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29 de agosto de 2014

Males que afligem a Igreja e a necessidade de oração - S.S. Leão XIII



Males que afligem a Igreja


" A todos são conhecidos os males que Nós deploramos: a luta desapiedada contra os sagrados e intangíveis dogmas, que a Igreja guarda e transmite; a zombaria da integridade da virtude cristã, que a Igreja defende; a trama de calúnias de mil modos urdidas; o ódio fomentado contra a sagrada ordem dos bispos, e principalmente contra o Romano Pontífice; os ataques dirigidos, com a mais impudente audácia e a criminosa impiedade, contra a própria divindade de Cristo, no intuito de extirpar pelas raízes e de destruir a obra divina da Redenção, que força alguma poderá jamais destruir nem cancelar.



Estes ataques não são, certamente, uma novidade para a Igreja militante. Porquanto, depois do aviso dado por Cristo aos Apóstolos, ela sabe que, para instruir os homens no caminho da verdade e guiá-los à salvação eterna, ela deve todo dia descer a campo e travar combate. E, na realidade, nos séculos ela sempre lutou intrepidamente até ao martírio, considerando como sua precípua alegria e glória o poder unir o seu sangue ao do seu Fundador: no qual está depositada a segura esperança da prometida vitória.



 Por outra parte, entretanto, não podemos ocultar nos o profundo senso de tristeza que penetra os melhores, ante esta contínua tensão de batalha. De fato, é motivo de imensa tristeza ver o grande número dos que, pela perversidade dos erros e por esta insolente atitude contra Deus, são arrastados para longe e impelidos para o abismo; o grande número dos que, pondo num mesmo plano todas as formas de religião, pode-se dizer que já estão na iminência de abandonar a fé divina; o número notável dos que são cristãos só de nome, e não cumprem os deveres da sua fé.



E ainda mais nos aflige e nos atormenta o ânimo o considerarmos que a causa principal de tais ruinosos  e deploráveis males está na exclusão completa da Igreja das ordenações sociais, enquanto de propósito se hostiliza a sua salutar influencia. E nisto é de reconhecer um grande e merecido castigo de Deus, o qual cega miseravelmente as nações que se afastam d’Ele.



A necessidade da oração 



 Este estado de coisas mostra, com evidência sempre maior, o quanto é necessário que os católicos orem e supliquem a Deus com fervor e perseverança "sem nunca cessar" (1Tim 5, 17); e não somente em particular, porém ainda mais em público. Reunidos nos sagrados templos, conjurem Deus a se dignar, na sua infinita bondade, de livrar a sua Igreja "dos homens insolentes e malvados" (2 Tim 3, 2), e a reconduzir os povos ao caminho da salvação e da razão, na luz e no amor de Cristo.



Espetáculo incrível e maravilhoso! Enquanto o mundo percorre o seu caminho tormentoso, fiado nas suas riquezas, na sua força, nas suas armas e no seu engenho, a Igreja, com passo veloz e seguro, atravessa os séculos, depositando a sua confiança somente em Deus, a quem, de dia e de noite, ergue o olhar e estende as mãos súplices. Porque, embora na sua prudência não desdenhe os socorros humanos que, pela bondade divina, os tempos lhe oferecem, todavia não é nestes meios que ela deposita a sua principal esperança; mas sim na oração, coletiva e insistente, elevada ao seu Deus.



Nesta fonte ela alimenta e fortifica a sua vida; porque, elevando-se, mediante a oração assídua, acima das vicissitudes humanas, e mantendo-se constantemente unida a Deus, é-lhe dado viver, plácida e tranqüila, da própria vida de Cristo. E nisto ela é fiel imagem de Cristo, a quem o horror dos tormentos, sofridos pelo nosso bem, nada diminuiu nem tirou da beatíssima luz e da felicidade que lhe são próprias"

A hediondez espírita - Dom Corrêa (19/22)

A HEDIONDEZ ESPÍRITA

Dom José Eugênio Corrêa
Bispo de Caratinga
(1957-1978)

19. NINGUÉM PODE FAVORECER O ESPIRITISMO!

Ajudar as obras espíritas, colaborar de qualquer modo com o Espiritismo, é favorecer a heresia. E quem favorece qualquer heresia fica excomungado, conforme diz o cân. 2316 do Direito Canônico.

Também prestigiar e favorecer o Espiritismo tomar parte em suas sessões ou atos de culto. Tomar parte em qualquer culto herético também acarreta excomunhão, segundo o mesmo cân. 2316 do Direito Canônico.

Temos as nossas obras de caridade, que se mantêm com dificuldade. É preciso que todos os católicos se unam e conjuguem seus esforços para manter e melhorar cada vez mais as nossas obras de caridade, o brilho do culto divino, e as nossas obras educacionais e culturais... Se, em vez de ajudarmos as «nossas» obras que precisam de nós, vamos ajudar as obras do demônio, estamos traindo a fé, e fazendo assim o pecado de Judas.

O voto dos católicos para os católicos. As esmolas dos católicos para as obras católicas. A energia e atividade dos católicos para a nossa Igreja, para o nosso Deus... O resto é falta de caráter e de linha, é traição, é ser quinta coluna...

28 de agosto de 2014

Sermão de Santo Antônio aos Peixes



Visto aqui.

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

13/15  -  Como o pensamento do céu é próprio para nos consolar.

