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18 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO III

Aquele que se conserva unido à vontade de Deus, goza, mesmo neste mundo, de paz admirável e constante. “Não se contrista o justo por coisa que lhe aconteça” (Pr 12,21), porque uma alma se alegra e se satisfaz ao ver todos os seus desejos cumpridos; ora, quem só quer o que Deus quer, tem tudo o que deseja, pois que tudo o que acontece é por efeito da vontade de Deus. Quando a alma resignada, diz Salviano, recebe humilhações, quer ser humilhada; quando cai na pobreza, compraz-se em ser pobre; em suma, fica contente com tudo quanto lhe sucede e por isso goza de felicidade nesta vida. Faça frio ou calor, caia chuva ou sopre o vento, com tudo ela se conforma e se alegra, porque assim Deus o quer. Quando sofre reveses, perseguições, enfermidades e até lhe sobrevenha a própria morte, quer ser pobre, perseguida, enferma, quer morrer, porque tudo é da vontade de Deus. Aquele que deste modo descansa na vontade de Deus e se compraz naquilo que a Providência dispuser, é como se estivesse sobranceiro às nuvens do céu e visse a seus pés furiosa tempestade, sem recear perturbação ou dano. Esta é aquela paz que — como disse o Apóstolo — supera a todas as delícias do mundo (Fp 4,7); paz constante, serena, imutável.
“O néscio é inconstante como a lua, o sábio se mantém na sabedoria como o sol” (Ecl 27,12). O pecador é variável como a luz da lua, que hoje cresce e noutros dias míngua. Hoje o vemos rir; amanhã, chorar; ora se mostra alegre e tranqüilo; ora, aflito e furioso. Varia, enfim, à mercê das coisas prósperas ou adversas que lhe sucedem.
O justo, pelo contrário, se mantém sempre com igualdade e constância.
Nenhum acontecimento o priva de sua feliz tranqüilidade, porque essa paz de que goza é filha de sua conformidade perfeita com a vontade de Deus. “Paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2,14).
Santa Maria Madalena de Pazzi, só com o ouvir falar na vontade de Deus, já sentia consolação tão profunda, que ficava arrebatada em êxtases de amor... É verdade que as faculdades de nossa parte inferior não deixarão de fazer-nos sentir alguma dor na ocorrência de coisas adversas; mas em nossa vontade superior, se estiver unida a Deus, reinará sempre paz profunda e inefável. A vossa alegria, nin-guém vo-la tirará (Jo 16,22).
Indizível loucura é a daqueles que se opõem à vontade de Deus. O que Deus quer não pode deixar de acontecer. Quem é que resiste à sua vontade? (Rm 9,19). De sorte que esses desgraçados, quer queiram, quer não, têm de levar a sua cruz, mesmo que seja sem paz nem proveito.
Quem é que lhe resistiu e teve paz? (?).
E, afinal, que quer Deus senão o nosso bem? Quer que sejamos santos para fazer-nos felizes nesta vida e bem-aventurados na outra.
Persuadamo-nos de que as cruzes que Deus nos envia concorrem para o nosso bem (Rm 8,28) e de que os próprios castigos temporais não são enviados para a nossa ruína, mas para nos corrigir e alcançar a eterna felicidade (Jt 8,27).
Deus ama-nos todos, que não somente deseja nossa salvação, mas é todo solícito em procurar-nos (Sl 39,18). E que nos poderá recusar quem nos deu o seu próprio Filho?... (Rm 8,32) Entreguemo-nos, portanto, sem reserva às mãos de Deus, que jamais deixa de atender ao nosso bem (1Pd 5,7). “Pensa tu em mim, — dizia o Senhor a Santa Catarina de Sena — que eu pensarei em ti”. Digamos sempre como a Esposa: “Meu amado para mim e eu para ele” (Ct 2,16). Meu amado trata do meu bem, e eu não hei de pen-sar noutra coisa que em agradar-lhe e unir-me à sua santa vontade. Não devemos pedir, dizia o santo abade Nilo, que Deus faça o que desejamos, mas sim que façamos o que ele quer.
Quem proceder assim, passará uma vida feliz e terá morte santa.
Aquele que morre inteiramente resignado com a vontade divina nos deixa certeza moral de sua salvação. Mas aquele que não vive unido à vontade de Deus, também não estará resignado na hora da morte e não se salvará. Procuremos, pois, familiarizar-nos com certas passagens da Sagrada Escritura, que nos podem ajudar a conservar essa união incomparável: “Dizei-me, Senhor, o que quereis que eu faça, pois desejo fazê-lo (At 9,6). “Eis aqui a vossa serva: mandai e sereis obedecido” (Lc 1,38). “Salvai-me, Senhor, e fazei de mim o que quiserdes. Sou vosso e não meu” (Sl 118,94). E quando nos suceda alguma adversidade, digamos logo: “Seja assim, meu Deus, porque assim o quereis” (Mt 11,26). Não nos esqueçamos especialmente do terceiro pedido da oração dominical: “Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”.
Digamo-lo a miúdo, com grande afeto, e repitamo-lo muitas vezes...
Felizes de nós se vivermos e morrermos, dizen-do: Fiat voluntas tua!

AFETOS E SÚPLICAS

Ó Jesus, meu Redentor, à força de dores, con-sumistes na cruz a vossa vida, a fim de salvar-me e remir-me... Tende compaixão de mim e não permitais que uma alma por vós resgatada a preço de tantos trabalhos e com tanto amor seja condenada a odiar-vos eternamente no inferno.
Nada deixastes de fazer para me obrigar a amar-vos, o que manifestastes claramente momentos antes de expirar no Calvário com estas palavras amorosas: Consummatum est! E como tenho eu correspondido ao vosso amor?... Bem posso dizer que por minha parte nada omiti para ofender-vos e obrigar-vos a aborrecer-me... Graças vos dou pela paciência com que me tendes aturado e pelo tempo que me concedeis para reparar a minha ingratidão e amar-vos e servir-vos antes de morrer... Sim, meu Deus, quero amar-vos, quero fazer tudo quanto quiserdes; dou-vos toda a minha vontade, minha liberdade e tudo o que me pertence. Consagro-vos, desde já, a minha vida e aceito a morte que me destinardes, com todas as suas dores e circunstâncias que a acompanharem, unindo este sacrifício ao grande sacrifício da vossa vida, que vós, meu Jesus, oferecestes por mim na cruz. Quero morrer para cumprir a vossa vontade... Ó Senhor, pelos merecimentos da vossa Paixão sacra-tíssima, dai-me a graça de que nesta vida seja sem-pre resignado e obediente às vossas disposições e, na hora de minha morte, fazei, Senhor, que abrace e aceite com inteira conformidade a vossa vontade santíssima! Quero morrer, ó Jesus, para agradar-vos; quero morrer dizendo: Fiat voluntas tua..
Maria, nossa Mãe, foi assim que vós morrestes; alcançai-me a dita inefável de que também eu termine assim os meus dias!

17 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO II

Devemos conformar-nos com a vontade divina, não apenas nas coisas que recebemos diretamente de Deus, como sejam enfermidades, desolações espirituais, reveses de fortunas, morte de parentes, mas também nas que só indiretamente vêm de Deus e que ele nos envia por intermédio dos homens, como, por exemplo, a desonra, desprezos, injustiças e toda sorte de perseguições. E note-se que quando alguém nos ofende em nossa honra ou nos causa dano em nossos bens, não é Deus que quer o pecado de quem nos ofende ou causa dano, mas sim a humilhação ou a pobreza que dele resulta. É certo, portanto, que tudo quanto sucede acontece por vontade divina. “Eu sou o Senhor que formo a luz e as trevas; faço a paz e crio a desdita” (Is 45,7). E no Eclesiástico le-mos: “Os bens e os males, a vida e a morte vêm de Deus”. Tudo, em suma, de Deus procede, tanto os bens como os males.
Chamam-se males certos acidentes porque nós assim os denominamos e em males os transformamos; entretanto, se os aceitássemos como era devido, resignando-nos à mão de Deus, seriam para nós bens em vez de males. As jóias que mais resplandecem e mais valorizam a coroa dos Santos são as tribulações que aceitaram das mãos de Deus.
Quando o santo homem Jó soube que os sabeus lhe haviam roubado os bens, não disse: “O Senhor nos deu e os sabeus nos tiraram, mas “O Senhor nos deu e o Senhor nos tirou” (Jó 1,21). E, dizendo-o, bendizia a Deus porque sabia que tudo sucede por vontade divina (Jó 1,21). Os santos mártires Epicteto e Aton, atormentados a ferro e fogo, exclamavam: Senhor, cumpra-se em nós a vossa santa vontade! Ao expirarem, foram estas as suas últimas palavras: “Bendito sejais, ó eterno Deus, por nos terdes dado a graça de cumprir a vossa vontade santíssima”.
Refere Cesário que certo monge, cuja vida não era mais austera que a dos outros, operava muitos milagres. Maravilhado, o abade perguntou-lhe quais eram as devoções que praticava. O monge respondeu que, sem dúvida, era mais imperfeito que os outros e que unicamente se aplicava, com especial cuidado, em conformar-se em todas as coisas com a vontade de Deus. “E aquele prejuízo — acrescentou o abade — que há dias o inimigo causou em nossas terras, não te causou pena alguma?” — “Ó Padre — disse o monge — antes dou graças a Deus, que tudo faz ou permite para nosso bem”. Estas palavras descobriram ao abade a grande santidade daquele bom religioso.
O mesmo devemos fazer quando nos sucedam contrariedade: recebamo-las todas da mão de Deus, não só com paciência, mas até com alegria, imitando o exemplo dos apóstolos, que se regozijavam de ser maltratados por amor de Cristo. “Saíram alegres do sinédrio, porque foram achados dignos de sofrer afrontas pelo nome de Jesus” (At 5,41).
Pois que maior contentamento pode haver do que sofrer alguma cruz e saber que, abraçando-a, podemos ser agradáveis a Deus?... Se quisermos viver em paz contínua, procuremos unir-nos à vontade divina e dizer sempre, aconteça o que acontecer: “Se-nhor, se assim for do vosso agrado, faça-se assim” (Mt 11,26). Para este caminho devemos dirigir todas as nossas meditações, comunhões, orações e visitas a Jesus Sacramentado, rogando continuamente a Deus, que nos conceda essa preciosa conformidade com sua vontade divina. Ofereçamo-nos sempre a ele, dizendo: Aqui me tendes, meu Deus; fazei de mim o que vos agrade... Santa Teresa se oferecia ao Senhor mais de cinqüenta vezes por dia, a fim de que dispusesse dela à sua vontade.

AFETOS E SÚPLICAS

Amantíssimo Redentor, divino Rei de minha alma, reinai nela, doravante!... E só vós unicamente!... Aceitai minha vontade inteiramente, de modo que não deseje nem queira senão o que vós quiserdes.
Bem sei quantas vezes vos tenho ofendido, o-pondo-me à vossa santa vontade. Desses delitos me sinto profundamente magoado e arrependo- me de todo o coração. Mereço castigo e não o recuso: aceito-o com o pedido único de que não me imponhais a pena da privação do vosso amor. Concedei-me esta graça e fazei de mim o que vos agrade. Amo-vos, meu Redentor, amo-vos, Senhor, e porque vos amo quero fazer tudo o que quiserdes. Ó vontade divina, sois o meu amor!... Ó sangue de Jesus Cristo, sois a minha esperança! por vós espero que desde agora ficarei sempre unido à vontade de Deus. Ela será meu norte e guia, meu amor e minha paz. Nela dese-jo viver e repousar. Em tudo o que me acontecer, direi sempre: Meu Deus, nada quero senão o que vós quiserdes; cumpra-se em mim a vossa vontade: Fiat voluntas tua...
Concedei-me, meu Jesus, pelos vossos merecimentos a graça de que 119 repita sempre essa súplica amorosíssima: Fiat voluntas tua...
Ó Maria, Mãe e Senhora nossa, que cumpristes sempre a vontade divina! Fazei que também eu doravante a possa cumprir! Rainha da minha vida, alcançai-me esta graça, que espero pelo amor que tendes a Jesus Cristo.

16 de junho de 2014

Preparação para a Morte

CONSIDERAÇÃO XXXVI

Da conformidade com a vontade de Deus
Et vita in voluntate ejus. E a vida, em sua vontade (Sl 29,6).

