No presente ano de 1934, o curral de Bernadette não está mudado. Dir-se-ia uma capela, aí no alto da escarpa, à direita, beirando o caminho de Lourdes a Bartrés sob os carvalhos que o protegem ainda.
Só a coberta de colmo desapareceu substituída por folhas de zinco. Destarte ficarão preservados do desmoronamento os seixos do precioso monumento, que desempenhou papel primordial na infância da jovem Santa e parece conservar ainda de modo singular, o vestígio nela feito pela misteriosa menina.
• • •
Abrigado o rebanho, cercada dos pulos e dos ganidos do cão, Bernadette volta à quinta para cear.
A grande casa branca era já, quanto ao exterior, o que aparenta hoje embora tenham reconstruído o interior, destruído pelo fogo.
Há na casa, do tempo de Bernadette, dois cômodos separados por um corredor. Um com chaminé grande, é a cozinha. Ali se acham duas camas.
O outro cômodo é quarto de dormir, que tem três camas. Atrás da cozinha, um desvão, onde dorme o criado.
É ali que a menina entra à noite.
" Come-se, diz João Barbet, massa branca com leite ".
Se o pai Lagües parece, segundo seus contemporâneos, ter sido bastante obtuso, nunca tendo podido aprender a ler, e, de mais, notavelmente avarento; sua mulher, Maria Aravant, que havia amamentado desde os seis meses a menina Bernadette, cuja mãe se achava novamente grávida, parece-nos criatura bastante simpática.
Bernadette senta-se pois, à mesa deles, onde os pais comem pão alvo, mas as crianças e os criados, pão misturado, metade trigo, metade milho. Ela escuta os ditos das pessoas grandes, sem intervir, já se entende. Come com bom apetite, mas a fadiga do dia pesa-lhe na cabeça. É esta, aliás, a hora da noite em que o coração se comove com as reminiscências afetivas. Ela pensa na pobre morada de Lourdes, onde sua irmã e seus irmãos adormecem naquele momento debaixo da asa materna; aqui, ela é apenas uma criada. São os outros, os seus, lá longe, que lhe parecem os verdadeiros ricos...
2 de dezembro de 2021
A Humilde Santa Bernadette - Colette Yver
1 de dezembro de 2021
A Humilde Santa Bernadette - Colette Yver
A VIDA EM BARTRÉS
Quanto mais suave corre a vida em Bartrés para a menina! O sítio Lagües é extenso e farto. A dona, que amamentara Bernadette, outrora, no tempo em que os Soubirous eram remediados, não a trata como a pastorinha vulgar. Aliás, a menina que é fraquinha, aproveita-se da abundância campesina.
Pela manhã a antiga ama põe-lhe na cesta um naco de toucinho com uma tigela de sopa e pirão de milho. Ei-la partindo, ao alvorecer, com seu cão Pegu, ajuizada, compenetrada da responsabilidade do ofício, com sua varinha que lhe serve de emblema.
A trezentos metros da casa, debaixo de um capão de grandes carvalhos, a meia encosta da rampa que corre ao longo da estrada de Lourdes, está o curral das ovelhas. É uma pequena abegoaria ou granja, abrigada por aquele capão que a esconde.
Seu lindo teto de colmo apertado e quente parece pender do lado oposto ao caminho e descer até o chão. Mas é a terra que surge a pruma naquele ponto e toca no teto, tão abrupta é a ladeira. O pezinho da pastorita, tão seguro quanto o de seus cordeiros, galga-a dançando. Fica, porém, levemente esfalfada
porque é asmática.
Puxa a porta feita de poucas tábuas. Uma baforada quente dá-lhe no rosto, e na escura nave onde penetrou um raio de luz, percebe a menina que as garupas rosadas fazem meia volta num movimento giratório e que o povinho por ela governado vira para sua pessoa uns dez ou doze rostos oblongos, olhos esquisitos, toucados de orelhas compridas, oblíquas e pendentes por um topete de lã muito fofa.
Um gesto da chibata e o redil se esvazia; soltando seu concerto de balidos de tons vários, as alimárias se espalham pelo capinzal. Trava-se sem dúvida, conversas entre elas e sua princesazinha.
Entendem-lhe a fala dialetal e Bernadette lhes conhece todas as vontades, e não troca as caras delas, que a nós parecem todas iguais com seu olhar um tanto bobo e sua expressão, mitológica. Os carneiros adultos e as ovelhas, que são as mães de família, inspiram-lhe certa discrição. Mas está muito à vontade
com os cordeirinhos. Apraz-lhe enfiar as mãozinhas na lã densa, segurá-los pelas juntas rígidas e longas
e sentá-los sobre os joelhos.
E não eram de papelão como os vossos, ó filhos de pais ricos!
Não há motivo de enfastiar-se. O pastorear faz-se ora aqui, ora acolá. " Os Lagües, escreve João Barbet, possuem vastas terras em vários lugares ".
