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25 de outubro de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 59ª Parte

MEDITAÇÃO IV

Jesus tratado como último dos homens

“Nós o vimos... desprezado e como o último dos homens, como o homem das dores”(Is 53,2). Foi uma vez vista na terra este grande portento: o Filho de Deus, o rei do céu, o senhor do universo, desprezado como o mais vil de todos os homens. Diz S. Anselmo que Jesus  Cristo na terra quis ser tão desprezado e humilhado que os desprezos e as humilhações que ele recebeu não podiam ser maiores. Ele foi tratado como desprezível: “Não é este o filho do carpinteiro?”(Mt 13,55); foi postergado por sua origem: “De Nazaré pode vir alguma coisa boa?” (Jo 1,46); foi tido por louco: “Tem demônio e perdeu o juízo; por que o estais ouvindo?” (Jo 10,20); foi considerado como um glutão e amigo do vinho: “Eis um homem comilão e que bebe vinho” (Lc 7,34); foi julgado feiticeiro: “É em nome do príncipe dos demônios que ele expele os demônios” (Mt 9,34); passou por herético: “Não dissemos com toda a razão que és um samaritano?”(Jo 8,48).

E na sua paixão foram-lhe feitos os maiores impropérios. Nessa ocasião foi tratado como blasfemo. Quando ele declarou que era o Filho de Deus, disse Caifás aos outros sacerdotes: “Eis, ouvistes agora mesmo a blasfêmia; que vos parece? e eles em resposta disseram: é réu de morte” (Mt 25,67). Em seguida começaram a cuspir-lhe no rosto e outros o feriam com socos e bofetadas (Mt 26,67). Cumpriu-se então a profecia de Isaías: “Eu entreguei meu corpo aos que me feriam e as minhas faces aos que me arrancavam os cabelos da barba; não virei a face aos que me afrontavam e cuspiam em mim” (Is 50,6). Foi tratado como profeta falso: “Adivinha, ó Cristo, quem me bateu” (Mt 26,68). No meio de tantas ignomínias que nosso Salvador sofreu naquela noite, aumentou-lhe o sofrimento a injúria que lhe fez Pedro, seu discípulo, renegando-o três vezes e jurando nunca o ter conhecido.

Vamos, almas devotas, procurar o Senhor naquele cárcere onde está abandonado por todos e em companhia de seus inimigos, que porfiam em maltratá-lo. Agradeçamos-lhe tudo o que sofre por nós com tanta paciência e consolemo-lo com o arrependimento das injúrias que lhe fizemos, visto que também nós pelo passado os desprezamos e, pecando, protestamos não o conhecer.

Ah, meu amável Redentor, desejava morrer de dor ao pensar que tanto amargurei o vosso coração, que tanto me amou. Esquecei-vos de tantos desgostos que vos dei, e dirigi-me um olhar amoroso, como fizestes com Pedro, depois de vos haver negado, o que o fez chorar toda a sua vida o pecado cometido.

Ó grande Filho de Deus, ó amor infinito, que padeceis por esses mesmos homens que vos odeiam e maltratam, vós que sois adorado pelos anjos, que sois uma majestade infinita, faríeis uma grande honra aos homens, permitindo-lhes que vos beijassem os pés, como então consentistes em vos tornar naquela noite o escárnio daquela canalha? Meu Jesus desprezado, fazei que eu seja também desprezado por vosso amor. Como poderei recusar os desprezos, vendo que vós, meu Deus, os suportastes por meu amor? Ah, meu Jesus crucificado, fazei-vos conhecer e fazei-vos amar.

Causa tristeza ver o desprezo que os homens mostram para com a paixão de Jesus Cristo! Mesmo entre os cristãos, quantos são os que pensam nas dores e ignomínias que esse divino Redentor suportou por nós? Somente nos últimos dias da semana santa, quando a Igreja com o plangente canto dos salmos, com a denudação dos altares, com as trevas e o silêncio dos sinos nos recorda a morte de Jesus Cristo, somente então, digo, nos lembramos da passagem de sua paixão e depois no resto do ano não pensamos mais nisso, como se a paixão de Jesus fosse uma fábula ou como se tivesse morrido por outros e não por nós. Ó Deus, quão grande será a pena dos condenados no inferno, vendo quanto padeceu um Deus para salvá-los e eles preferiram perder-se! Ó meu Jesus, não permitais que eu seja do número desses infelizes! Não o serei, porque não quero deixar de pensar no amor que me testemunhastes sofrendo tantas penas e ignomínias por mim. Ajudai-me a amar-vos e recordai-me sempre do amor que me consagrastes. 

24 de outubro de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 58ª Parte

MEDITAÇÃO III

Jesus, o homem das dores

“Varão das dores e experimentado nas enfermidades” (Is 53,3). Assim o profeta Isaías descreve nosso Redentor. Salviano, considerando os padecimentos de Jesus Cristo, escreve: “Ó amor, não sei como hei de chamar-te, se doce, se cruel, pois pareces ser ambas as coisas”. Ó amor de meu Jesus, não sei como hei de apelar-te: mui doce vos mostrastes para conosco, ó Jesus, amando-nos tanto depois de tantas ingratidões, e mui cruel para convosco mesmo, sobrecarregando-vos com uma vida cheia de dores e uma morte amarga para pagar os nossos pecados. S. Tomás escreve que Jesus para salvar-nos do inferno se submeteu à dor em grau máximo, ao vitupério em grau supremo. Bastaria que ele sofresse qualquer dor para satisfazer por nós a justiça divina; quis, porém, sofrer as injúrias mais vis e as dores mais agudas para nos fazer compreender a malícia de nossas culpas e o amor que nutria por nós em seu coração.

