Mostrando postagens com marcador Ingratidão dos homens para com Jesus Sacramentado. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ingratidão dos homens para com Jesus Sacramentado. Mostrar todas as postagens

8 de janeiro de 2010

Décima ingratidão dos homens para com Jesus Sacramentado

Negligência dos Sacerdotes que celebram raras vezes o Santo Sacrifício da Missa

Grande e detestável é, como ficou dito, a ingratidão de um Católico negligente em receber o Corpo de Jesus Sacramentado, Fonte de Graça e origem de todo o bem que nos deixou no mundo Seu amor. Mas qual será a ingratidão de um Sacerdote, eleito pelo próprio Deus, não só para alimentar-se da Sua Carne, mas para consagrar, repartir e ser o dispensador de Seu Sangue, se, por negligência ou vaidade, costuma chegar poucas vezes ao Altar. Vereis alguns desses tão olvidados do favor e elevado estado a que Deus os sublimou, que deixam passar semanas inteiras, e até meses, sem celebrar uma Missa; e outros só a dizem nas quatro festas do ano. E, o que é mais para admirar, assim o praticam hoje por grandeza e razão de estado os eclesiásticos de grande autoridade.
A maior dignidade a que Deus exaltou, nem poderia exaltar mais, Maria Santíssima Senhora Nossa, foi, sem dúvida, elegê-l'A para Sua Mãe, tomando carne em Suas puríssimas entranhas. Porque nem o conceder-Lhe domínio sobre todo o criado e por criar, nem adorná-l'A de todos os dons da graça e da glória se podem comparar com a honra que Lhe fez com Sua Maternidade, que encerra em si uma incomparável e infinita excelência. Avivai, pois, a fé, Ministros do Altíssimo, e entendei que vos sublime, de certo modo, a essa mesma dignidade, que foi uma só vez confiada Àquela Divina Senhora, Mãe Sua, todas as vezes que baixa do Céu para colocar-Se em vossas mãos, nas quais não hesitou em falar Santo Agostinho que renova todos os dias Sua Encarnação: O magna dignitas Sacerdotum, in quorum manibus Dei filius quotidie sicut in utero Virginis incarnatur!
O primeiro Sacerdote da Lei da Graça que houve no mundo foi o próprio Divino Verbo Humanado, Que, antes de oferecer na Cruz o Sacrifício cruento de Sua vida, já O havia oferecido incruento com a vítima de Seu Corpo Sacramentado, e foi tão alta essa dignidade do Sacerdócio de Cristo que só a Ele, como a Seu Filho natural, podia Deus conferi-la, para que desse digna satisfação de uma ofensa cometida contra uma Majestade infinita. De maneira que nenhum Anjo, nem o primeiro Serafim do Epíreo, era suficiente para imprimir-se-lhe o caráter excelente de Sacerdote, com o qual oferecesse, sendo juntamente vítima, uma adequada recompensa à Divina Justiça, ofendida com as culpas dos homens. Pois esse mesmo caráter, que só podia conceder-se a uma Pessoa Divina, confere-se, sem dúvida, a um Sacerdote, que, ingrato de tão alto benefício, não o estima, para que, não como vítima, mas como Ministro que A oferece, faça o mesmo Sacrifício de tanto valor e agrado ao Eterno Pai, que, só com ele, Se daria por satisfeito para a redenção de todo o mundo.
Porém, não querem os Sacerdotes de nossos tempos deixar-se ver muitas vezes no Altar, como envergonhados de ser Ministros do maior e mais Augusto de todos os Sacramentos. Ó ingratidão incrível, porém praticada frequentemente! Sabeis vós o que é dizer uma Missa? E sabeis o que é, sem legítima causa, não a dizer? Pois ouvi um Santo Agostinho, que vos condena não menos que de culpa de lesar a Magestade Divina, porque afirma resolutamente que, quanto é de vossa parte, privais de gória a toda a Santíssima Trindade. Mas quem poderá explicar os inumeráveis, preciosíssimos tesouros de que a vos mesmos e a outros privais?
Anelam, suspiram e esperam vossos Sacrifícios aquelas aflitíssimas Almas do Purgatório, como o único refrigério de suas penas. E é opinião muito piedosa que, enquanto dura o Sacrifício da Missa, suspendem-se os tormentos que padecem aquelas Almas por quem se aplica: O Verbo Divino Humanado já não está em estado de ofereccer visivelmente no Altar o Sacrifício de Seu Sangue Sacramentado para satisfação das culpas dos homens, porquanto, para esse efeito, deixou-vos como substitutos e Vigários seus na terra, para que, em Seu nome e com Seu mesmo poder, façais o mesmo que só Ele podia fazer, revestido da dignidade sacerdotal no Cenáculo e na Cruz, e, por essa razão, sois chamados Ungidos e Cristos na terra.
Olhai, pois, se se pode conceber dignidade mais superior que a vossa, pois, nessa parte, é igual à do próprio Redentor do Mundo. Olhai quão formidável aos demônios e invejável aos Anjos será vosso poder. É revelação certa que, no dia da instituição d'Este inefável Sacramento, levou-O um dos supremos Serafins a Maria Santíssima, Senhora Nossa, de cuja mão O recebeu pela primeira vez, e que, só por esse legado, deu-se por satisfeita toda a natureza Angélica de não ter-lhe Deus concedido, senão só à humana, a excelsa prerrogativa do sacerdócio.
Bem conheceram sua excelência aqueles piedosos e poderosos monarcas, que tanto apreciaram os Sacerdotes, que uns puseram a seus pés os diademas, outros lhes seguraram os estribos para montar no cavalo, e, com a cabeça descoberta e o chapéu na mão, conduziram-nos pelas rédeas. Não me digais que esses eram os Sumos Pontífices e os Vice-Deus na terra, porque vos direi, com o Doutor Angélico, que vosso poder é igual ao dos Papas em ordem a consagrar o real e verdadeiro Corpo de Cristo, ainda que o seu seja superior ao vosso em ordem ao Corpo Místico, que é a Igreja. Assim o entendeu um São Martinho, que quis que precedesse seu Capelão ao Imperador, que o havia convidado para a sua mesa. E São Carlos Borromeu nunca consentiu que nenhum príncipe, por grande que fosse, tomasse no coro o lugar destinado para os Sacerdotes. Tanto estimaram esses Herois a Real Coroa do Sacerdócio, que hoje desprezam os eclesiásticos de nosso tempo, com tão abominável ingratidão, que, como é a maior que se pode imaginar, é a que há de pôr fim à narração de todas as que usa o mundo com seu Amantíssimo Jesus Sacramentado, em correspondência das excessivas finezas de Seu amor.

7 de janeiro de 2010

Nona ingratidão dos homens para com Jesus Sacramentado

Temeridade dos Sacerdotes no modo com que celebram o Santo Sacrifício da Missa

Infelizes são nossos tempos, que vemos tão mudados que, se voltassem ao mundo aqueles homens dos passados séculos, não os reconheceriam. Como sucedeu àquele sábio cidadão romano, que, voltando a Roma, sua pátria, donde havia estado muitos anos ausente, encontrou-a tão diferente que, soltando suspiros do coração, clamava pelas praças: Video Romam, Romanorum mores non video. Vejo Roma, mas não vejo os costumes dos romanos. (Continua)

