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13 de março de 2010

SANTA MISSA EXPLICADA - PARTE 10 (FINAL)

A MISSA DE SÃO PIO V EXPLICADA

Fontes:
- Explicações sobre as partes da Missa: "Curso de Liturgia" - Pe.Reus;
- Citações: "Suma Teológica", de Santo Tomás de Aquino; "Missal Quotidiano e Vesperal", de Dom Gaspar Lefebvre;




PARTE X - DESPEDIDA








A despedida. A assembléia litúrgica, desde os tempos antigos, era dissolvida por ordem do bispo: Três fórmulas se usam:


1) Ite, Missa est. Retirai-vos; pois é hora da despedida. É usada desde o século VI e VII. Diz-se nas missas que têm Gloria. Parece que outrora estava reservada, como o Gloria, aos bispos.

2) Benedicamus Domino, diz-se nas missas sem Gloria. Esta fórmula já no século XI era quase geral.

3) Requiescant in pace, nas missas de réquie. Já pelo ano de 1200 era costume geral dizê-la.

Enquanto o diácono canta Ite, Missa est, o celebrante fica virado para o povo, porque o celebrante propriamente é quem despede os fiéis; o diácono fá-lo só por autorização dele. Benedicamus Domino e Requiescant in pace são orações que os celebrantes proferem voltados para o altar. (d.2572 ad 22.)


I. “Placeat” e bênção

O Placeat. Com o lte, Missa est a solenidade está terminada. O Placeat, a bênção e o último evangelho são aditamentos recentes, fixados por Pio V.

No Placeat (desde o século IX) o celebrante suplica a Deus, humildemente inclinado, que aceite o sacrificio oferecido. Em seguida levanta os olhos e ergue as mãos ao alto, às quais estende e "fecha" (Rubr.), gestos estes que indicam fonte divina da bênção e o desejo de recebê-la. Depois o celebrante comunica estes bens celestiais aos fiéis, dizendo: Benedicat vos omnipotens Deus, Pater et Filius et Spiritus Sanctus, traçando ao mesmo tempo uma vez o sinal da cruz. O Pai é a causa da salvação pela graça e pela predestinação, o Filho pelo seu sacrifício e o Espírito Santo pela nova criação e santificação. (I Ped 1, 2.) Os prelados fazem três cruzes, um privilégio que lhes foi reservado por Pio V. Pois antigamente também os simples sacerdotes davam a tríplice benção.

Conforme as palavras proferidas pelo sacerdote, é Deus mesmo quem dá a bênção. Concorda esta verdade com a oração dada a Moisés: Invocarão os sacerdotes o meu nome sobre todos os filhos de Israel, e eu lhes darei a bênção. (Nm 6, 27.) Ausentando-se da terra, Nosso Senhor deu a benção aos apóstolos (At 1), comunicando-lhes a sua proteção e o seu auxílio especial. Por isso também o cristão, confortado pela bênção na missa, volta para as suas lidas domésticas com novo ânimo.


Pláceat tibi, sancta Trínitas, obséquium servitútis meæ: et præsta; ut sacrifícium, quod óculis tuæ majestátis indígnus óbtuli, tibi sit acceptábile, mihíque et ómnibus, pro quibus illud óbtuli, sit, te miseránte, propitiábile. Per Christum Dóminum nostrum. Amen.


Benedícat vos omnípotens Deus, Pater, et Filius, et Spíritus Sanctus. Amen.


Aceitai com agrado, Trindade Santa, a homenagem deste vosso servo; este sacrifício, que eu, embora indigno, aos olhos da vossa Majestade acabo de oferecer, tornai-o digno de ser por Vós aceite e, pela vossa msiericórdia, seja causa de propiciação para mim e para todos aqueles por quem o ofereci. Ámen.

Abençoe-vos o Deus omnipotente, Pai, Filho e Espírito Santo. Ámen.

II. Último Evangelho

O último evangelho de São João é a parte mais recente da missa. Encontra-se no século XIII, tornou-se geral no século XV. Motivos para recitá-lo no fim da missa seriam:

a) a grande confiança que o povo tinha e tem nele por causa da sua eficácia, para proteger contra os demônios e as suas infestações. Pois é um exorcismo (Rit. XI, c. 2, n.3), usado também nas famílias. Em caso de trovoada violenta, acende-se uma vela e reza-se o evangelho de São João, contra os demônios. Por isto explica-se o desejo dos fiéis que este exorcismo se rezasse no fim da missa, para proteger os frutos da agricultura.


b) a devoção do celebrante. Pois é uma ação de graças muito própria, pela profissão de fé na divindade de Jesus Cristo; pelas palavras: In propria venit et sui eum non receperunt, inciso este que exprime a humildade do celebrante, em cujo coração Nosso Senhor entrou; pelas palavras: Et Verbum caro factum est, cuja recitação depois da comunhão estava prescrita por missais medievais.

O costume de recitar, em certos dias, um evangelho diferente do de São João, é muito recente. Teria a sua origem a) talvez na Missa sicca que alguns sacerdotes, em dia com dois formulários de missa, diziam em segundo lugar; b) na intenção de comemorar o ofício impedido não só pelas orações, mas também pelo evangelho, numa das partes principais dos elementos móveis da missa.

V.Dóminus vobíscum.
R. Et cum spíritu tuo.
Inítium sancti Evangélii secúndum Joánnem.
R. Glória tibi, Dómine

In princípio erat Verbum, et Verbum erat apud Deum, et Deus erat Verbum. Hoc erat in princípio apud Deum. Omnia per ipsum facta sunt: et sine ipso factum est nihil, quod factum est: in ipso vita erat, et vita erat lux hóminum: et lux in ténebris lucet, et ténebræ eam non comprehendérunt.
Fuit homo missus a Deo, cui nomen erat Joánnes. Hic venit in testimónium, ut testimónium perhibéret de lúmine, ut omnes créderent per illum. Non erat ille lux, sed ut testimónium perhibéret de lúmine.
Erat lux vera, quæ illúminat omnem hóminem veniéntem in hunc mundum. In mundo erat, et mundus per ipsum factus est, et mundus eum non cognóvit. In própria venit, et sui eum non recepérunt. Quotquot autem recepérunt eum, dedit eis potestátem fílios Dei fíeri, his, qui credunt in nómine ejus: qui non ex sanguínibus, neque ex voluntáte carnis, neque ex voluntáte viri, sed ex Deo nati sunt. (ajoelha-se) Et Verbum caro factum est et habitávit in nobis: et vídimus glóriam ejus, glóriam quasi Unigéniti a Patre, plenum grátiæ et veritátis.

R. Deo grátias.

O Senhor seja convosco.
R. E também com o teu espírito
Princípio do santo Evangelho segundo S. João
R. Glória a Vós, Senhor.
.
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus. Estava Ele no princípio com Deus Tudo por Ele foi feito, e nada de quanto se fez foi feito sem Ele. N’Ele estava a vida, e a vida era a luz dos homens; e a luz brilha nas trevas, e as trevas não a receberam.
Houve um homem enviado por Deus, chamado João, o qual veio como testemunho, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por via dele. Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz.
Era (o Verbo) a luz verdadeira que ilumina todo o homem que vem a este mundo. Estava no mundo, e o mundo foi feito por Ele, e o mundo não O reconheceu. Veio para o que seu, e os seus não O receberam. A todos, porém, quantos O receberam, deu Ele o poder de se tornarem filhos de Deus, quer dizer, àqueles que crêem no seu nome, que nem do sangue, nem do desejo da carne, nem da vontade do homem, mas só de Deus nasceram. E o Verbo se fez carne e veio habitar entre nós; e nós vimos a sua glória, glória do Filho Unigênito do Pai, cheio de graça e verdade.

R. Graças a Deus.

6 de março de 2010

SANTA MISSA EXPLICADA - PARTE 9

A MISSA DE SÃO PIO V EXPLICADA

Fontes:
- Explicações sobre as partes da Missa: "Curso de Liturgia" - Pe.Reus;
- Citações: "Suma Teológica", de Santo Tomás de Aquino; "Missal Quotidiano e Vesperal", de Dom Gaspar Lefebvre; e "Catecismo Maior de São Pio X;

PARTE IX - COMUNHÃO


“Em continuação, trata-se da “recepção” do sacramento. 1º. Antes de tudo, prepara-se o povo para recebê-lo. Isso se faz primeiramente pela oração comum de todo o povo, que é o Pai Nosso, no qual pedimos “panem nostrum quotidianum da nobis hodie” (“o pão nosso de cada dia nos dai hoje”); e também pela oração particular que o sacerdote recita pelos fiéis, ao dizer: “Libera nos, quaesumus, Domine” (“Livrai-nos, Senhor”). 2º. Esta preparação acontece também por meio da paz, que se dá dizendo: “Agnus Dei” (“Cordeiro de Deus”). Com efeito, este é o sacramento da unidade e da paz. Nas missas de defunto, em que este sacrifício é oferecido, não pela paz presente, mas pelo descanso dos mortos, omite-se a paz.
Dando continuação, segue-se a recepção do sacramento. 1º. Comunga o sacerdote. Depois ele distribui aos outros, porque, como diz Dionísio, quem distribui aos outros os mistérios divinos, deve antes participar deles.
Finalmente, toda a celebração da missa termina com a “ação de graças”. Os fiéis exultam pela recepção do mistério, o que se exprime pela antífona da comunhão. O sacerdote o faz pela oração depois da comunhão, assim como Cristo, tendo celebrado a Ceia com os discípulos, “cantou os salmos” (Mt XXVI, 30)”
(Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.4).

I. “Pater Noster”

“Na Oração Dominical [“Pater Noster”], não somente se pede tudo aquilo que podemos desejar retamente, como também a ordem em que devemos desejar: de tal forma que essa oração nos ensina não só a pedir como também é normativa dos nossos sentimentos” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q.83, a.9).

Em todas as Liturgias, depois da consagração, que é o ato sacrifical, vem a participação dos fiéis no sacrifício, a comunhão. Também no antigo testamento o povo tomava parte em certos sacrifícios pela ceia no templo.

O Pater Noster. As preces desta parte são orações de preparação e de ação de graças. Os frutos da s.comunhão dependem da fé, da humildade, da confiança, do desejo, da caridade de quem se aproxima da santa mesa. Para despertar estes atos a Igreja prescreve orações próprias para êste fim, em primeiro lugar o Padre Nosso. O pão eucarístico é objeto de desejo na quarta petição, segundo o testemunho comum dos Santos Padres. A petição: Perdoai-nos as nossas dividas, tem grande eficácia para purificar a alma e para perdoar os pecados. Também os outros atos mencionados se acham na "Oração do Senhor".

O Padre Nosso, como parte da Liturgia, é indicado por S. Justino (sec. II), S. Cirilo de Jerusalém, S. Jerônimo, S. Agostinho, no fim do IV e no comêço do V século.

Na Liturgia grega e na galicana o Padre Nosso era cantado pelo povo. No rito romano o povo responde com a última petição para dar a entender que o celebrante agiu em nome do povo inteiro. O Amen no fim do Padre Nosso acrescenta-se desde a idade média. É o celebrante quem o diz, confirmando a petição proferida pelos fiéis e as petições precedentes.

O lugar de honra logo depois do cânon foi-lhe assinalado por Gregório Magno. Nas outras Liturgias, como outrora na romana, o Padre Nosso devia-se recitar depois da fração da s. hóstia.

O Embolismo. A última petição do Pater: "livrai-nos do mal", é amplificada pelo embolismo (= acréscimo). O celebrante ora, para alcançar a paz interior e exterior, invocando Maria SS., S. Pedro, S. Paulo e S. André. Antigamente podia-se ajuntar o nome de qualquer santo. O nome de S.André, dizem, foi inserido por devoção especial de S.Gregório.

O Libera provavelmente é uma oração antiga e foi na redação do rito da missa adaptada ao Padre Nosso.

ORÉMUS. Præcéptis salutáribus móniti, et divína institutióne formáti, audémus dícere:
Pater noster, qui es in cælis: sanctificétur nomen tuum: advéniat regnum tuum: fiat volúntas tua, sicut in cælo, et in terra. Panem nostrum quotidiánum da nobis hódie: et dimítte nobis débita nostra, sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris. Et ne nos indúcas in tentatiónem,
R. Sed líbera nos a malo.

Líbera nos, quáesumus, Dómine, ab ómnibus malis, prætéritis, præséntibus et futúris: et intercedénte beáta et gloriósa semper Vírgine Dei Genitríce María, cum beátis Apóstolis tuis Petro et Paulo, atque Andréa, et ómnibus Sanctis, da propítius pacem in diébus nostris; ut, ope misericórdiæ tuæ adjúti, et a peccáto simus semper líberi et ab omni perturbatióne secúri. Per eúmdem Dóminum nostrum Jesum Christum, Fílium tuum. Qui tecum vivit et regnat in unitáte Spíritus Sancti Deus,

Per ómnia saécula saeculórum.
R. Amen

OREMOS. Advertidos pelos preceitos do Salvador e instruídos pelos divinos ensinamentos, ousamos dizer:
Pai nosso, que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra, como no céu. O pão nosso de cada dia nos daí hoje, perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, a não nos deixeis cair em tentação.
R. Mas livrai-nos do mal.


Livrai-nos, Senhor, de todos os males, passados, presentes e futuros, e, pela intercessão da bem-aventurada e gloriosa sempre Virgem Maria, Mãe de Deus, dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo e André, e de todos os Santos, concedei-nos propício a paz em nossos dias; de modo que, ajudados com os auxílios da vossa misericórdia, sejamos sempre livres do pecado e assegurados contra toda perturbação. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que, sendo Deus, convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo,

Por todos os séculos dos séculos.
R. Ámen.


II. Fração da Hóstia

A "fração do pão". O subdiácono entrega a patena ao diácono, que a dá ao celebrante. Este benze-se com a patena e a beija reverentemente, dizendo: da propitius pacem. A patena é o vaso em que repousa o SS. Sacramento. Tomando "continens pro contento", a patena representa o SS. Sacramento. Venerando a patena, o celebrante honra a Nosso Senhor e recebe d’Ele e por Ele a paz que pede, e com a paz as virtudes sem as quais ela não existe: caridade, humildade, confiança e outras. Sem dúvida, é esta uma boa preparação para a sagrada comunhão. Antigamente dava-se logo o ósculo da paz.