Dor em sumo grau: para assim poder sofrer, foi-lhe dado um corpo especial (Hb 10,5). Deus fez o corpo de Jesus Cristo propositalmente para o sofrimento e por isso criou-lhe uma carne sumamente sensível e delicada; sensível, porque sentia mais vivamente as dores; e delicada, porque era tão tenra, que qualquer golpe lhe causava um ferimento: em suma, era seu corpo sacrossanto um corpo feito de propósito para padecer. Todas as dores que sofreu Jesus Cristo até expirar estavam-lhe presentes desde o primeiro instante de sua encarnação: ele as viu todas e de boa vontade de Deus que o queria sacrificado por nossa salvação. “Então ele disse: Eis que eu venho, ó Deus, para fazer a vossa vontade” (Hb 10,9). Eis-me aqui, ó meu Deus, eu me ofereço para tudo. E foi essa oferta que nos obteve a divina graça, segundo o Apóstolo: “Por essa vontade é que temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez”(Hb 10,16). O que, porém, vos levou a sacrificar, ó meu Salvador, a vossa vida no meio de tantas dores por nossa salvação? S. Paulo responde: a isso o induziu o afeto que nos tinha: “ele nos amou e se entregou a si mesmo por nós”(Ef 5,2). Entregou-se: o amor o induz a entregar seu corpo aos flagelos, sua cabeça aos espinhos, sua face aos escarros e bofetadas, suas mãos e pés aos cravos e sua vida à morte. Quem quiser ver um homem de dores, contemple Jesus Cristo na cruz. Ei-lo aí, suspenso por esses três cravos, estando seu corpo com todo o peso pendente das chagas das mãos e dos pés atravessados; cada membro seu sofre sua dor própria e sem alívio. As três horas que Jesus passou na cruz são chamadas com razão as três horas de agonia do Salvador; pois, durante essas três horas, ele sofreu uma agonia contínua e uma dor que lhe arrancava aos poucos a vida, chegando finalmente a morrer de pura dor.

Que alma poderá ver-vos morto na cruz por ela, ó meu Jesus, e viver sem vos amar? E como pude eu viver tantos anos esquecido de vós, causando tantos desgostos a um Deus que tanto me amou? Oh! tivesse eu antes morrido e nunca vos tivesse ofendido! Ó amor de minha alma, ó meu Redentor, pudesse eu morrer por vós que morrestes por mim! Eu vos amo, ó meu Jesus, e não quero amar a mais ninguém senão a vós. 

23 de outubro de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 57ª Parte

MEDITAÇÃO XV

Para o sábado santo

Maria assiste à morte de Jesus na cruz

1. “Estava, porém, junto à cruz de Jesus sua Mãe” (Jo 19,25). Consideremos nesta rainha dos mártires uma espécie de martírio mais cruel que todo outro martírio, uma mãe vendo morrer um filho inocente, justiçado num patíbulo infame: “Estava em pé”. Desde a hora em que Jesus foi preso no horto, os discípulos o abandonaram; não, porém, sua Mãe: ela o assiste até vê-lo expirar diante de seus olhos. “Estava junto dele”.As mães fogem quando vêem seus filhos padecendo e não os podem socorrer: estariam prontas a sofrer as dores em lugar dos filhos, mas quando os vêem padecer sem poder auxiliá-los, não suportam tal pena e por isso fogem e vão para longe. Maria, não; ela vê o Filho no meio dos tormentos, vê que as dores lhe roubam a vida, mas não foge, nem se afasta, antes se encosta à cruz na qual o Filho está morrendo. Ó Mãe das dores, não me desdenheis e permiti que vos faça companhia na morte do vosso e do meu Jesus.

2.“Estava junto à cruz”.A cruz é, pois, o leito em que Jesus deixa de viver: leito de dores, em que a aflita Mãe, vê Jesus todo ferido pelos açoites e pelos espinhos. Maria observa que seu pobre Filho, pendente daqueles três cravos de ferro, não encontra repouso nem alívio: desejaria procurar-lhe algum alívio; desejaria, já que ele tem de morrer, que ao menos expirasse em seus braços; nada disso, porém, lhe é permitido. Ah, cruz, diz, restitui-me o meu Filho: és o patíbulo dos malfeitores; meu Filho, porém, é inocente.
Não vos aflijais, ó Mãe: é vontade do eterno Pai que a cruz não vos restitua Jesus senão depois de morto. Ó rainha das dores, alcançai-me a dor de meus pecados.

3. “Estava junto da cruz sua Mãe”.Considera, minha alma, como ao pé da cruz Maria está olhando para o Filho! E que Filho, meu Deus! Filho que era ao mesmo tempo seu Filho e seu Deus; Filho que desde a eternidade tinha escolhido para sua Mãe, e a havia preferido no seu amor a todos os homens e a todos os anjos; Filho tão belo, tão santo, tão amável como nenhum outro; Filho, que lhe fora sempre obediente; Filho, que era seu único amor, pois que era Filho de Deus. E esta Mãe teve de ver morrer de dores, diante de seus olhos, um tal Filho! Ó Maria, ó Mãe, a mais aflita entre todas as mães, compadeço-me de vosso coração, especialmente quando vistes vosso Jesus inclinar a cabeça, abrir a boca e expirar. Por amor deste vosso Filho, morto por minha salvação, recomendai-lhe a minha alma. E vós, meu Jesus, pelos merecimentos das dores de Maria, tende piedade de mim e concedei-me a graça de morrer por vós, como morrestes por mim. Com S. Francisco de Assis vos direi: Morra eu, Senhor, por amor de vós, que por amor de meu amor vos dignastes morrer.


22 de outubro de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 56ª Parte

MEDITAÇÃO XIV


Para a 6.ª feira santa


Jesus morto pendente da cruz


1. Minha alma, levanta os olhos e contempla aquele crucificado. Contempla o Cordeiro divino já sacrificado sobre o altar da dor. Reflete que ele é o Filho dileto do eterno Pai e que morreu pelo amor que te consagrou. Vê como tem os braços estendidos para abraçar-te, a cabeça inclinada para dar-te o ósculo da paz, o lado aberto para receber-te no seu coração. Que dizes? Merece ou não ser amado um
Deus tão amoroso? Ouve o que ele te diz daquela cruz: Vê, filho, se existe no mundo quem tenha te amado mais do que eu. Não, meu Deus, não há no mundo quem tenha te amado mais do que eu. Não,
meu Deus, não há no mundo quem me tenha amado mais do que vós. Mas que poderei dar em retorno a um Deus que quis morrer por mim? Que amor de uma criatura poderá jamais compensar o amor de
seu criador morto para conquistar o seu amor?

2. Ó Deus, se o mais vil dos homens tivesse sofrido por mim o que sofreu Jesus Cristo, poderia deixar de amá-lo? Se eu visse um homem dilacerado pelos açoites, pregado numa cruz para salvar-me a vida, poderia lembrar-me disso sem me abrasar em amor? E se me fosse apresentado o seu retrato expirando na cruz poderia contemplá-lo com indiferentismo, pensando: Este homem morreu assim atormentado por meu amor e, se não me houvesse amado tanto, não teria morrido dessa maneira? Ah, meu Redentor, ó amor de minha alma, como poderei esquecer-me mais de vós? Como poderei pensar
que os meus pecados vos reduziram a um tal estado e não chorar sempre as injúrias feitas à vossa bondade? Como poderei vos ver morto de dor sobre essa cruz por meu amor e não vos amar com todas as minhas forças?

