Jesus Se deixou Sacramentado para ser nosso companheiro nesta vida e Viático para a outra.
Amorosa foi, sem dúvida, a providência do Altíssimo, Que, caminhando Seu Povo quarenta anos num áspero e solitário deserto, acompanhou-o sempre com uma coluna de fogo, que, servindo-lhe de guia para a Terra Prometida, mostrava-lhe de noite os perigos do caminho, e de dia os defendia com sua sombra dos nocivos ardores daquele clima, que nem os persas, nem os gregos, nem os Alexandres, nem os Césares se atreveram a passar. E se essa foi uma prova maravilhosa de Seu amor para com aquele Povo, sempre ingrato a Seus benefícios, que diremos da fineza com que no espinhoso deserto deste mundo Se nos deu o próprio Senhor por companheiro perpétuo e guia seguro, não um uma nuvem de fogo, senão no resplandecente Sol de Seu Corpo Sacramentado?
Jesus fez-Se companheiro dos homens, pobres passageiros, que, caminhando pelos perigosos bosques desta vida, caíam em um precipício a cada passo. Fez-Se peregrino conosco, mas com um amor muito mais fino do que com aqueles dois caminhantes que iam a Emaús, com os quais, para não ficar com eles só uma noite, dissimulou que passava adiante. Bem conheceu o Divino Amante que, se nos deixasse caminhar sós por este mundo, encontraríamos desgraças a cada passo. Bem viu que se navegássemos sem Ele um só dia, cada onda nos seria um naufrágio. E assim escondeu n'Este Sacramento a Majestade para ser nosso Companheiro individual em todas as partes, para ser nossa luz nas trevas, nosso escudo nas batalhas e nosso piloto nos perigos.
Quem poderá contar os inumeráveis benefícios que recebemos tendo nesta vida por Companheiro Jesus Sacramentado? Favoreceu Deus a casa de Labão só pela companhia de Jacó. Livrou todos os navegantes do naufrágio por levar por companheiro São Paulo. Ó quantas vezes fulminariam contra nós os dardos da Divina Justiça, se não tivessemos na terra Este fiel amigo ao lado, o Qual repara os golpes do Eterno Pai, justissimamente irado! Quantas vezes ter-se-ia submergido a nave de Pedro nas borrascas de tantas heresias, se não divesse por piloto Jesus Sacramentado! Porém Ele não dorme mais sobre a poupa deste navio, e assim seguro vai quem o governa. Não tema, pois, nenhum covarde, não desespere, nenhum pobre, não se desconsole, nenhum aflito. Jesus Sacramentado é fiel amigo para todos. Assim o experimentava o humano Serafim Francisco, que, quando o assaltava albuma grave aflição, ia logo comunicá-la a seu verdadeiro Amigo Sacramentado, de Quem recebia prontamente o alívio.
Mas Este amoroso Sacramento não é só nosso Companheiro na breve peregrinação desta vida, mas aumenta Seu amor a fineza, sendo-o também para a larga e perigosa viagem da Eternidade. Não quis o amante Redentor perder-nos de vista na partida que fazemos deste mundo, nem por um só momento. Soem despedir-se os amantes, acompanhar-se até onde possam com os olhos. Mas não Se satisfez Jesus em seguir-nos só com a vista: quis também ir conosco com o corpo. Para este caminho da Eternidade, não nos deu por Viático outro que a Si mesmo. Quis mostrar-nos que primeiro se apartará a Alma de nosso corpo, que Seu Corpo de nossa Alma. Do coração, diz o Filósofo, que, sendo o primeiro a viver, é o último a morrer. Por essa razão nos acompanha Jesus na morte, para que entendamos que nosso coração perde a vida antes que Ele perca a nossa companhia. Ah! Católicos! Mais radicado está o amante Sacramentado em nosso coração, do que esse à nossa vida. Acabada essa, quer viver conosco outra por toda uma eternidade. Nela conheceremos e cantaremos para sempre, melhor do que o que eu soube explicar, quais e quantas sejam as finezas de Jesus Sacramentado.
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29 de dezembro de 2009
28 de dezembro de 2009
Décima terceira Fineza de Jesus Sacramentado para com os homens
Jesus Se deixou Sacramentado para ser remédio das Almas e medicina dos corpos.
Pelo pecado, diz o Apóstolo, entrou a morte no mundo, porque seu veneno de tal sorte infectou o gênero humano que, roendo-lhe as entranhas, privou-o da vida eterna que havia de gozar no estado de inocência. Infelicidade verdadeiramente digna de ser chorada com lágrimas de sangue! Com um só bocado tragaram a morte todos os homens, nascidos e por nascer. Jazia todo o universo no horrendo sepulcro de uma culpa, que só se tinha cometido pela vontade do autor de tantos males. Porém, onde abundou o pecado, superabundou a graça. Pode mais um bocado delicioso Que nos deu Jesus, novo Adão, do que aquele com que o velho Adão envenenou todos os mortais. Pode mais a puríssima Carne de Jesus Sacramentado, da Qual fez um eficaz antídoto contra o contágio universal do mundo.
Muito proporcionado foi o remédio ao mundo, morto pela culpa ao pé de uma árvore, quando em outra árvore da Cruz lhe deu a vida o Redentor. Porém não achou menos proporção seu amor, vendo que o mesmo mundo pereceu por um bocado, em dar-lhe n'Este Sacramento outro bocado, Que o livre da morte eterna. Tirara de Suas entranhas aquela Alma, quando com seu divino alento a infundiu no primeiro homem; porém, vendo-a depois morta, dispôs uma medicina Que também Lhe saiu do coração.
Não ignoro que os teólogos chamam a Sagrada Eucaristia Sacramento de vivos, e não de mortos. Porém digo que, se os ossos do profeta Eliseu, tocando um cadáver na sepultura, lhe restituíram a vida, que não fará o Corpo de Jesus? Se Ele, só tocando com Sua mão o féretro do filho da viúva, ressuscitou-o, e se só com um olhar de Seus olhos converteu Pedro em um mar de lágrimas, no qual se afogou sua culpa, quantas almas, já cadavéricas pelo pecado, ressuscitaram para uma vida nova, tocando, não só os ossos, mas toda a Sacratíssima Carne de Jesus? Quantos corações endurecidos se abrandaram lavados n'Aquele Sangue, Que, ao golpe de divinas inspirações, lhe farão brotar sangue de arrependimento, melhor do que das pedras fez a vara de Moisés.
Eu considero muitas vezes o amante Jesus Sacramentado dentro de uma Alma, que jaz na miserável sepultura do pecado, e ali compadecido dela, diz-lhe: Ego sto ad ostium et pulso. Aqui Me tens a tua porta, fechada só para Mim, Que sou a verdadeira chave do Paraíso. Deixa-Me entrar dentro de ti, e tomarás o pulsar do meu coração, que está enfermo de amor, porque tu estás morta. Aqui Me tens posto aos pés de um Satanás pelo vil interesse de um apetite, o que ele não pôde conseguir por todos os reinos do mundo. Este príncipe das trevas tiraniza teu coração, que Eu, Rei pacífico, desejo para Meu Trono. Estas cadeias com que te retém feito seu escravo, ainda que sejam mais duras que diamantes, se amolecerão com o Sangue d'Este Cordeiro.
Ah! quantos Lázaros mortos ressuscitam hoje no mundo ao som e eco dessas vozes! Quantas conversões se fazem por virtude d'Este inefável Sacramento! Tocou Tomé com o dedo o peito de Jesus, e recebeu a fé. Tocou Longuinho o Sangue com a lança e recebeu a luz. E se das mãos de Midas houve quem dissesse que convertiam em ouro tudo quanto tocavam, quem duvidará que o Corpo Sacramentado de Jesus mudará no metal mais precioso de finíssima caridade o mais duro ferro de nossos corações? Dizem os naturai que as víboras da Arábia carecem totalmente de veneno, devido ao bálsamo de que frequentemente se alimentam. E se assim é, que preservativo não será para as feridas do pecado o Corpo e Sangue de Jesus? Assim o entendeu São Bernardo, quando disse: Sabes, Católico, porque não são tão fortes as tempestades de tuas rebeldes paixões? Porque comes d'Este Pão Sacramentado. O Corpo de Jesus é quem põe em calma aquelas ondas que te fariam sem dúvida naufragar num mar de fogo: Hoc Sacramentum in magnis impedit consensum, in minimis sensum.
Mas já me lembro de que vos prometi mostrar como Este admirável Sacramento não só é alimento para as Almas, mas támbém eficaz medicina para os corpos. Já sabeis que, quando o amoroso Jesus andava no mundo, só a orla de Seus vestidos estancava fluxos de sangue; só a saliva de Sua boca restituía a vista aos cegos. Pois qua fará, não o vestido, senão Sua carne? Não a saliva de Sua boca, senão o Sangue de Suas veias? São Gregório Nazianzeno afirma que seu pai quase como ressuscitou da morte à vida recebendo a Sagrada Comunhão. A Seráfica Madre Teresa dá testemunho de que, todas as vezes que recebia Este Divino Sacramento, sentia-se em um momento aliviada das dores que cruelmente a atormentavam.
Mas não há de que se maravilhar, porque se ao orvalho do céu, do qual dizem que se alimenta a fênix, atribuem os naturais o muito tempo que vive, que efeitos tão saudáveis não experimentarão aqueles corpos orvalhados com o Sangue de Jesus, Que é a fonte original da própria vida? É certo que Este adorável Sacramento, melhor que o fruto daquela árvore, fará imortais nossos corpos, e por isso o Concílio geral Niceno O chama Symbolum resurrectionis, e o Mártir Santo Inácio o apelida Pharmacum immortalitatis, afirmando com ele graves Doutores que aqueles que nesta vida se alimentaram do Corpo Sacramentado de Jesus, tenderão mais direito que os outros à universão ressurreição dos corpos. Ó divino e inefável Sacramento, Pão vivo e que dás vida! Infeliz quem de Vós se priva, porque desde agora já está morto.
Pelo pecado, diz o Apóstolo, entrou a morte no mundo, porque seu veneno de tal sorte infectou o gênero humano que, roendo-lhe as entranhas, privou-o da vida eterna que havia de gozar no estado de inocência. Infelicidade verdadeiramente digna de ser chorada com lágrimas de sangue! Com um só bocado tragaram a morte todos os homens, nascidos e por nascer. Jazia todo o universo no horrendo sepulcro de uma culpa, que só se tinha cometido pela vontade do autor de tantos males. Porém, onde abundou o pecado, superabundou a graça. Pode mais um bocado delicioso Que nos deu Jesus, novo Adão, do que aquele com que o velho Adão envenenou todos os mortais. Pode mais a puríssima Carne de Jesus Sacramentado, da Qual fez um eficaz antídoto contra o contágio universal do mundo.
Muito proporcionado foi o remédio ao mundo, morto pela culpa ao pé de uma árvore, quando em outra árvore da Cruz lhe deu a vida o Redentor. Porém não achou menos proporção seu amor, vendo que o mesmo mundo pereceu por um bocado, em dar-lhe n'Este Sacramento outro bocado, Que o livre da morte eterna. Tirara de Suas entranhas aquela Alma, quando com seu divino alento a infundiu no primeiro homem; porém, vendo-a depois morta, dispôs uma medicina Que também Lhe saiu do coração.
Não ignoro que os teólogos chamam a Sagrada Eucaristia Sacramento de vivos, e não de mortos. Porém digo que, se os ossos do profeta Eliseu, tocando um cadáver na sepultura, lhe restituíram a vida, que não fará o Corpo de Jesus? Se Ele, só tocando com Sua mão o féretro do filho da viúva, ressuscitou-o, e se só com um olhar de Seus olhos converteu Pedro em um mar de lágrimas, no qual se afogou sua culpa, quantas almas, já cadavéricas pelo pecado, ressuscitaram para uma vida nova, tocando, não só os ossos, mas toda a Sacratíssima Carne de Jesus? Quantos corações endurecidos se abrandaram lavados n'Aquele Sangue, Que, ao golpe de divinas inspirações, lhe farão brotar sangue de arrependimento, melhor do que das pedras fez a vara de Moisés.
Eu considero muitas vezes o amante Jesus Sacramentado dentro de uma Alma, que jaz na miserável sepultura do pecado, e ali compadecido dela, diz-lhe: Ego sto ad ostium et pulso. Aqui Me tens a tua porta, fechada só para Mim, Que sou a verdadeira chave do Paraíso. Deixa-Me entrar dentro de ti, e tomarás o pulsar do meu coração, que está enfermo de amor, porque tu estás morta. Aqui Me tens posto aos pés de um Satanás pelo vil interesse de um apetite, o que ele não pôde conseguir por todos os reinos do mundo. Este príncipe das trevas tiraniza teu coração, que Eu, Rei pacífico, desejo para Meu Trono. Estas cadeias com que te retém feito seu escravo, ainda que sejam mais duras que diamantes, se amolecerão com o Sangue d'Este Cordeiro.
Ah! quantos Lázaros mortos ressuscitam hoje no mundo ao som e eco dessas vozes! Quantas conversões se fazem por virtude d'Este inefável Sacramento! Tocou Tomé com o dedo o peito de Jesus, e recebeu a fé. Tocou Longuinho o Sangue com a lança e recebeu a luz. E se das mãos de Midas houve quem dissesse que convertiam em ouro tudo quanto tocavam, quem duvidará que o Corpo Sacramentado de Jesus mudará no metal mais precioso de finíssima caridade o mais duro ferro de nossos corações? Dizem os naturai que as víboras da Arábia carecem totalmente de veneno, devido ao bálsamo de que frequentemente se alimentam. E se assim é, que preservativo não será para as feridas do pecado o Corpo e Sangue de Jesus? Assim o entendeu São Bernardo, quando disse: Sabes, Católico, porque não são tão fortes as tempestades de tuas rebeldes paixões? Porque comes d'Este Pão Sacramentado. O Corpo de Jesus é quem põe em calma aquelas ondas que te fariam sem dúvida naufragar num mar de fogo: Hoc Sacramentum in magnis impedit consensum, in minimis sensum.
Mas já me lembro de que vos prometi mostrar como Este admirável Sacramento não só é alimento para as Almas, mas támbém eficaz medicina para os corpos. Já sabeis que, quando o amoroso Jesus andava no mundo, só a orla de Seus vestidos estancava fluxos de sangue; só a saliva de Sua boca restituía a vista aos cegos. Pois qua fará, não o vestido, senão Sua carne? Não a saliva de Sua boca, senão o Sangue de Suas veias? São Gregório Nazianzeno afirma que seu pai quase como ressuscitou da morte à vida recebendo a Sagrada Comunhão. A Seráfica Madre Teresa dá testemunho de que, todas as vezes que recebia Este Divino Sacramento, sentia-se em um momento aliviada das dores que cruelmente a atormentavam.
Mas não há de que se maravilhar, porque se ao orvalho do céu, do qual dizem que se alimenta a fênix, atribuem os naturais o muito tempo que vive, que efeitos tão saudáveis não experimentarão aqueles corpos orvalhados com o Sangue de Jesus, Que é a fonte original da própria vida? É certo que Este adorável Sacramento, melhor que o fruto daquela árvore, fará imortais nossos corpos, e por isso o Concílio geral Niceno O chama Symbolum resurrectionis, e o Mártir Santo Inácio o apelida Pharmacum immortalitatis, afirmando com ele graves Doutores que aqueles que nesta vida se alimentaram do Corpo Sacramentado de Jesus, tenderão mais direito que os outros à universão ressurreição dos corpos. Ó divino e inefável Sacramento, Pão vivo e que dás vida! Infeliz quem de Vós se priva, porque desde agora já está morto.
27 de dezembro de 2009
Duodécima Fineza de Jesus Sacramentado para com os homens
Jesus Se deixou Sacramentado para ser nosso alimento.
Não houve nem haverá semelhante na terra a infelicidade de Adão, nosso primeiro Pai, quando ouviu da boca de Deus aquela terrível sentença, que o condenava a comer, por toda sua vida, seu pão com o suor do seu rosto. Ele dominava sobre todo o criado, intronizado em um Paraíso de delícias; enriquecido de dons maravilhosos; tinha por dote a liberadde, e por patrimônio a graça; os elementos o serviam, e lhe obedeciam os animais; não respirava o ar senão a seu favor; passeava a pé enxuto sobre os mares; do fogo lhe eram suaves os ardores; e toda a terra lhe tributava vassalagem. Mas, ah! desgraça! Aquelas mãos, que pouco antes empunhavam o cetro de todo o mundo, se viram em um instante obrigadas a trabalhar com um arado a pouca terra, que talvez em lugar de pão lhe dava abrolhos.
Assim fez Deus para com Adão no Paraíso; porém não faz assim com os homens no Sacramento. E se não, dizei-me, que trabalho ou que fadiga nos custa o alimentar-nos d'Aquele Pão de vida? Que suores padecemos para comer a deliciosa Carne de Jesus? Onde, como diz o Ango das Escolas, se prova toda a doçura em sua fonte; porque nela recapitulou, melhor que no Maná, todos os sabores de Seu amor. Cheios estão os livros das divinas e humanas letras de muitas mulheres, que, para remédio da extrema fome que padeciam, comeram seus próprios filhos, nascidos de suas entranhas; mas não ouvimos que tenha havido mãe tão piedosa para com seu filho que, para livrá-lo da fome que padecia, o alimentasse com sua própria carne. Esta fineza ficou reservada somente para o amor infinito de Jesus, Que, vendo-nos padecer, deu-nos Seu próprio Corpo para nosso sustento.
Ó prodígio do amor Divino! Deus alimento do homem! É certo que o alimento se converte na substância de quem o recebe. A Divina natureza é totalmente inconvertível na humana. De sorte que, ainda que a d'Aquele homem Filho natural de Deus possa muito bem Se unir à natureza humana, não pode de modo algum converter-Se nela. Porém buscou Seu amor caminhos de fazer uma nova e engenhosa conversão. Fez alimento da Carne de Jesus, para que de modo possível, pareça que Sua natureza se transforma na nossa, e depois que O recebemos Sacramentado, possamos dizer-Lhe com Seu Profeta: Lembrai-Vos, Senhor, que sois minha sustância.
Em uma ocasião disse o mesmo Senhor a Seu favorecido Agostinho: Eu sou manjar de grandes, tu Me comerás, mas não Me mudarás em ti, antes bem tu te converterás em Mim. É isso o que pretende o amante Jesus Sacramentado: unir-Se de tal sorte conosco por alimento, que Se converta em nós, e nós nos transformemos n'Ele. O Grande Imperador Teodósio, quanto voltava da guerra, ainda com o sangue quente das batalhas, estreitava fortemente em seu peito o filho Honório, para transformá-lo, como ele dizia, em seus esforços marciais. Mas quanto melhor nos converte em Si o amoroso Jesus, quando, vertendo Sangue vivo de Suas veias, nos abraça estreitamente, e nos infunde Seu Espírito para fortificar-nos nesta vida, que também é milícia sobre a terra.
Falsas e fingidas foram aquelas promessas que o pai da mentira fez ao primeiro homem, de que seria como Deus se comesse daquele fruto que lhe fora proibido no Paraíso. Porém, se Adão tivesse provado d'Este Pão Deífico, d'Esta Carne Sacramentada de Jesus, bem poderia eu seguramente prometer-lhe que ficaria divinizado. Este é Aquele Pão ao Qual São Cirilo chama: Satus in Virgine, in Ecclesia fermentatus. Sabeis, diz esse grande Doutor, que Pão é Este? É o Pão semeado no Coração Virginal de Maria, fermentado na Igreja e amassado com o Sangue de Jesus.
Foi um aviso para os de Taranto, de mil calamidades que por quatro anos padeceram, sair sangue ao partir o pão que comiam. Mas perguntai a uma Teresa o que ela sentiu d'Este Divino Pão, quando, entrando-lhe na boca, a encheu do precioso Sangue de Jesus, Que a afogou em um mar de doçuras. Perguntai a uma Maria Ogniacense, filha do Grande Patriarca São Domingos, que sintomas morais eram aqueles que padecia apenas em chegar ao lábios o pão, que não estava consagrado; efeitos que não lhe causa o Divinio Pão Eucarístico, pelo Qual unicamente anelava, e recebia com ardentíssimos afetos. Muitas experiências fizeram com ela os Sacerdotes, trocando a forma consagrada por outra não consagrada, e acharam que fosse perder a vida.
