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1 de novembro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni.

XXVI - AS BEM-AVENTURANÇAS 

O Evangelho de S. Mateus no capítulo 5 excita em nossos corações os mais vivos desejos da bem-aventurança. Ele ensina em sete ou oito sentenças gravíssimas, da própria boca do Cristo, a maneira mais certa e mais breve para as alcançarmos. Ninguém me acuse de audácia ou de temeridade, se eu me preparo ainda para explicá-las. Sigo em tudo a doutrina de santíssimos e claríssimos Mestres, em particular e mais de perto o Anjo das Escolas. Não procuro mais que uma sólida e cômoda instrução para cada um de vós vos tornardes santos, e em conseqüência verdadeiramente felizes: que quer dizer: felizes pela esperança aqui na terra, felizes perfeitamente no Céu.
1. - O que são as Bem-aventuranças
Estas sentenças evangélicas - cada uma das quais divididas em duas partes - na primeira parte contêm obras as mais excelentes de virtudes, e propriamente de dons do Espírito Santo, como merecimentos e causas mais próximas de verdadeira Bem-aventurança; e na outra contêm prêmios e Bem-aventuranças correspondentes a estes merecimentos e a estas causas: e por isto justamente se dizem Bem aventuranças.
2. - Quais são
Deus mesmo abre sua boca para enunciá-las. Ouçam as almas das meus irmãos que são filhas de Deus; reflitam-nas com toda a visão mais aguda do seu espírito, atentem dócil o ouvido do seu coração. Bem-aventurados os que têm coração de pobre, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os mansos porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que choram porque serão consolados. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os corações puros, porque verão a Deus. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. Bem aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. (Mt 5, 2-12). Esta última, não tanto um novo grau de perfeição, quando uma confirmação e um sinal dos sete precedentes, que formam como que uma escada para colocar a felicidade, justo prêmio aos verdadeiros merecimentos. Explicaremos agora brevemente: primeiro a natureza destes prêmios; depois a ordem dos méritos de que são causa; enfim a correspondência entre estes prêmios e estes merecimentos.
3. - A natureza dos prêmios 
Quanto aos prêmios, S. Agostinho faz saber que não só dizem respeito à vida futura, onde constituirão uma perfeita bem-aventurança, mas que podem pertencer também à vida presente onde o justo começa de qualquer modo a participar da Bem-aventurança. De fato Reino dos Céus - "porque deles é o reino dos céus" - pode significar também um princípio de perfeita Sabedoria segundo o
qual nos justos começa a reinar o espírito. Possuir a terra -"possuirão a terra" - significa o bom afeto de uma alma que se repousa com o desejo na estabilidade da herança perpétua compreendida pela "terra". São além disso os Justos consolados - "serão consolados" - ainda nesta vida, participando o Espírito Santo que é chamado Paráclito - isto é Consolador. Serão ainda nesta vida saciados "serão saciados" - por aquele alimento do qual diz o Senhor: "Meu alimento é fazer a vontade do meu Pai"
(Jo 4, 34). Nesta vida ainda conseguem misericórdia: "alcançarão misericórdia". Também nesta vida com olho purificado pelo dom da inteligência pode-se de alguma maneira ver Deus: "verão a Deus". Igualmente nesta vida aqueles que pacificam os movimentos do seu ânimo aproximando-se assim da semelhança com Deus, são chamados "filhos de Deus". Esta é verdadeira, a mais sólida, a mais perfeita felicidade, ou seja bem-aventurança a que possa aspirar o homem racional e cristão
sobre esta terra. Se todos gostam naturalmente de ser felizes, quem não gostará agora de sentir explicada a ordem das causas e dos merecimentos desta verdadeira bem-aventurança?
4. - A ordem dos merecimentos que são causa dos prêmios 
Primeiro é preciso, porém, saber com S. Tomás, ter sido constituída por alguns a Bem-aventurança principalmente em três coisas. Por muitos no prazer; por alguns no agir; por outros, enfim, no contemplar. Estas três bem-aventuranças têm um relacionamento muito diverso em relação à Bem-aventurança futuro, de cuja esperança nós agora somos chamados bem-aventurados. A felicidade dos prazeres, como é falsa e contrária à razão, é impedimento à futura, verdadeira, substancial felicidade, à Bem-aventurança que está em agir serve de disposição à futura bem aventurança. A felicidade da vida contemplativa, se for perfeita, é substancialmente a bem-aventurança futura; se imperfeito, é um certo início e princípio daquela.
5. - A ordem dos merecimentos nas Bem-aventuranças em particular
a - As três primeiras Bem-aventuranças
Cristo Senhor colocou antes algumas bem-aventuranças que tirassem o impedimento da falsa bem-aventurança dos prazeres. A vida agradável resulta de duas coisas: primeiro da afluência dos bens
externos, sejam estes riquezas ou honras. Daí como primeira bem-aventurança S. Mateus coloca a pobreza em espírito : "Bem-aventurados os que têm coração de pobre"; o que se pode entender assim do desprezo de toda riqueza, como do desprezo das honras que nascem da humildade. A vida agradável em segundo lugar consiste em seguir as próprias paixões, ou sejam do irascível, ou do concupiscível. De seguir o irascível Cristo nos quer tirar por meio da mansidão: "Bem-aventurados os mansos" querendo com isso tornar o homem, não só moderado no seu irascível segundo as regras da razão, mas ainda, segundo a vontade divina, totalmente tranqüilo destas paixões. Do seguir pois as paixões do concupiscível Cristo nos retrai com ensinar-nos não só a moderá-las pela virtude e a rejeitá-las mesmo com a força, mas até mesmo assumir, quando necessário fosse, uma tristeza voluntária para extinguir de fato toda sua doçura: Bem-aventurados os que choram", que é a terceira bem-aventurança.
b - Quarta e quinta Bem-aventuranças
A vida ativa está particularmente naquelas coisas, que nós fazemos ao próximo sob a razão do dever ou do benefício espontâneo. A cerca do dever de justiça é a quarta Bem-aventurança, que nos persuade não só a não recusar dar ao próximo o que devemos, mas ainda nos induz a fazer isto com tal desejo e fervor que procuremos cumprir todas as obras de justiça, como um faminto e um sedento procura e deseja com ferventes desejos o alimento e a bebida: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça". Quanto pois aos benefícios espontâneos da caridade, a quinta Bem aventurança
nos ensina não só a ser liberais - que é dar àqueles aos quais a reta razão inclina a dar, como aos amigos e parentes; - mas além disso a ser misericordiosos, que é considerar naqueles que beneficiamos só a necessidade em vista de Deus, conforme o que diz S. Lucas: "Quando estiverdes para fazer um banquete, não convideis só vossos amigos ou irmãos, mas convidai os pobres" (13,