3. Meu caro Redentor, bem reconheço nessas vossas chagas e membros dilacerados outras tantas provas do terno amor que me consagrais. Já, pois, que para me perdoar não perdoastes a vós, olhai-me com aquele mesmo amor com que me olhastes uma vez da cruz, na qual morríeis por meu amor; iluminai-me e atraí para vós todo o meu coração, para que de hoje em diante eu nada mais ame fora de vós. Não per mitais que eu me esqueça de vossa mor te. Vós prometestes que, levantado na cruz, haveríeis de atrair os nossos corações. Eis aqui o meu coração, que, enternecido com a vossa morte e enamorado de vós, não quer resistir mais ao vosso chamamento: ah, atraí-o todo e tornai-o todo vosso! Vós morrestes por mim e eu desejo morrer por vós e, continuando a viver, só para vós quero viver. Ó dores de Jesus, ó ignomínias de Jesus, ó morte de Jesus, ó amor de Jesus, fixai-vos no meu coração e aí fique sempre a vossa memória a ferir-me continuamente e a inflamar-me em amor. Eu vos amo, bondade infinita, eu vos amo, amor infinito, vós sois e sereis sempre o meu único amor. Ó Maria, Mãe do amor, obtende-me o santo amor. 

21 de outubro de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 55ª Parte

MEDITAÇÃO IX


Para o domingo de ramos


Jesus leva a cruz ao Calvário


1. Publicada a sentença contra nosso Salvador, apoderam-se imediatamente dele com fúria. Arrancam-lhe novamente aquele trapo de púrpura e o revestem com suas vestes, para ser crucificado sobre o Calvário, lugar destinado para a morte dos malfeitores. “Despiram-lhe a clâmide e o revestiram com suas vestes e o conduziram para ser crucificado” (Mt 27,31). Arranjam duas rudes traves, fazem com elas às pressas uma cruz e obrigam-no a carregá-la sobre os ombros até ao lugar de seu suplício. Que barbaridade impor nos ombros do réu o patíbulo sobre o qual deve morrer. Mas assim deve ser, ó meu Jesus, pois que vós tomastes sobre vós todos os meus pecados.

2. Jesus não recusa a cruz, abraça-a até com amor, sendo ela o altar destinado para a consumação do sacrifício de sua vida pela salvação dos homens. “E levando sua cruz às costas, saiu para aquele lugar que se chama Calvário”(Jo 19,17). Os condenados saem da casa de Pilatos e entre eles se acha também nosso divino Salvador. Ó espetáculo que causou admiração ao céu e à terra: ver o Filho de Deus que segue para morrer por esses mesmos homens que a ela o condenam. Eis realizada a profecia: “E eu sou como um cordeiro que é levado para ser sacrificado” (Lm 11,19). Jesus oferecia um aspecto tão lastimoso, que as mulheres judias, ao vê-lo, não puderam deixar de chorar: “E o choravam e lamentavam” (Lc 23,27). Meu caro Redentor, pelos merecimentos dessa viagem dolorosa, dai-me a força de levar com paciência a minha cruz. Eu aceito todas as dores e desprezos que me destinais a sofrer; vós os tornastes amáveis e doces, abraçando-os por vosso amor. Dai-me força de suportá-los com paciência.

3. Contempla, minha alma, o que se passa com teu Salvador; vê como de suas chagas ainda frescas escorre o sangue, como está coroado de espinhos e carregado com a cruz. A cada movimento renovam-se as dores de todas as suas chagas. A cruz começa a atormentá-lo já antes do tempo, pisando seus ombros chagados e martelando-lhes os espinhos da coroa. Ó Deus, quantas dores a cada
passo. Consideremos também os sentimentos de amor com que Jesus vai subindo o Calvário, onde o espera a morte. Ó meu Jesus, vós ides morrer por nós. Eu vos voltei as costas no passado e quereria morrer de dor: mas no futuro não sou capaz de abandonar-vos mais, meu Redentor, meu Deus, meu amor, meu tudo. Ó Maria, minha Mãe, alcançai-me a graça de levar a minha cruz com toda a paz. 

20 de outubro de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 54ª Parte

MEDITAÇÃO VIII

Para o sábado da paixão

Jesus é condenado por Pilatos

1. Pilatos, depois de haver tantas vezes declarado a inocência de Jesus, mais uma vez a proclama, protestando ser ele inocente do sangue daquele justo (Mt 27,24), e contudo pronunciou a sentença e o condenou à morte. Oh! injustiça nunca vista no mundo! Ao mesmo tempo que o juiz declara inocente o acusado, ele o condena. Ah, meu Jesus, vós não mereceis a morte, mas eu a mereço. Visto, porém, que quereis satisfazer por mim, não é Pilatos, mas é o vosso próprio Pai que vos condena a pagar a pena a mim devida. Eu vos amo, ó Padre eterno, que condenais vosso Filho inocente para livrar-me a mim que sou réu. Eu vos amo, ó Filho eterno, que aceitais a morte devida a um pecador.

2. Pilatos, tendo condenado a Jesus, o entrega às mãos dos judeus, para que façam com ele o que desejavam: “Entregou Jesus ao arbítrio deles” (Lc 23,25). É de fato o que acontece: quando se condena um inocente, não se limita a pena, mas é ele abandonado às minhas mãos dos inimigos, para que o façam padecer e morrer como lhes aprouver. Pobres judeus, vós então pedistes o castigo, dizendo: “Seu sangue caia sobre nós e nossos filhos” (Mt 27,25). E o castigo já veio! Desgraçados, sofreis e haveis de sofrer até ao fim do mundo o castigo desse sangue inocente. Ó meu Jesus, tende piedade de mim, ficar obstinado com os judeus, quero chorar os maus tratos que vos dei e amar-vos sempre, sempre, sempre.

3. Eis que se lê diante do Senhor a injusta sentença, condenando-o à morte da cruz. Ele a ouve, e, inteiramente submisso à vontade do Pai, obediente a aceita com toda a humildade: “Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte e morte de cruz”(Fl 2,8). Pilatos na terra diz: Morra Jesus! E o eterno Pai no céu diz também: Morra o meu Filho. E o Filho responde por sua vez: Eis-me aqui; eu obedeço e aceito a morte e a morte da cruz. Meu amado Redentor, vós aceitais a morte que me é devida. Seja bendita a vossa misericórdia para sempre: eu vos agradeço sumamente. Mas visto que vós, inocente, aceitais a morte da cruz por mim, eu, pecador, aceito a morte que me destinardes com todos os sofrimentos que a acompanharem e desde já a uno à vossa morte e a ofereço a vosso eterno Pai. Vós morrestes por meu amor e eu quero morrer por amor de vós.
Pelos merecimentos de vossa santa morte, fazei-me morrer na vossa graça e abrasado no vosso santo amor. Maria, minha esperança, recordai-vos de mim. 