Concluamos dizendo que n'Este admirável Sacramento estão já decifrados os enigmas que não entenderam os convidados de Sansão; porque Este é o suavíssimo mel que se achou na boca do Leão. Este é o pão guardado pelo verdadeiro José para livrar da fome o Egito do mundo inteiro. Este é, finalmente, o pão no Qual o amor transformou a Carne de Jesus para ser nesta vida nosso único alimento.
Não houve nem haverá semelhante na terra a infelicidade de Adão, nosso primeiro Pai, quando ouviu da boca de Deus aquela terrível sentença, que o condenava a comer, por toda sua vida, seu pão com o suor do seu rosto. Ele dominava sobre todo o criado, intronizado em um Paraíso de delícias; enriquecido de dons maravilhosos; tinha por dote a liberadde, e por patrimônio a graça; os elementos o serviam, e lhe obedeciam os animais; não respirava o ar senão a seu favor; passeava a pé enxuto sobre os mares; do fogo lhe eram suaves os ardores; e toda a terra lhe tributava vassalagem. Mas, ah! desgraça! Aquelas mãos, que pouco antes empunhavam o cetro de todo o mundo, se viram em um instante obrigadas a trabalhar com um arado a pouca terra, que talvez em lugar de pão lhe dava abrolhos.
Assim fez Deus para com Adão no Paraíso; porém não faz assim com os homens no Sacramento. E se não, dizei-me, que trabalho ou que fadiga nos custa o alimentar-nos d'Aquele Pão de vida? Que suores padecemos para comer a deliciosa Carne de Jesus? Onde, como diz o Ango das Escolas, se prova toda a doçura em sua fonte; porque nela recapitulou, melhor que no Maná, todos os sabores de Seu amor. Cheios estão os livros das divinas e humanas letras de muitas mulheres, que, para remédio da extrema fome que padeciam, comeram seus próprios filhos, nascidos de suas entranhas; mas não ouvimos que tenha havido mãe tão piedosa para com seu filho que, para livrá-lo da fome que padecia, o alimentasse com sua própria carne. Esta fineza ficou reservada somente para o amor infinito de Jesus, Que, vendo-nos padecer, deu-nos Seu próprio Corpo para nosso sustento.
Ó prodígio do amor Divino! Deus alimento do homem! É certo que o alimento se converte na substância de quem o recebe. A Divina natureza é totalmente inconvertível na humana. De sorte que, ainda que a d'Aquele homem Filho natural de Deus possa muito bem Se unir à natureza humana, não pode de modo algum converter-Se nela. Porém buscou Seu amor caminhos de fazer uma nova e engenhosa conversão. Fez alimento da Carne de Jesus, para que de modo possível, pareça que Sua natureza se transforma na nossa, e depois que O recebemos Sacramentado, possamos dizer-Lhe com Seu Profeta: Lembrai-Vos, Senhor, que sois minha sustância.
Em uma ocasião disse o mesmo Senhor a Seu favorecido Agostinho: Eu sou manjar de grandes, tu Me comerás, mas não Me mudarás em ti, antes bem tu te converterás em Mim. É isso o que pretende o amante Jesus Sacramentado: unir-Se de tal sorte conosco por alimento, que Se converta em nós, e nós nos transformemos n'Ele. O Grande Imperador Teodósio, quanto voltava da guerra, ainda com o sangue quente das batalhas, estreitava fortemente em seu peito o filho Honório, para transformá-lo, como ele dizia, em seus esforços marciais. Mas quanto melhor nos converte em Si o amoroso Jesus, quando, vertendo Sangue vivo de Suas veias, nos abraça estreitamente, e nos infunde Seu Espírito para fortificar-nos nesta vida, que também é milícia sobre a terra.
Falsas e fingidas foram aquelas promessas que o pai da mentira fez ao primeiro homem, de que seria como Deus se comesse daquele fruto que lhe fora proibido no Paraíso. Porém, se Adão tivesse provado d'Este Pão Deífico, d'Esta Carne Sacramentada de Jesus, bem poderia eu seguramente prometer-lhe que ficaria divinizado. Este é Aquele Pão ao Qual São Cirilo chama: Satus in Virgine, in Ecclesia fermentatus. Sabeis, diz esse grande Doutor, que Pão é Este? É o Pão semeado no Coração Virginal de Maria, fermentado na Igreja e amassado com o Sangue de Jesus.
Foi um aviso para os de Taranto, de mil calamidades que por quatro anos padeceram, sair sangue ao partir o pão que comiam. Mas perguntai a uma Teresa o que ela sentiu d'Este Divino Pão, quando, entrando-lhe na boca, a encheu do precioso Sangue de Jesus, Que a afogou em um mar de doçuras. Perguntai a uma Maria Ogniacense, filha do Grande Patriarca São Domingos, que sintomas morais eram aqueles que padecia apenas em chegar ao lábios o pão, que não estava consagrado; efeitos que não lhe causa o Divinio Pão Eucarístico, pelo Qual unicamente anelava, e recebia com ardentíssimos afetos. Muitas experiências fizeram com ela os Sacerdotes, trocando a forma consagrada por outra não consagrada, e acharam que fosse perder a vida.
Concluamos dizendo que n'Este admirável Sacramento estão já decifrados os enigmas que não entenderam os convidados de Sansão; porque Este é o suavíssimo mel que se achou na boca do Leão. Este é o pão guardado pelo verdadeiro José para livrar da fome o Egito do mundo inteiro. Este é, finalmente, o pão no Qual o amor transformou a Carne de Jesus para ser nesta vida nosso único alimento.
24 de dezembro de 2009
Undécima Fineza de Jesus Sacramentado para com os homens
Jesus Se deixou Sacramentado para ser obedientíssimo e pacientíssimo no mundo.
Não encontrou o entendimento de São Paulo, ilustrado com o lume da glória, com que encarecer mais o infinito amor de Jesus, que dizendo que foi obediente até a morte. Mas, com a devida veneração a esse Mestre do mundo inteiro, diria eu que a obediência de Jesus passou ainda mais além da Sua morte. Porque, n'Este adorável Sacramento, vejo-O na terra e no Céu obedientíssimo às Suas criaturas. Se elas querem que esteja dias e noites presente à vista do mundo, não as contradiz; se O levam pelas ruas e praças públicas, não Lhe repugna; e se O encerram debaixo de uma chave, também o consente.
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De um só homem sabemos que foi feito à medida do Coração de Deus; mas, seja-me lícito dizer, n'Este Sacramento está Deus feito à medida do coração dos homens, pois à vontade e arbítrio de todos está Seu Coração Sacramentado. Mas, se é tão maravilhosa esta obediência que Ele tem a suas criaturas na terra, qual será a que pratica com as mesmas no Céu? Ouvi o maior prodígio do Divino amor. Reside o Soberano Rei da Glória no Trono altíssimo de Sua Majestade, adorado pelas colunas do firmamento e obedecido pelas maiores potestades do Empíreo; e às primeras quatro palavras com as quais O chama Seu Ministro, voa a pôr-Se em suas mãos com tão pronta obediência que no espaço de dezessete séculos nunca faltou, nem faltará daqui em diante nenhuma só vez.
Ouve o obedientíssimo Jesus a voz do Sacerdote no Céu, e não se interpõe um momento nem um instante entre a última sílaba de sua palavra e Sua real presença no Altar. Não O retarda o ter de sair do delicioso peito de Seu Eterno Pai, nem a suavíssima visão de Sua amorosa Mãe, nem as melífluas vozes com que na Glória O recreiam os Serafins. A língua, as palavras, as mãos de Seu Ministro O trazem sem falha do Céu à terra. Ó língua, ó palavras de infinito poder, que arrancais o Onipotente e trazeis-te o Imenso.
Quem se admirará agora de ouvir que com um só de seus cabelos e com um de seus olhos trouxe a Esposa o Divino Amante a seu seio; nem que por um só cabelo levou um Anjo desde a Judeia até a Babilônia o Profeta para alimentar o mancebo Daniel, encerrado na Cova dos Leões. Pois agora vê: traz cada dia um homem, com poucas palavras, do Céu à terra, o próprio Deus, para saciar com Sua Carne um mundo inteiro! Ó prodígios nunca dantes ouvidos! Basta que o homem fale para que Deus lhe obedeça. Lá dizia Davi que falou Deus uma só vez, e o que fez? Gerou um Filho igual a Si mesmo em Grandeza e Majestade. Fala inúmeras vezes o Sacerdote, e que faz? Não me atreveria a dizê-lo, se a maior luz da Igreja, Santo Agostinho, não o tivesse dito: Qui creavit me sine me, creatur mediante me. Sabeis, diz Agostinho, o que eu faço com minhas palavras no Altar? Crio quantas vezes as pronuncio o Que me criou a mim: Qui creavit me dedit mihi creare se. Aquela Eterna Geração do Divino Verbo, em Cujas luzes não puderam fixar a vista, nem por um instante, os olhos de um Isaías, renovo eu a cada dia em minhas mãos com minha língua.
Não duvido em afirmar que é maior a obediência que Jesus tem no Sacramento à voz do homem, do que a que tiveram as criaturas em sua criação à voz de Deus; assim como é maior o poder de quem muda o pão em Deus, do que o d'Aquele que muda o nada em pão. Com uma só voz tirou Deus do caos do nada todo o universo, e não houve criatura que não obedecesse ao Seu império. Obedeceram os planetas, os céus, os mares, as aves e as plantas. Porém todas elas eram umas criaturas caducas e corruptíveis; de sorte que tudo quanto obedeceu à voz de Deus não foi, nem podia ser, outro Deus como Ele infinito e imortal. Mas foi tanto o amor de Deus para com o homem que lhe deu poder para produzi-l'O no Sacramento, de tal sorte que, se por impossível perecera a Sacrossanta Humanidade do Verbo Divino, bastariam as poderosas palavras da Consagração para reproduzi-l'A de novo nos Altares.
Foi e será sempre celebrada no mundo a obediência de Abraão à voz de Deus, e não havia aí mais do que sacrificar-Lhe seu filho unigênito. Comparai agora com essa a obediência de Jesus à voz de um homem: vir, baixar e pôr-Se em suas mãos, para ser Ele mesmo sacrificado. Atônitos ficaram os Discípulos do Redentor quando viram que a Seu império obedeciam os mares e as tempestades. Que diriam agora, vendo seu Divino Mestre tão obediente à voz de Sua criatura, que, abrindo a boca, abre os Céus e O faz descer à terra sobre uma Ara? Não pôde o Evangelista significar-nos mais altamente a obediência do Verbo Humanado do que dizendo que estava sujeito, no mundo, a uma Virgem Mãe Sua, a Qual, como Tal, era o mais perfeito e excelente parto que deu nem poderia dar à luz Sua eterna Sabedoria. Com que conceitos, pois, poderão as plumas evangélicas explicar a obediência do próprio Senhor Sacramentado a uma vil e miserável criatura? Mas, que diriam também, à vista de tão maravilhosa obediência, da contumácia das criaturas à voz de seu Criador, de tanta repugnância a Seus preceitos, de tanta obstinação em contradizer Sua lei, e não observar Seus conselhos? Mas passemos agora a ponderar a maior fineza de Jesus Sacramentado em sofrer os agravos que padece n'Este inefável Sacramento.
Com razão chamou São Gregório, o Grande entre os Doutores, máquina do entendimento, ao amor: Amor est machina mentis. Porque, assim como as máquinas servem para levantar no ar pesos de extraordinária grandeza, assim o amor alivia suavemente as penas e os trabalhos, que por sua natureza são pesados. Não há maior prova dessa verdade do que o que o Amantíssimo Jesus Sacramentado sofre de Suas criaturas no mundo. Com as mesmas palavras com que Ele instituiu Este Sacramento, parece que Se empenhou a sofrer todas as sortes de ultrajes. Este é o Meu Corpo, disse Ele, quando O dava a comer a Seus Discípulos, Que por vosso amor será entregue e de mil modos ofendido. Eu O deixo Sacramentado e exposto à crueldade dos homens.
Não ficaram frustrados os insaciáveis desejos que Ele teve de padecer por nós; porque, sem dúvida, todos os tormentos que Jesus padeceu no Calvário, renova-os a malícia humana no Sacramento. Um Discípulo O vendeu em Jerusalém por trinta denários; por menos O comprou Sacramentado um herege na Pomerânia. Na Judeia fizeram os fariseus juntas e conselhos para matá-l'O. Na Alemanha se reuniram três luteranos, e, divididos por três partes do mundo, desafogaram seu ódio contra Este Augustíssimo Sacramento. Um deles, qual ímpio Malco, elevando o Sacerdote a Sagrada Hóstia, levantou a sacrílega mão, e, despedaçando-A, pisou-A com seus pés. Outro, qual cruel Longinos, atravessou-A com um punhal sobre o Altar. Finalmente outro, de mil modos, indignos de serem ditos, afrontou e atormentou o adorável Corpo do Redentor.
Tudo o sofreu o amantíssimo Cordeiro. Não quis Sacramentado ostentar Seu poder Aquele Senhor a Quem as Escrituras aclamam como Deus das vinganças. Aquele Que não dissimulou o arrojo de um Oza, que estendeu sua mão para sustentar a Arca. Aquele Que, por uma só mentira, gastigou de morte a um Ananias. Aquele Que, por um desprezo feito ao Seu Profeta, mandou que a terra tragasse vivo um Abirão. Aquele Que, por uma só injúria dita a Eliseu, ordenou aos ursos que despedaçassem os insolentes mancebos. Esse é o Que agora sofre tantos agravos, que a impiedade e incredulidade dos homens fazem a Seu Corpo: que O pisem com os pés, que O transpassem com punhais e O joguem nos fornos.
Mas quem desarmou aquelas divinas mãos n'Este Sacramento, senão um infinito amor com que se deixou n'Ele para os homens? Quem as atou para não submergir, como em outros tampos, tantos malvados em dilúvios de água, e cobrir por menos culpas Cidades inteiras com fogo? Quem, senão o amor, O abranda dos agravod que Lhe fazem com as línguas e com as penas tantos reinos e províncias, que dentro da Cristandade vomitam o venenoso ódio que professam a Este Sacramento?
Quando Sansão repousou no regaço de Dalila, logo deu falta de suas forças; e aquelas mãos, acostumadas a estrangular leões e arrancar fortes colunas da terra, viram-se logo aprisionadas com pesadas cadeias. O mesmo fez o amor com Jesus Sacramentado. Repoucou uma vez no seio dos homens, fez do coração das criaturas tálamo para Seu Corpo, e logo perdeu todas as Suas forças para castigá-las; e assim sofre agora as maiores ofensas quem primeiro não perdoava as faltas mais ligeiras. Porque esse amor grande, esse amor incomparável, não satisfeito de cravar-Lhe as mãos em um madeiro, as tem atadas fortemente no Sacremento.
Não encontrou o entendimento de São Paulo, ilustrado com o lume da glória, com que encarecer mais o infinito amor de Jesus, que dizendo que foi obediente até a morte. Mas, com a devida veneração a esse Mestre do mundo inteiro, diria eu que a obediência de Jesus passou ainda mais além da Sua morte. Porque, n'Este adorável Sacramento, vejo-O na terra e no Céu obedientíssimo às Suas criaturas. Se elas querem que esteja dias e noites presente à vista do mundo, não as contradiz; se O levam pelas ruas e praças públicas, não Lhe repugna; e se O encerram debaixo de uma chave, também o consente.
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De um só homem sabemos que foi feito à medida do Coração de Deus; mas, seja-me lícito dizer, n'Este Sacramento está Deus feito à medida do coração dos homens, pois à vontade e arbítrio de todos está Seu Coração Sacramentado. Mas, se é tão maravilhosa esta obediência que Ele tem a suas criaturas na terra, qual será a que pratica com as mesmas no Céu? Ouvi o maior prodígio do Divino amor. Reside o Soberano Rei da Glória no Trono altíssimo de Sua Majestade, adorado pelas colunas do firmamento e obedecido pelas maiores potestades do Empíreo; e às primeras quatro palavras com as quais O chama Seu Ministro, voa a pôr-Se em suas mãos com tão pronta obediência que no espaço de dezessete séculos nunca faltou, nem faltará daqui em diante nenhuma só vez.
Ouve o obedientíssimo Jesus a voz do Sacerdote no Céu, e não se interpõe um momento nem um instante entre a última sílaba de sua palavra e Sua real presença no Altar. Não O retarda o ter de sair do delicioso peito de Seu Eterno Pai, nem a suavíssima visão de Sua amorosa Mãe, nem as melífluas vozes com que na Glória O recreiam os Serafins. A língua, as palavras, as mãos de Seu Ministro O trazem sem falha do Céu à terra. Ó língua, ó palavras de infinito poder, que arrancais o Onipotente e trazeis-te o Imenso.
Quem se admirará agora de ouvir que com um só de seus cabelos e com um de seus olhos trouxe a Esposa o Divino Amante a seu seio; nem que por um só cabelo levou um Anjo desde a Judeia até a Babilônia o Profeta para alimentar o mancebo Daniel, encerrado na Cova dos Leões. Pois agora vê: traz cada dia um homem, com poucas palavras, do Céu à terra, o próprio Deus, para saciar com Sua Carne um mundo inteiro! Ó prodígios nunca dantes ouvidos! Basta que o homem fale para que Deus lhe obedeça. Lá dizia Davi que falou Deus uma só vez, e o que fez? Gerou um Filho igual a Si mesmo em Grandeza e Majestade. Fala inúmeras vezes o Sacerdote, e que faz? Não me atreveria a dizê-lo, se a maior luz da Igreja, Santo Agostinho, não o tivesse dito: Qui creavit me sine me, creatur mediante me. Sabeis, diz Agostinho, o que eu faço com minhas palavras no Altar? Crio quantas vezes as pronuncio o Que me criou a mim: Qui creavit me dedit mihi creare se. Aquela Eterna Geração do Divino Verbo, em Cujas luzes não puderam fixar a vista, nem por um instante, os olhos de um Isaías, renovo eu a cada dia em minhas mãos com minha língua.
Não duvido em afirmar que é maior a obediência que Jesus tem no Sacramento à voz do homem, do que a que tiveram as criaturas em sua criação à voz de Deus; assim como é maior o poder de quem muda o pão em Deus, do que o d'Aquele que muda o nada em pão. Com uma só voz tirou Deus do caos do nada todo o universo, e não houve criatura que não obedecesse ao Seu império. Obedeceram os planetas, os céus, os mares, as aves e as plantas. Porém todas elas eram umas criaturas caducas e corruptíveis; de sorte que tudo quanto obedeceu à voz de Deus não foi, nem podia ser, outro Deus como Ele infinito e imortal. Mas foi tanto o amor de Deus para com o homem que lhe deu poder para produzi-l'O no Sacramento, de tal sorte que, se por impossível perecera a Sacrossanta Humanidade do Verbo Divino, bastariam as poderosas palavras da Consagração para reproduzi-l'A de novo nos Altares.
Foi e será sempre celebrada no mundo a obediência de Abraão à voz de Deus, e não havia aí mais do que sacrificar-Lhe seu filho unigênito. Comparai agora com essa a obediência de Jesus à voz de um homem: vir, baixar e pôr-Se em suas mãos, para ser Ele mesmo sacrificado. Atônitos ficaram os Discípulos do Redentor quando viram que a Seu império obedeciam os mares e as tempestades. Que diriam agora, vendo seu Divino Mestre tão obediente à voz de Sua criatura, que, abrindo a boca, abre os Céus e O faz descer à terra sobre uma Ara? Não pôde o Evangelista significar-nos mais altamente a obediência do Verbo Humanado do que dizendo que estava sujeito, no mundo, a uma Virgem Mãe Sua, a Qual, como Tal, era o mais perfeito e excelente parto que deu nem poderia dar à luz Sua eterna Sabedoria. Com que conceitos, pois, poderão as plumas evangélicas explicar a obediência do próprio Senhor Sacramentado a uma vil e miserável criatura? Mas, que diriam também, à vista de tão maravilhosa obediência, da contumácia das criaturas à voz de seu Criador, de tanta repugnância a Seus preceitos, de tanta obstinação em contradizer Sua lei, e não observar Seus conselhos? Mas passemos agora a ponderar a maior fineza de Jesus Sacramentado em sofrer os agravos que padece n'Este inefável Sacramento.