12-13) e isto é misericórdia: "Bem-aventurados os misericordiosos".
c - Sexta e sétima Bem-aventuranças
Aquelas coisas, pois, que pertencem á vida contemplativa, ou são a própria bem-aventurança final, ou são um princípio dela. Por isso nas Bem-aventuranças seguintes não existe lugar para méritos, mas para prêmios. São bem postos como merecimentos os efeitos da vida ativa com que o homem se dispõe à contemplativa. Quanto às virtudes e dons que aperfeiçoam o homem em si mesmo, efeito da vida ativa é a "pureza do coração", assim que não será contaminado pelas paixões; daí a sexta Bem-aventurança: "Bem-aventurados os corações puros". Quanto pois às virtudes e dons que aperfeiçoam o homem em relação ao próximo, efeito da vida ativa é a paz, segundo o que disse Isaías: "A justiça produzirá a paz" (32, 17). E por isso a sétima Bem-aventurança se coloca: "Bemaventurados
os pacíficos". Admirável na verdade é a ordem destes merecimentos. Não o é porém menor
a correspondência do prêmio com estes merecimentos.
6. - A correspondência dos prêmios com os merecimentos 
a - As três primeiras Bem-aventuranças
Portanto, foi visto como os merecimentos das três primeiras Bem aventuranças foram postos por Cristo em contradição à falsa bem-aventurança, para afastar os homens daquelas coisas em que consiste a vida voluptuosa do prazer que o homem deseja procurando o que naturalmente ele deseja não onde se deve procurar, isto é em Deus, mas nas coisas temporais caducas; e por isso também os
prêmios das três primeiras Bem-aventuranças são colocados segundo aquilo que na felicidade terrena os homens procuram. Procuram de fato nas coisas exteriores, nas riquezas e nas honras, uma certa
excelência e abundância. Ora, importa justamente o Reino dos céus, pelo qual o homem consegue excelência e abundância dos bens em Deus. E assim o reino dos céus é prometido aos pobres pelo espírito: "Bem-aventurados os que têm coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus". Procuram os homens descomedidos na ira, nas contendas e nas guerras, adquirir segurança e repouso para si, destruindo seus inimigos. Daí o Senhor prometeu aos mansos uma segura e tranqüila posse da terra dos vivos, pelo que é significado a solidez dos bens eternos: "Bem-aventurados os mansos porque
possuirão a terra". Procuram, além disso, os homens nas concupiscências e nos prazeres do mundo uma consolação contra as fadigas e os tédios da vida presente. E por isso o Senhor promete esta consolação àqueles que chorem: "Bem-aventurados os que choram porque serão consolados."
b - Quarta e quinta Bem-aventuranças
As outras duas Bem-aventuranças pertencem às obras da vida ativa, que são obras de virtude nascidas para ordenar o homem acerca do seu próximo. Destas obras os homens se abstém por amor desordenado do próprio bem. Por isso o Senhor atribui como prêmios a estas Bem-aventuranças aquelas coisas pelas quais os homens se abstêm de praticá-las. Alguns se abstêm das obras de justiça negando dar o devido, e tirando também dos outros para enriquecer-se de bens temporais. E por isso o Senhor a quem tem fome de justiça promete a saciedade: "Bem-aventurados os que têm fonte
e sede de justiça, porque serão saciados". Outros se abstêm das obras de misericórdia para não imiscuir-se com as misérias alheias. E o Senhor aos misericordiosos promete a misericórdia para serem livres de toda miséria: "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia".
c - Sexta e sétima Bem-aventuranças
As duas últimas Bem-aventuranças são da vida contemplativa. E por isso segundo a conveniência das disposições que estão colocadas no merecimento, se tornam também o prêmio. A pureza dos alhos predispõe a ver bem. Eis aos corações puros prometida a visão de Deus: "Bem-aventurados os corações puros, porque verão a Deus". Constituir a paz em si mesmo e nos outros manifesta um homem que se faz imitador de Deus, que é o Deus da humildade e da paz. E por isso torna -se a ele
como prêmio a glória da filiação divina, que está em uma perfeita conjunção com Deus por meio de uma sabedoria consumada: "Bem-aventurados os pacíficos porque serão chamados filhos de Deus".
Eis, muito amados, a verdadeira Bem-aventurança que vós aspirais. Eis a escada para subir. Não vos resta senão subir.
7. - As Bem-aventuranças são a escada que conduz à felicidade eterna nos céus
Não, meus irmãos, não basta amar as Bem-aventuranças para possuí-las; todos as amam e poucos chegam a possuí-las. É preciso subir por esta escada que vos mostrei, que Cristo propôs, pela qual subiram os Santos. Não vos deixeis aterrorizar pelo difícil. Os grandes prêmios e as grandes honras não se dão senão às maiores empresas, filhas de um espírito grande e magnânimo. Colocadas as escadas nos muros sobe corajoso o soldado mesmo debaixo da chuva dos golpes inimigos, só para obter uma coroa de honra que em breve lhe deve apodrecer na cabeça, e afronta por isto intrépido os perigos e a morte. Que deveremos nós fazer por uma eterna Bem-aventurança? Eia, pois, soldados de Cristo; olhos para o alto. Vedes lá sobre os muros da feliz Jerusalém aquela multidão triunfal de Santos com áureas coroas na cabeça, revestidos de estolas brancas ou vermelhas, com cândidos lírios ou palmas na mão? São vossos amigos, são vossos irmãos, para ajudar com a voz dos; seus exemplos, e com o socorro de suas orações, o vosso acesso ao seu Reino. Oh! como vos desejam eles! Como esperam! Como vos chamam! Entre eles o vosso glorioso capitão Jesus, oh! como está impaciente para dividir convosco os espólios de seu triunfo! De repartir convosco a glória do seu reino, as riquezas inestimáveis e a felicíssima posse da sua perpétua herança! Ele mesmo vos colocou esta escada. Ele vos exorta para subir; vos promete toda a força da sua graça que vos conforta à subida;
ele vos estende a direita... Eis, pois, e porque a demora? Um bom passo que se dê no início de um empreendimento decide finalmente a tudo. Despojemos o nosso coração de todo apego à terra. Renunciemos ao menos com o espírito! Freemos as nossas iras; aprendamos com Ele a ser mansos e humildes de coração. Abandonemos a vã alegria, do mundo; nossa parte seja chorar nossas culpas, as
penas do nosso exílio; certo de que em breve o nosso luto se converterá em alegria que ninguém poderá jamais tirar de nós. No entanto não tenhamos sede senão da justiça, nem sejamos inclinados senão à misericórdia. Assim purificado o nosso espírito, bem depressa verá os primeiros raios da sua felicidade nascente, que difundirão a paz em nosso coração. E enquanto os olhos dirão: o Paraíso é belo; o coração franco dirá: o Paraíso é meu.