19 de outubro de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 53ª Parte

MEDITAÇÃO VII

Para a 6.ª feira da Paixão

Pilatos mostra Jesus ao povo, dizendo: “Ecce Homo”

1.Tendo sido Jesus conduzido novamente à presença de Pilatos, este, vendo-o todo dilacerado e deformado pelos açoites e espinhos, julgou poder excitar a compaixão do povo, mostrando-lhe Jesus. Por isso, saiu para fora, até ao pórtico ou alpendre, levando consigo Jesus, e disse: Eis aqui o homem, como se dissesse: Vede, ainda não estais contentes com o que padeceu este pobre inocente? Ei-lo reduzido a um estado em que não poderá mais viver. Deixai-o, pois, em paz, pois pouco tempo lhe restará de vida. Contempla tu também, minha alma, o teu Senhor sobre aquele pórtico, como ele está amarrado e seminu, coberto todo de chagas e de sangue, e reflete a que estado está reduzido o teu pastor para salvar-te a ti, ovelha desgarrada.

2. No mesmo tempo em que Pilatos mostra aos judeus Jesus coberto de chagas, o Padre eterno no céu nos convida a contemplar Jesus em tal estado e nos diz igualmente: Eis aí o homem.Homens, esse homem que vedes tão chagado e desprezado é o meu Filho muito amado, que para pagar por vossos pecados padece tanto: contemplai-o e amai-o. Meu Deus e meu Pai, eu contemplo o vosso Filho e lhe agradeço e o amo e espero amá-lo sempre. Suplico-vos, porém, que o contempleis também e pelo amor deste vosso Filho tende piedade de mim, perdoai-me e dai-me a graça de não amar senão a vós.

3. Que respondem, porém, os judeus à vista deste rei de dores? Fazem uma grande gritaria e dizem: Crucifica-o, crucifica-o.E vendo que Pilatos, apesar de seus insultos, procurava libertá-lo, aterrorizam-no dizendo: “Se soltares a este, não és amigo de César” (Jo 19,12). Pilatos resiste ainda uma vez e replica: “Então hei de crucificar o vosso rei?”E eles responderam: “Nós não temos outro rei além de César”. Ah, meu adorado Jesus, eles não querem vos conhecer por seu rei e afirmam que não querem outro rei senão César. Eu vos reconheço por meu rei e protesto que não quero outro rei para o meu coração senão vós, meu amor e meu único bem. Infeliz de mim. Também eu vos desconheci por algum tempo como meu rei e protestei não querer servir-vos. Agora, porém, quero que só vós domineis sobre minha vontade. Fazei que ela obedeça a tudo o que ordenardes. Ó vontade de Deus, vós sois o meu amor. Ó Maria, rogai por mim, pois as vossas súplicas nunca são desatendidas. 

18 de outubro de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 52ª Parte

MEDITAÇÃO VI

Para 5.ª feira da paixão

Jesus é coroado de espinhos e tratado como rei de escárnio

1. Depois de terem os soldados flagelado a Jesus Cristo, reuniram-se todos no pretório e, despojando-o novamente de suas vestes, para escarnecer dele o torná-lo um rei de comédia, puseram-lhe sobre os ombros um manto velho de cor vermelha, para representar a púrpura real, e na mão uma cana significando o cetro, e na cabeça um feixe de espinhos parodiando a coroa, que lhe envolvia toda a sagrada cabeça (Mt 27,28). E visto que os espinhos com a força das mãos não se cravavam na sua divina cabeça, tomam-lhe a cana e enterram-lhe na cabeça aquela horrenda coroa: “E cuspindo-lhe no rosto, tomaram-lhe a cana e batiam-lhe na cabeça” (Mt 27,28). Ó espinhos ingratos, assim atormentais o vosso Criador? Mas que espinhos, que espinhos! Vós, maus pensamentos meus, vós traspassastes a cabeça de meu Redentor. Detesto, ó meu Jesus, e aborreço mais que a morte aqueles perversos consentimentos com que tantas vezes
vos desgostei a vós, meu Deus tão bom e misericordioso. Mas já que me fazeis conhecer quanto me tendes amado, quero amar-vos a vós somente e nada mais.

2. Ó Deus, já escorre a fio o sangue dessa cabeça ferida sobre a face e o peito de Jesus, e vós, meu Salvador, nem sequer vos lamentais de tão injusta crueldade! Vós sois o rei do céu e da terra, mas agora estais reduzido ao papel de um rei de burla e de dores, feito o ludíbrio de toda a Jerusalém. Devia, porém, realizar-se a profecia de Jeremias: “Oferecerá a face ao que o ferir; fartar-se-á de opróbrios”(Lm 3,30). Jesus, meu amor, eu vos desprezei pelo passado, mas agora eu vos estimo e vos amo com todo o meu coração e desejo morrer por vosso amor.

3. Mas esses homens não estão ainda satisfeitos com os tormentos e escárnios a que vos sujeitaram. Depois de vos haver assim atormentado e tratado como rei de teatro, ajoelhavam-se diante de vós e zombando vos diziam: “Nós te saudamos, ó rei dos judeus. E davam-lhe bofetadas” (Mt 27,29). Aproxima-te ao menos tu, minha alma, e reconhece Jesus como o Rei dos reis e o Senhor dos senhores e agradece-lhe e ama-o, porque se fez, por teu amor, rei das dores. Ah, meu Senhor, esquecei-vos dos desgostos que vos dei. Agora eu vos amo mais que a mim mesmo. Só vós mereceis todo o meu amor e por isso só a vós eu quero amar. Tenho medo de minha fraqueza, mas vos me dareis força para executá-lo. E vós, ó Maria, ajudar-me-eis com as vossas súplicas. 