Com razão chamou São Gregório, o Grande entre os Doutores, máquina do entendimento, ao amor: Amor est machina mentis. Porque, assim como as máquinas servem para levantar no ar pesos de extraordinária grandeza, assim o amor alivia suavemente as penas e os trabalhos, que por sua natureza são pesados. Não há maior prova dessa verdade do que o que o Amantíssimo Jesus Sacramentado sofre de Suas criaturas no mundo. Com as mesmas palavras com que Ele instituiu Este Sacramento, parece que Se empenhou a sofrer todas as sortes de ultrajes. Este é o Meu Corpo, disse Ele, quando O dava a comer a Seus Discípulos, Que por vosso amor será entregue e de mil modos ofendido. Eu O deixo Sacramentado e exposto à crueldade dos homens.
Não ficaram frustrados os insaciáveis desejos que Ele teve de padecer por nós; porque, sem dúvida, todos os tormentos que Jesus padeceu no Calvário, renova-os a malícia humana no Sacramento. Um Discípulo O vendeu em Jerusalém por trinta denários; por menos O comprou Sacramentado um herege na Pomerânia. Na Judeia fizeram os fariseus juntas e conselhos para matá-l'O. Na Alemanha se reuniram três luteranos, e, divididos por três partes do mundo, desafogaram seu ódio contra Este Augustíssimo Sacramento. Um deles, qual ímpio Malco, elevando o Sacerdote a Sagrada Hóstia, levantou a sacrílega mão, e, despedaçando-A, pisou-A com seus pés. Outro, qual cruel Longinos, atravessou-A com um punhal sobre o Altar. Finalmente outro, de mil modos, indignos de serem ditos, afrontou e atormentou o adorável Corpo do Redentor.
Tudo o sofreu o amantíssimo Cordeiro. Não quis Sacramentado ostentar Seu poder Aquele Senhor a Quem as Escrituras aclamam como Deus das vinganças. Aquele Que não dissimulou o arrojo de um Oza, que estendeu sua mão para sustentar a Arca. Aquele Que, por uma só mentira, gastigou de morte a um Ananias. Aquele Que, por um desprezo feito ao Seu Profeta, mandou que a terra tragasse vivo um Abirão. Aquele Que, por uma só injúria dita a Eliseu, ordenou aos ursos que despedaçassem os insolentes mancebos. Esse é o Que agora sofre tantos agravos, que a impiedade e incredulidade dos homens fazem a Seu Corpo: que O pisem com os pés, que O transpassem com punhais e O joguem nos fornos.
Mas quem desarmou aquelas divinas mãos n'Este Sacramento, senão um infinito amor com que se deixou n'Ele para os homens? Quem as atou para não submergir, como em outros tampos, tantos malvados em dilúvios de água, e cobrir por menos culpas Cidades inteiras com fogo? Quem, senão o amor, O abranda dos agravod que Lhe fazem com as línguas e com as penas tantos reinos e províncias, que dentro da Cristandade vomitam o venenoso ódio que professam a Este Sacramento?
Quando Sansão repousou no regaço de Dalila, logo deu falta de suas forças; e aquelas mãos, acostumadas a estrangular leões e arrancar fortes colunas da terra, viram-se logo aprisionadas com pesadas cadeias. O mesmo fez o amor com Jesus Sacramentado. Repoucou uma vez no seio dos homens, fez do coração das criaturas tálamo para Seu Corpo, e logo perdeu todas as Suas forças para castigá-las; e assim sofre agora as maiores ofensas quem primeiro não perdoava as faltas mais ligeiras. Porque esse amor grande, esse amor incomparável, não satisfeito de cravar-Lhe as mãos em um madeiro, as tem atadas fortemente no Sacremento.
23 de dezembro de 2009
Décima Fineza de Jesus Sacramentado para com os homens
Jesus Se deixou Sacramentado para ser paupérrimio no mundo.
É deveras Este Augustíssimo Sacramento um abismo infinito no Qual se perde o discurso, descobrindo a cada vez maiores excessos do Divino amor. Seria necessário aqui que eu tivesse uma voz que se ouvisse em todo o mundo, para que chegasse à notícia de todas as criaturas esta maravilhosa fineza de Jesus. Porém não quero declarar o que é tornar-Se paupérrimo n'Este inefável Sacramento, a não ser com as mesmas palavras com que nos fala continuamente naquele Altar: Egenus et pauper sum. Eu estou aqui pobre e necessitado de todas as coisas. Eu, Que semeei as estrelas no céu, vesti os planetas de luzes e enriqueci de pérolas a Eritréia: Eu, Que adorno de flores o campo, crio o ouro nas minas e dou reinos e monarquias aos príncipes, estou aqui reduzido a tanta pobreza que necessito de um pano para Meus Altares, de Corporais para reclinar Meu rosto, mendigo das criaturas um pouco de azeite para Minha Casa. Eu sou a luz do mundo, e todo o Céu não necessita de outro resplendor senão o da Minha Humanidade, que é o Divino Sol que o alumia. E, aqui na terra, apenas arde diante do Meu Corpo uma pequena luz, que, por descuido das criaturas, está toda a noite apagada.
É coisa maravilhosa ver o Rei da Glória com tanta pobreza em Sua Casa. Os sagrados vasos, em que reservam Seu adorável Corpo, quantas vezes são feitos de um metal vil. Os cálices em que Se deposita Seu precioso Sangue, tão imundos que muitos teriam asco de beber e brindar com semelhantes taças em suas mesas. Correi essas terras e lugares pequenos da Cristandade, onde se crê e adora Este Augustíssimo Mistério da Fé, e vereis coisas que vos sacarão lágrimas dos olhos. Vereis Igrejas de Católicos mais pobres que os pagodes entre os gentios; Altares menos asseados do que lareiras entre calvinistas: que digo? Achareis estábulos mais limpos do que o que é depósito do Corpo de Jesus.
A esta extrema pobreza reduziu Seu amor o Criador de tudo, n'Este Sacramento. Mas, o que me causa maior assombro, Seu amor Lhe dá tal aparência de pobre que às vezes vemos rodeado de vermes Sua Carne. Quando as Sagradas espécies do Pão começam a corromper-se, é devido à sua natureza que se substitua ali dita substância, na qual se introduza a forma de verme. Não se atreveram esses a chegar ao Corpo de Jesus quando nos três dias esteve sepultado na terra. Mas n'Este amoroso Sacramento, onde dá maiores exemplos de pobreza que no Sepulcro, permite que os vermes se vejam juntos com Sua carne. Nada afligia tanto em sua pobreza ao paciente Jó quanto ver-se por todas as partes rodeado de vermes. Pois, que transmutações tão raras são essas do amor de Jesus? Que invenções tão engenhosas para ir sempre empobrecendo mais por amor das criaturas? Sendo Deus Se faz homem, sendo homem Se desfarça em pão, e as espécies de pão O fazem parecer verme: Vermis sum, et non homo.
Volvei agora os olhos, Católicos, aos palácios dos reis e príncipes da terra. Olhai a suntuosidade de seus adornos, a riqueza de seus gabinetes e a reluzência de suas mesas. Olhai como se empobrece a Índia para enriquecer suas salas, e se desnuda a China para vestir e adornar suas camas. Olhai como ardem aí sem número as chamas, e a cada passo reluzem preciosos artefatos. É esse o albergue de uma pobre criatura, que, por grande que seja, à vista de Jesus é uma sombra que se desfaz. Volvei depois o olhar para a Casa e habitação onde vive o Monarca Sacramentado, para Cujo trono não são dignas o bastante as asas dos Serafins; e percebereis como muitas vezes Lhe falta o decente para celebrar-se o tremendo Sacrifício de Seu Sangue, como carece de um par de velas para Seus Altares, e como, pela suma pobreza, arde uma diminuta vela diante de Sua Majestade. Eu vi na Casa de um poderoso do mundo arderem numa sala mil e quinhentas velas de finíssima cera em um sarau. Gasta-se em uma ópera e um baile o que não se gastaria com um Deus. Seu Templo e Seu adorável Corpo Sacramentado passa noites inteiras escuras, e no máximo com uma pobre lâmpada encendida em um rincão de Sua Casa.
Que bem dizia eu, que à pobreza de Jesus Sacramentado nunca houve semelhante no mundo. É verdade que em Seu nascimento padeceu pobreza incrível, porém encontrou os braços de sua amantíssima Mãe, que o envolveram em limpíssimos panos. É verdade que na Cruz morreu o mais necessitado, porém teve um José, que, com um finíssimo sudário, cobriu Sua desnudez. Ver um Belisário, que, depois de governar um Império, mendigava um pedaço de pão pelas ruas, tirava lágrimas dos olhos, que não tinha, para ver suas misérias. Mas ver Jesus Sacramentado tão necessitado em Sua Casa não excita nos poderosos do mundo a compaixão. Bem ouvem as piedosas vozes com que Ele está dizendo daquele Sacrário: Egenus et pauper sum. Mas lá vão seus tesouros para servir suas profanidades, lá gastam suas riquezas para comprazer a seus apetites.
É deveras Este Augustíssimo Sacramento um abismo infinito no Qual se perde o discurso, descobrindo a cada vez maiores excessos do Divino amor. Seria necessário aqui que eu tivesse uma voz que se ouvisse em todo o mundo, para que chegasse à notícia de todas as criaturas esta maravilhosa fineza de Jesus. Porém não quero declarar o que é tornar-Se paupérrimo n'Este inefável Sacramento, a não ser com as mesmas palavras com que nos fala continuamente naquele Altar: Egenus et pauper sum. Eu estou aqui pobre e necessitado de todas as coisas. Eu, Que semeei as estrelas no céu, vesti os planetas de luzes e enriqueci de pérolas a Eritréia: Eu, Que adorno de flores o campo, crio o ouro nas minas e dou reinos e monarquias aos príncipes, estou aqui reduzido a tanta pobreza que necessito de um pano para Meus Altares, de Corporais para reclinar Meu rosto, mendigo das criaturas um pouco de azeite para Minha Casa. Eu sou a luz do mundo, e todo o Céu não necessita de outro resplendor senão o da Minha Humanidade, que é o Divino Sol que o alumia. E, aqui na terra, apenas arde diante do Meu Corpo uma pequena luz, que, por descuido das criaturas, está toda a noite apagada.
É coisa maravilhosa ver o Rei da Glória com tanta pobreza em Sua Casa. Os sagrados vasos, em que reservam Seu adorável Corpo, quantas vezes são feitos de um metal vil. Os cálices em que Se deposita Seu precioso Sangue, tão imundos que muitos teriam asco de beber e brindar com semelhantes taças em suas mesas. Correi essas terras e lugares pequenos da Cristandade, onde se crê e adora Este Augustíssimo Mistério da Fé, e vereis coisas que vos sacarão lágrimas dos olhos. Vereis Igrejas de Católicos mais pobres que os pagodes entre os gentios; Altares menos asseados do que lareiras entre calvinistas: que digo? Achareis estábulos mais limpos do que o que é depósito do Corpo de Jesus.
A esta extrema pobreza reduziu Seu amor o Criador de tudo, n'Este Sacramento. Mas, o que me causa maior assombro, Seu amor Lhe dá tal aparência de pobre que às vezes vemos rodeado de vermes Sua Carne. Quando as Sagradas espécies do Pão começam a corromper-se, é devido à sua natureza que se substitua ali dita substância, na qual se introduza a forma de verme. Não se atreveram esses a chegar ao Corpo de Jesus quando nos três dias esteve sepultado na terra. Mas n'Este amoroso Sacramento, onde dá maiores exemplos de pobreza que no Sepulcro, permite que os vermes se vejam juntos com Sua carne. Nada afligia tanto em sua pobreza ao paciente Jó quanto ver-se por todas as partes rodeado de vermes. Pois, que transmutações tão raras são essas do amor de Jesus? Que invenções tão engenhosas para ir sempre empobrecendo mais por amor das criaturas? Sendo Deus Se faz homem, sendo homem Se desfarça em pão, e as espécies de pão O fazem parecer verme: Vermis sum, et non homo.
Volvei agora os olhos, Católicos, aos palácios dos reis e príncipes da terra. Olhai a suntuosidade de seus adornos, a riqueza de seus gabinetes e a reluzência de suas mesas. Olhai como se empobrece a Índia para enriquecer suas salas, e se desnuda a China para vestir e adornar suas camas. Olhai como ardem aí sem número as chamas, e a cada passo reluzem preciosos artefatos. É esse o albergue de uma pobre criatura, que, por grande que seja, à vista de Jesus é uma sombra que se desfaz. Volvei depois o olhar para a Casa e habitação onde vive o Monarca Sacramentado, para Cujo trono não são dignas o bastante as asas dos Serafins; e percebereis como muitas vezes Lhe falta o decente para celebrar-se o tremendo Sacrifício de Seu Sangue, como carece de um par de velas para Seus Altares, e como, pela suma pobreza, arde uma diminuta vela diante de Sua Majestade. Eu vi na Casa de um poderoso do mundo arderem numa sala mil e quinhentas velas de finíssima cera em um sarau. Gasta-se em uma ópera e um baile o que não se gastaria com um Deus. Seu Templo e Seu adorável Corpo Sacramentado passa noites inteiras escuras, e no máximo com uma pobre lâmpada encendida em um rincão de Sua Casa.
Que bem dizia eu, que à pobreza de Jesus Sacramentado nunca houve semelhante no mundo. É verdade que em Seu nascimento padeceu pobreza incrível, porém encontrou os braços de sua amantíssima Mãe, que o envolveram em limpíssimos panos. É verdade que na Cruz morreu o mais necessitado, porém teve um José, que, com um finíssimo sudário, cobriu Sua desnudez. Ver um Belisário, que, depois de governar um Império, mendigava um pedaço de pão pelas ruas, tirava lágrimas dos olhos, que não tinha, para ver suas misérias. Mas ver Jesus Sacramentado tão necessitado em Sua Casa não excita nos poderosos do mundo a compaixão. Bem ouvem as piedosas vozes com que Ele está dizendo daquele Sacrário: Egenus et pauper sum. Mas lá vão seus tesouros para servir suas profanidades, lá gastam suas riquezas para comprazer a seus apetites.
22 de dezembro de 2009
Nona Fineza de Jesus Sacramentado para com os homens
Jesus Se deixou Sacramentado para ser o mais humilde da terra.
Somente com lágrimas, e não com tinta, com suspiros, e não com palavras, se poderia discorrer sobre esta prodigiosa fineza de Jesus; porque verdadeiramente emudece a língua e faltam os conceitos para explicar as humilhações em que o amor pôs o Rei da Glória no Sacramento do Altar. Toda a vida de Jesus foi um contínuo exercício de humildade. Desde o Nascimento até o Sepulcro, não teve em vista outra coisa que humilhar-Se pelos homens. Nasceu humilde, viveu humílimo, e morreu mais abatido. Mas quando O considero Sacramentado, não posso deixar de cobrir o rosto de confusão, nem entender como resta ainda alguma raiz de soberba e vaidade no mundo.
Aonde podiam chegar as humilhações de meu Deus, além de esconder-Se debaixo de fragilíssimas espécies de um pouco de Pão? Em Sua Encarnação, encobriu Sua Divindade, porém Se deixou ver Homem, e o mais formoso dos filhos de Adão. N'Este Sacramento, esconde o Ser Divino e o humano, e não mostra mais que o ser do Pão. Infinita foi a aniquilação que Deus fez de Si mesmo, dizia o Apóstolo, quando Se uniu à natureza humana, que era vivente, racional e formada à Sua semelhança. Pois qual será o abatimento em unir-Se a uma natureza, não intelectual, senão insensível? Mas, que digo: a uma natureza? Nem a uma substância corpórea Se une, sacramentando-Se; pois, contente com os pobres acidentes, que não têm, pratica a maior humildade que podem conceber os entendimentos dos Serafins.
Ter reduzido Deus Sua Imensidão ao tenro corpinho de um Menino arrebata em êxtase quem contempla essa maravilha. Mas reduzir-Se Deus a um pequeno pedaço de pão, e a uma só gota de vinho, quem o poderá escrever sem lágrimas, ou o pensar sem que se lhe quebre de amor o coração? No mais limitado fragmento d'Aquela Hóstia está todo o inteiro Monarca do Empíreo. E mais: em qualquer mínimo ponto d'Ela, ou seja, dos que entre si unem suas partes, ou dos que chamamos terminativos de Sua quantidade, compendiou o Altíssimo toda Sua grandeza. Ah!, Nabucos e Alexandres mundanos, como permanecem em pé vossas estátuas! Como não se desfazem em pó vossas soberbas? Como chora ainda vossa ambição ao ouvir que não há mais que um só mundo a ser conquistado? E o Deus de Majestade, o Criador de tudo, reduz-Se a viver e morar em um ponto indivisível por vosso amor.
Excedem as humilhações de Jesus Sacramentado a todas quantas as Sacradas Penas nos dizem que padeceu sobre a terra. Quando conversava com os homens, levava-os aos milhares após Si, atraídos e arrebatados pelos raios daquela Divindade que resplandecia em Sua carne mortal. E assim, sendo Menino, foi adorado pelos Reis em Belém, desfez a soberba máquina dos ídolos no Egito; e eram tão poderosos os influxos de Seus olhos que os próprios hebreus, que não O conheciam, convidavam uns aos outros para recrear sua vista, dizendo: Vamos ver o belíssimo Filho de Maria. Sendo Homem, tomou em Sua mão o latigo contra os culpados, se mostrou imperioso com os elementos, e formidável aos demônios; e ainda depois de morto Se eclipsou no Sol e cobriu o mundo de horrores.
Porém, que diferente se mostra agora Este mesmo Senhor Sacramentado. Já naquele Altar está tão manso e humilde Jesus, que, coberdo dumas aparências de pão, não dá o mínimo sinal de vida. Todo humilhado e todo emudecido, nem de Seus sentidos exteriores Se serve. Tem os olhos vendados, fechados os ouvidos, presas as mãos, atados os pés, e só ardendo de amor Seu coração.
Ali está sujeito à vontade e arbítrio dos homens. Mas o que é isso, se também Seu amor O sujeitou aos brutos? Quantas vezes nos dizem as histórias que pisaram com seus pés as bestas Seu Divino Sacramentado Corpo? Ali também O vereis em poder dos elementos insensíveis, porque ou as chamas de fogo consomem as espécies de que Se veste Seu Corpo, ou as inundações das águas O arrebatam entre Suas correntes, ou a terra com seus tremores O encerram em suas entranhas, dentro de Seu Sacrário. Mas, ó Católicos meus! Ouvi o que é mais do que tudo. N'Este Augustíssimo Sacramento, pratica Jesus tão maravilhosos exemplos de humildade, que n'Ele Se fez sujeito até aos próprios demônios. Não uma só vez foram levadas as Sagradas Hóstias por ímpios feiticeiros a suas infernais assembleias, onde, juntamente com eles, em figuras corpóreas, foram vistos muitos malignos espíritos dançar e saltar sobre aquele adorável rosto, em torno do qual se rodeiam todos os céus.
Dizei-me, agora, soberbos e altivos do mundo, onde estão aqueles pontos de honra tantas vezes praticados diante d'Este próprio Deus Sacramentado? Ó cegueira digna de ser chorada com lágrimas de sangue! O Criador aos pés de uma criatura; e esta em Sua presença, em Seua própria Casa, ultraja-O a sangue e fogo sobre a precedência de um lugar, ou porque lhe negam um assento? Mas, ó Sacramento dulcíssimo, escola irrefragável da verdadeira humildade! Eu abraço teus ditames de todo opostos às falsas máximas do mundo. E, visto que desde a Cátedra deste Altar me ensinas o caminho real da vida eterna, eu me declaro perpétuo Discípulo de meu Jesus Sacramentado, Que em tão prodigiosas humilhações me dá a mais evidente prova de Seu amor.
Somente com lágrimas, e não com tinta, com suspiros, e não com palavras, se poderia discorrer sobre esta prodigiosa fineza de Jesus; porque verdadeiramente emudece a língua e faltam os conceitos para explicar as humilhações em que o amor pôs o Rei da Glória no Sacramento do Altar. Toda a vida de Jesus foi um contínuo exercício de humildade. Desde o Nascimento até o Sepulcro, não teve em vista outra coisa que humilhar-Se pelos homens. Nasceu humilde, viveu humílimo, e morreu mais abatido. Mas quando O considero Sacramentado, não posso deixar de cobrir o rosto de confusão, nem entender como resta ainda alguma raiz de soberba e vaidade no mundo.