O Fim do homem é a visão clara e o gozo de Deus que espera obter no céu. Bem aventurado pois aquele que emprega esta curta vida mortal em adquirir este bem eterno, preferindo o dias passageiros desta vida ao da imortalidade e aplicando todos os seus momentos mortais, que lhe restam, à conquista da santa eternidade. A verdadeira luz do céu não lhe faltará, para lhe fazer ver e tomar o caminho seguro e conduzi-lo com felicidade a este porto de eternas delícias.
Os rios correm incessantemente e volvem como diz o sábio, para o mar, que é o lugar do seu nascimento e do último repouso; todo o seu movimento só tende a uni-los à sua origem. "Oh! Deus, diz Santo Agostinho, criastes o meu coração para vós e só em vós encontrará repouso; mas que tenho eu no céu, senão a vós, ó meu Deus, e que mais quero sobre a terra? Sim, Senhor, porque vós sois o Deus do meu coração o meu quinhão e partilha na eternidade". Eis, em particular, alguns pontos que devemos crer neste assunto.
Primeiro, que há um paraíso ou glória eterna; estado perfeitíssimo, no qual se reúnem todos os bens e onde não há mal algum; mundo de maravilhas, cúmulo de felicidade, gozo incomparável ultrapassando infinitamente todo o desejo; casa de Deus e palácio dos bem aventurados; cidade apeticível e amável e tão preciosa, que todas as belezas do mundo juntas nada são, comparadas com a sua excelência, e ninguém pode conceder a grandeza infinita dos abismos das suas delícias.
Considerai que, por uma eternidade, estas almas felizes gozam desta felicidade de Deus, entregando-se completamente a todas, e o Eterno Filho que diz benignamente a seu Pai: "Meu Pai, eu quero que os que me destes fiquem eternamente comigo, e vejam a claridade que eu tive em Ti antes da formação do mundo". E, dirigindo-se a seus caros Filhos: "Não vos tinha eu dito que o que me amasse seria amado por meu Pai e que nós nos manifestaríamos a ele?" Então esta santa companhia, abismada em prazer no seio da Divindade, canta o aleluia eterno de gozo e louvor ao seu Criador.
Em segundo lugar, cremos que a alma, entrando no céu limpa de todo o pecado, no mesmo instante verá a Deus sem sombras, a ele mesmo, face a face, como é, contemplando, por uma vista de verdadeira e real presença a própria essência divina, e nele as suas infinitas bondades.
O dulcíssimo São Bernardo, estando ainda jovem em Chatillon-sur-Seine, na noite de Natal esperava na Igreja que começasse o sagrado ofício, e esperando, adormeceu dum leve sono, durante o qual (oh! Deus meu! que doçura!) viu um espírito, e com uma visão muito distinta e clara, como o Filho de Deus tendo desposado a natureza humana, tendo-se tornado criancinha no seio de sua Mãe, nascia virginalmente em seu sacrossanto seio, com uma humilde suavidade, misturada com majestade celeste; visão que encheu com tal forma seu coração de satisfação e júbilo, que toda a vida sentiu sentimentos extremos, e a memória deste mistério da natividade de seu Mestre dava-lhe um gosto espiritual e uma suavidade sem igual.
Ah! mas se uma visão imaginária do nascimento temporal do Filho de Deus enlevou e contentou tanto o coração duma criança, ah! que será quando os nossos espíritos, gloriosamente alumiados com a feliz claridade, verem este nascimento eterno, pelo qual o Filho procede, Deus de Deus, divina e eternamente? É então que a alma será deificada, cheia de Deus, e feita como Deus, por participação, eterna e imutável de Deus, unindo-se com ela, como o fogo inflama o ferro e o penetra, comunicando-lhe a sua luz, esplendor, calor, e outras propriedades; de maneira que o toma pelo mesmo fogo.
Como Deus nos deu a luz da razão, pela qual o podemos conhecer como autor da natureza, e a luz da fé, pela qual o consideramos autor da graça, do mesmo modo nos dará a luz da glória, pela qual o contemplaremos como fonte de beatitude e da vida eterna; mas fonte que não só de longe contemplaremos, como fazemos agora pela fé, mas que veremos pela luz da glória, mergulhados e abismados nela.
Em terceiro lugar, a alma será para sempre bem aventurada entre a nobreza, a beleza e a multidão dos cidadãos e habitantes desta ditosa pátria, com os seus milhões de anjos, querubins e serafins, esta multidão de apóstolos, mártires, confessores, virgens, santas mulheres, cuja quantidade é inumerável.
Oh! como é ditosa esta companhia! O menor dos bem aventurados é mais belo do que todo o mundo; que será vê-los, todos? Eles cantam o doce cântico do eterno amor, gozam sempre duma alegria constante, compartilham de contentamentos indizíveis, e vivem na consolação duma infeliz e indissolúvel sociedade.
Mas, oh! Deus! se a boa amizade humana é tão agradavelmente amável, que será ver a suavidade sagrada do amor recíproco dos bem aventurados? De certo, os corações dos cidadãos do paraíso estarão abismados em amor e admiração de beleza e doçura dum tal amor.
Em quarto lugar, no paraíso, Deus dar-se-á completamente a todos; e não em parte por ser um todo que não tem partes; mas dar-se-á diversamente e com tantas diferenças como forem os bem aventurados. Assim como uma estrela é diversa das outras em claridade, assim serão diferentes os homens uns dos outros na glória, à proporção que o tiverem sido em graça e méritos; e como nenhum homem talvez é igual em caridade a um outro neste mundo, assim nenhum bem aventurado será igual a outro em glória no céu.
Considerai como é bom ver esta cidade em que o grande rei tem a sede na sua majestade, cercado de todos os seus bem aventurados servos; aí estão as multidões de anjos, que cantam hinos, e à companhia dos cidadãos celestes; aí se encontra a multidão veneranda dos profetas, o sagrado número dos apóstolos, o vitorioso exército dos inumeráveis mártires, a augusta assembléia dos pontífices, o sagrado rebanho dos confessores, os verdadeiros e perfeitos religiosos, as santas mulheres, as humildes viúvas, as puras virgens. A glória de cada qual não é igual, mas contudo recebem todos um igual prazer, porque é aí que reina a plena e perfeita caridade.
Um fio de glória, uma gota de amor dos bem aventurados vale mais, tem mais força e merece mais estima do que todos os outros amores e conhecimentos que possam ter os corações dos homens mortais.
Em quinto lugar, apesar de grande diversidade e diferença de glória, contudo cada alma bem aventurada, contemplando a infinita beleza de Deus, e o abismo do infinito que fica por ver nessa mesma beleza, fica perfeitamente satisfeita e saciada, e contenta-se com a glória de que goza, segundo o lugar que tem no céu, por causa da amabilíssima Providência divina que assim o ordenou.
Que alegria o estar cercado por toda a parte de prazeres incríveis, e como uma ave bem aventurada, voar, cantar para sempre no ambiente da Divindade!
Que favor e contentamento, depois de um milhão de desgostos, penas e trabalhos, sofridos nesta vida mortal, depois dos desejos infinitos do verdadeiro bem nunca satisfeitos neste mundo, ver-se no porto de toda tranquilidade e ter enfim encontrado a viva e poderosa fonte das frescas águas da vida imortal e a santíssima Divindade, que só podem apagar e satisfazer o desejo humano? 

Do diabólico delírio dos mórmons - Pe. Leslie Rumble, M.S.C. (3/20)

Os Mórmons
ou
"Santos dos Últimos Dias"

Padre Leslie Rumble, M.S.C.
Doutor em Teologia  
Missionarii Sacratissimi Cordis
"Missionários do Sagrado Coração"

O PROFETA JOSEPH SMITH
A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é assim chamada por pretender oferecer a plenitude da revelação que Deus fez à humanidade por meio de Jesus Cristo — plenitude que foi reservada a estes últimos tempos, e aos "santos", ou àqueles que querem fazer-se discípulos dos novos ensinamentos conforme ensinados por Joseph Smith.

Fanfarrão e diabólico Joseph Smith sendo "inspirado" por um chapéu

Obviamente devemos começar perguntando quem é esse Joseph Smith. E imediatamente topamos com dificuldades, pois temos de resolver se a história da vida dele revela um homem que se afigure a espécie de pessoa que Deus teria escolhido para tal missão. Joseph Smith, filho de um fazendeiro, nasceu em Sharon, Vermont, E.U.A., a 23 de dezembro de 1805. Sua família mudou-se para Palmyra, em 1815, e, quatro anos depois, para a pequena cidade de Manchester, Ontário, County, N.Y. Todos os biógrafos concordam em que Joseph recebeu pouca ou nenhuma instrução no sentido escolástico do termo. Os próprios Mórmons, como veremos, insistem muito nisto.
Nervoso, ele era altamente temperado, e sujeito a ataques epilépticos a que mais tarde chamou transes, e durante os quais pretendia que lhe advinham visões celestes. Mas ele próprio provou-se um inventador tão arguto e tão pouco dotado de qualquer senso de veracidade, que é impossível tomar a sua palavra como sendo a realidade das suas experiências. O Dr. Edward Fairfield, antigo presidente do Michigan College, disse que três testemunhas que haviam conhecido pessoalmente Joseph Smith desde dez anos de idade lhe disseram que "ele era simplesmente um mentiroso notório". Mas por que teria ele volvido a sua atenção para o campo religioso?
Para compreender isto, devemo-nos lembrar de que, durante a primeira metade do século dezenove, uma onda de entusiasmo evangélico varreu toda a América. Metodistas, Campbellistas, Congregacionalistas, Milleristas, Shakers e outros procediam, um após outro, a reuniões reavivamentistas, pondo distritos inteiros em fermentação religiosa e despertando as mais vivas controvérsias. Frenesi e histeria tornaram-se a ordem do dia. Novas religiões — cultos esdrúxulos com crentes loucos — brotaram como cogumelos durante aquele período emocional. E o excitável Joseph Smith não deixou de ser afetado pela atmosfera reinante, de superstição e de credulidade. Nesse comenos, veio para Manchester um pregador reavivamentista, ex-Batista, chamado Sidney Rigdon, que aderira aos Campbellistas. Rigdon era um homem bem educado, inteligente, e dotado de grande facilidade na citação das Escrituras. Veio-lhe porém o pensamento de que, em vez de pregar as doutrinas de Alexandre Campbell, ele podia do mesmo modo erigir-se em mestre de Israel e pregar o seu próprio sistema. Por isto decidiu dar ao mundo uma revelação totalmente nova. Em Joseph Smith, com quem se encontrou nesse tempo, achou ele um cooperador de boa vontade, embora no fim ele é que tenha sido reduzido a cooperar com Joseph Smith. Porque Joseph Smith tinha as qualidades psicopáticas necessárias para um "visionário", qualidades que faltavam a Rigdon.

27 de agosto de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 40ª Parte

CAPÍTULO X

Da paciência que devemos praticar em união com Jesus Cristo, para alcançar a vida eterna

O mistério da paciência.