17 de outubro de 2014

XXIII - AS ALMAS DO PURGATÓRIO

A causa das almas do Purgatório é por si mesmo recomendada a todos que têm fé e coração. Eu vos proponho a considerar antes o excesso das penas daquelas almas purgantes, depois a facilidade que vós tendes para liberá-las, enfim a utilidade que virá a vós do socorro a elas prestado.
1. Tormentosa prisão das almas padecentes
Eis abertas aos olhos da vossa piedosa consideração aquele cárcere tormentoso onde estão as almas dos nossos irmãos que passaram desta vida embora vestidos da veste nupcial da caridade e da graça, não porém ainda plenamente purificadas e dispostas para subir ao céu. Ó Deus que espetáculo de
terna compaixão! Imaginai qualquer prisão, a mais horrorosa, a mais obscura, a mais estreita; finalmente não haverá mais prisão de fogo neste mundo como existe para aquelas almas que estão se purificando. Quem pudesse manter vivo um dia inteiro um condenado dentro de uma fornalha acesa? Que pena se poderia igualar a este? Que direis, pois, daquelas almas que não por um dia, mas por meses, por anos, até por séculos são presas pela Justiça divina naquelas chamas? Ó justiça divina, quão pouco sois temida pelos homens! Ó grande Deus, porque Vós quase disfarçais nesta vida nossas culpas para dar-nos lugar de penitência, e sois um recompensador paciente e longânime, nós nos confiamos em aumentar diariamente as dívidas com a vossa terrível Justiça sem jamais pensar em
satisfazer as já contraídas; contentes por haver obtido no sacramento a remissão das culpas e da pena eterna, pouco nos cuidamos de que nos reste para descontar ainda grande parte da pena temporal; antes por suma negligência continuamos repetindo; porque nos livra do inferno, e nos dá segurança de ir ao Paraíso, se também depois da morte nos permaneceremos no Purgatório até que Deus queira,
nós nos contentamos. Ó preguiça! Ó insensibilidade!
2. - A nossa purificação se faz ou pela água ou pelo fogo
Se alguém nos propusesse de nos lavar ou com água ou com fogo, o que escolheríamos? Certamente com água. E enquanto Deus por sua misericórdia se satisfaz que nós nesta vida nos lavemos perfeitamente com a água das nossas lágrimas e de uma voluntária penitência, nós escolheremos todavia de sermos lavados com o fogo da sua Justiça? E se não podemos agüentar a pontinha de um
dedo por um breve quarto de hora sobre a ponta de uma lânguida chama doméstica, como poderemos aturar sem gravíssimos espasmos no fogo purificador da outra vida por semanas, meses, anos e mais ainda? Neste fogo se encontram agora mesmo em que estamos pensando tantas almas a nós ligadas pela fé, pela caridade e ainda pelo sangue. E não se presta atenção.
3. - A pena dos sentidos
Eis, portanto, como falam os Santos Doutores e os sereníssimos padres da Igreja daqueles tormentos.
S. Agostinho diz abertamente ser aquele fogo tão acerbo que supera toda pena que os homens no mundo jamais sentiram ou possam sofrer, e que a pena de todos os mártires e de todas as outras pessoas e criaturas são um nada em comparação com a pena do Purgatório (2); e que há tanta diferença entre o nosso fogo natural, e o Purgatório quanto existe entre o fogo na pintura e o fogo
verdadeiro. S. Cirilo acrescenta, que se todas as penas que se possam imaginar neste mundo e quanto mais tormentos e aflições se comparem com a menor pena que se sente no Purgatório, ficaríamos imediatamente aliviados. Por isso qualquer dos viventes, se conhecesse por experiência aquelas penas, preferiria ser atormentado ao mesmo tempo por todas as penas que todos os homens sofreram
de Adão até hoje sem conforto até o fim do mundo, antes que um só dia ser atormentado no Purgatório pela menor pena que lá se encontra. O próprio S. Gregório confirma, e assim escreve: "Eu julgo que aquele fogo transitório seja mais intolerável que todas as tribulações desta vida". E o Venerável Beda enfim conclui também ele com toda franqueza que a correção que se fará no Purgatório é muito mais grave que tudo mais que sofreram os condenados pela severa justiça dos homens, ou os santos mártires da bárbara crueldade dos tiranos, e de tudo mais de mais acerbo e desapiedado o homem possa imaginar.
4. - A pena da condenação
Contudo segundo aquilo que comumente sentem os Padres e Doutores, a pena da condenação que sofrem estas benditas almas no seu exílio do céu, supera de longe toda a pena do sentido, mesmo assim horríveis. O que dizeis então, irmãos? Não parece que a miséria extrema destas almas não mereça toda a vossa compaixão? Vós sois tão bem disposto por natureza, que se pela estrada chegasse a ver um jumento que caiu debaixo da carga, procura logo quem o ajude, ou senão correis vós mesmos para ajudá-lo. Agora vendo caído lá naquele fogo o vosso próximo, e gemendo sob o peso de tão excessiva tribulação, duvidarei eu que não vos esforceis para livrá-lo incontinente?
5. - Lamento das almas que estão se purificando
Assim pudesse eu fazer ouvir um só daqueles suspiros, um só daqueles gemidos com que estendem a vós suplicantes suas mãos, aquelas almas desconsoladas que confiam em vós e invocam o vosso socorro. É possível - dizem entre si - que tantos nossos amigos que deixemos vivos no mundo, e que
alastravam tanto zelo e tanto afeto por nós, esqueçam de nós justamente agora que temos mais necessidade? Possível - diz aquele pai - que meu filho seja tão ingrato, tão indiferente, que tenha sepultado minha memória juntamente com meus ossos? Porém prometeu no meu leito de morte que jamais se esqueceria de rezar por mim. Possível - diz aquela mãe - que a minha querida filha a quem tanto me recomendei, venha agora deixar-me sofrer ainda mais nestas chamas? Assim vai dizendo aquele marido; aquele irmão, aquela irmã, do outro irmão, da outra irmã; e levantam com piedosos gritos sua voz à semelhança de Jó: "Piedade de mim, piedade de mim, ao menos vós meus amigos". Ai tende piedade, compaixão de nossas penas, ó amigos viventes, "porque a mão do Senhor me atingiu" (Jó 19, 21); porque a mão do Senhor justíssimo nos atingiu com inenarráveis tormentos. Oh! vós desatais estes vínculos que nos mantém ligados a estes tormentos, e longe da nossa felicidade. Vós, diminuí ao menos o tempo desta nossa penosa demora, acelerai o nosso descanso, a nossa glória, vós que vivendo na terra podeis-merecer e expiar também por nós. Pois, para nós, já expirou junto com a vida o tempo do merecimento; a nós já chegou a noite quando "ninguém pode trabalhar" (Jo 9, 4). Toda nossa confiança está em vós. Está em vossas mãos o aliviar-nos destas penas, o abrir-nos as desejadas portas do Céu.
6 - Exemplos
Ah! Fiéis! Quem de vós terá coração tão duro que resista às orações compassivas destes míseros nossos irmãos? Mas talvez será tão difícil este alívio? Custar-nos-á muito sua libertação? Conta S. Gregório nos seus Diálogos sobre aquele padre de nome Santolo, e na verdade grande santo, que para libertar um diácono seu amigo da morte cruel que lhe preparavam os Longobardos, encontrou primeiro um meio de tornar-se ele próprio fiador por ele, e, portanto, fazê-lo fugir ficando ele assim exposto, por sua vez aos tormentos e à morte, se Deus com um manifesto milagre não o tivesse