Desse modo, parece-me que os que conheceram a santidade dos antigos Sacerdotes, aquela vida inculpável, aquela inocência de costumes, podiam também, com não menor admiração, clamar nestes tempos: Video Sacerdotes, Sacerdotum mores non video. Vejo bem os Sacerdotes, mas as virtudes e costumes dos Sacerdotes, essas não as encontro. Então via-os dirramando lágrimas pelos Altares pelos pecados do povo, e agora os acho tão irreverentes nos mesmos Altares, que é preciso pedir a Deus que perdoe as culpas dos Sacerdotes. Agora os vejo frequentes nas praças e nos teatros, e rara vez nas Igrejas; descuidados em buscar as Almas dos pecadores, e solícitos em seguir o alcance das lebres e dos veados. Sustentam mais cães para a caça do que pobres de Jesus Cristo; tem a cama mais adereçada do que o Altar; cuidam mais da mesa que da Missa; é mais precioso o vaso com que bebe do que o Cálice em que consagra; o vestido é mais custoso que a Casula; a toalha, mais limpa que os Corporais. Estes são os mais validos de Deus, esta é aquela geração escolhida pelo Altíssimo para sentá-los no Trono de seus Altares e sacrificar a Vítima de Seu Eterno Filho, selados com o glorioso caráter de Seus Ministros, e vestidos da Real Púrpura do Sacerdócio. Agora os vejo dissipar, não dispensar, os mistérios de nossa Redenção, e oferecer mais vítimas ao ídolo de seus apetites, do que Sacrifícios ao Deus de Majestade.
Justos serão os clamores e as lágrimas dos que hoje vissem o Sacerdote, mais escandaloso do que o leigo, e, o mais favorecido, mais ingrato. Muitas são as ingratidões que os Ministros do Altar usam com o Redentor Sacramentado, e mais para escrever-se-as com lágrimas que com tinta. Não referirei aqui algumas maldades enormes, das quais ainda uma grande parte tocou ao nosso século chorar. Não me detenho em contar a impiedade daquele que não merece o nome de Sacerdote, o qual, numa cidade da França, celebrava a Missa à honra de seu demônio assistente, e, depois de consagrar com reta intenção, pisava a Sagrada Hóstia com os pés, e A dava a comer aos cachorros, e, derramando o Sangue de Jesus sobre a cabeça de outros atrevidos e pérfidos malvados, clamavam todos em altas vozes: Sanguis ejus super nos. Deixo outros casos indignos de escrever-se e saber-se. Apontarei só duas das mais frequentes ingratidões em que incorrem os Sacerdotes contra o amante Jesus Sacramentado.
Uma delas é a grande irreverência com que celebram o tremendo Sacrifício da nossa Redenção. Tocam, benzem e manejam com pouco respeito e atenção o adorável Corpo de Jesus, que muitos hereges, entrando em nossas igrejas, fizeram burla de ver tratar tão indecentemente um Mistério Que lhes dissemos ser o mais Augusto e o mais Divino de nossa Religião. O doutíssimo Mestre João d'Ávila, Apóstolo da Andaluzia, vindo a um Sacerdote que celebrava o Sacrifício do Altar com irreverência grande, chegando-se a ele, disse-lhe: Trata melhor Este Senhor, que é Filho de bons Pais. Convosco fala ainda, ó Sacerdote, essa apostólica língua! Sabeis de Quem é Esta Carne, Que, com vossa palavra, produzis sobre este Altar? Sabeis de Que é Este Corpo e Sangue Que manejais e bebeis com tanta liberdade? É do Filho dum bom Pai, é do Unigênito de vosso Criador, é o Sangue de Deus vivo e de infinita Majestade. É o Filho de tão boa Mãe, como Maria Santíssima, Cuja carne, no sentir de Santo Agostinho, é a mesma que A de Jesus Sacramentado. Como, pois, não vos tremem as mãos ao tocá-l'O com tanta irreverência?
Aquela brasa com que o Serafim purificou os lábios de Isaías, só por representar-se nela Este Divino Sacramento, não se atreveu a tocá-la com as mãos, mas a tomou do Altar com umas tenazes. Pois se, para tomar uma figura do Corpo de Jesus, não são puras as mãos de um Serafim, como o serão, para tocar o próprio Corpo, as mãos de um lascivo? Por essa razão clamava Santo Ambrósio: Vide quid agas, Sacerdos, ne febrienti manu Christi Corpus attingas. Ministros do Altar, olhai bem o que fazeis, guardai-vos de tocar a Carne de Cristo com a mão cheia de lepra, não metais em seu costado os dedos cancerosos. Os próprios gentios tinham tanto horror de chegar manchados para oferecer as vítimas aos seus simulacros, que, por todas as partes, se ouvia este ditado: Procul esto profani et manibus puris sumite fontis aquam.
Vereis outros celebrando o tremendo Sacrifício da nossa Redenção com tanto desprezo pelas cerimônias, com tanta precipitação de palavras, como se não tivessem outra meta que apartar de seus olhos Aquela Divina Hóstia, Que devia ser o único objeto de seu amor. Seria delito grande querer perduadi-los a gastar meia hora de tempo em celebrar uma Missa, quando consomem a maior parte do dia em tantas profanidades. Sacerdote houve que apostou com o próprio demônio quem acabava mais depressa: esse em levar uma pedra de uma cidade a outra, ou ele em oferecer o Sacrifício da Missa.
Obstupescite Cæli super hoc! Pasmai, Céus, maravilhai-vos, Anjos, dum caso de tanta admiração! Creio verdadeiramente que os corações daqueles Serafins estão atônitos em ver o que se passa em nossos Altares. Chorai, porém, vós, Sacerdotes: Plangite Sacerdotes et ululate. Porque as ingratidões de outros homens, à vista das vossas, são como finezas. Dizia Santo Agostinho que o Cristão que peca depois de ser comprado com o Sangue de Cristo merece que se faça de novo um inferno para ele. Pois que diria de vós, que não só sois comprados, mas como se fôsseis senhorse do mesmo Sangue? Pois é certo que tendes domínio sobre Ele e poder para reproduzi-l'O, manejá-l'O, benzê-l'O e dispensá-l'O. Ó, que desgraça seria, que Aquele Sacrifício, Que agora ofereceis pelos pecados alheios, sirva aos outros de remédio, e a vós, de condenação! Presságio funesto foi para César de uma cruel morte, não achar coração na vítima que oferecia a seu falso Numen. Que prognóstico, pois, tão infeliz será para vós, quando se verão quantas vítimas sacrificastes ao verdadeiro Deus, sem coração, isto é, sem merecimento nem agrado do Altíssimo, antes, em lugar de coração, não vereis derramado nesses Cálices mais do que o fel da ira de Deus, Que, convertendo em fezes Seu precioso licor, bebê-las-eis com sumo tormento vosso: Quia Calix in manu Domini vini meri plenus mixto, fex ejus non est exinanita.
Então vereis o que é chegar-vos indevotos ao Altar, desprezar uma cerimônia, fazer no ar uma genuflexão, dizer distraídos uma Missa. E se esses serão contra vós monstros muito horríveis, que será um Sacrifício oferecido em pecado mortal? Que será ver, então, o leão irado sobre vossas cabeças, Aquele Que agora, como manso cordeiro, tentes em vossas mãos? O imperador germânico não se deu por seguro da ira do deus Ape, quando esse não pôs os olhos em seu sacrifício; nem a Graco tardou muito a ruína, logo que o vendo lhe fez voar a vítima que oferecia. Que podeis, pois, esperar, Ministros do Sangue de Jesus, se vossos Sacrifícios, se vossas vítimas não só voaram pelos ares, como inúteis para vós, mas serão levados ao Trono da Divina Justiça, onde clamará contra vós o Sangue do Inocente Abel? Pensai seriamente num caso tão funesto, que eu também, pelo que me toca, vos acompanho com grande temor.

6 de janeiro de 2010

Oitava ingratidão dos homens para com Jesus Sacramentado

Impiedade dos que em estado de pecado mortal recebem Jesus Sacramentado

Chegamos ao cume da maior ingratidão que pode praticar um Cristão com o divino Amante Sacramentado, porque não há palavars bastantes para explicar a maldade de quem chega a pôr a boca imunda pelo pecado no Corpo Puríssimo de Jesus. Não cessa ainda toda a Igreja Militante de admirar-se de como o Criador dos Céus não teve horror de entrar do puríssimo ventre de uma Virgem, e era mais puro que uma açucena, e mais incorruptível que um sol. E que dirá a Triunfante? Que dirão aqueles espíritos angélicos em ver seu próprio Criador albergado numa alma, que, morta mela culpa, está escrava e tiranizada pelo Demônio? Ao traidor, culpado de Sua morte, chamou Satanás o Redentor, porque já o cruel tirano havia tomado posse de seu coração. Assim é. A Alma que jaz no miserável estado de culpa é um trono do príncipe das trevas, e se ela recebe em si o Corpo de Sangue de Jesus, é como pô-l'O aos pés do Demônio. (Continua)