PONTO I

Todo fundamento da saúde e da perfeição das nossas almas consiste no amor de Deus. “Quem não ama está morto. A caridade é o vínculo da perfeição” (Jó 3,14; Cl 3,14). Mas a perfeição do amor é a união da nossa própria vontade com a vontade divina; porque nisto se cifra — como disse o Areopagita — o principal efeito do amor, em unir de tal modo a vontade dos amantes, que não tenham mais que um só coração e um só querer. Portanto, as nossas obras, penitências, esmolas, comunhões, só agradam ao Senhor enquanto se conformam com sua divina vontade; de outra maneira não seriam virtuosas, mas viciosas e dignas de castigo.
Isto, particularmente, nos manifestou com seu exemplo o nosso Salvador, quando do céu desceu à terra. Isto, como ensina o Apóstolo, disse o Senhor ao entrar neste mundo: “Vós, meu Pai, recusastes as vítimas oferecidas pelo homem e quereis que vos sacrifique a vida deste corpo que me destes. Cumpra-se vossa divina vontade” (Hb 10,57).
Isto também declarou muitas vezes, dizendo que tinha vindo à terra só para fazer a vontade de seu Pai (Jo 6,38). Quis assim patentear-nos o infinito amor que tem ao Pai, a ponto de entregar-se à morte para obedecer à sua divina ordem (Jo 14,31). Declarou, além disso, que reconheceria por seus unicamente aqueles que fazem a vontade de seu Pai (Mt 12,50) e, por esta razão, o único fim e desejo dos Santos em todas as suas obras tem sido o cumprimento da mesma. O beato Henrique Suso exclama: “Preferiria ser o verme mais miserável da terra, por vontade de Deus, do que um serafim por minha vontade própria”. Santa Teresa disse que aquele que se exercita na oração terá que procurar conformar sua vontade com a divina e que nisto consiste a mais elevada perfeição; o que mais sobressair nesta prática receberá de Deus maiores dons e se adiantará mais na vida interior. Os bem-aventurados na glória amam a Deus perfeitamente porque sua vontade está unida e conforme inteiramente com a vontade divina. Por isso, Jesus Cristo nos ensinou a pedir a graça de fazer na terra a vontade de Deus assim como os Santos a fazem no céu. Fiat voluntas tua, sicut in caelo, et in terra. Quem assim o fizer será homem segundo o coração de Deus, como o Senhor chamava David, porque este estava sempre pronto a cumprir o que Deus queria (Sl 6,8: 107,1); e continuamente lhe pedia que lhe ensinasse a executá-lo (Sl 142,10).
Que merecimento tem um só ato de perfeita resignação à vontade de Deus! Bastaria para santificar-nos... Quando Paulo persegue a Igreja, Cristo lhe aparece, ilumina-o e o converte com sua graça. O Santo, então, se oferece a cumprir o que Deus lhe mandar... “Senhor, que queres que eu faça? (At 9,6). E Jesus Cristo o proclama “vaso de eleição e apóstolo das gentes” (At 9,15). Aquele que jejua, dá esmola e se mortifica por amor de Deus, dá uma parte de si mesmo; aquele, porém, que submete a Deus a sua vontade dá-lhe tudo quanto tem. É isto o que Deus nos pede, quer dizer, o coração, a vontade (Pr 23,26). Este fito hão de ter, em suma, todos os nossos desejos, devoções, comunhões e demais obras de piedade: o cumprimento da vontade divina. Este é o norte e a mira de nossa oração: impetrar a graça de fazer o que Deus exige de nós. Para a execução destas resoluções, incumbe pedir a intercessão de nossos santos protetores, especialmente a de Maria Santíssima, a fim de que nos alcancem luzes e forças para conformidade da nossa vontade com a de Deus em todas as coisas e sobretudo naquelas que repugnam ao nosso amor próprio... Dizia o beato M. P. Ávila: “Mais vale um bendito seja Deus dito na adversidade, que mil ações de graças nas ocasiões prósperas”.

AFETOS E SÚPLICAS

Ah, meu Senhor! Todas as minhas desgraças procedem de não querer render-me à vossa santa vontade. Maldigo e aborreço mil vezes aqueles dias e aquelas ocasiões em que, para satisfazer ao meu desejo, contradisse e me opus ao vosso querer, ó Deus de minha alma!...
Agora vos consagro minha vontade sem reserva. Aceitai-a, meu Deus, e prendei-a de tal modo ao vosso amor, que não possa rebelar-se outra vez. Amo-vos, Bondade infinita, e pelo amor que vos professo, ofereço-me inteiramente a vós. Disponde de mim e de todas as minhas coisas como vos aprouver e que eu em tudo me resigne gostosamente à vossa santíssima vontade. Livrai-me da desgraça de contrariar os vossos desejos, e fazei de mim o que vos agrada. Ouvi-me, ó Pai Eterno, pelo amor a Jesus Cristo. Ouvi-me, meu Jesus, pelos merecimentos de vossa Paixão.
E vós, Maria Santíssima, socorrei-me e alcançai-me a graça de cumprir sempre a vontade divina, na qual se cifra minha salvação. E nada mais vos pedirei.

15 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO III

Jesus no Santíssimo Sacramento ouve e recebe a todos para comunicar-nos sua graça, porque mais deseja o Senhor favorecer-nos com seus dons do que nós recebê-los. Deus, que é a Bondade infinita, generosa e difusiva por sua própria natureza, compraz-se em comunicar os seus benefícios a todo mundo e se entristece quando as almas não acodem a pedir-lhes. Por que — diz o Senhor — não vos dirigis a mim? Porventura, hei sido para vós semelhante à terra estéril, quando me pedistes graças?... O apóstolo São João viu que o peito do Senhor resplandecia adornado por um cinto de ouro, símbolo da misericórdia de Cristo e da amorosa solicitude com que deseja dispensar-nos sua graça (Ap 1,15). O Senhor sempre está pronto a auxiliar-nos; mas no Santíssimo Sacramento, como afirma o discípulo, concede e distribui, de modo especial, abundantíssimos favores. O beato Henrique Suso dizia que Jesus na Eucaristia atende com a maior complacência a nossas petições e súplicas.
Assim como as mães acham consolo e alívio, dando o peito generosamente, não só a seu próprio filho, mas também a outros pequeninos, o Senhor neste Sacramento a todos convida e nos diz: “Como a mãe acaricia a seu filho, assim eu vos consolarei” (Is 66,13). Ao Pe. Baltasar Álvares apareceu visivelmente Cristo na Eucaristia, mostrando-lhe as graças inumeráveis que trazia à disposição para prodigalizá-las aos homens; mas não havia quem as pedisse.
Bem-aventurada a alma que, ao pé do altar, se detém para solicitar a graça do Senhor! A condessa de Feria, que depois se fez religiosa de Santa Clara, permanecia ante o Santíssimo Sacramento todo o tempo de que podia dispor. Por isso, a chamavam a esposa do SS. Sacramento.
Ali recebia continuamente riquíssimos tesouros de graças. Perguntada por que passava tantas horas prostrada ante o Senhor Sacramentado, respondeu: “Desejaria ficar ali por toda a eternidade...
Perguntais o que se faz na presença do Santíssimo Sacramento... E que é que se deixa de fazer? Que faz um pobre na presença de um rico? E um enfermo diante do médico?... Agradece-se, ama-se, roga-se”.
Queixou-se o Senhor à sua fiel serva Irmã Margarida Alacoque da ingratidão com que os homens o tratam neste Sacramento de Amor.
Mostrando-lhe seu sagrado Coração em trono de chamas, cercado de espinhos e uma cruz ao alto, dá-lhe a entender a amorosa presença de Cristo na Eucaristia e diz: “Contempla este Coração que tanto tem amado aos homens e que nada omitiu, nem mesmo o consumir-se, para demonstrar-lhes seu amor. Mas em reconhecimento só recebo ingratidões da maior parte deles, pelas irreverências e os desprezos com que me tratam neste Sacramento. E o que mais deploro é que assim procedem não poucas almas que me são especialmente consagradas”.
Os homens deixam de entreter-se com Cristo, porque não o amam.
Recreiam-se horas inteiras falando com um amigo, mas enfadam-se logo em ficar com o Senhor! Como há de Jesus Cristo conceder-lhes seu amor? Se não afastam de seu coração os afetos terrenos, como há de entrar nele o amor divino? Ah, se pudesses dizer verdadeiramente de coração o que dizia São Filipe Néri ao ver o Santíssimo Sacramento: “Eis o meu amor” e não te cansarias nunca de estar horas e dias ante Jesus Sacramentado.
Para a alma que ama a Deus, essas horas parecem momentos.
São Francisco Xavier, fatigado pelo diário trabalho da salvação das almas, encontrava à noite apropriado descanso em permanecer diante do Santíssimo Sacramento. São João Francisco de Regis, famoso missionário da França, depois de ter empregado todo o dia na pregação, dirigia-se à igreja; e quando a encontrava fechada, ficava à porta, exposto às inclemências do tempo com o propósito de homenagear, ao menos de longe, a seu amado Senhor. São Luís Gonzaga desejava estar sempre na presença de Jesus Sacramentado; como, porém, os Superiores lhe proibissem que se entretivesse nesses atos prolongados de adoração, acontecia que, quando o santo jovem passava diante do altar, sentia de um lado que Jesus o atraía docemente para que com ele permanecesse, e de outro, obrigado pela obediência, a afastar-se.
Nesse caso dizia amorosamente: “Apartai-vos, Senhor, apartai-vos de mim; não me prendais junto de vós; deixai que de vós me separe, porque devo obedecer”. Portanto, meu irmão, se não sentes tão alto amor a Cristo, procura visitá-lo diariamente, que Ele saberá inflamar o teu coração. Sentes frio ou tibieza? Aproxima-te do fogo, como dizia Santa Catarina de Sena, e ditoso de ti se Jesus te conceder a graça de abrasar-te em seu amor! Então, não amarás mais as coisas da terra, mas as desprezarás todas, pois, segundo observa São Francisco de Sales: Quando em casa há fogo, tudo se lança pela janela.

AFETOS E SÚPLICAS

Ah, meu Jesus! Fazei que vos conheçamos e amemos! Sois tão amável, que só isto é suficiente para que vos amem todos os homens...
E quão poucos são aqueles que se dedicam ao vosso amor! Ó Senhor! Entre estes ingratos também me achava eu. Não neguei minha gratidão às criaturas quando delas recebi mercês ou favores. Somente para convosco, que vos destes todo a mim, fui tão ingrato que cheguei a ofender-vos gravemente e ultrajar-vos com meus pecados. E vós, Senhor, em vez de abandonar-me, persistis em procurar-me e reclamais o meu amor, inspirando-me a lembrança daquele amoroso mandamento: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração (Mc 12,30). Pois bem! Já que, apesar de minha ingratidão, quereis que vos ame, prometo amar-vos, meu Deus. Assim o desejais, e eu, favorecido por vossa graça, não desejo outra coisa. Amo-vos, meu amor e meu tudo. Pelo sangue que derramastes por mim, ajudai-me e socorrei-me. Nele ponho a minha esperança, assim como na intercessão de vossa Mãe Maria Santíssima, cujas súplicas quereis que contribuam para a nossa salvação.
Rogai por mim, Santa Virgem Maria, a Jesus Cristo, meu Senhor; e posto que abrasais no amor divino a todos os que se vos consagram, com insistência vos peço: inflamai nele o meu coração, que tanto vos ama sempre.