31 de outubro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni.

XXV - O CULTO EXTERIOR

Junto de certos espíritos educados nas trevas deste século as práticas externas de religião tornaram-se uma pedra de ofensa e de escândalo. Mas ninguém pode dar à Igreja de Deus outro fundamento que aquele que lhe deu o seu divino Fundador. Eis as bases firmíssimas sobre as quais foi plantada a verdadeira religião; culto interno espiritual, culto externo e sensível. Os adversários reprovam os exercícios do culto externo, negando-lhe a razão e a utilidade. Nós agora assumimos justamente provar a eles, um e outro, com evidência e com brevidade.
1. - A virtude da religião
A religião é uma virtude pela qual se rende a Deus, como soberano Patrão e Princípio de todas as coisas, um culto devido e supremo. Este culto é um testemunho da excelência divina, e uma submissão de todos nós mesmos a Deus. Não somos puros espíritos; somos compostos de alma e corpo. Deus como criou a alma, assim também formou este corpo. Se pois o meu espírito conhece o
seu Criador, os meus sentidos não testemunharão a sua grandeza? Se a minha alma sente a sua dependência daquela Primeira Causa de todo ser, porque não deverá inclinar-se também o meu corpo para adorar o seu Criador? Se a minha mente é feliz em descobrir tantas perfeições naquela feliz incompreensível Natureza, quem poderá reter a minha língua de cantar seus louvores, de relatar suas glórias, de bendizer seu nome? Sobe para o alto, eleva a mente a seu Deus. Se elevam ainda os olhos
àqueles felizes montes dos quais me virão o auxílio; (Sl 70, 1); e sem que eu perceba encontro-me com as mãos suplicantes elevadas em oração. Superabunda de consolação o meu coração em oferecer a Deus sacrifício de suave odor; exulta também de santo prazer a minha carne em exibir seus membros como hóstia viva para servir o seu Deus. "Meu coração e minha carne exultam pelo Deus vivo" (Sl 83,3).
2. - A alma da devoção é o coração
Deus é puro espírito; portanto a Ele convém um culto puramente espiritual, dizem os adversários do culto externo, abusando das palavras de Cristo à Samaritana: "Deus é espírito, e os seus seguidores devem adorá-lo em espírito e verdade" (Jo 4, 23). Mas isto não quer" dizer outra coisa senão que o interior em a principal razão, e é aquilo que se deve entender por si no culto de religião. Uma devoção externa esquecida pelo coração é um cadáver de devoção; a alma da devoção é o coração.
Não quer senão que Deus principalmente e por si busca em nós o obséquio do nosso coração; e se este falha ele recusa nossas extrínsecas adorações e louvores. "Este povo" dizia Deus queixando-se muito pela boca de um profeta, "este povo honra-me com os lábios, mas no entanto seu coração está longe de mim" (Mt 15, 8). Não quer dizer outra coisa senão que Deus abomina a hipocrisia; fingir de devoção exterior, e dentro amar o pecado; freqüentar práticas de piedade e manter ao mesmo tempo alguma amizade culpável; gastar seus bens em grandes esmolas aos pobres ou em ricas ofertas ao Templo, sem expulsar do coração aquele ídolo profano que em lugar de Deus se adora; bater no peito, enfraquecer-se com jejuns, fazer calos nos joelhos, manter a cabeça inclinada e prostrá-la em terra, sem preocupar-se em combater e sem jamais acabar com aquela paixão que nos domina; e guardando-nos com escrúpulo do mais leve defeito em público, incorrer sem a menor aversão nos maiores delitos ocultamente. Ama a Deus que primeiro nós retificamos e ordenamos a Ele o nosso
coração. Procura Deus que corresponda aos atos externos, e em todos se conforme o coração. Isto é o que entendeu Cristo e não mais, quando disse: "Deus é espírito e procura tais adoradores que o adorem em espírito e verdade. "
3. - Os atos externos são meios ordenados aos internos
Vamos à razão intrínseca da coisa, se nós prestamos a Deus reverência e honra, não é porque Deus tenha necessidade dos nossos obséquios, ou lhe sejam úteis as nossas adorações. ''Tu és meu Deus, por isso não precisas dos meus bens" (Sl 15, 2). Sim, ó meu Senhor, ó meu Deus vós sois perfeito em Vós mesmo, sois todo bem, o Sumo Bem. Não tendes necessidade dos meus bens, das minhas
virtudes, das minhas homenagens. Vós sois essencialmente feliz em Vós e cheio de glória, à qual nenhuma criatura no mundo pode acrescentar nada de seu de modo nenhum, e nem mesmo diminuir. E desta imutável felicidade do amabilíssimo e altíssimo Criador nosso nós devemos gozar Nele sempre; e de novo eu digo que nós devemos gozar, se verdadeiramente O amamos; alegrando-nos ainda que se nós O honramos e amamos, tudo isto é para nossa utilidade e pela necessidade que temos Dele. Os nossos obséquios, as nossas adorações tendem a isto: sujeitar nosso espírito a Deus. Nesta sujeição consiste todo nosso bem, toda nossa perfeição. De fato toda coisa de aperfeiçoa quando se submete ao seu superior. Assim se aperfeiçoa o aluno porque é instruído pelo mestre; assim o corpo porque é vivificado pela alma; assim o ar porque é iluminado pelo sol . Ora a mente humana para unir-se com Deus precisa da orientação das coisas sensíveis. Conduzida por esta e por esta levada devagar, poderá quase como por escadas subir e unir-se a Deus, conforme o que foi dito pelo Apóstolo: "As coisas invisíveis, tornam-se visíveis, por suas obras" (Rm 1, 20). Portanto há a necessidade de servir-se do culto divino de algumas coisas externas sensíveis e materiais, a fim
de que por estas, quase por certos sinais, chegue à mente do homem excitada pelos atos espirituais próprios da alma, com que a Deus se una. Por isso os atos internos e espirituais no culto da religião, tem o principal lugar e pertencem ao culto divino por si; os atos externos têm lugar secundário e de
meios ordenados aos internos. Este raciocínio, esta conclusão é do angélico doutor S. Tomás.(2).
4. - Deus mesmo com a obra da encarnação veio ao encontro desta exigência da natureza humana
Eis a causa porque Deus mesmo em Cristo, descendo à terra para reconciliar o mundo consigo, quis tornar-se visível na carne; para insinuar-se com o favor dos sentidos mais rapidamente em nossos corações. Institui os sacramentos, os quais debaixo dos sinais materiais e sensíveis difunde a graça e a caridade em nosso espírito, perdida a repara, possuída, a aumenta e a confirma. Cancelados os antigos sacrifícios, constitui um novo e perpétuo, e este também sensível, pelas espécies sacramentais, que, enquanto cobrem por um, lado o grande mistério, pelo outro o enriquece convenientemente.
Forma toda uma lei de espírito e de amor, a qual essencialmente consiste na graça do Espírito Santo. Mas não obstante ordena que aos internos afetos e movimentos do coração se unam os externos obséquios da língua e as obras ainda mais solene das mãos. Clama de fato o pregoeiro do Evangelho Paulo Apóstolo: "com o coração se crê para ser justificados, com a boca se deve confessar esta fé para obter a salvação" (Rm 10, 10). O próprio Legislador vai dizendo pessoalmente: "Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele,
quando vier na sua glória" (Lc 9, 26). Aquele que não se envergonhar de confessar o meu nome diante dos homens, eu o reconhecerei também diante da face do meu Pai. Que coisa mais clara que esta lei e da mente do Legislador pela necessidade de unir o exterior ao interior culto de religião?
5. - O culto externo convém à glória de Deus
Passo a indagar brevemente a utilidade Primeiramente pela glória de Deus. Levando de fato e em público as minhas adorações, manifesto a todo o mundo que Deus só merece os obséquios e as
homenagens da nossa dependência e servidão. Para este fim é mandado a nós no Evangelho: "Assim brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas boas obras, e glorifiquem vosso Pai que está nos céus" (Mt 5, 16). Eu fui beneficiado ocultamente pelo meu Deus. Não devo eu cobrir com um ingrato silêncio os seus favores secretos: "Bendirei continuamente o Senhor, seu louvor não deixará meus lábios" (Sl 33, 2). E porque os meus louvores não poderão mais adequar o seu merecimento, procurarei ao menos multiplicar-lhe porquanto eu possa, convidando também meus próximos e exaltá-lo e agradecê-lo: "Glorificai comigo o Senhor, juntos exaltemos o seu nome" (Sl 33, 4). E porque eu creio, por isto também falo (Sl 115, 10; 2Cor 4 , 1 3 ) nem mantenho prisioneira a verdade por mim conhecida em uma injusta dissimulação a quem servir é reinar, a quem seguir é glória, glória verdadeira, grande glória. "Cumprirei os meus votos para com o Senhor, na presença de todo o seu povo" (Sl 115, 14, 18).
6. - O culto externo convém à utilidade em nossos irmãos
Em segundo lugar à glória de Deus se une a utilidade de nossos irmãos. A cada um de nós encarregou o Senhor o cuidado de nosso próximo (Eclo 17, 12). Temos ouvido as vozes suavíssimas da Sabedoria eterna que nos asseguram de buscar nele a verdadeira e perfeita beatitude nossa; como poderemos nós abatermo-nos de bradar por todos os caminhos, por toda praça, e chamar e congregar os nossos semelhantes dos erros, das fadigas, das vãs dispersões do seu coração, ao forte lugar munido da paz, da alegria, da vida, verdadeira vida, vida eterna? Para fazer isto temos um preciso mandamento: "Aquele que ouve diga: "vem " (Ap 22, 17). Tomarão coragem os fracos às vozes do nosso exemplo que os precede, se nós pudermos dizer com Paulo: "Irmãos, sede meus imitadores, como eu sou de Cristo" (1Cor 4, 16). Permanecerão sustentados, confirmados pela nossa constância contra as irrisões e as ironias que do mundo se fazem á piedade. Por este motivo Cristo mesmo sofreu vilania e opróbrio. Mas os justos, os perfeitos, os santos, encontram na amostra exterior das nossas virtudes, e da nossa conversação um doce espetáculo de gáudio e de alegria, que os leva a bendizer e a agradecer o Senhor. "Visto que fomos entregues - dizia S. Paulo, antes perseguidor, antes blasfemador, depois apóstolo do evangelho - em espetáculo ao mundo, aos Anjos e aos homens" (1Cor 4, 9). E Davi também cantava: "Aqueles que vos temem alegrem-se ao me ver" (Sl 118, 74).
7. - O culto externo convém ao nosso próprio interesse
Por último se acrescenta o interesse nosso próprio em procurar com a vida externa a glória de Deus e a utilidade dos nossos próximos: "Eu glorificarei - diz o Senhor - a quem me glorificar" (1Rs 2, 30).
E quem fizer que se converta dos erros de sua vida um pecador, salvará sua alma e cobrirá a multidão dos pecados (Tg 5, 20). Mas se nós tivéssemos com os maus costumes de nossa vida passada, escandalizado alguém, seria tão mais necessário que, como fomos odor de morte, fôssemos agora odor de vida, para atrair Cristo, atrás da fragrância dos nossos exemplos aqueles que nós injustamente
desviamos, ou ao mesmo tempo que reparem sua perda e nossa culpa. Assim é certamente; e por isso vós vedes, irmãos, quanto convém unir, na religião ao culto interior também o externo.
8. - Externemos sem temor a nossa devoção
Se as práticas externas de culto não só convém, mas são intrínsecas à natureza da Religião, e ordenadas ainda, no próprio Evangelho; quem ousará mais de tomá-las como inúteis, como vãs, como supersticiosas? Certamente ninguém que ao mesmo tempo não queira declarar-se inimigo da Religião e do Evangelho. E se porém nestes dias infelizes não faltam homens ousados que se declaram contra; deveremos nós sermos tímidos ainda para declararmo-nos a seu favor? É necessário de certo modo, diz S. Paulo que hajam heresias, a fim de que aqueles que em vós são provados se manifestem (1Cor 19, 19). Sim, meus irmãos, manifestemos a nossa religião, confessemos nossa fé, externemos a nossa
devoção. Este é o momento. A glória do nosso Senhor nos exige; a utilidade do nosso próximo nos manda; o nosso próprio interesse nos empenha. Trata-se de defender a honra do nosso Pai; trata-se de sustentar a debilidade de nossos irmãos; trata-se de acrescer em nós um grande tesouro de Graça; e de cobrir com novos merecimentos de glórias as manchas passadas de nossos erros. Cedam os vãos
respeitos aos justos deveres. Não temamos os homens! Não temamos as irrisões dos homens! Temamos antes aquele que nossa alma e nosso corpo pode perder no inferno. Sustentemos na terra a causa dAquele que do alto dos céus deve vir a julgar a nossa causa, sirvamos àquele que por tantos títulos é nosso Patrão, e que bem comprou a nossa servidão servindo Ele mesmo, antes, a nós com tantas fadigas, com tantas humilhações, com tantas penas, e que enfim nos promete remunerar a
nossa servidão fazendo-nos sentar junto com Ele sobre o próprio trono da sua glória. Confundem-se os ímpios vendo crescer em nós a religião debaixo de seus olhos; e sejam obrigados a confessar, ao menos em segredo, que toda maquinação é impotente para remover aquela religião que Deus fundou.

30 de outubro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe Gaspar Bertoni.

