21 de maio de 2024

A Paixão - Padre Júlio Maria

2. - A AGONIA NO JARDIM

Torrentes iniquitatis conturbaverunt me.

As iniqüidades do mundo inteiro, como rios transbordados, precipitaram-se no mar do Meu coração.
O ideal do Amor, enfim, contente, repleto de venturas, satisfeito, eis a Agonia no Jardim: o primeiro, o maior e o mais misterioso dos episódios da Paixão.
O primeiro, porque na ordem do tempo, de modo exterior e visível, ele a começa; o maior, porque ele reitera todas as imolações do Homem-Deus, desde o primeiro vagido do Presépio até ao derradeiro gemido do Calvário; o mais misterioso, não só porque ele antecipa todos os sofrimentos corporais da vítima, mas também porque, onde os olhos da carne não vêem mais que uma luta, um combate, uma agonia, os olhos iluminados da fé contemplam a suprema ventura do Amor.
Eu vos disse anteriormente que, obra de Deus, a Cruz é a obra prima da alegria.
Obra de Deus neste sentido: conquanto os opróbrios, as ignomínias, os sofrimentos todos de Jesus Cristo fossem resultado da perversidade judaica, verdadeiros pecados do povo deicida, o Filho de Deus ab-oeterno aceitou-os, ab-oeterno resolveu tirar da iniqüidade a Sua glória, convertendo em instrumentos de Seu triunfo as humilhações da Sua Paixão.
Foi voluntariamente que Jesus Cristo Se sacrificou: oblatus est quia ipse voluit.
Sob este ponto de vista, portanto, a Cruz é obra de Deus, e obra prima da Alegria,  porque Deus é uma imensa alegria, que se comunica a todas as Suas criações, e, pois comunicou-Se também à humanidade santa do Verbo, perfeitamente feliz e bem-aventurado em todos os instantes da Sua existência terrestre.
A Agonia no Jardim não foi por isso, apesar de todos os sofrimentos, menor que a suprema ventura do Amor.
O Amor! Ele é a seiva do universo; a energia atrativa de toda a criação; circula no ramo, vive na flor, no pássaro, no inseto; produz e perpetua a vida.
Diz um antigo hino grego: “O Eterno disse ao Amor: que tudo se organize; e tudo se organizou!”
Se no mundo físico o amor é o pólo da criação; no mundo moral é a alma do gozo, a vida da alegria. Sem dúvida, na sua verdade e pureza, o amor é raro, como é raro o gênio, raro o heroísmo, rara a formosura, raro tudo que se aproxima da perfeição. Ainda assim, na vida ele é para nós o tipo supremo da felicidade.
Falando do espírito das trevas, dizia a maior contemplativa do nosso tempo, Teresa de Jesus: “desgraçado! ele não ama!” Eis como que o sinete da desgraça: - não amar.
Não há no céu, nem na terra, diz o livro da Imitação, coisa mais doce, mais forte, mais sublime, mais ampla, mais deliciosa, mais completa nem melhor que o Amor.
Esse amor de que nos fala o sublime poema monástico nasceu de Deus e não pode, como o mesmo poema acrescenta, descansar senão em Deus, elevando-se acima de todas as criaturas.
Não obstante, quaisquer que sejam as vicissitudes e imperfeições da humanidade, são muitas na terra as venturas do amor satisfeito: impossível seria o enumerá-las.
Vede: gozar, possuir uma alma, mesmo na ordem da natureza; mas é sublime! O que será possuí-la na ordem sacramental, divina?! Perguntai-o a ardente felicidade do coração juvenil, recebendo junto ao altar, das próprias mãos de Deus, um coração que para todo o sempre se engasta no seu!
Apertar em seus braços, revestido de sua carne, palpitante de seu sangue, o primeiro fruto de suas entranhas: que ventura! Perguntai-o a mãe fascinada pelos encantos do seu recém-nascido.
Imortalizar na ciência, na arte, na poesia ou na religião - uma idéia que aprendeu a verdade, um pensamento que atingiu o belo, uma inspiração que traduziu o amor, uma palavra que revelou Deus: que inefável ventura! Perguntai-o ao sábio, ao artista, ao poeta, ao apóstolo. Libertar uma raça, regenerar um povo, reconstruir uma pátria: que ventura tão grande! Perguntai-o ao filósofo, ao estadista, ao guerreiro.
Pois bem: a alegria de todas as almas humanas, o prazer de todos os corações satisfeitos, a delícia de todos os amores: amor maternal, amor conjugal, amor fraternal, amor da pátria ou da humanidade; todas as venturas do gozo mais requintado: - o das lágrimas que os Santos derramaram nos seus delíquios, o da pureza que as virgens sentiram no seu corpo imaculado, o do sangue que os mártires derramaram em testemunho da verdade, - todas as venturas do coração humano reunidas são infinitamente menores que a ventura de Nosso Senhor na Agonia do Jardim.
É aqui, na verdade, que Ele exteriormente, com inflamada caridade e intrépido valor, dá começo à Sua Paixão. É aqui que a parte inferior da Sua natureza parece inválida por indizível tristeza; e os açoites, os opróbrios, as bofetadas, as zombarias, as blasfêmias, a morte de Cruz - tudo isso que Lhe iam dar os Judeus com tanta vivacidade o penetra que Ele já suporta todos esses males, e geme, e treme, e perde as cores e as forças, e como que se Lhes esgota a vida.
Ei-lO prostrado, com a face em terra, em agonia!
Trinta e três anos passaram sobre a Sua cabeça. É agora um homem em toda a força da idade.
Muitas vezes mostrou-Se fatigado. Fatigado quando, junto ao poço de Jacob, pedia a Samaritana um pouco dessa água, que Ele próprio criou.
Fatigado quando, nos dias do Seu penoso ministério público, refugiava-Se entre os rochedos.
Nunca, porém, tão fatigado como agora em que uma santa impaciência O domina: a de não poder esperar algumas horas o Seu desejado sacrifício.
Dentro de poucas horas, Ele será batido, flagelado, coberto de ignomínias, crucificado; o Seu sangue será derramado como água.
Ele, portanto, crucifica-Se a Si próprio, num martírio mais misterioso que o do Calvário.
Antecipa a Sua Paixão. Reveste-Se de todos os pecados tão numerosos, variados e enormes de todos os homens. Cobre-Se deste medonho vestuário que O inflama e queima como uma túnica de fogo.
Treme, todo penetrado do mais horrível dos terrores.
Todos os crimes do espírito; todos os crimes do coração; todos os crimes dos sentidos; todas as loucuras do mundo; todas as orgias da humanidade; o orgulho de todas as inteligências; a luxúria de todas as imaginações; todas as aberrações da ciência; todas as profanações da arte; todos os adultérios da poesia; todos os sacrilégios de todas as religiões, a ambição dos despostas; a tirania dos governos; os atentados da política; as iniqüidades da justiça; os abusos da filosofia; as violações da Moral; todos os escândalos do mundo; as abominações de Sodoma e Gomorra; as prostituições de Babilônia; as bachanais da Grécia; a ambição, a loucura, as crueldades de Roma; a idolatria de todos os povos pagãos; as perversidades da nação judaica; as iniqüidades de todos os povos modernos; as perfídias de todas as monarquias; as mentiras de todas as repúblicas; a hipocrisia das democracias; as imposturas da liberdade - todo este peso enorme oprime a cabeça de Jesus Cristo na Agonia do Jardim, enche de confusão a Sua alma e de amarguras o Seu coração!
É assim, desfigurado, que a Justiça Eterna O contempla, como Holocausto vivo que se Lhe oferece pelos crimes de todas as pátrias, também da nossa: - de todos os pecados privados de públicos do Brasil, das iniqüidades de seus magistrados, do ateísmo político de seus estadistas, das apostasias de seus governos, do paganismo das suas escolas, da irreligião prática de seus lares, da impiedade dos seus parlamentares, do ceticismo de seus jornais, da ignorância religiosa dos seus mestres, da apatia e dos sacrilégios dos seus padres, do seu repúdio oficial da fé católica; de todas as loucuras do espírito revolucionário que invadiu as plagas de Santa Cruz e não deixou entre a monarquia e a república solução de continuidade!...
Onde, me perguntareis agora, numa agonia tão grande que não há, para exprimi-la, nas línguas humanas, termos nem frases; onde ver a ventura de Jesus Cristo?! Por todos os poros de Sua carne desfiam gotas de sangue que inundam a Sua fronte, banham as Suas faces, molham os Seus cabelos, cobrem os Seus olhos, enchem a Sua boca, maculam as Suas barbas, tingem o Seu vestuário, e avermelham mesmo as oliveiras do Jardim!
Que agonia dolorosa e profunda!
Que sofrimento inaudito!
Pois bem: onde os olhos da carne vêem a fraqueza, os olhos da razão, iluminada pela fé, vêem a força. Esta luta, diz S. Ambrósio, não é a luta de Jesus Cristo no temor da Sua Paixão; mas no desejo inflamado de no-la aplicar. É a luta entre dois atributos de Sua própria natureza divina: a justiça e a misericórdia. A Justiça, que representa o Pai, parece dizer inflexível a Jesus Cristo: “Separa a tua causa da dos pecadores; deixa-Me derramar a Minha cólera sobre a posteridade proscrita de um pai culpado”. Mas a Misericórdia, que representa o Filho, parece responder ao Pai: “Não, nunca! Eu não deixarei de combater, de sofrer, de chorar até que os pecadores sejam postos no Meu lugar, sejam perdoados em Mim. Eu aceito sobre os Meus ombros o peso das suas faltas; Eu incorporo-os todos; Eu me revisto do opróbrio de todos os pecados; Eia, corram todos eles; entrem como torrentes transbordadas, no mar do Meu coração. Como todos os rios se precipitam no mar, as iniqüidades no mundo inteiro precipitem-se sobre a Minha alma; e, assim como o mar absorve todas as águas, que o Meu coração afogue todos os pecados.”
Continua...

