Mostrando postagens com marcador Sermão Diác. Marcos Mattke IBP. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sermão Diác. Marcos Mattke IBP. Mostrar todas as postagens

2 de janeiro de 2017

Sermão para a Festa da Circuncisão do Senhor e Oitava do Natal - Diác. Marcos Mattke, IBP

Sermão para a Festa da Circuncisão do Senhor e Oitava do Natal

Diác. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Curitiba, 1º de janeiro de 2017


Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Revmo. Pe. Renato,
Caríssimos fiéis,

“Todos os confins da Terra viram a salvação do nosso Deus”: palavras do gradual e da comunhão.

E a epístola de São Paulo manifesta o que é essa salvação: “Jesus Cristo, que se deu a si mesmo por nós, a fim de nos resgatar de toda a iniqüidade, e purificar para si um povo que lhe pertença”.


Primeiro dia deste novo ano civil, enquanto o mundo materialista se preocupa em desejar boas entradas de um próspero ano-novo tão somente com “muito dinheiro no bolso e saúde para dar e vender”, como os porcos que olham somente para a terra, a Santa Igreja, como a águia que se eleva ao céu contemplando o sol, celebra com a festa da circuncisão do Senhor o último dia da oitava do Natal; oitava que prolongou por oito dias a festa do Nascimento de Nosso Salvador. Logo, caríssimos, ainda é Natal! E o episódio da circuncisão está intimamente inserido neste grande mistério que a Santa Igreja nos apresenta mais uma vez no dia de hoje, para bem inculcar esta verdade que devemos ter em mente e meditar todos os dias do ano: Deus veio a nós se fazendo verdadeiro homem para nos purificar e nos resgatar das garras do pecado para que, cumprindo zelosamente seus ensinamentos, sejamos seu povo e possamos ter com ele a vida eterna.

Deus estabelecera a circuncisão no oitavo dia do nascimento como sinal da aliança contraída com o Patriarca Abraão (Gen. XVII, 13) e sua posteridade. Pela circuncisão o povo judeu, depositário das promessas divinas e do qual viria a nascer o messias prometido, era distinto e separado das demais nações; por ela o circuncidado era incorporado ao povo eleito e adquiria o dever de cumprir a lei dada por Deus ao seu povo (Gal. V, 3). Ainda era um sinal da graça de Deus, que incitava à circuncisão do coração, como pregava o profeta Jeremias (Jr. IV, 4; IX, 25-26), isto é, o combate ao pecado e aos vícios, pela submissão à vontade de Deus e pela prática de sua Lei. O próprio ritual judaico mostra a razão desta lei: aquele que operava a circuncisão dizia: “Bendito seja o Senhor nosso Deus, que nos santificou com seus preceitos e nos deu a circuncisão”; a que respondia o pai do circuncidado: “Que nos concedeu introduzir nosso filho na Aliança de Abraão nosso pai”; e os demais presentes diziam em coro: “Feliz aquele que vós escolheis, e chamais para habitar em vossos átrios. Possamos nós ser saciados dos bens de vossa casa, da santidade de vosso templo. Vós nos atendeis com os estupendos prodígios de vossa justiça, ó Deus, nosso salvador. Vós sois a esperança dos confins da terra e dos mais longínquos mares” – palavras do salmo 64 (Sl. LXIV, 5-6). A circuncisão introduzia o judeu no povo eleito, santificava-o pela fé no Salvador prometido e pela prática dos preceitos da lei, e confirmava o povo eleito na esperança do Salvador que deveria vir. 