14 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO II

Consideremos, em segundo lugar, como Jesus Cristo na Eucaristia dá audiência a todos nós. Dizia Santa Teresa que não a todos os homens é dada a honra de falar com os reis deste mundo. Os pobres, quando o necessitam, apenas conseguem comunicar-se com o soberano por meio de uma terceira pessoa. Mas o rei da glória não tem necessidade de intermediários. Todos, nobres e plebeus, podem tratar com ele, rosto a rosto, no Santíssimo Sacramento. Não é em vão que Jesus se chama a si mesmo “Flor dos campos” (Ct 2,1): Eu sou flor dos campos e lírio dos vales. Assim como as flores do jardim estão reservadas e ocultas para muitos, as do campo se oferecem generosas a todas as visitas. Sou flor do campo, porque me deixo ver por todos quantos me procuram, disse, comentando este texto, o Cardeal Hugo. Jesus Cristo, na Eucaristia, é acessível a todos e a qualquer hora do dia. São Pedro Crisólogo, falando do nascimento de Cristo no estábulo de Belém, observa que nem sempre os reis dão audiência a seus súditos. Acontece mesmo freqüentemente que, quando alguém se apresenta para falar ao soberano, os guardas o despedem, dizendo que não é hora de audiência e que volte depois. Mas o Redentor quis nascer num estábulo aberto, sem portas e sem guardas, a fim de receber a qualquer momento a quem o procura. Não há ali criados que digam: ainda não é hora. O mesmo sucede com o Santíssimo Sacramento. As portas da igreja estão abertas, e todos nós podemos entrar e falar com o Rei dos céus sempre que nos apraz. E Jesus tem prazer em receber-nos e deseja que lhe falemos ali com ilimitada confiança. Para isto é que se oculta sob as espécies do pão, porque se Cristo aparecesse sobre o altar em resplandecente trono de glória, como há de apresentar-se no dia do juízo final, quem ousaria aproximar-se dele? Como, porém, o Senhor — diz Santa Teresa — deseja que lhe falemos e impetremos suas graças com toda a confiança e sem temor algum, encobriu sua majestade divina sob as espécies do pão. Segundo Tomás de Kempis, quer que tratemos com ele como se trata um amigo fraternal.
Quando a alma, ao pé do altar, está em amorosos colóquios com Cristo, parece que o Senhor lhe dirige aquelas palavras do Cântico dos Cânticos: “Levanta-te, apressa-te, minha amiga, minha formosa, e vem” (Ct 2,10). Surge, e levanta-te, alma, lhe diz, e nada temas. Propera, apressa-te, aproxima-te de mim. Amica mea, já não me és desagradável, mas bela, porque minha graça te tornou formosa. Et veni, vem e dize-me o que desejas, que, para ouvir-te, estou neste altar... Que gozo terias, meu leitor, se o rei te chamasse a seu palácio e dissesse: Que desejas? que necessitas? Muito te estimo e desejo ser útil a ti!... O mesmo diz Cristo, o rei do céu, a todos os que o visitam. “Vinde a mim todos os que estais sobrecarregados e atribulados, que eu vos aliviarei” (Mt 11,28). Vinde, pobres enfermos, aflitos, que posso e quero enriquecer-vos, curar-vos e consolar-vos: é para este fim que estou nos altares (Is 58,9).

AFETOS E SÚPLICAS

Já que residis nos altares, meu amantíssimo Jesus, para ouvir as súplicas que vos dirigem os desgraçados que recorrem a vós, ouvi, Senhor, os rogos deste pobre pecador... Ó Cordeiro de Deus, sacrificado e morto na cruz! Minha alma foi resgatada com vosso sangue; perdoai-me as ofensas que vos tenho feito e socorrei-me com vossa graça, a fim de que não volte a perder-vos jamais. Fazei-me partícipe, meu Jesus, daquela profunda dor dos pecados que sofrestes no horto de Getsêmani... Meu Deus, se eu morresse no pecado, não poderia amar-vos nunca; mas vossa clemência esperou por mim a fim de que vos amasse! Agradeço-vos o tempo que me concedestes e, já que me é dado amar-vos, consagro-vos o meu amor. Dai-me a graça do vosso divino amor em grau tal que de tudo me esqueça inteiramente e somente me ocupe em servir e agradar a vosso sagrado Coração. Ó meu Jesus! Dedicastes-me a vossa vida toda; permiti que vos consagre o restante da minha. Atraí-me ao vosso amor e fazei-me vosso inteiramente antes que chegue a hora de minha morte. Assim o espero pelos merecimentos da vossa sagra-da Paixão e também, ó Maria Santíssima, pela vossa poderosa intercessão. Bem sabeis que vos amo; tende misericórdia de mim.

13 de junho de 2014

Preparação para a Morte

CONSIDERAÇÃO XXXV

Da amorosa presença de Cristo no Santíssimo Sacramento do altar
Venite ad me omnes qui laboratis et onerati estis, et ego reficiam vos. Vinde a mim todos os que vos achais sobrecarregados e atribulados, que eu vos aliviarei (Mt 11,28).

PONTO I

Ao partir deste mundo, depois de ter completado a obra da nossa redenção, o nosso amantíssimo Salvador não quis deixar-nos sós neste vale de lágrimas. “Nenhuma língua pode exprimir — dizia São Pedro de Alcântara — a grandeza do amor que Jesus tem às almas; por isso, ao deixar esta vida, o divino Esposo, receando que sua ausência fosse ocasião de olvido, deu-lhes como recordação este Sacramento santíssimo, no qual ele mesmo permanece; e não quis que entre ele e nós houvesse outro penhor para manter viva a memória”. Esta preciosa dádiva de Nosso Senhor Jesus Cristo merece todo o amor de nosso coração e por esse motivo dispôs que nestes últimos tempos fosse instituída a festa do seu Sagrado Coração, segundo revelou à sua serva Irmã Margarida Alacoque, a fim de que lhe rendêssemos homenagem por sua presença amorosa sobre o altar, e reparássemos, ao mesmo tempo, os desprezos e as injúrias que neste Sacramento tem recebido e recebe ainda da parte dos hereges e dos maus cristãos.
Permanece Jesus no Santíssimo Sacramento: primeiro, para que todos lhe falemos sem dificuldade; segundo, para conceder-nos audiência; e terceiro, para dispensar-nos suas graças. Fica presente em tantos altares diferentes para estar no alcance de todos os que o desejam encontrar. Na noite em que o Redentor se despediu de seus discípulos para morrer, estes, cheios de tristeza, choravam, porque deviam separar-se de seu querido Mestre. Jesus, porém, os consolou, dizendo-lhes e a todos nós: “Meus filhos, vou morrer por vós para provar o amor que vos tenho; porém, mesmo depois de minha morte não quero privar-vos da minha presença. Enquanto estiverdes neste mundo, estarei convosco no Santíssimo Sacramento do Altar. Deixo-vos meu corpo, minha alma, divindade, em suma, a mim mesmo. Não me separarei de vós”. Ficai certos de que eu mesmo estarei convosco até à consumação dos séculos (Mt 28,20). “Queria o Esposo — diz São Pedro de Alcântara — deixar companhia à esposa, para que em tamanha ausência não ficasse só, e por isso lhe deixou este Sacramento, no qual ele mesmo reside e era a melhor companhia que podia dar-lhe”. Os gentios, que imaginaram tantos deuses, não engendraram nenhum tão amoroso como o nosso Deus, que está tão perto de nós e com tanto amor nos assiste. “Não há outra nação tão grande que tenha os seus deuses tão perto dela, como o nosso Deus está presente a todos nós” (Dt 4,7).
A Santa Igreja, com razão, aplica esta passagem do Deuteronômio à festa do Santíssimo Sacramento.
Jesus Cristo, portanto, vive nos altares como encerrado em prisões de amor. Os sacerdotes o fazem sair do sacrário para expô-lo aos fiéis ou para a santa comunhão e depois o encerram novamente. E o Senhor se compraz em permanecer ali de dia e de noite... E para que fim, meu Redentor, resolvestes ficar em tantas igrejas, mesmo que os homens fechem as portas do templo e vos deixem só? bastava que habitásseis ali conosco durante as horas do dia?... Mas, não! O Senhor quer morar no sacrário mesmo nas trevas da noite, não obstante a ausência de todos, esperando paciente que ao raiar do arrebol já o encontre quem deseja estar a seu lado. A esposa andava a procurar o seu Amado e perguntava a todos os que pelo caminho vinham: Vistes, porventura, aquele que ama a minha alma? (Ct 3,3). Como não o encontrasse, levantava a voz, dizendo: “Onde estás, meu esposo?... Dize-me, ó amado de minha alma, onde é que apascentas... onde é que repousas ao meio-dia (Ct 1,6). A esposa não o encontrava porque ainda não existia o Santíssimo Sacramento; mas agora, se uma alma deseja unir-se a Jesus Cristo, o seu Amado a está esperando em muitos templos. Não há aldeia, por mais pobre que seja, não há convento de religiosos que não tenha o Sacramento Santíssimo. Em todos esses lugares, o Rei do céu se regozija em poder permanecer aprisionado na pobre moradazinha de pedra ou de madeira onde muitas vezes fica só, sem ter quem o sirva e apenas, iluminado por uma lâmpada de azeite...
Ó Senhor! — exclama São Bernardo — isto não convém à vossa infinita majestade... Nada importa, responde Jesus Cristo: se isto não convém à minha majestade, satisfaz, entretanto, o meu amor.
Que ternos afetos experimentam os peregrinos, quando visitam a santa igreja de Loreto, ou os lugares da Terra Santa, o estábulo de Belém, o Calvário, o Santo Sepulcro, lugares, onde Cristo nasceu, morreu e foi sepultado!... Muito maior, porém, deve ser o nosso amor quando nos achamos na igreja em presença do próprio Jesus Cristo que reside no Santíssimo Sacramento! Dizia o venerável João d’Ávila que não havia para ele santuário de maior devoção e consolo que uma igreja em que houvesse Jesus Sacramentado. O Padre Baltasar Álvares lamentava-se por ver os palácios reais repletos de gente, e os templos, onde mora Cristo, solitários e abandonados... Ó meu Deus!... Se o Senhor tivesse concedido o privilégio de sua presença a uma única igreja na terra, à de São Pedro em Roma, por exemplo, e ali residisse apenas um dia por ano, quantos peregrinos, quantos personagens nobres, quantos monarcas procurariam ter a felicidade de estar naquele templo, no dia marcado, para reverenciar ao Rei do céu, que tinha descido novamente à terra! Que rico sacrário de ouro e de pedras preciosas lhe não seria preparado! Com quanta luz se iluminaria a igreja a fim de solenizar a presença de Cristo!... Mas não — disse o Redentor — não quero morar apenas numa igreja, nem por um dia só, nem procuro ostentação, nem riqueza, mas desejo viver contínua, diariamente, onde meus fiéis estão, para que todos me encontrem facilmente, sempre e a qualquer hora.
Se Jesus Cristo não tivesse inventado este inefável obséquio de amor, quem é que teria sido capaz de descobri-lo? Se, ao aproximar-se a hora da ascensão ao céu, alguém lhe tivesse dito: Senhor, para mostrar- nos vosso afeto, ficai conosco nos altares sob as espécies de pão, a fim de que vos encontremos quando for de nossa vontade, — quão temerária teria parecido tal petição! Mas o que nenhum homem jamais poderia imaginar, nosso amantíssimo Salva-dor o concebeu e realizou...
E onde está, Senhor, nossa gratidão por mercê tão excelsa?... Se um príncipe poderoso viesse de longínquas terras com o fito expresso de que fosse visitado por um obscuro aldeão, não seria este extremamente ingrato se se recusasse a ver o príncipe, ou a querer vê-lo apenas de passagem?

AFETOS E SÚPLICAS

Ó Jesus, meu Redentor e amor de minha alma! A quão alto preço pagastes vossa morada na Eucaristia! Sofrestes primeiramente morte dolorosa antes de viver sobre nossos altares e, a seguir, inumeráveis injúrias no Sacramento, só porque quereis assistir-nos e regalar-nos com vossa presença real. Em compensação, nos descuidamos e nos esquecemos de visitar-vos, posto que bem saibamos que desejais as nossas visitas, com o fim de nos cumular de bens, quando permanecemos ante vós. Perdoai-me, Se-nhor, que também eu me conto no número destes ingratos... Mas doravante, meu Jesus, estou resolvido a visitar-vos freqüentemente e a conservar-me o mais tempo possível na vossa presença, a fim de dar-vos graças e amar-vos e pedir-vos mercês, pois tal é o fim que vos impeliu a ficar entre nós, recolhido aos sacrários e prisioneiro nosso de amor. Amo-vos, Bondade infinita, amo-vos, Pai amantíssimo; amo-vos, Sumo Bem, mais digno de ser amado do que todas as coisas. Fazei que me esqueça a mim mesmo e a todas as coisas, e que somente do vosso amor me recorde, para viver o restante de meus dias unicamente ocupado em servir-vos. Fazei que a partir de hoje seja a minha maior delícia permanecer pros-trado a vossos pés. Inflamai-me, inteiramente no vosso amor!...
Maria, minha mãe, alcançai-me grande amor ao Santíssimo Sacramento, e quando me virdes negligente, recordai-me a promessa que agora faço de o visitar diariamente!