tirado no momento (6). Foi este um ato do mais perfeito amor, tendo o próprio Cristo dito "ninguém tem maior amor do que aquele que dá sua vida por seus amigos" (Jo 15, 13). Devemos nós fazer a mesma coisa? Ah! Muito menos se requer de nós para libertar os nossos amigos do fogo acerbo do Purgatório. Leiamos ainda S. Paulino de Nola que resgatava com suma profusão de esmolas os escravos cristãos das ferozes cadeias dos Vândalos; e gasto todo o patrimônio e o que tinha no mundo nesta tão excelsa e excelente misericórdia, finalmente para libertar o filho daquela viúva vendeu-se ele mesmo como escravo. Teremos nós que perder a liberdade? Perder todos os nossos bens para tirar
as almas dos nossos irmãos daquela terrível prisão? Não. Todas as obras satisfatórias pelos defuntos podem reduzir-se a estes três: sacrifícios, esmolas, orações. Judas, o Macabeu, mandou a Jerusalém dez mil dracmas de prata para que fossem oferecidos sacrifícios de expiação para os soldados mortos na guerra. E a Sagrada Escritura louva esta ação com aquele famoso epifonema: "É santo e saudável rezar pelos defuntos para que sejam perdoados de seus pecados"(2 Mac 12, 46). Tanto dinheiro que se joga na jogatina, na gula, na vaidade se se aplicasse em tantas Missas, em tantas esmolas para alívio das almas do Purgatório, oh! quanto se tiraria daquelas angústias, a quantas se diminuiria suas penas! S. Gregório, no quarto livro do supracitado Diálogo, narra como tendo ele ordenado por trinta dias contínuos uma missa ao dia por alma do monge Justo falecido no seu mosteiro de S. André, foi depois revelado ao irmão do mesmo monge no trigésimo dia, justamente terminada a última Missa, ter sido sua alma, livre de toda pena, voado ao céu. E S. Bernardo refere de S. Malaquias que celebrando este por sua irmã cada vez diminuíam as penas, até que, finda toda a dívida foi admitida à glória.
7. - Sufrágios
O que, pois, nos pedem de pesado estes mortos, se nos pedem algumas missas, algumas esmolas? Na maioria das vezes não nos pedem nada de nosso, exigem somente os seus próprios. A solução daqueles legados piedosos confiados à nossa fé nos testamentos. Pedem às vezes pequena parte daquele muito que com tantos esforços conseguiram, e com tanta diligência conservaram para nós.
Dirá talvez alguém ser totalmente pobre? Nas quem te proíbe, irmão, de rezar pelos defuntos? A oração é a chave para abrir aquelas felizes portas do Paraíso não só a ti, mas também ao teu próximo. Reza, pois, suplica, esconjura pelo teu próximo, sofrendo no purgatório. Não se exige muito sacrifício, para rezar. Pode-se fazer em qualquer lugar, em qualquer hora, em qualquer circunstância. Não nos custará muito aplicar àquelas almas uma boa obra, uma comunhão, uma indulgência, recitar
algum Salmo, algum terço, elevar para eles de quando em quando, o nosso espírito a Deus. Quanta coisa boa tiraremos para nós mesmos!
8. - Vantagens espirituais em sufragar as almas
A própria ação que fazeis rezando pelos defuntos não vos merece imediatamente um aumento de graça e acréscimo de glória se sois justos? Este é de fato um ato de caridade e de misericórdia o mais excelente. Ouvi S. Agostinho: Um dos mais santos exercícios e um dos cuidados mais piedosos em que se pode o homem exercitar nesta vida, é oferecer sacrifícios, esmolas, e rezar pelos defuntos que estão no Purgatório, dos quais somos irmãos. Discorramos, se vos agradar, por cada uma das obras de misericórdia, coisa boa é alimentar os famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus. Não será
maior merecimento alimentar aquelas almas justas famintas e em jejum, do pão dos  Anjos? Abrir-lhes com nossas orações a fonte de água viva da qual têm sede? Vesti-las e coroá-las de glória imortal? Grande merecimento hospedar os peregrinos, visitar os encarcerados, consolar os enfermos. Não será merecimento muito maior conduzir estas almas todas alegres e felizes para a casa do Senhor? Tirá-las de uma prisão de fogo? Confortar as aflitas e lânguidas de amor divino, mostrando-lhes a desejada face do seu Dileto. Se é assim também tão meritório sepultar os mortos; de quão mais excelso merecimento não será tirar aquelas almas daquela profunda fossa de cruéis tormentos e colocá-las em paz para repousar no seio de Deus? Devo dizer ainda mais: somente o pensamento que se forma em nossa mente de libertar, como movido ou seguido de uma piedosa vontade, é de um merecimento singular: "santo e salutar pensamento" diz de fato o próprio Espírito Santo. Julgai vós pois qual seja o lucro que faz aquele homem, aquela mulher de bem, que com suas, orações, com seus sacrifícios, com suas esmolas chega ao efeito de livrar mesmo uma só daquelas nobres prisioneiras. Ajuntai ao merecimento da ação a recompensa que renderão aquelas santas almas, ao seu benfeitor,
quando chegarem ao céu. ."Fazei o bem para o justo, e disso terás grande recompensa", diz o Espírito Santo (Eclo 13, 2). Que orações fervorosas não elevarão ao seu Altíssimo Senhor pela salvação daquele que acelerou-lhe a posse daquela glória! De quantos perigos não será ele preservado! De quantos eficazes auxílios e suaves confortos fornecido! Na hora da sua morte, naquela grande
jornada campal e decisiva, como será defendido! Naquela amarga agonia, como será consolado! Naquele tremendo juízo, como será patrocinado! Nem certamente permitirão que demore muito naquele fogo de purgação aquele por cujo intermédio foram elas mesmas tiradas antes do tempo. Mas lhe sairão ao encontro porfiando em apresentar-lhe suas mãos, e introduzi-lo e acolhê -lo nos eternos tabernáculos. Mas onde deixo a recompensa suma que conseguirão do próprio Deus os libertadores misericordiosos das suas filhas mais queridas? Deus de fato - que pela sua infinita justiça atormenta aquelas almas para purificá-las - pela sua infinita misericórdia porém as ama; procura subtraí-las de todo modo de sua vara de correção, e nada mais deseja que encontrar mediadores, intermediários que satisfaçam, que rezem, que esconjurem por elas. Não se pode mais impelir aquele coração de Pai tão amoroso, que acelerando a tantos exilados seus filhos a entrada em sua casa. Com que olhares de predileção, de amor, de complacência, não deve ele contemplar todos aqueles que se esforçam para cumprir os desejos mais ardentes de sua caridade!
9. - Vantagens temporais em sufragar as almas
Quereis agora que vos fale da utilidade temporal? Parece-me de fato supérfluo descer em pormenores aos menores e simples favores que se devem esperar da beneficentíssima mão do supremo Patrão, aqueles que empenharam o seu amoroso coração. Tenham certeza de não serem jamais abandonados em suas necessidades, esquecidos nas suas súplicas, não ouvidos nos seus desejos, aqueles homens piedosos e misericordiosos que com esta caridade usada com seus irmãos falecidos se foram afortunadamente tornando credores do seu Deus. "O que fizerdes a um dos meus mais pequeninos, a mim o fizestes" (Mt, 15, 40).
10. - Propósitos
Eia, pois, conclua cada um de nós com as palavras de São Bernardo: "levantarei em auxílio deles"; "sim, levantarei em auxílio daquelas almas; interpelarei com gemidos, implorarei com suspiros, intercederei com orações, satisfarei com o sacrifício singular, se assim me acontecer - como eu espero - de mover o coração de Deus e olhar suas aflições e a julgar propício em seu favor; a fim de que transforme o trabalho em repouso, a miséria em glória, os flagelos em coroa. De fato com estes
e semelhantes ofícios se pode aliviar sua miséria, terminar seu trabalho, tirar as penas". Assim seja.