XXIV - A DEVOÇÃO 

1. - Juízo errado da vida devota considerada só externamente
O amável Mestre Jesus Cristo aparece entre seus discípulos para consolá-los com um testemunho real da sua gloriosa ressurreição exibindo-lhes a paz: "A paz esteja convosco"; sou eu, não temais". Todavia a visão tão doce, as palavras de tanto afeto, fugiram todos aterrorizados como por um espírito de horror: "Perturbados e espantados, pensavam estar vendo um espírito" (Lc 14, 36-37).
O caso na verdade é bastante estranho, mas não tão raro também em nossos dias. Quantos não são de fato entre os cristãos modernos, que ao convite para achegar-se mais de perto ao seu Deus, - isto é, de servi-Lo no seu estado com maior perfeição - se afastam amedrontados! Sentem sim em certos tempos luzes vivas e penetrantes na mente, impulsos fortes e suaves no seu coração; mas qual!
Os penhores mais evidentes e as ofertas mais seguras de paz tornam-se para eles quase outros tantos argumentos de aviltação e de consternação, observam em suma a vida devota como um objeto de tristeza, de angustia e de horror. Assim mostram claro com suas ações a quantos erros e quantos enganos está sujeito quem quer julgar as coisas espirituais com olho terreno, antes, carnal. Eu me empenho em fazê-los ver a devoção debaixo de um aspecto tão doce, tão alegre, tão amável, que eles mesmos devem correr para abraçá-la avidamente. E, para que procedamos com melhor ordem, eu acredito ser bom não expor aos seus olhos a verdade nua, se antes não desembaraçarem aquelas trevas que lhes impedem de admirá-la. A devoção, portanto, segundo como a pintam vossos sentidos, é pálida e acidental no rosto, severa no olhar, horrorosa no semblante. Emagrece a carne por perpétuos jejuns, lacera o dorso com pesados flagelos, cobre debaixo de ásperos mantos hirsutos cilícios. Foge cortesmente das doces amizades; e inimiga de toda delícia, insensível a todo prazer, corre entocar-se entre negras solidões, onde ajoelhados imóveis no chão, parece que se alimente de lágrimas e não vive senão suspirando. Que se alguma vez aparece em público, não o faz quase senão para mendigar insultos, e voltar saciada de opróbrios.
2. - Não faltam almas generosas que abraçam a vida devota
Porém vejo com maravilha toda idade, todo sexo, toda condição, todo estado enviar seguidores atrás dela a porfia. Quantos não se viram e não se vêem ainda generosos na mais bela flor da idade e da esperança desprezar ricas e esplêndidas núpcias para oferecer a mão a ele sozinha! Quantas nobres e delicadas donzelas, desprezando as delícias e as comodidades, não voarem para fechar-se em claustro solitário para fazer-lhe tranqüila companhia! Quem se despoja inteiramente das riquezas abundantes pelo seu estado para correr mais ágil e mais livre nas pegadas desejadas para segui-la; quem se chama feliz por haver trocado as grandes honras e as dignidade mais excelsas pela mais obscura e abandonada abjeção e isto para agradar a ela somente; quem finalmente chega a depor os antepassados cetros e gloriosos diademas para inscrever-se entre seus fiéis súditos e servir obedientes  luminosos, mas também não abundam incomensuradamente as histórias de todos os séculos.
É necessário, portanto , concluir, que se encontra na devoção uma beleza, uma doçura, uma riqueza, uma alegria, uma glória, que não sabemos no primeiro momento descobrir; embora tantos a tenham amado a tal ponto de preferi-la às belezas, às delícias, aos tesouros, às honras todas do mundo. E tanto mais convém dizer que ela seja amável, enquanto que todo aquele seu exterior tão terrível não
vale nem mesmo ele para deter tantos fervorosos amantes de segui-la por um caminho assim tão áspero.
3. - A vida devota é abundante em íntimas consolações
Eis aqui, portanto, o engano. A maior parte não vê senão o exterior da devoção; mas não considera a interior consolação de que são ricos os servos de Deus, tanto mais doce, quanto mais secreta. Esta é "aquele maná escondido que ninguém conhece senão aquele que o receber" (Ap 2, 17). Esta é aquele "perpétuo banquete" (Pr 15, 15), de que goza uma alma na "segurança" e na "paz" do coração. Esta é aquela" convivência" tão doce com a não criada "Sabedoria da qual é excluído todo tédio, toda amargura" (Sb 8,16). Oh! como Deus é bom para os corações retos" (Sl 72, 1): exclama o Salmista. E em outro lugar: "Oh! quão grande é Senhor, vossa bondade, que reservastes para os que vos amam" (Sl 30, 20), para com os vossos servos!
4. - Outro juízo errado sobre a vida devota é de fazer comum que é próprio de poucos
Quanto seja grande este erro, se poderá facilmente perceber se se quiser prestar atenção a uma definição mais exata que nos propõe com S. Tomás todos os mais doutos e iluminados mestres: isto é, que a verdadeira devoção consiste essencialmente em uma vontade pronta de entregar-se a Deus e dedicar-se àquelas coisas que mais pertencem ao seu serviço (2). Ora, embora seja verdadeiro que
Deus chame todos para servi-Lo, entes possam todos, e a todos convém, desejar santificar-se em seu estado; é falso, porém que Deus queira ser servido por todos de um só modo, atendida a diferença dos estados em que são constituídos os homens pela mesma Providência. Por isso de outro modo deve ser praticada devoção por um religioso em um claustro e por um secular no coração do mundo; de outro modo porém por um Ministro sagrado nos ofícios de sua Igreja e por um pai de família no governo de sua casa; diversamente por uma Virgem que se dedica a Deus, e por uma casada que se vincula a um homem. A devoção não prejudica nenhuma sorte de vocação, antes não seria verdadeira devoção se impedisse em parle somente os deveres do próprio estado.
5. - Verdadeiro conceito de devoção
A devoção tem igualmente asas para voar ao céu, e pés para caminhar sobre a terra; e enquanto tem as mãos continuamente em movimento para trabalhar, sabe porém repousar tranqüilamente com seu coração em Deus. Tem olhos para velar,para presidir, para dirigir-se nos negócios temporais; e tem também um outro olhar mais agudo na sua mente com que jamais perde de vista o seu último fim, para conciliar-se com o divino beneplácito em toda sua ação, e para endereçar tudo à sua glória. Tem língua para falar com os homens; porém secretamente no ânimo abre suas potências interiores para jamais cessar de louvar e bendizer seu Deus. Assim trata com o mundo e conversa com seu espírito no céu; e atraindo para si por amor o seu Deus o encontra em si, o possui na abundância da paz, e goza ainda aqui na terra um outro Paraíso. Daí aquela suavidade com que esparge todas as suas
ações; daqui a invariável uniformidade do seu espírito. Nada vê nela o mundo fora de comum, nada que a distinga nos usos, nos atos nos ofícios convenientes à sua condição; e por isso se espante de ter abrigado a amar nela um não sei que de singular e de divino que não conhece. Na prosperidade não se exalta sobre os miseráveis; na adversidade não cede à tristeza. Goza da felicidade alheia como da
sua própria. Despoja-se de todo seu gosto particular, tem uma condescendência discreta ao gênio alheio, com quanto seja honesto, comunica de bom grado suas consolações a quem está em aflição de espírito. Liberal com seus amigos, benéfica geralmente com todos, sem pretensões, espera a recompensa somente do seu Deus, em quem unicamente se compraz em servir. Eu não terminaria mais de falar desta virtude. Onde estão aquelas dificuldades pavorosas que vós me apresentastes? Não vos parece que seja totalmente diferente daquela que juntastes até agora? Toda
feliz, toda doce, toda amável?
6. - Deixemo-nos dirigir pelo instinto do Espírito Santo
Agora, pois, ó amantíssimos irmãos em Cristo, que já forem tiradas, como espero, aquelas dificuldades que somente afastavam o vosso ânimo da vida devota, que mais vos resta fazer? Seguir com toda prontidão o impulso do Espírito Santo; oferecer desde este momento o vosso coração a Jesus que vô-lo pede; resolver eficazmente servir daqui para diante todos os dias de vossa vida aquele Deus que merece tão bem os vossos obséquios. Providos de ser e de vida pela sua mão criadora, fostes introduzidos no mundo unicamente para este fim; para conhecer, amar, louvar, servir o Autor de todo bem, e promover a sua glória nesta terra para merecer assim uma gloriosa recompensa e uma perfeita felicidade no Céu, gozando e possuindo o vosso Deus por todos os séculos. Vós resgatados com o sangue de um Deus; vós adotados como filhos do Rei do céu; vós feitos participantes da natureza. divina pelo hábito da graça; vós não sois mais de vós mesmos, mas de Deus, para servir só a Ele; não sois mais devedores da carne ou do sangue para ter de comprazer os maus desejos, mas ao espírito, para deixar vos dirigir docilmente ao seu instinto e aos seus ditames; já não sois mais terrenos, para que tenhais que servir ao mundo, mas celestes para agir e viver como santos. O tempo é breve; a figura deste mundo logo terminará. Nós no entanto a grandes passos cada dia nos aproximamos de uma estável eternidade. Tudo aquilo, pois que devemos fazer, convém fazê-lo logo e com grande pressa. Esperamos talvez que nos colha a noite, para, começar a agir? Esperamos que chegue o Esposo, para suprir de óleo nossas lâmpadas já quase apagadas? Esperamos que nos chamem para as núpcias, para tecer então o pano para a veste nupcial? "Eis que venho logo" nos faz saber o Patrão e o Esposo; "Eu estou aqui perto de vós, e comigo trago minha recompensa" (Ap 22, 12). Feliz será aquela alma que estiver bem enfeitada e disposta para acolhê-lo. "Vem, ela ouvirá, vem, minha esposa, recebe a coroa que o teu Senhor te preparou desde toda a eternidade" (3). "Muito bem, lhe dirá pois, servo bom e fiel, já que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito; vem regozijar-te com teu Senhor" (Mt 25, 21, 23).

29 de outubro de 2014

Sermão para a Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei – Padre Daniel Pinheiro