12 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO III
 
Consideremos, finalmente, o grande desejo que tem Jesus Cristo de que o recebamos na santa comunhão... Sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora... (Jo 13,1), mas por que Jesus Cristo chamava a sua hora aquela noite em que devia começar sua dolorosa Paixão?... É porque naquela noite ia legar-nos este divino Sacramento, com o fim de unir-se ele mesmo às almas queridas de seus fiéis. Este sublime desígnio fê-lo exclamar então: “desejei ardentemente celebrar convosco esta Páscoa” (Lc 12,15), denotando com estas palavras o divino Redentor o veemente desejo que nutria de estabelecer conosco essa união na Eucaristia...
Desejei ardentemente... Assim o obriga a falar o amor imenso que nos tem — disse São Lourenço Justiniano.
Quis ocultar-se sob as espécies de pão, a fim de ser acessível a todos. Se houvesse escolhido para este portento algum alimento esquisito e caro, os pobres não poderiam recebê-lo freqüentemente. Outra classe de alimento, mesmo que não fosse seleto e precioso, não se encontraria em toda parte. Por isso, o Senhor preferiu esconder-se sob as espécies do pão, porque o pão facilmente se encontra e todos os homens o podem procurar.
O vivo desejo que tem o Redentor de que com freqüência o recebamos sacramentado, movia-o a exortar-nos muitas vezes: “Vinde, comei o pão; e bebei o vinho que vos preparei. Comei, amigos, e bebei; inebriai-vos, meus muito amados” (Pr 9,5; Ct 5,1); venho a vô-lo impor como preceito: “Tomai e comei; este é meu corpo” (Mt 26,26). E para nos atrair a recebê-lo, estimula-nos com a promessa da vida eterna. “Quem come a minha carne, tem a vida eterna. Quem come este pão, viverá eternamente” (Jo 6,55.59). E no caso contrário ameaça-nos com a exclusão do paraíso da glória: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem, não tereis a vida em vós” (Jo 6,54). Tais convites, promessas e ameaças nascem do desejo de Cristo de unir-se a nós na Eucaristia; e este desejo procede do amor que Jesus nos tem, porque — segundo disse São Francisco de Sales, — a finalidade do amor não é outra do que unir-se ao objeto amado; ora, neste Sacramento Jesus mesmo se une a nossas almas (aquele que come minha carne e bebe meu sangue, fica em mim e eu nele (Jo 6,57). É este o motivo por que deseja tanto que o tomemos neste Sacramento. “O amoroso ímpeto com que a abelha esvoaça sobre as flores para lhes extrair o mel — disse o Senhor a Santa Matilde — não pode ser comparado ao amor com que eu me uno às almas que me amam”.
Compreendessem os fiéis o grande amor que a santa comunhão traz às almas!... Cristo é o senhor de toda riqueza, e o Pai Eterno depositou tudo em suas mãos (Jo 13,3). Quando Jesus toma posse da alma pela sagrada Eucaristia, traz consigo riquíssimo tesouro de graças. Vieram a mim todos os bens juntamente com ela (Sb 7,11), — disse Salomão, falando da eterna Sabedoria.
Segundo São Dionísio, o Santíssimo Sacramento possui virtude suprema para santificar as almas. E São Vicente Ferrer deixou escrito que mais aproveita aos fiéis uma comunhão do que jejuar a pão e água uma semana inteira. A comunhão, como ensina o Concílio de Trento, é o grande remédio que nos livra das culpas veniais e nos preserva das mortais. Por esse motivo, Santo Inácio Mártir chama a Eucaristia “medicina da imortalidade”. Inocêncio III disse que Jesus Cristo, por meio de sua Paixão e Morte, nos livrou das penas do pecado, mas que com a Eucaristia nos livra do pecado.
Este sacramento nos inflama no amor de Deus. “Introduziu-me na adega do vinho; ordenou em mim o amor. Confortai-me com flores, fortalecei-me com frutas, porque desfaleço de amor” (Ct 2,4-5). São Gregório Nisseno disse que esta adega é a santa comunhão, na qual a alma de tal modo se embriaga do amor divino, que esquece as coisas da terra e tudo o que é criado; desfalece, enfim, de amor vivíssimo.
Também o venerável Pe. Francisco de Olímpio, teatino, dizia que nada nos inflama tanto no amor de Deus como a sagrada Eucaristia. Deus é amor; é fogo consumidor (Jo 4,8; Dt 4,24). Foi esse fogo de amor que o Verbo Eterno veio acender na terra (Lc 12,49). E na verdade, que ardentíssimas chamas de amor divino acende Jesus Cristo na alma que o recebe sacramentado com vivo desejo! Santa Catarina de Sena viu um dia Jesus Sacramentado nas mãos de um sacerdote e a sagrada hóstia lhe parecia brilhantíssima fogueira de amor, ficando a Santa maravilhada como os corações dos homens não ardessem todos e se reduzissem a cinza por tamanho incêndio.
Santa Rosa de Lima assegurava que, ao comungar, parecia-lhe que recebia o sol. O rosto da Santa resplandecia de tanta luz, que deslumbrava aos que a viam, e da boca exalava tal calor, que a pessoa que lhe dava de beber depois da comunhão sentia a mão quente como se a tivesse junto a um forno. O Santo rei Venceslau, quando ia visitar o Santíssimo Sacramento, sentia-se inflamado de ardor tão intenso, mesmo exteriormente, que a um criado seu, que o acompanhava, ao caminhar certa noite pela neve atrás do rei, bastou pôr os pés nas pisadas do Santo para não sentir frio algum. São João Crisóstomo dizia, que, sendo o Santíssimo Sacramento fogo abrasador, deveríamos, ao retirar-nos do altar, sentir tais chamas de amor que o demônio não se atrevesse a tentar-nos.
Dizes, talvez, que não te atreves a comungar com freqüência porque não sentes em ti esse fogo do amor divino. Mas essa escusa, como observa Gerson, seria a mesma que dizer que não te queres aproximar do fogo porque tens frio. Quanto maior for a tibieza que sentimos, tanto mais freqüentemente devemos receber o Santo Sacramento, contanto que tenhamos desejo de amar a Deus. “Se acaso te perguntarem os mundanos — escreve São Francisco de Sales em sua “Introdução à vida devota” — por que é que comungas tão a miúdo... dize-lhes que há duas classes de pessoas que devem comungar com freqüência: os perfeitos, porque, estando bem dispostos, ficariam prejudicados em se não achegando ao manancial e fonte da perfeição; e os imperfeitos, para terem justo direito de aspirar a ela...” E São Boaventura diz igualmente: “Ainda que sejais tíbio, aproxima-te da Eucaristia, confiando na misericórdia de Deus. Quanto mais enfermos estivermos, tanto mais necessitamos do médico”. E, finalmente. Cristo mesmo disse a Santa Matilde: “Quando houveres de comungar, deseja ter todo o amor que tenha tido o coração mais fervoroso, e eu aceitarei teu desejo como se tivesses realmente esse amor a que aspiras”.
 
AFETOS E SÚPLICAS
 
Ó amantíssimo Senhor das almas! Já não podeis dar-nos maior prova do vosso amor. Que mais poderíeis inventar para que vos amássemos?...
Fazei, ó Bondade infinita, que doravante vos ame viva e eternamente! A quem é que o meu coração deve amar com afeto mais profundo do que a vós, meu Redentor, que, depois de terdes dado a vida por mim, vos dais neste Sacramento?... Ah! meu Senhor! recorde eu sempre vosso excelso amor e me esqueça a mim inteiramente, a fim de amar-vos sem intermissão e sem reserva!... Amo-vos, meu Deus, sobre todas as coisas, e só a vós desejo amar. Afastai do meu coração todo afeto que não seja para vós... Dou-vos graças por me terdes concedido tempo de amar-vos e de chorar as ofensas que vos fiz. Desejo, meu Jesus, que sejais o único objeto do meu amor. Socorrei-me, salvai-me e minha salvação seja amar-vos com toda a minha alma nesta e na vida futura...
Maria, minha Mãe, ajudai-me a amar a Cristo. Rogai por mim.

11 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO II
 
Consideremos, em segundo lugar, o grande amor que nos manifestou Jesus Cristo ao outorgar-nos este dom preciosíssimo; pois que o Santíssimo Sacramento é dádiva unicamente do amor. Segundo os decretos divinos, foi necessário que o Redentor morresse para nos salvar.
Mas que necessidade há para que Jesus Cristo, depois de sua morte, permaneça conosco a fim de ser sustento de nossas almas?...
Assim o quis o seu amor. Foi unicamente para manifestar-nos o imenso amor que nos tem que o Senhor instituiu a Eucaristia — disse São Lourenço, expressando o mesmo que São João refere em seu evangelho: “Sabendo Jesus que era chegada a sua hora de trânsito deste mundo ao Pai, tendo amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (Jó 13,1). Isto é, quando o Senhor viu que se aproximava o tempo de afastar-se deste mundo, quis deixar-nos maravilhosa prova de seu amor, dando-nos o Santíssimo Sacramento, como precisamente significam estas palavras: “amou-os até ao fim”, ou seja “amou-os extremamente, com sumo e ilimitado amor”, segundo a explicação de Teofilacto e São João Crisóstomo.
Notemos, como observa o Apóstolo, que o tempo escolhido pelo Senhor para nos fazer este inestimável donativo foi o de sua morte.
“Naquela noite em que foi entregue, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse: Tomai e comei; este é meu corpo” (1Cor 11,23-24). Enquanto os homens lhe preparavam açoites, espinhos e cruz para dar-lhe morte crudelíssima, o nosso amante Salvador quis obsequiá-los com o penhor mais sublime do seu amor... Por que naquela hora tão próxima à sua morte e não antes, instituiu ele este Sacramento? Procedeu assim, — diz São Bernardino — porque as provas de amor, dadas no transe da morte por quem nos ama, perduram mais fundamente na memória e as conservamos com mais vivo afeto.
Jesus Cristo — continua o mesmo Santo — já se nos tinha dado por vários modos: por mestre, pai e amigo; por luz, exemplo e vítima.
Restava-lhe o último grau de amor, que era dar-se por alimento nosso, a fim de unir-se inteiramente a nós, assim como se une e se incorpora a comida com quem a toma. É o que ele fez, entregando-se a nós no Santíssimo Sacramento. O divino Redentor não se contentou em unir-se apenas à nossa natureza humana, mas quis, por meio deste Sacramento, unir-se também a cada um de nós em particular e intimamente.
“É impossível — dizia São Francisco de Sales — considerar nosso Salvador em ação mais amorosa e mais terna do que esta, na qual, por assim dizer, se aniquila e se reduz a alimento para penetrar em nossas almas e unir-se intimamente aos corações e aos corpos de seus fiéis”.
Assim se dirige São João Crisóstomo a esse mesmo Senhor que nem os anjos se atrevem a fitar: “Nós nos unimos e nos convertemos com ele em um só corpo e uma só carne”. Qual o pastor — acrescen-ta o Santo — que alimenta as suas ovelhas com sua própria carne? Às vezes, as mães ainda procuram nutrizes e amas para que alimentem seus filhos. Mas Jesus no Santíssimo Sacramento nos mantém com seu próprio corpo e sangue e se une a nós. E por que é que ele se tornou nosso sustento? Porque nos ama ardentemente e deseja ser conosco uma coisa única por meio dessa inefável união. Opera, pois, Jesus Cristo na santa Eucaristia o maior de todos os milagres. Deixou memória de suas maravilhas; deu sustento aos que o temem” (Sl 110,4), para satisfazer seu desejo de permanecer conosco e unir o coração ao seu Sacratíssimo Coração. Ó admirável milagre de amor, — exclama São Lourenço Justiniano — meu Senhor Jesus Cristo, que quisestes de tal modo unir ao nosso o vosso corpo, que tivéssemos um só coração e uma só alma, inseparavelmente unidos convosco!” O Pe. de La Colombière, grande servo de Deus, dizia: “Se alguma coisa pudesse abalar minha fé no mistério da Eucaristia, nunca duvidaria do poder, mas do amor manifestado por Deus neste soberano Sacramento.
Como o pão se converte em corpo de Cristo? Como o Senhor está presente em toda parte? Respondo que Deus tudo pode. Mas, se me perguntam como Deus ama tanto os homens que se lhes dá por alimento, não sei responder, porquanto não o entendo; esse amor de Jesus é para nós incompreensível”.
Dirá alguém: Senhor, esse excesso de amor, pelo qual vos dais como alimento a nós, não convém a vossa Majestade divina... Mas São Bernardo nos diz que pelo amor o amante esquece a própria dignidade.
E São João Crisóstomo acrescenta que o amor não cuida das razões da conveniência quando se trata de manifestar-se ao ser amado; não vai aonde convém, vai aonde o guia seu desejo. Mui acertadamente, São Tomás chamava a Eucaristia Sacramento do amor, e São Bernardo, amor dos amores. Santa Maria Madalena de Pazzi chamava o dia de quinta-feira santa, em que foi instituído o SS. Sacramento, o dia do amor.
 