Chorando tanta ingratidão, São Pedro Crisólogo exclamava: Ah! Deus Imortal! Unde te traxit amor? Aonde, Senhor, arrastou-Vos o amor pelos homens? A um presépio e a um calvário? Mais ainda. A uma habitação onde reina Satanás. Aí põem as criaturas Vosso Divino Corpo, onde este infernal príncipe pretende todas as adorações. Ele ali manda, ali reina, ali domina; e Vós, Onipotente e Imenso, sofreis que, nessa Alma onde entrais, exercite seu tirânico império? Envolta entre os mais duros grilhões do pecado, procura tragá-la o cruel logo, e Vós consentis que esteja juntamente ali Vossa Carne e Sangue, Que é A do mais Inocente Cordeiro?
Porém, olhai, Católicos, como neste caso vos ameaça o mais paciente entre os mortais: Panis in utero illius in fel convertetus aspidum. Este Pão, Que comeis indignamente, se vos converterá em fel de víboras venenosas. Quer dizer que Este Pão Que, a outros, dá vida, para vós será veneno. De um peixe chamado fastino, dizem os naturais que tem virtude de fazer doce toda a água salgada que entre em sua boca. Mas, a quem recebe em pecado o Sangue de Jesus, acontece-lhe o contrário, porque a bebida doce A faz amarga, e Aquele Sacramento Que é uma torrente de delícias, Se lhe converte em um mar de amarguaras.
Não para aqui o merecido castigo de sua ingratidão, diz o citado Profeta: Divitias quas devoravit evomit. Volta a vomitar aquele precioso manjar que engoliu. É o sentir de mui graves autores, que os Anjos, celando a pureza devida a Este Augustíssimo Sacramento, tiraram-n'O da boca imunda de Judas, antes que chegasse ao peito. Mas que é isso, se até os próprios Demônios obrigaram uma infeliz mulher, depois de morta, a lançar da garganta o Santíssimo Sacramento, que acabara de receber no mal estado: Divitias quas devoravir evomit. O Angélico Doutor põe em disputa qual seja maior sacrilégio: comungar em pecado mortal ou arrojar na imundície o adorável Corpo de Jesus Sacramentado. É certo que uma e outra culpa não cabem num coração caracterizado com o nome de Católico.
Convidado um grave filósofo à função de uns desponsórios, vestiu-se e aornou-se com extraordinário alinho, e, perguntado pela causa daquele primor, respondeu: Ut pulcher ad pulchrum vadam. Eu vou comer com uma beleza, e é preciso que não se veja em mim fealdade alguma. Assim deve fazer quem não só vai comer com Jesus, Que é o mais formoso dos homens, mas comer também Sua própria Carne e beber Seu Sangue. Deve vestir-se primeiro do candor da inocência, e, com lágrimas de compunção, lavar a mais pequena mancha de pecado.
O cisne, a mais branca entre as aves, nunca come o pão sem lavá-lo primeiro na água. Assim merece ser comido o Divino Pão Eucarístico, molhado primeiro com lágrimas de amor. Só assim gozará uma Alma de Seus admiráveis efeitos, porque o Corpo Sacramentado de Jesus é como o sol, que, conforme às disposições que encontra na terra, numa produz ouro, noutra prata, noutra ferro e noutra nada. Ó que infelicidade para uma Alma ser terreno tão árido e tão inútil, que nada produza nela Este Sol Divino de Jesus! Ó que desgraça! Levantar-se em jejum do real banquete do Sacramento, como os convidados de Heliogábalo, os quais, encontrando só os manjares pintados, saíam de sua mesa mais famintos do que haviam entrado.
Mas assim é. Entra o Sol Sacramentado nestas Almas, e nada produz nelas, porque as deixa como as acha. Dormia um centinela sobre os muros de Atenas, sitiada pelos inimigos, quando rondava seu vigilante capitão, e, vendo-o dormindo, tirou-lhe a vida, dizendo: Talem inveni, qualem reliqui. Morto estava, e morto o deixei. Assim obra Jesus Sacramentado com aquele que encontra morto pelo pecado mortal: deixa-o como se acha: Talem inveni, qualem reliqui. Castigo bem merecido por sua ingratidão, ficar morto nos braços da mesma vida, naufragar no porto, cegar-se com a luz e perecer com o remédio.

5 de janeiro de 2010

Sétima ingratidão dos homens para com Jesus Sacramentado

Desprezo daqueles que não acompanham Jesus Sacramentado quando sai aos enfermos.

Se é verdade o que afirmou Sêneca, que receber um benefício é vender a liberdade: Beneficium accipere est libertatem vendere, quantas vezes se teriam vendido os homens a Jesus, de Quem recebem, no Augustíssimo Sacramento, uma dádiva que, sendo Ele infinitamente rico e poderoso, esgotou com ela todos os Seus tesouros; nem tinha nais que dar-lhe Sua Onipotência. Sem dúvida, por esse título só são os Católicos mil vezes escravos do Redentor. Mas, sendo-o, que razão haverá para que, quando Ele sai pelas ruas, tenha tão poucos que O acompanhem? Eu O vi em cidades muito populosas, tão só e abandonado, que apenas ia o Sacerdote que levava, e duas ou três pessoas, que O assistiam, e então me confundi, lembrando-me daquele sobreaviso fausto, daquelas grandiosas comitivas, daquele número sem número de guardas, e daquelas custosas carroças cobertas e guarnecidas de ouro, com que saem de seus palácios os príncipes da terra. O Rei dos reis, o Deus de infinita Majestade, no mundo, é apenas tão desprezado... Ele, com passos de Gigante, corre desde o Céu à terra, rodeado de Coros Angélicos, que invisivelmente O acompanham, por chuvas e por neves passeia pelas cidades e vilas, não estranha entrar numa pobre casa e em uma humilde choça. Mas como correspondem os homens a esses excessos de amor e de cortesia?
Passa por suas portas o Amantíssimo Jesus, e os chama com aquelas piedosas vozes: Sequere me. Porém, eles, não como aquele venturoso arrendador, Mateus, ficam sentados no telônio, atentos ao tráfego e engolfados no interesse. À primeira vista do Redentor, ao primeiro soar de um venite post me, deixaram os Discípulos, para acompanhá-l'O, os barcos e as redes. As turbas, em número de cinco e seis mil pessoas, seguiam-n'O dias inteiros, famintas pelo jejum e cansadas do caminho. Flores e pedras há na terra, que seguem todos os passos do sol e o movimento da lua. Do helitrópio e da silenite o referem os naturais.
Também de brutos irracionais temos maravilhosos exemplos do grande ardor e diligência com que acompanhavam Jesus Sacramentado. Na cidade de Lisboa, tinha um pobre oficial um cachorro que, todas as vezes que o sino fazia sinal para sair o Santíssimo Sacramento, corria com extraordinária pressa à porta da Igreja, e, dali, sem nunca se apartar, por muitas experiências que fizeram, até matá-lo com paus, seguia-O até a casa dos enfermos. E, o que é mais, ao primeiro toque que, de noite, se ouvia, levantava-se como um leão, e, achando-se fechadas as portas, ladrava e se enfurecia tanto que era preciso abri-las, e uma vez sucedeu arrojar-se pelas janelas, para tributar seu costumeiro obséquio a seu Criador Sacramentado.
Todas as felicidades da Casa da Áustria trazem sua origem de um piedoso cortejo tributado a Este Augustíssimo Sacramento, quando Rodolfo, Conde de Auspruch, encontrando num despovoado o Pároco, que O levava, desmontando o cavalo e fazendo subir nele o Sacerdote, conduziu-o pelas rédeas, descoberta a cabeça, até a casa do enfermo. Não ficou sem remuneração seu obséquio, porque, em breve tempo, teve o despótico domínio de um Império. Eu poderia alegar outros exemplos de reis e príncipes da Espanha, ainda nos tempos presentes, que, com edificação e consolo da Corte, seguiram o exemplo de Rodolfo. Rei coroado e mais poderoso era Davi, e, com a harpa nas mãos, dançava e saltava, acompanhando a Arca do Senhor, que não continha mais do que uma sombra e figura d'Este Sacramento. Ó se os príncipes e todos entendessem com quantas prosperidades felicitaria Deus suas casas, se praticassem semelhantes atos de piedade e religião com Seu Santíssimo Filho Sacramentado.

4 de janeiro de 2010

Sexta ingratidão dos homens para com Jesus Sacramentado

Tibieza dos que recebem raras vezes o Corpo de Jesus Sacramentado.