20 de maio de 2024

A Paixão - Padre Júlio Maria

Prezados Amigos, Salve Maria!

Os santos dizem que depois da santa Missa, a melhor prática espiritual é a meditação da Paixão de Cristo.
Alma devota, se queres crescer sempre mais na virtude e de graça em graça, procura meditar todos os dias a Paixão de Jesus Cristo”.
Não existe exercício mais apropriado para santificar a tua alma que a meditação dos sofrimentos de Jesus Cristo”.
Vale mais uma lágrima derramada em memória da Paixão de Cristo que fazer uma peregrinação a Jerusalém e jejuar a pão e água durante um ano.
A recordação da Paixão Santíssima de Jesus Cristo e a meditação das Suas virtudes… conduzem a alma à união íntima com Deus, ao recolhimento interior e à contemplação mais sublime...
A Paixão de Jesus Cristo é a obra mais maravilhosa do Amor de Deus.
A Paixão de Jesus Cristo é o melhor meio para levar as almas à conversão, até mesmo as mais empedernidas.
Conservem cuidadosamente a piedosa recordação dos sofrimentos do Filho de Deus e viverão eternamente.
O caminho mais rápido para chegar à santidade cristã é o de se perder, totalmente, no oceano dos sofrimentos do Filho de Deus.
No imenso oceano da Paixão de Jesus Cristo a alma cristã pesca as pérolas preciosas de todas as virtudes e faz seus os sofrimentos do seu amado Bem.

A seguir estaremos publicando meditações da paixão de Nosso Senhor por Padre Júlio Maria.
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A PAIXÃO

Padre Júlio Maria , C.SS.R.

Cruzada da Boa imprensa
1937
Nihil Obstrat Rio,
11-X-1936
P.J. Bapt. de Siqueira
Imprimatur
Rio, 13-10-1936
Mons. R. Costa Rego, V.S

ÍNDICE
1- A loucura da Cruz
2- A Agonia no Jardim
3- A Flagelação
4- A Coroa de Espinhos
5- Jesus recebendo a Cruz
6- A Crucificação
7- O Fruto da Paixão

I- A LOUCURA DA CRUZ

Nos stulti propter Christum.