AFETOS E SÚPLICAS
 
Ó amor infinito de Jesus, digno de infinito amor! Quando, Senhor, vos amarei como vós me amais?... Nada mais pudestes fazer para que eu vos amasse. E eu me atrevi a abandonar-vos, meu Sumo Bem, para correr atrás de coisas vis e miseráveis... Iluminai, ó meu Deus, minha ignorância, descobri-me cada vez mais a grandeza de vossa bondade, a fim de que me inflame todo no vosso amor. Desejo unir-me a vós, Senhor, freqüentemente neste Sacramento, a fim de que me aparte mais e mais de todas as coisas e só a vós consagre a minha vida...
Ajudai-me, meu Redentor, pelos merecimentos de vossa Paixão.
Socorrei-me também, ó Mãe de Jesus e minha Mãe! Intercedei para que me inflame em seu santo amor.

10 de junho de 2014

Preparação para a Morte

CONSIDERAÇÃO XXXIV
 
Da sagrada comunhão
Accipite et comedite: hoc est Corpus meum. Tomai e comei; este é meu Corpo (Mt 26,26).
 
PONTO I
 
Consideremos a grandeza do Santíssimo Sacramento da Eucaristia, o amor imenso que Jesus Cristo nos manifestou nesta dádiva tão preciosa e o vivo desejo que nutre de ser por nós recebido. Vejamos, em primeiro lugar, a grande mercê que nos fez o Senhor ao dar-se a nós como alimento na santa comunhão. Disse Santo Agostinho que, sendo Jesus Cristo Deus onipotente, nada melhor pôde dar-nos. Que maior tesouro pode receber ou desejar uma alma do que o sacrossanto corpo de Cristo? Exclamava o profeta Isaías: “Publicai as amorosas invenções de Deus” (Is 12,4). E em verdade, se nosso Redentor não nos tivesse obsequiado com dádiva tão valiosa, quem é que ousaria pedi-la? Quem é que se atreveria a dizer-lhe: “Senhor, se quereis demonstrar o vosso amor, ocultai-vos sob as espécies do pão e permiti que as recebamos para o nosso sustento...”? Tal pensamento houvera de ser considerado como loucura. “Não parece loucura dizer: comei minha carne e bebei meu sangue?” — exclamava Santo Agostinho.
Quando Jesus Cristo anunciou a seus discípulos este dom do Santíssimo Sacramento e afastaram-se o Senhor, murmurando: “Como pode este dar-nos a comer sua carne?... Dura é esta doutrina, e quem a pode ouvir?” (Jo 6,53). Mas o que ao homem nem sequer é dado imaginar, concebeu-o e realizou-o o grande amor de Cristo.
Segundo São Bernardino, o Senhor nos deixou este Sacramento em memória do amor que nos manifestou em sua Paixão, conforme suas próprias palavras: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19). Não satisfez Cristo seu divino amor — acrescenta o mesmo Santo — sacrificando a sua vida por nós, mas, impelido por esse mesmo soberano amor, legou-nos antes de morrer a maior de todas as dádivas, dando-se ele mesmo para nosso sustento. Portanto, neste Sacramento levou a efeito o mais generoso esforço do amor; o que o Concílio de Trento exprime com eloqüentes palavras, dizendo que Jesus Cristo na Eucaristia prodigalizou aos homens todas as riquezas do seu amor.
Não se estimaria como sinal de especial distinção — disse São Francisco de Sales — se um príncipe enviasse a um pobre algumas iguarias de sua mesa? Que se diria, se lhe enviasse um banquete completo? Que seria, enfim, se o obséquio consistisse em um pedaço da própria carne do príncipe, para que servisse de alimento ao pobre?...
Jesus, na sagrada Comunhão, nos alimenta, não apenas com uma parte de sua mesa, nem com um pedaço de seu corpo, mas com ele inteiro: “Tomai e comei; este é meu corpo” (Mt 26,26). E com seu corpo dá-nos também seu sangue, alma e divindade. Numa palavra — diz São João Crisóstomo — Jesus Cristo, dando-se a si próprio na sagrada comunhão, dá tudo o que tem sem a menor reserva; ou, segundo se expressa São Tomás: “Deus na Eucaristia se entrega todo ele, quanto é e quanto tem”. Vê, pois, como esse Altíssimo Senhor, que não cabe no mundo — exclama São Boaventura — se faz nosso prisioneiro na Eucaristia...
E, dando-se a nós real e verdadeiramente no Santíssimo Sacramento, como poderemos recear que nos recuse as graças que lhe pedirmos? (Rm 8,32).
 
AFETOS E SÚPLICAS
 
Ó meu Jesus! O que é que vos pôde mover a dar-vos inteiramente a nós para alimento? E que mais podeis conceder-nos, depois deste dom inefável, para obrigar-nos a vos amar? Iluminai-me, Senhor, e fazei-me conhecer esse excesso de amor, que vos levou a transformar-vos em manjar divino, a fim de vos unirdes a nós, pobres pecadores... Mas, se vos dais todo a nós, justo é que nos entreguemos inteiramente a vós... Ó meu Redentor! Como é que pude ofender-vos, que tanto que amais e que não poupastes esforço para conquistar meu amor?... Por mim vos fizestes homem; por mim morrestes; por amor a mim vos transformastes em meu sustento!... Que vos resta fazer ainda?... Amo-vos, Bondade infinita, amo-vos, infinito amor. Vinde, Senhor, freqüentemente à minha alma e inflamai-a em vosso amor santíssimo.
Fazei que de todo me esqueça e somente pense em vós e a vós somente ame...
Maria, minha Mãe, rogai por mim e tornai-me digno, por vossa intercessão, de receber muitas vezes o vosso divino Filho no Sacramento do amor!

9 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO III
 
Aumentará em nós a admiração, se considerarmos o desejo veementíssimo que tinha Nosso Senhor Jesus Cristo de sofrer e morrer por nós. “Hei de ser batizado com o batismo do meu próprio sangue e sinto-me morrer no desejo de ver chegar a hora da minha paixão e morte, a fim de que o homem reconheça o amor que lhe tenho” (Lc 12,50). Assim dizia o Filho de Deus em sua vida terrena. O mesmo sentimento lhe fez ainda dizer na noite que precedeu a sua dolorosa paixão: “Desejei ardentemente celebrar esta Páscoa convosco” (Lc 22,15). Parece, pois, diz São Basílio de Selêucia, que nosso Deus tem amor insaciável pelos homens.
Meu Jesus! Os homens não vos amam porque não ponderam o amor que lhes dedicais. Como é possível que a alma que considera um Deus morto por amor dela, e com tão grande desejo de morrer para lhe demonstrar o seu afeto, viva sem o amar?... São Paulo diz que não é tanto o que Jesus Cristo fez e sofreu, como o amor que nos testemunhou sofrendo por nós, que nos obriga e quase nos força a que o amemos (2Cor 5,14). À consideração deste sublime mistério, São Lourenço Justiniano exclamava: Vimos um Deus enlouquecido de amor por nós.
E, na verdade, se a fé não o afirmasse, quem é que poderia crer que o Criador quis morrer pelas suas criaturas?... Santa Madalena de Pazzi, num dos seus êxtases, tendo nas mãos uma imagem do Crucificado, chamava Jesus louco de amor. O mesmo diziam os gentios, quando ouviam pregar a morte de Cristo, que lhes parecia incrível loucura, segundo nos atesta o Apóstolo: “Pregamos o Cristo crucificado, escândalo para os judeus, necessidade para os gentios” (1Cor 1,23). Como é possível, diziam eles, que um Deus perfeitamente feliz em si mesmo e que nada necessita, desça à terra para fazer-se homem e morrer por amor dos homens, suas criaturas? Eqüivaleria a crer que Deus enlouqueceu por amor dos homens. É, contudo, de fé que Jesus Cristo, verdadeiro Filho de Deus, se entregou à morte, por nosso amor. “Amou-nos e ele mesmo se entregou por nós (Ef 5,2). E qual a razão desse sacrifício? Fê-lo, a fim de que não vivêssemos para o mundo, mas para esse bom Senhor que quis morrer por nós (2Cor 5,15). Fê-lo com o fim de ganhar, pela manifestação do seu amor, todos os afetos dos nossos corações. Assim os Santos, ao considerarem a morte de Cristo, tiveram em pouca conta o dar a vida e sacrificar tudo pelo amor de seu amantíssimo Jesus.
Quantos ilustres personagens, quantos príncipes abandonaram riquezas, famílias, pátria e até coroas, para se encerrarem nos claustros e viver no amor de Deus! Quantos mártires lhe sacrificaram a vida! Quantas virgens, renunciando às bodas deste mundo, correram alegres para a morte, a fim de assim poderem corresponder ao afeto de um Deus, morto por seu amor!... E tu, meu irmão, que tens feito até agora por amor de Cristo?... Assim como o Senhor morreu pelos Santos, por um São Lourenço, por uma Santa Luzia, por uma Santa Inês... também morreu por ti... Que pensas ao menos fazer no resto da vida, que Deus te concede para que o ames? Lança repetidas vezes os olhos sobre a imagem do Crucificado, contemplando-o! Lembra-te do amor que lhe deves e dize em teu interior: “Meu Deus, foi por mim que quisestes morrer?” Faze ao menos isto; faze-o freqüentemente, e assim te sentirás docemente constrangido a amar a Deus, que tanto te ama.
 
AFETOS E SÚPLICAS
 
Não vos amei como devia, amantíssimo Redentor, porque não pensei no amor que me tivestes! Ah! meu Jesus! quão ingrato sou!...
Destes a vida por mim, sofrendo a mais amarga das mortes, e eu mostrei- me tão insensato que nem quis pensar em vós. Perdoai-me, Senhor; prometo-vos que, de hoje em diante, ó meu Amor crucificado, sereis o único objeto dos meus pensamentos e afetos. Quando o demônio e o mundo me apresentarem seus frutos venenosos, recordai-me, amado Salvador, os trabalhos que por meu amor sofrestes, e fazei que vos ame e não vos ofenda... Ah, se um de meus servos houvesse feito por mim o que vós fizestes, não me atreveria a dar-lhe o menor desgosto.
E, no entanto, muitas vezes ousei apartar-me de vós, que morrestes por mim!... Ó belas chamas de amor, que obrigastes um Deus a dar a sua vida por mim; vinde, abrasai-me e enchei todo o meu coração e consumi nele o afeto às coisas criadas! Meu amantíssimo Redentor, como é possível que se não sinta inflamado de amor por vós o que vos considera no presépio de Belém, na cruz do Calvário, e agora no Santíssimo Sacramento do Altar?... Amo-vos, meu Jesus, com toda a alma, e no resto da minha vida sereis o meu único bem, o meu único amor. Não devo aumentar a soma dos anos desventurados, que passei desgraçadamente no esquecimento da vossa Paixão e dos vossos afetos.
A vós me entrego inteiramente e se não sei dar-me como devo, acolhei-me vós e reinai no meu coração. Adveniat regnum tuum. Não volto a ser escravo, a não ser do vosso amor. Que todas as minhas palavras, todos os passos, todos os meus pensamentos, todos os suspiros não tenham outro objeto senão amar-vos e servir-vos. Assisti-me com vossa graça a fim de que vos seja fiel; é nos vossos merecimentos que confio, ó meu Jesus? Ó Mãe do belo amor, fazei que ame muito ao vosso divino Filho, que é tão digno de ser amado e que tanto me tem amado!