Fico atônito quando considero os preceitos que Deus impôs ao homem, um na Lei Natural e outro na Lei da Graça, tão opostos entre si, e ambos igualmente quebrantados. O primeiro foi no Paraíso, de que não comesse do fruto da árvore: Ne comedas. O outro na Igreja, mandando-o comer Seu Corpo: Accipite et comedite. Mas quando Deus manda-lhe abster-se, então come, ainda que soubesse estar engolindo a morte; e quando lhe ordena que coma, escusa-se, ainda que saiba que há de ser a custo de sua vida. Clama Jesus dos Altares que Sua Carne é Pão vivo e que dá a vida. Quem, porém, não se pasma de ver, hoje, a negligência que os Católicos tem em chegar a Esta Sagrada Mesa, negligência tamanha que podemos dizer deles o que de Absalão diz a Escritura, que só uma vez ao ano cortava-se os cabelos, quando se via oprimido do seu peso: Quia gravabat eum cæsareis! Da mesma sorte o praticam esses ingratos. Só quando o peso de suas culpas os derriba na terra, então, lá no fim do ano, vão receber o Pão do Céu. E muitos há que não se chegam àquela Mesa senão arrastados pelas cadeias de uma excomunhão.
Desses se queixava Santo Ambrósio, quando dizia Panis est quotidianus et tu post annum illum sumis? Este Sacramento é pão de cada dia, e tu O recebes depois de um ano? Essa é, sem dúvida, a razão por que tão facilmente perdem os homens a preciosa joia da Divina Graça, e caem do excelso cume de amigos de Deus, no abismo infernal da culpa. Assim o entendeu o doutíssimo Abade Ruperto, que aforma que a ruína dos Anjos procedeu de não ter provado Este suavíssimo Sacramento, parecendo-lhe que, se àqueles infelizes espíritos tivesse sido concedida essa dita de que depois gozariam os homens, de receber em seu peito o Corpo de Jesus, seria impossível que não se abrasassem todos em Seu amor, e tributassem ao Verbo Humanado rendidas adorações, as quais, por não Lhas tributar, for causa de sua perdição.
Certas, pois, são as quedas, e inevitáveis os precipícios daquelas Almas que raras vezes ou nunca se alimentam d'Este Divino Manjar. Disso se persuadia o Grande Condestável Nuno Álvares Pereira, que, nas tendas de campanha, entre o rumor das armas, frequentava todo dia a Sagrada Comunhão, e soía dizer que quem o quisesse ver vencido nas batalhas, o apartasse d'Aquela mesa. Santa Catarina de Sena caía gravemente enferma no dia que não recebia Este inefável Sacramento. A Virgem Úrsula Benincasa se reduzia, em lhe faltando Este salutar alimento, aos últimos termos da vida, e, só chegando o Sacertote à boca os dedos com que acabava de tocar a Sagrada Hóstia, recobrava num instante a saúde. Se dermos, porém, uma olhada para aqueles primeiros séculos da primitiva Igreja, veremos com quanto fervor recebiam quotidianamente todos os fieis o Redentor Sacramentado. Não se reputava digno do caráter de Cristão quem um só dia não O albergava em seu peito. E que diremos da Soberana Princesa de todo o criado, Maria Senhora Nossa? Ouvi o que a mesma Senhora revelou a uma serva Sua.
Muitos anos antes que o Redentor desse a vida em resgate da morte do gênero humano, comunicou à Sua Santíssima Mãe que haveria de instituir um Sacramento no Qual, convertendo a substância do pão em sua verdadeira Carne, renovaria no coração dos homens, de algum modo, aquela encarnação que, uma só vez, havia perfeito em Seu seio. Ardeu a Divina Senhora desde aquele instante em vivos desejos de dar-Lhe também dentro de Si mesma novo alojamento, e, preparando-Se cada dia, por muitos anos, com heroicos e finíssimos atos de amor, esperava a feliz hora na qual merecesse recebê-l'O. Foram, pois, tais os incêndios de Seu amoroso coração, quando nele viu Seu Divino Filho Sacramentado, que sempre, todo o tempo que Lhe durou a vida, teve-O no reservado. Porque, ainda que desde a primeira vez que O recebeu no Cenáculo no ditoso dia de Sua instituição, não comungou até que, depois da morte do Sumo e Divino Sacerdote, celebrou a primeira Missa São Pedro, Seu Vigário e sucessor; mas nunca se alteraram em Seu puríssimo peito as espécies Sacramentais, dando lugar, por particular privilégio, o calor natural, a que chegassem outras novas, antes de consumir-Se as antigas. Graça que Lhe foi concedida todo o tempo de Sua vida, para que fosse sempre uma Arca viva do verdadeiro Maná.
Que dirão, à vista de tantos excessos de amor e de tantas ânsias de receber Este Augusto Sacramento, os preguiçosos e negligentes, que passam quase toda a vida sem chegar à Sua mesa? Que dirão, a não ser o mesmo que diziam no deserto os ingratos israelitas, quando, em figura do mesmo Sacramento, lhes chovia do céu o delicado e suavíssimo Maná? Nauseat anima nostra super cibo isto levissimo. Já nos dá fastio Este dulcíssimo manjar da Carne e Sangue de Jesus Sacramentado.
Mas vejo que me respontem que não convém a homens imperfeitos e mundanos chegar tantas vezes a boca ao costado aberto do Redentor, e hospedar nas almas impuras Aquele Que acharia manchas nos cristais mais transparentes dos corações seráficos. Essa é uma ignorância manifesta, ou uma ingratidão paliada, diz o grande Padre São Bernardo, porque Quo magis æger es, magis indiges Medico. Olha, homem néscio e ingrato, quanto mais enfermo estás, mais necessitas do Médico. Quanto mais envolto te achas nas trevas do mundo, mais deves buscar o Sol Que te alumie. Logo, não é a reverência a Este Sacramento altíssimo que te embaraça chegar à Sua mesa. A ingratidão e tibieza de teu coração, e o afeto às criaturas miseráveis é o que te aparta dos braços de teu Criador, Que, como piedosa Mãe, abre naqueles Altares Seu peito para alimentar-te com o Sangue que tu desprezas, por causa das comidas grosseiras do Egito. Se tivesses o amor e a Fé de um Crisóstomo, dirias, como ele, que neste Mundo não há trabalho nem perda, exceto ver-se privado do Corpo Sacramentado de Jesus. Se tivesses o amor e a Fé daquelas duas Rainhas da Escócia e Inglaterra, Maria e Catarina, que sofreram, alegres e constantes, os últimos infortúnios de desterros, cárceres e morte, alimentadas só d'Este Pão Angélico, te asseguro que não terias tanto descuido e negligência em alimentar-se d'Ele.

Sexta ingratidão dos homens para com Jesus Sacramentado

Tibieza dos que recebem raras vezes o Corpo de Jesus Sacramentado.

Fico atônito quando considero os preceitos que Deus impôs ao homem, um na Lei Natural e outro na Lei da Graça, tão opostos entre si, e ambos igualmente quebrantados. O primeiro foi no Paraíso, de que não comesse do fruto da árvore: Ne comedas. O outro na Igreja, mandando-o comer Seu Corpo: Accipite et comedite. Mas quando Deus manda-lhe abster-se, então come, ainda que soubesse estar engolindo a morte; e quando lhe ordena que coma, escusa-se, ainda que saiba que há de ser a custo de sua vida. Clama Jesus dos Altares que Sua Carne é Pão vivo e que dá a vida. Quem, porém, não se pasma de ver, hoje, a negligência que os Católicos tem em chegar a Esta Sagrada Mesa, negligência tamanha que podemos dizer deles o que de Absalão diz a Escritura, que só uma vez ao ano cortava-se os cabelos, quando se via oprimido do seu peso: Quia gravabat eum cæsareis! Da mesma sorte o praticam esses ingratos. Só quando o peso de suas culpas os derriba na terra, então, lá no fim do ano, vão receber o Pão do Céu. E muitos há que não se chegam àquela Mesa senão arrastados pelas cadeias de uma excomunhão.
Desses se queixava Santo Ambrósio, quando dizia Panis est quotidianus et tu post annum illum sumis? Este Sacramento é pão de cada dia, e tu O recebes depois de um ano? Essa é, sem dúvida, a razão por que tão facilmente perdem os homens a preciosa joia da Divina Graça, e caem do excelso cume de amigos de Deus, no abismo infernal da culpa. Assim o entendeu o doutíssimo Abade Ruperto, que aforma que a ruína dos Anjos procedeu de não ter provado Este suavíssimo Sacramento, parecendo-lhe que, se àqueles infelizes espíritos tivesse sido concedida essa dita de que depois gozariam os homens, de receber em seu peito o Corpo de Jesus, seria impossível que não se abrasassem todos em Seu amor, e tributassem ao Verbo Humanado rendidas adorações, as quais, por não Lhas tributar, for causa de sua perdição.
Certas, pois, são as quedas, e inevitáveis os precipícios daquelas Almas que raras vezes ou nunca se alimentam d'Este Divino Manjar. Disso se persuadia o Grande Condestável Nuno Álvares Pereira, que, nas tendas de campanha, entre o rumor das armas, frequentava todo dia a Sagrada Comunhão, e soía dizer que quem o quisesse ver vencido nas batalhas, o apartasse d'Aquela mesa. Santa Catarina de Sena caía gravemente enferma no dia que não recebia Este inefável Sacramento. A Virgem Úrsula Benincasa se reduzia, em lhe faltando Este salutar alimento, aos últimos termos da vida, e, só chegando o Sacertote à boca os dedos com que acabava de tocar a Sagrada Hóstia, recobrava num instante a saúde. Se dermos, porém, uma olhada para aqueles primeiros séculos da primitiva Igreja, veremos com quanto fervor recebiam quotidianamente todos os fieis o Redentor Sacramentado. Não se reputava digno do caráter de Cristão quem um só dia não O albergava em seu peito. E que diremos da Soberana Princesa de todo o criado, Maria Senhora Nossa? Ouvi o que a mesma Senhora revelou a uma serva Sua.
Muitos anos antes que o Redentor desse a vida em resgate da morte do gênero humano, comunicou à Sua Santíssima Mãe que haveria de instituir um Sacramento no Qual, convertendo a substância do pão em sua verdadeira Carne, renovaria no coração dos homens, de algum modo, aquela encarnação que, uma só vez, havia perfeito em Seu seio. Ardeu a Divina Senhora desde aquele instante em vivos desejos de dar-Lhe também dentro de Si mesma novo alojamento, e, preparando-Se cada dia, por muitos anos, com heroicos e finíssimos atos de amor, esperava a feliz hora na qual merecesse recebê-l'O. Foram, pois, tais os incêndios de Seu amoroso coração, quando nele viu Seu Divino Filho Sacramentado, que sempre, todo o tempo que Lhe durou a vida, teve-O no reservado. Porque, ainda que desde a primeira vez que O recebeu no Cenáculo no ditoso dia de Sua instituição, não comungou até que, depois da morte do Sumo e Divino Sacerdote, celebrou a primeira Missa São Pedro, Seu Vigário e sucessor; mas nunca se alteraram em Seu puríssimo peito as espécies Sacramentais, dando lugar, por particular privilégio, o calor natural, a que chegassem outras novas, antes de consumir-Se as antigas. Graça que Lhe foi concedida todo o tempo de Sua vida, para que fosse sempre uma Arca viva do verdadeiro Maná.
Que dirão, à vista de tantos excessos de amor e de tantas ânsias de receber Este Augusto Sacramento, os preguiçosos e negligentes, que passam quase toda a vida sem chegar à Sua mesa? Que dirão, a não ser o mesmo que diziam no deserto os ingratos israelitas, quando, em figura do mesmo Sacramento, lhes chovia do céu o delicado e suavíssimo Maná? Nauseat anima nostra super cibo isto levissimo. Já nos dá fastio Este dulcíssimo manjar da Carne e Sangue de Jesus Sacramentado.
Mas vejo que me respontem que não convém a homens imperfeitos e mundanos chegar tantas vezes a boca ao costado aberto do Redentor, e hospedar nas almas impuras Aquele Que acharia manchas nos cristais mais transparentes dos corações seráficos. Essa é uma ignorância manifesta, ou uma ingratidão paliada, diz o grande Padre São Bernardo, porque Quo magis æger es, magis indiges Medico. Olha, homem néscio e ingrato, quanto mais enfermo estás, mais necessitas do Médico. Quanto mais envolto te achas nas trevas do mundo, mais deves buscar o Sol Que te alumie. Logo, não é a reverência a Este Sacramento altíssimo que te embaraça chegar à Sua mesa. A ingratidão e tibieza de teu coração, e o afeto às criaturas miseráveis é o que te aparta dos braços de teu Criador, Que, como piedosa Mãe, abre naqueles Altares Seu peito para alimentar-te com o Sangue que tu desprezas, por causa das comidas grosseiras do Egito. Se tivesses o amor e a Fé de um Crisóstomo, dirias, como ele, que neste Mundo não há trabalho nem perda, exceto ver-se privado do Corpo Sacramentado de Jesus. Se tivesses o amor e a Fé daquelas duas Rainhas da Escócia e Inglaterra, Maria e Catarina, que sofreram, alegres e constantes, os últimos infortúnios de desterros, cárceres e morte, alimentadas só d'Este Pão Angélico, te asseguro que não terias tanto descuido e negligência em alimentar-se d'Ele.