Mas a paisagem é sempre a mesma nas colinas que cercam Bartrés, e os Pireneus azulados sempre surgem ao longe. Quando toca o meio-dia, Bernadette ajoelha-se para rezar o Angelus, depois tira a tampa da cestinha e vai estendendo o toucinho sobre o pão de centeio. Os dentes dos carneiros não param desde cedinho. Mas ela também está com fome. Pegu látelhe à roda. Bernadette, rindo-se, atira-lhe bocados de polenta que o cão abocanha no ar.
Quando a tarde fica parecendo longa, Bernadette esgaravata o chão à cata de pedrinhas. Logo que conseguiu juntar um bom montezinho delas, sai à procura de um local plano para aí construir um altarzinho à Virgem: trabalho de paciência, pois, falta o cimento. Mas Bernadette é habilidosa. Uma cruz feita de dois gravetos encima a construção.
Só falta encontrar flores para orná-la. Puxa então do bolso o terço, que vai desfiando conta após conta, diante do altarzinho mal seguro.
É assim que durante seus dias de solidão vai procurando uma companheira divina com quem possa comunicar seus pensamentos infantis.
Mas eis que o cordeirinho mais querido, o benjamim, ciumento dessa desatenção, vem correndo num galope desajeitado.
- " Dize-nos, Bernadette, por que é que preferes esse, que a nós nos parece igual aos demais?
- " É porque é o mais pequeno e eu gosto de tudo o que é pequeno ". Recomeça a brincadeira. Bernadette provoca o cordeirinho com a chibata: este ergue-se nas patas trazeiras com a testa para a frente. Bernadette dá-lhe um empurrão soltando uma gargalhada. Renova-se o ataque; desta feita o cordeiro, à fula, investe contra o altar e o desmancha.
Lá vai perdido todo o paciente trabalho.
" Eu não o castigava, confessará mais tarde a menina evocando as recordações de Bartrés. Não só isto, mas ainda eu lhe dava de comer na mão pão e sal de que gostava tanto! "
Na hora solar, que lhe é muito familiar, Bernadette levanta-se e com um gesticulado da chibata dá o sinal do regresso. Pegu fica alertado; rodeia e tange o rebanho. A menina vai à testa do cortejo e reconduz seu povinho ao curral. Ainda alguns beijos no focinho rosado do cordeirinho preferido, umas carícias aqui e acolá, pois Bernadette é menina meiga, e a porta fica fechada com cadeia e cadeado.
27 de novembro de 2021
A Humilde Santa Bernadette - Colette Yver
1857
É a saída do catecismo. As meninas com seu capuzinho, num sussurro de tagarelices e de tamancos, descem pela estrada abaixo ao voltarem da igreja situada num morrinho. Uma delas, comportada e séria, moreninha mal aparentando dez anos, de grandes olhos negros, imperscrutáveis, maçãs salientes, boca largamente rasgada, apressa-se sozinha em demanda daquele casario branco, lá no fim da segunda esquina, que assim fica fronteira ao presbitério. O jovem cura, Padre Ader, atalhou pelo cemitério, tomando-lhe a dianteira. Ei-lo em casa à janela da sala de jantar, quando a menina passa pela estrada. Chama a empregada (que provavelmente punha a mesa).
- "Olhe para esta menina. Quando a Virgem SSma. se digna mostrar-se na terra, deve escolher crianças que se pareçam com esta".
* *
Treze anos antes, tinha aparecido a Mãe de Jesus no monte sobranceiro de oitocentos metros à aldeia já muito alta de La Salette. Lá, num local, cercado formidavelmente por montanhas despidas de árvores, mal verdejantes de grama rala, paisagem lunar de serenidade inalterável com suas linhas harmônicas, onde não se enxerga ponta alguma de rochedo, a Virgem Maria escolhera, para a eles se manifestar, dois pastorinhos cujos carneiros tosavam o capim nos alcantis da serra. Chamavam-se Maximino e Melânia. Ela os abençoara. Falara-lhes dos pecadores. Chorara, com o rosto nas lindas mãos, ao pensar naquelas multidões que se não valem dos dons de Deus e pelo contrário ofendem seu Criador.
Confiou-lhes um segredo e fizera brotar água de uma nascente que sempre secava no verão e desde então nunca deixou de correr. Viram-na depois, trajada de vestido bizantino, com largas mangas, toucada de coifa do mesmo estilo a formar-lhe um diadema, viram-na subir voando para o céu de anil.
O Padre Ader, sacerdote místico, que no findar aquele ano havia de ingressar num mosteiro, ficara muito comovido com aquela bela história de La Salette. Os prantos de Maria, a sua tristeza, seu amor aos pobres pecadores a transparecer nas frases relativas à sua tarefa tão pesada de medianeira, todas essas recordações patéticas preocupavam-lhe certamente o espírito.
Mas que havia, no rostinho da criança que passava, para se fazer, quase instantaneamente, no espírito do Padre Ader, aquele cotejamento?
Chamava-se a menina Maria Bernarda e, mais familiarmente, Bernadette Soubirous. Fazia de criadinha, no verão, em casa de sua antiga ama, Maria Aravant, senhora Lagües, isto é, vinha durante os mais belos meses, sem salário, só pela comida, tomar conta do lindo rebanho de carneiros e cordeiros da granja Lagües, fronteira ao presbitério, na segunda volta do caminho.
