28 de fevereiro de 2019

Carta Aberta aos Católicos Perplexos - Mons. Marcel Lefebvre - Parte 4

III
Tenho debaixo dos olhos fotografias publicadas por jornais católicos e que representam a missa tal como ela é rezada com bastante frequência. A respeito da primeira, eu tenho dificuldade em compreender de qual momento do Santo Sacrifício se trata. Atrás de uma mesa ordinária de madeira que não tem aspecto muito conveniente, sem qualquer toalha a cobri-la, dois personagens de paletó e gravata elevam ou apresentam, um deles um cálice, o outro um cibório. A legenda me diz que são sacerdotes, dos quais um é capelão federal da Ação católica. Do mesmo lado da mesa, junto do primeiro celebrante, duas moças de calças compridas; junto do segundo, dois rapazes de camisa esportiva. Uma guitarra está apoiada num tamborete. Outra fotografia: a cena se passa no canto de um compartimento que poderia ser a sala de um centro de jovens. O padre está de pé, com um hábito branco de Taizé diante de um banco de vaqueiro que serve de altar; vê-se uma grande tigela de argila e um pequeno copo do mesmo material, bem como dois cotos de vela acesos. Cinco jovens vestidos de tailleurs estão sentados no chão, e um deles dedilha a guitarra. Terceira foto, referente a um acontecimento ocorrido há alguns anos: a vigilância marítima de alguns ecologistas que queriam impedir as experiências atômicas francesas na ilhota de Mururoa. Há entre eles um sacerdote que celebra a missa na coberta do barco, em companhia de dois outros homens. Todos os três estão de short, apresentando-se um deles, de resto, com o peito nu. O padre ergue a hóstia, sem dúvida para a elevação. Ele não está nem de pé nem ajoelhado, mas sentado ou antes recostado numa super-estrutura da embarcação. Um traço comum se depreende destas imagens escandalosas: a Eucaristia foi rebaixada ao nível dum ato corriqueiro, na vulgaridade do ambiente, dos instrumentos utilizados, das atitudes, dos trajes. Ora, as revistas ditas católicas, vendidas nos mostruários das igrejas não apresentam mais estas fotografias para criticar tais maneiras de proceder mas ao contrário, para recomendá-las. LaVie julga mesmo que isso não é suficiente. Utilizando, conforme o seu hábito, trechos de cartas de leitores para dizer o que ela pensa sem se comprometer, escreve: “A reforma litúrgica deveria ir mais longe... As repetições desnecessárias, as fórmulas sempre repisadas, toda esta ordenação freia uma verdadeira criatividade.” O que deveria ser a missa? O seguinte: “Nossos problemas são múltiplos, nossas dificuldades crescem e a Igreja parece estar ausente. Frequentemente se sai da missa enfadado; há como um deslocamento entre nossa vida, nossas preocupações do momento, e o que se nos propõe a viver no domingo.” Certamente se sai enfadado duma missa que se esforçou em descer ao nível dos homens em lugar de elevá-los para Deus e que mal compreendida, não permite superar os “problemas”. O encorajamento a ir ainda mais longe traduz uma vontade deliberada de destruir o sagrado. Despoja-se assim o cristão de alguma coisa que lhe é necessária, à qual ele aspira, pois é levado a honrar e a reverenciar tudo o que tem uma relação com Deus. Quanto mais a matéria do Sacrifício destinada a tornar-se o Seu corpo e o Seu sangue! Porque confeccionar hóstias cinzentas ou marrons deixando uma parte de sua sêmea? Quer-se fazer esquecer a expressão supressa no novo ofertório: hanc immaculatam hostiam, esta hóstia imaculada? Não obstante esta não é senão uma inovação menor. Ouve-se falar frequentemente da consagração de pedaços de pão comum, fermentado, em lugar do trigo puro prescrito e cujo emprego exclusivo foi ainda relembrado recentemente na instrução Inaestimabiledonum. Estando todos os limites transpostos, viu-se mesmo um bispo americano recomendar a confecção de bolinhas com leite, ovos, levedura, mel e margarina. A dessacralização se estende às pessoas consagradas ao serviço de Deus, com o desaparecimento do traje eclesiástico para os sacerdotes e as religiosas, o uso apenas dos nomes próprios, o tratamento por tu, o modo de vida secularizado em nome dum novo princípio e não, como se tenta fazer crer, por necessidades práticas. Aduzo, como prova disto, estas religiosas que abandonaram o seu claustro para morar em apartamentos alugados em cidades, fazendo assim uma dupla despesa, que deixam o véu e devem arcar com os gastos em idas regulares ao cabeleireiro. A perda do sagrado conduz também ao sacrilégio. Um jornal do oeste da França nos informa que o concurso nacional de balizas se realizou, em 1980, na Vendeia. Houve uma missa durante a qual as balizas dançaram, distribuindo algumas delas, em seguida, a comunhão. E o que mais é, a cerimônia foi coroada com uma dança em roda, da qual participou o celebrante com paramentos sacerdotais. Não tenho a intenção de estabelecer aqui um catálogo dos abusos que se encontram, mas de dar alguns exemplos mostrando porque os católicos de hoje têm toda a razão de estarem perplexos e mesmo escandalizados. Não revelo nenhum segredo, a própria televisão se encarrega de difundir nos lares, durante a emissão de domingo de manhã, a desenvoltura inadmissível que bispos ostentam publicamente em relação ao Corpo de Cristo, como nesta missa televisionada de 22 de novembro de 1981, na qual o cibório foi substituído por cestos que os fiéis passavam uns para os outros e que acabaram por serem postos no chão com o que restava das Sagradas Espécies. Em Poitiers, na Sexta-feira Santa do mesmo ano, uma concelebração com grande aparato consistiu em consagrar promiscuamente pães e pichéis de vinho sobre mesas aonde cada um se vinha servir. Os concertos de música profana organizados nas igrejas são agora generalizados. Aceita-se mesmo emprestar os lugares de culto para audições de música rock, com todos os excessos que elas acarretam habitualmente. Igrejas e catedrais foram entregues à orgia, à droga, às imundícies de toda a espécie e não é o clero local que efetuou cerimônias expiatórias, mas grupos de fiéis justamente revoltados com estes escândalos. Como é que os bispos e padres que os favoreceram não receiam atrair sobre si e sobre o conjunto de seu povo a maldição divina? Ela apareceu já na esterilidade que castiga as suas obras. Tudo se perde, se desorganiza porque o Santo Sacrifício da Missa, profanado como está, não dá mais a graça nem mais a transmite. O menosprezo da presença real de Cristo na Eucaristia é o fato mais flagrante pelo qual se exprime o espírito novo, que não é mais católico. Sem chegar até os excessos espalhafatosos de que eu acabo de falar, é todos os dias que isto se verifica. O concílio de Trento explicitou sem dúvida possível que Nosso Senhor está presente nas menores partículas da hóstia consagrada. Sendo assim, que pensar da comunhão na mão? Quando se serve duma patena, mesmo se as comunhões são pouco numerosas, nela ficam sempre partículas. Por conseguinte, estas partículas ficam agora nas mãos dos fiéis. Em vista disto a fé se abala em muitas pessoas, sobretudo nas crianças. A nova maneira não pode ter senão uma explicação: se se vem à missa para partir o pão da amizade, da refeição comunitária, da fé comum, então é normal que não se tomem precauções excessivas. Se a Eucaristia é um símbolo materializando a simples lembrança de um acontecimento passado, a presença espiritual de Nosso Senhor, é inteiramente lógico que haja pouca preocupação com as migalhas que podem cair no chão. Mas se se trata da presença do próprio Deus, de nosso Criador, como o quer a fé da Igreja, como compreender que se admita uma tal prática e até que se encoraje, a despeito de documentos romanos bem recentes ainda? A ideia que se esforça por inculcar assim é uma ideia protestante contra a qual se rebelam os católicos ainda não contaminados. Para melhor impô-la, obrigam-se os fiéis a comungar de pé. É conveniente que se vá receber sem o menor sinal de respeito ou de consolação, a Cristo diante do qual, como diz São Paulo, se dobra todo o joelho no céu, na terra e nos infernos? Muitos sacerdotes não se ajoelham mais diante da Sagrada Eucaristia; o novo rito da missa os encoraja a isso. Para tal não vejo senão duas razões possíveis: ou um imenso orgulho que nos faz tratar a Deus como se fôssemos seus iguais ou a certeza de que Ele não está realmente na Eucaristia. Estou movendo um processo de intenção contra a pretensa “Igreja conciliar”? Não, eu nada invento. Escutai como se exprime o decano da faculdade de teologia de Estrasburgo: “Fala-se também da presença dum orador, dum ator, designando com isto uma qualidade diferente de um simples “estar lá” topográfico. Enfim qualquer um pode estar presente por uma ação simbólica que não realiza fisicamente, mas que outros efetuam por fidelidade criadora à sua intenção profunda. Por exemplo, o festival de Bayreuth realiza, sem dúvida, uma presença de Ricardo Wagner, que é bem superior em intensidade àquela que podem manifestar obras ou concertos ocasionais consagrados ao músico. É nesta última perspectiva que convém situar a presença eucarística de Cristo.” Comparar a missa ao festival de Bayreuth! Não, decididamente, não estamos de acordo nem nas palavras nem na música.