3 de janeiro de 2010

Quinta ingratidão dos homens para com Jesus Sacramentado

Descuido em prover as coisas necessárias para o culto do Santíssimo Sacramento

Se eu não tivesse visto, em muitas partes da Cristandade, praticada este ingratidão ao Redentor Sacramentado, não me atreveria a dar-lhe crédito, porque não sei como cabe, em corações ilustrados com a luz da Fé, tanto descuido e avareza para o culto do Corpo e Sangue de Jesus, Que, com tanta liberalidade, os cumula de bens e os enriquece com todos os tesouros da Glória. Abre o Amante Senhor Sacramentado, nos Altares, Seu delicioso peito, fonte viva e perene, para benefício de Suas criaturas, e essas, insensíveis à vista da pobreza em que O pôs Seu amor, fecham suas gavetas e cofres e se negam a um pequeno gasto para sua casa. Das coisas mais mínimas e me menos valor, se vê nos Templos e nos Altares uma incrível penúria. Muitas vezes falta ao adorável Corpo de Jesus uma toalha decente, um purificador limpo e asseado, uma vela e uma pobre desditada lâmpada. (Continua)
Que dirias a esses, ó Alexandre Magno, que foste pródigo de um milhão em ouro só no funeral de um amigo? E tu, ó cega Cleópatra, que não farías se tivesses crido n'Este Sacramento? Tu que deste de beber a um amante, num vaso, aquela pérola que não tinha preço no mundo? Mas para que amontoar exemplos de gentios, quando vemos hoje tanta profusão de riqueza entre os Católicos em manter o fausto de suas casas, o primor de seus jardins, o asseio de seus quartos e o enorme de seus apetites? E, ao mesmo tempo, deixarão desfazer-se em pedaços os Sacrários, arruinar-se as paredes das Igrejas, e chorar sua desnudez os Altares.
Não se lembram, esses ingratos, de que Este Senhor Sacramentado é o mesmo que move os Céus para enviar-lhes benignas influências, faz corrar os rios para fertilizar seus campos; sustenta no ar as aves e no mar os peixes, para regalar suas mesas. Não se lembram de que Este mesmo, que lhes doura as searas com as espigas, e lhes fecunda de frutos as árvores. Os leões e os tigres indômitos se mostram agradecidos a quem lhes tirou os ossos atravessados nas queixadas, ou lhes salvou da morte os tenros filhinhos precipitados em um fosso. Só os homens, mais desumanos que as próprias feras, quanto mais enriquecidos por Jesus, tanto mais ingratos se mostram com Ele. Não sabem agradecer o benefício que recebem, semelhantes ao mar, que, recebendo em si a doçura das águas que todos os rios lhe tributam, toda a converte em amargura. Piores que as sanguessugas, que, chupando o sangue alheio, nunca dão o seu, a não ser espremidas ou mortas. Recebem os homens o Sangue de Jesus, alimentando-se de Sua Carne; porém, que miséria e avareza não usam com Este liberal Senhor Sacramentado!
Culpa é essa detestada até pelos próprios gentios: Improbus est homo, dizia um deles, qui beneficium scit sumere et reddere nescit. Não há maior maldade do que saber receber o benefício e não saber recompensá-lo. Ah! Pastores! Ah! Sacerdotes! Ah! Príncipes e grandes do mundo! E todos os que credes n'Este Divino Sacramento! Cuidai bem de não serdes reus de tão feia ingratidão. Escrevei, no livro de vossos supérfluos gastos, uma parte maior para o culto de Jesus Sacramentado. Dai a Este Senhor pelo menos o que gastais com um escravo, ou o que despenderíeis com um animal. Olhai, senhores daquelas terras, de cujo senhorio vos jactais, a pobreza que experimentam as Igrejas. Reparai, Pastores, em vossos Bispados, cujos frutos comeis e cujas rendas lograis, o desasseio e pobreza com que se acham tantas Paróquias. Considerai que não fica bem tanto ouro e prata em vossos palácios, tanta ostentação em vossas carruagens, e tanta falta e desalinho na Casa de Deus e nas mesmas Aras onde sacrifica o Eterno Pai Seu Filho Sacramentado.
Mas já é tempo de voltar-me contra aqueles que tem especialmente a seu cuidado a guarda d'Este adorável Sacramento; porque, do seu descuido e negligência, nascem, pela maior parte, as indecências que se veem nos Altares. Para não trocar uma toalha, para não lavar uns corporais, para não mudar uns purificadores, consentem que o rosto de Jesus se recline numa imundície. Passam-se muitos meses durante os quais as coias tocantes ao Sacrifício do Altar ficam em tal estado que, só vê-las e tocá-las, causa asco.
É isso ter zelo da honra de Deus? Poderão dizer esses com Davi, que amaram o decoro e a limpeza da Casa do Senhor? Amantíssima da pobreza era a Seráfica Virgem Santa Teresa, porém desejava que das mais ricas petrarias do Oriente se formassem os Cálices e as Patenas que tocam imediatamente o Corpo Sacratíssimo de Jesus. E mais: que maior prova queremos, que o que fez o mesmo Redentor Nosso? Toda Sua vida e morte foi um raro exemplo de pobreza; nasceu entre palhas e morreu em um madeiro; e em uma ocasião em que entrou triunfante em Jerusalém, e podia fazer alguma ostentação de Sua grandeza, bem se sabe quão pobre e humilde foi Seu triunfo. Porém, para consagrar Seu Corpo e Sangue, serviu-Se de um prato de finíssima esmeralda e de uma taça de uma ágata inestimável, que até hoje se venera no mundo.
Reis e Príncipes houve na terra que fizeram a maior estimação das mais mínimas coisas tocantes ao Santíssimo Sacramento; Bispos santíssimos houve que, com suas próprias mãos, decoraram suas Igrejas. O Grande Imperador Constantino carregava sobre seus ombros as esportas de terra para o fabrico de um Templo. São Venceslau, Rei da Boêmia, arava a terra e ceifava o trigo de que se haviam de fazer hóstias; podava as vinhas e pisava no lagar as uavs para o vinho dos Sacrifícios. Margarida, Rainha da Hungria, segurava com suas mãos a toalha enquanto os fiéis, nos maiores concursos, recebiam a Sagrada Comunhão. Muitos outros Príncipes, nos passados séculos, corriam a limpar as lâmpadas que ardiam diante de Jesus Sacramentado. Porém essa piedade católica já está desterrada dos palácios do mundo.