[Sermão] O remédio é o reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo

Aviso dado pelo Padre antes da Missa: Se houver reeleição da candidata à presidência, não deve haver desespero. Se houver a eleição do candidato, não se deve achar que tudo está resolvido. Em ambas as hipóteses, será preciso continuar o árduo combate pelo reino de Cristo sobre a sociedade e sobre nossas famílias.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
“Que os governantes das nações vos honrem publicamente, que os magistrados e juízes vos reverenciem, que as leis e as artes exprimam vossa realeza.” (Hino de Vésperas)
A Festa de Cristo Rei, caros católicos, foi instituída por Pio XI no ano santo de 1925 pela Encíclica Quas Primas. No calendário tradicional, ela se celebra no último domingo de outubro e não no último domingo do ano litúrgico, para deixar claro que Nosso Senhor não é Rei somente no final dos tempos ou na sua última vinda, mas que Ele é Rei desde já, aqui e agora. Antes da instituição da Festa de Cristo rei, havia festas em que o reinado e a realeza de Nosso Senhor eram relembrados – Epifania, Domingo de Ramos –  mas não de forma explícita e direta. O Papa Pio XI quis, então, criar a Festa de Cristo Rei, em que o reinado de Cristo é explicitamente e diretamente reconhecido, confessado e honrado.
Pio XI, na Encíclica Quas Primas deixa muito claro o motivo da instituição da Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei. Diz o Papa:
“Para Nós também soou a hora de provermos às necessidades dos tempos presentes e de opormos um remédio eficaz à peste que corrói a sociedade humana. Fazê-mo-lo, prescrevendo ao universo católico o culto de Cristo-Rei. Peste de nossos tempos é o chamado “laicismo”, com seus erros e atentados criminosos. Como bem sabeis, Veneráveis Irmãos, não é num dia que esta praga chegou à sua plena maturação; há muito, estava latente nos estados modernos. Começou-se, primeiro, a negar a soberania de Cristo sobre todas as nações; negou-se, portanto, à Igreja o direito de doutrinar o gênero humano, de legislar e reger os povos em ordem à eterna bem-aventurança. Aos poucos, foi equiparada a religião de Cristo aos falsos cultos e indecorosamente rebaixada ao mesmo nível. Sujeitaram-na, em seguida, à autoridade civil, entregando-a, por assim dizer, ao capricho de príncipes e governos. Houve até quem pretendesse substituir à religião de Cristo um simples sentimento de religiosidade natural. Certos estados, por fim, julgaram poder dispensar-se do próprio Deus e fizeram consistir sua religião na irreligião e no esquecimento consciente e voluntário de Deus.”
O Papa enumera, em seguida, os frutos trágicos dessa apostasia dos indivíduos e dos estados. Alguns desses frutos são os germes de ódio esparsos por toda parte, as invejas e rivalidades entre nações. Frutos desta apostasia são as ambições desenfreadas, que muitas vezes se encobrem com a máscara do interesse público e do amor da pátria, e suas tristes consequências: dissensões civis, egoísmo cego e desmedido, sem outro objetivo nem outra regra mais que vantagens pessoais e proveitos particulares. Fruto desta apostasia é a perturbação da paz doméstica, pelo esquecimento e desleixo das obrigações familiares, o enfraquecimento da união e estabilidade no seio das famílias, e por fim o abalo na sociedade toda, que ameaça ruir.
Dizia isso o Papa em 1925. Quase um século depois, vemos muito concretamente todos esses frutos lamentáveis e muitos outros que talvez o Santo Padre nem tenha imaginado. Ao mal do laicismo deve-se opor, então, o reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Cristo é Rei não somente dos indivíduos, mas também das sociedades, das nações, dos estados.
Ele é Rei porque é Deus. Mas Ele é Rei também enquanto homem, em virtude da união hipostática com o Verbo e porque lhe foi dado pelo Pai todo poder no céu e na terra. Ele é Rei também por direito de aquisição, por ter derramado seu sangue na cruz e nos ter redimido. O Reinado de Cristo não é um reinado meramente individual, mas é um reinado social igualmente.
Toda criatura deve se submeter ao criador, ou seja, a Deus, a Nosso Senhor Jesus Cristo. A sociedade civil, o estado, é também uma criatura, saída das mãos de Deus. Deus criou o homem como um animal social, como um ser que precisa viver em sociedade para prover com perfeição às suas necessidades. Assim, ao criar o homem, Deus criou também a sociedade. Como toda criatura o estado deve reconhecer o soberano domínio de Deus e se submeter ao soberano domínio de Deus, de Nosso Senhor Jesus Cristo.
O estado se submete à realeza de Cristo quando os governantes honram publicamente Nosso Senhor Jesus Cristo, quando os magistrados e juízes o reverenciam, quando as leis e as artes exprimem a realeza de Cristo e se conformam às leis da Igreja, quando a verdadeira Igreja de Cristo, a Igreja católica, é reconhecida como tal.
Como nos diz Leão XIII, quando um organismo se corrompe e perece é porque ele deixou de estar sob o efeito das causas que lhe deram forma e constituição. Para fazer esse organismo saudável e florescente de novo, é necessário colocá-lo sob a influência vivificante das mesmas causas de antes. A sociedade, no seu esforço de escapar de Deus, rejeitou a ordem sobrenatural e a Revelação divina, rejeitou a Igreja. A sociedade colocou-se fora da influência do cristianismo, que é manifestamente a mais sólida garantia de ordem, o mais forte vínculo fraterno entre as pessoas, a fonte inesgotável de toda virtude, pública e privada. Ainda segundo Leão XIII, esse sacrílego divórcio – entre o Estado e a Igreja – trouxe ao mundo os problemas que agora o perturbam. Assim, é sob a órbita da Igreja que essa sociedade perdida deve entrar se ela deseja possuir novamente o seu bem, o seu repouso e a sua salvação.
Igreja e estado devem estar unidos sem se confundirem. Devem ser distintos sem separação. Quando se toca à salvação das almas, é a Igreja que tem a palavra e o estado deve se submeter a ela e às suas leis.
O remédio para a sociedade não é o simples antiesquerdismo, nem o simples antiliberalismo, tampouco a simples monarquia – que no Brasil, aliás, nunca brilhou por sua catolicidade exemplar enquanto existiu. A verdadeira solução é o reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo, que penetra a sociedade e todas as suas instituições realmente com os princípios católicos. O paganismo da antiguidade – e que já revive em nossos tempos com matizes ainda piores – não foi extirpado por uma doutrina humana, nem por um monarca, mas pela Igreja e pela submissão paulatina da sociedade a Cristo Rei e à sua Igreja.
E esse reinado de Cristo deve começar na nossa alma pelo fato de vivermos na graça divina. Ele deve começar pelas famílias, com o Sagrado Coração entronizado nos lares não só em uma cerimônia, mas efetivamente. Que as famílias tenham Jesus Cristo como o rei do lar e se submetam ao seu jugo suave e leve.
 A festa de Cristo Rei deve nos dar, caros católicos, a mais viva esperança de acelerarmos a tão desejada volta da humanidade a seu Salvador amantíssimo. Devemos fazer também a nossa parte. A Festa de Cristo Rei é, pelas circunstâncias atuais de nossa sociedade, das mais importantes em nossos tempos, caros católicos, e por isso a celebramos com grande solenidade e devoção, para reconhecermos o reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo e para o buscarmos em nossas vidas, em nossas famílias e nos ambientes em que vivemos. O Reinado social não será restaurado de uma hora para outra. Ele virá pela nossa conversão a Nosso Senhor Jesus Cristo.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

