31 de outubro de 2017

As Mais Belas Histórias do Cristianismo - Parte 14

14. O CRISTIANISMO NA ROMA PAGÃ

Destruição de Jerusalém foi um golpe decisivo para os judeus cristãos que sonhavam uma igreja nacional judia, com exagerado culto à tradição legal de Moisés. Triunfara, por fim, o conceito exato de "Ecclesia”, a sociedade de todos os crentes em Cristo, sem distinção alguma de nacionalidade ou de condição, conforme os ensinamentos de S. Paulo: "Já não há gentio, nem judeu, circuncidado ou incircuncidado, Bárbaro ou Seita, de servo e livre, mas Cristo é tudo em todos" (Colos. III, 11). Portanto, "um só Senhor, uma só fé, um só batismo" (Ef. IV, 5) na Igreja que deve ser santa, porque Cristo morreu para purificá-la de toda mancha.
O cristianismo que viera do Oriente, passadas as perseguições sangrentas, haveria de encontrar na capital do Império ambiente favorável para a afirmação de sua doutrina e o centro donde se irradia para o mundo todo. Roma nos primeiros tempos do cristianismo dominava todos os países do Mediterrâneo, e seu domínio se estendia por vastas regiões, numa população superior a 120 milhões de súditos. Neste imenso Império havia de ser pregada a religião de Cristo e estabelecida a sua Igreja.
Ao lado de gigantescos progressos na vida material que levava prosperidade ao mundo romano, via-se uma decadência acentuada na vida intelectual e nos costumes A filosofia em crise, quando poucos se interessavam pelos conceitos de existência e liberdade; a religião antiga em decadência; as classes altas haviam perdido a noção da "verdadeira" divindade, e já os deuses não eram cultuados; prevalecia a superstição, e o povo chegou a tributar honras divinas a homens vivos, como os imperadores. A grande missão do cristianismo era precisamente libertar aqueles espíritos oprimidos pelo paganismo e abrir-lhes o caminho para a nova luz. As condições romanas eram em parte favoráveis à expansão do cristianismo, como a paz romana, a língua única, as comunicações, a superficialidade das religiões orientais até então, o paganismo desacreditado pelos filósofos. De outra parte, os novos valores espirituais trazidos pelo cristianismo, em oposição aos humanos e morais em que se apoiava o férreo poderio imperial, eram a certeza de tremenda luta sangrenta que pouco depois se desencadearia.
O cristianismo pregava uma renovação dos costumes que nenhuma religião pagã jamais havia exigido com tanta energia. O Reino de Deus deveria se conquistar com violência. A progressiva afirmação do pensamento cristão preocupou não só os filósofos pelas suas novas idéias, como também o governo obrigado a defender a religião oficial do Império romano. Tragicamente célebres as sangrentas repressões, fruto da luta do Estado romano que pretendeu destruir com violência e tirania a nova religião, o que jamais conseguiu, pois Cristo protegeria sempre os seus: "eis que estarei convosco todos os dias até à consumação dos séculos".
Apesar da liberdade concedida aos cidadãos romanos de praticar livremente os cultos de nações estrangeiras, a participação do culto público oficial, especialmente quando dirigido aos imperadores e a Roma, era considerada como manifestação expressa de fidelidade ao Império, e negar-se a isto, era crime contra a divindade e o Estado.
O cristianismo não admitia equívocos; cuco culto que não fosse o seu constituía uma impiedade. Os cristãos jamais cultuariam os deuses e começaram a ser acusados e em conseqüência perseguidos como inimigos do Império.
Desde o martírio de S. Pedro e S. Paulo, no reinado de Nero, até o advento de Constantino a Igreja foi perseguida. Houve anos de relativa tranqüilidade, mas as lutas eram recrudescidas a cada passo. O número de perseguições gerais varia segundo os autores, uns apontando as maiores e que se estenderam a todo Império, outros apenas as menores e que atingiram algumas partes somente do vasto reino.
Das Atas dos Mártires, dos escritos dos Santos Padres e testemunhos de escritores pagãos, se deduz que o número dos que sofreram o martírio foi muito elevado. Nero inaugurou as perseguições contra os cristãos, tomando por base o grande incêndio que em 64 destruiu boa parte de Roma, e do qual os cristãos foram injustamente culpados. Provavelmente esta perseguição não se, estendeu por todo o Império.
Domiciano foi o segundo perseguidor. Apesar de suas eminentes qualidades, sua inteligência e amor ao trabalho, era de índole antipática, orgulhoso, querendo tudo para si, suspeitando de tudo e de todos. O furor com que se lançou contra a aristocracia romana que teve alguns elementos sacrificados, por crime de conspiração, estendeu-se aos filósofos que se permitiam defender os direitos de liberdade, e chegou até os cristão. A nova fé já se alargara, subira às altas camadas sociais, e membros de aristocracia, convertidos ao cristianismo, como Atílio Glabrião, Flávio Clemente e sua esposa Flávia Domitila, foram martirizados. A vítima mais ilustre de Domiciano foi o apóstolo São João, mergulhado, por ordem do tirano, numa caldeira de óleo a ferver. O discípulo predileto, saindo
daí incólume, foi desterrado para a ilha de Patmos, onde escreveu o Apocalipse.
Com alguns intervalos que garantiram paz aos cristãos, continuaram a ser perseguidos no reinado de Trajano, Marco Aurélio, Séptimo Severo, Maximiano, Décio, Valeriano, Aureliano e finalmente Diocleciano. Todos estes passaram a história manchados pela perfídia e desprezados pela posteridade. A mais feroz das perseguições foi a ordenada por Diocleciano, a última do Império. Havia trinta anos que os cristãos estavam em paz; suas reuniões eram públicas. Por toda parte, nos altos postos, muitos magistrados e funcionários do Império eram conhecidos como cristãos. Já eram numerosos os que viviam na côrte. Prisca, mulher de Diocleciano, e Valéria, sua filha, mantinham com os cristãos estreitas relações. O paganismo se desmoronava e começava a dominar a nova doutrina do cristianismo. Durante dez anos, Diocleciano via tudo isto e nada modificou. Razões obscuras não conseguiram ainda explicar as causas da perseguição, a mais terrível de todas. Para o historiador cristão Lactâncio, que frequentava a casa imperial, e deveria ser bem informado, Galério, a quem Diocleciano confiou a Ilíria, na divisão do Império, fora o grande responsável pela perseguição. Homem bárbaro, decidiu ele que os militares cristãos fossem intimados a sacrificar aos deuses, se quisessem continuar em seus postos.
Diocleciano, que a princípio hesitava em desencadear a perseguição, impressionado pela astúcia-de Galério, pelos arúspices e oráculos que afirmavam que 'a presença de cristãos na escolta entravava os poderes divinos, prepara o edito e ordena que se fechem as assembleias cristãs, sejam demolidas as Igrejas, destruídos os livros sagrados, e os cristãos para desempenharem funções públicas obrigados a abjurar a fé cristã. Outros editos se seguiram e desencadeou-se através de todo o império a perseguição sanguinária.
O Ocidente sofreu menos, porque Constâncio Cloro, que tinha por esposa uma cristã, Helena, era simpatizante dos cristãos, e senhor de grande parte dos territórios, reduziu ao mínimo a opressão na
Gália e Bretanha. Dolorosa a enumeração de todas as crueldades, e narrativas impressionantes de martírios nos deixou esta perseguição, com as mais horríveis torturas, especialmente no Oriente, onde Galério feria sem piedade.
Em Roma, o nobre soldado Sebastião teve seu peito abrasado mais ainda no amor de Deus pelas setas sangrentas dos carrascos imperiais. Soldado da Pátria, disposto a defendê-la na paz e na guerra, ele o era também de Cristo, cuja fé jamais trairia. Diocleciano afastou-se do governo e teve ainda alguns anos para presenciar o triunfo do cristianismo que ele combatera tão cruelmente. Passaram as perseguições! O cristianismo transpôs a todos os obstáculos, semeando pelo Império romano o sangue dos mártires. "Semen est sanguinis christianorum", dirá Tertuliano. Semente que germinou, cresceu e desenvolveu-se por todo o mundo. A cristandade nascente nos faz pensar na comparação evangélica do pequeno grão de mostarda que é a mais pequena das sementes, mas que se desenvolve, torna-se árvore, onde as aves do céu fazem o seu ninho. Tornava-se presente em toda a parte, irradiando-se e lançando pelo mundo as suas sólidas raízes que jamais poderiam ser arrancadas.
Pela história do cristianismo conhecem-se as florescentes comunidades da Gália, África e Ásia com suas ilhas; outras em Alexandria do Egito, que se celebrizariam pelos estudos teológicos mais tarde, na Grécia e pelo Império .todo, onde se encontram as mais belas ruínas cristãs, monumentos históricos que comprovam a florescência dos primeiros tempos.
A sementeira cristã que se fizera no espaço, espalhara-se no coração da gente, e aos poucos a palavra evangélica, antes acolhida pelo povo humilde somente, atingiu as classes ricas, as esferas sociais superiores. E Tertuliano, com razão, chegou a afirmar: "Os pagãos se imitam ao verem entre os fiéis de Cristo gente de todas as categorias". Não obstante o seu entusiasmo literário ao dizer: "Somos de ontem e enchemos já as nossas cidades, as nossas praças, os municípios, os conselhos, os campos, as tribos, as decúrias, o Palácio, o Sevado", anos mais tarde, Orígenes dirá que os cristãos são ainda "muito pouco numerosos", entre os milhões de habitantes do Império, uma minoria no primeiro século, mas ativa e que crescerá sempre, tornando-se dois séculos depois uma maioria. Sepultados na própria monstruosidade de seus crimes, desapareceram os tiranos perseguidores dos cristãos. E chegou o momento do triunfo para o cristianismo. A cruz se gravou luminosa no céu, como aurora refulgente de uma nova era: "Com este sinal vencerás!"
E brilhou fulgurante no coração do Imperador Constantino. Era a vitória final! A Igreja vencera os déspotas com a fôrça e heroísmo de seus membros.
E a cruz se fincará para sempre na terra remida pelo sangue de Cristo!