2 de janeiro de 2010

Quarta ingratidão dos homens para com Jesus Sacramentado

Imodéstia nas Igrejas diante de Jesus Sacramentado

Vão-se agravando mais as ingratidões dos Católicos para com Jesus Sacramentado. Porque se é excessiva a dos negligentes em assisti-l'O, qual será a daqueles que vão à Sua casa, a Seus templos, mais para ofendê-l'O que para adorá-l'O; e em Seu próprio Palácio, diante de Seus olhos, estão maquinando contra Sua vida, e, o quanto está de sua parte, dão-Lhe afrontosa morte. Quem seria tão desumano que, com a mesma mão que recebe um benefício, executa uma traição? O crocodilo é infamado como a mais ingrata fera, porque, depois que as aves o aliviam do tormento que padece com os pedaços da carne que lhe fica entre os dentes, fechando a boca, engole-as. Detestável era a ingratidão de Saul, que, quando Davi tomava na mão a harpa para curá-lo, empunhava ele a lança para feri-lo.

Clique em "Ler Mais..."

Que podemos dizer daqueles que, ao mesmo tempo que recebem tantas Finezas de Jesus Sacramentado, não se apartam de Sua presença sem fazer-Lhe mil agravos? Veem o amoroso Jesus ardendo de amor por eles, pobre, humilde, submisso e encerrado debaixo de uma chave, ou exposto a seus olhos, convidando-os com o alimento de Sua Carne, e oferecendo-lhes o Sangue todo de Suas veias, e então é quando mais O ultrajam com as imodéstias, ferem o coração com os pensamentos menos puros, e, ainda mais, com as ações e sinais. Pois não diremos destes que, incomparavelmente mais crueis e ingratos do que os irmãos de José, os quais, vendo-o trazer as espigas de trigo para seu sustento, então tratam de matá-lo ou de vendê-lo?
Ó Deus imortal! E quem não treme de horror ao ver e ouvir tantas insolências executadas pelos Católicos nos Sagrados Templos, à vista de Deus Sacramentado? Os judeus, é certo, deram-Lhe afrontosa morte; mas foi numa Cruz, que era lugar de suplício. Os Católicos, porém, fazem-Lhe tiro à vista de um Altar, que é lugar de adoração. Que outra coisa são aqueles olhos impuros, que, mirando pelas Igrejas, despedem setas mortais contra tantas Almas, e muito mais contra o Coração de Jesus? Que outra coisa fazem aquelas línguas que, com lascivas conversações, afogam a semente da Divina palavra, que naquele terreno devia dar multiplicado fruto? Quantas imaginações, envoltas em mil impurezas, se acham à vista do Rei das Virgens? Quantos corações ardem em vinganças diante do Deus de amor?
Não quisera referir aqui o que nossos tempos choram acerca da irreverência dos Católicos a Este Augustíssimo Sacramento. Porém me é preciso, com a confusão no rosto e com lágrimas nos olhos, apontar alguma coisa, para que se veja a maior ingratidão à vista da maior de todas Suas finezas. Houve uma boca sacrílega (pasmai) que veio à mesma mesa de Jesus Sacramentado, e ali deu um ósculo lascivo em seu ídolo. Houve um temerário (tremei) que, debaixo do mesmo Trono do Augustíssimo Sacramento, foi achado nos braços de sua Vênus. Este é o horror dos horrores. Isaías viu cobrir seu rosto os Serafins diante do Santuário. Moisés, Deus mandou-o descalçar os pés com que pisaria a terra do monte em que estava. Os israelitas não podiam chegar à Arca do Senhor pelo final de muitos caminhos. E São João Crisóstomo via os Anjos, uns com os olhos baixos, outros prostrados com reverente humildade, diante dos Sacrários. E as criaturas da terra afrontam assim um Deus Sacramentado, a Cuja vista temem e tremem as mais altas colunas do firmamento?
Mais respeita um gentil seu falso ídolo. Mais venera um maometano sua mesquita, que um Cristão o Trono de Deus Sacramentado. Os antigos germânicos não entravam nos bosques dedicados a seus ídolos, senão arrastando pesadas cadeias. Os sarracenos só com os pés descalços pisavam as lousas de seus templos. Os gregos não se atreviam a cuspir nem a mover-se enquanto duravam os sacrifícios a seus simulacros. Entrai num templo de pagãos, e vê-los-eis mais modestos durante o sacrifício de uma besta, que um Católico à vista do Sacrifício da Missa. Vereis uns prostrados por terra, não se atrevendo a levantar os olhos diante de uma serpente, que adoram; outros, cobrindo o rosto com as mãos, temendo olhar o fogo, que reconhecem por seu deus. Houve turco que se arrancou os olhos e a língua depois de ter visto o corpo do falso profeta Maomé, dizendo que não devia falar nem ver mais coisa alguma no mundo, os olhos que mereceram a vista de tal objeto.
Serão bastantes esses exemplos para confundir a nossa ingratidão? Será, porventura, mais digno de veneração o corpo do malvado Maomé, do que o Corpo de Jesus Sacramentado? Estará segura a honestidade dentro de um adoratório de gentis, e não diante de um Sacrário? Acham lugar o silêncio e a modéstia numa mesquita, e se hão de ver desterrados da casa do Deus de Majestade? Será que não se levantarão contra nós aqueles infiéis, no dia do Juízo, dizendo: Estes são os que fizeram da Igreja praça, do Templo, feira, do Santuário, casa de conversação? Nós assistimos com mais veneração ao sacrifício de um boi, do que eles ao Sacrifício de um Deus; tivemos mais respeito ao sepulcro de Maomé, do que eles ao Trono de Jesus Sacramentado. E que responderá então aquele moço lascivo, de cuja insolência estivera mais segura a casta donzela na praça do que no Sagrado Templo? Que responderá aquele soberbo, que por um vão pontilho de honra atreveu-se a lançar mão da espada diante de Deus Sacramentado? Que dirá aquela mulher profana, que não pensa em outra coisa em toda sua vida, a não ser em atavios e adornos para ser vista, e galanteia nas Igrejas, para ser laço a temerários corações, e pedra de escândalo a tantas Almas?
É coisa lastimosa, sem dúvida, ver o grande abuso de nossos tempos. Ver entrar os Católicos na Casa do Crucificado, na presença de Jesus Sacramentado, mais para fazer ostentação das galas do que para implorar o perdão de seus pecados. Ao invés de arrastar cadeias de compunção, como reus, cingir-se de diamantes e pérolas, como triunfadores. Ao invés de cobrir sua cabeça, como mandou o Apóstolo, por respeito e reverência dos Anjos, descobrir imodestamente os peitos, para dar gosto aos demônios. Onde estás, Santo Imperador Teodósio, que nunca entraste na Igreja sem tirar a coroa da cabeça e a espada do cinto? Onde estás, Santa Imperatriz Inês, que nunca foste vista aos pés do Santuário, senão vestida de pobres e desprezíveis lãs?

1 de janeiro de 2010

Terceira ingratidão dos homens para com Jesus Sacramentado

Descuido dos Católicos em assistir Jesus Sacramentado

Essas foram as ingratidões dos infiéis para com o Inefável Sacramento do Altar, os quais, por não crerem, são menos culpáveis em ultrajá-l'O. Porém, discorramos agora sobre as ingratidões dos Católicos, que, porque O confessam, são, sem comparação, mais desumanos em ofendê-l'O. Que o pérfido judeu e o pertinaz herege desprezem a Eucaristia Augustíssima, Que, por cegos e faltos de fé, não conhecem, e Cuja admirável suavidade não experimentam, é grande maldade e ofensa; mas que o Católico, que bebeu nas fontes da Igreja Santa os verdadeiros dogmas de que n'Ela está o próprio Corpo de seu Deus e Redentor Sacramentado, de Quem ainda se alimenta, que o Católico O afronte e despreze, é a maior de todas as impiedades. Que os cortesãos daquele imperador o tratassem injuriosamente, não o tendo reconhecido quando saía das delícias de um banho, por especial disposição de Deus, Que assim quis humilhar a soberba com que nesciamente presumia que o Altíssimo não poderia deprimir sua majestade, ninguém há que não os desculpe. Mas que aqueles que sabiam que era seu legítimo soberano Carlos, rei da Inglaterra, afrontassem-no de tal sorte, que num cadafalso público lhe cortassem ignominiosamente a cabeça, é a maior infidelidade que nos contam suas histórias.