27 de fevereiro de 2019

Carta Aberta aos Católicos Perplexos - Mons. Marcel Lefebvre - Parte 3

II
Preciso dissipar logo de início um mal-entendido, de maneira a não ter mais que retornar ao assunto: eu não sou um chefe de movimento, muito menos o chefe de uma Igreja particular. Não sou, como não cessam de escrever, “o chefe dos tradicionalistas”. Chegou-se a qualificar certas pessoas de “lefevristas” como se se tratasse de um partido ou de uma escola. É um abuso de linguagem. Não tenho doutrina pessoal em matéria religiosa. Eu me ative toda a minha vida ao que me foi ensinado nos bancos do seminário francês de Roma, a saber, a doutrina católica segundo a transmissão que dela fez o magistério de século em século, desde a morte do último apóstolo, que marca o fim da Revelação. Não deveria haver nisso um alimento próprio a satisfazer o apetite do sensacional que experimentam os jornalistas e através deles a opinião pública atual. No entanto, toda a França ficou em alvoroço no dia 29 de agosto de 1976 ao saber que eu ia rezar missa em Lille. Que haveria de extraordinário no fato de um bispo celebrar o Santo Sacrifício? Tive de pregar diante de uma plateia de microfones e cada um de meus ditos era saudado como uma declaração retumbante. Mas que dizia eu a mais do que poderia dizer qualquer outro bispo? Ah, eis aí a chave do enigma: os outros bispos, desde um certo número de anos, não diziam mais as mesmas coisas. Ouviste-os frequentemente falar do reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo, por exemplo? Minha aventura pessoal não cessa de me surpreender: estes bispos, na sua maioria, foram meus condiscípulos em Roma, formados do mesmo modo. E eis que repentinamente eu me encontrava inteiramente só. Eles tinham mudado, renunciavam ao que tinham aprendido. Eu, que nada tinha inventado, continuava o mesmo. O cardeal Garrone chegou a dizer-me num dia: “Enganaram-nos, no seminário francês de Roma.” Enganaram-nos em quê? Não havia ele, antes do concílio, feito as crianças de seu catecismo recitar milhares de vezes, o ato de fé: “Meu Deus, eu creio firmemente em todas as verdades que revelastes e que nos ensinais por meio de Vossa Igreja, porque Vós não podeis nem Vos enganar nem nos enganar”? Como todos estes bispos puderam metamorfosear-se desta maneira? Vejo uma explicação no seguinte: eles permaneceram na França, deixaram-se infectar lentamente. Na África eu estava protegido. Regressei justamente no ano do concílio; o mal já estava feito. O Vaticano II não fez mais do que abrir as comportas que retinham a onda destruidora. Num abrir e fechar de olhos, antes mesmo do encerramento da quarta sessão, sucedia a derrocada. Tudo ou quase tudo ia ser levado de roldão e, para começar, a prece. O cristão, que tem o sentido e o respeito de Deus, fica chocado pela maneira como o fazem rezar hoje em dia. Qualificaram-se de “repetições enfadonhas” as fórmulas aprendidas de cor, não mais as ensinam às crianças, elas não figuram nos catecismos, à exceção do Padre-Nosso, numa nova versão de inspiração protestante que obriga ao tratamento por tu. Tratar a Deus por tu de um modo sistemático não é sinal de uma grande reverência e não salienta o gênio de nossa língua que nos oferece um tratamento diferente, conforme nos dirigimos a um superior, a um parente, a um companheiro. Neste mesmo Padre-Nosso pós-conciliar, pede-se a Deus que não nos “submeta à tentação”, expressão pelo menos equívoca, ao passo que nossa tradução francesa tradicional constitui um aperfeiçoamento em relação à fórmula latina calcada bastante e inhabilmente no hebraico. Que progresso houve aí? O tratamento por tu invadiu o conjunto da liturgia vernácula; o novo missal dos domingos o emprega dum modo exclusivo e obrigatório, sem que se vejam as razões de uma tal mudança tão contrária aos costumes e à cultura franceses. Fizeram-se testes nas escolas católicas com crianças de doze e treze anos. Só alguns sabiam de cor o Padre-Nosso, em francês, naturalmente, outros poucos a sua Ave Maria. Com cerca de uma ou duas exceções, estas crianças ignoravam o Símbolo dos Apóstolos, o “Eu pecador”, os atos de fé, de esperança, de caridade e de contrição, o “Angelus”, o “Lembrai-vos”... Como saberiam ele tudo isto, uma vez que a maior parte nem mesmo jamais ouviu falar deles? A oração deve ser “espontânea”; é preciso falar a Deus sem preparação, diz-se agora, e se desdenha a maravilhosa pedagogia da Igreja que cinzelou todas estas preces às quais os maiores santos recorreram. Quem encoraja ainda os cristãos a fazer a oração da manhã e da noite em família, a recitar o “Benedicite” e as “Graças”? Soube que em numerosas escolas católicas não se quer mais rezar no início das aulas tomando como pretexto que existem alunos não crentes ou pertencentes a outras religiões e que não se deve chocar sua consciência nem ostentar sentimentos triunfalistas. Dão-se congratulações por acolher nestas escolas uma grande maioria de não-católicos e mesmo de não-cristãos e por nada fazer para conduzi-los a Deus. Os alunos católicos, estes, devem ocultar sua fé sob o pretexto de respeitar as opiniões de seus colegas. A genuflexão não é mais praticada a não ser por um número restrito de fiéis; foi substituída por uma inclinação de cabeça ou, às mais das vezes, por absolutamente nada. Entra-se numa igreja e senta-se. A mobília foi trocada, os genuflexórios transformados em lenha, em muitos lugares se colocaram poltronas idênticas às das salas de espetáculo, o que permite de resto, instalar mais confortavelmente o público, enquanto que as igrejas são utilizadas para concertos. Citou-se-me o caso duma capela do Santíssimo Sacramento, numa grande paróquia parisiense, onde um certo número de pessoas, que trabalhavam nos arredores, vinha fazer uma visita na hora do almoço. Um dia ela foi fechada por causa de trabalhos; quando reabriu suas portas, os genuflexórios tinham desaparecido, sobre