28 de outubro de 2014

Sermão para a Festa de São Pedro de Alcântara – Padre Daniel Pinheiro IBP

[Sermão] Questões atuais e a fidelidade a Nosso Senhor Jesus Cristo

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
“A boca do justo destilará a sabedoria e a sua língua falará a justiça. A Lei do seu Deus está fixa em seu coração e seus passos não vacilarão.”
Caros católicos, seria uma alegria, para mim, poder falar desse grande Santo, de quem hoje comemoramos a festa: São Pedro de Alcântara. Exemplo de oração, de penitência, de humildade, de fidelidade a Nosso Senhor Jesus Cristo. Todavia, não estamos aqui para fazer os nossos gostos, mas para fazer a vontade de Deus. E conhecemos a vontade de Deus também pelas circunstâncias do momento. E as circunstâncias do momento nos fazem tratar do Sínodo sobre a Família, ocorrido nas últimas duas semanas no Vaticano. As circunstâncias nos fazem voltar, mais uma vez, ao tema da família, do matrimônio. Tema central. A família, a única família que existe: homem e mulher unidos por um vínculo indissolúvel e exclusivo, com os filhos que Deus se dignar mandar é a base da sociedade. É a família que o demônio e o mundo, inimigos de Deus, querem destruir, para não sobrar pedra sobre pedra, para não sobrar meio por onde começar a reerguer a sociedade, para não sobrar meio por onde restaurar tudo em Cristo. Diante desse combate tremendo, caros católicos, é hora de acabar com as picuinhas, com as desavenças nas famílias e começar a formar lares que realmente sejam espelho daquele lar de Nazaré. É preciso que, em meio a todas as dificuldades, mesmo as maiores, os cônjuges carreguem juntos as cruzes para que possam chegar juntos ao céu. Foi para isso que casaram. Que os lares de nossas famílias sejam lares tementes a Deus, onde o que impera é a lei de Cristo Rei, onde o que impera é o Sagrado Coração de Jesus.
Mas voltemos ao Sínodo, caros católicos, porque é nosso dever tratar disso. Esse Sínodo extraordinário sobre a família ocorreu nas duas últimas semanas. Na primeira semana, houve as intervenções dos membros do Sínodo. Na segunda semana, os mesmos bispos se reuniram em grupos formados em função da língua para discutir pontos mais precisos e, depois, votar o relatório final do Sínodo. Ocorre que, no final da primeira semana – segunda-feira, dia 13 – foi publicado um relatório pós-discussão. Esse relatório continha enormidades. Impensável que um documento com tamanhos erros possa ter saído de uma reunião de bispos católicos. Depois, descobriu-se que o documento não correspondia exatamente ao pensamento da maior parte dos bispos, mas foi uma manobra de uma poderosa minoria desejosa de criar um novo Evangelho, diferente do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ao ponto de o presidente da Conferência Episcopal da Polônia dizer que esse documento era inaceitável. Ao ponto de um Cardeal Africano, Napier, dizer que o documento era irredimível, porque toda a mídia divulgou o documento como se fosse isso que a Igreja estivesse dizendo em definitivo. Ao ponto de grupos pró-vida afirmarem que se tratava de uma traição à família, e à lei natural. O documento afirmava os pretensos pontos positivos do casamento puramente civil e dos amasiamentos, contra a doutrina clara de Nosso Senhor Jesus Cristo. O documento afirmava a aceitação e a valoração ou valorização da orientação homossexual, contra ensinamento claro da Igreja em sua Orientação no cuidado pastoral das pessoas homossexuais, dada pela Congregação da Doutrina da Fé em 1986. Essa orientação dizia o seguinte: “a particular inclinação da pessoa homossexual, embora não seja em si mesma um pecado, constitui, no entanto, uma tendência, mais ou menos acentuada, para um comportamento intrinsecamente mau do ponto de vista moral. Por este motivo, a própria inclinação deve ser considerada como objetivamente desordenada.”  O documento favorecia também a contracepção. Enfim, um colapso, um novo “Evangelho”. Felizmente, houve, de grande parte dos bispos, fidelidade ao ensinamento de Cristo nesses pontos. Para o relatório final do Sínodo, os parágrafos relativos a isso foram mudados para melhor, mas, ainda assim, foram recusados, pois não atingiram os dois terços exigidos para aprovação. Assim, o relatório final do sínodo, embora não seja perfeito, é completamente diferente do relatório intermediário. Todavia, teremos, no próximo ano, outro sínodo sobre a família. A batalha continua. Esse documento não era, evidentemente, um ato do magistério infalível e nem mesmo um ato de magistério. Todavia, o prejuízo para as almas é enorme. Quantas pessoas agora pensam, por causa desse documento, que a Igreja aceita e incentiva todos esses pecados? Por mais que o relatório final tenha rejeitado essas concessões ao espírito do mundo e ao pecado, os efeitos nocivos são muito grandes.
Não faz muito tempo, caros católicos, falamos aqui sobre o modernismo, e sobre como ele leva a Igreja a adaptar-se ao mundo, ao pensamento do dia. Talvez o sermão tenha sido um pouco abstrato. Nessa semana, nós vimos na prática o modernismo em ação, tentando adaptar a Igreja ao mundo, às ideologias da hora presente. Tanto é assim que o relatório intermediário não trazia citação da Sagrada Escritura ou dos Padres da Igreja ao tratar dos problemas que mencionamos. Claro, não há base nenhuma para essa nova moral ou essa nova pastoral. Por isso, por essa falta de base, os fautores das mudanças e adaptações não dirão: “queremos mudar a doutrina.” Eles dirão: “queremos soluções pastorais.” Mas essas soluções pastorais, caros católicos, propostas por eles são contrárias à doutrina. Como se aplica na prática algo contrário à doutrina? É impossível. Mudando a prática, pouco a pouco, mudarão as mentalidades. E é isso que querem: mudar as mentalidades: para que se aceitem o divórcio e o adultério, para que se considerem normal a orientação homossexual e as uniões desse tipo. Nós terminamos pensado como agimos, caros católicos. Se agimos contra a doutrina de Cristo, vai chegar um momento em vamos desprezar a doutrina de Cristo. Querem uma mudança de pastoral contrária à doutrina – o que é absurdo – para mudar as mentalidades – o que ainda é mais absurdo. Não existe separação entre doutrina e pastoral. A pastoral não deve esquecer a doutrina. E a doutrina em todos esses pontos é clara.
Outro grande erro é achar que ainda se pode discutir na Igreja sobre esses assuntos. Não, esses assuntos já estão definidos pela Igreja, pelos seus ensinamentos bi milenares, recebidos de Cristo. Na Igreja, não se pode discutir sobre aquilo que já está definido. Fazê-lo é um grande erro e supor uma possível mudança quanto a esses aspectos. É um erro contra a fé, um pecado contra a fé.
Recorramos também à História, caros católicos. São João Batista foi decapitado por defender o verdadeiro matrimônio, contra o adultério de Herodes. Toda uma nação, a Inglaterra, separou-se da Igreja católica porque o rei Henrique VIII queria anular seu casamento sem ter motivo para isso, a fim de casar de novo. O Papa recusou porque não tinha fundamento para declaração de nulidade. São João Batista ou o Papa poderiam ter dito: não é o ideal, mas é um passo no bom caminho. Não fizeram porque não é um passo no bom caminho, mas, sim, uma ofensa a Deus. A Igreja sempre foi firme nessas questões, chegando ao ponto de ter de sofrer a perda de toda uma nação, mas sem ceder naquilo que nos foi ensinado por Nosso Senhor Jesus Cristo.
Nessas situações complicadas, é preciso exercer a misericórdia. Mas a misericórdia não é fazer da Igreja uma casa que acolhe e aceita tudo, como se tudo tivesse um aspecto positivo e isso bastasse. A Igreja exerce a sua misericórdia buscando efetivamente tirar as pessoas da miséria, isto é, do pecado, dando para elas os meios para sair do pecado: distribuindo a graça de Deus, fazendo suas orações, pronta para perdoar todo e qualquer pecado, desde que a pessoa esteja disposta a se converter. A Igreja ama os homens e por isso mesmo quer que eles alcancem o céu, o que só pode ser feito quando se observa a vontade de Deus, ou seja, quando se observam os mandamentos. É crueldade fazer a pessoa acreditar que a sua alma está em bom estado quando na verdade ela se encontra em pecado mortal. É crueldade fazer que uma pessoa que vive em concubinato pense que está tudo bem, que há pontos positivos nessa união não matrimonial e que isso basta. A Igreja é boa e, por isso mesmo, ensina a verdade, o que é obra valiosíssima de misericórdia espiritual.
O problema é que tudo hoje se centra no homem e não mais em Deus. Nós vemos isso muito concretamente, como dizia o Cardeal Burke em uma de suas recentes entrevistas, na reforma litúrgica ocorrida na Igreja. A liturgia nova é um sintoma desse antropocentrismo. E esse antropocentrismo se manifesta e vai se manifestar em outros aspectos da vida da Igreja e a consequência será tentar dobrar a Igreja ao gosto de cada indivíduo, para que ele se sinta bem.
Nós vivemos há 50 anos o abandono da doutrina católica para adaptar a Igreja ao homem, ao mundo. Esse abandono da doutrina leva também, ainda que lentamente, ao abandono da moral. A doutrina católica é una. Se um ponto é negado, todo o edifício vai desabar. O abandono de uma verdade leva ao colapso de tudo. O abandono do dogma leva ao desmoronamento da moral. A moral se apoia na doutrina e não subsiste muito tempo sem ela. Hoje, nós estamos chegando nesse ponto, na negação dos primeiros princípios da moral católica: negação do matrimônio indissolúvel e exclusivo entre homem e mulher.
Haveria ainda muito a dizer sobre o assunto, caros católicos. Se a segunda-feira, com o relatório intermediário, foi um dia de choro, e de lamentação, e de tristeza profunda para o católico, como Jeremias diante de Jerusalém abandonada e pisada pelos inimigos, o sábado, com o relatório final, foi um dia de esperança, sob a proteção de Nossa Senhora.
Lembremo-nos das palavras de São Paulo aos Coríntios, capítulo 6: “Não vos enganeis: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos… hão de possuir o reino de Deus.” É esse o ensinamento de Cristo. Que não muda.
Lembremos a doutrina e a prática católica. A comunhão dos divorciados recasados seria a destruição completa da moral sexual católica. Os divorciados recasados são os católicos casados na Igreja, em seguida divorciados que, depois, se juntaram com outra pessoa e vivem como se casados fossem. A comunhão aos divorciados recasados seria a autorização de uma relação extraconjugal, com o casamento anterior que ainda existe. Além disso, com essa comunhão aos divorciados recasados, se destroem três sacramentos: o sacramento de matrimônio, da comunhão e da confissão. É destruído o sacramento do matrimônio porque a comunhão dos divorciados recasados iria contra a indissolubilidade e a exclusividade do matrimônio. É destruído o sacramento da comunhão porque se admitiria à comunhão alguém que está objetivamente em estado de pecado mortal. É destruído o sacramento da confissão porque a pessoa não estaria obrigada a confessar um pecado mortal e corrigir-se dele para poder receber o perdão divino. E, com isso, se abrem as portas para tudo. Se é possível fazer isso com esse pecado mortal, por que não é possível com outros? A comunhão aos divorciados recasados nunca foi, não pode ser, nem nunca será condizente com a doutrina e a pastoral de Cristo sobre o matrimônio. Diga-se o mesmo com os chamados eufemisticamente novos modelos de família. Existe um só modelo de família: pai, mãe, e filhos. Não se pode servir a dois senhores, a Cristo e ao mundo. É preciso servir a Cristo. Para os divorciados recasados, há apenas duas soluções possíveis. Ou se separam. Ou, se já possuem filhos que ainda precisam ser criados, devem viver como irmãos. Com a graça de Deus, é possível.
Lembremo-nos, caros católicos, de que a nossa luta é contra as potestades infernais. Devemos vigiar e orar. Não devemos recorrer a soluções fáceis e erradas, como seria dizer: o Papa Francisco não é o Papa. Sim, é ele o Papa, infalível somente sob certas condições bem precisas. Recorramos àquela que é nossa vida, a nossa doçura e a nossa esperança: Maria. E, pela nossa pátria, recorramos também a São Pedro de Alcântara.
Peço que rezem, caros católicos, pelos pastores. Em primeiro lugar pelo Santo Padre, o Papa Francisco. Também pelos bispos e pelos padres, também por esse que aqui vos fala. Rezem, rezem muito pelo clero, para que seus membros possam transmitir aquilo que receberam do Senhor. Se o clero é bom, muda a face da terra. Se o clero é ruim, destrói tudo. Rezemos muito a Nossa Senhora.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

27 de outubro de 2014

Sermão para a Festa de Nossa Senhora Aparecida 1 – Padre Daniel Pinheiro IBP

[Sermão] Os deveres dos brasileiros na devoção à Nossa Senhora Aparecida

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria.