Clique em "Ler Mais..."

São verdadeiramente inescusáveis as ingratidões que toda sorte de Católicos usa com seu Rei Sacramentado. E se não, dizei-me: não é coisa digna de admiração ver nos Católicos tanta negligência e descuido em assistir e cortejar o Senhor Sacramentado? Entrai nestas Igrejas, e não vereis senão solidões. Cheias estão as praças, as ruas e os teatros, os dias são pequenos, as noites parecem curtas para ver uma comédia, para jogos, óperas e festins, e todo o tempo não basta para os negócios do mundo. Mas, na presença de Jesus Sacramentado, aos pés do maior Santuário da terra, quantos assistem? Quem gasta uma hora diante d'Aquele Senhor, a Cuja vista mil anos são como o dia que passou? Passam as semanas inteiras, e lá no fim delas vão ouvir, com mil distrações, uma Missa. Fogem da vista d'Aquele Divino Amante, como aqueles que têm os olhos enfermos, e não podem olhar a luz. Apartam-se de Sua presença, sabendo que os membros, quanto mais distantes do coração, tanto menos participam da vida; que os ramos, quanto mais longe da raiz, tanto menos recebem vigor; e que as estrelas, quanto mais apartadas do seu centro, tanto menos velozes executam seu curso. E ainda assim não podem negar que Este Augusto Sacramento é o centro da Alma, a vida do coração e a raiz da graça.
Nem têm que alegar os que se acham culpados de semelhante ingratidão, que as contínuas ocupações, os negócios urgentes os impedem de comparecer ao Trono Real de Jesus Sacramentado. Porque lhes lançarei na cara um Henrique Imperador, que, com os cuidados de uma monarquia, gastava muitas horas diante da Sagrada Eucaristia. Eu lhes porei à vista um Venceslau, Rei da Boêmia, a quem não faltava tempo para visitar descalço as Igrejas e passar as noites em torno dos pés dos Altares. Que direi de um Xavier, que, ocupado em pregar a fé em vinte e quatro reinos, e batizar com suas próprias mãos um milhão e duzentas mil Almas, parece que competia com os Anjos na assistência a seu Criador Sacramentado. Trinta vezes por dia O visitava Sua fiel amante, Madalena de Fazzis. Onde estão agora no mundo aqueles que, por muitos anos, não quiseram outra cama que as grades de um Altar, até acabar nelas a vida? Onde aqueles que nunca saíram de uma tribuna senão para receber a Sagrada Comunhão?
E, se quisermos voltar os olhos àqueles Espíritos Angélicos, vê-los-emos noite e dia fazer corte ao Senhor Sacramentado, e não foi instituído Este Sacramento para eles, que incessantemente O adoram, mas para os que ingratamente O abandonam. Para os homens e não para os Anjos está Jesus dentro daqueles Sacrários, e aqueles, com santa emulação, milhares O assistem, e, rendidos, tributam-Lhe os corações.
Navegam-se os mares do oriente ao poente, entregando-se os homens à inconstância das ondas, à inclemência dos ventos, aos perigos quase contínuos da vida, só em busca de um metal, que a sorte lhes nega. Mas para buscar Este Pão Divino, exposto em todas as partes e encerrado por nosso amor, que negligências e descuidos não se veem? O que eu temo é que se possa fixar hoje, sobre as Aras de nossos Altares, aquela horrenda inscrição que encontrou São Paulo no Templo de Atenas: Ignoto Deo. Aqui não é conhecido Deus Sacramentado. E, na verdade, que fé, que conhecimento pode ter uma Alma que, somente arrastada pelas cadeias de um preceito, vai, nos dias festivos, ouvir indevotamente uma Missa, e ainda se queixa se não for muito breve? É isso crer no Santíssimo Sacramento do Altar? Vir à Sua presença com pressa, não ver a hora de voltar-Lhe as costas para ir à conversação nas praças e engolfar-se nos passatempos. Volto a dizer que não é conhecido no mundo Jesus Sacramentado. Ó cegueira lastimosa! Quem jamais viu um enfermo aborrecer a vista de um médico? Um cervo ferido fugir da fonte clara? Mas estas criaturas estão enfermas e frenéticas, estão feridas, e se abrasam no fogo de suas concupiscências, e não correm buscar a água da vida, que mana d'Este Sacramento.
Agora, pois, Almas Católicas, ainda é tempo. Jesus espera dentro daqueles Sacrários. As portas de Seus Templos choram por ver-se tão desertas. Para que andar vagando pelas praças da Samaria? Todas as coisas buscam naturalmente o seu centro. As pedras se desfazem no ar por chegar à terra. O ferro se esquece de sua dureza para unir-se a seu ímã, e as chamas voam incessantemente à sua esfera. Desterrai, pois, os passatempos mundanos; fechai os ouvidos às enganosas Sereias que vos encantam; rompei os laços das Dalilas que vos têm presos; e correi a beber da fonte viva de Hesebon, que trocastes pelas cisternas rotas da Babilônia, e aos pés destas Sagradas Aras seja toda vossa habitação, em cujas pedras, ungidas com o precioso óleo Eucarístico, descansareis mais seguros que Jacó.

31 de dezembro de 2009

Segunda ingratidão dos homens para com Jesus Sacramentado

Agravos feitos a Jesus Sacramentado

Não se satisfaz a ingratidão dos homens com negar o mais Augusto Mistério de nossa fé, nem com ultrajá-l'O com as línguas e com as penas; mas o que não se pode escrever sem horror, põem também suas sacrílegas mãos no Divino Cordeiro Sacramentado, escondido debaixo duns poucos acidentes, pobre, humilde e obediente por Seu amor. Não se contenta com ter-Lhe dado a mais cruel e afrontosa morte padecida por algum dos nascidos, em uma Cruz, mas ainda desafoga seu ódio contra Aquele adorável Corpo Que lhe deixou Sacramentado para seu remédio.
Quem poderá contar a infinidade de agravos e ofensas que se fizeram no mundo a Este Divino Sacramento? Três malvados hereges deram outras tantas punhaladas na Sagrada Hóstia, Que compraram de um Católico traidor, da Qual, para confusão de todos, emanou em grande abundância o puríssimo Sangue de Jesus. Eu A vi no Monastério do Escurial, Panteão dos Reis Católicos, inteira e incorrupta até a presente hora, e duram visivelmente nela as compassivas cicatrizes das desumanas e penetrantes feridas.
Passo em silêncio quantos Templos foram destruídos, quantos Altares profanados na Alemanha, Holanda, França e Inglaterra, e quantas vezes as mesmas Aras onde se celebrava o tremendo Sacrifício de nossa Redenção serviram de presépio para os brutos. Só de minha Religião Carmelitana arrasou e profanou oitenta e quatro Igrejas Henrique VIII. Na Grã-Bretanha, contam-se dez mil que destruiu esse rei só nesta ilha. Não faltaram mãos que jogassem no azeite fervente o Corpo de Jesus, que O dessem de comer aos cachorros, que O pusessem aos pés dos cavalos, e O metessem dentro das colméias de abelhas, as quais, mais piedosas do que os homens, reconhecendo seu Criador Sacramentado, Lhe formaram com a cera um engenhoso e admirável Templo.
Ó espetáculos incríveis! Mas não uma vez só vistos no mundo! Assim é desprezado pelos homens Aquele Sacramento, Que, rodeando-O, adoram os Serafins. Assim é maltratado pelas criaturas Aquele Que com Seu rosto por terra venerava a Rainha dos Céus. Agora vê Esta Senhora, fechado num lugar imundo, o mesmo a Quem dava delicioso albergue em Seu peito. Agora vê, pasto de brutos, o mesmo Divino Pão, Que amassou com seu próprio leite virginal, e de Cujo Sangue depois Se alimentava. Agora vê ultrajada Aquela Carne, Que dava vida a Seu coração, quando, todo inflamado de amor, se abria em duas partes para encerrar em si Seu Filho Sacramentado, Que todos os dias recebia da mão de Seu querido Evangelista João. Eu creio verdadeiramente que se Esta Soberana Princesa fosse capaz ainda de sentimento, teria, naquela tão elevada Glória, a mais intensa dor, em ver na terra tão desprezado Este Augustíssimo Sacramento; em ver como correspondem os homens a um Amante Que, tendo Seu Trono no Empíreo, quis ficar com eles, sujeito a tantas ofensas; vendo como pagam a um Médico Que faz de Sua própria Carne medicina para seus males, e a um Pastor Que Se desnuda de Sua própria pele para cobri-los, e derrama Seu sangue para alimentá-los.
Agora, pois, Almas Católicas, que zelo é o que abrasa vossas entranhas para olhar pela honra d'Este Augustíssimo Sacramento? Os infiéis conjuram contra Ele, arruinam Seus Altares, desolam Seus Santuários, e tentam desterrar do mundo o Seu nome. E vós, que n'Ele credes e O confessais, que serviços são os que Lhe fazeis, em recompensa de tantos agravos? Onde está vossa contínua assistência a Seus pés? Onde as dádivas de vossas riquezas para reparo de Seus danos? Se houvera em vós uma centelha de verdadeiro amor a Jesus Sacramentado, levantaríeis em Seu obséquio mais Templos do que os Altares que destroem os hereges, e Lhe tributariam mais venerações do que eles executam ultrages. E vós, Monarcas e Príncipes Católicos, sabei que Deus coroou vossas cabeças e pôs o cetro em vossas mãos para defenderdes e olhardes pela honra de Seu Filho Sacramentado, contra quem temerariamente O insulta, o ódio e furor herético.