Dizendo: per Dominum nostrum Jesum Christum e confessando crer que em cada parte da s.hóstia está o Filho de Deus presente, parte-a e põe uma metade na patena, continuando: qui tecum vivit et regnat; tira da outra metade uma parte pequena e ajunta-a à que está na patena dizendo: in unitáte Spiritus Sancti, confessando a perfeita igualdade em poder e glória das três Pessoas divinas. É uma doxologia muito própria para o momento da fração do pão eucarístico.

Traçando com a partícula três cruzes sôbre o cálix, diz: pax Domini sit semper vobiscum; indica que da cruz e da Eucaristia brota a paz. Deitando esta partícula no vinho consagrado com as palavras: Haec commixtio et consecratio, etc., enuncia a unidade do SS. Sacramento apesar das duas espécies. Estas cerimônias atuais são convenientes e de profunda significação, escolhidas pela Igreja entre as muitas que estavam em uso.

A fração do pão era cerimônia muito demorada, pois que se deviam romper os pães para a comunhão do povo. Nos primeiros séculos, fazia-se isto em silêncio. No século VII começou-se a cantar o Agnus Dei durante este rito.

Pax Dómini sit semper vobíscum.
R. Et cum spíritu tuo.
Hæc commíxtio, et consecrátio Córporis et Sánguinis Dómini nostri Jesu Christi, fiat accipiéntibus nobis in vitam ætérnam. Amen.


A paz do Senhor seja sempre convosco.
R. E também com o teu espírito.
Que esta mistura sagrada do Corpo e Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo seja para nós, que os vamos receber, penhor da vida eterna. Ámen.


“A fração da hóstia significa três coisas. Antes de tudo, a divisão sofrida pelo Corpo de Cristo. Em segundo lugar, a distinção do Corpo Místico segundo os seus diversos estados. Enfim, a distribuição das graças advindas da paixão de Cristo, como Dionísio ensina. Daí segue que a fração não implica divisão de Cristo” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.5 ad7)

“Podem-se encontrar dois significados no cálice. Primeiramente, a paixão que este sacramento representa. E, por esta razão, estão simbolizados pela parte colocada no cálice aqueles que ainda participam dos sofrimentos de Cristo.
Em segundo lugar, ele pode significar o gozo eterno, que está prefigurado neste sacramento. Deste modo, estão simbolizados pela parte colocada no cálice aqueles cujos corpos já estão na plena bem-aventurança”
(Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.5 ad9).

“A ressurreição realizada no terceiro dia. É simbolizada por três cruzes traçadas com as palavras: “Pax domini sit semper vobiscum” (“A paz do Senhor esteja sempre convosco”)” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.5 ad3).

III. “Agnus Dei”

O Agnus Dei foi introduzido pelo Papa Sérgio (+ 701) que, oriundo de família síria, conheceu a Liturgia oriental com o seu canto à fração do pão. Assim se explica por que na missa do sábado santo falta o Agnus Dei. Pois nela se guarda o rito antigo sem Agnus Dei. Esta invocação é repetida três vêzes desde o século IX. Na terceira repetição todo o povo pede a paz: dona nobis pacem, na missa solene.

Agnus Dei, qui tollis peccáta mundi,
R. Miserére nobis.
Agnus Dei, qui tollis peccáta mundi,
R. Miserére nobis.
Agnus Dei, qui tollis peccáta mundi,
R. Dona nobis pacem


Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo,
R. Tende misericórdia de nós.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo,
R. Tende misericórdia de nós.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo,
R. Dai-nos a paz.


IV. Ósculo e Oração da Paz

De novo o celebrante pede a paz na oração: "Domine... pacem relinquo vobis" para toda a Igreja. Na missa solene beija o altar, para indicar que a verdadeira paz tem a sua fonte unicamente em Jesus Cristo. Depois comunica-a ao diácono com as palavras: pax tecum, e êste ao subdiácono e ao clero. Sempre se responde: Et cum spiritu tuo, porque é o espírito do celebrante, que passa adiante.

A paz antigamente se dava aos fiéis no principio da missa. Mas foi transferida para antes da comunhão como uma excelente preparação para ela. Nas missas de réquie a paz não se dá, porquanto neste caso a paz e a graça de Deus se aplicam em primeiro lugar às almas do purgatório,

Dómine Jesu Christe, qui dixísti Apóstolis tuis: Pacem relínquo vobis, pacem meam do vobis: ne respícias peccáta mea, sed fidem Ecclésiæ tua; eámque secúndum voluntátem tuam pacificáre et coadunáre dignéris: qui vivis et regnas Deus per ómnia sæcula sæculórum. Amen.

Senhor Jesus Cristo, que dissestes aos vossos Apóstolos: "Deixo-Vos a paz, dou-vos a minha paz", não olheis para os meus pecados, mas para a fé da vossa Igreja; dignai-Vos, como é desejo vosso, dar-lhe a paz e unidade, Vós que, sendo Deus, viveis e reinais por todos os séculos dos séculos. Ámen.


V. Orações para a Comunhão

As duas orações: Domine Jesu Christe Fili Dei, e Perceptio são a preparação pessoal do celebrante, em uso desde o século IX, introduzidas por devoção particular. Na primeira o celebrante pede perdão dos pecados e perseverança até à morte; na segunda a graça de ser preservado da comunhão sacrílega e a graça de receber os frutos da comunhão digna.

O celebrante adora Nosso Senhor sacramentado e, cheio de confiança, diz: "Receberei o pão do céu e invocarei o nome do Senhor", repetindo três vêzes as palavras do centurião: Domine, non sum dignus. Depois dá a si mesmo a bênção eucarística com as palavras: Corpus Domini N. I. C.I custodiat, e comunga. Agradece intimamente a graça recebida: quid retribuam Domino. Lembrando-se da ordem do Senhor: "fazei isto em memória de mim", continua dando a prova de amor: Calicem salutaris accipiam. Depois dá a si mesmo a bênção eucarística com as palavras: Sanguis Domini N. J. C. custodiat, e comunga reverentemente.

O momento mais solene da missa em geral é a vinda do Senhor para o altar na consagração. O momento mais solene para uma pessoa particular é o da comunhão. O Senhor, que desceu do trono celestial, fica no trono do altar só poucos minutos, para entrar depois no coração dos seus escolhidos e ai colocar para sempre o seu trono de misericórdia.

A comunhão espiritual dá ao menos uma parte dos frutos da comunhão sacramental. No rito galicano, depois do Pater noster dava-se a bênção aos que não comungavam. Estes também recebiam as eulogias, pães bentos não consagrados, os quais ainda se usam nos ritos orientais e em algumas regiões do Ocidente (certos lugares da Suíça e na diocese de Lião).

Dómine Jesu Christe, Fili Dei vivi, qui ex voluntáte Patris, cooperánte Spíritu Sancto, per mortem tuam mundum vivificásti: líbera me per hoc sacrosánctum Corpus et Sánguinem tuum ab ómnibus iniquitátibus meis, et univérsis malis: et fac me tuis semper inhærére mandátis, et a te numquam separári permíttas: Qui cum eódem Deo Patre et Spíritu Sancto vivis et regnas Deus in saécula sæculórum. Amen.

Percéptio Córporis tui, Dómine Jesu Christe, quod ego indignus súmere præsúmo, non mihi provéniat in judícium et condemnatiónem: sed pro tua pietáte prosit mihi ad tutaméntum mentis et córporis, et ad medélam percipiéndam: Qui vivis et regnas cum Deo Patre in unitáte Spíritus Sancti Deus, per ómnia saécula sæculórum. Amen.


Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, que, por vontade do Pai e com a cooperação do Espírito Santo, destes com a vossa morte a vida ao mundo, livrai-me, por este vosso sacrossanto Corpo e Sangue, de todas as minhas iniquidades e de todos os males; fazei que eu seja sempre fiel cumpridor dos vossos mandamentos e não permitais que jamais me afaste de Vós, que, com o mesmo Deus Pai e o Espírito Santo, viveis e reinais, Deus, pelos séculos dos séculos. Ámen.

Que a comunhão do vosso Corpo e Sangue, Senhor Jesus Cristo, que eu, embora indigno, ouso receber, não seja para juízo e condenação minha, mas antes, pela vossa misericórdia, me sirva de proteção e remédio para a alma e para o corpo, Vós que, sendo Deus, viveis e reinais com Deus Pai na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Ámen.

”Como na vida corporal, após ter o homem nascido e estar fortificado, ele tem necessidade dos alimentos para sustentar-se e conservar-se, assim também na vida espiritual, após ter recebido a força, lhe é necessário o alimento espiritual, que é o Corpo de Cristo. Lê-se em São João: “Se não comerdes a Carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu Sangue, não tereis a vida em vós” (Jo VI, 54)” (Santo Tomás de Aquino, “Expositio super Symbolo Apostolorum”)

“Os principais efeitos que a Santíssima Eucaristia produz em quem a recebe dignamente são estes: conserva e aumenta a vida da alma, que é a graça, assim como o alimento material sustenta e aumenta a vida do corpo; perdoa os pecados veniais e preserva dos mortais; produz consolação espiritual.

A Santíssima Eucaristia produz em nós outros três efeitos, a saber: enfraquece as nossas paixões, e em especial amortece em nós o fogo da concupiscência; aumenta em nós o fervor e ajuda-nos a proceder em conformidade com os desejos de Jesus Cristo; dá-nos um penhor da glória futura e da ressurreição do nosso corpo.

Para fazer uma comunhão bem feita, são necessárias três coisas: estar em estado de graça; estar em jejum desde uma hora antes da comunhão; saber o que se vai receber e aproximar-se da sagrada comunhão com devoção (...)

(...) No ato de receber a sagrada comunhão, devemos estar de joelhos, com a cabeça medianamente levantada, com os olhos modestos e voltados para a sagrada Hóstia, com a boca suficientemente aberta e com a língua um pouco estendida sobre o lábio inferior. Senhoras e meninas devem estar com a cabeça coberta”
(Catecismo Maior de São Pio X).

Panem cæléstem accípiam, et nomen Dómini invocábo.

(3x) Dómine, non sum dignus, ut intres sub tectum meum: sed tantum dic verbo, et sanábitur ánima mea.

Corpus Dómini nostri Jesu Christi custódiat ánimam meam in vitam ætérnam. Amen.

Quid retríbuam Dómino pro ómnibus quæ retríbuit mihi? Cálicem salutáris accípiam, et nomen Dómini invocábo. Laudans invocábo Dóminum, et ab inimícis meis salvus ero.

Sanguis Dómini nostri Jesu Christi custódiat ánimam meam in vitam ætérnam. Amen.

Tomarei o pão do céu, e invocarei o nome do Senhor.

(3x) Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada; mas dizei uma só palavra, e minha alma será salva.

O Corpo de nosso Senhor Jesus Cristo guarde a minha alma para a vida eterna. Ámen..

Que hei-de eu retribuir ao Senhor por tudo quanto Ele me concedeu? Tomarei o cálix da salvação, e invocarei o nome do Senhor. Em louvores invocarei o Senhor, e livre serei dos meus inimigos.

O Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo guarde a minha alma para a vida eterna. Ámen.

VII. Abluções

A fé nos ensina que Jesus Cristo está presente na partícula mais insignificante do pão e vinho consagrados. Por isso a Igreja prescreve a purificação do corporal, da patena e do cálix. O cálix e a boca do celebrante purificam-se com vinho, os dedos com vinho e água. Durante estas cerimônias recitam-se as orações: Quod ore sumpsimus, e Corpus tuum Domine quod sumpsi; estas orações outrora eram privadas. A forma no plural Sumpsimus explica-se pelo fato de ser esta oração a póscomunhão da quinta-feira na semana da paixão. Também Corpus tuum foi uma póscomunhão de origem galicana. O rito da ablução formou-se aos poucos na idade média.

Quod ore súmpsimus, Dómine, pura mente capiámus: et de múnere temporáli fiat nobis remédium sempitérnum.

Corpus tuum, Dómine, quod sumpsi, et Sanguis, quem potávi, adhaéreat viscéribus meis: et praésta; ut in me non remáneat scélerum mácula, quem pura et sancta refecérunt sacramenta: Qui vivis et regnas in saécula sæculórum. Amen.


Com pureza de alma recebamos, Senhor, o que em nossa boca tomamos. Este dom, que nos foi concedido no tempo, remédio nos seja para a eternidade.

O vosso Corpo, Senhor, que eu comi e o vosso Sangue que eu bebi se unam às minhas entranhas; refeito que fui com estes puros e santos sacramentos, fazei que em mim não fique mancha alguma de pecado, Vós que viveis e reinais pelos séculos dos séculos. Ámen.


“O vinho, em razão de sua umidade, é capaz de lavar. Por isso, o sacerdote o toma depois da comunhão deste sacramento para lavar a boca a fim de que aí não fique alguma partícula. Isso é por causa do respeito devido ao sacramento (...) pela mesma razão derrama um pouco de vinho sobre os dedos que tocaram o Corpo de Cristo” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.5 ad10).

VII. “Communio”

Depois de o celebrante ter tomado o SS. Sangue, o coro entoa a comunhão (= antiphona ad Communionem),que é diferente conforme as festas e os tempos eclesiásticos. Lembra esta rubrica (Communio) que durante a comunhão do povo se cantava um salmo inteiro, de preferência o salmo 33: Benedicam Dominum in omni tempore, com a antífona: Gustate et videte quoniam suavis est Dominus. Quando mais tarde somente o celebrante comungava, omitiam-se os versos e cantava-se só a antífona. Na Liturgia romana, só a comunhão da missa de réquie conserva ainda um verso. O celebrante recita a comunhão depois da ablução dos dedos.

*Exemplo de “Communio”, da Missa em honra do Sagrado Coração de Jesus:

“E um dos soldados abriu-Lhe o lado com a lança e logo jorrou água e sangue” (Jo XIX, 34).

“Se alguém tem sede, venha a Mim e beba, aleluia, aleluia” (Jo VII, 37) (Tempo Pascal).