30 de outubro de 2017

Sermão para o 20º Domingo depois de Pentecostes – Padre Daniel Pinheiro, IB

[Sermão] Sentido Espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 12: O Cânon Romano IV – Consagração da Hóstia

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Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Gostaria de continuar, caros católicos, meu propósito de comentar o sentido espiritual das cerimônias e orações da Missa no Rito Romano Tradicional. Nós chegamos hoje na parte mais importante da Missa: a consagração. A consagração é o centro da Missa. E a Missa, sendo a renovação do sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo, é o centro do mundo e da humanidade. Assim, a consagração é o centro de tudo, é o centro da Igreja, é o centro de nossas vidas, é o centro da humanidade.
A consagração é o momento em que, pelas palavras do sacerdote, Nosso Senhor se faz presente em corpo, sangue, alma e divindade sobre o altar, e renova seu sacrifício de modo sacramental, místico. Lembremos que o sacrifício da missa é exatamente o mesmo sacrifício que Cristo ofereceu no calvário. Não há diferença entre eles, a não ser no modo, pois na cruz o sacrifício foi cruento, isto é, sangrento, com efusão de sangue e sofrimento, e, na Missa, o sacrifício é incruento, sem efusão de sangue, sem sofrimento. Tudo o mais é idêntico. É o mesmo sacerdote que oferece o sacrifício: Nosso Senhor Jesus Cristo. É a mesma vítima que é oferecida: Nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, não se trata de sacrifícios diferentes, mas do mesmo e único sacrifício da cruz, renovado nos altares pela onipotência e pela misericórdia de Deus. O que renova o sacrifício são as palavras da consagração. É pela consagração que todas as graças alcançadas por Cristo na cruz nos são aplicadas. Portanto, a consagração é, de fato, o centro de tudo. É o momento mais sublime e santo, mais solene e frutuoso. É a essência da Missa. Estamos aqui no santo dos santos. Um silêncio profundo circunda a consagração, antes e depois, para marcar bem o mistério do que ocorrerá. Tudo na Missa até aqui foi preparação para a consagração. Tudo depois será consequência da consagração.
As palavras que realizam a consagração propriamente dita, isto é, que realizam a mudança da substância do pão na substância do corpo de Cristo e a mudança da substância do vinho na substância do sangue de Cristo são respectivamente: “isto é o meu corpo” e “este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança – mistério da fé – que será derramado por vós e por muitos em remissão dos pecados”.
Todavia, temos outras palavras que antecedem as palavras da consagração propriamente ditas. Consideremos, então, toda essa parte da Missa.
Qui pridie quam patereteur. Na véspera de sofrer, ou na véspera de sua paixão. Assim começa essa parte da Missa, fazendo referência clara à paixão de Cristo, pois a Missa é justamente a renovação de seu sacrifício que se consumou na cruz. Ele tomou o pão em suas santas e veneráveis mãos. Nosso Senhor Jesus Cristo tomou o pão em suas mãos. O pão que nos serve de alimento para o corpo e que será a matéria desse sacramento e que se tornará o Corpo de Cristo. O texto da Missa diz que Cristo o tomou em suas santas e veneráveis mãos. O “santas e veneráveis mãos” não se encontra nos textos do Novo Testamento que nos narram a instituição da Missa feita por Cristo na Última Ceia. Essas palavras e outras que não se encontram na Sagrada Escritura são consideradas de tradição divina e apostólica, ou seja, foi o próprio Cristo e os próprios apóstolos que nos deixaram pela tradição oral. É evidente que as mãos de Cristo são santas e veneráveis. Quanto bem não fez com suas mãos, quantas boas obras de misericórdia material e espiritual, curando doenças e perdoando os pecados, abençoando os homens? Mãos veneráveis, dignas de nossa devoção, mãos verdadeiramente divinas e que foram pregadas na cruz para a nossa salvação. Mãos verdadeiramente santas e veneráveis. O padre, ao dizer as palavras “tomou o pão em suas santas e veneráveis mãos”, toma a hóstia ainda não consagrada em suas próprias mãos, imitando o gesto do Salvador.
Et elevatis oculis in caelum. E, tendo os olhos elevados ao céu, voltados para Vós, Deus, Seu Pai onipotente. Mais uma vez, nas Sagradas Escrituras, não estão contidas essas palavras. Não nos é dito que Cristo tenha elevado os olhos ao céu. Sabemos disso pela tradição divina e apostólica. E é bem natural que Cristo o tenha feito. Ele elevou os olhos para multiplicar os pães, Ele elevou os olhos na ressurreição de Lázaro, e em outras ocasiões. Não levantaria nesse momento sublime de instituir a Missa, de instituir o sacrifício perfeito da nova e eterna aliança? Cristo elevou os olhos ao Pai, dando-Lhe graças por todos os seus benefícios, pela sua misericórdia para com os homens. E também abençoando o pão, para separá-lo de todo uso profano, já que esse pão será transformado no corpo de Cristo. Ao dizer essas palavras, o padre olha para a cruz no alto, depois inclina a cabeça ao mencionar a ação de graças e faz o sinal da cruz sobre o pão ao mencionar a bênção, para preparar o pão para a consagração. Durante a Missa, o sacerdote já abençoou a hóstia não consagrada inúmeras vezes, mas repete ainda uma vez essa bênção. Também já rendeu graças inúmeras vezes ao longo da Missa, como no prefácio, por exemplo.
Fregit deditque discipulis suis. E partiu-o e deu-o a seus discípulos dizendo: tomai todos e comei. Na Missa, a hóstia consagrada será partida apenas depois do Pai-Nosso e será dada apenas no momento da comunhão. Nosso Senhor dará seu corpo aos seus discípulos, cumprindo a sua promessa em São João 6, 52: “o pão que eu vos darei é a minha carne para a salvação do mundo.” Nosso Senhor se oferece em alimento para a alma de todos os homens, mas nem todos podem recebê-lo porque nem todos aceitam as suas palavras ou porque preferem permanecer no pecado mortal.
E chegamos realmente às palavras da consagração: “isto é, com efeito, o meu corpo”, hoc est enim corpus meum. São essas cinco palavras, ditas pelo sacerdote, que mudam inteiramente a substância do pão na substância do corpo de Cristo. Essas palavras não são ditas pelo padre em modo narrativo, mas em modo afirmativo, em modo intimativo. O padre não está aqui contando uma história ou simplesmente lembrando ou comemorando o que Cristo fez. O Padre está aqui fazendo verdadeiramente o que Cristo fez na Última Ceia. E isso se manifesta mesmo na tipografia, isto é, na disposição do texto no Missal. Depois das palavras “tomai todos e comei”, vem um ponto final. Há um parágrafo e, em letras maiúsculas, vêm as palavras da consagração. Não temos, portanto, dois pontos, que designam uma narrativa, nem a continuidade do texto. As palavras da consagração, ou seja, as palavras “isto é o meu corpo” estão separadas do resto. Parecem detalhes, mas é algo importantíssimo, para mostrar que a Missa é, de fato, a renovação do sacrifício de Cristo. Infelizmente, no rito novo, a tipografia não é tão clara assim, dando uma idéia mais de narração do que de realização de um ato. O fato de as palavras não reproduzirem exatamente o texto da Sagrada Escritura também nos deixa claro que não se trata de narração, mas da renovação da ação de Cristo. E, de fato, aqui é Cristo que age. O sacerdote age somente na pessoa de Cristo. Cristo é o sacerdote principal, é Cristo que opera a consagração. O padre é um instrumento nas mãos de Cristo. O Sacerdote empresta a sua voz a Cristo. É Cristo quem celebra a Missa em primeiro lugar.  Com essas palavras – isto é o meu corpo – e pela ação onipotente de Cristo, seu corpo passa a estar presente realmente e substancialmente sobre o altar tal como se encontra agora no céu, isto é, unido ao seu sangue, à sua alma e à sua divindade. Portanto, na hóstia consagrada está Cristo todo inteiro: corpo, sangue, alma e divindade. Do pão, permanecem somente as aparências: vemos pão, sentimos pão, o gosto e textura é de pão, mas sabemos, pelas palavras de Cristo, que é verdadeiramente o seu corpo que está ali.
Logo após a consagração o padre faz uma genuflexão, antes mesmo da elevação. Ora, isso é uma confissão de fé imediata de que ali está Cristo inteiro, realmente e substancialmente presente em corpo, sangue, alma e divindade. Depois dessa genuflexão é que o padre faz a elevação, para que os fiéis possam adorar Cristo. Depois da elevação, o padre faz nova genuflexão. No rito novo, infelizmente, a primeira genuflexão, imediatamente após a consagração, foi abolida, restando apenas a genuflexão após a elevação. Isso pode induzir alguns ao pensamento de que Cristo se tornaria presente não pelas palavras da consagração, mas pela fé do povo, ou seja, Cristo se tornaria presente quando é mostrado para o povo e quando o povo confessa que ele está presente. Isso é um erro gravíssimo professado por alguns protestantes.
A elevação logo após a consagração foi introduzida na idade média para combater algumas heresias eucarísticas. Por exemplo, a heresia de Berengário de Tours, que negava a presença real de Cristo nas espécies consagradas, ou o erro de alguns outros que afirmavam que o corpo de Cristo se tornava presente apenas depois da consagração do cálice. Não, na verdade, Cristo está já presente pelas palavras da Consagração ditas sobre o pão. Deve ser, então, adorado pelo padre com as duas genuflexões e pelo povo com a elevação da hóstia.
Consideremos, então, caros católicos, o milagre estupendo que se opera com as palavras da consagração. Consideremos a onipotência divina e também a sua bondade e misericórdia para conosco em se fazer presente a nós de maneira tão simples e tão humilde. E tudo isso para que possamos aproveitar mais do sacrifício de Cristo, para que possamos nos santificar e tê-lo conosco até a consumação dos séculos. Adoremos Cristo no altar reconhecendo seu soberano domínio sobre nós e sobre todas as coisas. Adoremos Cristo no altar pedindo perdão pelos nossos pecados. Pedindo as graças de que precisamos e agradecendo por todos os seus benefícios, mas em particular pela eucaristia, pela Missa e pelo sacerdócio.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