1. Falar de paciência e de sofrer é tratar de uma coisa que os amantes do mundo não praticam e nem sequer entendem. Só as almas que amam a Deus e compreendem e põem em prática. S. João da Cruz dizia a Jesus Cristo: “Senhor, eu nada mais vos preço que padecer e ser desprezado por vós”. E S. Teresa exclamava freqüentemente: “Ó meu Jesus, ou sofrer ou morrer”. S. Maria Madalena de Pazzi: “Senhor, sofrer e não sofrer”. Eis como falam os santos extasiados por Deus, e assim falam porque sabem muito bem que uma alma não pode dar uma prova mais segura de seu amor para com Deus do que padecendo voluntariamente para dar-lhe gosto. Esta foi a maior prova que Jesus Cristo nos deu do amor que nos tinha. Ele como Deus nos amou ao criar-nos, enriquecendo-nos com tantos bens, chamando-nos a gozar da mesma glória que ele goza, mas em nenhum outro ponto nos mostrou melhor quanto nos ama do que fazendo-se homem e abraçando uma vida penosa e uma morte cheia de dores e ignomínias por nosso amor. E nós, como demonstraremos nosso amor por Jesus Cristo? Talvez levando uma vida cheia de prazeres e delícias terrenas? Não pensemos que Deus se compraz em nosso sofrimento: ele não é um senhor de índole cruel que se satisfaz vendo gemer e sofrer suas criaturas; pelo contrário, é um Deus de bondade infinita, todo inclinado a ver-nos plenamente contentes e felizes, todo repleto de doçura, afabilidade e compaixão para com os que a ele recorrem. “Porque vós, Senhor, sois suave e brando e cheio de misericórdia para todos os que vos invocam” (Sl 85,5). A condição, porém, de nosso infeliz estado atual de pecadores e a gratidão que devemos ao amor de Jesus Cristo, exigem que nós, por seu amor, renunciemos aos deleites deste mundo e abracemos com ternura a cruz que ele nos destina a levar após si nesta vida, indo ele à frente com uma cruz mais pesada que a nossa e isso para nos levar a gozar, depois da nossa morte, de uma vida feliz que não terá fim. Deus, pois, não se apraz e ver-nos sofrer; sendo, porém, a justiça infinita, não pode deixar impunes as nossas culpas. Por isso, para que essas culpas sejam punidas e não percamos um dia a felicidade eterna, ele quer que, pela paciência, expiemos as culpas e assim mereçamos a felicidade eterna. Não poderia ser mais bela e suave essa determinação da divina Providência, que satisfaz ao mesmo tempo à justiça e nos faz salvos e felizes.

2. Devemos, por conseguinte, pôr toda a nossa esperança nos merecimentos de Jesus Cristo e dele esperar todos os auxílios para viver santamente e nos salvar e não podemos duvidar de seu desejo de nos ver santos: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1Ts 4,3). Isso é verdade, mas não devemos nos descuidar de satisfazer de nossa parte pelas injúrias que fizemos a Deus e de conseguir pelas boas obras a vida eterna. É o que o Apóstolo queria significar quando escrevia: “Completo em minha carne o que falta dos sofrimentos de Cristo” (Cl 1,3). Mas então a paixão de Cristo não foi completa e não bastou ela só para nos salvar? Ela foi pleníssima quanto ao seu valor e suficientíssima para salvar todos os homens: entretanto, para que os merecimentos da paixão sejam aplicados a nós, diz S. Tomás, devemos entrar com a nossa parte e sofrer com paciência as cruzes que Deus nos envia para nos assemelhar a Jesus Cristo, nossa cabeça, segundo o que escreve o mesmo Apóstolo aos Romanos: “Pois os que conheceu na sua presciência, também os predestinou para se fazerem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8,2 29). Nuca, porém, devemos esquecer, como nota o mesmo Doutor Angélico, que toda virtude que possuem as nossas boas obras, satisfações e penitências, lhes provêm da satisfação de Jesus Cristo. “A satisfação do homem tira sua eficácia da satisfação de Jesus Cristo”. E assim se responde aos protestantes, que dizem serem nossas penitências uma injúria à paixão de Cristo, como se ela não fosse suficiente para satisfazer por nossos culpas. O reino dos céus sofre violência.

1. Dissemos que, para poder participar dos merecimentos de Jesus Cristo, é preciso que nos esforcemos para cumprir os preceitos de Deus e nos façamos violência para não ceder às tentações do inferno. É o que o Senhor nos dá a entender, quando diz: “O reino dos céus sofre violência e só os violentos o arrebatarão” (Mt 11,12). É preciso que nos violentemos quando se trata da continência, da renúncia aos maus desejos, da mortificação dos sentidos, a fim de não sermos vencidos pelos inimigos. E se nos sentimos réus pelas culpas cometidas, diz S. Ambrósio, devemos então forçar o Senhor pelas lágrimas a nos conceder o perdão (Serm. 5).E o santo ajunta para nosso consolo: Ó feliz violência, que não é punida pela ira de Deus, mas recompensada por sua misericórdia. E todo aquele que nesse sentido fizer mais violência a Jesus Cristo, lhe será mais caro. E conclui: Primeiro devemos reinar em nós mesmos, dominando as nossas paixões para podermos depois arrebatar o reino do Salvador. É, pois, necessário fazer-nos violência, sofrendo as adversidades e perseguições, vencendo as tentações e as paixões, que sem isso nunca serão abatidas.

O Senhor nos declara que, para não perdermos nossa alma, devemos estar preparados a sofrer agonias de morte e a mesma morte: ao mesmo tempo, porém, nos diz que ele mesmo combaterá os inimigos daquele que estiver assim preparado: “Toma a defesa da justiça para salvares a tua alma, e peleja até à morte pela justiça, e Deus, pondo-se de tua parte, derrotará os teus inimigos” (Eclo 4,33). S. João viu ante o trono de Deus uma grande multidão de santos, vestidos de branco (pois no céu não entra nenhuma mácula), tendo cada um na sua mão uma palma, distintivo do martírio (Ap 7,9). Mas então todos os santos são mártires? Sim; todos os adultos que se salvam ou hão de ser mártires de sangue ou mártires de paciência, vencendo os assaltos do inferno e os apetites desordenados da carne. Os prazeres carnais enviam inumeráveis almas para o inferno, e por isso é preciso que nos resolvamos a desprezá-los com toda a energia. Persuadamo-nos de que ou a alma calcará aos pés o corpo ou o corpo subjugará a alma.

2. Repito: é preciso fazer esforço para se salvar a alma. Mas esse esforço é justamente o que eu não posso fazer, dirá alguém, se Deus não me auxiliar com sua graça. A este, responde S. Ambrósio: “Se olhares para ti, nada poderás; se confiares no Senhor, ele te dará forças”. Mas para se conseguir isso é necessário sofrer, não há outro remédio. Se quisermos entrar na glória dos bem-aventurados, diz a Escritura, é preciso sofrer primeiro com paciência muitas tribulações (At 14,21). S. João, contemplando a glória dos santos no céu, diz
justamente: “Estes são os que vieram de grandes tribulações e levaram suas vestes e as branquearam no sangue do cordeiro” (Ap 7,14). É verdade que esses estava no céu por se haverem lavado no sangue do cordeiro, mas todos aí chegaram depois de terem sofrido grandes tribulações. Ficai certos, escrevia S. Paulo a seus discípulos, de que Deus não permitirá que sejais tentados acima de vossas forças (1Cor 10,13). Deus é fiel e ele prometeu dar-vos o seu apoio, suficiente para vencer todas as tentações, contanto que nós lho peçamos: “Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis” (Mt 7,7). Logo, não pode faltar à sua promessa. É um erro crasso dos hereges afirmar que Deus manda coisas impossíveis. O concílio de Trento diz: “Deus não impõe coisas impossíveis, mas, quando manda, te admoesta que faças o que podes e peças o que não podes e te auxilia par que possas”. (Sess. 6 c. 11). Escreve S. Efrém que, se os homens não são tão cruéis com seus jumentos, impondo-lhes cargas superiores às suas forças, tanto menos Deus, que muito ama os homens, permitirá que eles sofram tentações às quais não possam resistir (Tract. de patientia).

Cruz de toda parte.

1. Escreve Tomás de Kempis: “A cruz te espera por toda parte e por isso é preciso que tenhas paciência em toda parte, se quiseres viver em paz. Se carregares a cruz com boa vontade, ela te levará a ti ao fim desejado”. Cada qual neste mundo procura a paz e desejaria encontrá-la sem sofrimento; isso, porém, é impossível no estado presente, pois as cruzes nos esperam em todo lugar em que nos acharmos. Como, pois, encontrar a paz no meio dessas cruzes? Pela paciência, abraçando a cruz que se nos apresenta. Diz S. Teresa que todo aquele que arrasta sua cruz com má vontade sente-lhe o peso, por menor que seja; quem, porém, a abraça com boa vontade, não a sente, ainda que seja muito pesada. E Tomás de Kempis ajunta que todo aquele que leva a cruz com resignação, a mesma cruz o conduzirá ao fim desejado, que neste mundo é agradar a Deus e no outro amá-lo eternamente. O mesmo autor continua: “Qual dos santos viveu sem a cruz? Toda a vida de Cristo foi cruz e martírio, e tu buscas o gozo?” Que santo foi admitido no céu sem a insígnia da cruz? Como poderão entrar os santos no céu sem a cruz, se a vida de Jesus Cristo, nossa cabeça e redentor, foi uma cruz contínua e um martírio? Jesus, inocente, santo, filho de Deus, quis padecer durante sua vida inteira e nós andamos atrás de prazeres e consolações? Para dar-nos um exemplo de paciência, quis eleger uma vida cheia de ignomínias e dores internas e externas e nós queremos nos salvar sem sofrer ou sofrendo sem paciência, o que é padecimento duplo, mas sem fruto e com o acréscimo do castigo. Como poderemos pensar em amar a Jesus Cristo, se não queremos padecer por amor dele, que tanto padeceu por nós? Como poderá gloriar-se de ser discípulo do crucificado quem recusa ou recebe de má vontade os frutos da cruz, que são os sofrimentos, os desprezos, a pobreza, as dores, as enfermidades e todas as coisas contrárias ao nosso amor próprio?