IX. “Post-Communio”

Em todas as Liturgias, depois da comunhão, está prescrita uma oração para agradecer o dom recebido. É a póscomunhão. Verdade é que ela no rito romano raras vezes relativamente contém uma ação de graças formal. Assim a póscomunhão no 3.° domingo da quaresma: A cunctis... reatibus é indicada como secreta da missa do sábado da semana da paixão. Em geral a Igreja pede que os frutos da comunhão ou do s. sacrifício sejam aplicados aos fiéis. Esta instância inclui a gratidão, porquanto só se deseja o que se avalia com sentimentos de gratidão. Em lugar de Post-communio, esta oração tinha no sacramentário gregoriano a denominação: ad complendum: oração final. Nas Liturgias antigas, p.ex., das constituições apostólicas, a ação de graças é muito solene.

Nas férias da quaresma, depois do Postcommunio reza-se a oratio super populum, que tem o caráter de uma última bênção para o povo. O diácono anuncia-a pelo convite: Humiliate capita vestra Deo. Atualmente só está prescrita durante a quaresma. Mas nos livros antigos acha-se em muitos domingos, até em várias festas solenes: natal, epifania, pentecostes. O rito moderno tem a sua origem nas abreviações necessárias e no desenvolvimento da bênção final.

* Exemplo de “Post-Communio”, da Missa em honra do Sagrado Coração de Jesus:

“Que estes sagrados mistérios, Senhor Jesus, nos inflamem no amor divino: o qual nos faça sentir as suavidades do vosso Coração e nos ensine a desprezar a Terra e a amar o Céu. Vós que viveis e reinais (...)”.

31 de janeiro de 2010

SANTA MISSA EXPLICADA - PARTE 8

A MISSA DE SÃO PIO V EXPLICADA

Fontes:
- Explicações sobre as partes da Missa: "Curso de Liturgia" - Pe.Reus;
- Citações: "Suma Teológica", de Santo Tomás de Aquino; e "Missal Quotidiano e Vesperal", de Dom Gaspar Lefebvre;

PARTE VIII - CÂNON - ORAÇÕES DEPOIS DA CONSAGRAÇÃO

“Unde et Memores”

O Unde et memores (anamnese = recordação). "Fazei isto em memória de mim" são as palavras do Senhor. O celebrante em nome do clero (servi tui) e dos fiéis (plebs tua) cumpre esta vontade divina de três modos, pela recordação verbal, real e simbólica. Com palavras repassadas de gratidão enaltece durante o sacrifício incruento em primeiro lugar o mistério do sacrifício cruento, a saber, a sagrada paixão e depois também a glorificação do Redentor. Anuncia, como quer S. Paulo (I Cor 11, 26), "a morte do Senhor". Antigamente, às vezes, se acrescentavam os mistérios da incarnação, do nascimento ou do segundo advento. Porém havia sempre reação contra êstes acréscimos menos aptos.

A recordação real já se efetuou na consagração. Contudo o celebrante torna a fazê-la oferecendo em sacrifício a vítima pura, a vítima santa, a vítima imaculada, o pão santo e o cálix da salvação. A recordação simbólica pode-se ver pelas cinco cruzes que acompanham as últimas palavras e lembram a morte na cruz e as cinco santas chagas.

Unde et mémores, Dómine, nos servi tui sed et plebs tua sancta, ejúsdem Christi Fílii tui Dómini nostri tam beatæ passiónis, nec non et ab ínferis resurrectiónis, sed et in cælos gloriósæ ascensiónis: offérimus præcláræ majestáti tuæ de tuis donis ac datis, hóstiam puram, hóstiam sanctam, hóstiam immaculátam, Panem sanctum vitæ ætérnæ, et Cálicem salútis perpétuæ.

Por este motivo, Senhor, nós, vosso servos, e o vosso povo santoa, recordando a feliz Paixão do mesmo Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor nosso, bem como a sua Ressurreição de entre os mortos e a usa gloriosa Ascenção aos céus, oferecemos à vossa preclara Majestade, dos dons de que Vós próprio nos fizestes mercê, a hóstia pura, hóstia santa, hóstia imaculada, o pão santo da vida eterna e o cálix da eterna salvação.

“4ª etapa da Paixão: A própria paixão de Cristo. Por isso, para simbolizar as cinco chagas, traçam-se uma quarta vez cinco cruzes, ao se proferirem as palavras: “hostiam puram, hostiam sanctam, hostiam immaculatam, panem sanctum vitae aeternae, et calicem salutis perpetuae” (“hóstia pura, hóstia santa, hóstia imaculada, o pão santo da vida eterna e o cálice da salvação perpétua”)” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.5 ad3).

“Supra quae”

O Supra quae. De novo o celebrante pede a Deus que se digne aceitar êste sacrifício, "com rosto propício e sereno" corno aceitou os sacrifícios prefigurativos antigos de Abel, que ofereceu um cordeiro, de Abraão, que ofereceu o seu filho, e de Melquisedeque, que ofereceu pão e vinho, e que se digne conceder aos suplicantes as virtudes da inocência, da fé firme e da santidade, com que êstes três santos varões agradaram a Deus e se ofereceram em holocausto.

Supra quæ propítio ac seréno vultu respícere dignéris: et accépta habére, sícuti accépta habére dignátus es múnera púeri tui justi Abel, et sacrifícium patriárchæ nostri Abrahæ: et quod tibi óbtulit summus sacérdos tuus Melchísedech, sanctum sacrifícium, immaculátam hóstiam.

Sobre estas ofertas, dignai-Vos lançar olhar propício e complacente; aceitai-as, assim como Vos dignastes aceitar os dons do justo Abel, vosso servo, o sacrifício de Abraão, nosso pai, e que vos ofereceu o vosso sumo sacerdote Melquisedeque, sacrifício santo, hóstia imaculada.

“Ainda que este sacrifício em si mesmo seja superior a todos os sacrifícios antigos, contudo estes foram muito agradáveis a Deus por causa da devoção de quem os oferecia. Portanto, o sacerdote pede que este sacrifício seja aceito por Deus, em vista da devoção dos que o oferecem. Assim como foram aceitos os sacrifícios antigos” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.4 ad8).

“Supplices”

O Supplices. Não contente com a própria santidade, o sacerdote, humildemente inclinado, pede que um anjo leve a oferta à presença da divina Majestade e que os fiéis, pelo santo sacrifício, sejam "cheios de toda a bênção celeste e graça". A estas palavras o celebrante se benze, como para tomar parte nesta bênção divina.

O anjo de que aqui se fala é um, ou, em sentido coletivo, o côro dos espíritos celestes. Pois a eles, conforme a revelacão (Apoc 8, 3), compete este serviço sublime. Alguns julgam que este anjo seja Jesus Cristo, "o anjo do testamento" (Mal 3, 1). Mas as Liturgias orientais falam dos anjos em geral. Outros vêem no anjo o Espírito Santo. Mas esta explicação é hipótese duvidosa.

Súpplices te rogámus, omnípotens Deus: jube hæc perférri per manus sancti Angeli tui in sublíme altáre tuum, in conspéctu divínæ majestátis tuæ: ut quoquot ex hac altáris participatióne sacrosánctum Fílii tui Corpus, et Sánguinem sumpsérimus, omni benedictióne cælésti et grátia repleámur. Per eúmdem Christum Dóminum nostrum. Amen.

Suplicantes Vos rogamos, Deus omnipotente, façais que estas ofertas sejam levadas pelas mãos do vosso santo Anjo para o vosso sublime altar, à presença da vossa divina Majestade, a fim de que todos nós, que, comungando deste altar, recebermos o sacrossanto Corpo e Sangue do vosso Filho, sejamos cumulados de todas as bênçãos e graças celestes. Por Jesus Cristo Senhor nosso. Ámen.

“5ª etapa da Paixão: Os suplícios do corpo e o derramamento do sangue, e o fruto da paixão são simbolizados por meio das três cruzes traçadas com as palavras: “corpus et sanguinem sumpserimus, omni benedictione” (“a fim de que recebendo o corpo e sangue sejamos repletos de toda bênção”)” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.5 ad3).

“O sacerdote não pede que sejam levadas ao Céu as espécies sacramentais, nem o Corpo real de Cristo, que não cessa de lá estar presente. Mas pede isto para o Corpo Místico, que é significado neste sacramento, isto é, para que o anjo, presente aos divinos mistérios, apresente a Deus as orações dos fiéis e do sacerdote, conforme o dito do Apocalipse: “E a fumaça dos perfumes, com as orações dos santos, subiu diante de Deus pelas mãos do anjo” (Ap VIII, 4). Pois, “o sublime altar de Deus” significa ou a própria Igreja triunfante, para a qual pedimos ser transportados; ou o mesmo Deus, a quem pedimos ser unidos. Pois, é dito deste altar: “Não subirás a meu altar por degraus” (Ex XX, 26), isto é: “não farás degraus na Trindade”. Ou pelo anjo se entende o próprio Cristo, que é o “Anjo do Grande Conselho”, que une seu Corpo Místico a Deus Pai e à Igreja triunfante” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.4 ad9).

“Memento etiam”

O Memento dos mortos. Tendo rezado na oração procedente pelos vivos, o celebrante lembra-se etiam, também, das almas no purgatório. É esta recordação o resto da leitura dos dípticos antigos. Mas reza só pelos que, com caráter do batismo (signo fidei), em paz com Deus e com a Igreja (in somno pacis), passaram para a eternidade. Tendo recomendado à divina misericórdia as pessoas designadas nomeadamente, suplica também por todos os fiéis.

A Igreja como boa mãe não esquece nem o mais desconhecido dos seus filhos.

Durante o Memento o celebrante olha para a S.hóstia como num gesto natural de se dirigir a Deus presente, e motivado pelo fato de serem os fiéis "in Christo quiescentes". Ao Per eundem Christum, inclina a cabeça, o único lugar na Liturgia, em que se prescreve a inclinação ao nome de Cristo.

Meménto étiam, Dómine, famulórum famularúmque tuárum N. et N., qui nos præcessérunt cum signo fídei, et dórmiunt in somno pacis.
Ipsis, Dómine, et ómnibus in Christo quiescéntibus, locum refrigérii, lucis et pacis, ut indúlgeas, deprecámur. Per eúmdem Christum Dóminum nostrum. Amen.

Lembrai-Vos também, Senhor, dos vossos servos e servas (NN. e NN.), que nos precederam, marcados com o sinal da fé, e agora dormem no sono da paz.
A estes, Senhor, e a todos aqueles que repousam em Cristo, Vos pedimos concedais misericordioso o lugar do refrigério, da luz e da paz. Pelo mesmo Jesus Cristo Senhor nosso. Ámen.

“Nobis quoque”

O Nobis quoque peccatoribus. O celebrante pede para si e para o clero o que acaba de desejar às almas do purgatório. Com muita humildade e batendo no peito se declara satisfeito com uma parte pequena (partem aliquam) da glória dos santos, confiando só na misericórdia divina (non aestimator meriti sed veniae largitor). Pelas palavras cum tuis sanctis Apostolis et martyribus a oração continha a série dos santos do Communicantes. Segundo Batifol (Leçons sur la Messe 229 sq) o papa Símaco deu-lhe a última redação. João, i.é, João Batista; que este João é o Batista é certo pela Liturgia de S. Tiago: "S. João, o profeta magnífico, precursor e Batista." Liturgistas orientais concedem que a palavra "mártires" do cânon romano se pode aplicar ao Batista (Inn. III P. L. 894; Sicardo P. L. 133; Durandus IV c. 46 n. 7. S. Aug. in P 5. 148 chama-o mártir); Alexandre I (+119); Marcelino, sacerdote romano (+304); Pedro exorcista romano (+304); Felicidade e Perpétua, duas mulheres de Cartago (+ 202), cuja festa se celebrava em Roma já pelos anos 330-350, fato comprovado pelo antigo calendário romano. Segundo alguns, Felicidade seria a matrona romana (23 de nov.). Agueda (+251) e Luzia (+ 304) são sicilianas; Inês, virgem romana de 13 anos (+304); Cecília (+203?); Anastásia, mártir, sepultada em Roma.

Nobis quoque peccatóribus fámulis tuis, de multitúdine miseratiónum tuárum sperántibus, partem áliquam, et societátem donáre dignéris, cum tuis sanctis Apóstolis et Martýribus: cum Joánne, Stéphano, Matthía, Bárnaba, Ignátio, Alexándro, Marcellíno, Petro, Felicitáte, Perpétua, Agatha, Lúcia, Agnéte, Cæcília, Anastásia, et ómnibus Sanctis tuis: intra quorum nos consórtium, non æstimátor mériti, sed véniæ, quaésumus, largítor admítte. Per Christum Dóminum nostrum.

A nós também, pecadores, vossos servos, confiados nas vossas infinitas misericórdias, dignai-Vos conceder entremos a fazer parte da sociedade dos vossos Santos Apóstolos e Mártires, João, Estêvão, Matias, Barnabé, Inácio, Alexandre, Marcelino, Pedro, Felicidade, Perpétua, Águeda, Lúcia, Inês, Cecília, Anastásia e todos os vossos Santos, em cujo consórcio Vos pedimos nos admitais com vossa liberalidade, não já em consideração dos nossos méritos, mas sim pela vossa indulgência.Por Jesus Cristo Senhor nosso.

“Per quem”

O Per quem haec omnia. A explicação mais simples mais sublime do texto atual vê nesta oração uma glorificação do Verbo divino. "Pelo qual", refere-se à terminação da oração precedente: "Por Cristo Senhor Nosso", que não conclui com "Amém". Deus criou pelo Verbo divino o pão, o vinho e a água (haec omnia) e ainda cria conservando-os (semper creas), santifica (pela consagração), fá-los alimento vivo e vivificante (vivificas), comunica a bênção essencial, i.é, a união íntima de Cristo com os seus membros místicos (benedicis; Bellarm. II. c. 26 de Missa), e os distribui (praestas nobis). É um hino de louvor ao poder e à liberalidade de Cristo eucarístico.

Quanto à origem e ao sentido primitivo, a hipótese mais provável vê nesta fórmula uma bênção ou a conclusão de uma bênção de frutos e outros objetos de uso humano e litúrgico. Provas encontram-se nos antigos sacramentários e nos ritos orientais. A bênção dos santos óleos na quinta-feira santa ainda subsiste. As cruzes faziam-se sôbre os objetos. A bênção nupcial provavelmente dada aqui, foi transferida para o fim do Padre Nosso.

Per quem hæc ómnia Dómine, semper bona creas, sanctíficas, vivíficas, benedícis, et præstas nobis.

Por Ele, Senhor, criais sempre todos estes bens, os santificais, vivificais, abençoais e no-los concedeis.