29 de outubro de 2017

Sermão para o 18º Domingo depois de Pentecostes – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Sermão] O papel da graça em nossa vida


Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Sem Vós, não podemos Vos agradar.
Tanto a oração da coleta do dia de hoje quanto a epístola de São Paulo nos falam da graça. Na coleta, pedimos que Deus dirija o nosso coração pela obra de sua misericórdia, pois sem a ação dEle não podemos agradá-lO. Na Epístola, nos é dito que é Cristo que nos confirmará até o fim.
Nós precisamos da graça de Deus, caros católicos, para agradar a Deus e para nos salvar. A graça pode ser dividida, principalmente, em graça santificante e graça atual.
A graça santificante é um dom gratuito de Deus que muda acidentalmente a nossa alma e que nos faz participar da própria vida divina. Quando dizemos que é uma mudança acidental, queremos dizer que continuamos seres humanos quando recebemos a graça, não mudamos a nossa natureza, mas participamos da vida divina e nos tornamos dignos do céu. Não nos divinizamos propriamente. Mas, permanecendo seres humanos, participamos da vida divina.
A graça atual, por sua vez, é a ajuda pontual e transitória de Deus para que façamos o que é bom, para que evitemos o que é mau. Essa ajuda se dirige principalmente a evitar que percamos a graça santificante, se estivermos nela, ou se dirige a nos levar ao arrependimento de nossos pecados para que possamos recobrar a graça santificante, se estivermos em pecado mortal.
O nome graça significa duas coisas importantes: primeiro, é um dom gratuito de Deus. Deus não era obrigado a nos fazer participantes de sua própria vida. Não era obrigado a nos fazer seus amigos desse modo. Mas quis fazer isso pela sua infinita bondade. Não só nos criou, mas nos chamou a algo que está acima de nossa exigência, Ele nos chamou a conhecê-lo como Ele mesmo se conhece, a amá-lO como Ele mesmo se ama. Deus não poderia nos fazer algo maior e melhor por nós. E fez sem ser obrigado a isso. A graça é gratuita.
O nome graça significa também que, por ela, nós nos tornamos gratos, agradáveis a Deus. A graça santificante nos torna agradáveis a Deus. Ora, se a graça é gratuita, dada por Deus e sem ela não somos agradáveis a Ele, está claro que não podemos agradar a Deus sem Ele. Como diz a coleta: quia tibi sine te placere non possumus. Porque sem Vós não podemos Vos agradar.
Para sairmos do pecado (original ou mortal) para o estado de graça santificante, nós podemos nos dispor, implorar a Deus a sua graça, mas não podemos merecê-la propriamente. Como merecer algo que está muito acima de nós? Como merecer a graça de Deus se estamos em estado de inimizade com Ele? Para passar do pecado mortal ou original ao estado de graça santificante, é só por bondade de Deus, que leva em conta, claro, nossas disposições, sem que elas O obriguem a nos dar a sua graça. Sem Deus, nada podemos fazer que O agrade. Claro, Deus dá a graça suficiente para todos, a fim de que se salvem. Ninguém poderá chegar no dia de seu juízo particular, isto é, no instante após a própria morte e dizer: não me salvei porque Deus não me deu a graça. Deus dá a graça suficiente e abundante para que todos se salvem. Se não nos salvarmos é porque não aceitamos a Sua graça, porque não quisemos recebê-la.
Por outro lado, se estamos já em amizade com Deus em união com Ele, isto é, se estamos em estado de graça e fazemos boas obras por Deus, podemos merecer um aumento da graça, podemos merecer graças atuais. Podemos merecer porque, ao fazermos as boas obras em estado de graça, nossas obras passam a ser feitas com Ele, efetivamente.
Então, caros católicos, se por grande infelicidade, estivermos em estado de pecado mortal, devemos implorar a graça de Deus para que saiamos desse estado pelo arrependimento de nossos pecados, por uma boa confissão. Devemos suplicar essa graça de arrependimento e devemos procurar nos dispor para receber essa graça, evitando cometer o mesmo pecado e outros pecados, procurando observar os mandamentos. Se estivermos em estado de graça, devemos suplicar a Deus que nos conserve. Não podemos perseverar na graça sem a ajuda divina, sobretudo não podemos perseverar na graça até a nossa morte sem uma ajuda particular de Deus, como diz São Paulo: é Ele que nos manterá firmes até o fim. Devemos pedir a Deus que nos conserve sempre na graça e devemos pedir, em particular, essa graça da perseverança final.
Devemos nos lembrar que a causa primeira de todo bem é sempre Deus. Muitas vezes, começamos a avançar na vida das virtudes e começamos a atribuir nossas boas obras cada vez mais a nós mesmos e cada vez menos a Deus e à graça dEle. Quando vamos agindo assim, confiando muito em nós mesmos e esquecidos da graça divina, podemos ter certeza de que o abismo, de que o pecado se encontra logo adiante de nós, no nosso próximo passo. As boas obras são fruto de uma misteriosa união entre a graça divina e a nossa cooperação. A parte principal é a graça, claro. Nós cooperamos com a graça. Devemos, então, sempre reconhecer que se vamos avançando no amor a Deus, nas virtudes, nas boas obras, é, em primeiro lugar, pela graça de Deus. Graça de Deus que exige nossa cooperação, como já dissemos e repetimos. Não nos esqueçamos de que a graça de Deus é a fonte de todo bem.
Devemos confiar em Deus e desconfiar de mim mesmo. Desconfiar de mim mesmo não quer dizer que devo pensar: nunca vou me salvar, nunca vou conseguir. Desconfiar de mim mesmo é reconhecer a minha própria fraqueza e a minha própria miséria quando esqueço a graça divina e a negligencio. Desconfiar de mim mesmo é saber que irei pecar se eu não fizer a minha parte para evitar as ocasiões de pecado. Desconfiar de mim mesmo é saber que preciso rezar, que devo me apoiar na graça divina para não cair. Desconfia de mim mesmo é saber que quando penso que posso fazer o bem sozinho, sem a ajuda de Deus, irei cair seriamente em breve. Paradoxalmente, quando confiamos em nós mesmos, esquecidos da graça divina, vamos caminhando ao desespero, pois com nossas próprias forças não conseguiremos fazer o bem por muito tempo. Quando, ao contrário, temos essa desconfiança ordenada de nós mesmos, como acabamos de falar, vamos caminhando para a confiança em Deus, vamos aumentando a nossa esperança. Por isso São Paulo diz: quando estou fraco, estou forte, isto é, quando reconheço as minhas fraquezas, estou forte na graça de Deus, pois recorro a Ele e me apoio nEle e sigo o que Ele diz para vencer as minhas fraquezas.
Devemos também, caros católicos, fazer a nossa parte – ajudados por Deus – para sermos fiéis à graça. A fidelidade à graça é indispensável. Primeiramente, a fidelidade à graça santificante, fazendo tudo para preservá-la. A graça santificante, isto é, a união a Deus, a amizade com Ele, é o tesouro escondido. Tendo encontrado esse tesouro devemos deixar todo o resto para guardá-lo e fazê-lo frutificar sempre. Devemos ser fiéis a tão alto dom que nos foi dado gratuitamente por Deus. Devemos ser fiéis também às graças atuais que Deus nos dá, que são essas ajudas pontuais e transitórias para que evitemos o pecado e para que cresçamos no amor a Ele. É muito importante não negligenciar essas graças atuais que Deus nos dá. Se negligenciamos essas graças, vamos pouco a pouco nos dispondo ao pecado. Se vamos negligenciando essas graças, deixamos de progredir na vida espiritual. Se negligenciamos essas graças, terminamos perdendo muitas outras graças. Muitas graças atuais estão ligadas umas às outras como os elos de uma corrente. Se deixamos passar uma, perdemos várias outras graças que estavam atreladas a ela. Devemos ser fiéis às graças atuais, às graças que nos levam a melhor conhecer, amar e servir a Deus.
Caros católicos, lembremo-nos sempre de que a graça vem de Deus. A nós cabe suplicar a graça divina, nos dispormos a ela e sermos fiéis a ela, desconfiando de nós, confiando em Deus. Dirigi, Senhor, os nossos corações com a obra de vossa misericórdia, pois sem Vós não podemos Vos agradar. O que é a obra da misericórdia de Deus que dirige as nossas almas? A graça divina.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