Bernadette não era de Bartrés. Seus pais, outrora moleiros em Lourdes, tinham passado mal nos negócios e agora moravam na parte mais alta da cidade, na rua das Valetas (Petits Fossés). Ali viviam
apertados com seus quatro filhos, num pardieiro da sala única, por uma só janela iluminada, no rés do chão da antiga cadeia denominada ainda hoje o calabouço. O dono daquele imóvel, André Sajou, primo dos Soubirous. deixava-lhes por serem incapazes de pagar aluguel, o uso daquela miserável morada.
O pai e a mãe ganhavam o sustento trabalhando a jornal nos campos da cercania de Lourdes.
26 de novembro de 2021
A Humilde Santa Bernadette - Colette Yver
CAP1TULO II
A INFÂNCIA
É Bartrés (1) uma aldeazita situada ao norte de Lourdes, a meia légua da cidade.
Na cumeeira do morro bastante elevado, verdejante e arborizado, de aspecto vicejante como as pradarias bigorrenses, à beira da encosta de Leste, Bartrés está assentada no côncavo de uma dobra do chão, como no porão de comprido barco, entre duas ladeiras relvosas remontadas de carvalhais.
A estrada de Lourdes passa por ela fazendo uma espiral inclinada...
Não se pense num grande povoado, não. Só poucas casas de camponêses, esparsas à direita e à esquerda
sem nenhum plano. Igreja boa, bem restaurada.
Caminhos que qualquer chuva torna medonhamente lamacentos, como todos os fundos de bacia.
Trezentos moradores.
Nas beiras deste profundo valezinho, rebanhos atarefados com os focinhos no capim, vacas das charnecas, de chifres delgados, de pelo louro, vaquinhas bretãs malhadas de preto e branco; e sobretudo carneiros lanzudos e gordos, imóveis quais pedras de alvenaria, surgidas na sua tarefa de pastar.
Ao sul, e quão perto nos parece! surge diante de nós, a cada instante, a série de altos e baixos agigantados dos Pirineus; o Pico de Ger, a delgada agulha do Pico do Meio-Dia bigorrense e, a seguir, os cumes de Arbizon e de Nouvielle. E aqueles montes de dois ou três mil metros, tão vizinhos que aparentam vegetação, com seu dédalo de vales escuros, com suas vertentes caindo abruptas, tornam mais meiga e sorridente a aldeola de Bartrés tão molemente semi-sepultada entre duas intumescências da terra, que se alonga em linhas arredondadas.
24 de novembro de 2021
A Humilde Santa Bernadette - Colette Yver
CAPÍTULO I
O PRIMEIRO ENCONTRO COM A SANTA
Vai correndo o trem através de um parque relvoso, onde capões elegantes de árvores se sucedem de espaço a espaço. Os taboleiros de relva vêm divididos por estacadas como na Inglaterra. Lindas novilhas brancas, quais animais sagrados, ali pastam, espalhadas com quase elegância, enquanto galinhas nanicas, não menos alvas, vão dando vida ao gramado com seu amiudado bicar. A luz é de tal modo serena que permite reconhecer a zona de Loire, única faixa donde se levanta neblina bastante rala e espalhadiça para dar à natureza o suave aspecto e às cores o levíssimo filó das manhãs perpétuas. É a zona do Nivernês.
Eis agora Nevers, a cidade das religiosas, por recordação do seu passado clássico. Toda sonora devido aos sinos de seus mosteiros, lá nos aparece debruçada na sua balaustrada, no ponto em que o Loire faz um meandro dos mais majestosos.
O mosteiro de S. Gildardo, que lã no alto hospeda as Irmãs de Caridade de Nevers, desce com seus pomares o declive da cidade até os trilhos da estrada de ferro. Poder-se-ia, ao chegar, tocar com a mão
no paredão que o cerca, na sua esquina. É um ângulo de paredão como se vê em qualquer quJntal fechado. Não se apresenta murado como uma fortaleza.
O muro é comum e nada tem de feroz. Não podemos, todavia, ver o que se oculta, por detrás dêle, ai nêsse recanto de jardim monacal. Mas em dado momento da nossa romaria voltaremos a divisar o que ali se dá. Entretanto, já, desde o trem, cumpre saber que êsse recanto de ângulo encerra um J)2queno oratório e que um nicho aí abriga uma antiga e linda estátua da ·Virgem, tôda alva, de sorriso enigmático e meigo e de braços ternamente acolhedores: é Nossa Senhora das Aguas. Eis, sumàriamente, o mistério todo contido naquela extremidade de cêrca e invisível para os viajantes do trem. O mistério, entretanto, é maior do que se pensa .
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Vamos, neste entrementes, visitar à capela que lá no alto campeia, desde o limiar meio engastada dentro do quadrilátero grandioso das construções, donde apenas sobressai a delgada ábside. Capela de estilo gótico com duas naves laterais, mais ampla que a média das igrejas aldeãs e que nos impressiona com um céu sereno.
Por ela vão e vêm, sempre um pouco aterafadas como mulheres de muita lida, mas conservando aquêle passo ligeiro e suave das jovens religiosas a deslisar, as Irmãs do mosteiro, trajadas de preto. com o rosto estreitamente moldurado por uma ogiva de linho branco, que, debaixo do manto, se divide em duas tiras a caírem pelo peito.