“6ª etapa da Paixão: A tríplice oração que Cristo fez na cruz, uma pelos pecadores, quando disse: “Pai, perdoai-lhes”, a segunda para livrar-se da morte, quando disse: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” e a terceira se refere à obtenção da glória, quando disse: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. Para significar isso, fazem-se três cruzes com as palavras: “sanctificas, vivificas, benedicis” (“pela qual santificais, vivificais, abençoais”)” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.5 ad3).

“Per ipsum”

O Per ipsum. Por Jesus Cristo, pelo qual tudo foi feito, com Jesus Cristo, que tudo conserva, em Jesus Cristo (Rom 11, 36), a quem tudo foi subordinado, e que é, por conseguinte, a hóstia mais sublime, presta-se a Deus o culto mais sublime, "tôda a honra e glória". O celebrante acompanha estas palavras com cruzes: três sôbre o cálix que contém o SS. Sangue, fora do cálix uma a Deus Padre que entregou seu Filho à morte na cruz, uma ao Espírito Santo que preparou a Vítima divina na incarnação. Às palavras omnis honor et gloria, elevam-se a hóstia e o cálix ao alto. Antigamente só havia esta única elevação, que agora tem o nome de "elevação menor". Assim termina o cânon belissimamente, com uma solene profissão de fé na SS. Trindade, e a solene conclusão: Per omnia saecula saeculorum. Amen.

Per ipsum, et cum ipso, et in ipso, est tibi Deo Patri omnipoténti, in unitáte Spíritus Sancti, omnis honor et glória.
Per ómnia saecula saeculórum.
Amen.


Por Ele, com Ele e n’Ele, a Vós, Deus Pai omnipotente, na unidade do Espírito Santo, é dada toda a honra e glória.
Por todos os séculos dos séculos.
Ámen.


“7ª etapa da Paixão: As três horas em que Cristo esteve pregado na cruz, isto é, da hora Sexta à nona. Para simbolizar isto, traçam-se três cruzes com as palavras: “per ipsum, et cum ipso et in ipso” (“por ele, e com Ele e n’Ele”)”

“8ª etapa da Paixão: A separação da alma e do corpo é representada por duas cruzes feitas em seguida fora do cálice” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.5 ad3).

24 de janeiro de 2010

SANTA MISSA EXPLICADA - PARTE 7

MISSA DE SÃO PIO V EXPLICADA



Fontes:
- Explicações sobre as partes da Missa: "Curso de Liturgia" - Pe.Reus;
- Citações: "Suma Teológica", de Santo Tomás de Aquino; "Missal Quotidiano e Vesperal", de Dom Gaspar Lefebvre; "Concílio de Trento"; e "Catecismo Romano";


PARTE VII - A CONSAGRAÇÃO






“Logo depois da consagração estão o verdadeiro corpo de Nosso Senhor e seu verdadeiro sangue conjuntamente com sua alma e sua divindade, sob as espécies de pão e de vinho, isto é, seu corpo sob a espécie de pão e seu sangue sob a espécie de vinho, por força das palavras mesmas; mas o mesmo corpo também [está] sob a espécie de vinho, e o sangue sob a espécie de pão, e a alma sob uma e outra, por força daquela natural conexão e concomitância, com que as partes de Cristo Nosso Senhor, que já ressuscitou dos mortos para nunca mais morrer (Rom 6, 9), estão unidas entre si; e a divindade por causa daquela sua admirável união hipostática com o corpo e a alma [cân. l e3]. Assim, é bem verdade que tanto uma como outra espécie contêm tanto quanto as duas espécies juntas. Pois o Cristo todo inteiro está sob a espécie de pão e sob a mínima parte desta espécie, bem como sob a espécie de vinho e sob qualquer das partes desta espécie” (Concílio de Trento, sess XIII, cap.3).

“Pela consagração do pão e do vinho se efetua a conversão de toda a substância do pão na substância do corpo de Cristo Nosso Senhor, e de toda a substância do vinho na substância do seu sangue. Esta conversão foi com muito acerto e propriedade chamada pela Igreja Católica de transubstanciação”. (Concílio de Trento, sess XIII, cap.4).

O Qui pridie. Recitou o celebrante as orações precedentes em nome da Igreja e em nome de Jesus Cristo. Agora fala nêle Jesus Cristo pessoalmente, como diz S. Ambrósio (De myst. c. 9) : Ipse Christus clamat: Hoc est corpus meum. Pois o celebrante faz e diz o mesmo que diz e faz o Redentor divino. Toma na mão o pão e o cálix, benze-os e profere as palavras da consagração não em terceira, mas em primeira pessoa.

A narração histórica da instituição e as palavras da consagração não são iguais em todos os seus pormenores nem nos evangelhos nem em tôdas as Liturgias. Na Liturgia romana foram acrescentadas algumas palavras que ensinam o que Nosso Senhor provavelmente fêz: p.ex., gratias agens benedixit; in sanctas ac venerabiles manus suas; elevatis oculis in coelum ad te Deum Patrem suum omnipotentem. Profundamente inclinado, o celebrante profere as santas palavras da consagração, adorando imediatamente a Vítima divina presente sob as santas espécies.

A atual elevação das santas espécies, para serem adoradas, foi introduzida pouco a pouco pelos fins do século XII. Por muito tempo só a santa hóstia se elevava e era adorada pelo povo com a inclinação da cabeça; na primeira metade do século XIV, também o cálix começou a ser venerado do mesmo modo. A genuflexão em sinal de adoração é conhecida desde o princípio do século XVI. A grande elevação, mesmo durante a consagração, generalizou-se também pelo motivo de tornar a consagração centro visível da missa. A incensação do SS. Sacramento durante a elevação apareceu no século XIII, e generalizou-se nos séculos XIV e XV.

Qui prídie quam paterétur, accépit panem in sanctas ac venerábiles manus suas, et elevátis óculis in cælum ad te Deum Patrem suum omnipoténtem, tibi grátias agens, benedíxit, fregit, dedítque discípulis suis, dicens: Accípite, et manducáte ex hoc omnes.

« Hoc est enim Corpus meum »

Símili modo postquam cænátum est, accípiens et hunc præclárum Cálicem in sanctas ac venerábiles manus suas: item tibi grátias agens, benedíxit, dedítque discípulis suis, dicens: Accípite, et bíbite ex eo omnes

« Hic est enim Calix Sánguinis mei, novi et ætérni testaménti : mystérium fídei : qui pro vobis et pro multis effundétur in remissiónem peccatórum. »

Hæc quotiescúmque fecéritis, in mei memóriam faciétis.

Ele, na véspera de sua paixão, tomou o pão em suas santas e veneráveis mãos, e elevando os olhos ao céu para vós, ó Deus, seu Pai onipotente, dando-vos graças, benzeu-o, partiu-o e deu-o a seus discípulos, dizendo: Tomai e Comei Dele, Todos.

« Isto é o Meu Corpo »

De igual modo, depois de haver ceado, tomando também este precioso cálice em suas santas e veneráveis mãos, e novamente dando-vos graças, benzeu-o e deu-o a seus discípulos, dizendo: Tomai e Bebei Dele Todos.

« Este é o Cálice do meu Sangue, do novo e eterno Testamento : mistério de fé : que será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados. »

Todas as vezes que isto fizerdes, fazei-o em memória de mim.

“Que o verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo estejam no sacramento não se pode apreender pelo sentido, mas somente pela fé, que se apoia na autoridade divina. Por isso, o texto do Evangelho de Lucas “Isto é o meu Corpo dado por vós” (Lc XXII, 19) é comentado por Cirilo: “Não duvides que seja verdade, mas antes aceita as palavras do Salvador na fé: pois, sendo a verdade, não mente”.
1º. Isto está de acordo, primeiramente, com a perfeição da Nova Lei. Pois, os sacrifícios da antiga lei continham este verdadeiro sacrifício da paixão de Cristo, somente em figura, como se diz na Carta aos Hebreus: “Possuindo apenas o esboço dos bens futuros, e não a expressão mesma das realidades” (Hb X, 1). Por isso, foi necessário que o sacrifício da Nova Lei, instituído por Cristo, tivesse algo a mais, a saber que ele contivesse a Cristo na sua paixão, não somente no significado e na figura, mas também na verdade da realidade. E, por isso, este sacramento, que contém realmente o próprio Cristo, como diz Dionísio, “é a perfeição de todos os outros sacramentos”, nos quais a força de Cristo é participada.
2º. Isto convém à caridade de Cristo, pela qual ele assumiu um verdadeiro corpo humano em vista de nossa salvação. E porque é muitíssimo próprio da amizade, segundo Aristóteles, conviver com os amigos, ele nos prometeu em recompensa a sua presença corporal, como está no Evangelho de Mateus: “Onde quer que esteja o cadáver, ali se reunirão os abutres” (Mt XXIV, 28). Neste interim, porém, não nos privou de sua presença corporal nesta nossa peregrinação, mas pela verdade de seu Corpo e Sangue uniu-nos a si nesse sacramento. Ele mesmo diz: “Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo VI, 57). Por isso, este sacramento é o sinal de maior caridade e reconforto de nossa esperança por causa da união tão familiar de Cristo conosco.
3º. Isto convém à perfeição da fé, que se refere tanto à divindade de Jesus quanto a sua humanidade, como diz o Evangelho: “Vós credes em Deus, crede também em mim” (Jo XIV, 1). E porque a fé trata de realidades invisíveis, como Cristo nos manifesta invisivelmente a sua divindade, assim também neste sacramento nos manifesta a sua carne de modo invisível.
Não atinando com isto, alguns afirmaram que o Corpo e Sangue de Cristo não está nesse sacramento a não ser como em sinal. O que se deve rejeitar como herético, já que contrário às palavras de Cristo
(Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.75, a.1)

“3ª etapa da Paixão: A prefiguração da paixão de Cristo feita na ceia. Para designá-la, fazem-se uma terceira vez dois sinais da cruz, um na consagração do Corpo e o outro na do Sangue, quando em ambos os casos se diz a palavra “benedixit” (“abençoou”)” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.5 ad3).
I. As palavras para a consagração do pão (Catecismo Romano)

“Consoante a doutrina dos Evangelistas São Mateus e São Lucas, bem como do Apóstolo São Paulo (Mt XXVI, 26; Lc XXII, 19; I Cor XI, 24), sabemos que essa forma consiste nas seguintes palavras: “Isto é o meu Corpo”. Pois está escrito: “Quando estavam na ceia, tomou Jesus o pão, benzeu-o, partiu-o, e deu-o aos Seus Discípulos, dizendo: Tomai e comei, isto é o meu Corpo” (Mt XXVI, 26).

Esta forma de consagração, a Igreja Católica sempre a empregou, por ser a que Cristo Nosso Senhor havia observado. E aqui deixamos de parte os testemunhos dos Santos Padres, cuja enumeração seria um nunca acabar, e o decreto do Concílio de Florença, por bastante conhecido e acessível a quantos o queiram consultar. Se assim procedemos, é porque se pode também inferir a mesma verdade daquelas palavras de Nosso Salvador: “Fazei isto em memória de Mim”.

Aquilo, pois, que Nosso Senhor dera ordem de fazer, deve referir-se não só ao que Ele havia feito, mas também ao que Ele havia dito. Isto deve, sobretudo, entender-se das palavras que Ele proferira, tanto para significar, como para produzir o efeito sacramental.

O mesmo se pode facilmente demonstrar à luz da razão.

Forma é aquilo que significa o efeito operado por este Sacramento. Ora, como as palavras citadas declaram, de maneira explícita, o efeito que se opera, isto é, a conversão do pão no verdadeiro Corpo de Nosso Senhor, segue-se, portanto, que elas mesmas constituem a forma da Eucaristia. Nesse sentido se deve tomar a expressão do Evangelista: “benzeu-o”. Era como se dissesse: “Ele tomou o pão, benzeu-o, pronunciando as palavras: Isto é o meu Corpo”.

O Evangelista refere antes as palavras: “Tomai e comei”. Sabemos, porém, que estas palavras não designam a consagração da matéria, mas apenas o uso que se deve fazer do Sacramento.

O sacerdote tem a estrita obrigação de pronunciá-las, mas não são de valor essencial para a realização do Sacramento. O mesmo se diga da conectiva “pois”, na consagração do pão e do vinho.

Do contrário, não seria lícito consagrar o Sacramento, quando não houvesse a quem administrá-lo. No entanto, ninguém pode contestar que o sacerdote consagra realmente a matéria apta do pão, todas as vezes que profira as palavras de Nosso Senhor, ainda que não na mesma ocasião não administre a ninguém a Sagrada Eucaristia”.

II. As palavras para a consagração do vinho

“Pelas mesmas razões já alegadas, deve o sacerdote ter uma perfeita noção da forma para consagrar o vinho, que é a segunda matéria deste Sacramento.

Devemos crer, com inabalável certeza, que ela está contida nas seguintes palavras: “Este é o Cálice do Meu Sangue, da nova e eterna Aliança, Mistério da fé, o qual por vós e por muitos será derramado, em remissão dos pecados” (Cânon da Missa).

Destas palavras, muitas foram tiradas das Sagradas Escrituras, algumas, porém, são conservadas pela Igreja, em virtude da Tradição Apostólica:

Senão vejamos. “Este é o Cálice” - são palavras escritas por São Lucas e pelo Apóstolo São Paulo (Lc XXII, 20; I Cor XI, 25). O que vem a seguir: “do Meu Sangue”, ou “Meu Sangue da Nova Aliança, o qual por vós e por muitos será derramado em remissão dos pecados” - são palavras que se acham parte em São Lucas, parte em São Mateus (Lc XXII, 20; Mt XXVI, 28). As palavras “da eterna Aliança” e “Mistério da fé”: foram-nos comunicadas pela Sagrada Tradição, que é a medianeira e zeladora da verdade católica.

Ninguém poderá contestar a exatidão desta forma, se também aqui tiver em vista o que já foi dito acerca da consagração da matéria do pão. Pois certo é que nas palavras que exprimem a conversão do vinho no Sangue de Cristo Nosso Senhor, está contida, pois, a forma correspondente a esta matéria. Ora, como aquelas palavras a exprimem claramente, é de toda a evidência que se não deve estabelecer outra forma.