16 de outubro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni.

XXII - AMOR E RESPEITO AOS MINISTROS DE DEUS

1. - Na dignidade do sacerdote se honra o dom de Deus
Por opinião constante dos homens não menos que por sentença infalível do Evangelho, quem exalta a si mesmo é julgado digno de opróbrio e humilhações: "Quem se exalta será humilhado" (Lc 3, 5). Não porém quem é exaltado por Deus; pois este ao contrário possui um justo e fundado direito àquela honra e àquela glória, que - como sombra do verdadeiro merecimento - o vai sempre seguindo
passo a passo. Pois neste caso - se bem se considera - não se honra já o que é do homem, mas sim o que é de Deus no homem; e os dons de Deus merecem sempre toda estima, toda reverência dos homens, onde sejam colocados pela sua altíssima Providência. Ora como de um lado não encontro quem Deus tenha querido exaltar sobre esta terra mais que seus sacerdotes; assim por outro não sei ver como, sem tornar-se culpados de uma presunção insofrível e sem danificar, pois, muito suas
consciências, possam tantos e tantas entre os nossos cristãos mostrar conhecer tão pouco e venerar tão menos uma dignidade tão sublime e um caráter tão soberano.
2. - O sacerdote é ministro e embaixador de Cristo
Que vós deveis, meus irmãos, urna obsequiosa sujeição aos sacerdotes, aparece em primeiro lugar da dignidade sobre-humana de que foram investidos pelo Altíssimo Rei do Céu e da terra; "Que os homens nos considerem, pois, como simples operários de Cristo e administradores dos mistérios de Deus" (1Cor 4, 1). Esta é a justa idéia que deve formar o povo cristão dos sacerdotes. Quando vê um
deles deveria dizer: eis um ministro de Cristo, um dispensador dos mistérios celestes; eis um embaixador do Supremo Monarca, como em um outro lugar se expressa o Apóstolo, onde disse: "desempenhamos o encargo de embaixadores em nome de Cristo, e é Deus mesmo que exorta por nosso intermédio" (1Cor 5, 20). Ora se aos ministros de um rei terreno e aos seus embaixadores se atribui tanta honra e respeito por todos os súditos, que obséquio pensais vós, que reverência pode convir a estes ministros tanto mais ilustres de uma corte não terrena, mas celeste? De fato se os príncipes deste mundo são tão solícitos para que aos seus legados seja concedido quase uma honra semelhante à que é devida às suas augustas pessoas, e se punem os ultrajes com a mesma severidade que costumam punir os próprios; não de outro modo fez Deus querido se trata das honras devidas aos seus Ministros.
3. - Deus impõe o respeito aos seus sacerdotes
Atendei à força das palavras com que Ele mesmo cria uma lei no Eclesiástico: "Teme a Deus com toda tua alma, tem um profundo respeito pelos seus sacerdotes. Ama com todas as tuas forças aquele que te criou; não abandones os seus ministros. Honra a Deus com toda a tua alma, respeita os sacerdotes" (7, 31-33). Três vezes repete o mesmo preceito; e tantas vezes manda que ele seja amado,
reverenciado, temido, outras tantas manda que sejam honrados os seus ministros; mostrando assim com evidência que depois de Deus em primeiro lugar se deve honra, reverência, amor àqueles que Ele mesmo o constituiu para fazer suas vezes aqui e representar a nós a sua imagem sobre a terra. Pois se Deus na antiga Lei mandou que os blasfemadores do seu divino nome fossem apedrejados (Lv 24, 16) julgou também que o faltar ao respeito com os sacerdotes fosse caso não menos digno de morte (Dt 17, 12).
4. - O sacerdote tem poder sobre o corpo místico e sobre o corpo real de Cristo
Basta de fato refletir sobre aquela autoridade soberana, ou melhor, divina, que Cristo lhes comunicou, para que fiquemos convencidos ser muito escassa toda reverência que podemos tributar ao tão eminente caráter deles. Quando o divino Redentor curou aquele paralítico de que faz menção o Evangelho, todo aquele povo espectador, quase perdendo de vista um fato por outro tão estrepitoso, ficou admirado ao considerar aquelas honrosas palavras: "Teus pecados te são perdoados", com que o Médico celeste entendeu curar naquele enfermo, antes a alma que o corpo; e começaram a dizer entre si: "E quem é este homem que perdoa também os pecados? Quem pode perdoar os pecados senão somente Deus?" (Lc 9, 20-21). E vede também uma autoridade tão própria só de Deus com igual extensão Ele quis comunicar aos sacerdotes: "Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles à quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (Jo 20, 23). Que príncipe, que rei sobre a terra tem tanto poder; antes a que santo ou a qual Anjo do céu, a quem tenha sido concedido uma autoridade tão sublime sobre o corpo místico da Igreja? Aliás que maravilha, que Deus tenha querido sujeitar à autoridade sacerdotal todos os súditos do amplo reino de sua Igreja, quando parece que sujeitou-se Ele mesmo que é seu Soberano?Oh! Excelsa, oh! Sublime, oh! Inefável dignidade dos Sacerdotes! Chamam-no eles do céu à terra o seu Deus, e ele obedece "obedeceu o Senhor à voz de um homem" (Js 10, 14) - e assim quase debaixo deles se inclina até ser manejado e bendito ainda pelas suas mãos.
5. - Os fiéis recebem todo bem em relação à salvação pelas mãos dos sacerdotes