Aonde podiam chegar as humilhações de meu Deus, além de esconder-Se debaixo de fragilíssimas espécies de um pouco de Pão? Em Sua Encarnação, encobriu Sua Divindade, porém Se deixou ver Homem, e o mais formoso dos filhos de Adão. N'Este Sacramento, esconde o Ser Divino e o humano, e não mostra mais que o ser do Pão. Infinita foi a aniquilação que Deus fez de Si mesmo, dizia o Apóstolo, quando Se uniu à natureza humana, que era vivente, racional e formada à Sua semelhança. Pois qual será o abatimento em unir-Se a uma natureza, não intelectual, senão insensível? Mas, que digo: a uma natureza? Nem a uma substância corpórea Se une, sacramentando-Se; pois, contente com os pobres acidentes, que não têm, pratica a maior humildade que podem conceber os entendimentos dos Serafins.
Ter reduzido Deus Sua Imensidão ao tenro corpinho de um Menino arrebata em êxtase quem contempla essa maravilha. Mas reduzir-Se Deus a um pequeno pedaço de pão, e a uma só gota de vinho, quem o poderá escrever sem lágrimas, ou o pensar sem que se lhe quebre de amor o coração? No mais limitado fragmento d'Aquela Hóstia está todo o inteiro Monarca do Empíreo. E mais: em qualquer mínimo ponto d'Ela, ou seja, dos que entre si unem suas partes, ou dos que chamamos terminativos de Sua quantidade, compendiou o Altíssimo toda Sua grandeza. Ah!, Nabucos e Alexandres mundanos, como permanecem em pé vossas estátuas! Como não se desfazem em pó vossas soberbas? Como chora ainda vossa ambição ao ouvir que não há mais que um só mundo a ser conquistado? E o Deus de Majestade, o Criador de tudo, reduz-Se a viver e morar em um ponto indivisível por vosso amor.
Excedem as humilhações de Jesus Sacramentado a todas quantas as Sacradas Penas nos dizem que padeceu sobre a terra. Quando conversava com os homens, levava-os aos milhares após Si, atraídos e arrebatados pelos raios daquela Divindade que resplandecia em Sua carne mortal. E assim, sendo Menino, foi adorado pelos Reis em Belém, desfez a soberba máquina dos ídolos no Egito; e eram tão poderosos os influxos de Seus olhos que os próprios hebreus, que não O conheciam, convidavam uns aos outros para recrear sua vista, dizendo: Vamos ver o belíssimo Filho de Maria. Sendo Homem, tomou em Sua mão o latigo contra os culpados, se mostrou imperioso com os elementos, e formidável aos demônios; e ainda depois de morto Se eclipsou no Sol e cobriu o mundo de horrores.
Porém, que diferente se mostra agora Este mesmo Senhor Sacramentado. Já naquele Altar está tão manso e humilde Jesus, que, coberdo dumas aparências de pão, não dá o mínimo sinal de vida. Todo humilhado e todo emudecido, nem de Seus sentidos exteriores Se serve. Tem os olhos vendados, fechados os ouvidos, presas as mãos, atados os pés, e só ardendo de amor Seu coração.
Ali está sujeito à vontade e arbítrio dos homens. Mas o que é isso, se também Seu amor O sujeitou aos brutos? Quantas vezes nos dizem as histórias que pisaram com seus pés as bestas Seu Divino Sacramentado Corpo? Ali também O vereis em poder dos elementos insensíveis, porque ou as chamas de fogo consomem as espécies de que Se veste Seu Corpo, ou as inundações das águas O arrebatam entre Suas correntes, ou a terra com seus tremores O encerram em suas entranhas, dentro de Seu Sacrário. Mas, ó Católicos meus! Ouvi o que é mais do que tudo. N'Este Augustíssimo Sacramento, pratica Jesus tão maravilhosos exemplos de humildade, que n'Ele Se fez sujeito até aos próprios demônios. Não uma só vez foram levadas as Sagradas Hóstias por ímpios feiticeiros a suas infernais assembleias, onde, juntamente com eles, em figuras corpóreas, foram vistos muitos malignos espíritos dançar e saltar sobre aquele adorável rosto, em torno do qual se rodeiam todos os céus.
Dizei-me, agora, soberbos e altivos do mundo, onde estão aqueles pontos de honra tantas vezes praticados diante d'Este próprio Deus Sacramentado? Ó cegueira digna de ser chorada com lágrimas de sangue! O Criador aos pés de uma criatura; e esta em Sua presença, em Seua própria Casa, ultraja-O a sangue e fogo sobre a precedência de um lugar, ou porque lhe negam um assento? Mas, ó Sacramento dulcíssimo, escola irrefragável da verdadeira humildade! Eu abraço teus ditames de todo opostos às falsas máximas do mundo. E, visto que desde a Cátedra deste Altar me ensinas o caminho real da vida eterna, eu me declaro perpétuo Discípulo de meu Jesus Sacramentado, Que em tão prodigiosas humilhações me dá a mais evidente prova de Seu amor.
21 de dezembro de 2009
Oitava Fineza de Jesus Sacramentado para com os homens
Jesus Se deixou Sacramentado para toda sorte de pessoas.
Não pode um entendimento limitado conhecer bem aonde chega esta fineza do amor de Jesus Sacramentado sem dar uma olhada no que acontece nas Cortes dos Príncipes e Grandes do mundo. Nelas encontrareis guardas, que por todas as portas defendem a entrada a seus Palácios. Nem a todos se permite chegar aos primeiros Salões, a poucos a suas Câmaras, a raros ao Quarto onde está o próprio Monarca. Mas que direi de seus Banquetes? Que autorizadas e escolhidas as pessoas que admitem a suas mesas. Há desses Príncipes no mundo, que fazem razão de estado não comer jamais nem com a própria Consorte.
Agora, percorrei com os olhos a Corte do Divino Rei Sacramentado, e vereis como, sem acepção de pessoas, têm todas suas entradas livres em Seu Palácio, e se sentam à Sua mesa o ilustre e o humilde, o senhor e o escravo, o grande e o pequeno, o rico e o pobre, e amigo e o inimigo, o justo e o injusto. Disso se maravilha São João Crisóstomo, vendo que nem os traidores são excluídos da Real mesa de Jesus Sacramentado, e que até aqueles que O vendem pelo vil interesse de um apetite levam com Ele a mão ao prato. Por isso disse Santo Ambrósio que não recusava o Redentor ir ao banquete de homens perdidos e pecadores, porque os havia de chamar depois à Sua mesa. Determinava Jesus fazer de Sua carne um banquete universal para todos, e assim quis primeiro comer com todos, para que depois todos comessem com Ele.
Na mesa do Senado Romano sentou-se uma vez um homem coberto de luto, contra o estilo que tinha o Senado, e, levantando-se, todos exclamaram: Quis unquam cœnavit attratus? Quem se atreveu jamais a vir a este jantar vestido de negro? Ó liberalidade! Ó amor infinito de Jesus! E quantos se sentam à Vossa mesa envoltos nas obscuras trevas da culpa, e com as almas mais negras que as próprias trevas, e ainda assim permitis, ó benigno Amante, comer Vossa Carne, e lhes dais a beber Vosso Sangue. Assim é: a todos vê, e a todos admite em Sua mesa o Rei da Glória; porque Este Sacramento é o sol que Seu Profeta disse que Ele faz nascer sobre bons e maus.
Para que todos cheguem a comer Sua Carne, disfarçou naquela mesa a Majestade. Oculto no véu de pobres acidentes, dá a comer por pão o que verdadeiramente é Deus. Se n'Este Augustíssimo Sacramente vestisse Seu Corpo daquelas luzes com que Se deixou ver no Tabor, poderiam temer os pobres. Se ali aparecesse armado daquele puder que pôs em Suas mãos o Eterno Padre, poderiam fugir os culpados. Mas agora já não faz ostenção daqueles títulos que o Evangelista lia impressos em Seu Corpo: Rei dos Reis e Senhor dos Senhores. Já não atemoriza com aqueles prodígios, por temor dos quais Pedro Lhe pedia que se afastasse dele. Acomoda-Se à condição de todos. Aos reis dá como a reis, aos pobres, como a pobres; para os famintos é comida, para os sedentos, fonte. Mas, ó Almas Católicas! Se ainda lhes resta alguma dúvida do muito que vosso Redentor Se humilhou e abateu Sua Majestade por vosso amor n'Este Sacramento, lede com atenção as finezas seguintes; porém preveni as lágrimas, que de certo correrão de vossos olhos ao considerar aonde chegaram os excessos do amor de Jesus Sacramentado...
Não pode um entendimento limitado conhecer bem aonde chega esta fineza do amor de Jesus Sacramentado sem dar uma olhada no que acontece nas Cortes dos Príncipes e Grandes do mundo. Nelas encontrareis guardas, que por todas as portas defendem a entrada a seus Palácios. Nem a todos se permite chegar aos primeiros Salões, a poucos a suas Câmaras, a raros ao Quarto onde está o próprio Monarca. Mas que direi de seus Banquetes? Que autorizadas e escolhidas as pessoas que admitem a suas mesas. Há desses Príncipes no mundo, que fazem razão de estado não comer jamais nem com a própria Consorte.
Agora, percorrei com os olhos a Corte do Divino Rei Sacramentado, e vereis como, sem acepção de pessoas, têm todas suas entradas livres em Seu Palácio, e se sentam à Sua mesa o ilustre e o humilde, o senhor e o escravo, o grande e o pequeno, o rico e o pobre, e amigo e o inimigo, o justo e o injusto. Disso se maravilha São João Crisóstomo, vendo que nem os traidores são excluídos da Real mesa de Jesus Sacramentado, e que até aqueles que O vendem pelo vil interesse de um apetite levam com Ele a mão ao prato. Por isso disse Santo Ambrósio que não recusava o Redentor ir ao banquete de homens perdidos e pecadores, porque os havia de chamar depois à Sua mesa. Determinava Jesus fazer de Sua carne um banquete universal para todos, e assim quis primeiro comer com todos, para que depois todos comessem com Ele.
Na mesa do Senado Romano sentou-se uma vez um homem coberto de luto, contra o estilo que tinha o Senado, e, levantando-se, todos exclamaram: Quis unquam cœnavit attratus? Quem se atreveu jamais a vir a este jantar vestido de negro? Ó liberalidade! Ó amor infinito de Jesus! E quantos se sentam à Vossa mesa envoltos nas obscuras trevas da culpa, e com as almas mais negras que as próprias trevas, e ainda assim permitis, ó benigno Amante, comer Vossa Carne, e lhes dais a beber Vosso Sangue. Assim é: a todos vê, e a todos admite em Sua mesa o Rei da Glória; porque Este Sacramento é o sol que Seu Profeta disse que Ele faz nascer sobre bons e maus.
Para que todos cheguem a comer Sua Carne, disfarçou naquela mesa a Majestade. Oculto no véu de pobres acidentes, dá a comer por pão o que verdadeiramente é Deus. Se n'Este Augustíssimo Sacramente vestisse Seu Corpo daquelas luzes com que Se deixou ver no Tabor, poderiam temer os pobres. Se ali aparecesse armado daquele puder que pôs em Suas mãos o Eterno Padre, poderiam fugir os culpados. Mas agora já não faz ostenção daqueles títulos que o Evangelista lia impressos em Seu Corpo: Rei dos Reis e Senhor dos Senhores. Já não atemoriza com aqueles prodígios, por temor dos quais Pedro Lhe pedia que se afastasse dele. Acomoda-Se à condição de todos. Aos reis dá como a reis, aos pobres, como a pobres; para os famintos é comida, para os sedentos, fonte. Mas, ó Almas Católicas! Se ainda lhes resta alguma dúvida do muito que vosso Redentor Se humilhou e abateu Sua Majestade por vosso amor n'Este Sacramento, lede com atenção as finezas seguintes; porém preveni as lágrimas, que de certo correrão de vossos olhos ao considerar aonde chegaram os excessos do amor de Jesus Sacramentado...
20 de dezembro de 2009
Sétima Fineza de Jesus Sacramentado para com os homens
Jesus Se deixou Sacramentado para sempre, e em todas as partes do mundo.
Entre as propriedades do amor, diz Ricardo que a principal é a inseparabilidade, porque tem ele por natureza fazer do amante uma coisa com o amado, assim como eram aqueles dois amigos Jônatas e Davi, dos quais se diz que a Alma de um estava estampada n'Alma do outro. Mas, sendo assim, que amor houve jamais no mundo que não experimentasse em si a espada da divisão? Ou o decurso do tempo, que acaba com todas as coisas, ou a distância dos lugares, ou a desconfiança do amigo, ou a sombra de um desgosto basta para separar os corações mais unidos. Perguntando Carlos Sétimo, Rei da França, a um íntimo amigo seu, o que seria bastante para apartá-lo de sua amizade, respondeu-lhe: Senhor, um só desprezo.
Porem esta regra não estorva o amor de Jesus Sacramentado. Bem podem passar os séculos, crescer as desconfianças com os homens, os agravos e desprezos das criaturas, sempre Ele nos está a dizer, daquele Sacrário, aqui estou convosco até o fim do mundo: Ecce vobiscum sum usque ad consummationem sæculi. Esplêndido e opulento foi o banquete de Assuero, mas não durou mais do que sete dias. Maior foi o que Deus fez no deserto a seu Povo, porém, no espaço de quarenta anos, acabou-se. Quantos dias, entretanto, quantos anos e quantos séculos são já os que há durado o precioso banquete da Carne e Sangue de Jesus, e quem poderá dizer quantos ainda lhe restam a durar!
Abrasado de amor estava São Paulo quando dizia que nada o poderia apartar da amizade de Jesus. Desafiava as tribulações, a vida, a morte, as profundezas, as distâncias e as alturas, e dizia que a tudo seria seu coração um penhasco imóvel e inexpugnável. Mas quando eu considero aquelas doces palavras do Redentor, com as quais nos promete estar conosco Sacramentado enquanto o mundo for mundo, que conceito posso formar do Seu amor? Aí ouço-O perguntar-nos: o que Me poderia separar de vossa companhia? An vita? Nem a vida que Eu passei tão penosa na terra, nem a que passo tão ultrajado no Sacramento. An mors? Nem a morte que aqui pretendeis dar-Me a cada dia, pondo-Me de novo, quanto está de vossa parte, numa Cruz. An fames? Nem a pobreza que Eu padeço em Minha Casa. Vou mendigando de porta em porta uma gota de azeite para Minhas lâmpadas, uma vela de cera para Meu Altar, necessito de um tecido decente onde reclinar Meu rosto. O que, pois, será o bastante para apartar-Me dos homens? An tribulatio? Nem os olhares impuros, que ferem Meu coração, nem as conversas imodestas, que Me afrontam, nem as sacrílegas irreverências que à Minha vista se cometem. An longitudo? Nem a distância dos tempos em o decurso dos anos, nem a multiplicidade dos séculos. Trocam-se os Impérios, acabam-se as Monarquias, muda mil vezes o mundo, mas, neste Sacrário, Eu sou o mesmo, e Eu não mudo. An altitudo? Eu sou o Unigênito do Altíssimo e Deus de infinita Majestade, Que com um sopro movo as esferas celestes, e com três dedos sustento toda a máquina do Universo. Porém nem toda a Minha grandeza, nem a profundeza, nem a baixeza das criaturas, nem a vileza de sua condição bastará para que, por um só instante, deixe Eu de estar Sacramentado com eles; porque nestes Altares tenho posto para sempre Meu coração: Ponam cor meum ibi cunctis diebus.
Assim obra conosco um Deus amante. Que ser nosso companheiro até o fim do mundo. Por todas as horas e em todos os momentos, de dia e de noite quer que sempre o encontremos naquele Sacrário. Mas o que mais torna imensa esta fineza de Jesus é que, não só para sempre, senão que em todas as partes e em todos os lugares quer estar conosco Sacramentado. Compadeço-me muito daquele pobre Paralítico, quando leio que, por espaço de trinta e oito anos, jazia em um pórtico, por não poder chegar a uma Piscina, que era a única no mundo, e só em Jerusalém se achava, para remédio de seus males. Mas aqui sente minha Alma ferir-se vivamente pelo amor, quando considero não ter parte alguma da terra onde não se possa encontrar facilmente a saudável Piscina do Sangue de Jesus, único antídoto para a paralisia de nossas culpas. Não há reino, não há província, cidade, terra ou lugar no mundo, onde não esteja ou possa estar este amante Sacramentado. Nos lugares mais humildes, nas cabanas mais pobres, nas campanhas mais desertas O pôs Seu amor. Se entro nos hospitais mais desamparados, se passo pelas ruas mais imundas aí O encontro. Se O busco nos exércitos entre o rumor das armas, aí também O adoro. Finalmente, como se toda a terra não bastasse, se navego pelos mares também navega comigo sobre as ondas o Senhor Sacramentado.
Em todas as partes e a cada passo nos expõe todos os tesouros da Glória. É festejada no mundo a ave Fênix, porque dizem que é única, mas só nasce nos montes da Arábia. Precioso é o ouro, mas a natureza o esconde nas entranhas da terra. Brilhantes são os diamantes, mas estão encerrados nos secretos seios das minas. Só o Corpo de Jesus se acha por todas as partes sem fadiga e sem dispêndio, Aquele adorável Corpo, Que é a única inexplicável pérola engastada no Peito do Divino Verbo.
Ah! quanto mais liberal e mais amoroso se mostra Deus, agora, com os homens, do que, na Lei antiga, com os israelitas! Então não havia no mundo mais do que um Templo, um Sacrifício e um Sacerdote; e ainda assim, tudo era só uma figura d'Este Sacramento. E agora não há lugar em toda a redondeza da terra onde não se possa não a figura, senão o figurado. Já não é necessário andar perguntando, como a Esposa, onde vive e onde come nosso amado, porque não só ao meio-dia, mas a todas as horas e em todas as partes se manifesta a nossos olhos, e com o Sangue de seu peito, qual Pelicano amoroso, nos alimenta.
Em um só lugar se depositava a Arca do Testamento, e era ditosa a Casa que merecia hospedá-la. Quem não se enternece agora em considerar esta fineza de Jesus? Ele não é a Arca de Deus, mas o mesmo Deus da Arca. Não é a Lei Escrita, mas o próprio Autor da Lei. Não é o Maná figurado, mas o próprio figurado pelo Maná. Não é a Vara de Moisés, senão flor bela do Paraíso, e a cada passo O vemos, encontramo-l'O, comemo-l'O, metemo-l'O em nossos corações. Com Sua Imensidão ocupa Deus todo o Universo; e se houvesse infinitos mundos, achar-Se-ia presnte em todos eles. Mas foi tão engenhoso o Seu amor que quis dar também n'Este Sacramento este tão excelente atributo [isto é, Sua Imensidão], de algum modo, também à sua humanidade. E. porque quando Ele andava no mundo num só lugar Se achava um Homem-Deus, Sua sabedoria buscou um modo de, multiplicadas infinitas vezes as transubstanciações do Pão em Sua Carne, podermos dizer que em todas as partes, e em inumeráveis mundos, se os houvesse, temos em nossa companhia um Deus-Homem.
Entre as propriedades do amor, diz Ricardo que a principal é a inseparabilidade, porque tem ele por natureza fazer do amante uma coisa com o amado, assim como eram aqueles dois amigos Jônatas e Davi, dos quais se diz que a Alma de um estava estampada n'Alma do outro. Mas, sendo assim, que amor houve jamais no mundo que não experimentasse em si a espada da divisão? Ou o decurso do tempo, que acaba com todas as coisas, ou a distância dos lugares, ou a desconfiança do amigo, ou a sombra de um desgosto basta para separar os corações mais unidos. Perguntando Carlos Sétimo, Rei da França, a um íntimo amigo seu, o que seria bastante para apartá-lo de sua amizade, respondeu-lhe: Senhor, um só desprezo.
Porem esta regra não estorva o amor de Jesus Sacramentado. Bem podem passar os séculos, crescer as desconfianças com os homens, os agravos e desprezos das criaturas, sempre Ele nos está a dizer, daquele Sacrário, aqui estou convosco até o fim do mundo: Ecce vobiscum sum usque ad consummationem sæculi. Esplêndido e opulento foi o banquete de Assuero, mas não durou mais do que sete dias. Maior foi o que Deus fez no deserto a seu Povo, porém, no espaço de quarenta anos, acabou-se. Quantos dias, entretanto, quantos anos e quantos séculos são já os que há durado o precioso banquete da Carne e Sangue de Jesus, e quem poderá dizer quantos ainda lhe restam a durar!