Além disso, essas palavras exprimem certos efeitos admiráveis do Sangue derramado na Paixão de Nosso Senhor, efeitos que estão na mais íntima relação com este Sacramento. O primeiro é o acesso à eterna partilha, cujo direito nos advém da “nova e eterna Aliança”. O segundo é o acesso à justiça pelo “Mistério da fé”; porquanto Deus nos propôs Jesus como vítima propiciatória, mediante a fé em Seu Sangue, para que Ele mesmo seja justo e justifique a quem acredita em Jesus Cristo. O terceiro é a remissão dos pecados.

Como estas palavras da Consagração do vinho encerram um sem-número de Mistérios, e são muito adequadas ao que devem exprimir, força é considerá-las com mais vagar e atenção.

Quando pois se diz: “Este é o Cálice do Meu Sangue” – cumpre entender “Este é o Meu Sangue, que está contido neste cálice”. Como aqui se consagra sangue, para ser bebida dos fiéis, é oportuno e acertado fazer-se menção do cálice. O sangue como tal não lembraria bastante a idéia de bebida, se não estivesse colocado num recipiente.

Acrescentam-se depois as palavras “da Nova Aliança”, para compreendermos que o Sangue de Cristo Nosso Senhor é dado aos homens, em sua absoluta realidade, pela razão de pertencer à Nova Aliança; não somente em figura, como acontecia na Antiga Aliança, da qual contudo lemos, na epístola do Apóstolo aos Hebreus, não ter sido selada sem sangue.

Nesse sentido é que o Apóstolo explicou: “Pois isso mesmo”, Cristo “é Mediador” da Nova Aliança, para que, intervindo a Sua morte, recebam a promessa da herança eterna os que a ela foram chamados” (contração de Hb IX, 15).

O adjetivo “eterna” refere-se à herança eterna, que legitimamente nos cabe pela morte de Cristo Senhor Nosso, o eterno Testador.

A cláusula “Mistério da fé” não tem por fim excluir a verdade objetiva; significa que devemos crer, com fé inabalável, o que nele se oculta, de maneira absolutamente inacessível à vista humana.

Mas estas palavras não têm aqui o mesmo sentido, que se lhes atribui também com relação ao Batismo. Fala-se, pois, de “Mistério da fé”, porque só pela fé vemos o Sangue de Cristo, velado que está na espécie de vinho. Como, porém, o Batismo abrange toda a profissão da fé cristã, temos razão em chamá-lo “Sacramento da fé”, o que corresponde ao “mistério” dos gregos.

Existe, ainda, outro motivo de chamarmos “Mistério da fé” ao Sangue de Cristo. A razão humana oferece muita dificuldade e relutância, quando a fé nos propõe a crer que Cristo Nosso Senhor, verdadeiro Filho de Deus, sendo Deus e Homem ao mesmo tempo, sofreu a morte por amor de nós. Ora, esta morte é juntamente representada pelo Sacramento do Seu Sangue.

Em vista deste fato, era bem comemorar-se aqui, e não na Consagração do Seu Corpo, a Paixão de Nosso Senhor, mediante as palavras “que será derramado em remissão dos pecados”. Consagrado separadamente, o Sangue tem mais força e propriedade, para revelar, aos olhos de todos, a Paixão de Nosso Senhor, a Sua Morte, a modalidade de Seu sofrimento.

As palavras que se ajuntam “por vós e por muitos”, foram tomadas parte de São Mateus, parte de São Lucas (Mt XXVI, 28; Lc XXII, 20). A Santa Igreja, guiada pelo Espírito de Deus, coordenou-as numa só frase, para que exprimissem o fruto e a vantagem da Paixão.

De fato, se considerarmos sua virtude, devemos reconhecer que o Salvador derramou Seu Sangue pela salvação de todos os homens. Se atendermos, porém, ao fruto real que os homens dele auferem, não nos custa compreender que sua eficácia se não estende a todos, mas só a “muitos” homens.

Dizendo, pois, “por vós”, Nosso Senhor tinha em vista, quer as pessoas presentes, quer os eleitos dentre os Judeus, como o eram os Discípulos a quem falava, com exceção de Judas.

No entanto, ao acrescentar “por muitos”, queria aludir aos outros eleitos, fossem eles Judeus ou gentios. Houve, pois, muito acerto em não se dizer “por todos”, visto que o texto só alude aos frutos da Paixão, e esta sortiu efeito salutar unicamente para os escolhidos.

Tal é o sentido a que se referem aquelas palavras do Apóstolo: “Cristo imolou-Se uma só vez, para remover totalmente os pecados de muitos” (Hb II, 28) e as que disse Nosso Senhor no Evangelho de São João: “Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por estes que Vós me destes, porque eles são Vossos” (Jo XVII, 9).

Nestas palavras da Consagração do vinho vão ainda muitos outros Mistérios. Com a graça de Deus, poderão os pastores facilmente descobri-los, se fizerem assídua e aturada meditação das coisas divinas”.

23 de janeiro de 2010

SANTA MISSA EXPLICADA - PARTE 6

A MISSA DE SÃO PIO V EXPLICADA



Fontes:

- Explicações sobre as partes da Missa: "Curso de Liturgia" - Pe.Reus;

- Citações: "Suma Teológica", de Santo Tomás de Aquino; e "Missal Quotidiano e Vesperal", de Dom Gaspar Lefebvre;


PARTE VI - CÂNON - ORAÇÕES ANTES DA CONSAGRAÇÃO


“Sendo conveniente que as coisas santas se administrem santamente, e sendo este sacrifício entre todos o mais santo, instituiu a Igreja Católica já há muitos séculos o Cânon sagrado, tão purificado de todo o erro [cân. 6], que nele não há nada que não rescenda a suma santidade e piedade, nada que não eleve a Deus as almas dos que o oferecem. Pois ele se compõe das palavras do mesmo Senhor, como das tradições dos Apóstolos e das piedosas instituições dos Sumos Pontífices” (Concílio de Trento, sess.XXII, cap.IV).

Origem do cânon. O mais antigo texto completo do cânon de hoje é do século VII (Missal de Bobbio e outros). As tentativas de muitos liturgistas nos últimos decênios de reconstruir um primitivo cânon diferente do atual, não conseguiram resultado reconhecido por todos. Declarou-se afinal (1939) que depois "dos caminhos falsos de investigação científica especial" a melhor solução é a sustentação do cânon na sua forma atual, mais ou menos conforme a antiga tradição. Contribuiu para este resultado bastante seguro a recente comparação da missa romana com documentos orientais, publicada pelo patriarca sírio Rhamani (1929).

Quanto às partes essenciais portanto o cânon é herança venerável. Abstraindo do memento pelos defuntos e das duas listas dos santos, sofreu somente uma amplificação de poucas palavras, registradas pelo Liber pontificalis do séc. V e VI. Com esta limitação remonta mais ao menos até ao tempo do Papa Cornélio (+250). (Baumstark, Eph. lit. Anal. 1939, p. 204-243.) O communicantes e o Nobis quoque peccatoribus foram acrescentados no pontificado do Papa Símaco (+ 514); o memento dos defuntos, no de Inocêncio (+ 417). Mas nem isso é certo; provavelmente também estas partes são mais antigas. (Cf. Eisenh. II, p. 166.) Portanto as orações: Quam oblationem; Qui pridie quam pateretur, Unde et memores, Supra quae, Supplices (Pseudo-Ambrósio, de Sacram. IV, 5) com bastante certeza remontam até ao séc. III.

Ainda mais. São apostólicas. Sobre a lacuna entre o século III e o tempo dos apóstolos diz Belarmino, crítico competente (Controv. de miss. II, c. 22):

"Se as orações mencionadas por Pseudo-Ambrósio tivessem sido compostas por um papa, com certeza um historiador o teria referido. Se não deixaram de mencionar quem acrescentou algumas partes insignificantes, muito menos teriam calado o nome de quem compôs quase todo o cânon. Resta portanto que o cânon é de antiguidade imemorável e chegou até nós como muitas outras coisas, pela tradição, de mão em mão. Os nomes dos apóstolos e mártires pouco a pouco foram acrescentados."

Especialmente duas têm sinais de orações apostólicas: Unde et memores, por corresponder à ordem de Jesus Cristo: Hoc facite in meam commemorationem, e por se achar em todas as liturgias; a outra Supra quae, por causa da expressão Patriarchae nostri Abrahae, sinal de origem israelítica.

Esta "conjetura", como Belarmino chama estas considerações torna-se fato fundado pelas provas positivas que se tem para a oração: Quam oblationem. Ela contém resumido em cinco palavras o capitulo segundo de Malaquias com a profecia sobre a missa. Esta mesma profecia acha-se em 4 anáforas dos dois primeiros séculos, a alexandrina, antioquena, dedaquética e de São Justino. A oração Quam oblationem portanto remonta até ao tempo dos apóstolos.


“Se alguém disser que o rito da Igreja Romana que prescreve que parte do Cânon e as palavras da consagração se profiram em voz submissa, se deve condenar (...) — seja excomungado (Concílio de Trento, sess XXII, can.9)

[Algumas orações da Missa] “o sacerdote recita sozinho, isto é, as que pertencem ao ministério do sacerdote, a saber, “oferecer dons e sacrifícios pelos pecados” como está na Carta aos Hebreus (Hb V, 1). Entre elas, algumas são recitadas em voz alta, isto é, as que dizem respeito tanto ao sacerdote quanto aos fiéis, como são as orações comuns. Outras pertencem exclusivamente aos sacerdotes, como a oferenda e a consagração. Por esta razão, tudo o que diz respeito a estas partes o sacerdote diz em voz baixa (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.4 ad 6).

As cruzes do cânon. No princípio do cânon atual está a imagem de Jesus Cristo crucificado. Esta cruz desenvolveu-se dos ornamentos do T, primeira letra do início do Te igitur. Esta imagem faz desaparecer um tanto o nexo entre o prefácio e o cânon, mas tem a grande vantagem de recordar ao celebrante o sacrifício cruento que se renova no altar. As cruzes insertas no texto das orações antes da consagração têm o fim de santificar cada vez mais os elementos do sacrifício; depois da consagração servem "ad commemorandum virtutem crucis et modum passionis Christi" (S.Thom. III, 83 a. 5), i. é, são símbolos da morte de Cristo e produzem santificação nos seus membros místicos.

“Em poucas palavras, pode-se dizer que a consagração deste sacramento e a aceitação do sacrifício e de seus frutos procedem da força da cruz de Cristo. Por isso, todas as vezes que se faz menção de uma destas coisas, o sacerdote traça uma cruz" (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.5 ad3)..

“Depois da consagração, o sacerdote não faz nenhuma cruz para abençoar e consagrar, mas somente para recordar o poder da cruz e o modo da paixão de Cristo” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.5, ad4).

“Te igitur”

Te igitur. Compenetrado da infinita majestade divina o celebrante rezou: Sanctus, Sanctus, Sanctus. Agora levanta as mãos ao céu, inclina-se profundamente e continua: "Por isso, porque sois tão santo e majestoso, (a Vós) .. rogamos... que abençoeis estes dons, êstes presentes, estes Sacrifícios ..." Uma e mesma dádiva é dom do Doador, tributo ao Soberano, sacrifício para o serviço de Deus. Confiando neste sacrifício e sendo medianeiro entre Deus e o mundo, o celebrante intercede pelo papa (costume e lei antiga), pela Igreja e pelos cultores da fé. Este último termo designava os benfeitores da Igreja, mormente o imperador bizantino. Hoje compreende a quantos ajudam a propagação da Igreja por palavras e ações.

Te ígitur, clementíssime Pater, per Jesum Christum Fílium tuum, Dóminum nostrum, súpplices rogámus ac pétimus, uti accépta hábeas et benedícas, hæc dona, hæc munera, hæc sancta sacrifícia illibáta.

A vós, Pai clementíssimo, por Jesus Cristo vosso Filho e Senhor nosso, humildemente rogamos e pedimos aceiteis e abençoeis estes dons, estas dádivas, estas santas oferendas ilibadas.

In primis, quae tibi offérimus pro Ecclésia tua sancta cathólica: quam pacificáre, custodíre, adunáre et régere dignéris toto orbe terrárum: una cum fámulo tuo Papa nostro N. et Antístite nostro N. et ómnibus orthodóxis, atque cathólicae et apostólicae fídei cultóribus.

Nós Vo-los oferecemos, em primeiro lugar, pela vossa santa Igreja católica, à qual vos dignai conceder a paz, proteger, conservar na unidade e governar, através do mundo inteiro, e também pelo vosso servo o nosso Papa..., pelo nosso Bispo..., e por todos os (bispos) ortodoxos, aos quais incumbe a guarda da fé católica e apostólica.

“O sacerdote na celebração da missa faz os sinais da cruz para evocar a paixão de Cristo, que se consumou na cruz. A paixão de Cristo realizou-se como em etapas.
1ªetapa da Paixão: A entrega de Cristo feita por Deus, por Judas e pelos judeus. Ela é simbolizada pelos três sinais da cruz, ao dizer o sacerdote as palavras: “Haec dona, haec munera, haec sancta sacrificia illibata” (“Estes dons, estas dádivas, este santo sacrifício imaculado”)”
(Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.5 ad3).

Memento dos vivos

0 Memento dos vivos. Às preces gerais pela Igreja se segue a oração pelas pessoas que o celebrante intenciona recomendar a Deus em particular. Outrora eram lidos em voz alta os nomes dos benfeitores inscritos nos dipticos (duas tabuinhas munidas de dobradiças e que se podiam fechar). No século VIII eram lidos em voz baixa para o celebrante, mais tarde colocados no altar e finalmente desapareceram no século XII-XIII.

Meménto, Dómine, famulórum famularúmque tuárum N. et N. et ómnium circumstántium, quorum tibi fides cógnita est, et nota devótio, pro quibus tibi offérimus: vel qui tibi ófferunt hoc sacrifícium laudis, pro se, suísque ómnibus: pro redemptióne animárum suárum, pro spe salútis, et incolumitátis suæ: tibíque reddunt vota sua ætérno Deo, vivo et vero.

Lembrai-vos, Senhor, dos vossos servos e servas N. e N., e de todos aqueles que estão aqui presentes, cuja fé Vos é conhecida e manifesta a devotação. Por eles Vos oferecemos, ou eles próprios Vos oferecem, este sacrifício de louvor, por si e por todos os seus, para redenção das suas almas, para terem a salvação e incolumidade que esperam; para isso, a Vós dirigem as suas preces, Deus eterno, vivo e verdadeiro.