Prece rápida, o serviço de caridade as reclama.
E aqui está uma delas, dormindo num esquife de cristal e ouro, erguido na capela de Maria, no fim da galeria reta.
Num colchão de setim branco, deitada a pequenina, seus pezinhos mal chegam com as meias pretas,
a sair fora das fartas dobras do hábito monacal; levemente voltada para a esquerda, seu rosto ao qual um banho de cera restituiu o frescor e feições de mocinha, pende para o ombro: d ir-se-ia que a vemos respirar com ritmo debilitado pelo sono que lhe deixa sossegadas as mãos postas, também
elas ungidas com pálida cera.
Meu Deus! eis portanto, aqui cerrados e selados com cera aqueles olhos que se enlevaram na beleza da Virgem! Eis aqui, hoje vendados e fechados aqueles ouvidos que lhe escutaram a voz! Esta é a boca que a saudou com Ave-Marias tão puras como a do Anjo. Estas as mãozinhas que se erguiam alvoroçadas para a Senhora celeste através de chama impotente. Este é o pé que ela despia da meia à beira do córrego no instante em que a eminência da Aparição desencadeava, para ela, na natureza, um ruído de temporal - sinal que a levou totalmente para a Gruta de repente luminosa!
Este é o corpo virginal que foi todo dor de expiação por amor daqueles coitados que de vós escapam nesta terra, ó meu Deus! Esta é a pastorita da encantadora aldeia de Bartrés. A pobre menina do casebre da rua das Valetas em Lourdes. A pensionista do mosteiro pirenaico, aonde iam desde os confins da terra para dela implorar uma audiência.
Esta a postulante que, para deixar a terra natal e a mãe, tanto sofreu que ficou insensível. Esta a religiosa de Nevers de quem se dizia: " É uma religiosa como as demais", mas que guardava sob a bela
fronte teimosa os três. segredos do céu. Aqui está aquela que viveu a sua vida encantada por ter entrevisto na manifestação da Mãe de Jesus a Beleza do Além. Esta é a Santa novinha que o Santo Padre, após prolongado processo, oferece qual guia aos que militam na Igreja de Cristo, qual medianeira para suas preces, qual modelo para sua boa vontade, qual heroína das virtudes para os garimpeiros da perfeição.
Já as relíquias dela nos tomam de respeito.
Parece-nos sagrado tudo quanto roçou no cristal da sua urna. Pedi que encostassem nela o estilógrafo que lhe há de descrever a vida. Sentimento não nítido, religião da lembrança, idealizamento das coisas materiais.
Quem é que não conserva piedosamente algum instrumentozinho de costura, dedal, tesoura, tear ou máquina que sua mãe outrora manejava? Ou não lhe imprime um impulso consolador?
Nossos antepassados da primitiva Igreja levavam para casa retalhos de pano embebidos no sangue dos mártires. Aquele sangue emblemático, relíquia substancial de seu sacrifício, tinha ainda o condão de comunicar a fortaleza e a graça daqueles heróis. Por isso, que veneração não inspirava imediatamente!
Assim também hoje tudo o que tocou neste despojo humano, que é da santa, parece-nos abençoado e veículo das graças que nele habitavam.
Fetichismo (dizem os incrédulos). Culto de amuleto! Sentimento de bárbaros! Mas o selvagem materializa as forças ocultas no seu talismã, e o cristão, venerando as relíquias segundo a tradição, vai, pelo contrário, espiritualizando o culto da recordação. Nele os sentidos veem e tocam um pedaço do véu da Santa. A sua fé espera encontrar ali vestígios da virtude de Deus da qual a Santa estava compenetrada.
Santa Bernadette, ajoelhados perante vossos despojos terrestres - pois o respeito e emoção fizeram-nos logo prostrar nas lajes - ó morta mais viva do que nós! - Contemplamo-vos nesse sepulcro transparente, no qual o ourives acumulou profusamente e sem medida todos os sinais e indícios da vossa glória. Impotentes como são os homens para representarem o triunfo da outra vida a vós prometido, pela Mãe de Deus, forçoso lhes é acumular aqui elementos valiosos, ornatos, florões, escudos, emblemas de vossas virtudes, evocações de vossas prerrogativas. Imagina-se até que anjos devem adejar à roda deste santo corpo, que foi tão sublime templo do Espírito Santo, altar da Eucaristia e alvo do sorriso de Maria.
Somos romeiros encantados pelo brilho da vossa glória, e encontrando-vos aqui, de repente, reconhecemo-vos, humildemente, no termo esplendoroso de vossa carreira. Quiséramos outrossim achar na Santa, cumulada hoje de honras e de vivas, a pobre rapariguinha que todos aqui neste mundo conheceram.
Tencionamos seguir vossos passos desde o tempo em que, pastorinha de oito anos, conduzíeis os cordeirinhos pelas encostas relvosas de algum morro dos Pireneus, até o dia em que, consumida pelo mal arcano, aparentemente apanágio das almas de escol, fostes morrendo aos poucos na poltrona da enfermaria, curtindo alegre aquele misterioso definhar das jovens religiosas predestinadas, sob o meigo
olhar de uma Virgem de gesso.