Verdadeiramente, nós somos loucos, mas loucos de amor por Jesus Cristo.

A obra prima da alegria é a Cruz de Jesus Cristo. Esta cruz, que aos olhos do século parece não ser mais que o símbolo da tristeza, do sofrimento e da dor, é, na realidade, o requinte da ventura; e essa loucura de que fala o apóstolo São Paulo, a do cristão que procura assemelhar-se a Jesus Cristo e por Seu amor se torna como que louco, essa loucura é verdadeiramente o supremo arroubo da felicidade.
Sei, o século não entende assim: um Deus flagelado, ferido, ensangüentado, crucificado, morto, parece-lhe um símbolo absurdo. O homem que o cobre de beijos e lágrimas, que pelo repúdio de sua vaidade e de seu orgulho, pela renúncia de suas paixões, que procura reproduzir em si a Cruz de Jesus Cristo, parece-lhe o cúmulo da loucura.
Que importa, porém, os pensamentos do século?! Se na terra já houve uma alegria completa e inefável, a do Amor Crucificado; se as criaturas humanas já foi dado algum antegosto da felicidade, que ardentemente desejam, elas o acharam no contato com Jesus Cristo.
O mundo físico tem muitas alegrias: a vida, a saúde, a força, o espetáculo das cenas variadas da natureza, o aspecto das montanhas, a extensão dos mares, a beleza das planícies, os brilhos do sol, os próprios ruídos da tempestade são fontes de prazer para o homem.
O mundo intelectual tem muitas alegrias: o simples exercício das faculdades do espírito, a rapidez, o fluxo e o refluxo dos pensamentos, os encantos da poesia, as harmonias da música, os atrativos da forma e da cor, a pintura, a escultura, a arquitetura são para o espírito e o coração do homem fontes de emoções deliciosas.
O mundo moral tem muitas alegrias: o amor da família, da pátria, da humanidade; as tranqüilas afeições do lar; os afetos ardentes da juventude; as profundas meditações da idade madura; uma grande esperança que se alimenta; uma grande vitória que se conquista - tudo isso é para o homem perene, inesgotável manancial de alegria.
Pois bem; resumi numa só as variadas alegrias do mundo físico, as alegrias variadíssimas do mundo intelectual e moral; resumi num só todos os gozos puríssimos da inteligência, todos os prazeres mais delicados da imaginação, vós não tereis senão uma pálida sombra desta infinita alegria que se chama - a Cruz.
Strauss escreveu:
- "A Cruz com um Deus morto pelos pecados dos homens é para os crentes não somente o penhor visível da redenção, mas também a apoteose do sofrimento. É a humanidade na sua forma mais triste, com todos os seus membros dilacerados e quebrados; a perfeição do cristão e a maldição do mundo. A humanidade moderna, satisfeita de viver e operar, não pode mais achar em tal símbolo a expressão de sua consciência religiosa; e conservá-lo na Igreja é acrescentar mais uma razão às muitas que já o tornam incapaz de existir.
A Cruz é um anacronismo, um sinal de decadência e caducidade".
Que ignorância! A Cruz, o poema predileto da humanidade, é o símbolo que se encontra ainda nos lares, em milhares de corações e em todos os túmulos; a Cruz é o alívio do desventurado, a esperança do moribundo. Na alegria ela enternece; na tristeza ela consola; até mesmo no cemitério, nas sombras da morte, a Cruz é um penhor de vida!
Mas a humanidade ama ardentemente o gozo e o prazer; de fato, ela não procura senão a felicidade. A Cruz, portanto, é só aparentemente a apoteose dos sofrimentos; e a maior das felicidades humanas é a dos corações crucificados.
A Cruz é a obra prima da alegria, porque ela é obra de Deus, e Deus é alegria infinita; e compreende mal a criação, mesmo depois da queda primitiva, quem supõe que a dor representa nas obras de Deus mais que um papel secundário.
No mundo físico não é a dor que prepondera: ninguém pode descrever o número, a grandeza e magnificência de suas alegrias, que envolvem o globo inteiro.
No mundo moral, sem dúvida, existe a dor; mas ela procede da prevaricação do homem, e não de Deus, cuja bondade aponderou-se dela, transfigurou-a, e de tal sorte transformou-a, que a dor tornou-se para o homem, na condição em que ficou colocada depois da queda, uma condição da alegria.
É uma alegria a dor que o homem sente vendo o que há de irregular no mundo físico, de trágico e triste no mundo moral. É uma alegria a dor do arrependimento, a contrição dos pecados, a resignação na desgraça, a paciência no infortúnio, a conformidade com a vontade de Deus em todos os estados e condições da vida. É pela dor que a criação reassume a sua alegria; e por isso a dor entra em tudo que há de dramático e patético na vida humana; e por isso glorificar a dor é uma das mais altas funções da música, da pintura e da escultura; e por isso para a humanidade nada tem interesse real se não tem alguma relação com a dor; e por isso a dor é verdadeiramente para a vida de cada homem uma condição necessária de sua alegria.
Onde, porém, perguntareis, colocar a alegria numa vida como a de Jesus Cristo? Onde ver a alegria naquela Cruz?! Pois a Paixão do Homem-Deus não foi o sumo da dor, e por conseqüência exclusão de toda alegria?!
Sim; a Paixão de Jesus Cristo foi uma dor real, completa e tão vasta que abrangeu toda a Sua vida, desde o primeiro vagido do Presépio até ao derradeiro gemido do Calvário. É só aparentemente que se distinguem o berço do menino Deus e a Cruz do Varão de dores; na realidade se confundem a manjedoura de Belém e o monte Calvário. Para o menino, pela ciência completa de Sua alma e o pleno uso de Sua razão, a previsão de Seus opróbrios e ignomínias, de Seus sofrimentos e de Sua morte era já uma paixão substancial.
Se as dores físicas da Paixão não Lhe torturavam já os músculos,os nervos e a carne pela vivacidade da Sua previsão dava-Lhe um horror e tremor correspondentes. Aliás, os sofrimentos da santa infância, agravados pela fraqueza física e a impossibilidade voluntária de fazê-las conhecer, foram em Jesus Cristo dores físicas perfeitas. Quanto às dores morais, a santa infância é em toda a realidade o começo da Paixão: o presépio é o Calvário que começa.