Eu sei, irmãos, que se até agora apresentei-vos valiosos argumentos para submeter-vos de bom grado à autoridade de vossos Sacerdotes e reverenciar neles um tão augusto caráter; com esta última razão que apresentei dei quase a todas as outras coroa e complementação. Não obstante não cessarei de investigar outras ainda pois a vós mesmos muito importa uma sujeição tão devota. Dizei-me, que bem podereis esperar em relação à vossa salvação sem uma tão justa dependência, quando todo bem que até agora recebestes não vos veio por outras mãos senão pelas dos sacerdotes? Pois assim argumenta S. João Crisóstomo: "se ninguém pode entrar no Reino dos céus, sem antes ter renascido pela água e pelo Espírito Santo (Jo 3, 5) e se alguém não comer a Carne do Senhor está privado da vida eterna (Jo 6, 53), nem estas coisas se cumprem por outro meio senão por aquelas mãos santas dos sacerdotes; quem mais poderá evitar o fogo inextinguível do inferno sem o auxílio deles? Ou conseguir a inacessível coroa preparada lá em cima? Os sacerdotes portanto, vos regeneraram pelo S. Batismo; e por meio deles vos revestistes de Jesus Cristo, e vos tornastes membro daquela santa Cabeça. Os vossos pais vos geraram para a terra, eles para o céu. Aqueles vos deram uma vida que não podem
defender das doenças que assaltam e muito menos, depois, da morte; estes muitas vezes salvaram vossa alma enferma; já moribunda, antes morta de fato, à graça e já às portas do inferno para ser aí eternamente sepultada, a restituíram à vida, arrancando-a das mãos do demônio, fecharam as portas daquele horrendo cárcere, e reabriram as do céu; nuas, esquálidas, disformes, a revestiram dos primeiros dons e da beleza perdida". Se vós agora já estais crescidos e cheios de riquezas espirituais, são eles que vos alimentaram e ainda vos nutrem com o alimento salutar da divina Palavra,
eles vos preparam cada dia aquele banquete substancial, e pelas suas mãos vos é administrado o pão dos Anjos. Se vós repousais seguros no seio da paz do vosso coração, se não prevalecem vossos inimigos prejudicando vosso espírito, se entre as ameaças de uma justiça divina irritada se apresenta ao mundo com aparência propícia ainda a Misericórdia; são os sacerdotes que apresentam ao Altíssimo preces cotidianas por ofício, eficacíssimas por instituição, pela paz comum e tranqüilidade; eles que oferecem cada dia sobre os altares aquela Hóstia tão aceita ao divino Pai para aplacá-lo enfurecido com os pecadores, para incliná-Lo favorável aos desejos dos justos, para abrir em suma uma inexaurível mina de graças às necessidades espirituais e temporais de todos; eles enfim que velam - talvez os únicos e sós - sobre o bem mais interessante da salvação de vossa alma, da qual se empenharam para prestar detalhada conta ao severo Juiz, como da própria.
6. - Os sacerdotes têm necessidade de serem mantidos pela oração dos fiéis
Se a evidência das razões por mim aduzidas fez nascer em vós um sentimento de grande veneração pelo caráter e autoridade sacerdotal, isto enfim não se torna senão unicamente em vossa vantagem. Os sacerdotes não tiram lucro disso; porque sejam eles reverenciados ou não pelos homens, isto não lhes acrescenta nem diminui "o louvor de Deus, que somente este os recomenda" (2 Cor 10, 18).
Aliás, direi mais. Tornar-se-lhe-ia favorável - se isto pudesse ser desejado sem vosso prejuízo - ser por vós vilipendiado e menos estimados, enquanto a verdade nos faz saber que "Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos ultrajarem, e quando repelirem o vosso nome como infame por causa do Filho do Homem! Porque então grande é vosso galardão no
céu" (Lc 6, 22-23). A nossa única maior utilidade, antes a única que podemos desejar sabeis qual seja? Eu vos direi: se, ajudando nós o nosso próximo a conseguir a salvação, nós também seremos com recíproco esforço ajudados a consegui-la pelas suas orações. Porque se nós somos superiores a vós por dignidade e quase anjos pelo ofício, somos homens por condição, iguais a vós por natureza. Nos oprimem por todos os lados as mesmas tribulações; nos assediam os mesmos inimigos; nos
ameaçam os mesmos perigos, senão maiores. Sim, irmãos, se a vós é impossível obter graça e salvação sem nós, quanto a mim pelo menos, eu não duvido afirmar temer eu muito que a minha negligência e tepidez, debaixo de um cargo tão excedente, não me perca diante daquele Juiz que se protesta querer ter "um juízo duríssimo com aqueles mesmos que Ele elegeu para ser superior" (Sb 6, 6) por dignidade aos outros; a menos que as orações de muitos não precedam para que ele se torne a mim mais propício e mais aplicado. Nós, certamente, diante daquele robusto cedro do Líbano - quero dizer o Apóstolo Paulo - não somos senão frágeis abetos (cf Zc 11, 2); contudo ele em tantas cartas não pede outras coisas aos fiéis, quase como recompensa de tantos trabalhos e solicitudes, senão que rezem incessantemente por ele, como se tivesse necessidade de ser sustentado pelas orações de todo o mundo ele que a todo mundo havia estendido a feliz sombra do seu mais paterno cuidado. Animados, portanto, por um tal exemplo, nós também exortamos vossa caridade para não defraudar as nossas - embora elas quase não existam - pequenas fadigas por vós nesta mercê a nós tão necessária. Rezai, sim, rezai ao Senhor por todos os vossos Sacerdotes de modo especial por aqueles que exteriormente ou interiormente presidem os bens do vosso espírito; nem queirais esquecer deste - embora inútil - ministro que vos fala, como o mais necessitado de todos "a fim de não vir eu mesmo a ser excluído depois de eu ter pregado aos outros" (1Cor 9, 27).