Mas todos esses, Padre, eram Santos!...
M. — Naquele tempo ainda não o eram; tornaram-se santos depois de agirem como
agiram. Todavia mesmo sem ser santos podemos e devemos ser corajosos: basta ser cristão:
Ouve isto:
Uma jovem que eu conheço, devolveu, em envelope fechado um cartão a um soldado
libertino, dizendo-lhe: “Isso é indigno de mim como cristã e indigno de ti, como soldado”.
Outra moça, em resposta a certas cartas libertinas do noivo, escreveu-lhe: “Nunca me casarei
com um homem desonesto! Desde hoje, está tudo acabado entre nós dois”.
O amor, ou seja, o vício, transformar-se-á bem cedo
em veneno que castiga terrivelmente.
Não fez muito tempo que, em Turim, no aperto da plataforma de um bonde, um
“almofadinha”, lascivo tomou certas liberdades com uma mocinha direita. A moça virou-se
desdenhosa e, sem mais, aplicou-lhe no rosto uma valente bofetada, dizendo bem alto:
Deseja saber a razão disso?
— Muito obrigado, não é preciso, responde o desastrado que desceu apressado, com
o lenço no nariz.
D. — Muito bem! Essa moça merece uma medalha!
M. — Uma medalha igual merece esta, que eu também conheço:
Certa ocasião, um sujeito sem educação sussurrou-lhe no ouvido não sei qual
trivialidade. Sem perda de tempo, a moça deu-lhe dois bofetões sonoros, acrescentando:
“Estarei sempre pronta para repeti-los”.
D. — Muitíssimo bem feito! Se todas se comportassem assim ficariam logo livres
dos zangões, não é, Padre?
M. — Isso mesmo! E os que não são zangões ficariam livres dos pernilongos, ou
seja, de certas moças sem pudor.
Do ócio também devemos fugir. Ai dos ociosos: é justamente nos momentos de ócio
que o demônio impuro intensifica os seus assaltos e aumenta suas vítimas.
D. — Então o demônio também tem que ser tratado com cuspidas e bofetões?
M. — Justamente! E em terceiro lugar, para  poder-mo-nos  livrar das impurezas, é
necessária a “freqüência dos sacramentos”: a confissão semanal, cada duas semanas ou pelo
menos mensal e a Comunhão o mais freqüente possível.
Nos Sacramentos o demônio impuro é desmascarado e vencido. Não há nada que ele
tema mais porque nada lhe é mais fatal. "É impossível, diz São Felipe Nérie com ele D.
Bosco, é impossível que quem freqüente bem a Confissão e a Comunhão, continue a cometer
impurezas!”
O mundo não pode crer na castidade de tantos milhares de sacerdotes, freiras e
religiosos: não se convence de que essa flor da juventude possa conservar-se pura e casta no
meio de tão grande corruptela; mas sabe por quê? Porque o mundo não compreende a força
dos Sacramentos: porque não sabe ou não quer saber que todos eles se purificam com
freqüência no Sangue de Jesus com a Confissão, e, ainda mais frequentemente, se nutrem do
seu Corpo santíssimo na Comunhão.
Há poucos anos, um jovem advogado disse em tom de brincadeira a um amigo
sacerdote:—
Eu acredito na sua fé, admiro a sua abnegação, mas não posso acreditar na sua
honestidade, no celibato!
O zeloso sacerdote tocado num ponto assim tão delicado respondeu:
— Pois bem, experimenta e verás.
— De que jeito?
— Freqüenta a Confissão e a Comunhão.
Mudaram de conversa, mas voltaram ao mesmo assunto muitas vezes e ao cabo de
seis meses o advogado elegante trocava a toga de tribuno pelo hábito de seminarista. Em
menos de um ano tornou-se sacerdote e é agora excelente pregador e defensor infatigável da
honestidade e do celibato eclesiástico. Experimentou e foi vencido por esses Sacramentos
miraculosos.
D. — Padre, a honestidade, ou seja, a pureza, traz consigo vantagens?
M. — Muitas e nobilíssimas: a pureza é como um lírio que se eleva acima de todas as
flores pelo perfume e pelo candor; ela nos torna senhores dos tesouros de Deus. O homem
puro e honesto sente-se e mostra-se sempre tranqüilo: não teme suspeitas e calúnias; não se
sente ligado nem escravo de outras pessoas; goza de uma paz íntima, inestimável. Sua vida é
plácida e serena a sua morte. Tem imensa esperança, isto é, tem a certeza da salvação eterna:
o seu prêmio, o seu gozo no Paraíso são de todo especiais. Termino com um exemplo
histórico:O célebre músico Mozart aos vinte e cinco anos, tinha atingido o apogeu da sua
glória. No dia 27 de Janeiro de 1881, completava justamente vinte e cinco anos e, achando-se
em Milão, onde foi acolhido triunfalmente, pôde dizer à assembléia que o festejava estas
palavras textuais:
“Juro diante de Deus que, em toda a minha vida, nunca cometi ato nenhum contra a
pureza, eis o segredo dos meus sucessos e dos meus triunfos...’’
Sentia-se puro e, sentia-se grande. Quantos haverá que podem dizer o mesmo?!