uma moqueta confortável haviam disposto bancos estofados e muito fofos de um preço certamente elevado e comparáveis aos que se podem encontrar no vestíbulo das grandes sociedades ou das companhias aéreas. O comportamento dos fiéis mudou logo; uns se punham de joelhos sobre a moqueta, mas a maior parte se instalava comodamente e meditava de pernas cruzadas diante do tabernáculo. Havia certamente no espírito do clero desta paróquia uma intenção; não se fazem arranjos custosos sem refletir no que se pratica. Verifica-se uma vontade de modificar as relações do homem com Deus no sentido da familiaridade, da desenvoltura, como se se tratasse com Ele de igual para igual. Como se persuadir, se se suprimem os gestos que materializam a “virtude de religião”, de que se está na presença do Criador e do Soberano Senhor de todas as coisas? Não se corre também o risco de diminuir o sentimento de Sua Presença real no tabernáculo? Os católicos estão outrossim desorientados pela ideia preconcebida de banalidade e mesmo de vulgaridade que se lhes impõe nos lugares de culto, dum modo sistemático. Taxou-se de triunfalismo tudo o que concorria para a beleza dos edifícios e para o esplendor das cerimônias. A decoração deve aproximar-se do cenário quotidiano, do “vivido”. Nos séculos de fé se oferecia a Deus o que se possuía de mais precioso; é na igreja da vila que se podia ver o que justamente não pertencia ao universo quotidiano: peças de ourivesaria, obras de arte, tecidos finos, rendas, bordados, estátuas da Santíssima Virgem coroada de joias. Os cristãos faziam sacrifícios financeiros para honrar o Altíssimo com o que tinham de melhor. Tudo isto concorria para a oração, ajudava a alma a elevar-se; é um proceder natural ao homem: quando os reis magos se dirigiram ao pobre presépio de Belém, eles levaram ouro, mirra e incenso. Brutalizam-se os católicos fazendo-os rezar numa ambiência trivial, em “salas polivalentes” que não se distinguem de nenhum outro lugar público, ficando às vezes mesmo aquém deste. Aqui e ali, abandona-se uma magnífica igreja gótica ou românica para construir ao lado uma espécie de hangar despojado e triste, ou então se organizam “eucaristias domésticas” em salas de refeição e até em cozinhas. Falou-se-me de uma destas, celebrada na residência de um defunto na presença de sua família e de seus amigos; após a cerimônia, tirou-se o cálice e, sobre a mesma mesa, coberta com a mesma toalha, se preparou uma refeição. Durante este tempo, a algumas centenas de metros, os pássaros estavam sós a cantar os louvores do Senhor, em torno da igreja do século XIII ornada de vitrais magníficos. Aqueles dentre vós, leitores, que conheceram o anteguerra, se recordam certamente do fervor das procissões de Corpus-Christi, com os múltiplos altares, os cantos, os turíbulos, o ostensório resplandecente levado pelo sacerdote à luz do sol, debaixo do pálio bordado a ouro, os estandartes, as flores, as campainhas. O sentido de adoração nascia na alma das crianças e nela se incrustava para toda a vida. Este aspecto primordial da oração parece muito negligenciado. Falar-se-á ainda da evolução necessária, dos novos hábitos de vida? Os embaraços do trânsito de veículos não impedem as manifestações de rua, os que delas participam não experimentam nenhum respeito humano para exprimir suas opiniões políticas ou suas reivindicações justas ou não. Por que somente Deus seria posto de lado? Por quê apenas os cristãos deveriam abster-se de render-Lhe o culto público que Lhe é devido? O desaparecimento quase total na França das procissões não tem por origem uma desafeição dos fiéis. Ele foi prescrito pela nova pastoral que, não obstante, avança sem cessar a pesquisa duma “participação ativa do Povo de Deus”. Em 1969 um pároco de Oise era destituído por seu bispo depois de ter recebido a proibição de organizar a procissão tradicional de Corpus Christi; mesmo assim a procissão se realizou e atraiu duas vezes mais pessoas do que a vila possuía de habitantes. Dir-se-á que a nova pastoral, aliás em contradição neste ponto, com a Constituição conciliar sobre a Santa Liturgia, se afina com as aspirações profundas dos cristãos que se mantêm apegados a tais formas de piedade? Em troca, o que se lhes propõe? Pouca coisa, pois o serviço do culto se reduziu rapidamente. Os padres não celebram mais o Santo Sacrifício todos os dias, e concelebram o resto do tempo, o número das missas diminuiu em grandes proporções. No campo é praticamente impossível assistir à missa durante a semana; no domingo é necessário tomar uma condução para se dirigir à localidade à qual cabe a vez de receber o sacerdote do “setor”. Numerosas igrejas da França foram definitivamente fechadas, outras não se entreabrem senão algumas vezes por ano. Como a isto se acrescentava a crise de vocações, ou antes a crise do acolhimento que lhes é dado, a prática religiosa se tornou mais difícil de ano para ano. As grandes cidades são, em geral, melhor servidas, mas na maior parte do tempo é impossível comungar, por exemplo nas primeiras sextas-feiras ou nos primeiros sábados do mês. Não se deve mais pensar, naturalmente, em missa diária; em muitas paróquias citadinas elas se celebram por encomenda, para um grupo determinado em hora combinada com ele e de tal sorte que o transeunte ao entrar casualmente se sente estranho a uma celebração recheada de alusões às atividades e à vida do grupo. Lançou-se o descrédito sobre o que se chamou de celebrações individuais em oposição às celebrações comunitárias; na realidade, a comunidade se fragmentou em pequenas células; não é raro verem-se sacerdotes celebrar em casa de um cristão comprometido em atividades de ação católica ou em outras, na presença de alguns militantes. Ou então o horário do domingo de manhã se encontra repartido entre as diferentes comunidades lingüísticas: missa portuguesa, missa francesa, missa espanhola... Numa