Abrasado de amor estava São Paulo quando dizia que nada o poderia apartar da amizade de Jesus. Desafiava as tribulações, a vida, a morte, as profundezas, as distâncias e as alturas, e dizia que a tudo seria seu coração um penhasco imóvel e inexpugnável. Mas quando eu considero aquelas doces palavras do Redentor, com as quais nos promete estar conosco Sacramentado enquanto o mundo for mundo, que conceito posso formar do Seu amor? Aí ouço-O perguntar-nos: o que Me poderia separar de vossa companhia? An vita? Nem a vida que Eu passei tão penosa na terra, nem a que passo tão ultrajado no Sacramento. An mors? Nem a morte que aqui pretendeis dar-Me a cada dia, pondo-Me de novo, quanto está de vossa parte, numa Cruz. An fames? Nem a pobreza que Eu padeço em Minha Casa. Vou mendigando de porta em porta uma gota de azeite para Minhas lâmpadas, uma vela de cera para Meu Altar, necessito de um tecido decente onde reclinar Meu rosto. O que, pois, será o bastante para apartar-Me dos homens? An tribulatio? Nem os olhares impuros, que ferem Meu coração, nem as conversas imodestas, que Me afrontam, nem as sacrílegas irreverências que à Minha vista se cometem. An longitudo? Nem a distância dos tempos em o decurso dos anos, nem a multiplicidade dos séculos. Trocam-se os Impérios, acabam-se as Monarquias, muda mil vezes o mundo, mas, neste Sacrário, Eu sou o mesmo, e Eu não mudo. An altitudo? Eu sou o Unigênito do Altíssimo e Deus de infinita Majestade, Que com um sopro movo as esferas celestes, e com três dedos sustento toda a máquina do Universo. Porém nem toda a Minha grandeza, nem a profundeza, nem a baixeza das criaturas, nem a vileza de sua condição bastará para que, por um só instante, deixe Eu de estar Sacramentado com eles; porque nestes Altares tenho posto para sempre Meu coração: Ponam cor meum ibi cunctis diebus.
Assim obra conosco um Deus amante. Que ser nosso companheiro até o fim do mundo. Por todas as horas e em todos os momentos, de dia e de noite quer que sempre o encontremos naquele Sacrário. Mas o que mais torna imensa esta fineza de Jesus é que, não só para sempre, senão que em todas as partes e em todos os lugares quer estar conosco Sacramentado. Compadeço-me muito daquele pobre Paralítico, quando leio que, por espaço de trinta e oito anos, jazia em um pórtico, por não poder chegar a uma Piscina, que era a única no mundo, e só em Jerusalém se achava, para remédio de seus males. Mas aqui sente minha Alma ferir-se vivamente pelo amor, quando considero não ter parte alguma da terra onde não se possa encontrar facilmente a saudável Piscina do Sangue de Jesus, único antídoto para a paralisia de nossas culpas. Não há reino, não há província, cidade, terra ou lugar no mundo, onde não esteja ou possa estar este amante Sacramentado. Nos lugares mais humildes, nas cabanas mais pobres, nas campanhas mais desertas O pôs Seu amor. Se entro nos hospitais mais desamparados, se passo pelas ruas mais imundas aí O encontro. Se O busco nos exércitos entre o rumor das armas, aí também O adoro. Finalmente, como se toda a terra não bastasse, se navego pelos mares também navega comigo sobre as ondas o Senhor Sacramentado.
Em todas as partes e a cada passo nos expõe todos os tesouros da Glória. É festejada no mundo a ave Fênix, porque dizem que é única, mas só nasce nos montes da Arábia. Precioso é o ouro, mas a natureza o esconde nas entranhas da terra. Brilhantes são os diamantes, mas estão encerrados nos secretos seios das minas. Só o Corpo de Jesus se acha por todas as partes sem fadiga e sem dispêndio, Aquele adorável Corpo, Que é a única inexplicável pérola engastada no Peito do Divino Verbo.
Ah! quanto mais liberal e mais amoroso se mostra Deus, agora, com os homens, do que, na Lei antiga, com os israelitas! Então não havia no mundo mais do que um Templo, um Sacrifício e um Sacerdote; e ainda assim, tudo era só uma figura d'Este Sacramento. E agora não há lugar em toda a redondeza da terra onde não se possa não a figura, senão o figurado. Já não é necessário andar perguntando, como a Esposa, onde vive e onde come nosso amado, porque não só ao meio-dia, mas a todas as horas e em todas as partes se manifesta a nossos olhos, e com o Sangue de seu peito, qual Pelicano amoroso, nos alimenta.
Em um só lugar se depositava a Arca do Testamento, e era ditosa a Casa que merecia hospedá-la. Quem não se enternece agora em considerar esta fineza de Jesus? Ele não é a Arca de Deus, mas o mesmo Deus da Arca. Não é a Lei Escrita, mas o próprio Autor da Lei. Não é o Maná figurado, mas o próprio figurado pelo Maná. Não é a Vara de Moisés, senão flor bela do Paraíso, e a cada passo O vemos, encontramo-l'O, comemo-l'O, metemo-l'O em nossos corações. Com Sua Imensidão ocupa Deus todo o Universo; e se houvesse infinitos mundos, achar-Se-ia presnte em todos eles. Mas foi tão engenhoso o Seu amor que quis dar também n'Este Sacramento este tão excelente atributo [isto é, Sua Imensidão], de algum modo, também à sua humanidade. E. porque quando Ele andava no mundo num só lugar Se achava um Homem-Deus, Sua sabedoria buscou um modo de, multiplicadas infinitas vezes as transubstanciações do Pão em Sua Carne, podermos dizer que em todas as partes, e em inumeráveis mundos, se os houvesse, temos em nossa companhia um Deus-Homem.
18 de dezembro de 2009
Sexta Fineza de Jesus Sacramentado para com os homens
Jesus Se deixou no Sacramento para fazer-nos da terra Céu.
Entre as inumeráveis infelicidades a que nós, miseráveis habitantes da terra, somos condenados neste mundo, considero que a maior este longo desterro que padecemos, daquela Celestial Pátria, para a qual somos todos criados. Porque verdadeiramente não pode haver maior infortúnio para uma criatura do que viver ausente e separada de seu Criador, e não poder fixar os olhos em seu último fim, ao Qual todas as coisas desejam unir-se perfeitamente. Mas assim é. Todos, por disposição Divina, estamos sentenciados a viver gemendo neste vale de misérias, com rigoroso preceito de não entrar em nossa pátria senão depois de uma longa e penosa peregrinação.
Porém, alegrai-vos, desterrados no mundo! Enxugai vossas lágrimas e alegrai vossos corações, pois vos asseguro que, vivendo na terra, sois também Cidadãos do Céu. Foi o imenso amor de Jesus tão fino para convosco, que Se deixou Sacramentado, para que a terra fosse para vós Céu, e o desterro, pátria. Não sou eu quem vos anuncia tão feliz nova. A grande Madre Santa Teresa é quem do Céu vem desterrar vossas penas. Ela é quem, vestida já de glória imortal, disse a um filho seu, e no-lo diz a todos: Nós, no Céu, e vós, na terra, somos uma mesma coisa. Nós servindo a Divina Essência, e vós possuindo e gozando o Santíssimo Sacramento. Ó palavras dignas de esculpir-se no coração de todos os Católicos! Depois que o amantíssimo Redentor Se nos deu no Sacramento, não existe mais diferença entre viandores e compreensores, nos ensina aquela Mestra de Celestial Sabedoria. É verdade que esses estão perpetuamente gozando daquela mesa da Divina Essência, que é e será seu alimento por toda a eternidade. Mas também nós aqui na terra comemos e nos sustentamos com Este Pão Angélico, Que é o mesmo Que os alimenta felizmente na Glória.
Aquelas admiráveis palavras de Teresa fazem eco a outras da boca de Ouro de Crisóstomo, que, encendido de amor por Este Sacramento, perguntava a seus discípulos: Sabeis a fim de que se deixou Nosso Redentor Sacramentado? Pois foi para que o desterro se converta em pátria, e a terra vos seja Céu: Ut nobis terra sit cœlum, instituit hoc Sacramentum. Não quis o finíssimo Amante que as criaturas peregrinassem tanto tempo longe de sua pátria sem provar as delícias de Sua Glória. Não quis tanta desigualdade entre viandores e compreensores, que uns reinassem Príncipes de Seu Sólio, e outros arrastassem as cadeias do Egito. A todos dá o mesmo caminho, a todos a mesma herança.
Isso fazia desfazer-se em lágrimas a um Davi, quando, em nome de todos os mortais, dizia: Dominus pars hereditatis meæ, et Calicis mei. Ah! Deus e Senhor meu! Neste Cálica já me dais minha herança e a posse de todos os vossos bens. Criando o homem, fizeste-lo Príncipe de todo o mundo; mas se vós mesmo não lhe désseis também Este Sacramento, ele com o domínio se tornaria escravo, e com as riquezas, mendigo. Agora dizei-me, atribulados e aflitos do mundo, tendes dentro de vós toda a alegria e glória dos Serafins, e suspirais? Tendes naqueles Sacrários abreviada toda a Bem-Aventurança, e estais aflitos? Crede-me, pois, que, depois que Jesus ficou Sacramentado entre vós, mudou-vos o desterro em pátria, comunicando-vos de certo modo aqueles dotes com que veste a Seus Bem-Aventurados na Glória.
E se não, dizei-me como não gozaria da mesma impassibilidade dos Bem-Aventurados uma Santa Catarina de Sena, que, por quarenta dias contínuos, não tomou outro alimento que o Pão Eucarístico do Altar? Como não participaria da agilidade daqueles felizes Cortesãos do Céu uma Maravilhosa Cristã, que depois de receber Este Augusto Sacramento, voava em um instante sobre as mais altas torres? Que direi de um Domingos, flor belíssima do Carmelo! Não tinha ainda neste mundo a sutileza de Bem-Aventurado quando, acabando de celebrar o Sacrifício da Missa, suspendeu no ar, e como um débil sopro se movia como uma pluma? Quem poderá negar a um São Felipe Neri, raro portento do Divino amor, que não resplandecesse na terra com a claridade dos Cortesãos da Glória, quando no Altar soltava de seu rosto e de todo seu corpo raios de luz inacessível?
Mas se esses são os dotes com os quais Jesus Sacramentado enriquece os corpos daqueles que O recebem, quais serão os dotes das suas Almas, donde derivam aqueles? Quem poderá explicar o estado de uma Alma que, bem disposta, acaba de receber a Sacratíssima Carne de Jesus? Então me parece ver já efetuada aquela ditosa troca e mudança que, ensina o Doutor Angélico, se faz no Império da Fé em visão; da Esperança em compreensão; e da Caridade em possessão. Porque n'Este adorável Sacramento a alma já logra e possui seu Deus, e não poucas vezes sucede que descubra algum raio de Sua Divindade. Também premia sua esperança com a perfeita posse de Si mesmo, galardoa seu amor com a participação de Seus atributos, e com os resplendores de Seu Corpo lhe paga os merecimentos de sua Fé.
Então, que dizeis, mortais, desta fineza do amor de Jesus Sacramentado? Pode Ele fazer mais do que trocar a terra em Céu por vosso amor? Imensa foi a caridade com que criou o Céu para nossa habitação; porém não veremos aquela feliz terra de promissão senão depois que, com infinitos trabalhos, caminharmos muitos anos pelos desertos deste mundo. Excessivo foi o amor que O fez dizer a uma Teresa que, se Ele não tivesse fabricado o Céu, só por ela o criaria de novo. Mas que amor se pode comparar com o que n'Este Sacramento fez da terra Céu, e do desterro, pátria? Porem não param aqui as finezas de Jesus Sacramentado...
Entre as inumeráveis infelicidades a que nós, miseráveis habitantes da terra, somos condenados neste mundo, considero que a maior este longo desterro que padecemos, daquela Celestial Pátria, para a qual somos todos criados. Porque verdadeiramente não pode haver maior infortúnio para uma criatura do que viver ausente e separada de seu Criador, e não poder fixar os olhos em seu último fim, ao Qual todas as coisas desejam unir-se perfeitamente. Mas assim é. Todos, por disposição Divina, estamos sentenciados a viver gemendo neste vale de misérias, com rigoroso preceito de não entrar em nossa pátria senão depois de uma longa e penosa peregrinação.
Porém, alegrai-vos, desterrados no mundo! Enxugai vossas lágrimas e alegrai vossos corações, pois vos asseguro que, vivendo na terra, sois também Cidadãos do Céu. Foi o imenso amor de Jesus tão fino para convosco, que Se deixou Sacramentado, para que a terra fosse para vós Céu, e o desterro, pátria. Não sou eu quem vos anuncia tão feliz nova. A grande Madre Santa Teresa é quem do Céu vem desterrar vossas penas. Ela é quem, vestida já de glória imortal, disse a um filho seu, e no-lo diz a todos: Nós, no Céu, e vós, na terra, somos uma mesma coisa. Nós servindo a Divina Essência, e vós possuindo e gozando o Santíssimo Sacramento. Ó palavras dignas de esculpir-se no coração de todos os Católicos! Depois que o amantíssimo Redentor Se nos deu no Sacramento, não existe mais diferença entre viandores e compreensores, nos ensina aquela Mestra de Celestial Sabedoria. É verdade que esses estão perpetuamente gozando daquela mesa da Divina Essência, que é e será seu alimento por toda a eternidade. Mas também nós aqui na terra comemos e nos sustentamos com Este Pão Angélico, Que é o mesmo Que os alimenta felizmente na Glória.
Aquelas admiráveis palavras de Teresa fazem eco a outras da boca de Ouro de Crisóstomo, que, encendido de amor por Este Sacramento, perguntava a seus discípulos: Sabeis a fim de que se deixou Nosso Redentor Sacramentado? Pois foi para que o desterro se converta em pátria, e a terra vos seja Céu: Ut nobis terra sit cœlum, instituit hoc Sacramentum. Não quis o finíssimo Amante que as criaturas peregrinassem tanto tempo longe de sua pátria sem provar as delícias de Sua Glória. Não quis tanta desigualdade entre viandores e compreensores, que uns reinassem Príncipes de Seu Sólio, e outros arrastassem as cadeias do Egito. A todos dá o mesmo caminho, a todos a mesma herança.
Isso fazia desfazer-se em lágrimas a um Davi, quando, em nome de todos os mortais, dizia: Dominus pars hereditatis meæ, et Calicis mei. Ah! Deus e Senhor meu! Neste Cálica já me dais minha herança e a posse de todos os vossos bens. Criando o homem, fizeste-lo Príncipe de todo o mundo; mas se vós mesmo não lhe désseis também Este Sacramento, ele com o domínio se tornaria escravo, e com as riquezas, mendigo. Agora dizei-me, atribulados e aflitos do mundo, tendes dentro de vós toda a alegria e glória dos Serafins, e suspirais? Tendes naqueles Sacrários abreviada toda a Bem-Aventurança, e estais aflitos? Crede-me, pois, que, depois que Jesus ficou Sacramentado entre vós, mudou-vos o desterro em pátria, comunicando-vos de certo modo aqueles dotes com que veste a Seus Bem-Aventurados na Glória.
E se não, dizei-me como não gozaria da mesma impassibilidade dos Bem-Aventurados uma Santa Catarina de Sena, que, por quarenta dias contínuos, não tomou outro alimento que o Pão Eucarístico do Altar? Como não participaria da agilidade daqueles felizes Cortesãos do Céu uma Maravilhosa Cristã, que depois de receber Este Augusto Sacramento, voava em um instante sobre as mais altas torres? Que direi de um Domingos, flor belíssima do Carmelo! Não tinha ainda neste mundo a sutileza de Bem-Aventurado quando, acabando de celebrar o Sacrifício da Missa, suspendeu no ar, e como um débil sopro se movia como uma pluma? Quem poderá negar a um São Felipe Neri, raro portento do Divino amor, que não resplandecesse na terra com a claridade dos Cortesãos da Glória, quando no Altar soltava de seu rosto e de todo seu corpo raios de luz inacessível?
Mas se esses são os dotes com os quais Jesus Sacramentado enriquece os corpos daqueles que O recebem, quais serão os dotes das suas Almas, donde derivam aqueles? Quem poderá explicar o estado de uma Alma que, bem disposta, acaba de receber a Sacratíssima Carne de Jesus? Então me parece ver já efetuada aquela ditosa troca e mudança que, ensina o Doutor Angélico, se faz no Império da Fé em visão; da Esperança em compreensão; e da Caridade em possessão. Porque n'Este adorável Sacramento a alma já logra e possui seu Deus, e não poucas vezes sucede que descubra algum raio de Sua Divindade. Também premia sua esperança com a perfeita posse de Si mesmo, galardoa seu amor com a participação de Seus atributos, e com os resplendores de Seu Corpo lhe paga os merecimentos de sua Fé.
Então, que dizeis, mortais, desta fineza do amor de Jesus Sacramentado? Pode Ele fazer mais do que trocar a terra em Céu por vosso amor? Imensa foi a caridade com que criou o Céu para nossa habitação; porém não veremos aquela feliz terra de promissão senão depois que, com infinitos trabalhos, caminharmos muitos anos pelos desertos deste mundo. Excessivo foi o amor que O fez dizer a uma Teresa que, se Ele não tivesse fabricado o Céu, só por ela o criaria de novo. Mas que amor se pode comparar com o que n'Este Sacramento fez da terra Céu, e do desterro, pátria? Porem não param aqui as finezas de Jesus Sacramentado...
Quinta Fineza de Jesus Sacramentado para com os homens
Jesus Se deixou Sacramentado para morrer mais vezes pelos homens.
Aquela massa da qual formou Deus o primeiro homem, diz o doutíssimo Tertuliano, que não foi tanto barro quanto empenho com o qual Se obrigou Deus a, tendo-se ele quebrado pela quela do homem, formar-lhe de novo dando por ele a vida: Limus ille non tantum limus erat, sed pignus. Porém, a meu ver, não deu Deus este presente só para a queda do primeiro homem, senão para todos os seus frágeis descendentes até o fim o mundo; e que já desde então Se empenhou a morrer não só uma vez na Cruz, senão a renovar a cada dia Sua morte sobre os Altares. E porque assim o entendeu o grande Doutor da Igreja Santo Ambrósio, nos deixou escrito que a Igreja celebra todos os dias as exéquias de nosso Redentor.
Aquela morte, que com tantos extremos de amor padeceu Jesus uma vez em um madeiro, se vê inumeráveis vezes renovada em nossos Altares. Nestes Se sacrifica de novo o Divino e inocente Cordeiro, e oferece a real vítima Seu próprio e verdadeiro Corpo. Aquele Sangue Que no Calvário saiu de Suas veias à força de tão excessivos tormentos que o sol, assombrado, se escondeu, e se desfizeram de dor as pedras, derrama Jesus sobre um Cálice, não já a golpes de açoites, senão ao pronunciar as palavras. Aqui não são já necessários agudos cravos que Lhe trespassem os pés e mãos, nem crueis lanças que Lhe atravessem o peito. Há outro instrumento mais forte, que é o Seu amor. Outros Ministros mais ativos, que são Seus Sacerdotes, sangram Suas veias sobre os Altares. A língua desses é a que abre o Costado vivo de Jesus, e quanto cabe na eficácia de suas palavras Lhe separa e derrama do Corpo Seu Sangue, tornando o Divino amante vítima misticamente morta em um Sacrifício incruento.
Isso parece que pensava o Real Profeta quando chamou copiosa e superabundante nossa Redenção, pois via que n'Este Sacramento não cessava Jesus de dar a vida em nosso resgate; e como nos tivesse já comprado, tão liberalmente a dispende que mil vezes morre por nós Sacramentado. Naquelas sagradas Aras dá Jesus cada dia tão real e verdadeiramente Seu sangue vivo e animado, que uma só gota d'Ele, oferecida ao Eterno Pai naquele Cálice, bastaria para redimir todo o gênero humano se ele, segundo os presentes decretos, não estivesse já redimido.
Mas que fineza é esta tão nova do Divino amor? Não bastava uma só morte para nosso remédio? Que digo, uma só morte? Uma lágrima, um só suspiro de Jesus sobraria para o reparo de mil mundos! Porém Ele quer que se renove a todas as horas o doloroso processo de Sua morte, estampado n'Este Sacramento com os vivos caracteres de Seu Sangue. Uma só vida de infinito valor, que ofereceu em uma Cruz por nós, não apagou os ardentes desejos de morrer por nosso amor. Ainda hoje parece que Lhe ferve o Sangue nas veias; pois ainda de Seu Corpo impassível mostra que quer correr por nosso remédio.