ND-Aparecida-patrona-BrasiliaeCaros católicos, desde o seu descobrimento pelos portugueses, Maria, Mãe de Deus e nossa, é venerada no Brasil. Quis, porém, a divina providência, que dispõe todas as coisas com suavidade e força, segundo a sua sabedoria, que um episódio no Rio Paraíba, no interior do estado de São Paulo, incrementasse ainda mais essa devoção filial dos brasileiros por Nossa Senhora. Em 1717, três pescadores, Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso, pescavam, sem sucesso, havia longas horas. Eis, então, que João Alves lançou mais uma vez a rede e colheu, do fundo do Paraíba, o corpo de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Em seguida, lançando mais abaixo novamente a rede, colhe a cabeça dessa mesma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Tendo guardado as duas partes da imagem com cuidado, continuaram a pesca, com grande sucesso, ao ponto de terem que parar para não naufragarem, tal a quantidade de peixes. Que esteja aí o dedo de Deus, não há muita dúvida. Maria Santíssima, por meio da veneração dessa imagem encontrada decapitada no fundo de um Rio, começou a conceder favores, graças, milagres aos que vinham venerá-la. Construiu-se um oratório. A devoção foi se espalhando na região e em todo o país. Cada vez mais pessoas recebiam os favores de Nossa Senhora da Conceição, que recebeu o nome de Aparecida, Nossa Senhora da Conceição Aparecida. No ano de 1900 tiveram início as peregrinações diocesanas ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida. No dia 8 de setembro de 1904 a imagem veneranda foi coroada por ordem do Santo Padre, que era São Pio X. Estavam aí os representantes do clero, um grande número de fiéis e mesmo o presidente da república estava representado.  Foi, porém, somente em 1930, em 16 de julho, Festa de Nossa Senhora do Carmo, que o Papa Pio XI decretou Nossa Senhora Aparecida como padroeira principal de todo Brasil. Pouco tempo depois, em 31 de maio de 1931, O cardeal Leme consagrou o Brasil a Nossa Senhora Aparecida, com as mesmas palavras que iremos utilizar após a Missa para entregar o Brasil nas mãos de Maria.
Nossa Senhora, sob o título de Aparecida, é, então, padroeira de nossa pátria. E, como padroeira, Maria Santíssima tem, se podemos assim dizer, certas obrigações para conosco. E nós temos nossas obrigações para com ela. Maria, como Padroeira do Brasil, intercede por ele, nos alcança graças, vigia sobre nosso povo, nossas famílias. Todavia, Nossa Senhora, não pode nos ajudar mais do que queremos ser ajudados. Precisamos, então, nós cumprir os nossos deveres de súditos de Maria Santíssima, para que ela possa nos procurar maiores favores, maiores graças, e a restauração de nosso país como uma sociedade católica, como é a sua vocação desde a providencial colonização portuguesa. Se em nosso país a derrocada ainda não foi completa (por exemplo, com a instauração de uma ditadura anticristã, ou com a aprovação plena do aborto), é unicamente em virtude da mão protetora de Nossa Senhora Aparecida. Apesar da infidelidade nossa, apesar da infidelidade da maior parte de nós brasileiros e dos nossos chefes, Nossa Senhora ainda tem nos preservado de males maiores. Nossa Senhora não deixa de cumprir, como Padroeira, aquilo que é o seu dever. Precisamos, também nós, caros católicos, cumprir nossos deveres para com a nossa padroeira. Se cumprirmos nossos deveres para com Maria, ela poderá nos ajudar realmente como quer, como deseja, nos conduzindo à santidade e ao céu.
Precisamos fazer a nossa parte, precisamos reconhecer Maria como padroeira da nossa pátria não somente em teoria, mas também na prática. Nosso primeiro dever é recorrer a ela, rezar a Nossa Senhora Aparecida, para que ela proteja o Brasil e para que faça que nosso caro país se submeta às leis de Cristo e da sua Igreja. Rezar, invocar Nossa Senhora Aparecida pelo país, mas também pelas famílias, pois um país não é um ente abstrato, mas é formado pelas famílias que o compõem, por nossas famílias. Peçamos a Nossa Senhora Aparecida, então, pelas famílias, pelas nossas famílias em primeiro lugar, e peçamos que ela reine sobre as famílias, juntamente com o Sagrado Coração de Jesus. Rezar pelas famílias, mas também pelos governantes. Não se enganar nem ofender a Deus, pensando que nem adianta rezar por tal ou tal governante. Não tenham dúvida, caros católicos, adianta e muito rezar pelos governantes, ainda que sejam os mais iníquos. Deus, se Ele quiser, pode amolecer qualquer coração, por mais endurecido que seja. É preciso também rezar pelo clero brasileiro, para que possa ensinar realmente a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, para que possa santificar as almas, para que posa governar o povo, dirigindo-o a Deus. Rezar pelo clero, pelas famílias, pelos governantes, pelo povo todo.
Nosso segundo dever, depois da oração, é procurar viver como dignos filhos de Maria Santíssima. Seremos dignos filhos dela se nos assemelharmos a ela, procurando imitar as suas virtudes no nosso estado de vida. Seremos dignos filhos de Maria se nos assemelharmos a Nosso Senhor Jesus Cristo. Devemos, então, procurar honrar nossa padroeira e a mãe do Brasil, nos comportando em dignos filhos dela.
Nosso terceiro dever, caros católicos, é reconhecer, com grande gratidão, todos os bens que ela nos deu. Pela intercessão dela, temos recebido todos os bens das mãos de Deus. Todo bem que recebeu e recebe o Brasil vem por meio de Nossa Senhora.
Assim dispostos, quer dizer, invocando-a, procurando imitá-la e gratos, Maria Santíssima poderá nos ajudar com abundância ainda maior e livrar nosso país dos mais terríveis erros, que rejeitam Deus e suas leis santas. Procuremos ter uma verdadeira devoção a Nossa Senhora Aparecida, caros católicos.
Na hora em que começarmos a cair no desânimo ou na desesperança, recorramos a Nossa Senhora. Também os pescadores já estavam desanimados na sua longa e estéril pesca… até encontrar Maria. Devemos ir a Maria.
Glória a vós, Maria, que esmagais as heresias e o demônio: sede nossa bondosa guia. Glória a vós, refúgio dos pecadores, intercedei por nós junto ao Senhor. Glória a vós, Maria, Senhora do Brasil sob o Título de Nossa Senhora Aparecida, tende piedade de nós e conduzi esse vosso povo ao vosso Filho, Jesus Cristo.
É preciso rezar o Terço, caros católicos. Ele é a arma da nossa esperança.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

26 de outubro de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 60ª Parte

MEDITAÇÃO V

Vida desolada de Jesus Cristo

A vida de nosso amante Redentor foi toda desolada e privada de todo o conforto. Sua vida foi aquele grande mar inteiramente amargo sem nenhuma gota de doçura ou consolação: “Grande como o mar é a tua dor” (Lm 2,13).O Senhor revelou um dia a S. Margarida de Cortona que durante sua vida inteira não experimentou uma só consolação sensível.

A tristeza que ele experimentou no jardim de Getsêmani era tão grande, que bastaria para tirar-lhe a vida, e essa tristeza ele não a sofreu só, então, mas o afligiu sempre desde o primeiro instante de sua encarnação, pois todas as penas e ignomínias que ele deveria suportar até à morte lhe estavam sempre presentes. Mas não foi tanto essa vista quanto a de todos os pecados que os homens cometeriam depois de sua morte que o afligiu sumamente durante sua vida inteira. Ele viera por meio de sua morte a tirar os pecados do mundo e a resgatar as almas do inferno; mas via que, apesar de sua morte, todas as iniqüidades possíveis seriam cometidas na terra, das quais cada uma, vista distintamente por ele, o afligia imensamente, como escreve S. Bernardino de Sena: “Ele viu em particular cada uma das culpas”. E foi essa a dor que ele tinha sempre diante dos olhos e sempre o afligia: “Minha dor está sempre na minha presença” (Sl 37,18). S. Tomás diz que a vista dos pecados dos homens e da ruína de tantas almas que se haviam de perder foi para Jesus Cristo um tormento tão grande que sobrepujou as dores de todos os penitentes, mesmo daqueles que morreram de pura dor. Os mártires sofreram grandes dores, cavaletes, unhas de ferro, couraças ardentes, mas suas dores eram sempre mitigadas por Deus com doçuras internas. Entre tantos martírios não houve um só tão penoso como o de Jesus Cristo, já que sua dor e sua tristeza foram pura dor e pura tristeza, sem mistura de consolação: “A grandeza da dor de Cristo se aprecia da inteireza da dor e da tristeza” (3 p. q. 46 a. 6). Tal foi a vida de nosso Redentor e tal foi a sua morte, inteiramente desolada. Ao morrer na cruz, privado de todo o alívio, procurava alguém que o consolasse, mas não encontrou: “Busquei alguém que me consolasse e não o encontrei” (Sl 68,21). Não encontrou então senão escarnecedores e blasfemadores que lhe diziam: “Se és o Filho de Deus, desce da cruz. Salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo” (Mt 27,40 e 42). E assim o aflito Jesus, achando-se abandonado de todos, se voltou para seu eterno Pai; vendo, porém, que até seu Pai o havia abandonado, deu um grande grito e exclamou num lamento supremo: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Mt 27,46). E assim terminou a vida nosso Salvador, morrendo como ele predisse por Davi, submergido numa tempestade de ignomínias e de dores: “Eu cheguei ao alto mar e a tempestade me submergiu”(Sl 68,3). Quando nos sentirmos desolados, consolem-nos com a morte desolada de Jesus Cristo; ofereçamos-lhe então a nossa desolação, unindo-a com a que ele inocentemente padeceu no Calvário por nosso amor.

Ah, meu Jesus, quem não vos amará, vendo-vos morrer assim desolado e consumido de dores para pagar os nossos pecados? E eu sou um dos carrascos, que tanto vos afligi durante toda a vossa vida com a vista de meus pecados. Mas já que me chamastes à penitência, concedei-me ao menos que eu participe daquela dor que sentistes das minhas culpas durante a vossa paixão. Como posso procurar prazeres, eu que tanto vos afligi com os pecados de minha vida? Não, eu não vos peço prazeres e delícias, eu vos suplica lágrimas e dor: fazei que eu viva o resto de minha vida chorando sempre os desgostos que vos dei. Abraço vossos sagrados pés, ó meu Jesus crucificado e desolado, e assim eu quero morrer. Ó Maria, Mãe das dores, rogai a Jesus por mim. 

25 de outubro de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 59ª Parte

MEDITAÇÃO IV

Jesus tratado como último dos homens

“Nós o vimos... desprezado e como o último dos homens, como o homem das dores”(Is 53,2). Foi uma vez vista na terra este grande portento: o Filho de Deus, o rei do céu, o senhor do universo, desprezado como o mais vil de todos os homens. Diz S. Anselmo que Jesus  Cristo na terra quis ser tão desprezado e humilhado que os desprezos e as humilhações que ele recebeu não podiam ser maiores. Ele foi tratado como desprezível: “Não é este o filho do carpinteiro?”(Mt 13,55); foi postergado por sua origem: “De Nazaré pode vir alguma coisa boa?” (Jo 1,46); foi tido por louco: “Tem demônio e perdeu o juízo; por que o estais ouvindo?” (Jo 10,20); foi considerado como um glutão e amigo do vinho: “Eis um homem comilão e que bebe vinho” (Lc 7,34); foi julgado feiticeiro: “É em nome do príncipe dos demônios que ele expele os demônios” (Mt 9,34); passou por herético: “Não dissemos com toda a razão que és um samaritano?”(Jo 8,48).