30 de dezembro de 2009

Primeira ingratidão dos homens para com Jesus Sacramentado

A incredulidade dos que negam a presença real de Jesus Sacramentado.

Com tosquíssimas palavras, discorri até agora sobre as finezas de Jesus Sacramentado, e creio que quem passasse os olhos com atenção sobre essas folhas ficariam bem persuadidos de que são as mais excessivas que Deus pôde usar para com uma criatura. Mas já é tempo, meus Católicos, de mostrar-vos as ingratidões com que o mundo corresponde ao mesmo Sacramentado Amante, para que saibais dizer o que eu nunca soube dizer: quem está mais empenhado - Jesus em obrar finezas pelos homens, ou esses, em executar ofensas contra o mesmo finíssimo Jesus? Mas que Ele não permita que vos suceda como a quem toma à mão um espelho para olhar-se, que a cada parte encontra o seu retrato muito natural, sendo cada página destas um cristal que represente a vossa ingratidão.

Clique em "Ler Mais..."

A primeira que se oferece à minha consideração é a abominável incredulidade de tantos que negam pertinazmente que o amantíssimo Jesus deixou realmente Seu Corpo e Sangue no Inefável Sacramento do Altar. Dardo é esse o mais penetrante para o amoroso Coração de Jesusm, porque não há mais viva dor para um verdadeiro amante do que, em lugar de corresponder a suas finezas, não dar crédito ao seu amor.
Esta sorte de ingratos não quer acabar de entender como pode o Redentor dar a comer Sua Carne e a beber Seu Sangue, e, com um desatino intolerável, põem a pleito o Amor e a Onipotência de um Deus. Disputavam entre si, refere o Evangelista, dizendo: Quomodo potest hit carnem suam nobis dare ad manducandum? Ó perfídia digna dos maiores castigos! Exclama o Grande Padre São Cirilo: Et quomodo tu flagris dignus non es, qui cum de Deo loquaris, interrogas quomodo? Ah! homem insensato! Quando se trata das proezas do Divino Amor, perguntas tu como? Dize-me: Como tu, arrastando grilhões e cadeias tantos anos no Egito, te viste um dia livre de tua escravidão? Como, padecendo fome pelo deserto, os céus choveram saborosos manjares para saciar-te? Como, para apagar a sede em que te abrasavas, brotou água em abundância das duras rochas? Como, para franquear-te o passo, dividiu-se o mar em duas partes? E se tu não me sabes dizer como um Deus obrou por ti essas e outras finezas, por que negas apenas esta, que fez por ti no Sacramento? Não é mesmo que tu confessas que converteu as águas em sangue, e com uma só palavra tirou do nada a formosura dos céus, a grandeza do mar e a redondeza e âmbito da terra? Como, pois, chamas dura aquela palavra com que converteu o pão em Sua carne? Durus est hic sermo - Duro é teu coração e duríssima tua incredulidade, pois buscas ordem na natureza do Corpo de Jesus, Que, contra toda lei da natureza, nasceu de um Virgem. Foi bastante a voz de um Profeta para fechar por três anos os céus e evitar que caísse uma gota de água sobre a terra. Obedereram esses à mesma voz, lançando chamas de fogo, que reduziram tantos corpos a cinzas, e só a voz de Jesus não poderá mudar as espécies dos elementos?
Ouço, entretanto, o incrédulo que me responde que bem se pode crer no que não se vê, mas não contra o que se vê. Que vês sobre o altar pão, e te digo que é Carne; que vês vinho, e te digo que é Sangue. Porém tu, ó néscio, não me entendes: o que tu vês com os olhos são os acidentes de pão e vinho, e o que deves crer com a fé é no Corpo e Sangue de Jesus. Não se enganam teus sentidos em julgar daquelas aparências, porque a Sabedoria Divina, neste Sacramento, acomodou-Se à limitada capacidade desses teus mesmos sentidos. Ouve como te instrui dessa verdade admirável a pena Angélica de São Tomás. Mudou, diz esse Doutor, o Redentor a substância de pão sem tocar em seus acidentes, para que juntamente tenha a fé seu lugar, e os sentidos não fiquem sujeitos ao engano. Vês aqui claramente convencidas a incredulidade e ingratidão tuas. O que vês, o que tocas, o que provas n'Aquela Sagrada Hóstia são apenas as espécies de pão e vinho, e o que vês é o Corpo e Sangue de Jesus. Como dizes, pois, que não te repugna crer no que não vês?
Tu não vês produzir-se o ouro nas entranhas da terra, nascer pérola no profundo do mar, e enviar o sol sua influência ao seio das árvores e ao coração das plantas. Esses e outros muitos invisíveis segredos da naturezas, confessas, e só este amoroso arcano da conversão da Carne de Jesus faz-se impossível à tua incredulidade. Não foi assim que fez aquele coroado Lírio da França, Luiz o Santo, que, tendo-lhe sido referido que em sua corte aparecera visivelmente na Sagrada Hóstia um formosíssimo e gracioso Menino, escusou-se sempre de ir vê-lo, antepondo a segura obscuridade de sua fé à evidência clara de um milagre. Sabia bem aquele grande rei que mais se aprofundam debaixo terra os cimentos que mais asseguram os edifícios, do mesmo modo que, quanto mais se esconde a nossos olhos Este Sacramento, fundamento da nossa fé, tanto mais firme e imóvel fica o edifício da mesma fé. Essa deve ser a razão por que, na primitiva Igreja, todas as custódias e vasos sagrados para o Corpo Sacramentado de Jesus se formavam em figura de pomba: talvez para mostar-nos que Este Divino Sacramento só deve ser visto ou com os olhos cegos pela fé, ou com a singeleza e simplicidade de uma pomba.
Infeliz Avicena, por que te perdes tão miseravelmente! Dizes que te agrada a Lei Evangélica, a altura de seus Mistérios e o árduo de seus preceitos. Não contradizes que Deus seja uno na essência e trino em pessoas, que Se tenha encarnado nas entranhas de uma Virgem Pura, e morrido em Carne passível numa Cruz para redimir os homens. Mas que Deus-Homem, debaixo das espécies de pão, dê a comer Sua Carne, e que os homens comam a mesma Divindade a Que adoram, é coisa à qual não pode acomodar-se teu entendimento; e, assim dizes, acabe-se minha vida na seita de meus filósofos. Assim delirava a fantasia daquele a quem faltava o belíssimo órgão da fé. Essa era a dureza do coração ingrato à maior fineza do Divino Amor. Não entendia o que conheceu bem o Real Profeta quanto disse: comeram e adoraram todos os ricos da terra.
Esse é o maior excesso a que pôde chegar a humana ingratidão, porque aquele que nega Este altíssimo mistério de nossa fé, desterra do mundo, o quanto pode, retira de nossos olhos e aparta de nossos corações o amabilíssimo Corpo de Jesus, mais necessário para cada um de nós do que o sustento que nos alimenta, que o ar que respiramos e que a alma que nos anima. Tudo isso foi o que pretenderam os ímpios Luteros, Calvinos, Buceros e Zuinglios, uns afirmando que o Corpo de Jesus não permanece na Sagrada Eucaristia de um dia para outro, e que está ali somente enquanto se consagra. Outros ensinando que Este Sacramento não é mais do que um sinal, figura ou memória do Redentor; e, levando após si reinos e províncias inteiras, são já poucos os adoradores de nosso Rei Sacramentado. Voltai os olhos às finezas que vos deixo referidas, e as achareis não só mal correspondidas pelos homens, mas renegadas pela maior parte deles. Quantos são os Idólatras, que não conhecem Este Augustíssimo Sacramento? Quantos os judeus, que O negam? Quantos os hereges, que não O adoram? O menor número é o dos Católicos, que pelo menos Lhe dão crédito, mas não a devida adoração.