Ora, o Antigo Testamento tem como centro a vinda do Messias, todo ele figura, anuncia e prepara o seu Advento. Como diz Santo Agostinho: “Toda a Escritura narra Cristo e ensina a caridade: a Lei toda estava grávida de Cristo” (Contra Faustum Manichæum Libri XXXIII, MIGNE, P.L., XLII, col. 207a), e o próprio redentor disse aos fariseus: “escrutai as escrituras, são elas que dão testemunho de mim” (Jo. V, 39). Assim, afirma Santo Ambrósio (Expositio Evangelii secundum Lucam. MIGNE, P.L., XV, col. 1572b-1573b) que a circuncisão estabelecida por Deus na antiga Lei era a prefiguração da purificação e remissão dos pecados que Nosso Senhor Jesus Cristo operou por sua encarnação redentora. Ainda neste sentido, assevera Santo Tomás de Aquino (Summa Theologiæ. IIIª, Q. LXX, a. 1) que é a circuncisão uma prefiguração do batismo, pois que, assim como ela incorporava o circuncidado que professava sua fé no messias prometido ao antigo povo eleito, esse sacramento, indispensável para a salvação, incorpora à Igreja, o novo povo eleito, o cristão que professa sua fé no Cristo Salvador.  Ainda, como a circuncisão colocava o judeu sob o jugo pesado da antiga lei, por este sacramento recebemos o suave jugo da lei da graça, pela qual vivemos da vida divina já nesta vida, tornando-nos filhos de Deus e recebendo as virtudes teologais, fé, esperança e caridade, que nos levam a dirigir nossos atos a Deus como nosso fim último, agindo como verdadeiros filhos de Deus. 

Podemos ainda, caríssimos, ver nesse episódio da Circuncisão as primícias do sacrifício redentor de Cristo: a Circuncisão é o prelúdio da Paixão. Sendo Deus, não estava ele submetido à lei judaica, pois era ele o próprio legislador, mas quis Nosso Senhor assumir toda a natureza humana, fazendo-se semelhante a nós em tudo exceto no pecado (Heb. IV, 15). Submeteu-se assim a este penoso preceito, tomando sob si todo o jugo da antiga lei e de todos nossos pecados para purificar-nos e impor-nos o suave jugo da Nova Aliança. Nas palavras de São Paulo, “submeteu-se à lei para ganhar aqueles que estavam submetidos à lei” (Gal. IV, 4-5). Disse, com efeito, Nosso Salvador: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve” (Mt. XI, 28-30). É para nos obter essa suprema graça por seu sacrifício que Cristo veio a nós, e as primeiras gotas deste sangue redentor são derramadas hoje – é hoje que nosso Redentor começa a sofrer para nos salvar.

Cristo começa a sofrer: é na obediência, na humilhação e no sofrimento que ele mostra sua onipotência, pois que é pela sua paixão que ele nos traz a redenção. Assumindo a condição humana, Nosso Salvador a restaura na amizade de Deus e nós podemos assim nos dirigir ao nosso fim último que é a bem-aventurança celeste. Mas para isso, caríssimos, devemos fazer nossa parte: como ensina São Paulo (Col. I, 24), devemos completar em nossa carne aquilo que faltou à paixão de Cristo, e como disse Nosso Senhor, “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me” (Lc. IX, 23-24). Como assevera o Apóstolo na epístola de hoje: a graça das graças de Deus apareceu ao mundo com Cristo Nosso Salvador. Veio ele nos redimir e nos deixar o exemplo a ser imitado para agradar a Deus e ganhar a bem-aventurança eterna: renunciar à impiedade e aos desejos mundanos, isto é, reconhecer Deus como nosso sumo bem e fim último, elevar-se acima dos bens materiais, reconhecendo que, criaturas de Deus, devem ser utilizados para a glória de Deus e nossa santificação; circuncidemos nossos corações, vivamos, neste mundo, sóbria, justa e piedosamente, conforme a lei divina e os ensinamentos de Nosso Redentor, aguardando o momento de retornar a nossa pátria celeste para a qual fomos criados.

Caríssimos, tenhamos todos os dias em mente essa realidade: Deus veio nos salvar, devemos nós cooperar então com a sua graça! Assim para o verdadeiro católico, o Natal não acaba hoje, mas todo dia é Natal. E é essa uma realidade, e não uma mera ideologia ou filosofia de vida: Deus quer nossa salvação e todos os dias ele vem a nós pelas graças que nos envia para nossa conversão e salvação. É esse o supremo bem, caríssimos; é isso que devemos desejar acima de tudo nesse novo ano. Aproveitemos particularmente as graças dessa festa de Natal, rogando, consoante a coleta de hoje, a intercessão da Bem Aventurada e Sempre Virgem Maria, Mãe de Nosso Salvador, que com ele ofereceu as primícias de seu sacrifício e que Deus utilizou como fonte para derramar as graças de sua encarnação sobre os homens.