2. Não nos esqueçamos, antes sempre nos recordemos, das chagas do crucifixo, porque delas hauriremos a força de sofrer os males desta vida, não só com a paciência, mas até com alegria e satisfação, como o fizeram os santos: “Tirareis águas com alegria das fontes do Salvador” (Is 12,3). S. Boaventura comenta: “Das fontes do Salvador significa das chagas de Jesus Cristo” e exorta-nos a ter os olhos sempre fixos em Jesus moribundo, se quisermos viver sempre unidos com Deus. A devoção consiste, segundo S. Tomás, em estarmos prontos a executar tudo o que Deus exige de nós.

Cristo, nosso modelo.

1. Eis a bela instrução a que nos dá S. Paulo para vivermos sempre unidos a Deus e suportarmos com paciência as tribulações desta vida: “Recordai-vos daquele que dos pecadores suportou contra si uma tal contradição, para que não vos fatigueis desfalecendo em vossos ânimos” (Hb 12,3). Ele diz: Recordai-vos. Para sofrer com resignação e paz as penas da vida, não basta pensar de passagem, poucas vezes no ano, a paixão de Jesus Cristo; é preciso pensar a miúdo e mesmo todos os dias recordar-se das penas que Jesus suportou por nosso amor. E que penas foram essas? O Apóstolo diz: sofreu tal contradição. Tal foi a contradição que Jesus sofreu de seus inimigos que dele fizeram o homem mais vil, o homem das dores, segundo a predição do profeta: O último dos homens, o homem das dores, deixando-o morrer de pura dor e saciado de opróbrios em um patíbulo destinado aos mais celerados. E por que quis Jesus abraçar esse acervo de dores e vitupérios? Para que não vos fatigueis desfalecendo em vossos ânimos, isto é, para que nós, vendo quanto um Deus quis padecer para dar o exemplo da paciência, não esmoreçamos, mas tudo soframos para nos libertarmos dos pecados.

2. O Apóstolo continua a nos animar, dizendo: “Ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra o pecado” (Hb 12,4). Reflete que Cristo derramou por vós todo o seu sangue na sua paixão, à força dos tormentos, e que os santos mártires, a exemplo de seu rei, sofreram com intrepidez as lâminas de fogo, as unhas de ferro que lhes despedaçavam até as vísceras. Nós, porém, ainda não derramamos nem sequer uma gota de sangue por Jesus Cristo, quando deveríamos estar prontos a sacrificar a própria vida para não ofendermos a Deus, como afirma S. Raimundo: Prefiro precipitar-me numa fogueira a cometer um pecado contra o meu Deus, ou, como dizia S. Anselmo, Arcebispo de Cantuária: Se eu tivesse de suportar todas as
dores corporais do inferno ou cometer um pecado, escolheria antes o inferno que cometer o tal pecado.

Meu jugo é suave.

1. O leão infernal não deixa de andar em redor de nós durante toda a nossa vida, para nos devorar, e por isso S. Pedro diz que devemos nos armar contra os seus assaltos com o pensamento da paixão de Cristo: “Havendo Cristo padecido na carne, armai-vos também do mesmo pensamento” (1Pd 4,1). S. Tomás afirma que só a lembrança da paixão é um forte anteparo contra as tentações do inferno. E S. Ambrósio, ou outro santo, escreve: Se o Senhor conhecesse uma outra via para a salvação, melhor que a do sofrimento, ele no-la teria feito conhecer: indo, porém, à frente com a cruz às costas, nos demonstrou que não há meio mais próprio para nos procurar a salvação que o sofrer com paciência e resignação e por isso quis ele mesmo dar-nos o exemplo na sua pessoa. Diz S. Bernardo que nós, contemplando as grandes aflições do Crucificado, acharemos mais suportáveis as nossas (Serm. 43 in Cant.).E em outro lugar: Que coisa te parecerá dura, se te recordares dos sofrimentos de teu Senhor? (Serm. de quadrupl. deb.). Tendo S. Delfina perguntado um dia ao seu marido S. Elzeário como podia suportar tantas injúrias com tão grande tranqüilidade, respondeu-lhe este: Quando me vejo injuriado, penso nas injúrias que meu Salvador crucificado e não ponho de lado tal pensamento enquanto não me sinto apaziguado. A ignomínia da cruz é agradável àquele que não é ingrato ao Crucificado, diz S. Bernardo (Serm. 25 in Cant.).Todas as almas que querem ser gratas a Jesus Cristo não detestam, mas se aprazem nos desprezos que recebem. Quem não receberá com prazer os opróbrios e os maus tratos, considerando somente os maus tratos que sofreu Jesus no começo de sua paixão, quando na casa de Caifás foi esbofeteado e pisado, e lhe escarraram no rosto, zombando dele como de um falso profeta, vendando-lhe os olhos com um pano, segundo o testemunho de S. Mateus? (Mt 26,27).

2. E como era possível os mártires sofrerem com tanta paciência os tormentos dos carnífices? Eram dilacerados com ferros, eram queima os nas grelhas: talvez não eram de carne ou perdiam os sentidos? não, mas eles não se punham a contemplar as suas feridas, mas as chagas do Redentor e assim pouco sentiam as próprias dores. Os tormentos não deixavam de os martirizar, mas eles os desprezavam por amor a Jesus Cristo. Não há dor tão atroz que não seja suportável à vista de Jesus morto na cruz. O Apóstolo escreve que nós pelos méritos de Jesus Cristo fomos enriquecidos com todos os bens (1Cor 1,5). Jesus, contudo, quer que, para obtermos as graças que desejamos, recorramos sempre a Deus por meio da oração e lhe supliquemos que nos ouça pelos méritos de seu Filho. E o próprio Jesus nos promete que, se assim procedermos, o Pai nos dará tudo o que pedirmos: “Em verdade, em verdade eu vos digo, se pedirdes alguma coisa ao Pai em meu nome, ele vo-la dará” (Jo 16,23). Dessa forma procediam os mártires, quando era excessiva a dor dos tormentos: recorriam a Deus e Deus subministrava-lhes a paciência para suportá-los. O mártir S. Teodato sentiu uma vez, no meio das crueldades a que o sujeitaram, uma dor tão acerba visto o tirano ter mandado intrometer-lhe nas chagas carvões ardentes, que ele suplicou a Jesus que lhe desse força para suportá-los e assim saiu vitorioso, terminando a vida no meio dos tormentos.

Nossa consolação na morte.

1. Não nos atemorizem, pois, todos os combates que temos de travar contra o mundo e contra o inferno; se formos prontos em recorrer a Jesus Cristo, ele nos concederá todos os bens, a paciência em todos os trabalhos, a perseverança e finalmente uma boa morte. Grandes são as amarguras que se sofrem na hora da morte e só Jesus Cristo pode dar-nos a constância e merecimento. Grandes são então especialmente as tentações do inferno, que se esforça de modo particular em arrastar-nos à perdição, vendo-nos próximos de nosso fim. Narra Rinaldo que S. Elzeário suportou as mais horríveis batalhas da parte dos demônios na hora da morte, apesar de ter levado uma vida tão santa. Ele afirma que grandes são as tentações do inferno nessa hora, mas que Jesus Cristo, com os merecimentos de sua paixão, abate as suas forças. Por isso quis S. Francisco que lhe recitassem a história da paixão na hora da morte. S. Carlos Borromeu, vendo-se próximo da morte, mandou colocar ao redor de si várias representações da paixão para entregar sua alma a Deus na contemplação dessas imagens. S. Paulo escreve que Jesus quis padecer a morte “a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o diabo, e para livrar os que pelo temor da morte se achavam por toda a vida sujeitos à servidão” (Hb 2,14-15). Assim quis Jesus morrer para destruir com sua morte as forças do demônio que tinha até então o império a morte e por esse meio livrar-nos da escravidão de Lúcifer e por conseguinte do temor a morte eterna. Quis submeter-se a todas as condições e paixões da natureza humana (exceto a ignorância, a concupiscência e o pecado) e para que fim? para se tornar misericordioso, isto é, tomando sobre si mesmo as nossas misérias, tivesse mais compaixão conosco, já que muito melhor se conheceu as misérias experimentando-as do que considerando-as, e dessa maneira se sentisse mais pronto a socorrer-nos, quando tentados na vida e especialmente na hora da morte. A isso se refere aquela palavra de S. Agostinho: “Se te perturbares pela iminência da morte, não te julgues um réprobo, nem te entregues ao desespero, pois foi para impedir isso que Cristo ficou perturbado em presença de sua morte” (Lib. Pronost.).