22 de fevereiro de 2015

Missa Tridentina


Confessai-vos Bem - Padre Luiz Chiavarino.

O demônio mudo

D. — Padre, o senhor há pouco falou no “demônio mudo”; o quê vem a ser esse
demônio mudo?
M. — É o demônio da impureza ou desonestidade. O próprio Jesus chama-o assim no
Santo Evangelho.
D. — Mas o que é essa impureza ou desonestidade?
M. — São todos os pecados proibidos pelo sexto e nono mandamentos, isto é, as más
ações, os maus olhares, os maus desejos e as infidelidades e malícias no matrimônio.
D. — Então a impureza é um pecado muito grave?
M. — É um pecado gravíssimo e abominável diante de Deus e dos homens. Abaixa
os que o cometem às condições dos brutos, é causa de muitos pecados e provoca os maiores
e terríveis castigos nesta e na outra vida.
A Sagrada Escritura chama os pecados de impureza pelos nomes mais baixos: “crime
péssimo, coisa detestável, horrível infâmia sem nome”. São Paulo então, diz claramente:
"Neque molles, neque fornicarii, neque adulteri... regnum Dei possidebunt".
"Vida desonesta, morte impenitente".
Isto quer dizer que nem os moles, que pecam sozinhos; nem os devassos; nem os
adúlteros, que são infiéis no matrimônio, possuirão o reino de Deus!
D. — Pobres de nós! Devemos então estar sempre alerta.
— Certamente! Os santos Padres são todos da mesma opinião quando dizem que a
impureza é o pecado que atrai maior número de almas para o inferno.
D. — Devéras?
M. — É isso mesmo! Santo Agostinho afirma que, assim como a soberba populou o
inferno de anjos, a desonestidade enche-o de homens; e Santo Afonso acrescenta que todos
os cristãos que são condenados, o são por causa da desonestidade, ou pelo menos, nunca sem
ela.
D. — E qual será o motivo disso?
M. — Os motivos são especialmente dois:
1.° As desonestidades são pecados fáceis de cometer. 2.° Uma vez cometidos tais
pecados, é difícil emendar-se.
D. — Por quê são pecados bastante fáceis de cometer?
— Porque não devemos crer que os pecados de desonestidade consistem unicamente
nas fornicações, nos adultérios e outros tantos pecados nefandos; esses são excessos. Para se
pecar mortalmente contra a pureza bastam os olhares lascivos, as leituras obscenas, as
canções impudicas, os gestos e as conversas maliciosas, os namoros licenciosos, e até os
pensamentos e complacências íntimos e os desejos impuros quando consentimos neles
livremente.
D. — E por quê são os mais difíceis para corrigir?
M. — Porque, infelizmente, um pecado chama outro, até que, pouco a pouco formase
uma cadeia que depois não conseguimos mais romper. Neste caso também, ai daquele que
começa!
D. — Será possível! mas a confissão não serve de nada? Não consegue romper a
cadeia?
M. — A confissão é sempre um meio poderosíssimo, quando bem feita; é aqui no
entanto que está o engano; aqui está toda a força do demônio mudo; ele fecha a boca como já
vimos, e não permite que se confessem bem esses pecados.
D. — Oh! Mas se se confessarem bem todas as vezes não prosseguiriam no caminho
da desonestidade, não é mesmo, Padre? A confissão seria mais forte do que eles.
M. — Justamente. O demônio mudo gosta das trevas, a confissão traz a luz, e a luz
afugenta os pecados.
D. — Então, a misericórdia de Deus abandona o pecador desonesto?
M. — Não é Deus que abandona o desonesto, mas o desonesto que abandona a Deus,
não se importando mais com Ele, ou pior ainda, desprezando-O como vimos no capítulo
precedente. Portanto a desonestidade é chamada a mãe da impenitência final e os Santos
dizem: "Vida desonesta, morte impenitente".
D. — E por que é a mãe da impenitência final?
M. — Porque na hora da morte, geralmente esse pecado não se confessa. Os
pecadores não estão dispostos a confessar e a apagar o pecado com o devido arrependimento.
D. — Mesmo em ponto de morte?
M. — Sim, até em ponto de morte! E resignam-se a perder a Paraíso e ir para o
inferno.
Lutero era um frade agostiniano: por um amor impuro deixou o convento, rebelou-se
contra a Igreja, fundou o protestantismo e entregou-se a uma vida escandalosa. Uma noite
estava ele no terraço de um hotel ao lado de Catarina Bora sua companheira de pecado. A
temperatura era suave, o céu estava lindo e milhares de estrelas brilhavam no firmamento.
Catarina, cansada talvez daquela vida de remorso, voltou-se de repente para Lutero e lhe
disse:
— “Olha Martinho, como é lindo o céu!”
Aquelas palavras, Martinho exclamou com um suspiro profundo:
— Sim, Catarina, o céu é lindo, mas não é mais para nós!
O infeliz sentia que ia perder o Paraíso, mas se confessava incapaz de ressurgir e
morria pouco depois naquele mesmo hotel, dando mostras do mais terrível desespero. “Vida