Desejamos palmilhar piedosamente todas vossas etapas e, mais que tudo, conhecer bem vossa alma, pois somos pobres seres humanos, muito ávidos de saberem tudo o que é do homem, e principalmente de conhecerem aqueles jorras de luz que às veles a criatura projeta ao entrar em contacto com seu Deus.
Santa Bemadette Soubirous, tomai-nos pela mão. Amém.
20 de novembro de 2021
A Humilde Santa Bernadette - Colette Yver
RAZÃO PORQUE A AUTORA ESCREVEU ESTA OBRA
É, aparentemente, simples loucura de minha parte querer nela ser teu guia, quando existem tantos, tão notáveis e incomparáveis livros sobre Bernadette.
Cite-se só os autores : Henrique Lasserre, Estrade, o Dr. Dozous, Barbet, o P. Cros, o P. Duboé, o Sr. Bertrin, e em primeiro plano a Madre de Nevers que escreveu: A Confidente da Imaculada; mais recentemente: o Cônego Belleney, Caetano Bernoville, Fernando Laudet deram-nos sucessivamente imortais retratos daquela enigmática aldeã: uns com os olhos no modelo ainda vivo; os demais à custa de escrupulosas investigações, com o fito numa critica impiedosa ou iluminados pela fina ciência psicológica.
Por mais vã, todavia, que seja a tentativa de escrever hoje um livro sobre a nova Santa francesa, pela Igreja recentemente indigitada à nossa veneração, ponho-me a caminho, humildemente, ignorando que o escritor tem sempre razões irresistíveis, às quais obedece quando lhe cumpre retratar ao vivo um ser humano, se a ele fictício num romance, ou real numa biografia.
19 de novembro de 2021
A Humilde Santa Bernadette - Colette Yver
O MILAGRE ESPIRITUAL DE LOURDES
Por isso também é que o sobrenatural tem outros meios para nos convencer além da manifestação sensível do prodígio, e eis porque o milagre espiritual permanente em Lourdes ilumina secretamente mais inteligências humanas que o milagre físico. É condão de fé mas pura o contentar-se para prova com a experiência metafísica.
Dizia Huysmans: "Não sou propenso a ver milagres; sei muito bem que a Virgem os pode fazer em Lourdes e alhures; não se baseia minha fé nem na razão, nem nas percepções mais ou menos certas de meus sentidos; depende de um sentimento interno, de certeza adquirida com provas internas".
Pode sempre o crente pesquisar diretamente a ordem divina, com o ouvido cosido à fonte inefável do Espírito. Se o portento sobrevém, fulminante, o crente atira-se de joelhos, sacudido por visão mais deslumbrante, mais sensível. Entretanto, feliz daquele que não viu e creu.
" Eu vim ao mundo para um juízo, a fim de que os que não veem vejam e os que veem fiquem cegos " .
Acautelemo-nos para não sermos do número destes e para não deixarmos de lançar mão deste andaime, que Deus nos quer dar qual esteio da nossa fé no sobrenatural, durante o largo caminhar desta nossa peregrinação.
18 de novembro de 2021
A Humilde Santa Bernadette - Colette Yver
O JUÍZO DE JESUS
Disse então Jesus: Eu vim a este mundo para um juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem fiquem cegos " (Jo. IX, 39) .
Não posso abster-me de relembrar aqui esta sentença do Salvador pronunciada após o caso do cego de nascença e cujo sentido enigmático é tão triste. Nele ressumbra o desalento ao realizar prodígios, ao dignar-se transtornar as leis eternas em prol do homem, ao dar-lhe provas com a igual, para, em troca, esbarrar nessa razão humana tergiversada, inimiga da evidência que a contraria, exigindo a apalpação do mistério para o crer, e, depois de o apalpar, dizendo displicente: "Isso não é o mistério".
Repete-se a história perpetuamente.
Aquela, é em Jerusalém que sucedeu, no sábado após a festa dos Tabernáculos. Trouxeram a Jesus um cego de nascimento que esmolava pelas ruas. Cuspiu no chão o Salvador, fez: com a saliva lodo que pôs sobre os olhos do cego, dizendo-lhe: "Vai e lava-te na fonte de Siloé "- Obedeceu incontinente o cego, e ao voltar, enxergou muito bem.
Todos o conheciam em Jerusalém, por terem-no visto esmolar em seus bairros. Entretanto o povo, ao vê-lo não podia acreditar que fosse ele, diz S. João.
"É alguém parecido com ele ", comentavam. Mas ele acudia: "Não, sou eu mesmo". Então a curiosidade os assaltou. Quiseram saber como fora curado. Sem mais, ele dizia: "Um homem chamado Jesus fez lodo, botou-mo sobre os olhos e disse-me: Vai à fonte de Siloé e lava-te. Fui, lavei-me, recobrei a vista. - Onde está aquele homem? Perguntaram os circunstantes. - Não sei, respondeu ele". (S. João, Cap. IX, vs. 11-12).