28 de outubro de 2017

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

Nossa Senhora Virgem  


Parte 4/11

A saudação que dirige a Maria não pode ser mais cheia de louvor: "Deus te salve". Deus envia-te uma saudação.
"És a cheia de graça".
Muita graça teve a alma da Virgem no primeiro instante da sua existência, mais talvez que todos os santos juntos. Essa graça multiplicava-a a cada momento. Não punha obstáculo algum a que crescesse. Ao fim de quinze anos, quanta graça teria?
- Diz o anjo que sua alma está cheia de graça.
cheia devia estar sempre, e contudo crescia. Dir-se-ia que a capacidade da alma de Maria ia crescendo à medida que a graça crescia, para que sempre a pudéssemos chamar a cheia de graça.
"O Senhor está consigo".
Deus está em todas as almas que têm a graça santificante. quanto maior é a graça, mais entra Deus na alma. E como a Virgem teve maior graça que todos os anjos e santos, por isso estava com ela mais intimamente do que com qualquer outra criatura.
"És bendita entre todas as mulheres".
Podia ser este o louvor que mais lisonjeasse a vaidade de uma mulher. A mulher é ciumenta de todas as outras. Anseia por suplantá-las a todas; queria eclipsá-las como o sol eclipsa todas as estrelas para brilhar ele só e atrair para si todos os olhares.
E um anjo que não adula como os homens, diz a Maria: És a predileta de Deus entre todas as mulheres.
Grandes mulheres existiam no Antigo Testamento. as escolhidas por Deus para libertadoras do seu povo foram: Débora, Judit, Ester... Grandes santas haviam de existir na Igreja católica. Santas Virgens: Inês, Cecília, Teresa de Jesus, Margarida de Alacoque, Teresa do Menino Jesus. Santas Rainhas: Isabel de Hungria, Isabel de Portugal. Todas muito queridas por Deus, porém incomparavelmente mais que todas elas, Maria.
A bátega de louvores que de repente o anjo deixou cair sobre aquela alma cheia de humildade devia-a deixar atordoada.
"Ao ouvir tais palavras a Virgem perturbou-se e pôs-se a considerar o que significaria uma tal saudação". Compreendeu o anjo a surpresa de Maria e apressou-se a tranquilizá-la. E dirige-lhe outro louvor: "Não temas, Maria, porque achaste graça aos olhos de Deus". A tua humildade, a tua pureza, todas as tuas virtudes atraíram para ti o olhar de Deus, e ganhaste-lhe o coração. Tanto o conquistaste, que quer baixar do céu à terra.
Neste momento o anjo descobriu à Virgem Santíssima a sua vocação.
Até então não a conhecia. Com a simplicidade de criança tinha-se entregado nas mãos de Deus e deixava-se levar por ele plenamente confiada na sua Providência.
Inspira-lhe o voto de virgindade e fá-lo. Manda-a por meio dos seus tutores contrair matrimônio, e obedece. 
Aonde a levaria Deus? Não se inquieta em sabê-lo.


27 de outubro de 2017

As Mais Belas Histórias do Cristianismo - Parte 13

13. OS PRIMEIROS APOLOGISTAS.

No século II aparecem os célebres apologistas, escritores eméritos que escrevem aos não-cristãos, expondo de modo compreensível e brilhante a doutrina da Igreja, defendendo-a das objeções e respondendo ás calúnias pela sublimidade dos exemplos de vida cristã de seus membros.
A Carta a Diogneto é um primor pelo estilo e pela descrição da vida cristã daquela época. Infelizmente, não sabemos quem seja este Diogneto, como também é anônimo o autor.
Nesta nova modalidade de literatura vamos encontrar no século lI grandes apologistas, como Aristides, S. Justino, Atenágoras, Teófilo de Antioquia, Santo Irineu, Minúcio Félix,
São nomes que se sobressaem pelo esfôrço e dedicação em demonstrar a sublimidade da doutrina cristã, e defendê-la das gratuitas acusações.
Pelas duas apologias, pelo Diálogo de Trifon, obras magistrais que nos legou, São Justino se celebrizou como um dos maiores apologistas do cristianismo. Sua vida de santo e mártir o torna credor da admiração e respeito das futuras gerações.
É a inteligência brilhante e jovem em busca da verdade, entregue á filosofia, e que, amparada pela experiência de um ancião cristão, chegou ao conhecimento de Deus.
Vagou Justino por várias escolas, pela estoica, peripatética, pitagórica, platônica e desta à cristã foi um passo.
São notáveis as suas apologias, expondo a verdade do cristianismo pelo cumprimento das profecias, a. falsidade de culto aos deuses, e a santidade de vida dos cristãos.
Os acontecimentos do Antigo Testamento prefiguram a grandiosa realidade do Nôvo Testamento.
O Diálogo de Trifon, filósofo judeu, é uma resposta aos judeus que continuavam agarrados á lei judaica, desconhecendo a veracidade do cristianismo.
No Império de Marco Aurélio, São Justino foi preso, e confessando com coragem a sua fé, teve sua cabeça cortada.
Atenágoras, filósofo de Ateiras e cristão, nos deixou obras apologéticas importantes, com a "Legatio pro Christianis", apologia perfeita, dirigida a Marco Aurélio em favor dos cristãos, defendendo-os das falsas acusações. Em sua obra "'De ressurrectione mortuorum", prova a ressurreição dos corpos, motivo de escândalo para os pagãos.
Foi no auge das perseguições, quando a Igreja era dizimada em seus membros, atacada em sua doutrina, que surgiu a grande figura de Irineu, que feito bispo de Lião, defendeu o seu rebanho com extrema dedicação e zelo.
Por grande graça de Deus, recebeu a fé dos próprios pais, que já eram cristãos, tendo sido educado num ambiente de fé e cristandade. Recorda com carinho e emoção os anos da infância em que do santo bispo Policarpo aprendera os ensinamentos que o santo recebera do Apóstolo S. João.
Escreveu o "Tratado das heresias", em cinco livros, expondo e refutando nos primeiros os erros dos hereges, especialmente os gnósticos, pela Escritura e Tradição, mostrando esta como fonte da verdade revelada. Nos demais livros de sua obra apresenta a doutrina cristã, com precisão e clareza admiráveis, base do pensamento cristão futuro. Morreu, talvez martirizado, no Império de Séptimo Severo.
"Pérola da literatura apologética", no dizer de Renan, é o “Octávio", de Minúcio Félix. Escrita em um latim primoroso e poético, esta obra encanta pelo diálogo travado entre dois amigos que se encontravam à beira mar: Octávio, que era cristão e o pagão Cecílio. A atitude de Cecílio, saudando a estátua de um deus foi motivo para uma discussão, onde predominou de uma parte a boa fé e o desejo de conhecer a verdade, e de outra, a convicção firme, a fé esclarecida, que dissipa as dúvidas do amigo e o conduz á verdade.
Dois rapazes que num momento de tranqüilidade, preparando-se para uma atividade esportiva, à beira-mar, vão travar um diálogo que se imortalizaria na literatura cristã. Cecílio e Octávio, de nobres
descendências, pertencem á sociedade romana, a famílias abastadas.
Octavio já fora iluminado pela graça da fé cristã e Cecílio ainda se conservava apegado à religião tradicional do Império, e colocava muitas dúvidas na doutrina cristã, julgada por muitos na ocasião como sociedade secreta, ímpia e criminosa.
Octávio,com delicadeza e convicção, expõe ao amigo a realidade do Evangelho de Cristo, provando-lhe com argumentos convincentes a existência de um só Deus, e o absurdo do culto aos deuses. O diálogo se prolonga... Cecílio, com atenção e entusiasmo, escuta as palavras amigas que lhe apontam horizontes até então desconhecidos.
Não eram verdadeiras as histórias que se contavam dos cristãos, e Otávio os defende de tantas acusações caluniosas e falsas, demonstrando ao companheiro, de maneira elevada, os exemplos de vida digna, heroica e santa dos cristãos.
Um raio de luz parece iluminar a inteligência de Cecílio, que se desperta na ânsia suprema de saber mais e tudo conhecer dos cristãos e de sua doutrina.
Era a graça de Deus, dom inesgotável da misericórdia divina que recompensa a boa fé e dedicação daquele coração. Foi o primeiro diálogo e uma introdução à verdade. Certamente, muitos outros encontros se realizaram e os ensinamentos transmitidos aos poucos, empolgavam sempre mais aquela alma que vencida pela graça, se converteu, abraçando a fé cristã.
Foram as obras dos Padres da Igreja o fundamento sólido sobre o qual se firmou o pensamento cristão. Na construção de uma literatura cristã, encontramos a base lançada pelos Apóstolos que fixaram a doutrina do Salvador.
Vieram depois aqueles que foram discípulos dos Apóstolos e que incrementaram esta literatura, legando-nos tesouros de inestimável valor. Por fim, os apologistas que buscaram várias escolas filosóficas aquilo que de certo lhes apresentavam, e criaram a filosofia cristã que abriu às inteligências os mais profundos caminhos para as investigações", obrigando-os, no dizer de Daniel- Rops -, a perscrutar cada vez mais as verdades sobrenaturais, fazendo do cristianismo o sistema de pensamento religioso mais sólido do mundo, ao pé do qual são inconsistentes todas as teologias pagãs."
Estávamos no fim do século II e no início do III. As perseguições continuavam. A literatura cristã mostrava o vigor da religião nova que, perseguida pelos poderes e negada pelos hereges, lançava sobre o mundo a revolução da Cruz.
E os Padres e escritores da Igreja, cheios de amor a Cristo, legaram à posteridade obras magistrais, muitas delas assinadas com o próprio sangue, marca indestrutível da fé e do heroísmo da inteligência cristã.

26 de outubro de 2017

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

Nossa Senhora Virgem


Parte 3/11

Mas não julguemos que esta virtude de Maria não foi provada, porque não sentiu as inclinações da concupiscência.
Sofreu todas as provas que não repugnavam à sua dignidade de Mãe de Deus.
Foi provada pelas pessoas que a rodeavam. Ouvia continuamente as suas conversas que repugnavam aos sentimentos do seu coração. Via as jovens da sua idade, que lutavam por alcançar o seu ideal: o matrimônio. Todas com as suas palavras e os seus exemplos diziam-lhe: Desiste do teu propósito invulgar, imita-nos.
Maria sofreu a prova dos seus tutores, que lhe prepararam o casamento com o seu parente José e triunfou dela, entregando-se confiadamente ao Pai celestial, e encontrou no esposo preparado por Deus os mesmos ideais de virgindade que ela.
Maria sofreu outra prova ainda mais delicada, da parte do mesmo Deus.
Foi no momento da Anunciação, quando o anjo lhe trouxe da parte de Deus a mensagem de que a tinha escolhido para sua Mãe.
Nesta ocasião aparece com toda a sua grandeza a virtude de Maria. Conheçamos todos os pormenores.
Está Maria na sua casa de Nazaré, é uma jovem de uns quinze anos. Que faria a Virgem quando recebeu a mensagem?
Deus pode comunicar-se às almas onde quiser e como quiser; porém, de ordinário, comunica-se na oração.
A Encarnação é a comunicação mais íntima que Deus tem tido com as criaturas. É de crer que a Virgem estivesse rezando no seu quarto. Pobre, mas que limpo, que arrumado, parece uma capelinha. É assim o teu?
Ora a Virgem Maria, na atitude mais reverente, de joelhos. As almas espirituais que têm alguma comunicação com Deus, quando rezam, ficam alheadas de tudo. Nada vêem, nada ouvem do que sucede à sua volta. A sua alma como que sai deste mundo e se submerge na imensidade de Deus. E que é a união com Deus que podem ter as almas por mais santas que sejam comparada com a união que tem a Santíssima Virgem? Está absorta, perdida a sua alma no mar da divindade, exalando um aroma de pureza que perfuma a terra e sobe até aos céus.
De repente apresenta-se-lhe um anjo e a saúda com reverência. É a primeira vez que um anjo se sente inferior a uma pessoa humana. Aquela jovem é mais santa que ele: é a sua rainha.