2. O inferno na hora de nossa morte empregará todos os esforços para nos fazer desesperar da misericórdia divina, pondo-nos diante dos olhos todos os pecados da nossa vida. A recordação, porém, da morte de Jesus Cristo nos dará coragem e confiança nos seus merecimentos, para que não temamos a morte. S. Tomás comenta o aludido texto de S. Paulo da seguinte forma: “Cristo por sua morte destruiu o temor da morte: quando o homem considera que o Filho de Deus quis morrer, perde o medo da morte”. Quando consideramos que o Filho de Deus quis sofrer a morte para nos obter o perdão dos pecados, desaparece o temor e vem o desejo de morrer. A morte para os pagãos é motivo de grande pavor, pois para eles, com a morte, acabam-se todos os bens. A morte de Jesus Cristo, porém, nos dá uma firme confiança de que, morrendo na graça de Deus, passaremos da morte à vida eterna. Desta esperança S. Paulo nos dá um argumento seguro, dizendo que o Padre eterno entregou à morte seu próprio Filho por nós todos, a fim de nos enriquecer com todos os bens, porque, dando-nos Jesus Cristo, nos deu o perdão, a perseverança final, o seu amor, a boa morte, a vida eterna e todos os bens.

Nosso advogado.

1. Quando o demônio nos turbar durante a vida ou na hora da morte, apresentando-nos os pecados de nossa mocidade, respondamos-lhes com S. Bernardo: : “O que me falta de minha parte eu me usurpo da misericórdia de meu Senhor” (Serm. 61 in Cant.). Os méritos que me faltam para entrar no paraíso, eu os adquiro dos merecimentos de Jesus Cristo, que quis padecer e morrer justamente para obter-me aquela glória eterna que eu não merecia. S. Paulo escreve: “Deus é que justifica. E quem é que condenará? Jesus Cristo, que morreu, e mesmo ressuscitou, que está à direita de Deus e que também intercede por nós (Rm 8,33-34). Estas palavras são sumamente consoladoras para nós pecadores. Deus é quem perdoa a nós pecadores e nos justifica com sua graça. Ora, se Deus nos faz justos, como poderá nos condenar como réus? Talvez nos condenará Jesus Cristo, “o qual para não nos condenar se entregou a si mesmo por nossos pecados para nos arrumar do presente século perverso?” (Gl 1,4).

2. Ele se sobrecarregou com nossos pecados e entregou-se à morte para nos livrar desse mundo perverso e conduzir-nos com segurança ao seu reino e chega até a fazer o papel de advogado e intercede por nós junto de seu Pai. “O qual também intercede por nós”. S. Tomás, explicando estas palavras, diz que no céu intercede por nós, apresentando a seu Pai as suas chagas suportadas por nosso amor. E S. Gregório não encontra dificuldade em afirmar (o que afinal alguns não concedem) que o Redentor como homem, mesmo depois de sua morte, continua a orar pela Igreja militante que somos nós (In Ps. poen. 5). A mesma coisa declarou já antes dele S. Gregório Nazianzeno: “Intercede, i. é, suplica por nós, interpondo a sua mediação” (Or. 4 de theol.). E S. Agostinho no salmo 29 diz que Jesus ora por nós no céu, para aí nos impetrar alguma nova graça, pois que na sua vida nos obteve o que podia nos impenetrar, mas ora para exigir de seu Pai, por seus merecimentos, a nossa salvação, já alcançada e prometida. E ainda que o Pai tenha conferido ao Filho todo o poder, contudo esse poder ele, como homem, não possui senão em dependência de Deus. A Igreja afinal não costuma pedir a Jesus que interceda por nós, considerando nele o que há de mais sublime, isto é, a sua divindade e por isso suplica-lhe que nos conceda, como Deus, o que nós lhe pedimos.

O consumidor da nossa fé.

1. Mas voltemos à confiança que devemos pôr em Cristo, quando se trata de nossa salvação. S. Agostinho nos anima, dizendo que o Senhor, que nos livrou da morte com derramamento de todo o seu sangue, não quer a nossa perdição e que, se as nossas culpas nos separam de Deus e nos merecem desprezo, nosso Salvador, por seu lado, não pode desprezar o preço de seu sangue, derramado por nós (Serm. 30 de temp.). Sigamos, pois, com confiança o conselho de S. Paulo: “Corramos pela paciência para o combate que nos é proposto, olhando para o autor e consumador da fé, Jesus, que, tendo diante de si o gozo, sustentou a cruz, desprezando a ignomínia” (Hb 12,1-2). Ele diz: Corramos pela paciência para o combate que nos é proposto: pouco nos adiantará o começar se não continuarmos a combater até ao fim. Por isso diz: corramos pela paciência: a paciência no sofrer o trabalho do combate nos obterá vitória e a coroa prometida ao que vencer. Esta paciência será igualmente a couraça que nos defenderá dos golpes do inimigo. Como, porém, obtermos essa paciência? “Olhando para o autor e consumador da fé, Jesus”. S. Agostinho diz que Jesus desprezou todos os bens da terra, para nos ensinar a desprezá-los e não buscar neles a nossa felicidade, e doutro lado quis suportar todos os males terrenos para nos ensinar a não temer as calamidades deste mundo, sujeitando-se ele mesmo às nossas misérias, à pobreza, à fome, à sede, às fraquezas, às ignomínias, às dores e à morte da cruz.(De catec. rud.). Mesmo com sua ressurreição gloriosa quis nos animar a não temermos a morte, pois, se lhe permanecermos fiéis até à morte, depois desta obteremos a vida eterna, que é isenta de todo o mal e cheia de todo o bem. É o que significam as palavras do apóstolo: “O autor e consumador da fé, Jesus”, pois assim como Jesus é para nós o autor da fé, ensinando-nos o que devemos crer e dando-nos ao mesmo tempo a graça de crê-lo,é também o consumador da fé, prometendo-nos que haveremos um dia de gozar daquela vida na qual nos ensina a crer. E a fim de nos certificar do amor que vos dedica esse nosso Salvador e da vontade que tem de nos salvar, S. Paulo acrescenta: “Que tendo diante de si o gozo, sofreu a cruz”. Explicando S. João Crisóstomo esta palavra, diz que Jesus podia salvar-nos levando uma vida de regalo neste mundo, mas ele, para nos certificar melhor do afeto que nos consagra, escolheu uma vida de sofrimentos e uma morte ignominiosa , morrendo pregado a uma cruz como um malfeitor.

2. Apliquemo-nos, pois, ó almas amantes do Crucifixo, no restante de nossa vida, a amar quanto possível esse nosso amável Redentor e a sofrer por ele, já que tanto quis sofrer por nosso amor. E não cessemos de suplicar-lhe que nos conceda o dom de seu santo amor. Bem-aventurados seremos se chegarmos a ter um grande amor por Jesus Cristo. O Ven. Pe. Vicente Caraffa, grande servo de Deus, diz o seguinte em uma carta que mandou a alguns jovens estudiosos e devotos: “Para reformarmos nossa vida inteira, é preciso pôr todo o empenho no exercício do amor de Deus. É só a caridade divina, quando entra em um coração e dele se apodera, que o purifica de todo o amor desordenado e o torna logo obediente e santo. S. Agostinho diz: “Coração puro é o que está vazio de todo o afeto”, e S. Bernardo escreve: “Quem ama, só ama e não deseja mais nada”, querendo dizer que quem ama a Deus, não deseja senão amá-lo e expulsa do coração tudo o que não é Deus. E é assim que o coração vazio se torna cheio, i. é, cheio com Deus, que consigo traz todos os bens e então os bens terrenos não encontram lugar nesse coração e nem o seduzem. Que atrativo poderão ter para nós os prazeres da terra, quando experimentamos as consolações divinas? Qual a força da ambição das honras vãs, o desejo das riquezas terrenas, quando temos a honra de ser amados por Deus e começamos a possuir em parte as riquezas do paraíso? Para conhecer o adiantamento que fizemos no caminho de Deus, basta observarmos o progresso que fizemos no seu amor, se fazemos a miúdo durante o dia atos de amor de Deus, se falamos freqüentemente de seu amor, se procuramos insinuá-lo aos outros, se fazemos nossas devoções só para agradar a Deus, se sofremos com perfeita resignação, por amor de Deus, todas as adversidades, as enfermidades, as dores, a pobreza, os desprezos e as perseguições. Dizem os santos que uma alma que ama verdadeiramente a Deus, deverá amar tanto quanto respira, pois a vida da alma tanto no tempo como na eternidade deve consistir em amar o nosso sumo bem, que é Deus”.

Acesso ao Pai.