Que juízo fazer deste caso extraordinário? Cumpria levá-lo ao conhecimento dos fariseus. Conduziram-lhes, pois, o bom homem. Eles, antes de tudo, repararam em que a cura fora feita num sábado, dia de descanso. Novo interrogatório do milagrado:
Como é que se deu aquilo? - Pôs-me lodo sobre os olhos, fui lavar-me e enxerguei". Nisto os fariseus entraram a deliberar (vs. 16-17). "Esse homem não é enviado de Deus, pois não guarda o descanso do sábado. - Sim, mas como é que um pecador poderia fazer semelhantes prodígios? " - E iam discutindo com aspereza. Quiseram fazer passar por novo interrogatório o que fora cego, saber que conceito, na sua simpleza, fazia do taumaturgo.
Lisonjeado sem dúvida por se ver feito árbitro, o mendigo afirmou: "É um profeta!"
Os judeus, prossegue S. João, não quiseram crer que aquele homem fora cego e que recuperara a vista. Por isso mandaram chamar o pai e a mãe dele. Perguntaram-lhes: "É este vosso filho que dizeis ter nascido cego? Como é que agora vê? "
Responderam os pais: "Nós sabemos que ele é realmente nosso filho e que nasceu cego; mas como é que agora enxerga, isso nós ignoramos; quem lhe abriu os olhos não o sabemos. Interrogai-o vós mesmos: Tem idade. Responda acerca do que lhe concerne".
Assim falaram os pais, acrescenta o Evangelista, porque tinham medo dos judeus.
Estes mandam outra vez procurar o mendigo, para dirigir-lhe novas perguntas. Mas ele responde sempre da mesma forma: "Só sei isto, que eu era cego e agora vejo. Já vo-lo disse. Por que quereis ouvi-lo mais vezes? Acaso quereis tornar-vos discípulos daquele homem? "Esta frase fez com que os fariseus o cobrissem de impropérios. Eles eram discípulos de Moisés. Esse aí não sabiam donde era. - "É estranho que não saibais donde ele é. Entretanto abriu-me os olhos. Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos de um cego de nascença".
Os fariseus mandaram-no calar.
- " Tu nasceste todo no pecado e nos queres ensinar?"
E expulsaram-no. (Idem, v. 34) .
. . ..
Não mudou a humanidade. Continua dizendo como os escribas e fariseus: "Mestre, queremos ver um prodígio vosso. (Mt. XII, 32). E quanto mais ela estremece de afã e curiosidade perante o sobrenatural, tanto menos este, quando lhe roça os sentidos, parece mover-lhe a alma. Dir-se-ia que o milagre é uma concessão feita a contragosto dos homens por Deus cansado da leviandade deles e muito inteirado de que esses negadores pertinazes sempre reclamarão a prova da prova.
Por isso é que Jesus dizia aos judeus: "Se fôsseis cegos, não terieis pecado; mas agora que dizeis: Nós vemos, vosso pecado fica". (João, IX, 42).
17 de novembro de 2021
A Humilde Santa Bernadette - Colette Yver
A HIPNOSE MÍSTICA DAS TURBAS
Mas, dirá alguém, então não conhecem a hipnose mística das multidões?
Respondemos: meditem-se os seguintes casos.
O conhecidíssimo belga, De Rudder, de quem se fala ainda Europa a fora, cuja perna esmagada pela queda de uma árvore desajeitadamente derribada sobre ele, guardara durante oito anos dupla fratura da tíbia e do perônio, com falta de parte do osso que fora extrair, mais uma chaga constantemente ulcerada - ficou num segundo, "como de um tiro de espingarda" (a expressão é dele) curado, sem ficar vestígio algum do seu coxear, não em Lourdes, mas sim em Ovstackers, perto de Gand, diante de uma imitação da Gruta de Lourdes, onde vinham romeiros. Foi curado enquanto sossegadamente rogava a Deus lhe perdoasse os pecados e lhe desse jeito ao menos para ganhar o sustento.
Vion Dury, cego, havia já sete anos, pelo deslocamento das duas retinas, sarou em 1890, aplicando-lhe água de Lourdes no hospital do Confort, junto de Bellegarde (Ain).
Catarina Lapeyre acometida de horroroso câncer na língua que lhe pendia da boca, ficou boa, radicalmente
e sem recaída, após uma novena de preces a Nossa Senhora de Lourdes, rezada em seu quarto, na rua Sant'Ana, n. 2, em Tolosa, no ano 1889.
E tantos outros prodígios operados por Lourdes, mas em lugares afastados e que não posso citar embora
sejam às vezes dos mais deslumbrantes.
16 de novembro de 2021
A Humilde Santa Bernadette - Colette Yver
MODO DE PENSAR DO DR. BERNHEIM
Além disto, saibam essas pessoas que não é tão fácil quanto se julga curar pelo hipnotismo e pela sugestão. A psicoterapia é uma ciência. Conhece e demarca ela própria seus limites. Determinou-se pela pena de um dos seus maiores professores, o Dr. Bernheim, chefe da célebre Escola de Nancy. Eu aqui o cito, servindo-me do livro que todos deveriam conhecer: "História Crítica de Lourdes", de Jorge Bertrin, doutor em Direito, agregado à Universidade (de Bruxelas 1931).