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

1 de agosto de 2016

Sermão para o XI Domingo depois de Pentecostes - Diác. Marcos Mattke, IBP

XI Domingo depois de Pentecostes.

Diác. Marcos Vinicius Mattke, IBP

31.07.2016

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Revmos. Padres,
Prezados seminaristas,
Caríssimos fiéis,

“Meteu-lhe Jesus os dedos nos ouvidos, e tocou-lhe a língua com a sua saliva; depois, levantando os olhos ao céu, suspirou, e disse-lhe: Effeta, que quer dizer: Abre-te. Imediatamente se lhe abriram os ouvidos, e se lhe soltou a prisão da língua, falando normalmente”
 (Mc. VII, 33-35)

A liturgia de hoje nos recorda o dia de nosso batismo, quando o sacerdote, seguindo o exemplo de Cristo, tocou nossos ouvidos e língua dizendo essas mesmas palavras: “effeta, abre-te”, para que nós também, pela graça do batismo, possamos escutar e falar a Deus, bem como, falar de Deus, cooperando com a sua graça, que, como apresenta a Epístola, não deve ser vã em nós (I Cor. XV, 10).

Vejamos, primeiramente, o que Jesus fez.

Estava Nosso Senhor indo de Tiro, ao Mar da Galiléia quando trouxeram-lhe um surdo-mudo e rogaram-lhe que lhe impusesse a mão e Jesus assim o faz. Porque essa atitude de Jesus? Aliás, ele não somente lhe impõe a mão, mas toca seus ouvidos e impõe saliva na língua do doente, numa atitude que pode parecer estranha a muitos atualmente.

Com efeito, Jesus, sendo verdadeiramente Deus, poderia perfeitamente curá-lo com um simples ato de sua vontade, como fez ele com o servo do centurião, que, em um ato de fé na divindade de Cristo, afirmou “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado” (Mt. VIII, 8).

Mas, segundo São Tomás de Aquino, busca o Salvador mostrar por estes atos corporais que é pela sua encarnação que ele traz a salvação, pois é assumindo a carne humana que ele estabeleceu a ponte entre Deus e os homens e pôde obrar nossa redenção, donde afirma Tertuliano (De carnis resurrectione, VIII, 3: PL 2, 806): “caro salutis est cardo”, “a carne é o eixo da salvação”.

Diz o Grande Doutor em sua Suma de Teologia (IIIa, q. XLIV, a. 3, ad 2um): “Cristo veio salvar o mundo não somente pelo poder divino, mas também pelo mistério da própria encarnação. Por isso muitas vezes ao curar os doentes não somente se servia do poder divino, curando com uma ordem, mas também aplicando algo pertencente à própria humanidade”.
´
Além disso, todos os atos de Nosso Senhor transmitem ensinamentos necessários para a nossa salvação. Neste Evangelho Cristo cura a surdez e a mudez física, que representa, segundo Santo Agostinho, uma surdez e uma mudez muito pior, a surdez e a mudez espiritual.

A surdez espiritual: o surdo espiritual é todo-ouvidos ao barulho ensurdecedor dos inimigos de nossa alma: o demônio, o mundo e a carne. Escravo do pecado, ele é incapaz de ouvir a palavra de Deus que fala ao homem das mais diversas maneiras: seja pela própria criação, que proclama a glória de Deus, como diz o salmista (Sl. XVIII, 2),  possibilitando um conhecimento natural de Deus, Criador do universo, que tem em si de forma infinita todas as perfeições das criaturas; pela revelação sobrenatural de Deus, que revelou-se a si mesmo aos homens, primeiramente, pelos profetas e mais tarde por meio da encarnação do seu Verbo, Nosso Senhor Jesus Cristo; seja pela sua Santa Igreja, instituída para ser guardiã do depósito da fé, para defender a sã doutrina e pregá-la, sem  corrupção, para todo o mundo, por meio de seu magistério; enfim através da consciência, que em primeira instância acusa o homem dos pecados cometidos.