1. Persuadamo-nos, porém, de que nunca chegaremos a adquirir um grande amor para com Deus, a não ser por meio de Jesus Cristo, e se não tivermos uma devoção particular para com sua paixão, por meio da qual ele nos alcançou a graça divina. Escreve o Apóstolo: “Porque por meio dele temos acesso junto ao Pai” (Ez 2,18). Se não fosse Jesus Cristo, o caminho das graças estaria fechado para nós pecadores: ele nos abriu a porta, nos introduziu perante o Pai e pelos merecimentos de sua paixão nos obtém dele o perdão de nossos pecados e todas as graças que precisamos. Infelizes de nós, se não tivéssemos Jesus Cristo! E quem poderá louvar e agradecer suficientemente o amor e a bondade que este bom Redentor nos demonstrou, querendo morrer por nós, pobres pecadores, para nos livrar da morte eterna? “É difícil haver quem morra por um justo, ainda que talvez alguém se anime a morrer por um bom” (Rm 5,7). Apenas se encontra quem queira morrer por um homem justo; mas Jesus Cristo quis dar a vida por nós, quando éramos pecadores: “Porque ainda quando éramos pecadores, em seu tempo, Cristo morreu por nós” (Rm 5,8-9). Por isso nos assegura o Apóstolo que, se estivermos resolvidos a amar Jesus Cristo a todo o custo, podemos esperar todo o auxílio e apoio do céu: “Se, quando éramos inimigos de Deus, fomos com ele reconciliados pela morte de seu Filho, muito mais agora, já reconciliados, seremos salvos pela vida deste” (Rm 5,10). Notem os que amam a Jesus que fazem injúria ao amor que nos consagra esse bom Salvador, quando temem que ele lhes negue as graças necessárias para se salvarem e fazerem-se santos. E para que nossos pecados não nos façam perder a confiança, continua S. Paulo: “Não acontece, porém, com o dom o mesmo que com o pecado, porque se pelo pecado de um morreram muitos, ainda mais abundantemente a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, se derramou sobre muitos” (Rm 5,15). Com isso quer significar que o dom da graça, alcançado pelo Redentor por sua paixão nos trouxe maiores bens do que foram os males ocasionados pelo pecado de Adão, já que têm maior valor os merecimentos de Jesus Cristo para obrigar a Deus a nos amar que o pecado de Adão para nos atrair o ódio do mesmo. “Pela graça de Jesus Cristo adquirimos maiores bens do que os que havíamos perdido pela inveja do demônio” (S. Leão Serm. 1 de ascens.).

2. Terminemos. Almas devotas, amemos Jesus Cristo, amemos esse Redentor que muito merece ser amado e muito nos amou, não deixando de fazer coisa alguma para ganhar o nosso amor. Basta saber que, por nosso amor, quis morrer consumido de dores numa cruz e, não contente com isso, deixou-se ficar no Sacramento da Eucaristia, onde em alimento nos dá o mesmo corpo que sacrificou por nós e em bebida o mesmo sangue que por nós derramou em sua paixão. Seríamos muito ingratos, não só ofendendo-o, mas também amando-o pouco e não lhe dedicando todo o nosso amor. Ó meu Jesus, pudesse eu me consumir inteiramente por vós, como o fizestes por mim. Mas, visto tanto me haverdes amado e me obrigado a amar-vos, ajudai-me então a não vos ser ingrato e muito ingrato eu seria se amasse alguma coisa fora de Vós. Vós me amastes sem reserva, também eu quero amar-vos sem reserva. Tudo abandono, renuncio a tudo para dar-me todo a vós e para não ter em meu coração outro amor senão o vosso. Aceitai-me, meu amor, por piedade, sem considerar os desgostos que vos causei no passado. Vede que eu sou uma daquelas ovelhas pelas quais derramastes vosso sangue: “Nós, pois, vos suplicamos que socorrais a vossos servos que remistes com vosso sangue precioso”. Esquecei-vos, meu caro Salvador, das ofensas que vos fiz. Castigai-me como quiserdes, livrai-me unicamente do castigo de não poder vos amar e depois fazei de mim o que vos aprouver. Tirai-me tudo, meu Jesus, mas não me priveis de vós, meu único bem. Fazei-me conhecer o que quereis de mim, que eu com vossa graça quero executar tudo. Fazei que eu me esqueça de tudo, para me recordar só de vós e das penas que sofrestes por mim. Fazei que eu em nada mais pense senão em dar-vos gosto e amar-vos. Por favor, olhai-me com aquele afeto com que me contemplastes no Calvário, ao morrer por mim na cruz, e ouvi-me. Em vós eu ponho todas as minhas esperanças. Meu Jesus, meu Deus, meu tudo. Ó Virgem santa, minha mãe e minha esperança, Maria, recordai-me ao vosso Filho e obtende-me a fidelidade no seu amor até à morte.

A hediondez espírita - Dom Corrêa (18/22)

A HEDIONDEZ ESPÍRITA

Dom José Eugênio Corrêa
Bispo de Caratinga
(1957-1978)

18. NO ESPIRITISMO NÃO HÁ CARIDADE

Depois de tudo o que já sabemos do Espiritismo, será possível ainda pensar que o Espiritismo é capaz de fazer caridade?

De fato, o Espiritismo fala muito em caridade e com isto vai ganhando a benevolência do brasileiro, pouco instruído e inclinado naturalmente à bondade. O Espiritismo tem realizado em muitos lugares certas obras de caridade. Mas, será caridade mesmo, ou justamente o contrário?

Os espíritas realizam obras sociais com o intuito de propaganda. O que desejam é disseminar o Espiritismo. E o Espiritismo é um bem ou um mal? Se o Espiritismo é um perigo para o Cristianismo verdadeiro; se é um perigo para a saúde espiritual e física de nossa gente; se é uma congérie de erros e superstições grosseiras... devemos concluir que o Espiritismo não pode fazer o bem, mas o mal! Ninguém dá o que não tem!

Afinal, que é caridade? Caridade é virtude teológica, tem Deus por motivo: é amor de Deus, por amor de Deus e amor do próximo por amor de Deus.

Quando se ama o próximo e se faz o bem, por amor dos homens, não é caridade, é filantropia.

São Paulo diz na Epístola aos Coríntios que podemos ter uma fé de transportar montanhas... podemos conhecer todos os mistérios... dar todos os nossos bens no sustento dos pobres... mas, se não for por caridade, isto é, por amor de Deus «nihil sum...» «nihil prodest...» não sou nada! Não vale nada!

Ora, um herege, como os espíritas, não pode dizer que faz as coisas por amor de Deus. Como é que se pode dizer que faz alguém uma coisa por amor de Deus, quando está mal com Deus?

Quem é que tem o amor de Deus? Jesus disse: quem me ama observa a minha doutrina, segue a minha lei... Quem não está com Cristo, está contra Cristo, contra Deus, está mal com Deus, não tem o amor de Deus, não pode dizer que age por amor de Deus! O Espiritismo nega todas as verdades da Fé, está contra Cristo, está errado, não pode estar ao mesmo tempo bem com Deus e fazendo as coisas por amor de Deus... No Espiritismo não pode haver caridade!

Afinal, sem união na fé, não pode haver união na caridade. Onde não há a verdade não pode haver o bem, não pode haver o verdadeiro amor. Por isto, diz São Paulo que, se vier um Anjo do céu e anunciar outra doutrina diferente, que a doutrina ensinada pelos Apóstolos, seja ele anátema, maldito! O Espiritismo ensina justamente o contrário do que ensinaram os Apóstolos: seja o Espiritismo anátema, maldito! Não podemos ter união e caridade com o erro!

E São João diz: «Se alguém for ter convosco, e não vier com esta doutrina (a autêntica doutrina cristã), não o recebais em casa» (2 Jo. 10, 11).

Não ha caridade no Espiritismo, não é possível caridade para com o Espiritismo!