Eis uns trechos por ele tomados de empréstimo ao mestre da psicoterapia: "A sugestão é uma terapêutica quase exclusivamente funcional. Se consegue restabelecer as funções perturbadas, que chega a curar os órgãos doentes . . . A sugestão não pode recolocar um membro deslocado, descongestionar uma articulação inchada pelo reumatismo, nem refazer a substância cerebral destruída. Não se sugestiona tampouco aos tubérculos que desaparecem. A sugestão não pode restaurar o que está destruído".
E se, deixando de parte o organismo, nos limitarmos à função: "É forçoso confessá-lo, os resultados obtidos pela sugestão são transitórios. Pode a sugestão restabelecer a função enquanto esta não tiver sido suprimida de todo pela lesão, enquanto a perturbação daquela for só dinâmica; pois a sugestão não suspende a evolução orgânica da doença". (Bernheim, Hipnotismo, Sugestão, Psicoterapia, Paris 1903, págs. 320-350).
14 de novembro de 2021
A Humilde Santa Bernadette - Colette Yver
AS CURAS
Que o sobrenatural, no caso de Bernadette, tem sua garantia na multiplicidade daquelas curas que, faz já mais de três quartos de século, trazem à medicina desnorteada e autenticam a manifestação da Virgem; isto não se diga aos obstinados materialistas, que continuam asseverando que "tudo é sempre natural".
Verdade é que em outras religiões diversas do catolicismo se dão fatos que parecem maravilhosos, e também curandeiros e médicos curam por meio da psicoterapia. Mas de que modo esses fatos, suposto que sejam reais e ultrapassem deveras as forças naturais, provam que as curas de Lourdes não são devidas à bondade da Mãe de Cristo?
Não pretende a religião católica proibir a Deus o querer bem àqueles que o procuram em outras confissões diferentes da nossa, nem o manifestar-se a eles por curas insólitas, recompensas da fé sincera.
Ainda bem para os materialistas: acharam o segredo das misteriosas curas de Lourdes.
Esse segredo é a sugestão.
Os doentes em Lourdes vão sendo curados por sugestão. É a palavra em voga. Todos os incrédulos a repetem a boca cheia, a tal ponto que, para muitas pessoas só as paralisias de origem nervosa e não orgânica obedecem ao poder das águas de Lourdes ou do que vem chamado hipnose mística. A dar-lhes crédito, não haveria outros milagres fora dos dessa categoria.
Para tais pessoas seria desejável que se pudessem informar lendo alguns documentos positivos acerca dos fatos que elas julgam com tanta desenvoltura; ler por exemplo os autos do "Bureau des Constatations Médicales " de Lourdes, onde se encontram não menos médicos incrédulos que crentes.
Ali se lhes deparariam, entre outros casos de curas, centenas de tuberculose pulmonar com cavidades (devidamente averiguadas pela radiografia), de tuberculose óssea com cárie das vértebras ( mal de Pott), de colxagia tuberculosa, de lúpus tuberculoso, etc.
Centenas outrossim de casos de câncer: cânceres de superfície ou orgânicas; lúpus cancerosos, úlceras dos membros, etc. Centenas de curas de surdez, de meia surdez, de cegueira. Em geral, cicatrização instantânea das chagas, restauração imediata dos tecidos da célula orgânica, dos ossos.
13 de novembro de 2021
A Humilde Santa Bernadette - Colette Yver
EPISÓDIO COMPROVADOR
A evidente integridade mental de Bernadette unida à sua sinceridade, bem como a misteriosa perspicácia e harmonia com que se realizam as aparições, põem o cunho do sobrenatural nos fatos de Lourdes.
Um rico romano, Rafael Gennasi, sobrinho do Papa, viera no ano das aparições e, cético, lhe armava ciladas nos seus interrogatórios: " Eu lhe digo que não viu a Virgem. Aliás, como podia vê-la? "
Mas a menina, que naquela quadra mal começava a falar francês, lançou-lhe de repente, espontânea e direta como sempre, e não sem impaciência, esta réplica:
- Eu a vi com estes meus olhos.
Narra-nos este episódio uma testemunha ocular, o Dr. Dozous, médico do lugar, na sua obra: A Gente de Lourdes. A ele dirigira-se o Sr. Rafael Gennasi, ao chegar, para travar relações com Bernadette.
Pinta-nos seguidamente o clínico de que modo aquele senhor granfino, vindo para desvendar possíveis artimanhas, ficou estatelado pela menina.
***
Esse colóquio entre a camponesinha e o nobre estrangeiro encerra, num como medalhão empolgante, as duas compreensões eternamente antagonistas, a do racional e a do sobrenatural. E é porque ambas se defrontam aqui, embora quase num relâmpago, que eu as coloco no limiar deste livro.
É também por causa daquela nota de verdade segura, lançada nesta ocasião por Bernadette.
Seu eco vibra ainda em nossos preitos, e é fiador neste bradozinho de criança que o leitor e eu havemos de dar começo a nosso peregrinar.