época onde as viagens ao estrangeiro se multiplicaram, os católicos são levados a assistir a missas nas quais eles não compreendem uma palavra sequer, e isto ainda que se lhes faça entender que não é possível rezar sem “participar”. Como fariam eles? Não mais missas ou então muito poucas, não mais procissões, não mais visitas ao Santíssimo Sacramento, não mais vésperas... A oração em comum foi reduzida à sua expressão mais simples. Mas quando o fiel superou as dificuldades de horários e de deslocamentos, que encontra ele para matar sua sede espiritual? Falarei mais adiante da liturgia e das graves alterações que ela sofre, mantenhamo-nos por agora mais no exterior das coisas, nas formas desta oração comum. Muito frequentemente o clima das “celebrações” choca o senso religioso dos católicos. É a intrusão dos ritmos profanos com todas as espécies de instrumentos de percussão, a guitarra, o saxofone. Um músico responsável pela música sagrada numa diocese do norte da França escrevia, apoiado por numerosas personalidades eminentes do mundo musical: “A despeito das apelações correntes, a música destes cantos não é moderna: este estilo musical não é novo, mas se praticava em lugares e ambientes muito profanos (cabarés, “music-hall”, freqüentemente por danças mais ou menos lascivas expressas ridiculamente com nomes estrangeiros)... foi-se levado ao balanceio, ou “swing”: todos têm o desejo de se agitar. Eis aí uma “expressão corporal” certamente estranha à nossa cultura ocidental, pouco favorável ao recolhimento e cujas origens são turvas... Na maior parte do tempo nossas assembleias, que já experimentam tanta aflição por não se igualarem aos negros e aos cambaios numa medida de 6/8, não respeitam o ritmo exato, e a bateria falha: então não se tem mais o desejo de se agitar, mas o ritmo se torna informe e faz acentuar ainda mais a pobreza habitual da linha melódica.” Como fica a oração nisto tudo? Felizmente parece que em mais de um lugar se voltou a costumes menos bárbaros. Então se é submetido, se se quer cantar, às produções dos organismos oficiais especializados na música de igreja, pois não é questão de utilizar a maravilhosa herança dos séculos passados. As melodias habituais, sempre as mesmas, são de uma inspiração muito medíocre. Os trechos mais elaborados, executados por corais, se ressentem da influência profana, excitam mais a sensibilidade do que penetram na alma, como faz o cantochão; as palavras inventadas de todas as peças com um vocabulário novo, como se um dilúvio tivesse destruído, há uma vintena de anos, todos os antifonários nos quais, mesmo querendo fazer coisa nova, se se poderia ter inspirado, adotam o estilo do momento e logo saem da moda, não são mais compreensíveis depois de um espaço de tempo muito curto. Inumeráveis discos destinados à “animação” das paróquias difundem paráfrases de salmos, que se têm aliás como tais e que suplantam o texto sagrado de inspiração divina. Por que não cantar os próprios salmos? Apareceu uma novidade há pouco tempo: cartazes afixados na entrada das igrejas diziam: “Para louvar a Deus, batei palmas.” Então, no decurso da celebração, a um sinal do animador, os assistentes levantam os braços acima da cabeça e batem palmas em cadência, com entusiasmo, produzindo um estrépito insólito no recinto do santuário. Este gênero de inovação, sem ligações com nossos hábitos mesmo profanos, que tenta implantar um gesto artificial na liturgia, sem dúvida não terá futuro; ele contribui não obstante, para desencorajar os católicos e aumenta a sua perplexidade. Poderíamos abster-nos de frequentar as “Gospel Nights”, mas que fazer quando estas práticas desoladoras se apoderam das raras missas de domingo? A pastoral de conjunto, segundo o termo adotado, constrange o fiel a gestos novos, cuja utilidade ele não percebe, que vão contra a sua natureza. É preciso, antes de qualquer coisa, que tudo se faça de maneira coletiva, com mudanças de palavra, mudanças de evangelho, mudanças de objetivos, com apertos de mão. O povo segue relutando, como demonstram as cifras; as últimas estatísticas acusam uma nova baixa, entre 1977 e 1983, na frequência à Comunhão, enquanto que a oração pessoal conhece uma ligeira ascensão. A pastoral de conjunto portanto, não conquistou o povo católico. Eis o que leio num boletim paroquial da região parisiense: “Há dez anos, a missa das nove e meia possuía, de vez em quando, um estilo um pouco particular, no sentido de que a proclamação do Evangelho era seguida de uma troca pela qual os fiéis se reencontravam em grupos de uma dezena. De fato, na primeira vez que se tentou uma tal celebração, 69 pessoas constituíram grupos de troca, 138 ficaram à parte. Poder-se-ia pensar que com a ajuda do tempo, este fato se iria modificando. Não aconteceu nada disso.” A equipe paroquial organizou então uma reunião para saber se continuariam ou não as “missas com troca”. Compreende-se que, tendo dois terços dos paroquianos resistido até então às novidades pós-conciliares, não tenham sido encantados por estas conversas improvisadas em plena missa. Como é difícil ser católico hoje! A liturgia francesa, mesmo sem “troca”, atordoa os assistentes sob um fluxo de palavras, muitos se queixam de não poder rezar durante a missa. Então, quando rezarão eles? Os cristãos desconcertados vêem propor-se-lhes receitas que são sempre aprovadas pela hierarquia contanto que elas se afastem da espiritualidade católica. O yoga e o zen são as mais estranhas. Orientalismo desastroso que coloca a piedade em caminhos falsos, pretendendo conduzir a uma “higiene da alma”. Quem falará também dos danos da expressão corporal, degradação da pessoa ao mesmo tempo que exaltação do corpo, contrária à elevação para Deus? Estas modas novas introduzidas até nos mosteiros de contemplativos, com muitas outras, são extremamente perigosas e dão razão àqueles que ouvimos dizer: “Mudam a nossa religião.”