Apenas nasceu Jesus no mundo, logo em ponto derramou Seu Sangue pelos homens, porque, como revelou a uma Sua Serva, no mesmo instante que penetrou qual Sol o Cristal do Seio de sua Mãe, reclinando-O Ela sobre a aspereza daquelas palhas, feriram essas Sua delicadíssima carne, de sorte que, antes de provar do leite, derramou Sangue. Estes acidentes causava Seu Sangue ao Coração de Jesus, apenas nascido, e já enfermo por nosso amor, e assim abriu logo as veias para desafogo do Coração.
Mas todo Esse Sangue, e o Que derramou na Cruz, não basta ao infinito e ardente amor de Jesus. Ainda dentro daqueles Sacrários nos está dizendo: Amore langueo. Ainda padeço mortais delíquios de amor por Minhas criaturas, porquanto Me é preciso abrir as veias nos Calvários de Meus Altares. Quanto puderam lá os espinhos, os açoites, os cravos e a lança, pode agora por si Meu amor. Ele, ao pronunciar de poucas palavras da boca de Meu Ministro, faz brotas de tal modo Meu Sangue todo, que fico tantas vezes misticamente morto quantas Sacramentado.
Ó amor cruel para com Jesus, quanto piedoso para com os homens! E como eu, Sacerdote o mais indigno do mundo, permaneço ainda vivo ao pé daquele Altar, sabendo que vou sacrificar por minhas mãos a Inocente vida de Jesus? Bem endendido o tinha assim aquele Gloriosíssimo Patriarca Santo Inácio de Loyola, Fundador de sua Ilustre Companhia de Jesus, o qual, por abundância de lágrimas que derramava no Altar, esteve a perigo de perder a vista e não poder acabar a segunda Missa do Natal, porque de compaixão pensou que se lhe acabava a vida.
Mas que insensibilidade é a nossa em assistir ao funeral da morte de Jesus! Se estivesse mais viva nossa Fé, não nos seria menos insensível o Sacrifício do Altar que o da Cruz. Ah! mortais! Credes vós, verdadeiramente, o que credes? Pois se confessais que todos os dias morre de novo e se sacrifica sobre um Altar vosso Redentor, onde estão as lágrimas que correm de vossos olhos? Onde os suspiros que arrancam de vossos corações? Agora, pois. Um Deus Sacramentado e morto por vosso amor, seja o único objeto de vossa pena, já que Ele, não contente de morrer por vós em um Madeiro, vos dá todos os dias a vida e o Sangue n'Este Sacramento.
Aquela massa da qual formou Deus o primeiro homem, diz o doutíssimo Tertuliano, que não foi tanto barro quanto empenho com o qual Se obrigou Deus a, tendo-se ele quebrado pela quela do homem, formar-lhe de novo dando por ele a vida: Limus ille non tantum limus erat, sed pignus. Porém, a meu ver, não deu Deus este presente só para a queda do primeiro homem, senão para todos os seus frágeis descendentes até o fim o mundo; e que já desde então Se empenhou a morrer não só uma vez na Cruz, senão a renovar a cada dia Sua morte sobre os Altares. E porque assim o entendeu o grande Doutor da Igreja Santo Ambrósio, nos deixou escrito que a Igreja celebra todos os dias as exéquias de nosso Redentor.
Aquela morte, que com tantos extremos de amor padeceu Jesus uma vez em um madeiro, se vê inumeráveis vezes renovada em nossos Altares. Nestes Se sacrifica de novo o Divino e inocente Cordeiro, e oferece a real vítima Seu próprio e verdadeiro Corpo. Aquele Sangue Que no Calvário saiu de Suas veias à força de tão excessivos tormentos que o sol, assombrado, se escondeu, e se desfizeram de dor as pedras, derrama Jesus sobre um Cálice, não já a golpes de açoites, senão ao pronunciar as palavras. Aqui não são já necessários agudos cravos que Lhe trespassem os pés e mãos, nem crueis lanças que Lhe atravessem o peito. Há outro instrumento mais forte, que é o Seu amor. Outros Ministros mais ativos, que são Seus Sacerdotes, sangram Suas veias sobre os Altares. A língua desses é a que abre o Costado vivo de Jesus, e quanto cabe na eficácia de suas palavras Lhe separa e derrama do Corpo Seu Sangue, tornando o Divino amante vítima misticamente morta em um Sacrifício incruento.
Isso parece que pensava o Real Profeta quando chamou copiosa e superabundante nossa Redenção, pois via que n'Este Sacramento não cessava Jesus de dar a vida em nosso resgate; e como nos tivesse já comprado, tão liberalmente a dispende que mil vezes morre por nós Sacramentado. Naquelas sagradas Aras dá Jesus cada dia tão real e verdadeiramente Seu sangue vivo e animado, que uma só gota d'Ele, oferecida ao Eterno Pai naquele Cálice, bastaria para redimir todo o gênero humano se ele, segundo os presentes decretos, não estivesse já redimido.
Mas que fineza é esta tão nova do Divino amor? Não bastava uma só morte para nosso remédio? Que digo, uma só morte? Uma lágrima, um só suspiro de Jesus sobraria para o reparo de mil mundos! Porém Ele quer que se renove a todas as horas o doloroso processo de Sua morte, estampado n'Este Sacramento com os vivos caracteres de Seu Sangue. Uma só vida de infinito valor, que ofereceu em uma Cruz por nós, não apagou os ardentes desejos de morrer por nosso amor. Ainda hoje parece que Lhe ferve o Sangue nas veias; pois ainda de Seu Corpo impassível mostra que quer correr por nosso remédio.
Apenas nasceu Jesus no mundo, logo em ponto derramou Seu Sangue pelos homens, porque, como revelou a uma Sua Serva, no mesmo instante que penetrou qual Sol o Cristal do Seio de sua Mãe, reclinando-O Ela sobre a aspereza daquelas palhas, feriram essas Sua delicadíssima carne, de sorte que, antes de provar do leite, derramou Sangue. Estes acidentes causava Seu Sangue ao Coração de Jesus, apenas nascido, e já enfermo por nosso amor, e assim abriu logo as veias para desafogo do Coração.
Mas todo Esse Sangue, e o Que derramou na Cruz, não basta ao infinito e ardente amor de Jesus. Ainda dentro daqueles Sacrários nos está dizendo: Amore langueo. Ainda padeço mortais delíquios de amor por Minhas criaturas, porquanto Me é preciso abrir as veias nos Calvários de Meus Altares. Quanto puderam lá os espinhos, os açoites, os cravos e a lança, pode agora por si Meu amor. Ele, ao pronunciar de poucas palavras da boca de Meu Ministro, faz brotas de tal modo Meu Sangue todo, que fico tantas vezes misticamente morto quantas Sacramentado.
Ó amor cruel para com Jesus, quanto piedoso para com os homens! E como eu, Sacerdote o mais indigno do mundo, permaneço ainda vivo ao pé daquele Altar, sabendo que vou sacrificar por minhas mãos a Inocente vida de Jesus? Bem endendido o tinha assim aquele Gloriosíssimo Patriarca Santo Inácio de Loyola, Fundador de sua Ilustre Companhia de Jesus, o qual, por abundância de lágrimas que derramava no Altar, esteve a perigo de perder a vista e não poder acabar a segunda Missa do Natal, porque de compaixão pensou que se lhe acabava a vida.
Mas que insensibilidade é a nossa em assistir ao funeral da morte de Jesus! Se estivesse mais viva nossa Fé, não nos seria menos insensível o Sacrifício do Altar que o da Cruz. Ah! mortais! Credes vós, verdadeiramente, o que credes? Pois se confessais que todos os dias morre de novo e se sacrifica sobre um Altar vosso Redentor, onde estão as lágrimas que correm de vossos olhos? Onde os suspiros que arrancam de vossos corações? Agora, pois. Um Deus Sacramentado e morto por vosso amor, seja o único objeto de vossa pena, já que Ele, não contente de morrer por vós em um Madeiro, vos dá todos os dias a vida e o Sangue n'Este Sacramento.
17 de dezembro de 2009
Quarta Fineza de Jesus Sacramentado para com os homens
Jesus se deixou Sacramentado para renovar de algum modo Sua Encarnação
Eu não ignoro que o Verbo Divino está de tal sorte satisfeito com aquela Sacratíssima Humanidade que uma vez uniu à sua naturezza, que nunca a apartou de Si por toda a eternidade, nem se uniu a outra com hipostático vínculo. Mas quando contemplo o adorável Sacramento do Altar, me parece que não Se contentou Deus com vestir-Se uma só vez da humana carne e fazer só um desponsório com nossa natureza no puríssimo tálamo da Virgem Maria. Poquanto inventou Seu amor um maravilhoso modo de renovar Sua Encarnação, unindo-Se infinitas vezes a nossos corações nesta Divina Eucaristia, à qual chama o Doutor Angélico: Extensio incarnationis. Extensão da Encarnação.
Prodigioso foi, sem dúvida, o decreto que saiu daquele Divino Real Conselho, de que o Divino Verbo tomasse uma vez carne humana. Mas naquele Tribunal de amor se determinou que o mesmo humanado Verbo Se sacramentasse para unir-Se inúmeras vezes aos homens. A primeira Encarnação se fez em um só lugar e com uma só humanidade, de sorte que em uma só parte do mundo estava Deus-Homem. Porém, não satisfeito o amor Divino, fê-l'O unir n'Este Sacramento, e como que encarnar em tantas naturezas e em tantos lugares quantos são os homens que comungam e os Altares em que Se consagra Seu Corpo.
Não quis o amantíssimo Jesus que só Belém fosse testemunha de Seus desponsórios com nossa frágil e terrena natureza; porque de tal sorte ficou enamorado dela Seu ardente Coração, desde o primeiro ponto, que Se desposou com ela no puríssimo Seio de Maria, que logo inventou novos modos de uni-la mais vezes aos amorosos peitos de Sua Divindade. Eu pasmo quando considero como depois que Deus criou o homem e lhe infundiu uma perfeita alma intelectual, cuja admirável e espiritual substância tirou do íntimo de suas entranhas, quis destruí-lo totalmente! O homem, viva imagem de Deus, para cuja formação concorrera toda a Santíssima Trindade, com tanto zelo e cuidado que chegou a dizer Tertuliano que foi esse todo o empenho de seu engenho: Fuit divini cura ingenii, quer Deus aniquilá-lo em um ponto, arrependido de tê-lo criado?
Mas não o fez assim Deus depois de ter unido a Si esta nossa caduca humanidade; pois tão longe esteve de arrepender-Se que instituiu um Sacramento no Qual milhões de vezes Se une à nossa natureza. Quis o Divino Verbo tomar uma natureza criada para sair já daquele Paterno peito onde estava encerrado desde o princípio sem princípio de toda a Eternidade. E, sendo a natureze angélica mais perfeita e nobre que a humana, não quis ser Anjo, senão homem. E se isso é algo digno de admiração, que será ver o mesmo Rei da Glória unir-Se a cada dia a esta vil natureza, e incorporar-Se de tal sorte com ela que não hesitou o grande Padre São Cirilo em afirmar que no Sacramento do Altar nos fazemos um mesmo corpo e sangue com Jesus!
Creio verdadeiramente que todos os Angélicos Espíritos estão admirados aos pés de nossos Altares vendo os excessos de amor que usa seu Monarca com esta frágil massa humana. E que se sua natureza fosse capaz de invejar, esta só lhes atormentaria o coração, vendo que não mereceram nunca tais finezas de amor de seu Criador. Aquele Anjo que levou o pão a meu Pai Santo Elias no deserto, não diz a Escritura que lho deu, senão que, estando o Profeta dormindo, lho lançou. Sobre isso, refletindo engenhosamente Santo Hilário, diz que a causa foi que, sendo aquele pão figura do Eucarístico, quis mostrar o Anjo que invejava a felicidade de Elias, a quem o trazia para comer.
Agora, que conceitos formariam aqueles Príncipes da Glória, vendo comido na realidade este Divino Pão, e não em figura, não por só um Elias, senão por cada um dos mortais? Quantas vezes diriam uns aos outros: ó, como se renovam agora aqueles prodígios que nós vimos no Portal de Belém, quando, baixando milhares do Ceu à terra, anunciamos a paz aos homens. Então adorávamos a nosso Rei vestido de carne mortal, reclinado e chorando entre brutos, mas nos braços de nossa Divina Princesa, e acariciado pela mais amante e melhor Mãe que teve nem pode ter no mundo. E agora O vemos transformado em manjar dos homens, habitando dentro de uns pobres e imundos corações, e comido por ingratos e sujos pecadores. A nós, Cortesãos mais íntimos do Altíssimo, que por Ele ardemos em um contínuo incêndio de amor, uma só vez não se nos concedeu o Que a cada dia, espontaneamente, Se oferece à vileza humana. Ó se nos fosse possível receber também o Corpo de Jesus em nossos seráficos corações! É verdade que nossa imaterial natureza está perpetuamente engolfada naquela Divina essência, que sem interposição de outra espécie se une a nosso entendimento, para que gozemos da vista de nosso Criador. Mas, dessa nova e amorosa união Sacramental com Sua carne e com Seu sangue, não quis Ele favorecer nossa natureza. Estes admiráveis desponsórios, esta inefável Eucarística Encarnação só foi reservada aos homens. Ah! povo e raça humana, favorecida, elevada e divinizada por Deus! Ó amor infinito de Jesus, Que, não satisfeito de ter-Se encarnado uma só vez no Seio puríssimo de Maria, o fazes Sacramentalmente todos os dias, encarnando no peito de miseráveis criaturas!
Eu não ignoro que o Verbo Divino está de tal sorte satisfeito com aquela Sacratíssima Humanidade que uma vez uniu à sua naturezza, que nunca a apartou de Si por toda a eternidade, nem se uniu a outra com hipostático vínculo. Mas quando contemplo o adorável Sacramento do Altar, me parece que não Se contentou Deus com vestir-Se uma só vez da humana carne e fazer só um desponsório com nossa natureza no puríssimo tálamo da Virgem Maria. Poquanto inventou Seu amor um maravilhoso modo de renovar Sua Encarnação, unindo-Se infinitas vezes a nossos corações nesta Divina Eucaristia, à qual chama o Doutor Angélico: Extensio incarnationis. Extensão da Encarnação.
Prodigioso foi, sem dúvida, o decreto que saiu daquele Divino Real Conselho, de que o Divino Verbo tomasse uma vez carne humana. Mas naquele Tribunal de amor se determinou que o mesmo humanado Verbo Se sacramentasse para unir-Se inúmeras vezes aos homens. A primeira Encarnação se fez em um só lugar e com uma só humanidade, de sorte que em uma só parte do mundo estava Deus-Homem. Porém, não satisfeito o amor Divino, fê-l'O unir n'Este Sacramento, e como que encarnar em tantas naturezas e em tantos lugares quantos são os homens que comungam e os Altares em que Se consagra Seu Corpo.
Não quis o amantíssimo Jesus que só Belém fosse testemunha de Seus desponsórios com nossa frágil e terrena natureza; porque de tal sorte ficou enamorado dela Seu ardente Coração, desde o primeiro ponto, que Se desposou com ela no puríssimo Seio de Maria, que logo inventou novos modos de uni-la mais vezes aos amorosos peitos de Sua Divindade. Eu pasmo quando considero como depois que Deus criou o homem e lhe infundiu uma perfeita alma intelectual, cuja admirável e espiritual substância tirou do íntimo de suas entranhas, quis destruí-lo totalmente! O homem, viva imagem de Deus, para cuja formação concorrera toda a Santíssima Trindade, com tanto zelo e cuidado que chegou a dizer Tertuliano que foi esse todo o empenho de seu engenho: Fuit divini cura ingenii, quer Deus aniquilá-lo em um ponto, arrependido de tê-lo criado?
Mas não o fez assim Deus depois de ter unido a Si esta nossa caduca humanidade; pois tão longe esteve de arrepender-Se que instituiu um Sacramento no Qual milhões de vezes Se une à nossa natureza. Quis o Divino Verbo tomar uma natureza criada para sair já daquele Paterno peito onde estava encerrado desde o princípio sem princípio de toda a Eternidade. E, sendo a natureze angélica mais perfeita e nobre que a humana, não quis ser Anjo, senão homem. E se isso é algo digno de admiração, que será ver o mesmo Rei da Glória unir-Se a cada dia a esta vil natureza, e incorporar-Se de tal sorte com ela que não hesitou o grande Padre São Cirilo em afirmar que no Sacramento do Altar nos fazemos um mesmo corpo e sangue com Jesus!
Creio verdadeiramente que todos os Angélicos Espíritos estão admirados aos pés de nossos Altares vendo os excessos de amor que usa seu Monarca com esta frágil massa humana. E que se sua natureza fosse capaz de invejar, esta só lhes atormentaria o coração, vendo que não mereceram nunca tais finezas de amor de seu Criador. Aquele Anjo que levou o pão a meu Pai Santo Elias no deserto, não diz a Escritura que lho deu, senão que, estando o Profeta dormindo, lho lançou. Sobre isso, refletindo engenhosamente Santo Hilário, diz que a causa foi que, sendo aquele pão figura do Eucarístico, quis mostrar o Anjo que invejava a felicidade de Elias, a quem o trazia para comer.
Agora, que conceitos formariam aqueles Príncipes da Glória, vendo comido na realidade este Divino Pão, e não em figura, não por só um Elias, senão por cada um dos mortais? Quantas vezes diriam uns aos outros: ó, como se renovam agora aqueles prodígios que nós vimos no Portal de Belém, quando, baixando milhares do Ceu à terra, anunciamos a paz aos homens. Então adorávamos a nosso Rei vestido de carne mortal, reclinado e chorando entre brutos, mas nos braços de nossa Divina Princesa, e acariciado pela mais amante e melhor Mãe que teve nem pode ter no mundo. E agora O vemos transformado em manjar dos homens, habitando dentro de uns pobres e imundos corações, e comido por ingratos e sujos pecadores. A nós, Cortesãos mais íntimos do Altíssimo, que por Ele ardemos em um contínuo incêndio de amor, uma só vez não se nos concedeu o Que a cada dia, espontaneamente, Se oferece à vileza humana. Ó se nos fosse possível receber também o Corpo de Jesus em nossos seráficos corações! É verdade que nossa imaterial natureza está perpetuamente engolfada naquela Divina essência, que sem interposição de outra espécie se une a nosso entendimento, para que gozemos da vista de nosso Criador. Mas, dessa nova e amorosa união Sacramental com Sua carne e com Seu sangue, não quis Ele favorecer nossa natureza. Estes admiráveis desponsórios, esta inefável Eucarística Encarnação só foi reservada aos homens. Ah! povo e raça humana, favorecida, elevada e divinizada por Deus! Ó amor infinito de Jesus, Que, não satisfeito de ter-Se encarnado uma só vez no Seio puríssimo de Maria, o fazes Sacramentalmente todos os dias, encarnando no peito de miseráveis criaturas!
16 de dezembro de 2009
Terceira Fineza de Jesus Sacramentado para com os homens
Jesus se deixou Sacramentado prevendo os agravos que se haviam de fazer a Seu Corpo.
Língua de Querubim não basta para explicar quão grande seja esta fineza de Jesus Sacramentado. Porque se foi ardentíssima a caridade que obrigou São Paulo a dizer que ia a Jerusalém pregar o Evanelho tendo evidência de que o esperavam os grilhões, as prisões, os cárceres e os trabalhos: qual será o amor que obrigou, não um Apóstolo, senão a um Deus, a deixar na terra seu Corpo, sabendo as inumeráveis afrontas que n'Este adorável Sacramento havia de padecer.
Previu o finíssimo Amante as muitas ofensas, os desacatos execráveis que Lhe haviam de fazer nestes Altares; porém nada O deteve de entregar-Se nas mãos de tão ingratas criaturas. Conheceu que uns Lhe perderiam o respeito nos Templos com as imodéstias, e outros, aos pés de Seus mesmos Santuários, ferir-Lhe-iam o coração com irreverências. Viu que não faltaria quem atravessasse Seu coração com punhais, quem O precipitasse dos mais altos despenhadeiros, e O pisassem com seus pés. Porém nada entibiou Seu amor para apartar-Se da companhia dos homens. São Paulo dizia que não temia os trabalhos, nem ir entregar-se a seus inimigos, porque estava atado a seu espírito e só punha os olhos em acabar a carreira de seu Apostolado. Como, pois, recearia Jesus ficar no Sacramento exposto aos tormentos, se Ele por essência é o próprio amor, que é Seu Espírito?