25 de outubro de 2017

O Inferno existe - Parte 4

CAPÍTULO IV

Horrendos suplícios do inferno

Nenhuma língua humana é capaz de exprimir os tormentos atrozes daquele lugar de desespero. Como descrever aquele fogo medonho aceso pela ira de Deus? os remorsos cruéis que dilaceram o mísero preceito? a eternidade sem fim, com o terrível sempre e o terrível nunca?
Diz Santo Agostinho que o fogo da terra comparado com o do inferno, parece um fogo pintado; e S. Vicente Ferrer diz que em confronto com aquele, o nosso é frio.
Gastemos embora páginas e livros inteiros falando do inferno, acumulemos males sobre males, sofrimentos sobre sofrimentos, desgraças sobre desgraças, chamemos em nosso auxílio as fantasias fecundas dos poetas, para idear penas atrozes, peçamos aos tiranos da História as torturas que inventaram para seviciar as suas vítimas e, apesar de tudo isso, chegaremos à conclusão de que infinitamente maiores são os suplícios do inferno.
*
* *
Santa Tereza foi um dia arrebatada em êxtase e levada ao inferno para ver o seu lugar, caso não se emendasse de certo defeito.
Ela mesma conta em sua autobiografia:
“Estando um dia em oração, fui transportada, sem saber como, em corpo e alma, ao inferno. Compreendi que Deus queria mostrar-me o lugar que ocuparia, se não mudasse de vida. Não tenho palavras que possam dar uma pequena ideia desse tormento incompreensível. Sentia em minha alma um fogo que me devorava e o corpo sofria dores insuportáveis. Durante minha vida passei por duros sofrimentos, mas, nem se comparavam com os que tive naquela ocasião; e ainda esses subiam de ponto, ao pensar que seriam eternos e sem o menor alívio. Mas, apesar de as torturas do corpo serem atrozes, não tinham comparação com as agonias da alma. Ao mesmo tempo, sentia-me queimar e partir em pedaços, sofria todas as angústias da morte e os horrores do desespero.
Num raio de esperança e de consolação naquela moradia, aí se respira um odor pestilencial, que sufoca; nem um raio de luz, mas tudo são trevas da mais densa escuridão; contudo, oh! mistério, mesmo naquele escuro se distingue o que de mais penoso há para a vista.
Em suma, tudo o que ouvi dizer ou li sobre as penas do inferno é insignificante em confronto com a realidade; entre aquelas penas e estas há a mesma diferença entre uma pessoa e o seu retrato. Ai! o fogo deste mundo por mais ardente que seja, é como o fogo pintado, comparado com aquele que atormenta os réprobos no inferno.
Há dez anos que tive esta visão, mas estou ainda agora tão espantada, que, enquanto escrevo, o medo gela-me o sangue nas veias. Em meio às provocações e dores que tenho, trago à mente esta visão e de aí tiro fôrça para tudo suportar”.
*
* *
Vicente de Beauvais, no livro 25 de sua História, refere o seguinte fato, acontecido pleno ano 1000.
Dois libertinos fizeram uma combinação: o primeiro a morrer viria à terra participar ao companheiro em que estado se achava. Morreu um deles, e Deus permitiu aparecesse ao amigo: era horrendo, parecia sofrer duramente e suava em bicas. Enxugou a fronte com a mão e deixou cair uma gota de suor no braço do companheiro, dizendo-lhe:
– Eis qual é o suor do inferno; dele terás um vestígio até à morte.
E assim foi, pois aquele suor infernal queimou-lhe o braço, penetrando na carne com dores inauditas.
Bom para ele que soube aproveitar-se de tão terrível lição e retirou-se para o convento.
*
* *
Em 1873, Nova Iorque foi teatro de um incêndio, cujas circunstâncias apresentam a imagem do inferno.
O Circo Baunum foi assaltado pelo fogo; tigres, ursos, leões e outras feras foram queimadas vivas nas suas jaulas. À medida que o fogo se propagava, crescia o desespero das feras, sobretudo os tigres e ursos tornavam-se cada vez mais furiosos. Atiraram-se com supremo esfôrço contra as grades, já incandescentes, da prisão, e eram rechaçados quais massas inertes, para de novo se arrojarem contra o insuportável obstáculo que os aprisionava.
Os rugidos dos leões, os urros dos tigres e o aulidos das outras feras se misturavam formando um som pavoroso, que parecia reproduzirem aquele que devem ouvir os condenados no inferno.
Mas as notas deste tétrico concerto aos poucos foram-se enfraquecendo, até que, quando o leão soltou o último urro, ao medonho alarido sucedeu o silencio da morte.
Imaginemos, agora, nestas jaulas de ferro candente, não as feras, mas homens; e homens que em vez de morrerem no fogo continuam a viver, e teremos uma ideia do inferno, ideia, aliás, muito imperfeita.
*
* *
A história registrou, para perpétua execração, as truculências de alguns tiranos, que mais do que homens pareciam monstros.
Fálaris, tirano de Siracusa, confeccionou um touro de bronze para prender dentro os rebeldes e fazê-los morrer a fogo lento, aceso ao redor. Quem pode descrever os espasmos do supliciado? Gritava, debatia-se naquelas estreitas paredes, que se tornavam candentes e tormentos indescritíveis!… Todavia, essas penas terminavam; o condenado terá suplícios infinitamente maiores e por toda a eternidade.
Nero mandava que se cobrissem os corpos dos cristãos com piche e outros combustíveis, e depois, colocados nos postes, ao longo das alamedas, eram acendidos à tarde, para iluminar, enquanto ele passeava no coche, insultando-os barbaramente nos padecimentos.
Maxêncio amarrava as suas vítima a cadáveres, rosto com rosto, tronco com tronco, membros com membros, e as deixava nesse horrível estado até que o mau cheiro das carnes corrompidas lhes acabasse com a vida.
Astiáges, rei da Armênia, condenou S. Bartolomeu Apóstolo a ser esfolado vivo.
Não menos horrível o suplício a que foi submetido o diácono S. Lourenço. Estenderam-no sobre uma grelha e por baixo espalharam brasas, de maneira que aos poucos fosse sentindo os ardores e mais longa e vivamente durasse o tormento. Cozida uma parte do corpo, voltaram-no do outro lado, para que cada membro tivesse seu sofrimento; e assim neste lento e atroz martírio, rendeu a alma a Deus.
São talvez esses os suplícios do inferno? Qual! apenas a sombra, uma pálida ideia.
*
* *
Fala-nos o Padre Nierenberg de um jovem que levava uma vida aparentemente cristã, mas odiava a um inimigo; e conquanto frequentasse os Sacramentos, nutria para com ele sentimentos de vingança, que Jesus Cristo obrigava depor.
Morrendo, apareceu ao pai, todo envolvido em chamas, e disse-lhe que se condenara por não ter perdoado ao seu inimigo, e chorando exclamou:
– Ah! se todas as estrelas do céu fossem como línguas de fogo, não traduziriam os tormentos que sofro.
*
* *
Os dois fatos seguintes se referem propriamente ao fogo do purgatório, mas não vêem fora de propósito, já que os teólogos afirmam que o mesmo fogo que atormenta os condenados no inferno, purifica também as santas almas do purgatório, e que o purgatório é um inferno temporário.
Na vida de Frei Estanislau Chosca, dominicano polonês, lê-se que um dia, quando estava rezando pelos finados, viu uma alma toda devorada pelas chamas. Compreendeu que se tratava de uma alma do purgatório que implorava sufrágios, e a interrogou se aquele fogo era mais penetrante que o nosso.
– Ai de mim! respondeu a mísera, todo o fogo da terra, comparado com o do purgatório é como um sopro de ar fresquíssimo.
– Mas, isto é impossível! exclamou o frade. Desejaria mesmo experimentar, com a condição de que isto aproveite para me fazer descontar aqui uma parte das penas que terei de sofrer, um dia, no purgatório.
– Nenhum mortal, replicou então aquela alma, poderia suportar-lhe a mínima parte, sem morrer no mesmo instante, se Deus não o sustentasse. Se queres converter-te, estende a tua mão.
O dominicano, em vez de intimidar-se ofereceu a mão: e o defunto deixou cair sobre ela uma gota de suor. Estanislau desmaiou no mesmo instante, soltando gritos agudos. Acudiram logo os frades assustados e o encontraram desfalecido e com a mão chagada. Levado para cama e medicado, recobrou os sentidos; mas não se levantou mais, sempre atormentado por terríveis dores causadas pela chaga na mão; e morreu depois de um ano, durante o qual não cessou de exortar os irmãos à penitência para evitarem os rigores da justiça divina.
*
* *
A aparição que estou para referir é narrada na vida de S. Domingos, escrita por Fernando de Castelha, e comprovada por um profundo sinal deixado numa mesa.
Em Zamorra, cidade da província de Leão, na Espanha, vivia num convento de Dominicanos um bom religioso, ligado em santa amizade com um Franciscano, homem como ele, de grande virtude.
Um dia que se entretinha sobre coisas espirituais, prometeram reciprocamente que o primeiro a morrer, se Deus lho permitisse, apareceria ao outro, para informá-lo da sorte alcançada no outro mundo. (*Julgo prudente observar que não convém fazer tais acordos; ou pelo menos é preciso consultar o confessor.)
Morreu o Franciscano e, fiel à sua promessa, apareceu ao Dominicano, quando este arrumava a mesa. Depois de tê-lo cumprimentado com extraordinária benevolência disse-lhe que estava salvo, mas, tinha, outrossim, ainda muito que sofrer por algumas pequenas faltas das quais não se tinha arrependido bastante em vida. Em seguida ajuntou: – “Nada existe sobre a terra, que possa dar uma ideia das minhas penas”. E para que o Dominicano tivesse disto uma prova, estendeu a mão sobre a mesa do refeitório, deixando na madeira a queimadura como se a mão fora um ferro em brasa, tirado então da forja.
Imagine-se a comoção do Dominicano a este espetáculo!
A mesa guardou-se religiosamente em Zamora, até o fim do século XVIII, no qual as revoluções políticas a fizeram desaparecer, como a outras muitas relíquias piedosas de que era rica a Europa.
*
* *
Até agora temos falado das penas do sentido; e que dizer das penas do dano? Que dizer da privação de Deus?
A privação da vista de Deus é o que propriamente constitui o inferno. Não fazem o inferno as trevas, o mau cheiro, o alarido, o fogo; a pena que faz o inferno é a pena de ter perdido a Deus. Se Deus mostrasse a face aos condenados, eles não sentiriam mais nenhuma dor, e o inferno seria um paraíso.
Apenas a alma rompe os vínculos do corpo, sente imediatamente que foi criada para Deus e se atira a Ele como uma flecha voa para sua meta, como a agulha imantada livre do empecilho volta-se para o solo; mas, estando manchada com o pecado, será repelida e precipitada no inferno.
Um caçador fez uma vez esta experiência: amarrou o seu galgo com uma grande corrente, dentro do jardim murado, e depois soltou uma lebre. Apenas a viu, o cão avançou para adentá-la
mas é impedido pela corrente. Que raiva, vê-la correr pelo jardim e não poder apanhá-la! Ladra, gane, dana-se, morde a corrente para despedaçá-la, atira-se contra o animalejo que foge dum lado para outro. Fez tanto esfôrço que pouco depois caiu morto.
A alma tentará continuamente lançar-se para Deus, para o qual foi criada, mas o pecado é aquela corrente que não a deixará sair das chamas cruéis.
*
* *
Um virtuoso sacerdote, enquanto estava exorcizando um energúmeno, perguntou ao demônio que penas sofria no inferno. A resposta foi esta:
– Um fogo eterno, uma maldição eterna, uma raiva eterna e um desespero cruel por não poder mais ver Aquele que me criou.
– Que farias para que te fosse concedido ver a Deus?
– Para vê-lo, mesmo por um instante, estaria pronto a sofrer num minuto todas as penas que devo sofrer em dez mil anos… Mas, vãos desejos, hei de sofrer sempre e não O tornarei mais a ver.
E foi tal o tormento e o desespero com que pronunciou estas palavras, que deixou funda impressão naquelas que assistiam aos exorcismos.