Exterior e interiormente, Nosso Senhor sofreu desde o primeiro instante de Sua vida terrestre. Derramou lágrimas, sentiu frio, fadigas, terrores, o desprezo e a perseguição dos homens, e todos os tristes resultados da pobreza e do silêncio a que voluntariamente se condenou. Nasceu fora dos muros de uma cidade, súdito de um imperador romano; ainda menino, teve necessidade do exílio para escapar ao furor de um déspota; os elementos, que Ele próprio tinha criado, o sol, o vento, a chuva, molestaram o Seu corpo infantil; a Sua infância reuniu todas as condições da pobreza, e o pleno uso de Sua razão, a plena ciência de Sua alma, sem dúvida Lhe tornaram penitências cruéis todas as fraquezas que em nós são o resultado do pecado, mas nEle eram os mistérios da Encarnação.
A vista interior que Ele tinha dos pecados de todos os homens; de suas perfídias e ingratidões; das vicissitudes de Sua Igreja; dos combates improfícuos do Amor Divino pela salvação de tantas almas que recusaram, que recusam e que hão de recusar tantos testemunhos da Sua misericórdia, aumentavam sem dúvida, esses sofrimentos exteriores da santa infância.
Onde, portanto, ver a alegria numa existência tão atribulada e na qual ainda mesmo os sofrimentos futuros não eram simples profecias, eram já uma paixão substancial?!
Pois a alegria está ali, a maior das alegrias que tenha feito na terra palpitar um coração.
A todos os instantes, desde o Presépio ao Calvário, durante mesmo o abandono na Cruz, e não obstante todos os sofrimentos da Paixão, Jesus Cristo era bem-aventurado, era perfeitamente feliz, Sua alma palpitava de alegria.
Parece-nos impossível no coração de Jesus Cristo a harmonia de uma tão grande alegria com uma tão grande dor; mas isso somente porque não compreendemos as operações das duas naturezas - divina e humana- numa só pessoa, nem compreendemos a dupla vida de viajor e compreensor que a alma de Jesus levava na terra.
Mas a razão esclarecida pela teologia nos diz que a alegria em Jesus Cristo não foi menos real que a dor.
A dor teve uma revelação exterior - a Paixão; e por isso vemo-la melhor.
Como, porém, poderemos compreender a vida de Jesus Cristo sem a alegria?
Ele era na terra o próprio Verbo revestido da nossa natureza; era o próprio Deus, e não podemos compreendê-lO senão como uma imensa alegria.
Deus é a bem-aventurança, a perfeição, a felicidade, a alegria; e o Verbo de Deus não é senão a infinita alegria do Pai substancial e perfeitamente reproduzida no Filho, unidos ambos por um amor substancial, que não é também senão um coninfinito de alegria.
Mas, se Deus é alegria, tudo que procede de Deus não pode ser senão a alegria.
A criação foi a primeira efusão da alegria; a redenção a segunda, porque a redenção não se fez senão para que o mundo reassumisse o seu destino primitivo.
Sendo o Verbo o próprio Deus e sendo Deus uma infinita alegria, esta alegria que se comunica a todas as Suas obras comunica-se também à Sua humanidade santa.
Que inefáveis alegrias as do Verbo encarnado!
Alegria da perfeição da Sua humanidade; do pleno uso da Sua razão; da perfeita ciência da Sua alma; da Sua soberania e realeza sobre a criação; da completa visão que Ele tem de Deus; da perfeita adoração que Lhe presta; do Seu amor pela Mãe Imaculada que Ele próprio criou; pelos homens Seus irmãos, que veio resgatar; pela Igreja, Sua noiva, que veio esposar; pela própria Cruz, que, desde o primeiro instante da Sua vida terrestre, plantava com gozo inefável no centro do Seu coração, como o símbolo da Sua vitória e o emblema da redenção!
O Criador no seio da Sua criação! Um homem perfeito compreendendo todas as leis do mundo físico, todos os mistérios do mundo moral!
Uma alma humana tendo a visão de todos os enigmas do universo; de todas as vicissitudes da humanidade! Nada Lhe sendo desconhecido no passado, no presente, no futuro!
Ele vê todos os séculos futuros; vê o combate improfícuo de todas as civilizações contra a Sua Cruz; vê o desenvolvimento sucessivo e completo da Sua obra, as Suas vicissitudes, os seus triunfos; vê em toda a série de idades os Seus milhões de adoradores; os milhões de súditos de Sua Mãe; vê a vitória decisiva e final da Sua Igreja; vê, enfim, glorificada a nova humanidade, de que Ele foi o Salvador!
Que alegrias inefáveis! Que júbilo infinito!
Por isso é feliz nas Suas próprias dores; por isso Ele encontra a alegria na própria presciência de Sua Paixão; por isso, ávido, como Ele próprio o dizia, pelo batismo de sangue, na Agonia do Jardim, antecipa o Seu sacrifício e na Cruz do Calvário sacia a sede do Seu amor!
Vede: a Cruz, que aos olhos do século parece não ser mais que um símbolo de tristeza, é, entretanto, a obra prima da alegria; e, portanto, a maior das felicidades humanas é essa loucura de que nos fala São Paulo.
O século sempre entendeu esta loucura erradamente, servindo-se dela para zombar da fé, caluniar o cristão e apresentá-lo como o refugo da natureza humana, cuja ciência consiste em bestializar a inteligência, obliterar o sentimento e atrofiar o coração.
Nunca foi esta a doutrina da Igreja, que, bem longe de assim entendê-lo, quando, no século 17, homens saídos de seu seio, mal interpretando as palavras do Apóstolo, fizeram uma guerra encarniçada à ordem natural, à razão humana, ao desenvolvimento da inteligência e às necessidades legítimas do coração, condenou essa doutrina-o Jansenismo - e reprovou a sua moral.
A loucura da Cruz, como a entende a Igreja, não é, pois, a mutilação do homem; não é a renúncia de seus sentimentos, nem do que eleva o seu espírito, dilata o seu coração e alegra a sua vida.
A doutrina da Igreja, é que a Graça não destrói a natureza: purifica-a, aperfeiçoa-a.
Santo Agostinho dizia que a Encarnação não é senão um vasto sistema higiênico e curativo para a natureza humana; e, se bem compreenderdes este pensamento do egrégio doutor da Igreja, vós tereis a justa idéia do que seja a loucura da Cruz.
Nas práticas da vida cristã, nas humilhações do homem que quer purificar-se, há uma espécie de loucura; mas loucura somente para os instintos depravados da natureza corrompida. Como em todo remédio há uma parte por assim dizer ignóbil, vil, desprezível, repugnante à natureza; há também isso no aparelho curativo da Igreja.
O homem é também doente do espírito e do coração; e os remédios de que precisa esta sua enfermidade são como os do corpo, duros, amargos, repugnantes à vaidade e ao orgulho. É uma loucura humilhar-se, abater-se pedir perdão das ofensas, amar os inimigos?!
Pois é a loucura da Cruz!
É uma loucura ser casto, renunciar aos gozos animais, rivalizar com os anjos?! Pois é a loucura da Cruz!
É uma loucura repudiar a avareza a ambição da glória, o furor do bem-estar?! Pois é a loucura da Cruz!
Reparai, porém: esta loucura é um verdadeiro remédio, porque nos despoja do velho homem, restaura as partes nobres da nossa natureza, que só se purifica e regenera pela crucificação, isto é, pelo aniquilamento de suas partes más.
E não foi essa loucura que regenerou o mundo, quando, num momento solene da história, para libertá-lo da gangrena romana, foi preciso lavá-lo no sangue das virgens, dos confessores, dos mártires?!
E, hoje, que falta ao nosso século? É justamente a loucura da Cruz!
Porque o homem moderno é tão vaidoso, tão cheio de ambições, tão sensual, tão rebelde? Porque não ama a Cruz de Jesus Cristo e zomba do cristão que procura reproduzi-la em si? Porque na política a impostura, a mentira, a perfídia? Na ciência - o orgulho, na literatura - a luxúria, nas artes - a prostituição do belo, o repúdio de todas as formas nobres da imaginação? Porque o estadista, o sábio, o filósofo, o poeta e o artista não conseguem fazer feliz a humanidade moderna?
Percorrei o mundo inteiro, batei a todas as portas; perguntai aos homens, nos palácios ou nas choupanas, se eles são felizes; e um gemido doloroso saído de todos os corações vos responderá: não, não somos felizes.
Mas porque o homem moderno, no meio de tantos esplendores da civilização material, é verdadeiramente desgraçado? Porque ele não ama a Cruz de Jesus Cristo.
Vós, homem moderno, podeis pretender todas as glórias: a de terdes surpreendido, com um pedaço e vidro, o infinitamente pequeno nas profundezas da terra, o infinitamente grande nas profundezas do céu; a de terdes dado aos vossos olhos o prodigioso óptico poder de verem no solo o arbusto crescer, a verem no espaço o astro girar; a de terdes reunido nas vossas exposições universais as riquezas espalhadas pelo globo; a de terdes consorciado nos vossos museus as faunas e as floras do mundo inteiro; a de terdes pelejado com os seus ventos e tempestades, medido mesmo a profundeza dos seus oceanos.
Há uma glória, porém, que vós não podeis reclamar: a de terdes medido a inanidade dos vossos prazeres, domado os ímpetos do vosso orgulho, medido a profundeza incomensurável da vaidade universal, que não deixa ver na Cruz de Jesus Cristo a salvação do mundo, e na loucura da Cruz - a sabedoria verdadeira!