desonesta, morte impenitente”.
* * *
Teodoro Beza, sucessor de Calvino e chefe da reforma protestante, atingido por uma
enfermidade mortal, foi visitado por São Francisco de Sales. Este com o seu zelo ardente
tentou todos os meios possíveis para induzi-lo a abjurar o erro, voltar para o seio da Igreja
Católica, e preparar-se para uma morte cristã. “Impossível” repetia, suspirando, o doente de
quando em quando "impossível". Por fim, como o Santo insistia para saber o porquê daquela
palavra “impossível”, Teodoro com esforço, apoiou-se num cotovelo, puxou uma cortina que
fechava uma alcova, e, mostrando uma mulher ali escondida: Eis aí, exclamou, a razão da
impossibilidade de me converter e de me salvar!
Preferiu a morte e o inferno, mas não deixou o pecado. Aqui também: “Vida
desonesta, morte impenitente.”
* * *
Na cidade de Spoleto, vivia uma jovem dissoluta, cuja existência era unicamente
dedicada à vaidade e aos bailes. Aconselhada mais de uma vez a corrigir-se desprezava com
soberba os avisos e fazia pouco caso deles.
Sua própria mãe, orgulhosa da beleza e do brio da filha, sentia imenso prazer em vêla
cortejada por um bom número de amantes, e deixava as coisas correrem na esperança de
encontrar um bom partido; de mais a mais acreditava que, passado o ardor da mocidade, ela
acabaria sossegando.
Oh, mães cegas e imprudentes, que não só não se preocupam, mas ainda traem suas
filhas, quando não são elas próprias que as arrastam à desonra e à ruína!
E o que aconteceu?
A infeliz moça caiu gravemente enferma. Pessoas sérias e respeitáveis da vizinhança
aconselharam-na a chamar o sacerdote, a receber os sacramentos, preparar-se para a morte,
enfim. Mas a pobre teimava:
— “Qual, repetia, é impossível, que eu tão moça e bela, morra; eu não devo, não
devo morrer!”
Por fim, veio o Sacerdote; este por sua vez suplicava-lhe que tivesse juízo, que
rezasse a Maria Santíssima porque a morte poderia surpreendê-la.
Qual morte, qual nada! Eu devo é viver! Eu não posso, não quero morrer!
Como a insistência aumentasse, por fim, percebendo que as forças começavam a
faltar-lhe, com um esforço supremo, exclamou com ira:
— “Pois bem, se assim, se é que eu vou mesmo morrer, vem tu, Satanás, e toma a
minha alma ti!” E, cobrindo o rosto com o lençol, entregou no demônio a alma desesperada.
“Vida desonesta, morte impenitente”.
Ouça mais este exemplo, que o encherá de pavor:
Um cavalheiro vivia com uma moça de maus costumes. Aos que o aconselhavam
abandoná-la ele respondia sempre com um desdenhoso “não posso”. Mas a morte chegou
para desuni-los.
O infeliz cavalheiro adoeceu gravemente, e, como estava nas últimas, chamaram um
sacerdote para prepará-lo para dar o passo terrível. Tão caridoso e paciente foi o padre que o
enfermo, humildemente, respondeu:
— Com prazer! Apesar de ter levado uma vida má, desejo ter uma boa morte com
uma santa confissão.
— O senhor quererá receber também os Sacramentos como um bom cristão?
— É com prazer que os receberei, se vos dignardes de o administrar.
— Mas isto não será possível se o senhor não despedir primeiro aquela moça.
— Ah, isso, Padre, eu não posso fazer.
— E por que não pode? Pode e deve fazê-lo, meu caro senhor, se quiser salvar-se.
— Mas eu repito não posso!
— Mas o senhor não vê que, com a morte, tão próxima, será obrigado a deixá-la por
força?
— Não posso, Padre, não posso!
— Mas assim, eu não o absolvo, não lhe administro os Sacramentos e o senhor
perderá o paraíso, será precipitado no inferno!
— Não posso!
— Será possível que eu não posso obter do senhor outra palavra? Pense na sua honra,
na sua estima se morrer excomungado.
— Não posso, repetiu o infeliz pela última vez. E, agarrando a moça por um braço,
puxou-a para si apertando-a com força ao peito, e assim, nos braços daquela mulher indigna,
expirou.
D. — São tremendos, mas justos os castigos de Deus. Será possível, Padre, que não
se pode mesmo abandonar o pecado?
M. — Na maioria dos casos, não se quer abandoná-lo, eis tudo!
Santo Agostinho conta que um certo homem, não ouvia nem os conselhos nem as
súplicas dos que procuravam convencê-lo a abandonar uma casa que freqüentava com grande
escândalo. Não quis saber de nada, dizendo que absolutamente não podia. Aconteceu que um
dia, naquela mesma casa lhe deram uma carga de pauladas das mais respeitáveis.
Acredite que ele abandonou no mesmo instante a casa: a impossibilidade toda
desapareceu.
“Quod non fecit Dominus” acrescenta o Santo “fecit baculus”: aquilo que Deus e o
amor da alma não conseguiram, conseguiu-o a bengala.
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