24 de outubro de 2017

Tesouro de Exemplos - Parte 411

COMO PROCEDE UM PAI

Uma vez chegaram aos ouvidos do Cardeal Maffi vozes caluniosas a respeito de um jovem sacerdote. Mandou chamá-lo:
— Assente-se, filho... — E, falando apressadamente e com a cabeça baixa, como se tirasse do coração um peso que o oprimia: — Disseram-me que você fez isto e mais aquilo...
— Eminência, é uma infâmia!
— Obrigado, filho, — acrescentou logo o Cardeal, deitando sobre ele os olhos úmidos de lágrimas. — Eu lhe disse isso por dever de consciência, mas... obrigado, e não falemos mais desse assunto. Vá e fique tranqüilo. O seu bispo o compreende e o abençoa.

23 de outubro de 2017

As Mais Belas Histórias do Cristianismo - Parte 12

12. A LITERATURA CRISTÃ DOS SANTOS PADRES

Fixados os livros do Novo Testamento, estava encerrada a Escritura inspirada. Estavam lançadas as bases da literatura cristã e aí encontrariam os homens verdadeira fonte de matéria inesgotável como o cristianismo, donde surgiu o conjunto literário de volumes e mais volumes de obras dos Padres da Igreja.
Num sentido mais estrito este nome designa aqueles que fundaram o pensamento cristão e que são os dois cinco primeiros séculos, até à queda do Império Romano.
Exerceram eles grande influência em todos os tempos, e os escritores eclesiásticos aí bebem os mais preciosos tesouros da teologia e mística da Igreja.
O nome de Padres, que era dado inicialmente aos Chefes de Igreja, como Bispos, estendeu-se a todos aqueles que através de suas obras combatiam as heresias e os erros, defendendo a doutrina íntegra da Igreja.
Para serem considerados Padres da Igreja, os escritores tinham que apresentar certas condições, como antiguidade, ciência ortodoxa, reconhecimento pela Igreja e santidade, pois os seus ensinos deviam primar não só pelas palavras, mas sobretudo pelo exemplo de suas vidas.
Num sentido mais largo são chamados Padres da Igreja os escritores de grande inteligência, que floresceram na Igreja até à Idade Média, como Santo Tomás, S. Bernardo e outros.
Entretanto, a opinião dos grandes historiadores e críticos reserva tal designação apenas para os que se distinguiram nos primeiros séculos, e outros conservam o nome de Padres da Igreja apenas para os que foram discípulos dos apóstolos.
Aqueles que aliam à grande ciência uma santidade eminente e cuja autoridade é reconhecida por todos, são chamados Doutores da Igreja, título este com que se honra um pequeno número de homens
escolhidos.
Citando os Padres Apostólicos, aqueles que foram dos primeiros tempos, contemporâneos dos apóstolos, encontramos os romanos S. Clemente e Hermes, o sírio Santo Inácio, os asiáticos S., Policarpo e Pápias, o autor desconhecido da Epístola de Barnabé. Escreveram em geral cartas que são valiosos documentos históricos, onde encontramos a vida da Igreja primitiva dos Apóstolos e dos Mártires.
São todos preciosos tesouros que nos mostram a vida dos fiéis nos primeiros tempos, os problemas surgidos com o desenvolvimento dos cristãos, os Sacramentos da Igreja e os ritos de sua administração.
Alguns documentos só foram encontrados séculos depois, como o livrinho chamado Didaqué, tão usado pelos primeiros fiéis e que era uma espécie de compêndio de todas as suas obrigações, com noções de doutrina e mesmo liturgia. Não se conhece o autor de Didaqué, e o da Epístola de Barnabé, o que não lhes tira a autoridade.
Muitos outros livros se perderam, e de alguns só nos restam fragmentos, muitos preciosos, como os escritos por Pápias, bispo de Hierópolis.
Papel importante exerceram os Padres Apostólicos, que se constituíram um elo que ligaria para sempre os Apóstolos ás futuras gerações, iniciando a valiosa tradição, cujos argumentos seriam sempre de poderosa fôrça na exposição do dogma cristão.