8 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO II
 
Deus não se limitou a dar-nos todas essas formosas criaturas do universo, mas não viu satisfeito o seu amor enquanto não veio a dar a si próprio por nós (Gl 2,20). O maldito pecado nos fez perder a graça divina e o céu, tornando-nos escravos do demônio. Mas o Filho de Deus, com espanto do céu e da terra, quis vir a este mundo, fazer-se homem para remir-nos da morte eterna e reconquistar-nos a graça e o paraíso perdido. Que maravilha seria ver um poderoso monarca tomar a forma e a natureza de um verme por amor aos homens. “Humilhou-se a si mesmo, tomando a forma de servo... e reduzindo-se à condição de homem...” (Fl 2,7). Um Deus revestido de carne mortal! E o Verbo se fez carne (Jo 1,14). Mas o prodígio ainda aumenta, quando se considera o que fez e sofreu depois por nosso amor esse Filho de Deus. Para nos remir, era bastante uma só gota de seu sangue preciosíssimo, uma só lágrima, uma só súplicas, porque esta oração, sendo um ato de pessoa divina, teria infinito valor e era suficiente para resgatar não só um mundo, mas uma infinidade de mundos que houvesse. Observa, entretanto, São João Crisóstomo que aquilo que bastava para resgatar-nos, não era bastante para satisfazer o imenso amor, que Deus nos tinha. Não queria unicamente salvar-nos, mas que muito o amássemos, porque ele muito nos amava. Escolheu vida de trabalhos e de humilhações e a morte mais amargurada entre todas as mortes, a fim de nos fazer compreender o infinito e ardentíssimo amor em que ardia por nós. “Humilhou-se a si mesmo, fez-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2,8). Ó excesso de amor divino que nunca os anjos nem os homens chegarão a compreender! Digo excesso, porque é exatamente assim que se exprimiam Moisés e Elias no Tabor, falando da Paixão de Cristo (Lc 9,31). “Excesso de dor, excesso de amor”, disse São Boaventura.
Se o Redentor não tivesse sido Deus, mas simplesmente um parente ou amigo, que maior prova de afeto nos poderia dar do que morrer por nós? “Ninguém tem amor em maior grau do que ele, porque dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Se Jesus Cristo tivesse de salvar seu próprio pai, que mais poderia ter feito por amor dele? Se tu, meu irmão, fosses Deus e Criador de Jesus Cristo, que mais poderia fazer por ti além de sacrificar sua vida num abismo de humilhações e de dores? Se o mais vil dos homens deste mundo tivesse feito por ti o que fez o Redentor, poderias viver sem o amar? 107 Crês na encarnação e na morte de Jesus Cristo?... Crês e não o amas? Podes sequer pensar em outras coisas, que não seja Jesus Cristo? Duvidas, talvez, do seu amor?... O divino Salvador, diz Santo Agostinho, veio ao mundo para sofrer e morrer por vós, a fim de vos patentear o amor que vos tem. Antes da Encarnação o homem, talvez, poderia pôr em dúvida que Deus o amasse ternamente; mas, depois da Encarnação e morte de Jesus Cristo, quem pode duvidá-lo? Que prova mais evidente e terna podia dar-nos do seu amor do que sacrificar a sua vida por nós?... Estamos habituados a ouvir falar de criação e redenção, de um Deus que nasce num presépio e morre numa cruz... Ó santa fé, ilumina nossas almas!
 
AFETOS E SÚPLICAS
 
Meu Jesus, vejo que fizestes tudo o que pudestes para obrigar-me a vos amar, e que eu, com minhas ingratidões, vos pus na obrigação de me abandonardes. Bendita seja vossa paciência, que me tem aturado tanto tempo! Merecia um inferno criado de propósito para mim, mas vossa morte me inspira esperança firme de perdão. Ensinai-me, Senhor, quanto mereceis ser amado e o dever que tenho de amar-vos, ó Bondade infinita! Bem sabia que morrestes por mim, ó Jesus; e como pude viver esquecido de vós, tantos anos?... Se pudesse recomeçar a minha vida, ó Senhor, toda inteira vo-la quisera consagrar, mas os anos passados não voltam... Fazei ao menos que empregue o que me resta da existência unicamente em vos servir e amar. Meu amantíssimo Redentor, amo-vos de todo o coração. Aumentai em mim o amor, recordando- me quanto bem me fizestes, e não permitais que volte a ser ingrato.
Não quero resistir por mais tempo à luz que me dais. Desejais que vos ame e eu desejo amar-vos. A quem hei de amar senão amar a meu Deus, beleza infinita e infinita bondade, a um Deus que morreu por mim e me suportou com tanta paciência, e em vez de castigar-me como o merecia, transformou o castigo em graças e favores? Sim, amo-vos, ó Deus digno de infinito amor, e não desejo nem aspiro a outra coisa do que dedicar-me ao vosso amor, esquecido de todo mundo. Ó caridade infinita de meu Senhor: socorrei a uma alma que arde no desejo de ser toda vossa para sempre.
Auxiliai-me também com vossa intercessão, ó Maria, excelsa Mãe de Deus! Rogai a Jesus Cristo que me conceda a graça de ser todo dele para sempre.

7 de junho de 2014

Preparação para a Morte

CONSIDERAÇÃO XXXIII
 
Do amor de Deus
Nos ergo diligamus Deum, quoniam Deus prior dilexit nos. Amemos nós a Deus, porque Deus nos amou primeiro (1Jo 4,19).
 
PONTO I
 
Considera, antes de tudo, que Deus merece o teu amor, porque ele te amou antes de ser amado por ti, e, de todos quantos te hão amado, é o primeiro (Jr 31,3). Os primeiros que te amaram neste mundo foram teus pais, mas só te amaram depois que te conheceram. Mas Deus já te amava antes de existires. Mesmo antes da criação do mundo, Deus já te ama-va. E quanto tempo antes de ter criado o mundo começou a te amar?... Talvez mil anos, mil séculos?... Mas não computemos anos nem séculos. Deus te amou desde toda a eternidade (Jr 31,3). Enfim: desde que Deus é Deus, sempre te tem amado; desde que se amou a si mesmo, também amou a ti. Com razão, dizia a virgem Santa Inês: “Outro amante me cativou primeiro”. Quando o mundo e as criaturas requestaram o seu amor, ela respondia: Não, não vos posso amar. Meu Deus foi o primeiro a amar-me, e é justo, portanto, que só a ele consagre todo o meu amor.
Assim, meu irmão, Deus te tem amado desde toda a eternidade; e só por amor te escolheu entre tantos homens que podia criar, deu-te a existência, colocou-te no mundo e, além disso, tirou do nada inumeráveis e formosas criaturas que te servem e te lembram esse amor que ele te dedica e que tu lhe deves. “O céu, a terra e todas as criaturas, dizia Santo Agostinho, me convidam a amar-vos”. Quando este Santo contemplava o sol, a lua, as estrelas, os montes e os rios, parecia-lhe que tudo falava, dizendo: Ama a Deus, que nos criou para ti, a fim de que o ames. O Padre Rancé, fundador da Trapa, não via os campos, as fontes e os mares, sem recordar-se, por meio dessas coisas criadas, do amor que Deus lhe tinha. Também Santa Teresa disse que as criaturas lhe repreendiam a ingratidão para com Deus. E Santa Margarida de Pazzi, ao contemplar a formosura de alguma flor ou de um fruto, sentia o coração transpassado pelas flechas do amor divino e exclamava: O Senhor, desde toda a eternidade, pensou em criar estas flores, a fim de que o ame! Considera, além disso, o particular amor de Deus, fazendo-te nascer num país cristão e no seio da santa Igreja. Quantos vêm ao mundo entre idólatras, judeus, maometanos e heréticos, e por isso se perdem!...
Poucos são relativamente os homens que têm a felicidade de nascer onde reina a verdadeira fé, e o Senhor te pôs entre eles... Oh! quão sublime é o dom da Fé! Quantos milhões de almas se vêem privadas dos sacramentos, das prédicas, dos bons exemplos de homens santos! E Deus quis conceder-te todos esses grandes recursos sem nenhum merecimento de tua parte, ou, para melhor dizer, prevendo os teus desmerecimentos. Ao pensar em criar-te e dar-te essas graças, já previa as ofensas que lhe havias de fazer.
 
AFETOS E SÚPLICAS
 
Soberano Senhor do céu e da terra! Bem infinito e infinita Majestade, como é que os homens podem menosprezar-vos, se tanto os tendes amado?... Entre eles, Senhor, a mim amastes particularmente, favorecendo- me com graças especialíssimas, que não concedestes a todos; e eu desprezei-as mais que os outros. A vossos pés me prostro, ó Jesus, meu Salvador! Não me repilais da vossa presença (Sl 50,13), ainda que bem o mereça por causa de minha ingratidão; mas dissestes que não sabeis desprezar um coração contrito que volta para vós (Jo 6,37). Meu Jesus, pesa-me de vos ter ofendido; e se na vida passada não vos conheci, agora vos reconheço por meu Senhor e Redentor, que morreu para salvar-me e para ser amado por mim... Quando, meu Jesus, acaba-rá a minha ingratidão? Quando começarei a amar-vos verdadeiramente?...
Hoje, Senhor, tomo a resolução de amar-vos de todo o meu coração, e não amar a ninguém mais do que a vós. Ó bondade infinita, adoro-vos por todos os que vos não amam. Creio em vós, espero em vós, amo-vos e me ofereço inteiramente a vós. Assisti-me com a vossa graça... Se me favorecestes quando não vos amava nem desejava amar-vos, quanto mais deverei esperar de vossa misericórdia agora que vos amo e desejo vos amar? Dai-me, Senhor, o vosso amor... amor fervoroso, que me faça olvidar as criaturas todas; amor fortíssimo, que supere todos os obstáculos que se oponham ao que vos agrada; amor perpétuo, que não possa cessar. Tudo espero dos vossos merecimentos, ó meu Jesus, e da vossa poderosa intercessão, ó Maria, Mãe e Senhora nossa!

6 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO III
 
Consideremos, em terceiro lugar, que Maria Santíssima é advogada tão caridosa, que não somente auxilia aos que recorrem a ela, mas que vai procurando por si mesma os desgraçados para os defender e salvar.
Convida a todos, a fim de alentar-nos a esperança de todos os bens, se nos acolhermos sob sua proteção. “Em mim há toda a esperança de vida e virtude. Vinde todos a mim” (Ecl 24,26). “A todos nos chama, justos e pecadores”, exclama o devoto Pelbardo, comentando esse texto.
Anda o demônio ao redor de nós, procurando a quem devorar, diz São Pedro (1Pd 5,8). Mas esta divina Mãe, como diz Bernardino de Bustos, vai procurando sempre a quem possa salvar. Maria é Mãe de misericórdia, porque sua caridade e clemência a obriga a compadecer-se de nós e cuidar constantemente de salvar-nos, como mãe carinhosa, que não pode ver os filhos em risco de perder-se sem logo os socorrer.
E efetivamente, quem, depois de Jesus Cristo, tem mais cuidado da nossa salvação do que vós? exclama São Germano. São Boaventura acrescenta que Maria se mostra tão solícita em socorrer aos pecadores, que não parece ter outro desejo além deste.
Ela ajuda certamente aos que se lhe recomendam e a ninguém desampara. É tão benigna — exclama Idiota — que não repete a ninguém. “Mas isto não basta para satisfazer o coração terníssimo de Maria, disse Ricardo de São Vitor; ela antecipa-nos as súplicas e serve os nossos interesses, ainda antes de lhe pedirmos. E é tão misericordiosa que, onde vê misérias, acode logo e não pode ver ninguém necessitado sem socorrer. “Assim procedia na sua vida mortal, como bem se depreende do que sucedeu nas bodas de Caná, na Galiléia, quando faltou vinho, e ela, sem ser rogada por ninguém, vendo a aflição em que se achavam os jovens esposos, suplicou ao divino Filho que lhes poupasse aquele desgosto, dizendo: “Não têm vinho” (Jo 2,3), alcançando assim do Senhor que, milagrosamente, transformasse água em vinho.
Se a compaixão de Maria para com os aflitos era tão grande enquanto residia na terra, o seu desejo de nos socorrer — diz São Boaventura — é de certo maior agora, que reside no céu, donde vê melhor as nossas misérias e melhor se pode compadecer de nós”. E se Maria, sem ser rogada, se mostrou tão solícita em socorrer-nos, quanto mais atenderá aos que lhe dirigem os seus rogos!...
Não deixemos de recorrer a esta Mãe divina em todas as nossas necessidades, pois quem sempre a encontramos disposta a socorrer a quem a invoca, disse Ricardo de São Lourenço, porque, segundo afirma Bernardino de Bustos, a Virgem tem mais desejo de conceder-nos favores do que nós em recebê-los dela. Portanto, quando recorremos a Maria encontramo-la sempre cheia de misericórdia e de graças. É tão vivo esse desejo de nos fazer bem e de salvar-nos — diz São Boaventura — que se dá por ofendida, não tanto de quem positivamente a injuria, mas daqueles que lhe não pedem amparo e proteção. Ao contrário, salva a quantos se recomendam a ela, com firme vontade de se emendar, pelo que o mesmo Santo a chama Salvação dos que a invocam.
Recorramos, pois, a esta excelsa Mãe, e digamos-lhe com São Boaventura: In te, domina, speravi, non confundar in aeternum!... Ó Mãe de Deus, Maria Santíssima; porque em vós pus minha esperança, espero que não serei condenado.
 