Mas, permiti-me Vós, ó Divino Redentor, que Vos faza aqui uma pergunta. Vosso Apóstolo não concluíra ainda o caminho de seu ministério, porém Vós não tínheis já terminado felizmente a passo de gigante o curso de vosso amor? Não disséreis na Cruz que tudo estava consumado por meio da morte mais cruel e afrontosa, porquanto podia já descansar Vosso amor? Para que, pois, querer ainda passar por isso no Sacramento? Mas ah! quão bem definiu o amor aquele que disse que é um círculo dentro de outro círculo, que continuamente gira. Amor est circulus circa circulum perpetuo revolutus. E quem não vê que o amor de Jesus está sempre em um contínuo movimento? Do Ceu correu ao Presépio, do Presépio ao Calvário, do Calvário ao Altar, e no Altar ainda corre e ainda padece.
Por essa causa protestou o amante Redentor, Que morria com sede de maiores penas. Essa sede em que Ele na Cruz ardia não era outra que de padecer mais pelos homens, pois tinha tanta água no peito que, ao primeiro golpe de uma lança, emanou em grande abundância. Porém essa água causava mais sede no Coração de Jesus, pois como dela e de Seu Sangue se havia de formar Este Sacramento, faziam-n'O mais sedento os tormentos e os agravos que n'Ele havia de padecer.
Depois que Deus criou o homem, descansou; mas depois que o redimiu e passou por ele tantas penas, não repousa. Na Cruz tem fim os tormentos; porém continuam ainda nos Altares. Provou o Redentor as delícias de padecer por nós; e porque depois de morto tornava-se impassível a Sua carne, fica para padecer, mas Sacramentado. Insaciável foi o amor de Jesus em fazer-Lhe penar pelos homens, pois, não satisfeito em vê-l'O Rei dos Mártires no Calvário, martiriza-O ainda no Sacramento, e, escondido debaixo daqueles acidentes, expõe-n'O a uma crueldade.
Mas como não se desfaz de dor nosso coração, considerando as ofensas que faz o mundo ao mais Augusto Mistério de nossa Fé? O pérfido judeo O blasfema, o herege incrédulo O nega, o católico imodesto não O respeita, o Sacerdote irreverente O despreza. Todos esses e muitos mais agravos previu o finíssimo Amante, que as criaturas ingratas haviam de fazer a Seu Corpo Sacramentado. E, não obstante, entregou-O livremente, e com Ele todos os tesouros de Sua Divindade.
Assim é, Almas Católicas. N'Este Pão Angélico vos deu Jesus todo o criado e o incriado. Não pode mais Sua Onipotência, não soube mais Sua Sabedoria, não tiveram mais Seus Tesouros. N'Ele vos deu a fecundidade d'Aquele Eterno Pai Que não tem Pai; Que gera e não é gerado; Que é princípio sem ter origem. N'Ele vos deu Aquele Divino Verbo, por Cuja virtude são feitas todas as coisas, e Ele não é feito por nenhuma, e só no entendimento Paterno é produzida imagem viva e natural de Sua substância. N'Ele vos deu o amoroso Espírito, Que procede do Pai e do mesmo Verbo, e com ambos se identifica perfeitissimamente na mesma natureza. Tudo vo-lo deu Jesus neste Divino Pão, porque n'Ele Se deu a Si mesmo. O dar, diz Tertuliano, é a vida de Deus; porém o dar-se, que entendimento pode haver que o compreenda? Nos outros benefícios que Deus faz ao homem, depois que o criou, sempre lhe deu, mas n'Este inefável Sacramento chegou a dar-Se a Si; deu-Se-lhe como Deus e deu-Se-lhe como homem. Esse foi o maior de todos os dons que podia excogitar Seu amor: dar-Se a Si mesmo, e dar-Se para ser ofendido e ultrajado, ainda quando mais liberal e mais amante se mostra.
A respeito do livro do qual são tirados estes textos diz Santo Antônio Maria Claret em sua Autobiografia: Além do bom exemplo que em tudo me dava meu querido pai, que era devotíssimo do Santíssimo Sacramento, tive a sorte de que viesse parar em minhas mãos um livro com o título Finezas de Jesus Sacramentado. Como gostei dele! Aprendia-o de memória, tamanha a afeição por ele. (Cap. VI, § 37)
Língua de Querubim não basta para explicar quão grande seja esta fineza de Jesus Sacramentado. Porque se foi ardentíssima a caridade que obrigou São Paulo a dizer que ia a Jerusalém pregar o Evanelho tendo evidência de que o esperavam os grilhões, as prisões, os cárceres e os trabalhos: qual será o amor que obrigou, não um Apóstolo, senão a um Deus, a deixar na terra seu Corpo, sabendo as inumeráveis afrontas que n'Este adorável Sacramento havia de padecer.
Previu o finíssimo Amante as muitas ofensas, os desacatos execráveis que Lhe haviam de fazer nestes Altares; porém nada O deteve de entregar-Se nas mãos de tão ingratas criaturas. Conheceu que uns Lhe perderiam o respeito nos Templos com as imodéstias, e outros, aos pés de Seus mesmos Santuários, ferir-Lhe-iam o coração com irreverências. Viu que não faltaria quem atravessasse Seu coração com punhais, quem O precipitasse dos mais altos despenhadeiros, e O pisassem com seus pés. Porém nada entibiou Seu amor para apartar-Se da companhia dos homens. São Paulo dizia que não temia os trabalhos, nem ir entregar-se a seus inimigos, porque estava atado a seu espírito e só punha os olhos em acabar a carreira de seu Apostolado. Como, pois, recearia Jesus ficar no Sacramento exposto aos tormentos, se Ele por essência é o próprio amor, que é Seu Espírito?
Mas, permiti-me Vós, ó Divino Redentor, que Vos faza aqui uma pergunta. Vosso Apóstolo não concluíra ainda o caminho de seu ministério, porém Vós não tínheis já terminado felizmente a passo de gigante o curso de vosso amor? Não disséreis na Cruz que tudo estava consumado por meio da morte mais cruel e afrontosa, porquanto podia já descansar Vosso amor? Para que, pois, querer ainda passar por isso no Sacramento? Mas ah! quão bem definiu o amor aquele que disse que é um círculo dentro de outro círculo, que continuamente gira. Amor est circulus circa circulum perpetuo revolutus. E quem não vê que o amor de Jesus está sempre em um contínuo movimento? Do Ceu correu ao Presépio, do Presépio ao Calvário, do Calvário ao Altar, e no Altar ainda corre e ainda padece.
Por essa causa protestou o amante Redentor, Que morria com sede de maiores penas. Essa sede em que Ele na Cruz ardia não era outra que de padecer mais pelos homens, pois tinha tanta água no peito que, ao primeiro golpe de uma lança, emanou em grande abundância. Porém essa água causava mais sede no Coração de Jesus, pois como dela e de Seu Sangue se havia de formar Este Sacramento, faziam-n'O mais sedento os tormentos e os agravos que n'Ele havia de padecer.
Depois que Deus criou o homem, descansou; mas depois que o redimiu e passou por ele tantas penas, não repousa. Na Cruz tem fim os tormentos; porém continuam ainda nos Altares. Provou o Redentor as delícias de padecer por nós; e porque depois de morto tornava-se impassível a Sua carne, fica para padecer, mas Sacramentado. Insaciável foi o amor de Jesus em fazer-Lhe penar pelos homens, pois, não satisfeito em vê-l'O Rei dos Mártires no Calvário, martiriza-O ainda no Sacramento, e, escondido debaixo daqueles acidentes, expõe-n'O a uma crueldade.
Mas como não se desfaz de dor nosso coração, considerando as ofensas que faz o mundo ao mais Augusto Mistério de nossa Fé? O pérfido judeo O blasfema, o herege incrédulo O nega, o católico imodesto não O respeita, o Sacerdote irreverente O despreza. Todos esses e muitos mais agravos previu o finíssimo Amante, que as criaturas ingratas haviam de fazer a Seu Corpo Sacramentado. E, não obstante, entregou-O livremente, e com Ele todos os tesouros de Sua Divindade.
Assim é, Almas Católicas. N'Este Pão Angélico vos deu Jesus todo o criado e o incriado. Não pode mais Sua Onipotência, não soube mais Sua Sabedoria, não tiveram mais Seus Tesouros. N'Ele vos deu a fecundidade d'Aquele Eterno Pai Que não tem Pai; Que gera e não é gerado; Que é princípio sem ter origem. N'Ele vos deu Aquele Divino Verbo, por Cuja virtude são feitas todas as coisas, e Ele não é feito por nenhuma, e só no entendimento Paterno é produzida imagem viva e natural de Sua substância. N'Ele vos deu o amoroso Espírito, Que procede do Pai e do mesmo Verbo, e com ambos se identifica perfeitissimamente na mesma natureza. Tudo vo-lo deu Jesus neste Divino Pão, porque n'Ele Se deu a Si mesmo. O dar, diz Tertuliano, é a vida de Deus; porém o dar-se, que entendimento pode haver que o compreenda? Nos outros benefícios que Deus faz ao homem, depois que o criou, sempre lhe deu, mas n'Este inefável Sacramento chegou a dar-Se a Si; deu-Se-lhe como Deus e deu-Se-lhe como homem. Esse foi o maior de todos os dons que podia excogitar Seu amor: dar-Se a Si mesmo, e dar-Se para ser ofendido e ultrajado, ainda quando mais liberal e mais amante se mostra.
A respeito do livro do qual são tirados estes textos diz Santo Antônio Maria Claret em sua Autobiografia: Além do bom exemplo que em tudo me dava meu querido pai, que era devotíssimo do Santíssimo Sacramento, tive a sorte de que viesse parar em minhas mãos um livro com o título Finezas de Jesus Sacramentado. Como gostei dele! Aprendia-o de memória, tamanha a afeição por ele. (Cap. VI, § 37)
15 de dezembro de 2009
Segunda Fineza de Jesus Sacramentado para com os homens
Jesus Se deixou Sacramentado quando quis ausentar-Se dos homens.
Admiráve e engenhoso descubro nesta Fineza o ardentíssimo amor d eJesus. Sabia Sua Majestade serem já breves os últimos períodos de Sua vida entre os homens, pois era necessário subir ao trono de Seu Eterno Pai, para desarmar a Divina Justiça quando ela empunhasse a espada contra os pecadores. Porém, Seu amor fazendo ao Seu coração uma sua violência, ao apartar-Se de Suas criatoras, encontrou um modo maravilhoso de partir sem Se ausentar. Instituiu este inefável Sacramento, no Qual, convertendo a substância do pão na de seu próprio Corpo vivo e animado, deixou realmente no mundo, debaixo de uns poucos acidentes, o mesmo que em uma nuvem voou ao Empíreo*. Antes quiz mostrar-nos serem tão grandes Suas delícias em viver entre nós, que por uma só ausência que fez ao ceu, fez-Se presente milhões de vezes aqui na terra. É verdade que uma nuvem O escondeu de nossos olhos no Monte Olivete, mas Seu amor designou que Se deixaria exposto nos Altares à nossa vista. Partiu-Se o Divino amante, sem Se ausentar, e, para assegurar-nos de Sua companhia, deu-nos o precioso dom de Si mesmo, deixando-nos empenhado Seu Corpo e Sangue.
Não obstante quisera eu me dissessem que coisa fez no mundo que assim enlaçou e uniu às criaturas o Coração de Jesus! Porque eu não sei mais que o que me diz o Evangelista: que o mundo não O conheceu, e que os Seus não O receberam. Não achou Ele na terra, da qual não soube ausentar-Se, mais que injúrias atrocíssimas e horríveis ingratidões, ferido com açoites, desprezado com opróbrios, um estábulo para nascer, e para morrer uma Cruz. Apenas encontrou um Pedro, que, tendo-O negado três vezes, só uma O confessou. Teve apenas uma Madalena, que, tendo-O ofendido muito, O soube amar.
Porém isso mesmo é o que rendeu o Coração de Jesus, para não poder apartar-Se do coração dos homens. Depois que Sansão deu a entender seu mais fino amor a Dalila, revelando-lhe o maior segredo em que constituía sua vida, diz o Sagrado Texto que ela logo fazia esforço para apartá-lo de si com aversão, porque era tando o amor em que se abrasava Sansão para com Dalila, que nada o podia separar. Assim fez o mundo com Jesus. Ele o prende com fortes laços de amor, e o mundo o arroja de si com desumanos tratamentos. Mas então se abrasa mais estreitamente com ele o Divino Sansão, e, forjando daqueles acidentes uma cadeia seu amor, quedou-Se para sempre inseparável dos homens no Sacramento.
Aquele Anjo, que, só pelo espaço de uma noite, se estreitou em abraços com Jacó, procurava logo apartar-se dele. "Deixa-me ir-me embora, Jacó", lhe dizia, porque já nasce a aurora, e não convém a um Anjo deter-se mais de uma noite entre os braços de um homem. Mas, ó prodígio do amor divino! O que não é conveniente a um Anjo será conveniente a um Deus? Tanto há podido o amor de Jesus. Poucos instantes pareceram ao Rei dos Anjos os tantos anos que Ele vivera entre os braços e companhia dos homens; e se esses O arrojam de si e O despedem, se nem O conhecem nem O recebem, Ele, para não os deixar, sujeita-se a encerrar-se dentro de um Sacrário, em um rincão de uma Igreja. Mais ainda. Como em prisão, sob uma chave.
Ah! mortais! Se isso não vos faz abrasar em amor para com vosso Deus Sacramentado, asseguro-vos de que tendes entranhas de pederneira e corações de bronze. O Deus de Majestade é vosso prisioneiro, uma chave O guarda no Sacrário. Que maravilhas tão novas são estas que veem nossos olhos? No presépio o amor se faz homem, sendo Deus. No Altar O aprisiona, sendo Monarca. Ó, amor tirano, amor cruel!, exclama aqui Santo Agostinho, por que abates a Majestade? Por que condenas a Inocência?
Assim é, Almas Católicas, o amor condenou Jesus Sacramentado à prisão perpétua. Vede-O aí como preso debaixo dos acidentes de um pouco de pão, dentro de um pobre Sacrário, e entregue a uma vil criatura que, a seu arbítrio e vontade, já o abre, já o cerra. Aqui seguro O mantemos, e dentro daquela custódia nos está sempre dizendo aquelas doces palavras: Ecce vobiscum sum usque ad consummationem sæculi. Aqui estou convosco até o fim do mundo. É verdade que vivo e reino no ceu, onde tenho Meu trono sobre as asas dos mais altos Serafins. Mas Eu sou realmente o mesmo Que aqui tendes na terra, porque embora deveras tenha-Me ausentado, nunca pude separar-Me de vós, e me entreguei em vossas mãos, oculto neste Sacramento. Já não ouvirão aqui as Almas que Me buscarem o que disseram os Anjos àquela amante, quando ansiosa me buscava no Sepulcro: Non est hic. Já Se foi teu Amado, porque os que guardavam Seu Corpo não souberam velar. Mas como nestes altares está sempre de sentinela Meu amor, não posso nem quero, não tenho coração para ausentar-Me.
Essa é, sem dúvida, a causa por que a Seráfica Virgem, Santa Teresa, se maravilhava quando ouvia dizer: Ó ditoso de mim se me achasse naqueles tempos em que Jesus conversava e vivia no mundo! Essa é uma nescidade, dizia minha grande Madre, pois neste Sacramento, cifra do Divino amor, temos o mesmo Jesus, Que como Criança derramava tenras lágrimas num presépio; o mesmo Que quando homem suava, e pregava pelas praças, e caminhava a pé enxuto pelos mares; o mesmo Que, derramando sangue, pendia duma Cruz no Calvário; e, finalmente, o mesmo Que ressuscitou glorioso de um Sepulcro. Para que, pois, suspirar ou desejar outros tempos para ver e gozar da presença de Jesus?
Antes são agora mais felizes nossos tempos, porque então bem podíamos ver e ouvir em carne mortal o Redentor, mas não metê-l'O em nossos corações e em nossas entranhas. Então a uma só Madalena, que ardia em amor por Ele, consentiu que Lhe lavasse os pés com suas lágrimas, beijasse-os e enxugasse com seus cabelos, e dali a pouco tempo lhe ordenou não O tocasse. Então a um só Discípulo, e esse o mais valido, permitiu reclinar-se sobre Seu peito. Mas, neste amoroso Sacramento, não só consente que Lhe beijemos os pés, mas também a boca. Não só permite que folguemos sobre Seu peito, mas oferece a todos que descansemos dentro do mesmo peito, ou que Ele descanse dentro do peito de todos; porque como diz discretamente São Jerônimo, neste dulcíssimo Sacramento, nós comemos a Jesus, e Jesus nos come a nós: Jesus entra em nossos corações, e nós entramos no coração de Jesus.
Vede, pois, se tendes alguma razão de desejar aqueles tempos em que Este Verbo humanado vivia e conversava no mundo. Não me digais que sobre aqueles Altares não vedes outra coisa que uns poucos acidentes de pão, e que se esconte à vossa vista a formosura de Jesus. Porque eu vos peço e suplico que aviveis aquela Fé que recebestes nos peitos da Igreja Católica vossa Madre, que com o primeiro leite de seus infalíveis docuentos vos instilou, que neste admirável Sacramento está o Corpo e Alma de Jesus com todas Suas perfeições e excelências.
Levantai, pois, com a consideração o sutilíssimo veu daqueles acidentes que cobrem o Corpo de Jesus, e vereis aquele mesmo rosto que na Glória desejam ver os Serafins. Vereis aqueles mesmos olhos, dos quais uma só vista bastava para serenar os mais afligidos corações. Vereis aquela mesma boca, que tem palavras de vida eterna e é a Fonte de todas as delícias do Paraíso. Ali estão aquelas mesmas mãos, artífices de tantas maravilhas, e aqueles mesmos pés, que na terra deram tantos passos por vosso amor. Finalmente, neste adorável Sacramento está todo o Divino Verbo humanado, Que saiu do delicioso peito de Seu Eterno Pai para redimir e glorificar todos os mortais.
Não julgueis que as partes do belíssimo Corpo de Jesus estão confusas e sem proporção no breve círculo d'Aquela Hóstia, porque, vos asseguro, acham-se ali todas com a mais admirãvel simetria que soube inventar Seu amor. Nem a cabeça está no lugar dos pés, nem esses no lugar das mãos, senão disposto tudo de tal maneira que estão submersos à sua vista os Serafins, num pélago de maravilhas. Ali pôs sua infinita sabedoria por um modo indivisível. Ali, retendo em ordem a Si mesmo toda a própria extensão, sem dependência de lugares, está todo em toda a Hóstia, e todo em qualquer parte d'Ela, e se acha Seu Sacratíssimo Corpo inteiro e admiravelmente quantitativo. Tanto pode com Ele Seu amor, que deste imcompreensível e maravilhoso modo se deixou no Sacramento, antes que Se ausentasse para o Ceu.
* Mais alto dos ceus, lugar da presença física de Deus, e onde residem os anjos e santos acolhidos no Paraíso. (N. do T.)
Admiráve e engenhoso descubro nesta Fineza o ardentíssimo amor d eJesus. Sabia Sua Majestade serem já breves os últimos períodos de Sua vida entre os homens, pois era necessário subir ao trono de Seu Eterno Pai, para desarmar a Divina Justiça quando ela empunhasse a espada contra os pecadores. Porém, Seu amor fazendo ao Seu coração uma sua violência, ao apartar-Se de Suas criatoras, encontrou um modo maravilhoso de partir sem Se ausentar. Instituiu este inefável Sacramento, no Qual, convertendo a substância do pão na de seu próprio Corpo vivo e animado, deixou realmente no mundo, debaixo de uns poucos acidentes, o mesmo que em uma nuvem voou ao Empíreo*. Antes quiz mostrar-nos serem tão grandes Suas delícias em viver entre nós, que por uma só ausência que fez ao ceu, fez-Se presente milhões de vezes aqui na terra. É verdade que uma nuvem O escondeu de nossos olhos no Monte Olivete, mas Seu amor designou que Se deixaria exposto nos Altares à nossa vista. Partiu-Se o Divino amante, sem Se ausentar, e, para assegurar-nos de Sua companhia, deu-nos o precioso dom de Si mesmo, deixando-nos empenhado Seu Corpo e Sangue.