“Communicantes”

O Communicantes (= tomando parte na comunhão dos Santos). Para tornar as suas orações mais eficazes, o celebrante e o povo alegam, na sua qualidade de membros do Corpo Místico de Jesus Cristo, a sua íntima união entre si e com os santos glorificados. Em primeiro lugar é mencionada a rainha dos mártires, Maria Santíssima. Pois só mártires são enumerados, porque o culto dos confessores naquela época ainda não estava em uso. Depois dos santos apóstolos vêm os três primeiros papas: Lino, Çleto e Clemente. Xisto (forma grega; era grego de nascimento) = Sisto II (+258), célebre pelos versos do papa Dâmaso, e o seu diácono. O papa Cornélio (+ 253) é o amigo de Cipriano, bispo de Cartago. Lourenço é o diácono de Sisto II. Crisógono (+ 304) tinha instruído na fé S. Anastásia. João e Paulo foram vitimados por Juliano apóstata (+ 362). Cosme e Damião eram dois médicos árabes celebérrimos por suas curas milagrosas. (+ 297.) Todos tinham igrejas em Roma. Em muitas dioceses se inseriram muitos santos próprios, p.ex., em Ruão 23.

A oração Communicantes outrora estava escrita fora do cânon. A rubrica: infra accionem indicava que se devia rezar durante o cânon.

Communicántes, et memóriam venerántes, in primis gloriósæ semper Vírginis Maríæ, Genitrícis Dei et Dómini nostri Jesu Christi: sed et beáti Joseph, ejúsdem Vírginis Sponsi, et beatórum Apostolórum ac Mártyrum tuórum, Petri et Pauli, Andréæ, Jacóbi, Joánnis, Thomæ, Jacóbi, Philíppi, Bartholomaéi, Mattáei, Simónis, et Thaddaéi, Lini, Cleti, Cleméntis, Xysti, Cornélii, Cypriáni, Lauréntii, Chrysógoni, Joánnis et Pauli, Cosmæ et Damiáni, et ómnium Sanctórum tuórum; quorum méritis precibúsque concédas, ut in ómnibus protectiónis tuæ muniámur auxílio. Per eúmdem Christum Dóminum nostrum. Amen.
Unidos na mesma comunhão, honramos a memória, em primeiro lugar, da gloriosa sempre Virgem Maria, Mãe de Deus e Senhor Nosso Jesus Cristo, e também de S. José, o Esposo da mesma Virgem, e dos vossos bem-aventurados Apóstolos e Mártires, Pedro e Paulo, André, Tiago, João, Tomé, Tiago, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Simão e Tadeu, Lino, Cleto, Clemente, Sixto, Cornélio, Cipriano, Lourenço, Crisógono, João e Paulo, Cosme e Damião, e de todos os vossos Santos. Por seus méritos e preces, concedei sejamos sempre fortalecidos com o vosso auxílio e proteção. Por Jesus Cristo, Senhor nosso. Ámen.

“Hanc igitur”

Hanc igitur. Animado pela enumeração dos santos e pela esperança no seu auxílio, o celebrante renova o seu pedido: Portanto, aceitai esta oferta (servitutis = servorum tuorum, celebrantis et cleri) dos Vossos servos e de todos os fiéis (familiae tuae), dai-nos a paz, livrai-nos do inferno e alistai-nos em o número dos eleitos (uma alusão aos dípticos, que tinham também o nome de líber vitae). Ao Hanc igitur o celebrante põe as mãos sobre as oblatas, gesto que indica o caráter expiatório do santo sacrifício, muito usado no antigo testamento. Significa também que o C oferece a sua pessoa a Deus, para adorá-Lo, implorá-Lo e agradecer-Lhe. Apesar de ser representada esta cerimônia numa cena eucarística do III século, foi introduzida na missa só no século XV.


Hanc ígitur oblatiónem servitútis nostræ, sed et cunctæ famíliæ tuæ, quaésumus, Dómine, ut placátus accípias: diésque nostros in tua pace dispónas, atque ab ætérna damnatióne nos éripi, et in electórum tuórum júbeas grege numerári. Per Christum Dóminum nostrum. Amen.
Esta oblação, que nós, vossos servos, e toda a vossa família, Vos oferecemos, aceitai-a, Senhor, benignamente; firmai na paz os dias da nossa vida, livrai-nos da eterna condenação e ordenais sejamos contados na sociedade dos vosso eleitos. Ámen.

“Quam oblationem”

“Em prosseguimento, vem a própria consagração. 1º. O sacerdote pede o efeito da consagração, quando diz: “Quam oblationem tu Deus” (“Nós Vos pedimos, ó Deus, que Vos digneis abençoar esta oblação, etc.”). 2º. Ele realiza a consagração por meios das palavras do Salvador, ao dizer: “Qui pridie, etc.” [e propriamente ao repetir a fórmula da Consagração feita por Cristo] (“E no dia anterior à Paixão, etc.”). 3º. Ele se escusa por tal presunção, recorrendo à obediência à ordem de Cristo quando diz: “Unde et memores” (“Por isso, recordando, etc.”). 4º. Pede que este sacrifício, que acaba de ser realizado, seja agradável a Deus, dizendo: “Supra quae propitio, etc.” (“Dignai-Vos, Senhor, olhar com bondade e misericórdia para estes dons, etc.”). 5º. Pede o efeito deste sacrifício e sacramento: primeiramente para quem vai participar dele, ao dizer: “Suplicces te rogamus, etc.” (“Nós Vos suplicamos, etc.”); depois para os defuntos, que já não podem participar, quando diz: “Memento etiam, Domine, etc.” (“Lembrai-Vos também, Senhor, etc.”); depois ainda e de modo especial, para os próprios sacerdotes que celebram, ao dizer: “Nobis quoque peccatoribus, etc.” (“A nós também pecadores, etc.”)” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.4).

As palavras que se seguem ao Hanc igitur são as mais antigas e essenciais, porque incluem o ato sacrifical do Sumo e Eterno Sacerdote Jesus Cristo.

O Quam oblationem: Quam (= et hanc) oblationem está em nexo gramatical e lógico com a oração Hanc igitur, reassumindo a sua idéia e forma, pela quíntupla gradação, uma transição belíssima ao majestoso ato da consagração. A Esposa de Cristo pede que Deus se digne tornar as oblatas 1) bentas (com palavras); 2) Adscritas (recebidas como por escrito, pautal); 3) ratificadas (recebidas como por contrato); 4) racionais, i.é, legítimas (ideais, consoante à razão divina e humana a respeito do verdadeiro sacrifício); 5) aceitáveis pela infinita majestade de Deus (dignas de serem aceitas, agradáveis). As oblatas são consideradas em estado cada vez mais perfeito, até que se tornem corpo e sangue do Senhor.

Qual poderia ser a fonte destas cinco palavras misteriosas? A resposta dá-nos a célebre profecia de Malaquias sobre o sacrifício da missa (1, 6-14).

V. 6-7. Deus se queixa dos sacrifícios antigos polutos. A igreja pede que as oblatas se tornem imunes de tôda mancha — benedictam, bentas.

V. 8-9. Deus repele do seu altar os animais cegos e imprestáveis, excluídos da lista dos animais aprovados. -- A Igreja suplica que as oblatas sejam incluídas na lista dos sacrifícios admitidos – adscriptam, recebidas.

V. 10. Deus não aprova (non est mihi voluntas in vobis) nem ratifica os sacrifícios antigos. — A Igreja roga que as oblatas sejam aprovadas — ratam, recebidas por contrato.

V. 11. Deus não quer mais sacrifícios restringidos a um só povo (in omni loco) porque não correspondem ao ideal do verdadeiro sacrifício. — A Igreja insta que as oblatas se tornem o sacrifício ideal — rationabilem, consoante o conceito divino do sacrifício.

V. 12-14. Deus, movido por santo zêlo, lança a maldição (Maledictus dolosus) sôbre os sacrifícios imundos, inaceitáveis à tremenda Majestade divina. A Igreja roga que as suas oblatas sejam aceitáveis.

Acresce que esta profecia precede à realização na consagração: Qui pridie... E logo depois da consagração são mencionadas três profecias figurativas da S. Eucaristia: Abel, Abraão e Melquisedeque. Seria quase para estranhar se a profecia de Malaquias não se achasse no cânon. Estas cinco palavras são, portanto, o resumo da profecia de Malaquias, a sua cristalização genial.

O Quam oblationem. Esta oração pode ser chamada a epiclese do Ocidente. As últimas palavras: "Vosso Filho diletíssimo, Nosso Senhor Jesus Cristo" profere-as o celebrante levantando os braços abertos para o céu, juntando as mãos e abaixando-as como que para abraçar a Vítima divina que desce ao altar.

“Não há inconveniência em pedirmos a Deus aquilo que sabemos que ele certissimamente fará, como Cristo pediu a sua glorificação.
Contudo, não se vê aí que o sacerdote reze para que se realize a consagração, mas para que nos seja frutuosa. Daí ele dizer expressamente “ut nobis corpus et sanguis fiat, etc.” (“a fim de se tornar para nós o Corpo e o Sangue, etc.”). Segundo Agostinho, tal é o sentido das palavras que ele pronuncia antes: “Hanc oblationem facere digneris benedictam” (“Dignai-Vos, ó Pai, aceitar e santificar esta oferenda”): “per quam benedicimur” (“pela qual somos abençoados”), a saber pela graça; ”adscriptam” (“confirmada”), isto é, “pela qual somos inscritos no Céu”; “ratam” (“ratificada”), isto é, “pela qual somos reconhecidos como fazendo parte de Cristo”; “rationabilem” (“racional”), isto é, “pela qual somos despojados do sentido carnal”; “acceptabilem” (“aceitável”), isto é, “para que nós, que nos desgostamos de nós mesmos, sejamos por ela agradáveis ao seu único Filho” ”
(Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.5 ad8).

Quam oblatiónem tu, Deus, in ómnibus, quaésumus, benedíctam, adscríptam, ratam, rationábilem, acceptabilémque fácere dignéris: ut nobis Córpus, et Sanguis fiat dilectíssimi Fílii tui Dómini nostri Jesu Christi.

Dignai-Vos, Senhor, fazer que esta oblação seja em tudo abençoada, aprovada, ratificada, espiritual e digna da vossa aceitação, e se torne para nós Corpo e Sangue do vosso diletíssimo Filho e Senhor nosso Jesus Cristo.

“2ª etapa da Paixão: A venda de Cristo. Com efeito, Cristo foi vendido aos sacerdotes, escribas e fariseus. Para simbolizá-la, o celebrante faz de novo três sinais da cruz, dizendo: “benedictam, adscriptam, ratam” (“abençoada, confirmada, ratificada”). Ou para expressar o preço da venda, a saber trinta denários. E se acrescentam dois sinais da cruz, ao se pronunciar as palavras: “ut nobis Corpus et Sanguis” (“a fim de se tornar para nós o Corpo e o Sangue”), para significar a pessoa de Judas que vendeu e a de Cristo que foi vendido”
(Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83 a.5 ad3).

3 de janeiro de 2010

SANTA MISSA EXPLICADA - PARTE 5

A MISSA DE SÃO PIO V EXPLICADA



Fontes:
- Explicações sobre as partes da Missa: "Curso de Liturgia" - Pe.Reus;
- Citações: "Suma Teológica", de Santo Tomás de Aquino; e "Missal Quotidiano e Vesperal", de Dom Gaspar Lefebvre;





PARTE V - PREFÁCIO E CÂNON



“Continuando, a respeito da “consagração”, que se realiza por força sobrenatural, os fiéis, antes de tudo, são incitados à devoção no “prefácio”. Daí o sentido da admonição “sursum corda”, “habemus ad Dominum” (“corações ao alto”, “o nosso coração está em Deus”). Assim, depois do prefácio, os fiéis louvam com devoção a divindade de Cristo, unindo-se aos anjos, dizendo “Sanctus, Sanctus, Sanctus” (“Santo, Santo, Santo”); e a humanidade de Cristo, com as crianças, proclamando: “Benedictus qui venit” (“Bendito aquele que vem”). Prosseguindo, 1º. O sacerdote recorda, em silêncio, aqueles pelos quais o sacrifício da missa é oferecido, a saber a Igreja universal e aqueles que “detêm a autoridade” (I Tm II, 2), e especialmente “aqueles que oferecem o sacrifício e por quem ele é oferecido”. 2º. Ele recorda os santos, cuja intercessão invoca por aqueles que acabamos de indicar, ao dizer: “Communicantes et memoriam venerantes, etc.” (“Unidos em comunhão, e venerando, etc.”). 3º Conclui o seu pedido ao dizer: “Hanc igitur oblationem, etc.” (“Dignai-Vos, pois, aceitar, Senhor, com bondade, esta oblação, etc.”), afim de que seja salutar para aqueles por quem é oferecida” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.4).

O prefácio e o cânon formam uma única oração solene, a oração eucarística, no decurso da qual se efetua: a ação propriamente sacrifical, a consagração. Por isso chamaram-na outrora ação, actio. Outros explicam o termo actio por gratiarum actio, ou por contração de Sacrum agere, sacrificar.

A oração eucarística primitiva com Amen só no fim do cânon, pouco a pouco foi interrompida por várias orações intercaladas antes e depois da consagração, cada uma com a conclusão: Amen. Assim não é mais uma única oração. Mas é um cânon mais perfeito. Pois estas preces acrescentadas pelos vivos e defuntos constituem um aperfeiçoamento indubitável. Em nenhum lugar, segundo o pensar piedoso dos fiéis, tem mais eficácia do que bem perto da consagração, pela qual o Rei desce para o altar. Por isso diz Bento XIV muito acertadamente (de sacr. miss. II c. 12, n. 6): "0 cânon nada perde da sua autoridade pela circunstância de ser composto por mais de um autor. Pois também o livro dos salmos é jóia de livro, embora tenha muitos autores."

O missal chama prefácio a parte que contém a ação de graças e o louvor da divina Majestade; a segunda parte, desde o século VI, chama-se cânon, i. é, regra ou regulamento invariável para a ação sacrifical. Esta oração eucarística solene acha-se em todos os ritos, remonta por conseguinte à primitiva igreja.