22 de outubro de 2017

O Inferno existe - Parte 3

CAPÍTULO III

Testemunhas de Além-túmulo
Em sua infinita misericórdia, Deus, depois de haver revelado o dogma do inferno, tem permitido, de onde em onde, que alguma alma venha da eternidade para confirmar-nos a existência daquele lugar de penas. Tais aparições são mais frequentes do que comumente se crê; e quando são atestadas por pessoas idôneas e fidedignas, tornam-se fatos inegáveis, que se admitem como todos os outros fatos da história. Apresso-me, porém, a declarar que não entendo trazer esses fatos como argumento principal e básico com que se demonstre e se estabeleça o dogma do inferno, porque êste nos é demonstrado pela palavra infalível de Deus; narro tais aparições somente para confirmar e elucidar essa verdade, e como argumento de salutar meditação.
Monsenhor Ségur, no seu áureo opúsculo sobre o inferno narra três fatos, cada qual mais autêntico, acontecidos não faz muito tempo.
*
* *
O primeiro, diz ele, sucedeu quase em minha família, pouco antes da terrível campanha de 1812, na Rússia. Meu avô materno, o Conde Rostopkine, governador militar de Moscou, era intimamente relacionado com o general Conde Orloff, tão valoroso quanto ímpio.
Um dia, após a ceia, o conde Orloff e um seu amigo, o general V…, volteriano como ele, puseram-se a ridicularizar a religião e sobretudo o inferno:
– Mas…, disse Orloff, e se houvesse alguma coisa além do túmulo?
– Neste caso…, diz o general V…, o primeiro que morrer virá avisar o outro; de acordo?
– Pois não, responde Orloff.
E ambos prometeram seriamente não faltar à palavra.
Algumas semanas após, desencadeou-se um daquelas guerras que Napoleão sabia suscitar; o exército russo foi chamado às armas, e o general V… recebeu ordem de partir incontinenti para um posto de comando.
Duas ou três semanas depois da partida de Moscou, quando meu avô se levantara, bem cedo, viu abrir-se bruscamente a porto do quarto e entrar o conde Orloff, com roupa de dormir, de chinelos, cabelo em desalinho, olhos esbugalhados, pálido como cera.
– Oh! Orloff vós aqui a esta hora? Neste traje? Que aconteceu?
– Meu caro, responde Orloff, eu perco a cabeça; vi o general V…
– Oh! Ele já voltou?
– Não, continua Orloff, atirando-se a um divã, não, não voltou, e é isto que me espanta.
Meu avô nada compreendia e procurava acalmá-lo.
– Contai-me, então, lhe disse, o que aconteceu e o que significa tudo isto.
Fazendo grande esfôrço para se acalmar, o conde Orloff contou o seguinte:
– Meu caro Rostopckine, não faz muito, o general V… e eu, juramos que o primeiro que morresse, viria avisar o outro se há de fato alguma coisa além do túmulo. Ora, pela madrugada, enquanto estava tranqüilo na cama, acordado, sem pensar no amigo nem no juramento, abre-se de repente o cortinado do meu leito e vejo, a dois passos de mim, o general V… de pé, desfigurado, com a mão direita no peito, e me fala: “Existe um inferno, e eu lá estou…” e desapareceu. Na mesma hora corri até cá; eu perco a cabeça! Que coisa estranha! não sei o que pensar!
Meu avô tranquilizou-o como pôde: falou-lhe de alucinação, fantasia… que ele talvez estivesse dormindo… que às vezes dão-se casos extraordinários, inexplicáveis… E procurava persuadi-lo com outros meios termos, que apesar de nada valerem, servem para consolar os céticos. Mandou preparar o coche e acompanhou o conde à sua casa.
Dez ou doze dias depois deste estranho acontecimento, um estafeta do exército comunicava ao meu avô, entre outras coisas, a morte do general V…
Naquela madrugada em que o conde Orloff o tinha visto e ouvido, o infeliz general, saindo a estudar a posição do inimigo, foi varado por uma bala e caiu morto.
“Existe um inferno, e eu lá estou…”
Eis as palavras de um que veio do outro mundo!
*
* *
O segundo fato é referido pelo mesmo autor, que o tem por indubitável, como o precedente, pois o ouviu da boca de um repeitabilissimo eclesiástico, superior de importante comunidade, o qual por sua vez, soube os pormenores mediante um parente da senhora, com a qual se deu tal fato. Naquele tempo, isto é, por ocasião do Natal de 1859, ela ainda vivia e contava pouco mais de quarenta anos.
Achava-se essa dama em Londres no inverno de 1847 e 1848; enviuvara aos 29 anos, era muito rica e muito amiga dos divertimentos mundanos. Entre as pessoas elegantes que frequentavam a sua casa, notava-se especialmente um moço, cujas contínuas visitas a comprometiam não pouco e cuja vida estava longe de ser edificante.
Uma noite, a senhora lia não sei que romance para conciliar o sono. Ouvindo bater o relógio, apagou a vela e dispunha-se para deitar, quando percebeu, com grande assombro, que uma luz estranha e pálida vinha da porta do salão contíguo e espalhava-se a pouco e pouco no quarto, aumentando sempre. Não sabendo o que era, do pasmo passou ao medo; eis senão quando, viu abrir-se lentamente a porta do salão e entrar no quarto o jovem desregrado, o qual, antes que ela pudesse pronunciar palavra, aproximou-se, tomando-a pelo braço esquerdo, apertando-lhe fortemente o pulso, e com aceno desesperado, lhe falou em inglês:
– Existe o inferno!
Foi tão grande o susto que a senhora perdeu os sentidos. Voltando a si, tocou nervosamente a campainha para chamar a criada, que a tendeu; entrando no quarto, esta sentiu logo um cheiro de queimado e chegando-se à ama, que com dificuldade articulava umas palavras pôde ver que tinha ao redor do pulso uma queimadura tão profunda que a carne desaparecera e ficava à mostra o osso. Observou além disso, que da porta do salão até o leito e do leito à porta do salão estava impressa a pegada de um homem, que tinha queimado o pano de parte a parte. Por ordem da ama, abriu a porta do salão, e notou que lá terminavam as pegadas no tapete.
No dia seguinte, a desditosa senhora soube com aquele medo que bem se compreende, que alta noite, o tal moço se embriagara com excesso, e transportado para casa, veio a morrer pouco depois.
Ignoro, acrescenta o superior, se esta terrível lição tenha convertido a infeliz dama; o que sei é que ela ainda vive e para esconder aos olhares curiosos o sinal daquela sinistra queimadura, leva no pulso, à guisa de bracelete, um largo enfeite de ouro, que não deixa nem de dia nem de noite. Repito que os particulares eu os tive da boca de um seu parente próximo, católico sincero, a cuja palavra presto fé. Os parentes não falam do ocorrido e é por isso que tenho o cuidado de ocultar o nome da família.
Apesar do véu, no qual esta aparição foi e deveu ser envolvida, não me parece, acrescenta Monsenhor Ségur, que se possa pôr em dúvida a formidável autenticidade.
*
* *
O terceiro fato aconteceu na Itália.
Em 1873, em Roma, alguns dias antes da Assunção, uma moça, bastante má, machucou uma das mãos. Levaram-na para o Hospital da Consolação. Ou porque o sangue estivesse muito deteriorado ou porque sobreviesse grave complicação, a infeliz morreu naquela noite.
No mesmo instante uma de suas companheiras, que não sabia o que acontecera no hospital, pôs-se a gritar desesperadamente, a tal ponto que acordou toda a vizinhança e provocou a intervenção da polícia.
A companheira que morrera no hospital apareceu envolvida em chamas e lhe disse: –“Estou condenada, e se não queres condenar-te também, sai deste lugar infame e volta a Deus.”
Nada consegui acalmar a agitação da jovem, que bem cedo abandonou aquela casa, deixando a todos atônitos, especialmente depois de divulgada a notícia da morte da companheira, no hospital.
Aconteceu que, logo depois, a proprietária da casa, uma garibaldina exaltada, caiu doente, mandou logo chamar um padre, dizendo que queria receber os sacramentos. A Autoridade Eclesiástica delegou para esse fim um digno sacerdote, Monsenhor Piroli, pároco de S. Salvador em Laura. Munido de especiais instruções, ele se apresentou e exigiu, antes de tudo, que a doente fizesse, perante testemunhas, plena retratação de suas blasfêmias e insultos contra o Sumo Pontífice e declarasse que afastaria as ocasiões de pecado. Sem a menor hesitação, a infeliz promete e então se confessa e recebe o Sagrado Viático com grandes sentimentos de penitência e humildade.
Pressentindo o seu fim, a pobre mulher, com lágrimas nos olhos suplicou ao padre que não a abandonasse, amedrontada como estava por aquela aparição. Assim, teve a grande graça de ser assistida nos últimos momentos pelo ministro de Deus.
Toda a Roma conheceu logo os particulares desta tragédia.
Como sempre, os ímpios e os libertinos fizeram dela objeto de chacota, abstendo-se, à aposta, de obter oportunas informações; mas, de sua parte, os bons aproveitaram para se tornarem melhores e mais exatos no cumprimento de seus deveres.