Não obstante quisera eu me dissessem que coisa fez no mundo que assim enlaçou e uniu às criaturas o Coração de Jesus! Porque eu não sei mais que o que me diz o Evangelista: que o mundo não O conheceu, e que os Seus não O receberam. Não achou Ele na terra, da qual não soube ausentar-Se, mais que injúrias atrocíssimas e horríveis ingratidões, ferido com açoites, desprezado com opróbrios, um estábulo para nascer, e para morrer uma Cruz. Apenas encontrou um Pedro, que, tendo-O negado três vezes, só uma O confessou. Teve apenas uma Madalena, que, tendo-O ofendido muito, O soube amar.
Porém isso mesmo é o que rendeu o Coração de Jesus, para não poder apartar-Se do coração dos homens. Depois que Sansão deu a entender seu mais fino amor a Dalila, revelando-lhe o maior segredo em que constituía sua vida, diz o Sagrado Texto que ela logo fazia esforço para apartá-lo de si com aversão, porque era tando o amor em que se abrasava Sansão para com Dalila, que nada o podia separar. Assim fez o mundo com Jesus. Ele o prende com fortes laços de amor, e o mundo o arroja de si com desumanos tratamentos. Mas então se abrasa mais estreitamente com ele o Divino Sansão, e, forjando daqueles acidentes uma cadeia seu amor, quedou-Se para sempre inseparável dos homens no Sacramento.
Aquele Anjo, que, só pelo espaço de uma noite, se estreitou em abraços com Jacó, procurava logo apartar-se dele. "Deixa-me ir-me embora, Jacó", lhe dizia, porque já nasce a aurora, e não convém a um Anjo deter-se mais de uma noite entre os braços de um homem. Mas, ó prodígio do amor divino! O que não é conveniente a um Anjo será conveniente a um Deus? Tanto há podido o amor de Jesus. Poucos instantes pareceram ao Rei dos Anjos os tantos anos que Ele vivera entre os braços e companhia dos homens; e se esses O arrojam de si e O despedem, se nem O conhecem nem O recebem, Ele, para não os deixar, sujeita-se a encerrar-se dentro de um Sacrário, em um rincão de uma Igreja. Mais ainda. Como em prisão, sob uma chave.
Ah! mortais! Se isso não vos faz abrasar em amor para com vosso Deus Sacramentado, asseguro-vos de que tendes entranhas de pederneira e corações de bronze. O Deus de Majestade é vosso prisioneiro, uma chave O guarda no Sacrário. Que maravilhas tão novas são estas que veem nossos olhos? No presépio o amor se faz homem, sendo Deus. No Altar O aprisiona, sendo Monarca. Ó, amor tirano, amor cruel!, exclama aqui Santo Agostinho, por que abates a Majestade? Por que condenas a Inocência?
Assim é, Almas Católicas, o amor condenou Jesus Sacramentado à prisão perpétua. Vede-O aí como preso debaixo dos acidentes de um pouco de pão, dentro de um pobre Sacrário, e entregue a uma vil criatura que, a seu arbítrio e vontade, já o abre, já o cerra. Aqui seguro O mantemos, e dentro daquela custódia nos está sempre dizendo aquelas doces palavras: Ecce vobiscum sum usque ad consummationem sæculi. Aqui estou convosco até o fim do mundo. É verdade que vivo e reino no ceu, onde tenho Meu trono sobre as asas dos mais altos Serafins. Mas Eu sou realmente o mesmo Que aqui tendes na terra, porque embora deveras tenha-Me ausentado, nunca pude separar-Me de vós, e me entreguei em vossas mãos, oculto neste Sacramento. Já não ouvirão aqui as Almas que Me buscarem o que disseram os Anjos àquela amante, quando ansiosa me buscava no Sepulcro: Non est hic. Já Se foi teu Amado, porque os que guardavam Seu Corpo não souberam velar. Mas como nestes altares está sempre de sentinela Meu amor, não posso nem quero, não tenho coração para ausentar-Me.
Essa é, sem dúvida, a causa por que a Seráfica Virgem, Santa Teresa, se maravilhava quando ouvia dizer: Ó ditoso de mim se me achasse naqueles tempos em que Jesus conversava e vivia no mundo! Essa é uma nescidade, dizia minha grande Madre, pois neste Sacramento, cifra do Divino amor, temos o mesmo Jesus, Que como Criança derramava tenras lágrimas num presépio; o mesmo Que quando homem suava, e pregava pelas praças, e caminhava a pé enxuto pelos mares; o mesmo Que, derramando sangue, pendia duma Cruz no Calvário; e, finalmente, o mesmo Que ressuscitou glorioso de um Sepulcro. Para que, pois, suspirar ou desejar outros tempos para ver e gozar da presença de Jesus?
Antes são agora mais felizes nossos tempos, porque então bem podíamos ver e ouvir em carne mortal o Redentor, mas não metê-l'O em nossos corações e em nossas entranhas. Então a uma só Madalena, que ardia em amor por Ele, consentiu que Lhe lavasse os pés com suas lágrimas, beijasse-os e enxugasse com seus cabelos, e dali a pouco tempo lhe ordenou não O tocasse. Então a um só Discípulo, e esse o mais valido, permitiu reclinar-se sobre Seu peito. Mas, neste amoroso Sacramento, não só consente que Lhe beijemos os pés, mas também a boca. Não só permite que folguemos sobre Seu peito, mas oferece a todos que descansemos dentro do mesmo peito, ou que Ele descanse dentro do peito de todos; porque como diz discretamente São Jerônimo, neste dulcíssimo Sacramento, nós comemos a Jesus, e Jesus nos come a nós: Jesus entra em nossos corações, e nós entramos no coração de Jesus.
Vede, pois, se tendes alguma razão de desejar aqueles tempos em que Este Verbo humanado vivia e conversava no mundo. Não me digais que sobre aqueles Altares não vedes outra coisa que uns poucos acidentes de pão, e que se esconte à vossa vista a formosura de Jesus. Porque eu vos peço e suplico que aviveis aquela Fé que recebestes nos peitos da Igreja Católica vossa Madre, que com o primeiro leite de seus infalíveis docuentos vos instilou, que neste admirável Sacramento está o Corpo e Alma de Jesus com todas Suas perfeições e excelências.
Levantai, pois, com a consideração o sutilíssimo veu daqueles acidentes que cobrem o Corpo de Jesus, e vereis aquele mesmo rosto que na Glória desejam ver os Serafins. Vereis aqueles mesmos olhos, dos quais uma só vista bastava para serenar os mais afligidos corações. Vereis aquela mesma boca, que tem palavras de vida eterna e é a Fonte de todas as delícias do Paraíso. Ali estão aquelas mesmas mãos, artífices de tantas maravilhas, e aqueles mesmos pés, que na terra deram tantos passos por vosso amor. Finalmente, neste adorável Sacramento está todo o Divino Verbo humanado, Que saiu do delicioso peito de Seu Eterno Pai para redimir e glorificar todos os mortais.
Não julgueis que as partes do belíssimo Corpo de Jesus estão confusas e sem proporção no breve círculo d'Aquela Hóstia, porque, vos asseguro, acham-se ali todas com a mais admirãvel simetria que soube inventar Seu amor. Nem a cabeça está no lugar dos pés, nem esses no lugar das mãos, senão disposto tudo de tal maneira que estão submersos à sua vista os Serafins, num pélago de maravilhas. Ali pôs sua infinita sabedoria por um modo indivisível. Ali, retendo em ordem a Si mesmo toda a própria extensão, sem dependência de lugares, está todo em toda a Hóstia, e todo em qualquer parte d'Ela, e se acha Seu Sacratíssimo Corpo inteiro e admiravelmente quantitativo. Tanto pode com Ele Seu amor, que deste imcompreensível e maravilhoso modo se deixou no Sacramento, antes que Se ausentasse para o Ceu.
* Mais alto dos ceus, lugar da presença física de Deus, e onde residem os anjos e santos acolhidos no Paraíso. (N. do T.)
14 de dezembro de 2009
Primeira Fineza de Jesus Sacramentado para com os homens
Jesus deixou-Se Sacramentado no tempo em que os homens mais O ofendiam
Quando considero as ações de Jesus, amantíssimo Redentor nosso, não posso, de modo algum, determinar qual, dentre todas, seja a mais fina e amorosa para com os homens, porque todas igualmente dão a conhecer um amor imenso e infinito. Porém, como o Discípulo mais amado e Secretário do mesmo amor deixou-nos escrito que tendo Jesus amado os Seus, ao fim de sua vida os amou mais: In finem dilexit, hoc est, majora in posterius reservat, como comenta o Doutor Angélico, assim parece que podemos dizer que naquela misteriosa Ceia, em que nos deu Sacramentada Sua carne, excedeu-Se a Si mesmo Seu amor, foi um amor sem semelhante, um amor sem fim: In finem dilexit. É certo que o coração de Cristo foi sempre ferido do amor de suas criaturas. Esse amor O obrigou a baixar do Seio delicioso de Seu Eterno Pai para desposar-Se com a humana natureza; obrigou-O a nascer em um Presépio entre brutos desprezíveis, sendo Que tinha Seu Trono sobre o mais elevado dos Serafins. Finalmente, esse amor O aniquilou, sendo Onipotente; fê-l'O mortal, sendo Eterno, e O fez mendigo trinta e três anos no mundo, cheio de injúrias e de trabalhos. Mas quando, ao despedir-Se dos homens esse Senhor, deixa-lhes por comida Seu Corpo e por bebida Seu Sangue, quem não vê que foi essa a fineza mais excelente de Seu amor, na qual sobressaem os mais subidos quilates de Sua caridade?
Deste amor, pois, ó Almas Católicas, tomo eu aqui o assunto para discorrer, e com palavras toscas mostrar-vos as excessivas finezas que Jesus obrou em deixar-vos o inefável Sacramento do Altar, para que, à vista delas, sobressaiam mais as ingratidões com que o mundo corresponde a Seu Rei Sacramentado.
A primeira fineza que reparo é o tempo em que Jesus nos deixou Sacramentada Sua Carne. Tinha vivido trinta e três anos entre os homens, e só quando a malícia desses mesmos homens havia chegado ao maior excesso que se poderia imaginar de uma criatura, a saber, maquinar a morte ao Seu Criador, então fez alarde Seu amor de dar-lhes a comer, em acidentes de pão, Aquele mesmo Corpo Que eles determinavam fixar numa Cruz. Entendeu Esse finíssimo Amante que o maior benefício só se devia fazer no tempo da mais abominável ofensa. Quando os homens conspiravam contra Sua vida, quando o próprio Discípulo tratava de vendê-l'O a Seus inimigos, então é que Ele lhes dá a comer de Sua Carne e a beber de Seu Sangue. Os grandes incêndios crescem mais com as contínuas chuvas. Era o Coração de Jesus um forno ardente de amor; porém com o aguaceiro de tantos agravos aumentou de modo que O sacrificou sobre um Altar em vivas chamas de caridade. Obrou Jesus com os homens o que faz o sol com a terra, pois os mesmos vapores com que essa obscurece sua luz, converte-os o sol em benéficas águas, que regam e fertilizam seus campos. Anelava o Amante Redentor instituir este Sacramento para desafogo do amor em que ardia, lá quando naquele princípio sem princípio da eternidade Se recreava no peito de Seu Eterno Pai. Veio ao mundo, viveu e conversou conosco muitos anos, sem querer satisfazer a Seu amor com a maior fineza, até que o viu mais ultrajado e mais mal-correspondido.
Ah mortais! Assim age conosco um Deus amante. De nossas mesmas ingratidões faz escada Seu amor, pela qual sobe ao mais alto cume da maior bênção. Esperou o amoroso Jesus que a malícia humana chegasse ao maior excesso para executar o favor mais vantajoso. Já os homens O haviam buscado para tirar-Lhe a vida, já O haviam desterrado e obrigado a viver em terras alheias, já O haviam querido apedrejar desumanamente. Mas todos esses agravos não bastam, hão de aumentar mais as ofensas, e, quando as injúrias chegaram ao último, então saiu a campo o Amor, e deu de si a maior prova, que jamais pudesse ou soubesse inventar.
Ó quão diferentes daqueles, provados nos passados séculos, então foram, os efeitos que causou o amor no Coração de Jesus! Naquele tempo, quando os pecados dos homens inundavam toda a terra, provocaram a Justiça Divina a submertir em um dilúvio todo o universo. Porém agora que as culpas dos mesmos homens excedem muito às passadas, não só não os destroi com um dilúvio, senão que (ó maravilha!) os presenteia com as delícias do Seu Sangue. Então, quando o ingrato Judas O vende por um vil preço, toma nas mãos o pão, e, convertendo-o em Sua própria Carne, lhe diz: Come, Judas, que Isto é o Meu Corpo. Ah! que diferentes ósculos são esses daqueles que daqui a pouco tempo Me hás de dar no Horto! Então tu serás o primeiro a por teus sacrílegos lábios em minha boca, mas para entregar-Me a Meus inimigos. Agora sou Eu o primeiro a por Minha boca em teus lábios, mas para comprar-te. Aqui tens Meu rosto pegado ao teu, e Minha boca tocando a tua. Porém quero mais de ti, Discípulo ingrato; come Esta Carne e bebe Este Sangue com Que agora te brinda Meu amor, antes que O derrame teu ódio. Este é o mesmo Sangue Que tu estás tratando de entregar e vender. Leva-O a meus inimigos, porque Eu desde aqui abri minhas veias sobre este Cálice, antes que os açoites na Coluna e os cravos na Cruz não deixem uma só gota em Meu Corpo. Mas, ó Alma Católica! Que conceito forma teu entendimento desse amor imenso de Jesus? Naquela mesma noite em que O venderam, deixou-Se Sacramentado. Quando as criaturas envenenaram o pão para dar-Lhe a morte, então amassa o outro pão com Sangue para dar-lhes inteira vida. E essa é a primeira das Finezas de nosso Rei Sacramentado.
Tradução nossa para o português moderno do Brasil a partir da edição digitalizada por Google Books ®: Finezas de Jesus Sacramentado para con los hombres, e ingratitudes de los hombres para con Jesus Sacramentado. Escrito en Toscano, y Portugués por el P. F. Juan Joseph de S. Teresa Carmelita Descalzo. y traducido en castellano por D. Iñigo Rosende presbitero. Con licencia. Barcelona: En la Imprenta de los Herederos de Maria Angela Marti, Plaza de S. Jayme, año 1775.
Quando considero as ações de Jesus, amantíssimo Redentor nosso, não posso, de modo algum, determinar qual, dentre todas, seja a mais fina e amorosa para com os homens, porque todas igualmente dão a conhecer um amor imenso e infinito. Porém, como o Discípulo mais amado e Secretário do mesmo amor deixou-nos escrito que tendo Jesus amado os Seus, ao fim de sua vida os amou mais: In finem dilexit, hoc est, majora in posterius reservat, como comenta o Doutor Angélico, assim parece que podemos dizer que naquela misteriosa Ceia, em que nos deu Sacramentada Sua carne, excedeu-Se a Si mesmo Seu amor, foi um amor sem semelhante, um amor sem fim: In finem dilexit. É certo que o coração de Cristo foi sempre ferido do amor de suas criaturas. Esse amor O obrigou a baixar do Seio delicioso de Seu Eterno Pai para desposar-Se com a humana natureza; obrigou-O a nascer em um Presépio entre brutos desprezíveis, sendo Que tinha Seu Trono sobre o mais elevado dos Serafins. Finalmente, esse amor O aniquilou, sendo Onipotente; fê-l'O mortal, sendo Eterno, e O fez mendigo trinta e três anos no mundo, cheio de injúrias e de trabalhos. Mas quando, ao despedir-Se dos homens esse Senhor, deixa-lhes por comida Seu Corpo e por bebida Seu Sangue, quem não vê que foi essa a fineza mais excelente de Seu amor, na qual sobressaem os mais subidos quilates de Sua caridade?
Deste amor, pois, ó Almas Católicas, tomo eu aqui o assunto para discorrer, e com palavras toscas mostrar-vos as excessivas finezas que Jesus obrou em deixar-vos o inefável Sacramento do Altar, para que, à vista delas, sobressaiam mais as ingratidões com que o mundo corresponde a Seu Rei Sacramentado.
A primeira fineza que reparo é o tempo em que Jesus nos deixou Sacramentada Sua Carne. Tinha vivido trinta e três anos entre os homens, e só quando a malícia desses mesmos homens havia chegado ao maior excesso que se poderia imaginar de uma criatura, a saber, maquinar a morte ao Seu Criador, então fez alarde Seu amor de dar-lhes a comer, em acidentes de pão, Aquele mesmo Corpo Que eles determinavam fixar numa Cruz. Entendeu Esse finíssimo Amante que o maior benefício só se devia fazer no tempo da mais abominável ofensa. Quando os homens conspiravam contra Sua vida, quando o próprio Discípulo tratava de vendê-l'O a Seus inimigos, então é que Ele lhes dá a comer de Sua Carne e a beber de Seu Sangue. Os grandes incêndios crescem mais com as contínuas chuvas. Era o Coração de Jesus um forno ardente de amor; porém com o aguaceiro de tantos agravos aumentou de modo que O sacrificou sobre um Altar em vivas chamas de caridade. Obrou Jesus com os homens o que faz o sol com a terra, pois os mesmos vapores com que essa obscurece sua luz, converte-os o sol em benéficas águas, que regam e fertilizam seus campos. Anelava o Amante Redentor instituir este Sacramento para desafogo do amor em que ardia, lá quando naquele princípio sem princípio da eternidade Se recreava no peito de Seu Eterno Pai. Veio ao mundo, viveu e conversou conosco muitos anos, sem querer satisfazer a Seu amor com a maior fineza, até que o viu mais ultrajado e mais mal-correspondido.
Ah mortais! Assim age conosco um Deus amante. De nossas mesmas ingratidões faz escada Seu amor, pela qual sobe ao mais alto cume da maior bênção. Esperou o amoroso Jesus que a malícia humana chegasse ao maior excesso para executar o favor mais vantajoso. Já os homens O haviam buscado para tirar-Lhe a vida, já O haviam desterrado e obrigado a viver em terras alheias, já O haviam querido apedrejar desumanamente. Mas todos esses agravos não bastam, hão de aumentar mais as ofensas, e, quando as injúrias chegaram ao último, então saiu a campo o Amor, e deu de si a maior prova, que jamais pudesse ou soubesse inventar.
Ó quão diferentes daqueles, provados nos passados séculos, então foram, os efeitos que causou o amor no Coração de Jesus! Naquele tempo, quando os pecados dos homens inundavam toda a terra, provocaram a Justiça Divina a submertir em um dilúvio todo o universo. Porém agora que as culpas dos mesmos homens excedem muito às passadas, não só não os destroi com um dilúvio, senão que (ó maravilha!) os presenteia com as delícias do Seu Sangue. Então, quando o ingrato Judas O vende por um vil preço, toma nas mãos o pão, e, convertendo-o em Sua própria Carne, lhe diz: Come, Judas, que Isto é o Meu Corpo. Ah! que diferentes ósculos são esses daqueles que daqui a pouco tempo Me hás de dar no Horto! Então tu serás o primeiro a por teus sacrílegos lábios em minha boca, mas para entregar-Me a Meus inimigos. Agora sou Eu o primeiro a por Minha boca em teus lábios, mas para comprar-te. Aqui tens Meu rosto pegado ao teu, e Minha boca tocando a tua. Porém quero mais de ti, Discípulo ingrato; come Esta Carne e bebe Este Sangue com Que agora te brinda Meu amor, antes que O derrame teu ódio. Este é o mesmo Sangue Que tu estás tratando de entregar e vender. Leva-O a meus inimigos, porque Eu desde aqui abri minhas veias sobre este Cálice, antes que os açoites na Coluna e os cravos na Cruz não deixem uma só gota em Meu Corpo. Mas, ó Alma Católica! Que conceito forma teu entendimento desse amor imenso de Jesus? Naquela mesma noite em que O venderam, deixou-Se Sacramentado. Quando as criaturas envenenaram o pão para dar-Lhe a morte, então amassa o outro pão com Sangue para dar-lhes inteira vida. E essa é a primeira das Finezas de nosso Rei Sacramentado.
Tradução nossa para o português moderno do Brasil a partir da edição digitalizada por Google Books ®: Finezas de Jesus Sacramentado para con los hombres, e ingratitudes de los hombres para con Jesus Sacramentado. Escrito en Toscano, y Portugués por el P. F. Juan Joseph de S. Teresa Carmelita Descalzo. y traducido en castellano por D. Iñigo Rosende presbitero. Con licencia. Barcelona: En la Imprenta de los Herederos de Maria Angela Marti, Plaza de S. Jayme, año 1775.
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