Programação de Missas no Apostolado do IBP Curitiba

Na Casa do Padre: Olavo Bilac, 76
⛪ 2ª feira, 20/05
Segunda-feira de Pentecostes
07h30, Missa Rezada

⛪ 3ª feira, 21/05
Terça-feira de Pentecostes
07h30, Missa Rezada

⛪ 4ª feira, 22/05
Têmporas de Pentecostes
07h30, Missa Rezada

18h00, Exposição do Santíssimo
19h00, Conferência
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Na Capela, Rua Lamenha Lins, 2115, Rebouças
⛪ 5ª feira, 23/05
Quinta-feira de Pentecostes
18h30, Exposição do Santíssimo
19h30, Missa Rezada

⛪ 6ª feira, 24/05
Têmporas de Pentecostes
18h30, Exposição do Santíssimo
19h30, Missa Rezada

⛪ Sábado, 25/05
Têmporas de Pentecostes
08h30, Confissões
09h30, Missa Rezada

⛪ Domingo, 26/05
Festa da Santíssima Trindade

08h00, Confissões
08h30, Missa Rezada

09h30, Confissões
10h00, Missa Cantada

18h30, Confissões
19h00, Missa Rezada

19 de maio de 2024

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo Piedosas e edificantes meditações sobre os sofrimentos de Jesus