Atualmente canta-se só o prefácio e o Sanctus. Mas outrora também o cânon era cantado de simili voce ac melodia como o prefácio, diz um ordo do século VII. No século IX já era costume rezar o cânon em voz baixa. Durandus alega como motivo (IV, c. 35, n. 6) o recolhimento do celebrante facilmente estorvado pelo canto, o cansaço do sacerdote pelo canto cada vez mais prolongado pelo acréscimo de novas orações e o perigo de profanação das santas palavras, que, sendo sempre ouvidas, se repetiam nas ruas e em ocasiões pouco decentes. Além disso o cânon foi chamado "oração própria dos sacerdotes". Por isso o celebrante a profere em voz baixa, excluindo assim o chamado sacerdócio geral dos hereges. Seria este o motivo por que o concilio de Trento prescreve expressamente a recitação do cânon em voz baixa, contra os inovadores, contrários ao sacerdócio especial católico. (Sess. 22, can. 9.)

I. Prefácio

O prefácio (praefatio, contestatio, immolatio) é a introdução solene ao cânon, a ação sacrifical. É um hino de louvor e de ação de graças pelos benefícios gerais e, em certos tempos e festas, pelos benefícios especiais recebidos de Deus. É uma das orações mais antigas e mais belas, mormente pela melodia que faz vibrar o coração de alegria e gozo indescritíveis.

Para esta beleza musical contribui muito a beleza literária, em que se esmeram as orações da Igreja em geral, às quais pertence também o prefácio. Os seus autores imitaram os antigos oradores, que mais brilharam pela cuidadosa escolha e feliz coordenação das palavras, conseguindo assim um andamento rítmico da frase, chamado cursus. Distinquem-se a) o curso métrico, que consiste na coordenação métrica das sílabas; b) o curso rítmico, em que a harmonia da frase resulta da simetria dos seus membros de comprimento quase igual, sem atender à prosódia, e empregando só dátilos e espondeus. Exemplos disto são, segundo Piacenza (Liturgia, p. 139) as orações de Pio V, S. Inácio de Loiola, S. Francisco Xavier.

De beleza rara é o prefácio da festa do Sagrado Coração de Jesus.

1. Qui Unigénitum túum in Crúce pendéntem
1. láncea militis transfigi voluisti
(o dátilo moderado pelo espondeu, como convém à introdução do dogma).
2. út apértum cór
(é frase lapidar; indica o fato principal; por isso está em espondeus. A última sílaba é constituída por uma palavra inteira e ao mesmo tempo é a palavra principal. A frase pára bruscamente, quase pintando o golpe da lança.)
3. Divinae largitatis sacrarium
(é a larga chaga aberta)
4. Torréntes nóbis fúnderet miseratiónis et grátiae
(brotam os jorros de sangue como uma torrente)
4. Et quód amóre nóstri flagráre núnquam déstitit
(vêem-se as chamas uma depois da outra elevarem-se ao alto)
3. Piis esset requies
(o descanso)
5. Et paeniténtibus patéret salútis refúgium.
(5 dátilos rítmicos. Vêem-se correndo os pecadores a esta fonte de salvação.)

Antigamente o número dos prefácios era muito grande. O sacramentário Leonino conta 267, o missal atual 15. A igreja oriental conhece só dois: das anáforas de S.Crisóstomo e de S. Basílio.

Por mais de 1300 anos, desde S. Gregório Magno, a igreja romana, fora do prefácio comum, tinha 9 prefácios: para o natal, a epifania, a quaresma, o tempo da paixão, a páscoa, a ascensão, o pentecostes, a SS. Trindade e os apóstolos, desde 1095 a de Maria Santíssima. Somente em 1919 Bento XV acrescentou o dos defuntos. Três outros vieram depois.

A introdução ao prefácio já é usada na chamada "Tradição apostólica" de S. Hipólito (200-230). Dominus cum omnibus vobis — Cum spiritu tuo. Sursum corda, — Habemus ad Dominum. Gratias agamus Domino. — Dignum et justum. O Sursum corda é um convite expressivo para atender especialmente à vinda do Senhor na consagração, parte essencial da reunião litúrgica.

No fim dos prefácios menciona-se sempre o coro dos anjos. Desta maneira passa-se ao Sanctus, hino angélico, em uso na sinagoga e adotado pela Igreja. Acha-se em quase todas as liturgias. Lembra a majestade de Jesus Cristo, que em breve há de comparecer no altar.

O Hosana com o Benedictus foi introduzido na Liturgia provavelmente em Jerusalém, onde pela primeira vez com estes termos aclamaram a Nosso Senhor. Hosana quer dizer: dá salvação. Foi expressão de aclamação. Toda a frase quer dizer: Glória a quem está nas alturas. Bem-vindo o que vem chegando em nome do Senhor. Glória Àquele que está nas alturas, mas que em breve estará aqui.

O Sanctus primitivamente era cantado pelo povo. Por isso não estranha serem as melodias, p.ex., da missa de réquie, que se conservaram intactas, muito simples. Tocam-se ao Sanctus as campainhas, tanto para avisar ao povo do momento santo da consagração como em sinal de alegria pela vinda do Rei da Glória. Para saudar o Deus eucarístico nas missas solenes 2-4 acólitos ficam ajoelhados com as velas acesas até depois da consagração, se houver distribuição da s. comunhão, até depois desta função. O Benedictus canta-se depois da consagração como saudação jubilosa.
*Exemplo de Prefácio, do Sagrado Coração de Jesus, antecedido pela introdução e seguido pelo Sanctus:

Dóminus vobíscum.
R. Et cum spíritu tuo.
Sursum corda.
R. Habémus ad Dóminum.
Grátias agámus Dómino Deo nostro.
R. Dignum et justum est.

Vere dignum et justum est, aequum et salutáre, nos tibi semper, et ubíque grátias ágere: Dómine sancte, Pater omnípotens, aetérne Deus: Qui Unigénitum tuum in cruce pendéntem láncea mílitis transfígi voluísti, ut apértum Cor, divínae largitátis sacrárium, torréntes nobis fúnderet miseratiónis et grátiae, et quod amóre nostri flagráre numquam déstit, piis esset réquies et paeniténtibus patéret salútis refúgium. Et ídeo cum Angelis et Archángelis, cum Thronis et Dominatiónibus, cumque omni milítia caeléstis exércitus, hymnum glóriae tuae cánimus, sine fine dicéntes:
Sanctus, Sanctus, Sanctus, Dóminus Deus Sábaoth.
Pleni sunt cæli et terra glória tua. Hosánna in excélsis.
Benedíctus, qui venit in nómine Domini. Hosánna in excélsis.

O Senhor seja convosco.
R. E também com o teu espírito.
Corações ao alto!
R. Assim os temos, levantados para o Senhor.
Demos graças ao Senhor nosso Deus.
R. Digno e justo é.

É verdadeiramente digno e justo, é dever e salvação nossa Vos demos graças sempre e em toda a parte, Senhor, Pai santo, Deus omnipotente e eterno, que quisestes que o vosso Unigênito Filho, suspenso na cruz, fosse traspassado pela lança dum soldado, para que o seu Coração aberto, sacrário das liberalidades divinas, sobre nós derramasse torrentes de misericórdia e de graça, e, não deixando jamais de arder em amor para conosco, nele tivessem as almas piedosas um lugar de repouso e as penitentes sempre patente refúgio de salvação. Por isso, em união com os Anjos e Arcanjos, com os Tronos e Dominações, com toda o milícia do exército celeste, cantamos um hino à vossa glória, repetindo sem fim:
Santo, santo, santo é o Senhor Deus das milícias celestes.
Cheios estão céu e terra da vossa glória. Hosana nas alturas!
Bendito o que vem em o nome do Senhor! Hosana nas alturas!

30 de outubro de 2009

SANTA MISSA EXPLICADA - PARTE 4

A MISSA DE SÃO PIO V EXPLICADA


Fontes: - Explicações sobre as partes da Missa: "Curso de Liturgia" - Pe.Reus; - Citações: "Suma Teológica", de Santo Tomás de Aquino; e "Missal Quotidiano e Vesperal", de Dom Gaspar Lefebvre;