AFETOS E SÚPLICAS
 
Aqui tendes a vossos pés, ó Maria, um infeliz escravo do inferno que vos pede misericórdia. E ainda que não mereça nenhum bem, vós sois a Mãe de Misericórdia, e a misericórdia se pode exercer com aquele que não a merece. Todo mundo vos chama esperança e refúgio dos pecadores, portanto sois meu refúgio e minha esperança. Sou uma ovelha tresmalhada; mas para salvar a esta ovelha perdida o Verbo Eterno veio do céu à terra e se fez vosso Filho e é ele que nos manda recorrer a vós e que me socorrais com vossas súplicas. Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus... Ó excelsa Mãe de Deus, porque rogais por todos, orai também por mim. Dizei a vosso Filho que sou vosso servo e que me protegeis. Dizei-lhe que em vós pus minhas esperanças.
Dizei-lhe que me perdoe, porque me arrependo de todas as ofensas que lhe fiz, e que me conceda a
graça de amá-lo de todo o coração.
Dizei-lhe, enfim, que me quereis salvar, pois ele faz tudo o que lhe pedis...
Ó Maria, minha esperança e meu consolo, em vós confio! Tende piedade de mim.

5 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO II

Consideremos, em segundo lugar, que Maria é advogada tão clemente quanto poderosa, e que não sabe negar sua proteção a quem recorre a ela. Os olhos do Senhor estão voltados sobre os justos, disse David. Mas esta Mãe de misericórdia, segundo afirma Ricardo de São Lourenço, fita os olhos nos justos como nos pecadores, a fim de que não caiam; e, se tiverem caído, para ajudar-lhes a que se levantem.
Afigurava-se a São Boaventura, quando contemplava a Virgem, que estava vendo a própria misericórdia. São Bernardo nos exorta a que em todas as nossas necessidades recorramos a essa poderosa advogada, porque é toda doçura e bondade, para aqueles que se lhe recomendam.
É por isso que Maria é chamada formosa como a oliveira. Quasi oliva speciosa in campis (Ecl 24,19); pois assim como a oliveira produz azeite suave, símbolo da piedade, assim da Virgem Santíssima promanam graças e misericórdias para todos aqueles que se refugiam na sua proteção.
Tem, pois, razão Dionísio Cartusiano para lhe chamar advogada dos pecadores que a ela recorrem. Qual não será a mágoa do cristão que se condena, quando pensar que tão facilmente se podia ter salvado, recorrendo a esta Mãe de misericórdia, e que não o fez, nem haverá já tempo para remediá-lo! A bem-aventurada Virgem disse a Santa Brígida: “Eu sou chamada Mãe de misericórdia e, na verdade, o sou, porque assim o quis a bondade de Deus”.... Quem é que constituiu tal advogada para a nossa defesa, senão a misericórdia divina, que quer salvar todos?... “Desgraçado, acrescentou a Virgem, e eternamente desgraçado, será aquele que, podendo recorrer a mim, que sou misericordiosa e benigna, não procura o meu auxílio e se condena!” Tememos, acaso, diz São Boaventura, que Maria nos negue o socorro que lhe pedimos?... Não; Maria não sabe nem soube jamais olhar sem compaixão, nem deixar sem socorro aos desgraçados que recorrem a ela. Não sabe, nem pode, porque foi destinada por Deus para ser a Rainha e Mãe de misericórdia, e como tal incumbe-lhe velar pelos necessitados. Sois rainha de misericórdia, disse São Bernardo, e quem são os súditos da misericórdia senão os miseráveis? E logo o Santo, por humildade, acrescenta; “Ó Mãe de Deus, já que sois a rainha da misericórdia, é de mim que deveis ter o maior cuidado, porque sou o mais miserável dos pecadores”. Com maternal solicitude, sem dúvida, livrará da morte a seus filhos enfermos, pois a bondade e clemência de Maria a convertem em Mãe de todos os que sofrem. São Basílio a chama casa de saúde, porque, assim como nos hospitais de enfermos pobres os mais necessitados é que têm mais direito de ser recebidos, assim Maria, como disse aquele Santo, há de acolher e abrigar com piedade solícita e amorosa os maiores pecadores que a ela recorrerem.
Não duvidemos, portanto, da misericórdia de Maria Santíssima.
Santa Brígida ouviu o divino Salvador dizer à Virgem: “Até do próprio demônio terias compaixão se te pedisse com humildade”. Nunca o soberbo Lúcifer se humilhará; mas, se esse desgraçado se humilhasse diante dessa soberana Senhora e lhe pedisse auxílio, a intercessão da Virgem o livraria do inferno. Com essas palavras, Nosso Senhor deu-nos a entender o mesmo que sua querida Mãe disse à Santa, isto é, que quando um pecador, por vultosas que sejam suas culpas, se lhe recomenda sinceramente, ela não procura saber os pecados que o acabrunham, mas sim a intenção que o move; e se vem com boa vontade de emendar-se, acolhe-o logo e o cura de todos os males que o afligem.
“Por muito que o homem haja pecado, se recorre a mim verdadeiramente arrependido, apresso-me a recebê-lo, não considero o número de suas culpas, mas a intenção que o anima. Nem me desdenho de ungir e curar as suas feridas porque me chamam e realmente sou a Mãe de Misericórdia”.
Em verdade, pois, São Boaventura nos estimula, dizendo: “Não desespereis, pobres e perdidos pecadores, levantai os olhos a Maria e respirai, confiados na piedade desta boa Mãe”. Procuremos a graça perdida, disse São Bernardo, e procuremo-la por intermédio de Maria.
Esse alto dom, perdido por nós, acrescenta Ricardo de São Lourenço, Maria o encontrou; é, pois, a ela que devemos recorrer para o recobrarmos. Quando o arcanjo São Gabriel anunciou à Virgem a divina maternidade, disse: “Não temas, Maria, porque achaste graça” (Lc 1,30). Se Maria, porém, sempre cheia de graça, jamais esteve privada dela, como diz o Anjo que a encontrou? A isto respondeu o Cardeal 104 Hugo que a Virgem não achou a graça para si, pois que sempre a gozou, mas para nós que a tínhamos perdido. Daí infere que devemos apresentar-nos a Maria Santíssima e dizer-lhe: “Augusta Senhora, o bem deve ser restituído a quem o perdeu. Essa graça que encontrastes não é vossa, porque sempre a possuístes; mas é nossa e por nossa culpa a perdemos. É, portanto, a nós que a deveis restituir”. Acorram, pois, acorram pressurosos à Virgem os pecadores que, por sua culpa, tiverem perdido a graça e digam-lhe sem receio: “Restituí-nos o nosso bem que achastes”...

AFETOS E SÚPLICAS

Eis que aqui a vossos pés, ó Mãe de Deus, um miserável pecador que deixou perder voluntariamente, não uma, mas muitas vezes, a divina graça que vosso Filho lhe conquistou com sua morte. Ó Mãe de misericórdia, com a alma cheia de feridas, recorro a vós. Não me desprezeis ao ver o estado em que me acho; antes olhai-me com maior compaixão e apressai-vos a socorrer-me. Vede a confiança que me inspirais e não me abandoneis. Não procuro bens terrestres, mas a graça de Deus e o amor a vosso divino Filho. Orai por mim, minha Mãe.
Não cesseis de rogar, a fim de que por vossa intercessão e em virtude dos merecimentos de Jesus Cristo alcance a salvação. É vosso ofício interceder pelos pecadores, exercei-o para comigo — como dizia São Tomás de Vilanova. — Recordai-me a Deus e defendei-me. Não há causa, por mais desesperada que seja, que se perca quando é defendida por vós. Sois a esperança dos pecadores e a minha esperança... Nunca deixarei, Virgem Santa, de servir-vos, de amar-vos e de recorrer a vós...
Não deixeis de socorrer-me, sobretudo quando me virdes em perigo de perder novamente a graça do Senhor.
Ó Maria, excelsa Mãe de Deus, tende compaixão de mim!

4 de junho de 2014

Preparação para a Morte

CONSIDERAÇÃO XXXII
 
Da confiança na proteção de Maria Santíssima
Qui invenerit me, inveniet vitam, et hauriet salutem a Domino. Quem me encontrar, encontrará a vida, e alcançará do Senhor a salvação (Pr 8,35).
 
PONTO I
 
Quantas graças devemos render à misericórdia divina, exclama São Boaventura, por ter-nos dado como advogada a Virgem Maria, cujas súplicas podem alcançar-nos todas as mercês que desejamos!... Pecadores, meus irmãos, mesmo que nos acharmos já condenados ao inferno em vista das nossas iniqüidades, não desesperemos, entretanto.
Recorramos a esta divina Mãe, abriguemo-nos debaixo do seu manto, e ela nos salvará. Ela apenas exige de nós a resolução de mudar de vida. Tomemo-la, pois; confiemos verdadeiramente em Maria Santíssima, e ela nos alcançará a salvação... Porque Maria é advogada piedosíssima, advogada que a todos nós deseja salvar.
Consideremos, primeiramente, que Maria é advogada poderosa, que tudo pode junto ao soberano Juiz, em proveito e benefício daqueles que devotamente a servem... Singular privilégio concedido pelo mesmo Juiz, Filho da Virgem! “É grande privilégio que Maria seja poderosíssima junto a seu Filho”. Afirma Gerson que a bem-aventurada Virgem nos obtém de Deus quando lhe pedirmos com firme vontade e que como rainha ordena aos anjos que iluminem, aperfeiçoem e purifiquem os seus devotos. À vista disto, a Igreja, querendo inspirar-nos confiança nessa nossa grande advogada, induz-nos a invocá-la com o título de Virgem poderosa: Virgo potens, ora pro no-bis... E por que é tão eficaz a proteção de Maria Santíssima? Porque é a Mãe de Deus. As petições da Virgem Maria — disse Santo Antonino, — sendo como é Mãe do Senhor, são em certo modo ordens para Jesus Cristo; assim não é possível que, quando peça, não alcance o que pede. São Gregório, arcebispo de Nicomédia, diz que o Redentor, para satisfazer a obrigação que tem com sua Santa Mãe, da qual recebeu a natureza humana, concede tudo quanto Maria solicita. E Teófilo, bispo de Alexandria, escreve estas palavras: “Deseja o Filho que sua Mãe lhe peça, porque quer outorgar-lhe quanto peça, a fim de lhe recompensar assim o favor que dela recebeu”. Com razão, pois, exclamava São Metódio, mártir: “A-legra-te e regozija-te, Maria, que lograste a ventura de ter por devedor ao Filho de quem todos nós somos devedores, porque tudo quanto possuímos é dádiva sua!....
Do mesmo modo, Cosme de Jerusalém repete que o auxílio de Maria é onipotente, e o confirma Ricardo de São Lourenço, observando quão justo é que a Mãe participe do poder do Filho, e que, sendo este onipotente, comunique à sua Mãe a onipotência. O Filho é onipotente por natureza; a Mãe é onipotente pela graça, de modo que obtém com suas súplicas quando deseja, conforme o célebre verso: “Quod Deus imperio, tu prece, Virgo, potes”. (Podes, Virgem, com tuas preces, — o que Deus com seu império).
A mesma doutrina consta das Revelações de Santa Brígida (Liv. I, cap. IV). Ouviu essa Santa que Jesus disse à sua bendita Mãe que lhe pedisse quanto quisesse e que, quaisquer que fossem suas súplicas, nunca rogaria em vão. O próprio Senhor foi quem deu o motivo desse privilégio, dizendo: “Já que nada me recusaste quando vivias na terra, justo é que nada te recuse agora que estás comigo no céu”.
Em suma: não há ninguém, por mais malvado que seja, que Maria não possa salvar por meio de sua intercessão... Ó Mãe de Deus! exclamava São Gregório de Nicomédia — nada pode resistir ao vosso poder, porque aquele que vos criou considera e estima a vossa glória como se fosse propriamente dele. Vós, Senhora, podeis tudo, — diz também São Pedro Damião, — podeis até salvar os desesperados.
 