26 de fevereiro de 2019

Carta Aberta aos Católicos Perplexos - Mons. Marcel Lefebvre - Parte 2

I

Que os católicos deste final do século XX estejam perplexos, quem o negará? Que o fenômeno seja relativamente recente, correspondendo aos vinte últimos anos da História da Igreja, basta observar o que sucede para estar persuadido disto. Há pouco tempo, o caminho estava inteiramente traçado; ou se seguia ou não. Tinha-se a fé, ou então se tinha perdido, ou ainda jamais se tivera. Mas quem a possuía, quem havia entrado na santa Igreja pelo batismo, renovado suas promessas pela idade de onze anos, recebido o Espírito Santo no dia de sua confirmação, este sabia o que devia crer e o que devia fazer. Hoje, muitos não mais o sabem. Ouvem-se nas igrejas tantos ditos estarrecedores, leem-se tantas declarações contrárias ao que tinha sido sempre ensinado, que a dúvida se insinuou nos espíritos. No dia 30 de junho de 1968, encerrando o Ano da Fé, S.S. Paulo VI fazia, diante de todos os bispos presentes em Roma e de centenas de milhares de fiéis uma profissão de fé católica. Em seu preâmbulo, ele prevenia cada um deles contra os danos causados à doutrina pois, dizia, “seria engendrar, como infelizmente se vê hoje, a perturbação e a perplexidade de muitas almas fiéis”. A mesma palavra se encontra numa alocução de S.S. João Paulo II a 6 de fevereiro de 1981: “Os cristãos de hoje em grande parte, se sentem perdidos, confusos, perplexos e mesmo decepcionados.” O Santo Padre resumia as causas deste fato da seguinte maneira: “De todos os lados espalharam-se ideias que contradizem a verdade que foi revelada e sempre ensinada. Verdadeiras heresias foram divulgadas nos domínios do dogma e da moral, suscitando dúvidas, confusão, rebelião. A própria liturgia foi violada. Mergulhados num ”relativismo” intelectual e moral, os cristãos são tentados por um iluminismo vagamente moralista por um cristianismo sociológico, sem dogma definido e sem moralidade objetiva.” Esta perplexidade se manifesta a todo o instante nas conversas, nos escritos, nos jornais, nas emissões radiofônicas ou televisionadas, no comportamento dos católicos, traduzindo-se este último numa diminuição considerável da prática como o testemunham as estatísticas, uma desafeição relativamente à missa e aos sacramentos, um relaxamento geral dos costumes. Foi-se levado a perguntar, por conseguinte, o que provocou um tal estado de coisas. A todo efeito corresponde uma causa. É a fé dos homens que diminuiu, por um eclipse da generosidade da alma, um apetite de gozo, uma atração pelos prazeres da vida e pelas múltiplas distrações que oferece o mundo moderno? Não são estas as verdadeiras razões, elas sempre existiram dum modo ou de outro; a queda rápida da prática religiosa provém antes do espírito novo que se introduziu na Igreja e que lançou a suspeita sobre um passado inteiro de vida eclesiástica, de ensino e de princípios de vida. Tudo isto se fundava sobre a fé imutável da Igreja, transmitida pelos catecismos que eram reconhecidos por todos os episcopados. A fé se estabelecia sobre certezas. Abalando-as, semeou-se a perplexidade. Tomemos um exemplo: a Igreja ensinava — e o conjunto dos fiéis acreditava — que a religião católica era a única verdadeira. Com efeito, ela foi fundada pelo próprio Deus, enquanto que as outras religiões são obra dos homens. Em consequência disto o cristão deve evitar toda relação com as falsas religiões e de outra parte, fazer tudo para trazer os seus adeptos à religião de Cristo. Isto é ainda verdadeiro? Com toda a segurança. A verdade não pode mudar, senão jamais teria sido verdade. Nenhum dado novo, nenhuma descoberta teológica ou científica — se é que podem existir descobertas teológicas — jamais fará com que a religião católica não seja mais o único caminho da salvação. Mas eis que o próprio papa assiste a cerimônias religiosas destas falsas religiões, reza e prega nos templos de seitas heréticas. A televisão espalha no mundo inteiro as imagens destes contatos estarrecedores. Os fiéis não compreendem mais. Lutero — e eu tornarei a isto nas páginas que seguem — separou da Igreja povos inteiros, transtornou a Europa espiritual e politicamente, arruinando a hierarquia católica, o sacerdócio católico, inventando uma falsa doutrina da salvação, uma falsa doutrina dos sacramentos. Sua revolta contra a Igreja será o modelo seguido por todos os futuros revolucionários que lançarão a desordem na Europa e no mundo. É impossível, quinhentos anos mais tarde, fazer dele, como alguns quereriam, um profeta ou um doutor da Igreja, quando não um santo. Ora, se eu leio a Documentation Catholique ou as revistas diocesanas, encontro escrito aí, pela pena da Comissão mista católico-luterana, oficialmente reconhecida pelo Vaticano I: “Entre as idéias do concílio Vaticano II, onde se pode ver um acolhimento dos postulados de Lutero, se acham por exemplo:
— a descrição da Igreja como “Povo de Deus” (ideia mestra do novo direito canônico: ideia democrática e não mais hierárquica);
— o acento colocado sobre o sacerdócio de todos os batizados;
— o compromisso em favor do direito da pessoa à liberdade em matéria de religião.
Outras exigências que Lutero tinha formulado em seu tempo podem ser consideradas como sendo satisfeitas na teologia e na prática da Igreja de hoje: o emprego da língua vulgar na liturgia, a possibilidade da comunhão sob as duas espécies e a renovação da teologia e da celebração da Eucaristia.” Que confissão considerável! Satisfazer às exigências de Lutero, que se mostrou o inimigo resoluto e brutal da missa e do papa! Dar acolhimento aos postulados do blasfemador que dizia: “Eu afirmo que todos os lupanares, os homicídios, os roubos, os adultérios são menos maus que esta abominável missa!” Desta reabilitação tão aberrante não se pode tirar senão uma conclusão: ou se deve condenar o concílio Vaticano II que a autorizou, ou se deve condenar o concílio de Trento e todos os papas que, desde o século XVI, declararam o protestantismo herético e cismático. Compreende-se que diante de uma tal reviravolta os católicos estejam perplexos. Mas eles têm tantos motivos de o estar! No decurso dos anos presenciaram a transformação do fundo e da forma das práticas religiosas que os adultos tinham conhecido na primeira parte de sua vida. Nas igrejas, os altares foram destruídos ou mudados de destino em proveito de uma mesa, frequentemente móvel ou encaixada. O tabernáculo não ocupa mais o lugar de honra, na maior parte das vezes; foi dissimulado sobre um sustentáculo e posto ao lado: onde ele ficou no centro o sacerdote ao rezar a missa, lhe volta as costas. Celebrante e fiéis face a face, dialogando em conjunto. Qualquer um pode tocar os vasos sagrados, frequentemente substituídos por cestos, pratos, tigelas de louça; leigos, inclusive mulheres, distribuem a comunhão que se recebe na mão. O Corpo de Cristo é tratado com uma falta de reverência que insinua a dúvida sobre a realidade da transubstanciação. Os sacramentos são administrados dum modo que varia conforme os lugares; tomarei como exemplos a idade do batismo e da confirmação, o da bênção nupcial acompanhada de cantos e de leituras que nada têm a ver com a liturgia, tomadas de empréstimo a outras religiões ou de uma literatura decididamente profana, quando não exprimem simplesmente ideias políticas. O latim, língua universal da Igreja, e o gregoriano desapareceram de um modo quase geral. A totalidade dos cânticos foi substituída por cantigas modernas, nas quais não é raro encontrar os mesmos ritmos que os dos lugares de prazer. Os católicos ficaram surpresos também pelo brusco desaparecimento do hábito eclesiástico, como se os sacerdotes e as religiosas tivessem vergonha de aparecer com tais. Os pais que enviam seus filhos ao catecismo verificam que não mais se lhes ensinam as verdades da fé, mesmo as mais elementares: a Santíssima Trindade, o mistério da Encarnação, a Redenção, o pecado original, a Imaculada Conceição. Daí se origina um sentimento de profunda confusão: tudo isto não é mais verdade, está caduco, “ultrapassado”? As próprias virtudes cristãs não são mais mencionadas; em que manual de catequese, por exemplo, se fala da humildade, da castidade, da mortificação? A fé se tornou um conceito flutuante, a caridade uma espécie de solidariedade universal e a esperança é sobretudo a esperança num mundo melhor. Tais novidades não são aquelas que, na ordem humana, aparecem com o tempo, às quais nos habituamos, a que assimilamos depois de um primeiro período de surpresa e de hesitação. No decorrer da vida de um homem, muitas maneiras de comportamento se transformam; se eu fosse ainda missionário na África dirigir-me-ia para lá de avião e não mais de navio quando não fosse senão pela dificuldade de encontrar uma companhia marítima que fizesse ainda o trajeto. Neste sentido pode-se dizer que é preciso viver com o seu tempo e ademais se está obrigado a isso. Mas os católicos aos quais se quis impor novidades na ordem espiritual e sobrenatural em virtude do mesmo princípio, compreenderam bem que isto não era possível. Não se muda o Santo Sacrifício da Missa, os sacramentos instituídos por Jesus Cristo, não se muda a verdade revelada uma vez por todas, não se substitui um dogma por outro. As páginas que vão seguir quereriam responder às questões que vós vos pondes, vós que conhecestes uma outra face da Igreja. Elas quereriam também esclarecer os jovens nascidos depois do concílio e aos quais a comunidade católica não oferece o que eles têm direito de esperar dela. Desejaria, enfim, dirigir-me aos indiferentes ou aos agnósticos que a graça de Deus tocará num dia ou noutro mas que correm o risco de encontrar então igrejas sem sacerdotes e uma doutrina que não corresponde às aspirações de sua alma. E ademais é com toda a evidência, uma questão que interessa a todo o mundo, se se julga pelo interesse que nisto demonstra a imprensa de informação geral, em particular em nosso país. Os jornalistas também dão mostras de perplexidade. Alguns títulos ao acaso: “O cristianismo vai morrer?”, “Haverá ainda sacerdotes no ano 2000?” A estas perguntas eu quero responder, não trazendo de minha parte teorias novas, mas me referindo à Tradição ininterrupta e entretanto tão abandonada nestes anos que a muitos leitores ela aparecerá como qualquer coisa de novo.