OPÚSCULO VIII

PODER QUE TEM A PAIXÃO DE JESUS CRISTO PARA ACENDER O AMOR DIVINO EM NOSSOS CORAÇÕES

O pe. Baltasar Álvarez, um grande servo de Deus, dizia que não devemos pensar ter feito algum progresso no caminho de Deus, se ainda não chegamos a ter sempre no coração a Jesus crucificado. São Francisco de Sales escreve que o amor que não nasce da paixão é fraco. E é mesmo, porque não dá coisa que mais nos obrigue a amar o nosso Deus do que a Paixão de Jesus Cristo, isto é, saber que o Padre eterno, para nos mostrar o excesso do amor que nos consagra, quis enviar seu Filho unigênito à terra para morrer por nós, pecadores. Isso levou o Apóstolo a escrever que Deus, pelo grande amor com que nos amou, quis que a morte de seu Filho nos trouxesse a vida: “Pela extrema caridade com que nos amou, nos convivificou em Cristo, quando estávamos mortos pelos pecados” (Ef 2,4). Foi isso justamente o que queriam exprimir Moisés e Elias no monte Tabor, ao falar da paixão de Jesus Cristo como de excesso de amor: “E falava de seu excesso que havia de realizar em Jerusalém” (Lc 9,31). Quando nosso Salvador veio ao mundo para remir os homens, os pastores ouviram os anjos cantarem: “Gloria a Jesus nas alturas” (Lc 2,14). Mas ao humilhar-se o Filho de Deus, fazendo-se homem por amor do homem, parecia que antes se obscurecia do que se manifestava a glória de Deus. E afinal não era assim, pois a glória de Deus não podia ser melhor manifestada ao mundo do que pela morte de Jesus em prol da salvação dos homens, visto a Paixão de Jesus nos ter manifestado as perfeições dos atributos divinos. Ela nos fez conhecer a grandeza da misericórdia divina, querendo um Deus morrer para salvar os pecadores e morrer de uma morte tão dolorosa e ignominiosa. S. João Crisóstomo diz que o sofrimento de Jesus Cristo não foi um sofrimento comum e a sua morte não foi uma simples e semelhante à dos homens (Serm. de pass.). Ela nos fez conhecer a sabedoria divina. Se nosso Redentor fosse somente Deus não poderia satisfazer pelo homem, porque Deus não poderia satisfazer a si mesmo em lugar do homem, nem poderia satisfazer padecendo, sendo ele impassível. Pelo contrário, se fosse somente homem, não poderia como tal satisfazer pela grande injúria feita a Majestade divina. Por isso, que fez Deus? Enviou seu próprio Filho, verdadeiro Deus como ele, a tomar a natureza humana par a que assim, como homem, pagasse com a morte a justiça divina e como Deus lhe desse uma satisfação completa. Ele fez-nos conhecer a grandeza da justiça divina. S. João Crisóstomo dizia que não é tanto o inferno, com o qual Deus castiga os pecadores, que demonstra quão grande seja a sua justiça, como Jesus Cristo na cruz, já que no inferno são punidas as criaturas por seus próprios pecados, ao passo que na cruz se vê um Deus martirizado para satisfazer pelos pecados dos homens. Que obrigação tinha Jesus de morrer por nós? “Foi oferecido porque ele mesmo o quis” (Is 53,7). Ele poderia sem injustiça abandonar o homem na sua desgraça, mas o amor que lhe tinha não lhe permitiu vê-los infelizes e por isso escolheu entregar-se a si mesmo a morte tão penosa, para obter-lhes a salvação: “Ele nos amou e entregou a si mesmo por nós” (Ef 5,2). Desde toda a eternidade havia amado o homem: “Eu te amei com uma caridade perpétua” (Jr 31,3). Vendo-se, porém, obrigado por sua justiça a condená-lo e a tê-lo sempre longe de si no inferno, sua misericórdia o impele a descobrir um meio de poder salvá-lo. Mas como? Satisfazendo ele mesmo a divina justiça com sua morte. E assim quis que na própria cruz em que morreu fosse afixado o decreto de condenação do homem à morte eterna, para que fosse destruído ou apagado com seu sangue (Gl 2,14). Dessa maneira, pelos merecimentos de seu sangue, alcançou-nos
o perdão de todos os crimes: “Perdoando-vos todo os delitos” (Gl 2,13). Conseqüentemente espoliou o demônio de todos os direitos adquiridos sobre nós, conduzindo consigo em triunfo tanto seus inimigos como nós sua presa: “E despojando os principados e potestados, sobranceiro os levou cativos triunfando manifestamente deles por si mesmo” (Cl 2,15). Teofilacto comenta: “Como um vencedor e triunfador carregando consigo a presa e os homens em triunfo”. Por isso Jesus Cristo, satisfazendo a divina justiça, ao morrer na cruz, não falou senão em misericórdia; pediu a Padre que tivesse misericórdia dos mesmos judeus que haviam tramado a sua morte e dos carrascos que o trucidaram: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Estando na cruz, em vez de punir os ladrões que pouco antes o haviam injuriado: “E os que foram crucificados com ele o afrontavam” (Mc 15,32), ouvindo que um deles lhe pedia misericórdia: “Senhor, lembrai-vos de mim quando estiverdes em vosso reino” (Lc 23,42), ele, cheio de compaixão, promete-lhe o paraíso para aquele mesmo dia: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,42). Antes de morrer, nos deu por mãe sua própria mãe: “Então disse ao discípulo: Eis aí a tua mãe” (Jo 19,27). Na cruz, declara que está satisfeito por ter feito tudo para obter-nos a salvação e coroa tudo com a sua morte: “Sabendo então Jesus que tudo estava consumado, disse: Está tudo consumado. E tendo inclinado a cabeça, entregou o seu espírito” (Jo 19,28). Eis o homem livre do pecado e do poder de Lúcifer pela morte de Jesus Cristo e além disso elevado ao estado de graça e de graça maior que a perdia por Adão. “Onde abundou o delito, superabundou a graça” (Rm 5,20). Resta-nos agora, diz o Apóstolo, recorrer sempre com confiança a esse trono de graça, que é justamente Jesus crucificado, para que recebamos de sua misericórdia a graça da salvação e os auxílios oportunos para vencermos as tentações do mundo e do inferno (Hb 4,16). Afetos e oração. Ah, meu Jesus, eu vos amo sobre todas as coisas e quero eu amar senão a vós que sois uma bondade infinita e por mim morrestes? Desejaria morrer de dor cada vez que penso que vos expulsei de minha alma com os meus pecados e que me separei de vós que sois meu único bem e tanto me tendes amado. “Quem me separará do amor de Jesus Cristo?” Só o pecado me pode separar de vós. Mas eu espero do sangue que derramastes por mim, que não haveis mais de permitir que eu me separe jamais do vosso amor e perca a vossa graça que eu aprecio acima de todos os bens. Eu me dou todo a vós, aceitai-me e prendei todos os meus afetos para que eu não ame a ninguém mais senão a vós. O amor de Jesus nos constrange. Talvez Jesus Cristo pretenda muito, querendo que nos demos inteiramente a ele, que nos deu todo o seu sangue e a sua vida, morrendo por nós na cruz? Ouçamos o que diz S. Francisco de Sales sobre as palavras: “A caridade de Cristo nos impele” (2Cor 5,14). “Saber que Jesus nos amou até à morte e morte de cruz não é sentir nossos corações oprimidos por uma violência que é tanto mais forte quanto ele é mais amável? O meu Jesus se deu todo a mim e eu me todo a ele, e eu viverei e morrerei sobre o seu peito, e nem a morte nem a vida me separarão jamais dele”. Jesus Cristo morreu, diz S. Paulo, para que cada um de nós não viva mais para o mundo nem para si mesmo, mas só para ele, que se deu inteiramente a nós: “E Cristo morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que morreu
por eles” (2Cor 5,15). Quem vive para o mundo, busca os prazeres do mundo; quem vive para si mesmo, busca a sua satisfação; quem vive para Jesus Cristo, não procura agradar senão a Jesus e nada teme senão desgostá-lo; não se compraz senão em vê-lo amado e não se aflige senão em vê-lo desprezado. Isso é viver para Jesus Cristo e isso é o que ele exige de cada um de nós. Pergunto novamente: talvez exige muito de nós quem deu seu sangue e sua vida para cada um de nós? Ó Deus, e por que havemos de empregar os nossos afetos em amar as criaturas, os parentes, os amigos, os grandes do mundo que não suportaram por nós nem flagelos, nem espinhos, nem cravos, não derramaram por nós nem uma gota de sangue, e não amar um Deus que por nosso amor desceu do céu à terra, fez-se homem, derramou todo o seu sangue à força de tormentos, e finalmente morreu de dores num madeiro para cativar os nossos corações! Mais ainda: para unir-se mais estreitamente a nós, deixou-se ficar depois de sua morte sobre nossos altares, onde se torna uma só coisa conosco para nos fazer compreender o amor ardente que nos tem: “Mistura-se conosco para que sejamos um com ele: isso é próprio dos que amam ardentemente”, diz S. Crisóstomo. E S. Francisco de Sales acrescenta, falando da santa comunhão: “Em nenhuma outra ação pode-se considerar o Salvador nem mais terno, nem mais amoroso que neta na qual se aniquila por assim dizer, e se reduz a comida para unir-se aos corações de seus fiéis”. Afetos e oração. Mas como é possível, Senhor, que eu, depois de ter sido amado por vós com finezas tais, tenha tido a ousadia de vos desprezar, como mui justamente mo lançais em rosto: “Eu criei e engrandeci uns filhos e eles me desprezaram” (Is 1,2). Eu tive coragem de voltar-vos as costas para satisfazer os meus apetites. “Lançaste-me para trás de teu corpo” (Ez 23,35). Tive ânimo para expulsar-vos de minha alma: “Os ímpios disseram a Deus: retira-te de nós” (Jó 21,14). Tive a ousadia de afligir o vosso coração que tanto me amou. Mas então devo desesperar de vossa misericórdia? Amaldiçôo os dias em que vos ofendi. Oh! tivesse eu morrido mil vezes antes, ó meu Salvador, e não vos tivesse ofendido! Ó Cordeiro de Deus, vós vos deixastes sangrar na cruz para lavar com o vosso sangue os nossos pecados. Ó pecadores, quanto não daríeis por uma gota de sangue deste Cordeiro no dia de Juízo? Ó meu Jesus, tende piedade de mim e perdoai-me; conheceis, porém, a minha fraqueza, prendei por completo a minha vontade, para que ela não se rebele mais contra vós. Expeli de mim todo o amor que não for por vós. Expeli de mim todo o amor que não for por vós. Eu vos acolho por meu único tesouro, por meu único bem: vós me bastais e não desejo outro bem fora de vós. “Deus de meu coração e minha partilha e Deus para sempre”. Ó ovelhinha amada de Deus, vós que sois a mãe do divino Cordeiro (assim a chama S. Teresa), recomendai-me o vosso Filho; vós, depois de Jesus, sois a minha esperança, pois que sois a esperança dos pecadores; nas vossas mãos coloco a minha salvação eterna. “Esperança nossa, salve”.