PARTE IV - OFERTÓRIO




“Assim, portanto, o povo, preparado e instruído, aproxima-se da celebração do mistério. Este é oferecido enquanto sacrifício, consagrado e consumido enquanto sacramento. Com efeito, em primeiro lugar, realiza-se a oblação; em segundo, a consagração da matéria oferecida; em terceiro, a sua recepção. Dois atos acompanham a oblação, a saber o louvor do povo no canto do “offertorii” (“ofertório”), pelo qual se simboliza a alegria dos oferentes; e a “oratio” (“oração”) do sacerdote, que pede que a oferenda dos fiéis seja aceita por Deus. Daí, Davi dizer: “quanto a mim, foi na retidão do meu coração que ofereci voluntariamente tudo isto, e agora vejo com alegria teu povo, aqui presente, fazer-te essas ofertas espontâneas” (I Cr, 18); e em seguida reza dizendo: “Senhor Deus, conserva as disposições do coração de teu povo” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q,83, a.4).
[Cristo institui a Santíssima Eucaristia] “sob as espécies de pão e vinho, como é evidente no Evangelho. Portanto, pão e vinho são a matéria necessária a este sacramento. E é muito razoável que o seja: 1º. Quanto ao uso deste sacramento que é a modo de comida. Pois, como no sacramento do Batismo se usa água para a ablução espiritual, porque a ablução corporal se realiza normalmente com água, assim na Eucaristia se usa para alimento espiritual pão e vinho, que são os alimentos habituais do homem. 2º. Quanto à paixão de Cristo, na qual o Sangue se separou do Corpo. Por isso, neste sacramento, que é memorial da paixão do Senhor, tomam-se separadamente o pão como sacramento do Corpo, e o vinho como sacramento do Sangue. 3º. Quanto ao efeito considerado em cada um dos que se alimentam do Pão e do Vinho eucarístico. Como diz Ambrósio, este sacramento “vale para a conservação do corpo e da alma” e por isso “a Carne de Cristo” sob a espécie de pão “é oferecida para a salvação do corpo, e o sangue sob a espécie de vinho para a salvação da alma”, já que a Escritura diz que “a alma” do animal “está no sangue”. 4º. Quanto ao efeito com relação a toda a Igreja que se constitui de muitos fiéis, como “se elabora o pão dos muitos grãos e o vinho provém das muitas uvas”, diz a Glosa, comentando texto da primeira Carta aos Coríntios, “Nós, os numerosos, somos um só corpo, etc.” (I Cor X, 17)” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, q.74, a.1).
A missa dos catecúmenos é a preparação para a segunda parte da missa, a mais importante, a missa chamada dos fiéis, porque os catecúmenos eram despedidos antes do início do sacrifício incruento e ficavam só os fiéis. Nela o celebrante fala raras vezes em voz alta e guarda silêncio místico, dirigindo-se de preferência à Majestade divina. A missa dos fiéis começa pelo ofertório. A palavra "ofertório" tem três sentidos: Primeiro significa o oferecimento das oblatas, que o povo fazia antigamente; segundo, todas as cerimônias e orações desde o Oremus até ao prefácio; terceiro, a antífona (Bened. XIV). O celebrante dirige-se ao povo com a saudação: Dominus vobiscum, e logo convida a orar: Oremus. Mas não se segue a oração. Antigamente neste lugar os fiéis faziam orações pelas várias necessidades da igreja à maneira das orações da sexta-feira santa, as quais, porém, depois se omitiram. Se, apesar disso, a Igreja mantém o Oremus no seu lugar, tem ótimas razões, indicadas já por antigos liturgistas. O ofertório na sua totalidade é uma oração ou por palavras ou por ações sacrificais. Pelo Oremus a Igreja convida os fiéis 1) a unirem-se, rezando e acompanhando as ações litúrgicas, ao celebrante, que reza e atua em nome do povo; 2) a rezarem por si, a fim de crerem a fé professada no símbolo e serem constantes nela; 3) a oferecerem-se em holocausto. (Durandus I V, c. 27, II. 7.)
Segue-se o ofertório, uma antífona que resta do antigo salmo, cantado durante as oblações do povo. Pois na antiguidade a contribuição para o sacrifício não estava entregue ao arbítrio dos fiéis, mas era dever inculcado com insistência. Além do pão e do vinho deviam oferecer outros objetos indispensáveis ao culto e à sustentação do clero e dos pobres. A partir do século XII as oblações, que consistiam em objetos, foram substituídas por ofertas em dinheiro. Uma lembrança do antigo uso é a oblação das velas nas ordenações do clero, e de esmolas postas numa mesa perto do altar, por ocasião das missas de réquie.
Porque o recebimento das ofertas levava muito tempo, também o canto do salmo devia-se prolongar. É esta a razão por que na missa de réquie, que guardou o caráter antigo, o ofertório é tão grande.
As oferendas visíveis dos fiéis significam a oblação invisível espiritual de si mesmos, que é indispensável para tornar-lhes frutuosa a assistência ao santo sacrifício.
O pão oferecido (oblata, mais tarde hostia, por ser destinada à consagração) a partir do século VIII exclusivamente é pão ázimo na Igreja ocidental. Antes deste tempo em geral era pão comum, feito, porém, de trigo e preparado de modo especial. O sínodo de Toledo (693) repreendeu os sacerdotes que usavam para a missa o seu pão comum, mas não diz que é matéria inválida. Com o uso do pão ázimo originou-se o uso das hóstias grandes e das pequenas em forma de moeda. A preparação do pão eucarístico outrora era reservada aos clérigos.
I. Antífona
A antífona muda conforme o ano eclesiástico ou a festa. Especial menção merece o ofertório da missa de réquie. As palavras: inferno, tártaro, lago profundo, Bento XIV (de sacrif. 1. 2. c. 9) entende-as como referindo-se ao purgatório. Belarmino e outros as entendem como referindo-se ao inferno, e dizem que a igreja se transporta para junto do moribundo, pedindo a Deus que não o deixe cair no inferno. Em todo o caso, este ofertório não contém nada de menos exato.
*Exemplo de antífona de Ofertório, da Missa em honra do Sagrado Coração de Jesus:
“(Sl LXVIII, 21) O meu coração aceitou a desgraça e o vitupério, na esperança de quem se condoesse de mim. Mas de-balde procurei quem me aliviasse”.
“(Sl XXXIX, 7-9) Não me pediste um holocausto pelo pecado. Então disse eu: aqui estou. No princípio do livro está escrito de mim que devo fazer a vossa vontade. Meu Deus, assim o quis, e tenho a vossa lei no meio do meu Coração, aleluia” (Tempo Pascal).
II. Oblação do pão
O oferecimento dos elementos para o sacrifício. O rito romano antigo antes do cânon tinha só uma oração, a secreta. A partir do século ÍX, devido à devoção privada, aparecem no ofertório muitas orações especiais. As orações prescritas no rito atual com os gestos respectivos remontam ao século IX-XI. Formam o chamado cânon menor, abrangendo desde Suscipe até Suscipe Sancta Trinitas. As palavras das orações do cânon menor se referem textualmente aos elementos materiais: pão e vinho. Mas atribuem-se-Ihes qualidades e efeitos (pro nostra totiusque mundi salute) que só convém propriamente ao sacrifício eucarístico, as quais qualidades se afirmam antecipadamente dos elementos materiais, i. é, do pão e do vinho.
O Suscipe. O celebrante toma na mão a patena com a hóstia e, cheio de confiança, levanta os olhos para a Majestade divina, representada visivelmente pela cruz e logo abaixando-os humildemente, reza o Suscipe. Depois traça com a patena e a hóstia uma cruz sôbre o altar, quase exatamente sobre a cruz feita na consagração do altar, e coloca a hóstia nesta cruz, preparando por assim dizer a imolação da Santa Vítima. (Cf. Durandus IV c. 29 n. 3; 17.) A patena põe-se sob a extremidade do corporal. Na missa solene o subdiácono a conserva envolvida no véu de ombros. Remonta este rito ao costume antigo de reservar uma hóstia consagrada para ser deitada no cálix no dia seguinte. No princípio da missa um acólito punha a sagrada hóstia no altar e a tirava ao ofertório para maior comodidade dos ministros. Assim se explica a reverência que se tem ao guardar a patena.
Misticamente a patena escondida debaixo do corporal significa os discípulos que fugiram na paixão de Cristo. A parte da patena não escondida significa a Virgem Santíssima que não fugiu. (I Durandus IV c. 30 n. 29.)
Súscipe, sancte Pater, omnípotens ætérne Deus, hanc immaculátam hóstiam, quam ego indígnus fámulus tuus óffero tibi, Deo meo, vivo et vero, pro innumerabílibus peccátis, et offensiónibus, et negligéntiis meis, et pro ómnibus circumstántibus, sed et pro ómnibus fidélibus christiánis vivis atque defúnctis: ut mihi, et illis profíciat ad salútem in vitam ætérnam. Amen.
Recebei, Pai santo, Deus omnipotente e eterno, esta hóstia imaculada, que eu, vosso indigno servo, Vos ofereço a Vós, meu Deus vivo e verdadeiro, pelos meus inumeráveis pecados, ofensas e negligências, por todos os que estão aqui presentes e por todos os fiéis, vivos e defuntos, para que tanto a mim como a eles aproveita para a salvação e vida eterna. Ámen.
III. Bênção da água e mistura ao vinho
Ao vinho junta-se a água. O vinho simboliza a divindade, a água a humanidade. A mistura dos dois elementos significa o mistério da incarnação, o mistério do Corpo Místico de Jesus Cristo e a íntima união com Ele na s.comunhão. A água simboliza também a água que saiu do Sagrado Coração trespassado do Senhor. A água benze-se antes de ser misturada com o vinho, porque significa o povo, que neste mundo não pode ser sem pecado. (Durandus I. c.n. 21.) Não se benze na missa de réquie, porque esta missa se diz principalmente pelas almas, que já não podem pecar e não precisam desta bênção. A oração Deus qui é da Liturgia do natal do século IV. (Leonianum.)
Deus, qui humánæ substántiæ dignitátem mirabíliter condidísti et mirabílius reformásti: da nobis, per hujus aquæ et vini mystérium, ejus divinitátis esse consórtes, qui humanitátis nostræ fíeri dignátus est párticeps, Jesus Christus Fílius tuus, Dóminus noster: Qui tecum vivit et regnat in unitáte Spiritus Sancti Deus: per ómnia sáecula sæculórum. Amen.
Ó Deus, que de modo maravilhoso criastes em sua dignidade a natureza humana e de modo mais maravilhoso ainda a reformastes, concedei-nos, pelo mistério desta água e vinho, sejamos participantes da divindade d’Aquele que se dignou partilhar da nossa humanidade, Jesus Cristo vosso Filho e Senhor nosso, que, sendo Deus, convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo por todos os séculos dos séculos. Ámen.
IV. Oblação do cálice
Na oblação do cálix, o celebrante levanta os olhos ao alto e os conserva nesta posição em sinal de confiança e porque a última palavra ascendat exige êste gesto. (Cf. n.° 698.) Na missa solene o diácono sustenta o braço do celebrante ou o pé do cálix, porque antigamente era o diácono que punha o cálix no altar, rezando ele ou o celebrante Offerimus. Outros alegam o peso do grande cálix, outrora em uso. Mas nas antigas fontes não se acha esta explicação.
Offérimus tibi, Dómine, cálicem salutáris, tuam deprecántes cleméntiam: ut in conspéctu divínæ majestátis tuæ, pro nostra et totíus mundi salúte, cum odóre suavitátis ascéndat. Amen.
Nós Vos oferecemos, Senhor, o cálix da salvação, e da vossa clemência imploramos que ele se eleve até à presença da vossa divina majestade, qual suave odor, para salvação nossa e de todo o mundo. Ámen.
V. Invocação
A oração In Spiritu humilitatis lembra o forno ardente (Dan 3, 39. 40), em que, como num altar flamejante, os três jovens, com as mesmas palavras, ofereceram o seu próprio coração humilde e contrito em holocausto. Assim o celebrante e os fiéis, representados nos elementos materiais, destinados ao sacrifício, oferecem ao Pai celeste as suas orações, a sua vontade em holocausto nas chamas da caridade. E logo se levantando, num gesto de desejo ardente, com as mãos e os olhos ao alto, o celebrante pede ao Espírito Santo (Veni Sanctificator), ao fogo divino, que desça sobre o sacrifício e que o prepare pela sua bênção para a consagração.
In spíritu humilitátis et in ánimo contríto suscipiámur a te, Dómine: et sic fiat sacrifícium nostrum in conspéctu tuo hódie, ut pláceat tibi, Dómine Deus.
Veni, Sanctificátor, omnípotens ætérne Deus: et bénedic hoc sacrifícium, tuo sancto nómini præparátum.
Com o espírito humilhado e coração contrito, sejamos por Vós acolhidos, Senhor; e que este nosso sacrifício se realize hoje na vossa presença por forma a merecer o vosso agrado, Senhor nosso Deus.
Vinde, Santificador, Deus omnipotente e eterno, e abençoai este sacrifício preparado para o vosso santo nome.
VI. Incensação
“Ocorrem aqui duas razões. 1ª. Manifestar o respeito devido a este sacramento, a saber o bom odor afasta qualquer mau cheiro corporal que haja no recinto, o que poderia provocar mal-estar.2ª. Simbolizar o efeito da graça, da qual Cristo estava repleto, como de um bom odor, segundo o dito da Escritura: “Oh! O odor de meu filho é como o odor de um campo fecundo” (Gn XXVII, 27). De Cristo, a graça derrama-se sobre os fiéis pelo ministério dos celebrantes, como diz Paulo: “Por meio de nós, espalha em todo lugar o perfume do seu conhecimento” (II Cor II, 14). Daí se segue que, depois de incensar-se de todos os lados o altar, símbolo de Cristo, se incensam todos segundo a ordem” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.5 ad 2).
A incensação. Na missa solene segue-se a incensação, a qual se faz desde o século IX. O incenso como que envolve as oblatas num fogo visível, santificando-as e tornando-as aceitáveis a divina Majestade, e depois comunica a mesma santidade ao altar e a todos os fiéis, enquanto são capazes de recebê-la. O celebrante explicitamente pede: "Acenda em nós o Senhor o fogo do seu amor e a chama da sua caridade." E como que para mostrar que esta súplica tem efeito, o diácono, pela incensação, comunica-lhe e depois aos fiéis o amor e a caridade divinas.
A oração Per intercessionem pedindo a São Miguel a sua poderosa intercessão junto ao trono de Deus, encontra-se nos missais dos séculos XI-XII, com o nome de São Miguel, e muitas vezes também o de São Gabriel.
*A fórmula de bênção do incenso é: “Pela intercessão do bem-aventurado Arcanjo São Miguel, que está à direita do altar do incenso, e de todos os seus eleitos, digne-se o Senhor abençoar este incenso e recebê-lo qual suave perfume. Por Jesus Cristo Senhor nosso. Amém”.
VII. Ablução das mãos
“A ablução das mãos se faz na celebração da missa por respeito devido ao sacramento. E isso por duas razões: 1ª. Costumamos lavar as mãos para tocar em coisas preciosas. Daí se segue parecer indecoroso que alguém se aproxime de tão grande sacramento com as mãos sujas, mesmo no sentido corporal. 2ª. Há uma razão simbólica. Porque, como ensina Dionísio, a ablução das extremidades simboliza a purificação até dos menores pecados, conforme diz o Evangelho de João: “Aquele que tomou banho não tem necessidade de lavar senão os pés”. E tal purificação é exigida de quem se aproxima deste sacramento. É o que significa a confissão que antecede o intróito da missa. E isso mesmo significava a ablução dos sacerdotes na Antiga Aliança, como observa Dionísio na mesma passagem” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.83, a.5 ad 1).
Segue a ablução das mãos, a qual é necessária depois da incensação; outrora era necessária principalmente depois de receber as ofertas do povo. Na missa privada é cerimônia simbólica. Pois a rubrica exige a ablução só das pontas de 2 dedos, para indicar que se devem evitar também as faltas insignificantes no serviço de Deus. Reza-se o salmo 25: Lavarei as minhas mãos.
LAVABO inter innocéntes manus meas: et circúmdabo altáre tuum, Dómine. Ut áudiam vocem laudis, et enárrem univérsa mirabília tua. Dómine, diléxi decórem domus tua, et locum habitatiónis glóriæ tuæ. Ne perdas cum ímpiis, Deus, ánimam meam, et cum viris sánguinum vitam meam: In quorum mánibus iniquitátes sunt: déxtera eórum repléta est munéribus. Ego autem in innocéntia mea ingréssus sum: rédime me, et miserére mei. Pes meus stetit in dirécto: in ecclésiis benedícam te, Dómine. Glória Patri, et Fílio, et Spirítui Sancto. Sicut erat in princípio, et nunc, et semper: et in sáecula sæculórum. Amen.
Lavo na inocência as minhas mãos, e acerco-me, Senhor, do vosso altar, Para fazer ouvir os vossos louvores, e apregoar todas as vossas maravilhas. Amo, Senhor, a beleza da vossa casa, e o lugar em que repousa a vossa glória Não deixeis, ó Deus, que minha alma se perca com os pecadores, nem a minha vida com os homens sanguinários; Eles que têm as mãos manchadas de iniqüidade, e a dextra de peitas repleta. Eu, pelo contrário, conduzo-me pelas sendas da inocência; livrai-me, Senhor, e compadecei-Vos de mim. Os meus pés andam pelo caminho da retidão; nas assembléias Vos bendirei, Senhor. Glória ao Pai (...).
VIII. Oferecimento à Santíssima Trindade
O Suscipe Sancta Trinitas. Depois de voltar ao meio do altar, o celebrante, lançando para a cruz um olhar de confiança, humildemente inclinado, principia a oração Suscipe, que pelo miúdo enumera os vários fins do s. sacrifício: a glorificação do divino Redentor, de Maria Santíssima e dos santos, mormente dos santos cujas relíquias estão no altar (istorum) e a salvação das almas.
Súscipe, sancta Trínitas, hanc oblatiónem, quam tibi offérimus ob memóriam passiónis, resurrectiónis, et ascensiónis Jesu Christi, Dómini nostri, et in honórem beátæ Maríæ semper Vírginis, et beáti Joannis Baptistæ, et sanctórum apostolórum Petri et Pauli, et istórum, et ómnium sanctórum: ut illis profíciat ad honórem, nobis autem ad salútem: et illi pro nobis intercédere dignéntur in cælis, quorum memóriam ágimus in terris. Per eúmdem Christum Dóminum nostrum. Amen.
Recebei, Trindade Santa, esta oblação, que Vos oferecemos em memória da Paixão, Ressurreição e Ascensão de Jesus Cristo nosso Senhor, e em honra da bem-aventurada sempre Virgem Maria, de S.João Batista, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, destes (cujas relíquias aqui estão) e de todos os Santos; seja para honra deles e salvação nossa, e por nós se dignem intereceder no céu aqueles cuja memória celebramos na terra. Pelo mesmo Jesus Cristo Senhor nosso. Ámen.
IX. Secreta
A Secreta. Com as palavras Orate fratres, outrora dirigidas só ao clero, o celebrante convida os fiéis a rezar por ele e com ele, lembrando que a missa é também o sacrifício deles (meum ac vestrum sacrificium). Sem dizer Oremus, o celebrante acrescenta a secreta, antigamente a única oração no ofertório sobre as oblatas. Uns, seguindo os antigos liturgistas, derivam a secreta de secreto, porque é rezada em voz baixa, a coleta, porém, em voz alta; outros de secerno, separar, porque se reza sôbre os elementos do sacrifício, separados dos destinados a outro fim ou porque se rezava depois de separarem-se os catecúmenos da assembléia litúrgica.
Oráte fratres, ut meum ac vestrum sacrifícium acceptábile fiat apud Deum Patrem omnipoténtem. R. Suscípiat Dóminus sacrifícium de mánibus tuis ad laudem, et glóriam nóminis sui, ad utilitátem quoque nostram, totiúsque Ecclésiæ suæ sanctæ.
Orai, irmãos, para que este sacrifício, meu e vosso, seja aceite de Deus Pai omnipotente. R. Receba o Senhor de tuas mãos este sacrifício para louvor e glória do seu nome e para bem nosso e de toda a sua santa Igreja. *Exemplo de Secreta, da Missa em honra do Sagrado Coração de Jesus: “Olhai, Senhor, para o amor inefável do Vosso dileto Filho e fazei que este sacrifício Vos seja agradável e sirva de expiação dos nossos pecados. Pelo mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo (...)”.