26 de agosto de 2014

Sermão do XI Domingo depois de Pentecostes - Pe. Luiz Fernando Pasquotto, IBP

Sermão do XI Domingo depois de Pentecostes


"Ide e ensinai todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas aquelas coisas que vos mandei".
(S. Mateus 28, 19-20)
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria...
Já vimos o que é a virtude da fé e algumas visões falsas do que seria esta virtude. Prosseguiremos hoje um pouco mais, e veremos aquelas coisas que parecem ser fé, mas não são.
Se alguém não crê em qualquer artigo ou ponto de nossa fé católica ou, advertidademente, duvida que seja verdade, dizendo-se que é afirmação que pode não ser verdade, então não tem fé. Primeiramente, porque o motivo de crer em todas as verdades de fé, a autoridade de Deus que revela, vale para cada uma delas. Não crendo em uma só, ou duvidando dela, joga fora a autoridade de Deus que afirma a veracidade dela e, com isso, o motivo que sustenta o ato de fé em todas as outras verdades juntamente. Deus, que revelou uma verdade de fé, revelou as outras também. Quem diz crer na Trindade, mas não na presença real de Cristo na Eucaristia, mostra que defende a Trindade não porque Deus revelou, mas por vontade própria. O mesmo Deus que disse: "Eu e o Pai somos um", também disse: "Isto é o meu corpo". Se crê em uma, mas não em outra, é porque se fundamenta não na autoridade de Deus, mas na própria vontade. Consequentemente, não tem fé, que se fundamenta na autoridade de Deus que revela, e não no capricho próprio.
Muitos católicos, atualmente, querem acreditar simplesmente no que eles querem acreditar, e não em todas as coisas que Deus revelou. A fé não está submissa aos nossos desejos. A fé é uma virtude que nos faz crêr precisamente em tudo o que Deus nos revelou. É uma das principais coisas que distinguem um modernista, porque o modernista aceita o que acha que pode aceitar, e não no que o magistério da Igreja ensina como sendo verdade de fé.
Quem crê nas verdades da fé só porque acha que constituem a religião mais perfeita dentre as que existem, e porque é defendida pelos homens mais eruditos e dignos de respeito, ou porque é a religião mais espiritual dentre todas, ou porque é a religião que construiu o Ocidente e por isso merece respeito e admiração, não tem fé. Não são estes os motivos que nos levam a crer com fé verdadeira e sobrenatural. O motivo é a autoridade de Deus que revela. É muito comum encontrar pessoas, muito influentes e admiradas até, entre a chamada direita, que têm essa posição: defende-se a fé católica e a Igreja católica somente porque construiram o Ocidente, a Europa. Encontramos pessoas assim até entre os que dizem formar a chamada direita católica.
Na França ou na Itália, por exemplo, e o Brasil não está imude deles, há direitistas que se dizem católicos não porque têm fé verdadeira, mas porque foi a religião que construiu a Europa, a França ou a Itália, a religião de Clóvis e dos povos que formaram a França ou a Itália, por exemplo. Nenhum desses motivos faz com que tenham fé verdadeira. Quer dizer que se fosse o islamismo ou o budismo que tivessem formado a Europa, então seriam estas as religiões que deveríamos estimar e admirar, e deveríamos aceitar as falsidades que ensinam? Quer dizer que aqueles que vivem no Irã ou na Arábia Saudita devem defender o islamismo e abraçá-lo, porque foi a religião que formou a cultura desses países? Então os recentes mártires católicos de Mosul não tinham, finalmente, porque morrer? Muitas pessoas que se dizem tradicionalistas defendem o rito romano tradicional somente por esses motivos. Muitos católicos que frequentam a missa no rito romano tradicional e que o defendem pelos motivos corretos, não vêem esses defeitos em certos "tradicionalistas", frequentemente pela inocência com que consideram as coisas que ouvem e os artigos que lêem. Porém, a simplicidade de análise pode ser bonita numa criança, mas não é nenhuma virtude em um adulto. Finalmente, não se crê baseado somente no fato de ser a religião recebida dos pais ou avós ou familiares, que podem enganar-se e nos enganar, sendo homens que são. Não é esse o motivo que nos faz crer nas verdades reveladas.
A fé-confiança protestante não é fé verdadeira. Lutero ensinava que a natureza humana está totalmente corrompida depois do pecado original. Nenhuma obra boa pode ser feita pelo homem. Todos os atos do homem são pecados. Um bom padeiro, que faz um bom pão, peca; aquele que dá uma esmola peca; quem ensina o catecismo peca. Como o homem é um animal corrompido, não pode fazer nada por si mesmo para se salvar. É inútil dedicar-se às boas obras. A salvação só é obtida quando o homem põe toda a sua fé, ou seja, uma confiança cega, em Cristo. Pecar ou não pecar não têm importância. O que importa é crer, isto é, ter uma confiança tão firme quanto cega.
Haveria muito a se comentar sobre estas teorias de Lutero. É evidente que se baseiam sobre os escrúpulos de consciência que tinha. Sedento de segurança moral, se livra dos escrúpulos que tem dizendo que tanto faz pecar ou não pecar; o que importa é crer, isto é, confiar cegamente em Cristo, de que Ele já carregou nossos pecados e não precisamos fazer nada por nós mesmos para nos salvar. Mas o que nos interessa aqui é que confiar em Deus não é um ato da virtude da fé, mas da virtude de esperança. Lutero erra no conceito que tem da virtude de fé. Além disso, os hereges não podem ter confiança sobrenatural em Deus. Vimos que a fé é o fundamento de todas as virtudes sobrenaturais. Não tendo fé verdadeira e sobrenatural, não podem ter esperança verdadeira e sobrenatural, e não podem exercer a virtude de esperança que não têm, confiando em Deus. A confiança de Lutero é uma constante ginástica mental, pela qual o pecador busca se consolar dizendo-se a si mesmo que tudo está certo e de que tudo está bem entre ele e Deus, ao mesmo tempo em que vê que as coisas não estão bem entre ele e Deus, que não cumpre os mandamentos livremente. A fé de Lutero é uma quimera que busca acalmar os remorsos da consciência por meio de um princípio errôneo. É um sentimento voluntariamente, violentamente e constantemente produzido. Não é nem virtude de fé, nem pode ser sustentado por muito tempo sem que a pessoa perda o equilíbrio psicológico, pela desordem interna que tem e mantém.
Não tem fé verdadeira quem diz que os dogmas são somente símbolos aproximativos, que exprimem imperfeitamente a experiência pessoal dos membros de uma comunidade. Os dogmas seriam "verdades" temporárias, vindas do interior do homem, emanando da "consciência" pelo sentimento. A comunidade cristã se formou sobre essa experiência que Cristo teria tido com o divino, e essa experiência seria o fundamento da fé. Essa experiência que Cristo teve com o divino pode ser tida por qualquer homem, seja ele muçulmano, protestante, budista. Não há motivos racionais para o ato de fé, somente o sentimento de cada um. Todas as religiões seriam expressões diferentes de diferentes experiências sentimentais e pessoais com a divindade. Por isso, não existe nada, finalmente, que separe as religiões entre si e devemos buscar a união delas, que se faz no amor entre os homens. Uma religião não é válida por ser verdadeira, mas porque produz um sentimento de piedade. Todas são assim, finalmente, e todas as religiões devem coexistir para formar um mundo melhor, fraterno, justo, solidário. Não creio porque Deus revelou, mas porque sinto Deus em mim.
Por isso as crianças não devem aprender os dogmas nas aulas de catecismo, mas devem ser levadas a encontrar Jesus. Pecado não é um ato ou omissão contrários à lei de Deus, mas tudo aquilo que impede o homem de sentir Deus por uma experiência pessoal. Infelizmente são noções extremamente difundidas hoje, em muitos casos por uma verdadeira má compreensão do que é a virtude da fé. Estas noções não são sem consequências. As crianças, ignorando as verdades de fé e as obrigações que têm, primeiramente não dão valor para a religião, que se apresenta a elas como algo nebuloso, vago, sem inteligência e terminam, muitas vezes infelizmente, afastando-se da prática religiosa. As diversões e os programas modernos são tão mais divertidos e mais concretos! Sem princípios, e colocando o critério da verdade no sentimento, elas estão desarmadas diante dos ataques do mundo e do demônio. Além disso, julgarão que a fé é algo incompatível com o estudo, com o conhecimento racional das coisas que Deus criou. Ao ingressar na faculdade, ao crescer em conhecimento, o jovem não somente se desinteressará pela religião, mas verá nela algo oposto à razão, ao que é ensinado pela mais alta matemática ou pela biologia ou pela física, ouvindo as aulas de professores ateus dadas em universidades governadas por maçons. Para piorar a situação, a vida fácil e cheia de liberdades que se tem na faculdade, longe de casa e sozinho, leva muitos a aumentar os pecados, com o consequente afastamento de Deus, que repreende a má vida que passam a levar. Tem-se uma diminuição da prática religiosa, a extinção do espírito combativo e de apostolado que os jovens deveriam ter para difundir a fé católica e converter os que não são católicos, uma diminuição do número de jovens interessados em ingressar nos seminários e conventos. Essa diminuição será ainda maior entre as moças, que são o alvo mais visado pelo mundo atualmente, com a moda imodesta, o feminismo, a superficialidade e a impulsividade no comportamento, o sentimentalismo. Fala-se muito da queda de vocações sacerdotais, mas o problema é ainda maior no que diz respeito às ordens e congregações femininas.
Os professores de catecismo, e os pais que o ensinam aos seus filhos quando ainda são bem novos, não devem pensar que é coisa sem valor. Cito aqui as palavras de um filósofo francês do século XIX, Théodore Jouffroy. Tinha recebido uma educação muito religiosa, mas depois foi influenciado pela leitura de Rousseau e Voltaire. Atravessou uma crise espiritual, da qual deixou um relato. Abandonou o catolicismo. As palavras dele que se seguem são, portanto, insuspeitas: "Existe um livrinho que é imposto às crianças, e a respeito do qual elas são interrogadas na Igreja. Leiam este livro, que é o Catecismo. Nele encontram-se todas as soluções para as questões que em coloco, digo de todas, sem excessão. Perguntai ao cristão de onde vem a espécie humana, e ele o saberá; a finalidade do homem, e o saberá; para onde vai, e o saberá. Perguntai para esse menininho, que ainda não pensou, porque ele está aqui nesta terra, e o que lhe acontecerá depois de morto, e ele o saberá, dando uma resposta sublime... A origem do mundo, de nossa espécie, para onde vai o homem nesta vida e na outra, o que o homem deve fazer com relação a Deus, consigo mesmo e seu próximo, o direito dos homens sobre as criaturas, o cristão sabe todas estas coisas. Quando essa criança crescer, quando for um adulto, conhecerá o direito natural, compreenderá a política, e o direito que deve governar os povos, e os verá com clareza. Eis o que chamamos uma grande religião; eu a reconheço assim, como algo que não deixa nenhuma questão humana sem resposta". Sabemos o que pensar desse modo como vê o Catolicismo, pelo que explicamos acima. Mas até ele, que deixou a Igreja, reconhece o valor do catecismo na formação das crianças.
É um trabalho que vale a pena ser feito. O Cardeal São Roberto Bellarmino, São José de Anchieta, São Francisco Xavier, São Domingos, todos eles e todas as almas apostólicas se deram as maiores penas e sacrifícios para ensinar o catecismo às almas, por amor a Deus. No catecismo, as verdades mais profundas são ensinadas com expressões precisas, densas em doutrina e que serão o fundamento sobre o qual nossos filhos regrarão a formação intelectual e o comportamento que terão, e muitas vezes suspeitarão que algo parece não ser correto, e irão atrás de esclarecimentos. Se se desviarem, terão essas verdades como ponto de partida de um arrependimento sincero e sobrenatural.
As crianças devem conhecer as respostas de cor. É uma pedagogia que foi abandonada há algumas décadas, sendo considerada como grotesca, mas que agora volta a ser defendida por pedagogos modernos baseados em estudos neurológicos sérios sobre as crianças, nos quais se mostra que com elas deve-se proceder na base da aprendisagem pela memória. Só mais tarde elas saberão lidar mais livremente com o que já sabem de cor (é impressionante como o homem moderno se acha tão mais sábio e genial do que os antigos e seus métodos seculares, que duraram tanto justamente porque funcionam bem). A formação doutrinária não é uma perda de tempo e ela faz bem mesmo para os que não têm fé, ao menos pelo bom odor das virtudes que os cristãos exalam. Foi formando os doze Apóstolos que Nosso Senhor ensinou o mundo inteiro.
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.
Escrito por Padre Luiz Fernando Pasquotto em Terça Agosto 26, 2014 
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Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