25 de fevereiro de 2019

Carta Aberta aos Católicos Perplexos - Mons. Marcel Lefebvre - Parte 1

“A ordem social cristã se situa no oposto das teorias marxistas que jamais causaram, em todas as partes do mundo onde foram postas em prática, senão a miséria, o esmagamento dos mais fracos, o desprezo do homem e a morte...”

“Esta ordem cristã se distingue, com toda a certeza também, dos regimes liberais fundados na separação da Igreja e do Estado e cuja impotência em superar as crises se afirma cada vez mais. Como o poderiam após estarem voluntariamente privados d'Aquele que é a luz dos homens? Como poderiam reunir as energias dos cidadãos, uma vez que não têm mais outro ideal a propor-lhes, senão o bem estar e o conforto? Eles puderam entreter a ilusão durante certo tempo porque os povos conservavam hábitos de pensamento cristãos e seus dirigentes mantinham mais ou menos conscientemente alguns valores."

“Na época das “reconsiderações”, as referências implícitas à vontade de Deus desaparecem; os sistemas liberais abandonados a si mesmos não sendo mais acionados por alguma ideia superior, extenuam-se, tornando-se uma presa fácil para as ideologias subversivas. Há vinte anos, o liberalismo conquistou também a Igreja e é por isso que os católicos estão perplexos. Nova missa, nova teologia dos sacramentos, novo catecismo, novo direito canônico... É uma nova religião que se instala?”

Dom Lefebvre responde a esta pergunta com uma lógica impecável apoiando-se no ensinamento constante da Igreja que não pertence ao passado e que não é perecível pois: “não há aqui nem passado, nem presente, nem futuro, a Verdade é de todos os tempos, ela é eterna."

24 de fevereiro de 2019

Programação de Missas do Apostolado IBP - Curitiba

INSTITUTO BOM PASTOR

CAPELA NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS

CURITIBA – PR

Semana 18 a 24 de Fevereiro de 2019.

2ª Feira 18/02 07:30 horas Missa rezada na Casa do Padre

3ª Feira 19/02 07:30 horas Missa rezada na Casa do Padre

4ª Feira 20/02 07:30 horas Missa rezada na Casa do Padre
19:00 horas Conferência na Casa do Padre com o Tema "A participação na Missa".

                                                      
5ª Feira 21/02 07:30 horas Missa rezada na Casa do Padre

6ª Feira 22/02 07:30 horas Missa rezada na Casa do Padre

Sábado 23/02 08:30 horas Atendimento de confissões
09:00 horas Missa rezada na Capela Militar

Domingo 24/02 09:00 horas Atendimento de confissões
09:30 horas Recitação Pública do Santo Terço
10:00 horas Missa cantada na Capela Militar - Domingo da Sexagésima


Casa do Padre: Rua Martim Afonso, 342 - Bairro São Francisco

Capela Militar: Rua Francisco Rocha, 740 - Bairro Batel


Padre Thiago Gaspar da Silva Bonifacio - IBP - Curitiba.

17 de fevereiro de 2019

Programação de Missas da Semana


INSTITUTO BOM PASTOR

CAPELA NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS

CURITIBA – PR

Semana 11 a 17 de Fevereiro de 2019.

2ª Feira 11/02 07:30 horas Missa rezada na Casa do Padre

3ª Feira 12/02 07:30 horas Missa rezada na Casa do Padre

4ª Feira 13/02 07:30 horas Missa rezada na Casa do Padre

5ª Feira 14/02 07:30 horas Missa rezada na Casa do Padre

6ª Feira 15/02 07:30 horas Missa rezada na Casa do Padre

Sábado 16/02 08:30 horas Atendimento de confissões
09:00 horas Missa rezada na Capela Militar

Domingo 17/02 09:00 horas Atendimento de confissões
09:30 horas Recitação Pública do Santo Terço
10:00 horas Missa cantada na Capela Militar


Casa do Padre: Rua Martim Afonso, 342 - Bairro São Francisco

Capela Militar: Rua Francisco Rocha, 740 - Bairro Batel


Padre Thiago Gaspar da Silva Bonifacio - IBP - Curitiba.