ÍNDICE

OPÚSCULO IV

REFLEXÕES SOBRE A PAIXÃO DE JESUS CRISTO, EXPOSTAS ÀS ALMAS DEVOTAS

Cap. I — Reflexões gerais sobre a Paixão de Jesus Cristo
Cap. II — Reflexões particulares sobre padecimentos de Jesus Cristo na sua morte
Cap. III — Reflexões sobre a flagelação, a coroação de espinhos e crucifixão de Jesus Cristo
Cap. IV. — Reflexões sobre os impropérios feitos a Jesus Cristo enquanto pendia na cruz
Cap. V — Reflexões sobre as palavras de Jesus na cruz Reflexões sobre a morte de Jesus Cristo e a nossa
Cap. VI — Reflexões sobre os prodígios havidos na morte de Jesus Cristo
Cap. VII — Do amor que Jesus Cristo nos demonstrou na sua paixão
Cap. VIII — Da gratidão que devemos a Jesus Cristo por sua paixão
Cap. IX —Todas as nossas esperanças devem ser postas nos merecimentos de Jesus Cristo
§ 1. De Jesus Cristo devemos esperar o perdão de nossos pecados
§ 2. Jesus Cristo nos dá a esperança da perseverança final
§ 3. Da esperança que temos de chegar um dia, por Jesus Cristo, à felicidade do paraíso
Cap. X — Da paciência que devemos praticar em união com Jesus Cristo, para alcançar a vida eterna