AFETOS E SÚPLICAS
 
Amantíssima Rainha e minha Mãe, dir-vos-ei com São Germano: “Sois onipotente para salvar os pecadores e não tendes necessidade perante Deus de outro encômio do que ser a Mãe da verdadeira vida.
Assim, minha Senhora, recorrendo a vós, todo o peso dos meus pecados não pode fazer-me desconfiar de minha salvação. Por meio de vossas súplicas, alcançais quanto quereis e se rogardes por mim certamente me salvarei. Rogai, pois, por mim — direi com São Bernardo, — porque vosso divino Filho vos escuta e vos concede quanto lhe pedirdes.
Sou pecador, é verdade, mas quero emendar-me e me desvaneço em ser vosso servo dedicado. Sou indigno também da vossa proteção, mas sei que nunca desamparais aquele que em vós deposita a sua esperança.
Podeis e quereis salvar-me, e, por isso, confio em vós... Quando vivia afastado de Deus e não pensava em vossa bondade, vós vos lembráveis de mim e me alcançastes a graça de emendar-me. Quanto mais devo confiar em vossa clemência, agora que me consagro ao vosso serviço, que em vós espero e me recomendo a vós! Ó Maria, rogai por mim e tornai-me santo. Alcançai-me a graça da perseverança e do amor profundo ao vosso Filho e a vós mesma. Amo-vos, minha Rainha e Mãe amabilíssima, e espero amar-vos sempre. Amai-me também e pelo vosso amor transformai-me de pecador em santo.

3 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO III

Consideremos o terceiro inimigo, a carne, que é o pior de todos, e vejamos como deveremos combatê-la. Em primeiro lugar por meio da oração, conforme já vimos acima. Em segundo lugar, evitando as ocasiões como iremos ver e ponderar atentamente. Disse São Bernardino de Sena que o conselho mais excelente (que é para bem dizer a base e o fundamento da vida religiosa) consiste em evitar sempre as ocasiões do pecado. Constrangido pelos exorcismos, confessou certa vez o demônio que, entre todos os sermões, o que mais detesta é aquele em que se exortam os fiéis a fugirem das más ocasiões. E com efeito, o demônio se ri de todas as promessas e propósitos que formule o pecador arrependido, se este não evitar tais ocasiões.
Em matéria de prazeres sensuais, a ocasião é como uma venda posta diante dos olhos e que não permite ver nem propósitos, nem instruções, nem verdades eternas; numa palavra, cega o homem e o faz esquecer-se de tudo. Tal foi a perdição de nossos primeiros pais: não fugiram da ocasião. Deus lhes havia dito que não colhessem o fruto proibido. “Ordenou Deus — disse Eva à serpente — que não o comêssemos nem tocássemos”(Gn 3,3). Mas o imprudente “o viu, o tomou e comeu”. Começou a admirar a maçã, colheu-a depois com a mão, até que por fim comeu dela. Quem voluntariamente se expõe ao perigo, nele perecerá (Ecl 3,27). Adverte São Pedro que o demônio anda ao redor de nós, procurando a quem devorar. Para tornar a entrar numa alma donde foi expulso, diz São Cipriano, somente aguarda a ocasião oportuna. Quando a alma se deixa seduzir pela ocasião do pecado, o inimigo se apoderará novamente dela e a devorará irremediavelmente.
O abade Guerico diz que Lázaro ressuscitou com as mãos e pés atados, e por isso ficou sujeito à morte. Infeliz daquele que ressuscitar e ficar preso nos laços das ocasiões do pecado! Apesar de sua ressurreição, tornará a morrer. Quem quiser salvar-se, precisa renunciar, não somente ao pecado, mas também às ocasiões de pecado, isto é, deve afastar-se deste companheiro, daquela casa, de certas relações de amizade...
Poderá alguém objetar que, ao mudar de vida, abandonou inteiramente o fim ilícito em suas relações com determinadas pessoas e que, portanto, já não há receio de tentações. A propósito, recordarei o que se conta de certa espécie de ursos da Mauritânia, que vão à caça de macacos.
Estes animais, ao ver o inimigo, trepam para o alto das árvores.
O urso estende-se junto ao tronco, fingindo-se morto, e quando os macacos, confiados, descem ao solo, levanta-se, apanha-os e os devora.
Tal é a astúcia do demônio: persuade que as tentações estão mortas e quando os homens condescendem com as ocasiões perigosas, apresenta-lhes de súbito a tentação que os faz sucumbir. Quantas almas infelizes, que praticavam a oração, que freqüentavam a comunhão e que se podiam chamar santas, deixaram-se prender nos tentáculos do inferno, porque não evitaram as más ocasiões. Lê-se na História Eclesiástica que uma senhora virtuosa, no tempo da perseguição aos cristãos, dedicava-se à piedosa obra de recolher e enterrar os corpos dos mártires. Entre eles encontrou um que ainda respirava. Levou-o para casa, tratou-o e chegou a curá-lo. Aconteceu, porém, que pela ocasião próxima, essas duas pessoas, que se podiam chamar santas, perderam primeiramente a graça de Deus e depois até a fé cristã.
O Senhor ordenou a Isaías que pregasse que toda a carne não é mais que feno (Is 40,6). Comentando este texto, disse São João Crisóstomo: É possível que o feno deixe de arder, quando se lhe deita o fogo? Com efeito, acrescenta São Cipriano: É impossível ficar numa fogueira e não queimar-se. A nossa força, adverte o profeta, é como a estopa posta ao fogo (Is 1,31). Também Salomão nos diz que seria um louco aquele que quisesse caminhar por cima de um braseiro sem que se lhe queimassem as plantas dos pés (Pr 6,27-28). Não é menor a loucura daquele que pretende expor-se às ocasiões e não cair em falta.
É preciso fugir do pecado, como de uma serpente venenosa (Ecl 21,2).
É preciso evitar, não apenas a mordedura da serpente, escreve Gualfrido, mas também o seu contato e até a sua aproximação.
Dirás, talvez, que aquela casa, aquela amizade favorecem os teus interesses. Entretanto, se aquela casa é para ti caminho do inferno (Pr 7,27) e não renuncias a salvar-te, torna-se, em absoluto, necessário que a abandones resolutamente. Se teu olho direito, disse o Senhor, te pode ser causa de condenação, deves arrancá-lo e atirá-lo para longe de ti... (Mt 5,29). Note-se a expressão abs te do texto: é necessário atirá-lo, não a teu lado, mas para longe de ti, isto é: impende evitar todas as ocasiões.
Disse São Francisco de Assis que o demônio tenta as pessoas espirituais, que se dão a Deus, de modo mui diferente do que costuma tentar as de má vida. A princípio não as prende com uma corda, mas com um cabelo; depois, com um fio; a seguir, com um barbante e, por fim, com uma corda grossa, que as arrasta ao pecado. Aquele, portanto, que deseja escapar de tais ardis, deve evitar, desde o princípio, o enredar de um cabelo, fuja de todas as ocasiões perigosas, relações, cumprimentos, obsequiosidades e outras semelhantes; e, sobretudo, aquele que já teve o hábito da impureza não se limite a evitar as ocasiões próximas; pois, se não fugir também das remotas, cairá de novo.
Quem quiser verdadeiramente salvar-se, terá de robustecer e renovar com muita freqüência a resolução de nunca mais se separar de Deus, repetindo muitas vezes aquela máxima dos Santos: “Antes perder tudo do que perder a Deus”. Não basta, porém, a resolução de não perder a Deus, se não empregamos os meios estabelecidos para a conservação desse bem supremo. O primeiro é, como já ficou dito, evitar as ocasiões. O segundo, freqüentar os sacramentos da confissão e comunhão, porque a casa que muitas vezes se limpa não pode deixar de ser asseada. A confissão mantém a alma pura e alcança, não somente a remissão dos pecados, mas também a força necessária para resistir às tentações. A sagrada comunhão chama-se pão do céu, porque, assim como o corpo não pode viver sem sustento terrestre, assim a alma não pode viver sem o alimento celeste. “Se não comerdes a carne do Filho do homem nem beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6,54). Ao contrário, a vida eterna é prometida a quem come com freqüência este pão divino (Jo 6,52). Por isso, o Concílio de Trento chama a comunhão antídoto que nos livra dos pecados veniais e nos preserva dos mortais. O terceiro meio é a meditação ou oração mental: “Lembra- te de teus novíssimos, e não pecarás jamais” (Ecl 7,40). Aquele que não perder de vista as verdades eternas, a morte, o juízo, a eternidade, não cairá no pecado. Deus ilumina-nos na meditação (Sl 53,6) e nos fala interiormente, ensinando-nos o que devemos praticar e o que temos a evitar. “Levá-lo-ei ao deserto e lhe falarei ao coração” (Os 2,14).
A meditação assemelha-se a uma fogueira benfazeja, na qual nos inflamamos de amor divino (Sl 38,4). Enfim, como já temos considerado, para conservar-nos na graça de Deus, é absolutamente necessário rezar sempre e pedir as graças de que hemos mister. Quem não pratica a oração mental dificilmente reza; e não rezando se perderá certamente.
Impende, pois, empregar todos esses meios para nos salvar e levar vida regrada. De manhã, ao levantar-nos, temos de fazer os atos cristãos de agradecimento, de amor, de oferecimento e bom propósito, com orações a Jesus e a Maria para que nos preservem do pecado nesse dia. A seguir, faremos a meditação e assistiremos à santa missa.
Durante o dia dediquemo-nos à leitura espiritual, visitemos a Jesus Sacramentado e a divina Mãe. À noite, rezemos o rosário e não deixemos o exame de consciência. Devemos comungar uma ou duas vezes por semana, segundo o conselho do diretor espiritual que escolhemos para lhe obedecer constantemente. Muito útil seria fazer exercícios espirituais em alguma casa religiosa. Cumpre honrar também a Maria Santíssima com alguma prática especial, como, por exemplo, jejuar aos sábados. É Mãe da perseverança e promete este dom a quem a serve.
“Aqueles que por mim trabalham, não pecarão” (Ecl 24,30). Por fim, e sobretudo, é necessário que peçamos a Deus a santa perseverança, especialmente no tempo das tentações, invocando então freqüentemente os santíssimos nomes de Jesus e Maria enquanto a tentação persistir.
Se assim o fizeres, serás salvo; contrariamente a condenação será certa.

AFETOS E SÚPLICAS

Meu amantíssimo Redentor, agradeço-vos as luzes com que me iluminais e os meios que me ofereceis para salvar-me. Prometo empregá-los com diligência. Dai-me vosso auxílio para vos ser fiel. Desejais que me salve e eu também o desejo principalmente para agradar ao vosso Coração amantíssimo, que tanto deseja a minha felicidade. Não quero, meu Deus, resistir por mais tempo ao amor que me manifestais, e pelo qual me suportastes com tanta paciência quando eu vos ofendia.
Convidais-me a que vos ame e amar-vos, Senhor, é o meu único desejo...
Amo-vos, bondade infinita... Amo-vos, infinito bem. Pelos merecimentos de Jesus Cristo, rogo-vos que não permitais que me torne ingrato novamente. Ou acabai com minha ingratidão ou acabai com minha vida... Concluí, meu Deus, a obra que começastes (Sl 67,26). Dai-me luzes, força e amor...
Maria Santíssima, que sois a dispensadora das graças, socorrei-me! Admiti-me, como o desejo, por vosso servo, e rogai a Jesus por mim. Pelos merecimentos de Jesus Cristo, e depois pelos vossos, espero salvar-me.