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14 de fevereiro de 2019

Tesouro de Exemplos - Parte 601

A LENDA DE SANTO ELÍGIO (ELÓI)

Um dia estava o Senhor Deus todo pensativo no céu. Tanto que Jesus lhe perguntou:
— Que é que tendes, meu Pai?
Respondeu o Senhor:
— Olha lá no fundo.
— Onde?
— Lá em baixo: Vês naquela vila, numa das últimas casas, aquela grande e bela oficina de ferrador?
— Vejo.
— Pois bem. Lá está uma criatura que eu quisera salvar. Chama-se Elígio. É sem dúvida um homem bom, obediente as minhas leis, caridoso com os pobres, pronto para servir a todos: da manhã até a noite está sempre aplicado ao trabalho, sem que jamais escape de sua boca uma blasfêmia ou uma palavra suja. Parece-me mesmo digno de tornar-se um grande santo.
Jesus perguntou:
— E que é que lho proíbe?
— O seu orgulho. É um artífice de primeiríssima ordem; mas está convencido de que não há no mundo quem seja capaz de superá-lo. E tu sabes que presunção significa: perdido.
E Jesus:
— Meu Pai, se consentis que eu desça à terra, tentarei a conversão dele.
— Pois vá, meu Filho.
E Jesus desceu à terra. Vestiu um macacão de aprendiz de ferreiro, pôs nos ombros uma trouxa de ferramentas e sem mais o divino operário pôs-se à caminho da oficina de Mestre Elígio. À entrada lia-se: Ferrador Elígio, mestre dos mestres: quase sem fogo bate qualquer ferradura. O pequeno aprendiz chegou até a porta e descobrindo a cabeça, exclamou:
— Bom dia, mestre; bom dia a todos... Se precisarem de um pouco de auxílio, estou pronto...
— Por enquanto, não — respondeu Elígio.
— Então, adeus, mestre; ficará para outra vez.
E Jesus continuou o seu caminho. Logo adiante topou Jesus com um magote de gente e disse:
— Não pensei que numa oficina, onde deveria haver muito trabalho, recusassem o meu serviço...
— Escuta, rapaz — disse um do grupo — ao chegar, como saudaste a Mestre Elígio?
— Como saúdam todos: Bom dia, mestre, e a toda companhia.
— Não, não era wsse o modo de saudar: precisava chamá-lo mestre dos mestres. Não viste o que está escrito sobre a porta?
__ É verdade, — disse Jesus. — Vou tentar, novamente.
Voltou à oficina e disse:
— Senhor mestre dos mestres, o sr. não precisaria de um ajudante?
— Entra. Trabalho haverá para ti também. Mas lembra-te bem do que te digo uma vez por todas: Quando me saudares, deves chamar-me mestre dos mestres, porque (não é por orgulhar-me) homens como eu que, com duas escaldaduras, batem qualquer ferradura, em toda esta terra não se encontram.
Observou o rapaz:
— Na minha terra bate-se com uma escaldadura apenas.
— Com uma só? Ah! meu rapaz, não venhas contar-me lorotas.
— Pois bem, eu vos mostrarei se digo ou não a verdade, sr. mestre de todos os mestres.
E Jesus toma um pedaço de ferro, atira-o ao fogo, sopra e atiça as brasas e, quando o ferro está em brasa, dispõe-se a pegá-lo com a mão.
— Pobre tonto! — grita-lhe um dos presentes, — tu queres te queimar?
— Não tenhais medo, — replicou Jesus. — Graças a Deus, em nosso país, não precisamos de tenazes.
E o rapaz toma com uma das mãos o ferro em brasa, coloca-o sobre a bigorna e com o seu martelo bate-o, e deixa-o tão perfeito como ninguém fizera até agora.
Mestre Elígio diz:
— Basta que eu queira, e sou capaz de fazer o mesmo.
E de fato toma um pedaço de ferro, lança-o na forja, sopra, atiça o fogo. Quando o ferro está bem vermelho, quer pegá-lo para levá-lo à bigorna, mas queimam-se-lhe os dedos. Quer fazê-lo depressa e resistir a dor, mas é obrigado a largar o ferro e recorrer às tenazes. Entretanto, o ferro esfria e... pobre Mestre Elígio! faz força, bate, sua.., mas não consegue fazer o que fizera o rapaz.
— Escutem — diz o rapaz — parece-me que ouço o andar de cavalo.
Mestre Elígio corre à porta e vê um cavaleiro que para diante da sua oficina. Ora, convém saber que aquele cavaleiro era São Martinho. Ele diz:
— Venho de muito longe e o meu ginete perdeu um par de ferraduras e preciso encontrar um ferrador.
Mestre Elígio, todo orgulhoso, assim lhe falou:
— Melhor do que aqui não encontrareis, senhor cavaleiro. Estais diante do melhor ferrador daqui e de toda a França.
Pode-se dizer com verdade que ele é o mestre dos mestres. Rapaz, segura um pouco a pata do cavalo.
— Segurar, a pata do cavalo? — observou Jesus. — Em nossa terra isso não é necessário.
— Esta agora é boa! — grita Mestre Elígio. — Como fazeis para ferrar um cavalo sem segurar a pata?
— Nada mais fácil; quereis ver?
E eis que o rapaz toma o puxavante, aproxima-se do cavalo e com um golpe lhe corta o tamanco, leva-o à oficina e aperta-o no tôrno. Depois lima o casco, aplica-lhe a ferradura nova que acabara de bater com o martelo mete-lhe os cravos. Em seguida, desaperta o tôrno, leva aquele ao cavalo, adapta-o bem e, fazendo um sinal da cruz, diz:
— Meu Deus, fazei que o sangue estanque.
E o pé está pronto, ferrado e seguro, como jamais se vira igual. O primeiro aprendiz arregalou os olhos e Mestre Elígio e todos os outros começaram a suar frio. Afinal Mestre Elíigio exclama:
— Caramba!... o mesmo hei de fazer eu também.
E mãos à obra: armado do puxavante, corre ao animal e corta-lhe o pé. Leva-o para dentro, aperta-o no tôrno, mete-lhe os cravos, tudo como fizera o rapaz. Depois — e aqui está o busílis — devendo colocar o pé no lugar, aproxima-se do animal, ajusta-o do melhor modo que pode à perna, mas ai!... o sangue escorre e o pé cai no chão. Agora, a alma soberba de Mestre Elígio se aclara... Entra na oficina para ajoelhar-se aos pés do jovem; mas ele desaparecera, como desapareceram o cavalo e o cavaleiro. O pranto inundou o coração de Mestre Elígio: reconhecera que acima dele, pobre mortal, havia outro Mestre que era inimitável: Tirou o avental de couro, abandonou a oficina, e pôs-se a percorrer o mundo anunciando a palavra de Nosso Senhor Jesus Cristo.

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