Tesouro de Exemplos - Parte 604

O PASTORZINHO PREGUIÇOSO

Vou contar-vos uma lenda, que se passou no tempo em que nasceu o Menino Deus.
Os pastores estavam, como sempre, nos arredores de Belém, guardando seus rebanhos de cabras e de ovelhas. Quando naquela fria noite de dezembro ouviram as vozes harmoniosas dos Anjos, e o amável convite para irem visitar o Menino Jesus, que acabava de nascer, todos os pastores, menos um, correram à gruta de Belém.
Mas havia ali um pastorzinho preguiçoso, que dizia aos que o convidavam:
— Vão vocês, que eu não vou. Dizem que nasceu um menino... Ora, muitos meninos nascem no mundo cada dia! Levantar-me a estas horas, e logo nesta noite tão fria de inverno!?. ..
E não se levantou.
Os outros companheiros correram com grande alegria ao presépio e, ajoelhando-se aos pés do Menino Deus, o adoraram e ofereceram-lhe os presentes que haviam levado.
De repente, o pastor que ficara sozinho começou a sentir-se mal. Teve medo de ficar ali sozinho... Levantou-se, correu à gruta, aproximou-se devagarinho do presépio e, meio disfarçado, pôs-se a olhar... Olhava, olhava, arregalava os olhos, mas não via nada de especial, de extraordinário. O que o surpreendia era ver como seus companheiros estavam ali enlevados a contemplar o Menino, e perguntavam:
— Mas, então, você não vê esta maravilha?
— Não vejo nada de extraordinário, mas gostaria de ver...
— E você não trouxe nenhum presente para o Menino?
— Nenhum. Nem pensei nisso.
— Pois é preciso oferecer-lhe alguma coisa: quem não tem um coração generoso, como há de ver a Deus?
O pastorzinho notou que o Menino devia estar sentindo bastante frio e, como no momento não tinha outra coisa melhor, despiu seu próprio capote e com ele cobriu e agasalhou o recém-nascido com muita ternura e carinho.
E eis que, nesse mesmo instante, abrem-se-lhe os olhos. Ele vê... vê o esplendor de um Deus feito menino... vê e cai de joelhos e permanece assim longo tempo adorando e oferecendo seu coração ao Menino Jesus de Belém.

16 de fevereiro de 2019

Tesouro de Exemplos - Parte 603

A FLOR MAIS BELA

Vou contar-vos uma graciosa lenda persa que exprime uma grande verdade.
Deus, assentado no trono excelso de sua glória, chamou um Anjo e disse-lhe:
— Vai aquele jardim, na terra lá em baixo, e traze-me a flor mais bela que encontrares.
O Anjo, mensageiro de Deus, desceu ao jardim e contemplou a variedade e a graça com que milhares de flôres ali se misturavam como um mosaico admirável. Viu o minúsculo jasmim ao lado do grande helianto, a dália à sombra da madressilva abraçada ao oleandro; viu a rainha-margarida, a pervinca, a primavera e todas as outras belezas que erguem o seu hosana ao Criador. Mas o seu olhar fixou-se na rainha das flôres, a rosa aveludada e odorosa, e disse:
— Esta é, certamente, a flor mais bela. — Colheu-a e voou ao trono do Altíssimo.
— A rosa — disse Deus, — é o símbolo do amor, doce expressão de um coração ardente. Com a sua formosura atrai os olhares; é suave, perfumada, delicada,, mas não é a flor mais bela.
O Anjo voou de novo ao jardim. Não olhou para o cravo, nem para a margarida, nem para a flor-de-lis; não deu atenção ao amor-perfeito nem à tulipa soberba, mas, voando pressuroso a um canto escondido do jardim, colheu uma humilde violeta e disse :
— Certamente o símbolo da humildade há de ser a mais bela das flôres.
E, retomando o vôo, foi ajoelhar-se aos pés da Majestade suprema.
Deus, tomando a violeta, sentiu-lhe o delicado perfume e disse:
— Sim, é bela a violeta oculta, humilde e pequenina e de tão agradável fragrância. A humildade é a virtude que faz os santos, vence os demônios e opera grandes maravilhas nos corações dos homens. Todavia, não é a mais bela das flôres.
O Anjo retornou ao jardim. Fixando o olhar no lírio, ficou encantado com a sua alvura imaculada, seu porte altivo, seu perfume suave. Contemplou-o demoradamente, pensando e dizendo:
— Eis o símbolo da pureza imaculada; esta, sim, deve ser a flor mais bela.
Colheu-a e desatou a voar.
Vendo-o, Deus exultou e disse:
— O símbolo da pureza, da pérola mais fúlgida, mais heróica e sublime: esta, sim, é a mais bela das flôres.
E os olhos divinos brilharam de complacência.

15 de fevereiro de 2019

Tesouro de Exemplos - Parte 602

NATAN, O LENHADOR

Gaspar, Melchior e Baltasar iam seguindo a estrela que os conduzia a Belém. Acamparam, uma noite, perto de uma cabana e pediram hospitalidade. Natan disse-lhes que apenas tinha para sua família, mas que lhe causava pena vê-los expostos ao mau tempo. Mandou que entrassem e se assentassem ao pé do fogo. Em seguida, trouxe-lhes umas braçadas de capim seco para que lhes servissem de cama. No outro dia, ao despedirem-se de Natan, disseram-lhe os Magos:
— Olha! dinheiro não temos, mas deixamos-te esta singela lembrança.
E Baltasar entregou-lhe um pífano (pequena flauta), dizendo:
— Toca-o e os teus desejos se cumprirão. Será para ti uma fonte de riquezas, enquanto tratares bem aos pobres.
Tendo partido os reis, disse Natan a esposa:
— Dizem que não trazem dinheiro, e eu o vi em tamanha abundância! E por fim ainda me pagaram com uma flauta!...
— Mas — replicou a mulher — eles não te disseram que a tocasses, que se cumpririam os teus desejos?
— Ah! isso é verdade! Vamos experimentar.
Natan tocou o pífano, dizendo: “Quero um riquíssimo almoço!” E como por encanto apareceu ali o almoço, deixando-os boquiabertos.
E os seus desejos não tiveram mais limites; foi pedindo e recebendo: palácio, vestidos, riquezas imensas.
Mandou logo convidar os amigos para um lauto banquete. E apareceram muitos para ver as riquezas de Natan.
Durante a festa apresentaram-se os reis, de regresso de Belém, humildemente vestidos, e pediram fôssem conduzidos à presença de Natan. O escravo, porém, zombou deles e disse que recebera ordem de não deixar. entrar ninguém. Os reis insistiram em entrar assim mesmo. O escravo pediu socorro e Natan, indignado, ameaçou soltar os cães contra eles.
Os magos retiraram-se, e, depois de tomarem suas vestes reais, apresentaram-se de novo assentados em suas liteiras e acompanhados de todo o seu séquito.
Natan saiu a recebê-los e quis fazê-los sentar-se à sua mesa.
— Não — disse Gaspar. — não podemos sentar-nos com quem não tem compaixão dos pobres.
— Recusamos tua amizade, porque não sabes cumprir a tua palavra, disse Melchior.
— Não podemos sentar-nos ao lado de um lenhador, — disse Baltasar.
Natan, enfurecido, ia despejar sobr.e eles cobras e lagartos, quando Baltasar tocou um pífano e no mesmo instante desapareceram palácio, banquete, riquezas e tudo quanto havia. Natan lembrou-se de tocar o seu pífano, mas havia desaparecido também.
O lenhador encontrava-se, pois, tão pobre como antes e ainda com o coração cheio de remorso.