E na sua paixão foram-lhe feitos os maiores impropérios. Nessa ocasião foi tratado como blasfemo. Quando ele declarou que era o Filho de Deus, disse Caifás aos outros sacerdotes: “Eis, ouvistes agora mesmo a blasfêmia; que vos parece? e eles em resposta disseram: é réu de morte” (Mt 25,67). Em seguida começaram a cuspir-lhe no rosto e outros o feriam com socos e bofetadas (Mt 26,67). Cumpriu-se então a profecia de Isaías: “Eu entreguei meu corpo aos que me feriam e as minhas faces aos que me arrancavam os cabelos da barba; não virei a face aos que me afrontavam e cuspiam em mim” (Is 50,6). Foi tratado como profeta falso: “Adivinha, ó Cristo, quem me bateu” (Mt 26,68). No meio de tantas ignomínias que nosso Salvador sofreu naquela noite, aumentou-lhe o sofrimento a injúria que lhe fez Pedro, seu discípulo, renegando-o três vezes e jurando nunca o ter conhecido.

Vamos, almas devotas, procurar o Senhor naquele cárcere onde está abandonado por todos e em companhia de seus inimigos, que porfiam em maltratá-lo. Agradeçamos-lhe tudo o que sofre por nós com tanta paciência e consolemo-lo com o arrependimento das injúrias que lhe fizemos, visto que também nós pelo passado os desprezamos e, pecando, protestamos não o conhecer.

Ah, meu amável Redentor, desejava morrer de dor ao pensar que tanto amargurei o vosso coração, que tanto me amou. Esquecei-vos de tantos desgostos que vos dei, e dirigi-me um olhar amoroso, como fizestes com Pedro, depois de vos haver negado, o que o fez chorar toda a sua vida o pecado cometido.

Ó grande Filho de Deus, ó amor infinito, que padeceis por esses mesmos homens que vos odeiam e maltratam, vós que sois adorado pelos anjos, que sois uma majestade infinita, faríeis uma grande honra aos homens, permitindo-lhes que vos beijassem os pés, como então consentistes em vos tornar naquela noite o escárnio daquela canalha? Meu Jesus desprezado, fazei que eu seja também desprezado por vosso amor. Como poderei recusar os desprezos, vendo que vós, meu Deus, os suportastes por meu amor? Ah, meu Jesus crucificado, fazei-vos conhecer e fazei-vos amar.

Causa tristeza ver o desprezo que os homens mostram para com a paixão de Jesus Cristo! Mesmo entre os cristãos, quantos são os que pensam nas dores e ignomínias que esse divino Redentor suportou por nós? Somente nos últimos dias da semana santa, quando a Igreja com o plangente canto dos salmos, com a denudação dos altares, com as trevas e o silêncio dos sinos nos recorda a morte de Jesus Cristo, somente então, digo, nos lembramos da passagem de sua paixão e depois no resto do ano não pensamos mais nisso, como se a paixão de Jesus fosse uma fábula ou como se tivesse morrido por outros e não por nós. Ó Deus, quão grande será a pena dos condenados no inferno, vendo quanto padeceu um Deus para salvá-los e eles preferiram perder-se! Ó meu Jesus, não permitais que eu seja do número desses infelizes! Não o serei, porque não quero deixar de pensar no amor que me testemunhastes sofrendo tantas penas e ignomínias por mim. Ajudai-me a amar-vos e recordai-me sempre do amor que me consagrastes. 

24 de outubro de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 58ª Parte

MEDITAÇÃO III

Jesus, o homem das dores

“Varão das dores e experimentado nas enfermidades” (Is 53,3). Assim o profeta Isaías descreve nosso Redentor. Salviano, considerando os padecimentos de Jesus Cristo, escreve: “Ó amor, não sei como hei de chamar-te, se doce, se cruel, pois pareces ser ambas as coisas”. Ó amor de meu Jesus, não sei como hei de apelar-te: mui doce vos mostrastes para conosco, ó Jesus, amando-nos tanto depois de tantas ingratidões, e mui cruel para convosco mesmo, sobrecarregando-vos com uma vida cheia de dores e uma morte amarga para pagar os nossos pecados. S. Tomás escreve que Jesus para salvar-nos do inferno se submeteu à dor em grau máximo, ao vitupério em grau supremo. Bastaria que ele sofresse qualquer dor para satisfazer por nós a justiça divina; quis, porém, sofrer as injúrias mais vis e as dores mais agudas para nos fazer compreender a malícia de nossas culpas e o amor que nutria por nós em seu coração.

Dor em sumo grau: para assim poder sofrer, foi-lhe dado um corpo especial (Hb 10,5). Deus fez o corpo de Jesus Cristo propositalmente para o sofrimento e por isso criou-lhe uma carne sumamente sensível e delicada; sensível, porque sentia mais vivamente as dores; e delicada, porque era tão tenra, que qualquer golpe lhe causava um ferimento: em suma, era seu corpo sacrossanto um corpo feito de propósito para padecer. Todas as dores que sofreu Jesus Cristo até expirar estavam-lhe presentes desde o primeiro instante de sua encarnação: ele as viu todas e de boa vontade de Deus que o queria sacrificado por nossa salvação. “Então ele disse: Eis que eu venho, ó Deus, para fazer a vossa vontade” (Hb 10,9). Eis-me aqui, ó meu Deus, eu me ofereço para tudo. E foi essa oferta que nos obteve a divina graça, segundo o Apóstolo: “Por essa vontade é que temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez”(Hb 10,16). O que, porém, vos levou a sacrificar, ó meu Salvador, a vossa vida no meio de tantas dores por nossa salvação? S. Paulo responde: a isso o induziu o afeto que nos tinha: “ele nos amou e se entregou a si mesmo por nós”(Ef 5,2). Entregou-se: o amor o induz a entregar seu corpo aos flagelos, sua cabeça aos espinhos, sua face aos escarros e bofetadas, suas mãos e pés aos cravos e sua vida à morte. Quem quiser ver um homem de dores, contemple Jesus Cristo na cruz. Ei-lo aí, suspenso por esses três cravos, estando seu corpo com todo o peso pendente das chagas das mãos e dos pés atravessados; cada membro seu sofre sua dor própria e sem alívio. As três horas que Jesus passou na cruz são chamadas com razão as três horas de agonia do Salvador; pois, durante essas três horas, ele sofreu uma agonia contínua e uma dor que lhe arrancava aos poucos a vida, chegando finalmente a morrer de pura dor.

Que alma poderá ver-vos morto na cruz por ela, ó meu Jesus, e viver sem vos amar? E como pude eu viver tantos anos esquecido de vós, causando tantos desgostos a um Deus que tanto me amou? Oh! tivesse eu antes morrido e nunca vos tivesse ofendido! Ó amor de minha alma, ó meu Redentor, pudesse eu morrer por vós que morrestes por mim! Eu vos amo, ó meu Jesus, e não quero amar a mais ninguém senão a vós. 

23 de outubro de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 57ª Parte

MEDITAÇÃO XV

Para o sábado santo

Maria assiste à morte de Jesus na cruz

1. “Estava, porém, junto à cruz de Jesus sua Mãe” (Jo 19,25). Consideremos nesta rainha dos mártires uma espécie de martírio mais cruel que todo outro martírio, uma mãe vendo morrer um filho inocente, justiçado num patíbulo infame: “Estava em pé”. Desde a hora em que Jesus foi preso no horto, os discípulos o abandonaram; não, porém, sua Mãe: ela o assiste até vê-lo expirar diante de seus olhos. “Estava junto dele”.As mães fogem quando vêem seus filhos padecendo e não os podem socorrer: estariam prontas a sofrer as dores em lugar dos filhos, mas quando os vêem padecer sem poder auxiliá-los, não suportam tal pena e por isso fogem e vão para longe. Maria, não; ela vê o Filho no meio dos tormentos, vê que as dores lhe roubam a vida, mas não foge, nem se afasta, antes se encosta à cruz na qual o Filho está morrendo. Ó Mãe das dores, não me desdenheis e permiti que vos faça companhia na morte do vosso e do meu Jesus.

2.“Estava junto à cruz”.A cruz é, pois, o leito em que Jesus deixa de viver: leito de dores, em que a aflita Mãe, vê Jesus todo ferido pelos açoites e pelos espinhos. Maria observa que seu pobre Filho, pendente daqueles três cravos de ferro, não encontra repouso nem alívio: desejaria procurar-lhe algum alívio; desejaria, já que ele tem de morrer, que ao menos expirasse em seus braços; nada disso, porém, lhe é permitido. Ah, cruz, diz, restitui-me o meu Filho: és o patíbulo dos malfeitores; meu Filho, porém, é inocente.
Não vos aflijais, ó Mãe: é vontade do eterno Pai que a cruz não vos restitua Jesus senão depois de morto. Ó rainha das dores, alcançai-me a dor de meus pecados.

3. “Estava junto da cruz sua Mãe”.Considera, minha alma, como ao pé da cruz Maria está olhando para o Filho! E que Filho, meu Deus! Filho que era ao mesmo tempo seu Filho e seu Deus; Filho que desde a eternidade tinha escolhido para sua Mãe, e a havia preferido no seu amor a todos os homens e a todos os anjos; Filho tão belo, tão santo, tão amável como nenhum outro; Filho, que lhe fora sempre obediente; Filho, que era seu único amor, pois que era Filho de Deus. E esta Mãe teve de ver morrer de dores, diante de seus olhos, um tal Filho! Ó Maria, ó Mãe, a mais aflita entre todas as mães, compadeço-me de vosso coração, especialmente quando vistes vosso Jesus inclinar a cabeça, abrir a boca e expirar. Por amor deste vosso Filho, morto por minha salvação, recomendai-lhe a minha alma. E vós, meu Jesus, pelos merecimentos das dores de Maria, tende piedade de mim e concedei-me a graça de morrer por vós, como morrestes por mim. Com S. Francisco de Assis vos direi: Morra eu, Senhor, por amor de vós, que por amor de meu amor vos dignastes morrer.