Não imaginem, caríssimos, que os surdos espirituais são somente aqueles que nunca ouviram a pregação evangélica ou que nasceram no erro. Também os cristãos podem se tornar surdos espirituais: pelo pecado, pela vida cristã medíocre, pela vida mundana, pelos vícios não combatidos, pois que assim o homem se faz surdo a Deus, que, pela sua graça busca incessantemente conduzi-lo à vida eterna, e dá ouvidos ao demônio, que quer impedir o homem de atingir o seu fim último que é Deus, conduzindo-o para a escravidão do pecado.

Tenha-se, ainda, cuidado com uma surdez muito mais sutil, que advém pelas distrações do mundo e que tira a atenção dos ensinamentos que foram até escutados e assimilados, mas que não foram postos em prática ou foram rapidamente esquecidos, fazendo o homem se desviar de seu fim último. E, de fato, é grande a agressividade que têm os inimigos de nossa alma na sociedade atual! Com efeito, se o católico não se mantém firme e vigilante na sua vida espiritual, será ele fácil e rapidamente esmagado pelos inimigos de sua alma, que entram em sua vida por tão variados meios, como a TV, a Internet, os jogos, o celular, o rádio, as más companhias, etc. etc. etc.

E com essa surdez espiritual, vem junto a mudez espiritual: ignorando a palavra de Deus, os mudos espirituais não dão ao Senhor o louvor e a glória que lhe são devidos. Escravos do pecado, eles não conseguem dirigir suas ações para Deus. Eles não têm Deus em seus lábios e não elevam seu pensamento àquele que é o Senhor do universo e da história. Não ordenados ao seu fim último, ofendem a Deus por seus pecados; buscam glorificar-se a si mesmo em suas ações, e não Deus; gloriam-se de suas perfeições, como se não as tivessem recebido de Deus; enfim, não buscam a amizade de Deus, não se unem a ele nesta vida – e separados dele nesta vida, caminham para separação eterna de Deus. Enfim, tais mudos, não somente não falam a Deus e não falam de Deus como também, pelo seu mau exemplo pregam e espalham a vida sem Deus, colaborando para o domínio do pecado sobre os homens.

Mas qual é o remédio para esta deplorável e terrível doença, que se não curada leva à morte eterna? Nada mais é que a mão estendida por Cristo. Somente Deus pode curar alguém que chega em tal estado de surdez e mudez espiritual. E o que faz Nosso Salvador com o surdo-mudo que lhe foi apresentado? Ele o põe antes de tudo à parte da multidão, isto é, longe das atrações do mundo, dos prazeres carnais, das pompas do demônio. No meio do caos e das atrações do mundo não é possível ao homem notar a sua situação espiritual e ouvir a Deus. Donde a importância do recolhimento e da meditação no dia a dia para que possamos ter sempre diante de nossos olhos o fim de nossa vida e possamos escutar e louvar a Deus, e a Ele nos dirigir e nos unir. Ainda, note-se que, incapaz de ter consciência e pedir o remédio necessário para sua cura, o surdo-mudo do Evangelho foi levado por outros a Cristo – trouxeram-lhe – um bom símbolo da necessidade do apostolado para a salvação das almas. Em seguida, Nosso Redentor olha para o Céu, mostrando donde se deve esperar a salvação e geme, compadecendo-se da miséria do homem separado de Deus. Então toca os ouvidos, para abri-los para a palavra de Deus e o toca a língua com sua saliva, símbolo da sabedoria divina, para que seus atos sejam por ela guiados.

Caríssimos, com a graça de Deus, que recebemos no nosso batismo, nossos ouvidos foram abertos para a palavra de Deus e nossas línguas libertas para seu louvor, e, recebemos o Evangelho da Salvação. Roguemos, pois, a Deus a graça de sermos fiéis à sua palavra e não a silenciarmos, mas que a proclamemos do alto dos telhados (Mt. X, 27), como ordenou Nosso Senhor, para que possamos dizer com São Paulo, na epístola de hoje , “ensinei-vos o mesmo que me foi transmitido” e “sua graça não foi estéril em mim”.

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.