12/15  -  Como é vantajosa a devoção para com as almas do purgatório.

Quando morria algum de seus amigos ou conhecidos, São Francisco de Sales era insaciável em dizer e bem e recomendá-los às orações de todos. A sua frase ordinária era: Não nos lembrarmos bastante dos nossos mortos, dos nossos fiéis falecidos; e a prova é que não falamos muito deles. Apartamo-nos desse discurso, como de um propósito funesto, deixamos os mortos enterrarem os mortos; a sua memória parece entre nós com o som dos sinos, sem nos lembrarmos que a amizade que pode terminar pela morte nunca foi verdadeira, pois diz-nos a Escritura santa que o amor verdadeiro é mais forte do que a morte.
Acrescento que costumava dizer que só com esta obra de misericórdia se encontram as outras.
Não é certo modo, dizia ele, visitar os enfermos, o obtermos por nossas orações o alívio das pobres almas que estão no purgatório? 
Não é em dar de beber a quem tem sede grande da visão de Deus e que esta entre ardentes chamas, fazer-lhe participar do orvalho das nossas orações?
Não é dar de comer a quem tem fome auxiliar a sua soltura por meios que a fé nos sugere? 
Não é remir os cativos?
Não é vestir os nus, procurar-lhes um vestido de luz e de glória?
Não é uma insigne hospitalidade procurar a sua  introdução na Jerusalém celeste e torná-los cidadão, santos, e servos de Deus na eterna Sião?
Não é maior serviço levar almas para o céu que enterrar corpos?
Quanto às espirituais, não é uma obra cujo mérito se pode comparar com o de ensinar os ignorantes, castigar os que erram dar bons conselhos, perdoar as injúrias?
E que consolação grande se pode dar aos aflitos deste mundo que se possa comparar à que levam as preces a estas pobres almas, que estão em tão penosos sofrimentos?

Do diabólico delírio dos mórmons - Pe. Leslie Rumble, M.S.C. (2/20)

Os Mórmons
ou
"Santos dos Últimos Dias"

Padre Leslie Rumble, M.S.C.
Doutor em Teologia  
Missionarii Sacratissimi Cordis
"Missionários do Sagrado Coração"

MISSIONÁRIOS DE UTAH
Bem recentemente, bateram-me à porta dois jovens Americanos, pedindo ver-me. Foram introduzidos na sala de recepção, e, quando entrei alguns momentos depois, eles se levantaram para se apresentar, de maneira muito cavalheiresca e cortês. Disseram-me que eram missionários de Utah, representando a "Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias", e que por um católico tinham sido aconselhados a obter de mim esclarecimentos que não tinham podido obter dele.
"Então os srs. são Mórmons", disse eu."Popularmente somos chamados desse modo", respondeu o mais velho dos dois, "mas preferimos o título de "Santos dos Últimos Dias". Embora aceitemos o Livro de Mórmon, a denominação oficial da nossa Igreja é essa que lhe demos". Quando nos sentamos, eles me contaram a sua história. Andando de porta em porta, pedindo ao povo considerar a sua explicação de uma dispensação religiosa para os cristãos, eles não podiam deixar de surpreender-se com a sua incapacidade de fazer qualquer impressão nas pessoas católicas. Da parte de outros, muitas vezes havia interesse, e sempre incerteza. Mas os Católicos justamente não queriam ouvir coisa alguma sobre outras religiões. E, quando eles perguntaram a um católico como era que ele podia conciliar com os claros ensinamentos da própria Bíblia a certeza que ele tinha da sua fé, foi então que eles me foram encaminhados.
O mais moço dos dois exibiu então um exemplar da Versão Douay da Bíblia, no qual os versículos que eles consideravam como falando contra as Igrejas Cristãs ortodoxas e em favor do Mormonismo haviam sido sublinhados com tintas de diversas cores. Tive de lhes dizer que absolutamente não tinha intenção de travar discussão sobre o significado de uma multidão de textos, no breve tempo de que dispúnhamos. Mas concordei em lhes dar a explicação em busca da qual eles tinham vindo, tornando-lhes clara a atitude que a vasta maioria dos católicos imediatamente adota em face de esforços feitos para os ganhar para qualquer outra religião. E apresentei-lhes brevemente os fundamentos escriturários, históricos e racionais para a convicção católica de que, se a Igreja Católica não é a única verdadeira Igreja de Jesus Cristo, absolutamente não existe nenhuma Igreja verdadeira, de acordo com os requisitos bíblicos.
Eles escutaram pacientemente, atentamente mesmo. Não se mostraram ressentidos com a minha sugestão de que as próprias qualificações deles dificilmente se podia esperar tivessem peso contra a autoridade docente da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica de todos os séculos. Com singeleza admitiram a sua falta de erudição bíblica, e a sua ignorância da história da Igreja Cristã desde os tempos apostólicos. Apenas disseram que acreditavam nos particulares episódios históricos que o Livro de Mórmon narrava, e nas revelações divinas proclamadas pelo seu profeta Joseph Smith e continuadas entre os Santos dos Últimos Dias. Estas é que lhes haviam sido ensinadas; e eles nunca tinham visto razão qualquer para duvidar delas; e tinham sido enviados para fora de Utah a fim de explicar as suas doutrinas a todos os homens de boa vontade. Eles se retiraram, pedindo desculpas de haverem tomado o meu tempo, e dizendo que haviam compreendido a necessidade de aprofundar mais a matéria. Por minha vez, resolvi também olhar mais de perto o Mormonismo deles, e estou expondo os resultados do meu estudo para uso de outros interessados no assunto, e não menos, como já disse, para benefício dos próprios Mórmons.