OPÚSCULO V

QUINZE MEDITAÇÕES SOBRE A PAIXÃO DE JESUS CRISTO, PARA O TEMPO QUE MEDEIA ENTRE SÁBADO DA PAIXÃO E SÁBADO SANTO

OPÚSCULO VI

MEDITAÇÕES SOBRE A PAIXÃO DE JESUS CRISTO

OPÚSCULO VII

MEDITAÇÕES SOBRE A PAIXÃO DE JESUS CRISTO PARA CADA DIA DA SEMANA

OPÚSCULO VIII

PODER QUE TEM A PAIXÃO DE JESUS CRISTO PARA ACENDER O AMOR DIVINO EM NOSSOS CORAÇÕES

18 de maio de 2024

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo Piedosas e edificantes meditações sobre os sofrimentos de Jesus

MEDITAÇÃO PARA O SÁBADO

Da crucifixão e morte de Jesus
1. Eis aí o Calvário, feito teatro do amor divino, onde um Deus morre por nós num mar de dores. Tendo Jesus aí chegado, arrancam-lhe do corpo, com violência, as vestes pegadas às suas carnes dilaceradas e o lançam sobre a cruz. O Cordeiro divino se estende sobre esse leito de morte, apresenta suas mãos aos carrascos e oferece ao eterno Pai o sacrifício de sua vida pela salvação dos homens. Eles o pregam e alçam-no na cruz. Contempla, minha alma, o teu Senhor suspenso por aqueles três duros cravos e pendente daquele madeiro no qual não encontra sossego nem repouso. Ora se apoia sobre as mãos, ora sobre os pés, mas redobra a dor na parte em que se apoia. Ah, meu Jesus, como é amarga a morte a que vos sujeitais! Eu vejo escrito sobre a cruz: Jesus Nazareno, rei dos judeus. Afora esse título de escárnio, que sinal existe de vossa realeza? Ah, esse trono de dores, essas mãos encravadas, essa cabeça traspassada, essas carnes dilaceradas, bem proclamam rei de amor. Chego-me enternecido para beijar esses pés chagados. Abraço essa cruz, na qual como vítima de amor quisestes morrer sacrificado por mim. Ah, meu Jesus, que seria de mim, se não tivésseis satisfeito por mim a justiça divina? Agradeço-vos e amo-vos.
2. Estando alçado na cruz, Jesus não encontra quem o console. Dos que o circundam, uns blasfemam e outros escarnecem dizendo: “Se és o Filho de Deus, desce da cruz”. “Salvou a outros e não pode salvar a si mesmo” (Mt 27,40-42). Nem sequer aqueles mesmos que são seus companheiros de suplício lhe demonstram compaixão, unindo-se um deles aos demais para imprecá-lo: “É um dos ladrões que estavam suspensos blasfemava-o” (Lc 23,39). Maria estava, é verdade, aos pés da cruz, assistindo com amor o Filho agonizante: a vista, porém, dessa mãe dolorosa ainda mais afligia a Jesus, vendo a pena que ela sofria por seu amor. Assim o Redentor, não encontrando conforto aqui na terra, se volta para o eterno Pai no céu. O Pai, porém, vendo-o coberto com todos os pecados dos homens, pelos quais devia satisfazer, disse-lhe: Não, Filho, eu não posso consolar-te: é preciso que até eu te abandone aos sofrimentos e te deixe morrer sem alívio. Foi então que Jesus exclamou: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Mt 27,46). Ah, meu Jesus, como vos vejo cheio de dores e tristezas. Oh! tendes razão, pensando que tanto sofrestes para ser amado pelos homens e que mui poucos vos amarão. Ó belas chamas de amor, vós que consumistes a vida de um Deus, consumi também em mim todos os afetos terrenos e fazei que eu arda somente por esse Senhor que quis sacrificar sua vida por meu amor sobre um patíbulo infame. Mas vós, ó Senhor, como pudestes morrer por mim, prevendo as injúrias que eu vos faria? Vingai-vos agora de mim, mas vingai-vos de maneira que me seja proveitosa: concedei-me uma tão grande dor, que me faça sempre chorar os desgostos que vos dei. Vinde, flagelos, espinhos, cravos e cruz, que tanto atormentastes o meu Senhor, vinde ferir-me o coração e recordai-me sempre o amor que ele me consagrou. Salvai-me, ó meu Jesus, salvai-me, concedendo-me a graça de vos amar, pois em amar-vos consiste a minha salvação.
3. O Redentor, prestes a expirar, diz ainda com voz moribunda: “Tudo está consumado” (Jo 19,30), como se dissesse: Ó homens, tudo está acabado, realizada está a vossa redenção. Amai-me, pois, desde que não posso fazer mais coisa alguma para conquistar o vosso amor. Minha alma, olha para teu Jesus agonizante: contempla aqueles olhos obscurecidos, a face pálida, o coração que bate ainda, mas vagarosamente, o corpo que já se abandona à morte; contempla aquela bela alma que já está para abandonar seu sagrado corpo. O céu se obscurece, a terra treme, abrem-se os sepulcros, testemunhando a morte do fator do mundo. Jesus, afinal, tendo recomendado a seu Pai a sua bendita alma, expira pela violência das dores e entrega o espírito nas mãos de seu Pai bendito, depois de ter dado do coração aflito um grande suspiro e inclinado a cabeça em sinal da oferta que renovava nesse momento de sua vida por nossa salvação. Aproxima-te, minha alma, daquela cruz. Abraça os pés de teu Senhor morto e pensa que ele morreu pelo amor que te consagrou. Ah, meu Deus, a que estado vos reduziu o amor para comigo. E quem mais do que eu gozou dos frutos de vossa morte? Fazei-me compreender quão grande foi o amor de um Deus ter morrido por mim, para que de hoje em diante eu não ame a ninguém mais fora de vós. Eu vos amo, ó sumo bem, ó verdadeiro amante de minha alma: eu a entrego nas vossas mãos. Pelos merecimentos de vossa morte, fazei que eu morra a todos os amores terrenos, para que eu ame exclusivamente a vós, que unicamente mereceis todo o amor. Maria, minha esperança, rogai a Jesus por mim.