21 de outubro de 2017

As Mais Belas Histórias do Cristianismo - Parte 11

11. A LITERATURA CRISTÃ PRIMITIVA.

Encontramos no Evangelho apenas uma passagem que nos afirma que Jesus escreveu. E o fez sobre a areia, censurando aqueles que condenavam a mulher adúltera: "O que de vós está em pecado, seja o primeiro que lhe atire a pedra" (João VIII, 7).
No entanto, já no fim do primeiro século, encontramos a mensagem de Cristo traduzida em livros, o início de uma verdadeira literatura cristã que aos poucos se foi aperfeiçoando. A Igreja nascente que era santa em seus membros, heróica em seus mártires, era também sábia em seus escritores.
Costume era em Israel os alunos escutarem os seus mestres e repetirem suas máximas com exatidão. Os apóstolos ouviram a Nosso Senhor que falava sempre de maneira extraordinária. Embora nada escrevesse, suas palavras eram simples, ao alcance de todos, eloqüentes e completas.
Para bem se fazer compreender, falava por alegorias e comparações, e as parábolas do Evangelho encantam pela beleza e eloqüência. Os apóstolos, na primeira catequese, procuravam transmitir de maneira perfeita tudo aquilo que receberam de Jesus.
Era a pregação oral, simples, resumindo de forma completa a doutrina cristã. A vida de Nosso Senhor era demonstrada na sua fase oculta, que fôra preparação para o seu ministério, a grande atividade dos três anus de vida pública, na Galiléia e na Judéia, culminando com a Paixão e Ressurreição.
Conhecemos o grande amor que tinham os antigos pela tradição oral. Os ensinamentos eram transmitidos de homem para homem, através das gerações. A missão dos apóstolos era transmitir a mensagem de Cristo aos seus discípulos que por sua vez a passariam à posteridade.
Entretanto, com o grande crescimento da Igreja, temia-se pela integridade e fidelidade da transmissão. Surgiram, então, os primeiros livros, pequenos, redigidos em grego e autenticados pelos
apóstolos, e que continham os ensinamentos de Cristo.
Pouco depois encontramos os ensinos e vida de Jesus em um único livro - o Evangelho - que contém os quatro evangelhos.
A finalidade dos evangelistas não é de ordem literária, mas a fidelidade em transmitir os ensinamentos de Jesus, dando cada um dêles o seu próprio testemunho. Estão de acôrdo quanto às substância da doutrina, mas variam na forma e no estilo. Os três primeiros são chamados sinópticos, pela disposição dos parágrafos, permitindo uma leitura simultânea.
O historiador Pápias, em 130, afirma que "Mateus pôs em ordem os ditos de Jesus em arameu". Escreveu na Palestina o seu Evangelho e o fêz de acôrdo com o meio e o pensar do povo judaico, sem se preocupar com dados biográficos, mas referindo tudo aquilo que ouviu de Jesus. Sua obra se baseia nos grandes discursos do Mestre.
Marcos se preocupou em escrever o que ouvia de Pedro, que em suas catequeses se referia à vida de Cristo e á sua doutrina. Não há arte, nem ordem em seu evangelho, pois se limitava em redigir o que ouvia de Pedro, cuja pregação atendia às necessidades e circunstâncias: Já o Evangelho d.e S. Lucas é obra prima, a primeira do cristianismo, redigida em elegante grego e de forma artística e inteligente. Lucas era de fato um homem de ciência, "o médico querido", de que S. Paulo fala várias vêzes em suas cartas, o companheiro de viagens do Apóstolo das Gentes. Iniciado o seu trabalho, não apenas se baseou nos escritos de Mateus e Marcos, mas procurou ouvir testemunhas, quando de sua estadia na Palestina.
É possível que a própria Virgem Santíssima lhe tenha dado preciosos informes dos primeiros tempos de Jesus.
O quarto evangelho é o de São João, o discípulo do Senhor, aquêle que repousou sôbre o seu peito. Sempre acompanhando 0 Divino Mestre em sua vida pública, João pôde descrever de maneira mais precisa as caminhadas feitas por Cristo, e os locais exatos de seus discursos e de seus milagres. E escrevendo em um tempo onde já apareciam as heresias, João procurou dar resposta a todos os erros, e não se contentou apenas em narrar fatos materiais, mas tornou o seu evangelho espiritual, no dizer de S. Clemente de Alexandria. Em cada um dos milagres realizados por Cristo, descreve êle a preparação para os grandes milagres de ordem espiritual. Assim, a multiplicação dos pães prefigura a Santíssima Eucaristia; a ressurreição de Lázaro, a vida eterna que Cristo nos promete; o Bom Pastor, o próprio Cristo a vigiar e conduzir as suas ovelhas.
Novos escritos vieram juntar-se à literatura cristã iniciada nos Evangelhos: os Atos dos Apóstolos, as Epístolas e o Apocalipse.
Os Atos, recolheram as primeiras atividades dos apóstolos, e são um documento valiosíssimo para a história do Cristianismo, que aí encontra os seus primeiros dias, as primeiras conversões, a vida de comunidade dos fiéis em Jerusalém. a evangelização da Judéia e Samaria, bem como o início das pregações em terras pagãs.
Descrevem-nos também a conversão de São Paulo e as suas longas viagens de evangelização.
São os Atos atribuídos a S. Lucas, pela semelhança de estilo com o seu evangelho, e apresentados de forma inteligente, bem estudada e documentada.
S. Lucas, que era um homem de ciência, não apresentou um trabalho teológico. Preocupou-se em narrar a missão apostólica e o desenvolvimento da Igreja nascente.
Seu trabalho se completou pelas famosas Epístolas dos Apóstolos, especialmente as de S. Paulo, conjunto de textos morais, espirituais e teológicos, enviados às comunidades que surgiam, garantindo a sua fidelidade e amor á doutrina nova do Evangelho.
As Epístolas de S. Paulo são extraordinárias pela segurança de suas normas, plenamente de acôrdo com a sua própria vida de um convertido que se santificava cada dia.
São a interpretação admirável da mensagem de Cristo, adaptada não apenas ao seu tempo, mas aos tempos todos, que aí encontram a verdadeira fonte da grandeza, unidade e refulgência da doutrina e moral cristãs.
Os grandes autores da Teologia e Filosofia cristãs sempre se fundamentam nas citações do grande Apóstolo, autenticando suas monumentais obras com o sêlo do pensamento paulino que de forma admirável e incomparável interpretou a mensagem do Rendentor da humanidade.
As demais Epístolas, embora destituídas da profundidade e inteligência das precedentes, são obras preciosas pelos ensinamentos morais, como a de São Tiago, pela documentação histórica, como as de São Pedro, e pela fortaleza nos perigas e perseguições, como as de S. Judas Tadeu. A elas se reunem as de S. João, escritas aos fiéis para combater os herejes que negavam a divindade de Jesus, a necessidade das boas obras, e salientando em suas cartas o amor fraterno que deve unir todos os cristãos.
A estas obras tôdas da literatura cristã dos apóstolos, acrescente-se o Apocalipse, que foi escrito por S. João, quando desterrado se encontrava em Patmos. Chamou-se Apocalipse, teto é, revelação, pois trata de cousas futuras. A Igreja o considera como livro profético. Foi escrito em uma época em que a Igreja se encontrava perseguida em Roma. O próprio João fôra testemunha destas calamitosas opressões, e escapara miraculosamente do martírio. Foi a reação do apóstolo que através das inúmeras imagens, das visões selvagens, da besta apocalíptica, e de brilhantes símbolos, demonstra a segunda vinda de Cristo no juízo final para julgar os vivos e os mortos, como Rei de justiça.
Era um facho de esperança em meio às perseguições. A certeza de que não prevaleceriam as fôrças do mal, e que a vitória no fim dos tempos seria de Cristo e da Igreja, fortaleceria os fiéis. "Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o último, o Princípio e o Fim" (Apoc. 22, 13).
Com os textos de S. João, encerra-se a lista dos livros inspirados que formam o Nôvo Testamento. Aí o resumo da grandiosidade da doutrina e moral cristãs,o compêndio da mensagem de Cristo Salvador ao mundo!
São os primeiros textos cristãos fonte inesgotável de ensinamentos, que jorram abundantes do Coração de Cristo e que transmitidos pela eloqüência e vigor dos Apóstolos, se espalharam pelos séculos, constituindo a famosa literatura cristã, que proclama a grandeza e a glória da mensagem salvadora de Cristo à humanidade.

20 de outubro de 2017

Tesouro de Exemplos - Parte 410

JÁ SOIS PROTESTANTES!

Ao cardeal Pedro Maffi (f 1931) apresentou-se uma comissão de senhores para pedir-lhe que revogasse um decreto de remoção de um Pároco. Respondeu-lhes que deixassem ao Bispo o direito de agir livremente. Ameaçaram-no aqueles senhores, dizendo que, se a revogação não viesse, se fariam protestantes.
— Oh! — respondeu o cardeal calmamente — não é preciso que vos incomodeis... Protestantes já sois e como!...

19 de outubro de 2017

O Inferno existe - Parte 2

CAPÍTULO II

A razão humana confirma a existência do inferno
Quem são afinal, os que negam a existência do inferno? Talvez pessoas honestas? Ao contrário! São os libertinos que espezinham todo o ditame da consciência para viverem à solta, aqueles aos quais repugna crer em um Deus vingador, por bem saberem que merecem seus castigos.
Mas, conseguem eles persuadir-se de que não há uma justiça que vela sobre os homens, e que punirá seus pecados? Jamais! Enquanto negam com os lábios a existência do inferno, sentem no âmago da consciência o remorso e uma voz que lhes anuncia terrível vingança.
O próprio Voltaire, o corifeu da impiedade, não conseguiu convencer-se de que não há nada depois do túmulo; tanto assim que, quando adoecia gravemente, apressava-se para em chamar o padre para se retratar de suas máximas tão ímpias!
Deus imprimiu em nosso coração noções imutáveis de justiça, e a ideia de um prêmio à virtude, de um castigo ao vício. Certo ímpio se vangloriava, numa roda, de não acreditar no inferno; entre os que ouviam estava um homem de bom senso e modesto, mas que julgou seu dever tapar a boca ao estulto interlocutor, e o fez com este simplicíssimo argumento:
– “Senhor, disse-lhe, os reis da terra têm cárceres para punir rebeldes; o Deus, Rei do universo, não há de ter cárceres para os que ultrajam a sua majestade?” O ímpio não soube que responder, pois o mesmo lume da razão lhe fazia ver que se os reis têm prisões, Deus deve ter um inferno.
Da negação do castigo e do prêmio ia outra vida, seguir-se-ia que Deus não existe, ou se existe, não cuida dos homens; e não haveria nenhuma diferença entre virtude e vício, entre justiça e injustiça. Morre um ladrão, carregado de delitos, e morre um inocente que durante a vida praticou virtude e fez o bem ao próximo; quereis que tenham a mesma sorte? Deus, infinitamente justo, não há de punir os crimes do primeiro e recompensar as boas obras do segundo? Morre São Paulo no deserto, depois de ter vivido quase um século no jejum, na penitência, louvando e servindo a Deus; e morre Nero, depois de ter cometido toda espécie de crueldade; quereis que tenham igual sorte? Portanto, a mesma razão, o bom senso nos fala de um lugar onde serão castigadas as transgressões da lei divina.
Nem mesmo a eternidade das penas repugna aos ditames da reta razão.
Um dia, uma alma santa meditava no inferno, e considerando a eternidade dos suplícios, aquele terrível nunca e o terrível sempre, ficou bastante impressionada, porque não compreendia como se pudesse conciliar esta severidade sem medida com a bondade e outras perfeições divinas.
– Senhor, dizia ela, eu me submeto aos vossos juízos, mas, permiti-me, não sejais demasiado rigoroso.
– Compreendes, foi a resposta, o que seja o pecado? Pecar é dizer a Deus: não Vos obedecerei; pouco se me dá da vossa lei; rio-me das vossas ameaças!
– Vejo, Senhor, como o pecado é um monstruoso ultraja à vossa divina majestade.
– Pois bem, mede, se podes a grandeza desse ultraje.
– Compreendo, Senhor, que esse ultraje é infinito, porque vai contra a majestade infinita.
– Não se exige então um castigo infinito? quanto à intensidade, sendo a criatura limitada, requer a justiça que seja infinito ao menos quanto à duração: portanto, é a mesma justiça divina que exige o terrível sempre e o terrível nunca. Os próprios condenados serão obrigados a prestar homenagens, mau grado seu, a esta justiça e exclamar em meio aos tormentos: “Vós sois justo, Senhor, e retos os vossos juízos.” (1)
Mas, replicam os incrédulos, Deus é tão misericordioso que não castigará eternamente um pecado mortal só, o qual às vezes dura um instante. Que proporção há entre a breve duração da culpa e a eternidade da pena?
A isto responderemos, que a misericórdia não é nada contrária à justiça, a qual exige seja eternamente castigado o pecado de uma pessoa que tenha morrido impenitente; visto que o pecado de tal pessoa é de certo modo eterno, segundo a sua voluntária disposição presente, querendo morrer no pecado: o que merece uma pena eterna. Até a justiça humana, imagem da justiça divina, castiga por vezes a falta passageira com a pena, a seu modo, eterna, como é o exílio perpétuo; de modo que, se o exilado vivesse sempre, para sempre seria banido da sua pátria. E por que a divina justiça não poderá banir eternamente da pátria celeste um pecador impenitente, que por si mesmo
se exclui dessa pátria, morrendo voluntariamente na impenitência final? De resto, eterno é o prêmio que Deus prepara a quem o serve, e por isso eterno deve ser também o castigo para aqueles que se rebelam contra sua santa lei.
Afinal, quem somos nós que ousamos levantar a fronte e pedir a Deus a razão de seus justos decretos?