14 de fevereiro de 2019

Tesouro de Exemplos - Parte 601

A LENDA DE SANTO ELÍGIO (ELÓI)

Um dia estava o Senhor Deus todo pensativo no céu. Tanto que Jesus lhe perguntou:
— Que é que tendes, meu Pai?
Respondeu o Senhor:
— Olha lá no fundo.
— Onde?
— Lá em baixo: Vês naquela vila, numa das últimas casas, aquela grande e bela oficina de ferrador?
— Vejo.
— Pois bem. Lá está uma criatura que eu quisera salvar. Chama-se Elígio. É sem dúvida um homem bom, obediente as minhas leis, caridoso com os pobres, pronto para servir a todos: da manhã até a noite está sempre aplicado ao trabalho, sem que jamais escape de sua boca uma blasfêmia ou uma palavra suja. Parece-me mesmo digno de tornar-se um grande santo.
Jesus perguntou:
— E que é que lho proíbe?
— O seu orgulho. É um artífice de primeiríssima ordem; mas está convencido de que não há no mundo quem seja capaz de superá-lo. E tu sabes que presunção significa: perdido.
E Jesus:
— Meu Pai, se consentis que eu desça à terra, tentarei a conversão dele.
— Pois vá, meu Filho.
E Jesus desceu à terra. Vestiu um macacão de aprendiz de ferreiro, pôs nos ombros uma trouxa de ferramentas e sem mais o divino operário pôs-se à caminho da oficina de Mestre Elígio. À entrada lia-se: Ferrador Elígio, mestre dos mestres: quase sem fogo bate qualquer ferradura. O pequeno aprendiz chegou até a porta e descobrindo a cabeça, exclamou:
— Bom dia, mestre; bom dia a todos... Se precisarem de um pouco de auxílio, estou pronto...
— Por enquanto, não — respondeu Elígio.
— Então, adeus, mestre; ficará para outra vez.
E Jesus continuou o seu caminho. Logo adiante topou Jesus com um magote de gente e disse:
— Não pensei que numa oficina, onde deveria haver muito trabalho, recusassem o meu serviço...
— Escuta, rapaz — disse um do grupo — ao chegar, como saudaste a Mestre Elígio?
— Como saúdam todos: Bom dia, mestre, e a toda companhia.
— Não, não era wsse o modo de saudar: precisava chamá-lo mestre dos mestres. Não viste o que está escrito sobre a porta?
__ É verdade, — disse Jesus. — Vou tentar, novamente.
Voltou à oficina e disse:
— Senhor mestre dos mestres, o sr. não precisaria de um ajudante?
— Entra. Trabalho haverá para ti também. Mas lembra-te bem do que te digo uma vez por todas: Quando me saudares, deves chamar-me mestre dos mestres, porque (não é por orgulhar-me) homens como eu que, com duas escaldaduras, batem qualquer ferradura, em toda esta terra não se encontram.
Observou o rapaz:
— Na minha terra bate-se com uma escaldadura apenas.
— Com uma só? Ah! meu rapaz, não venhas contar-me lorotas.
— Pois bem, eu vos mostrarei se digo ou não a verdade, sr. mestre de todos os mestres.
E Jesus toma um pedaço de ferro, atira-o ao fogo, sopra e atiça as brasas e, quando o ferro está em brasa, dispõe-se a pegá-lo com a mão.
— Pobre tonto! — grita-lhe um dos presentes, — tu queres te queimar?
— Não tenhais medo, — replicou Jesus. — Graças a Deus, em nosso país, não precisamos de tenazes.
E o rapaz toma com uma das mãos o ferro em brasa, coloca-o sobre a bigorna e com o seu martelo bate-o, e deixa-o tão perfeito como ninguém fizera até agora.
Mestre Elígio diz:
— Basta que eu queira, e sou capaz de fazer o mesmo.
E de fato toma um pedaço de ferro, lança-o na forja, sopra, atiça o fogo. Quando o ferro está bem vermelho, quer pegá-lo para levá-lo à bigorna, mas queimam-se-lhe os dedos. Quer fazê-lo depressa e resistir a dor, mas é obrigado a largar o ferro e recorrer às tenazes. Entretanto, o ferro esfria e... pobre Mestre Elígio! faz força, bate, sua.., mas não consegue fazer o que fizera o rapaz.
— Escutem — diz o rapaz — parece-me que ouço o andar de cavalo.
Mestre Elígio corre à porta e vê um cavaleiro que para diante da sua oficina. Ora, convém saber que aquele cavaleiro era São Martinho. Ele diz:
— Venho de muito longe e o meu ginete perdeu um par de ferraduras e preciso encontrar um ferrador.
Mestre Elígio, todo orgulhoso, assim lhe falou:
— Melhor do que aqui não encontrareis, senhor cavaleiro. Estais diante do melhor ferrador daqui e de toda a França.
Pode-se dizer com verdade que ele é o mestre dos mestres. Rapaz, segura um pouco a pata do cavalo.
— Segurar, a pata do cavalo? — observou Jesus. — Em nossa terra isso não é necessário.
— Esta agora é boa! — grita Mestre Elígio. — Como fazeis para ferrar um cavalo sem segurar a pata?
— Nada mais fácil; quereis ver?
E eis que o rapaz toma o puxavante, aproxima-se do cavalo e com um golpe lhe corta o tamanco, leva-o à oficina e aperta-o no tôrno. Depois lima o casco, aplica-lhe a ferradura nova que acabara de bater com o martelo mete-lhe os cravos. Em seguida, desaperta o tôrno, leva aquele ao cavalo, adapta-o bem e, fazendo um sinal da cruz, diz:
— Meu Deus, fazei que o sangue estanque.
E o pé está pronto, ferrado e seguro, como jamais se vira igual. O primeiro aprendiz arregalou os olhos e Mestre Elígio e todos os outros começaram a suar frio. Afinal Mestre Elíigio exclama:
— Caramba!... o mesmo hei de fazer eu também.
E mãos à obra: armado do puxavante, corre ao animal e corta-lhe o pé. Leva-o para dentro, aperta-o no tôrno, mete-lhe os cravos, tudo como fizera o rapaz. Depois — e aqui está o busílis — devendo colocar o pé no lugar, aproxima-se do animal, ajusta-o do melhor modo que pode à perna, mas ai!... o sangue escorre e o pé cai no chão. Agora, a alma soberba de Mestre Elígio se aclara... Entra na oficina para ajoelhar-se aos pés do jovem; mas ele desaparecera, como desapareceram o cavalo e o cavaleiro. O pranto inundou o coração de Mestre Elígio: reconhecera que acima dele, pobre mortal, havia outro Mestre que era inimitável: Tirou o avental de couro, abandonou a oficina, e pôs-se a percorrer o mundo anunciando a palavra de Nosso Senhor Jesus Cristo.