No decorrer desta peregrinação, que encetamos, teremos que estar sempre em leve contato com o mundo invisível.
Mas depararemos com muitas provas da sua existência. Amiúdo o inexplicável que nos sobressaltar será uma confirmação para nós, tanto a inexplicável moral quanto o inexplicável físico. Entretanto ambos são realidades.
Assim para exemplificarmos, impossível era para a ignorante Bernadette imaginar as palavras de todo inesperadas que a Visão pronunciou; o que ela, entretanto, teria que fazer se a Visão fosse um fenômeno
subjetivo, uma ilusão criada pelos sentidos da menina.
Outro fato maravilhoso também inexplicável é o seguinte: Bernadette era de índole fraquíssima, incapaz de esconder coisa alguma à mãe; na tarde da primeira aparição tinha jurado consigo que nada lhe diria; todavia ainda não chegara a noite que já toda a gente em torno da menina sabia o que ela vira. No entanto, durante vinte e um anos, soube a mesma Bernadette guardar o mais absoluto sigilo acerca dos três segredos a ela confiados pela Senhora. E de certo não foi porque faltaram os indiscretos a rodeá-la, nem as armadilhas para obrigá-la a falar deles. Nossa própria curiosidade, passados já setenta e cinco anos, ainda se alvoroça e nos tenta. Mas ninguém pôde sequer conjeturar a natureza do assunto a que aquelas confidências se relacionavam. Bernadette as sepultou consigo. Há nisto uma experiência psicológica que não é só aspecto de um temperamento excepcional. É o que me pareceu humanamente, menos explicável em Bernadette.
Como pode ser? Nem alusão que ponha na pista dos três segredos? nem alguma expressão reticente? nem alguma palavra velada? Não; antes, só mutismo de estadista, de profeta poderoso, naquela menina brincalhona e travêssa.
E, se não sairmos do plano terrestre e humano, inexplicável também será aquela sombria miséria em que voluntariamente se confinou a família Soubirous no pardieiro da rua das Valetas (PetitsFossés), depois das aparições; pois então cada dia havia visitantes que lhe ofereciam bolsas pejadas de ouro, como era em voga naquela época, bolsas sempre repelidas pelo pai, pela mãe, pelos filhos com dignidade de reis; sistematicamente com misteriosa obstinação, sem que jamais se lhes pegasse aos dedos alguma daquelas moedas de ouro.
Quem poderá dar uma explicação natural de tal procedimento?
* *
Fenômenos físicos sem explicação natural: a fonte da Gruta. Chegaremos em seu tempo àquele episódio, no qual os dedinhos de uma menina mirrada foram vistos esgaravatar a terra penosamente uns centímetros e permitirem assim o forte olho d'água, torrente subterrânea, que talvez desde milênios se diluía no solo em múltiplas direções, jorrar quase repentinamente, por um só orifício, canalizar-se por si própria, domesticar-se de certo modo para dar doravante, já faz setenta e cinco anos, sua prodigiosa vazão regular de mais de cento e vinte mil litros diários.
E quem era naturalmente mais forte? O peso dessas águas descidas dos Pireneus e que jamais até aquela hora puderam fazer saltar seu tampo de rochedos e pedras, ou os dez dedos de Bernadette a cavarem um buraquinho - o termo é do Dr. Dozous, vindo para visitar a Gruta imediatamente após a aparição daquele dia, à qual estivera assistindo estupefato - buraquinho por onde as águas, dóceis, ajuntando-se jorraram logo num só jacto! . . .
Nunca, desde então, houve quem desse uma explicação natural daquele fato, mesmo lançando mão das "forças ainda desconhecidas ", às quais se recorre para atribuir a causa científica - em vez de causa sobrenatural - as curas de Lourdes.
12 de novembro de 2021
A Humilde Santa Bernadette - Colette Yver
OS SUBTERFÚGIOS DOS DESCRENTES
Todos os incapazes de suspeitarem a existência daquele mundo celeste, obrigados, julgam eles, pela sua razão a negá-lo, têm por isso que procurar causas meramente naturais às quais possam atribuir os fenômenos donde Lourdes, mediante Bemadette, veio a ser o que é hoje.
As primeiras dessas causas aventadas foram impostura e simulação por parte de Bernadette.
Delas não falarei: eram coisa ridícula em se tratando de uma menina tão singela, e por isso ninguém ligou importância a tal explicação.
Outra causa muito mais verossímil à primeira vista (e confesso ter-me ela, durante largo tempo, trazido o espírito como que obsedado, enquanto não estudei os fatos) era ilusão, da qual teria sido vítima a Vidente, por estar influenciada com alucinações sensoriais. É aliás a única de que podem lançar mão os que não crêem que a Mãe de Cristo se tenha mostrado sensivelmente a Bernadette (e entre eles pode haver muitos católicos, visto que o fato das aparições não constitui um dogma. Prensados entre suas duas convicções, isto é, que por uma parte Bernadette julgou ver, e por outra, que ela não podia ver, não lhes fica outra saída senão a de se valerem daquele estado mórbido bem conhecido dos neurólogos.
Vêem e ouvem os alucinados distintamente imagens e sons inexistentes. Tenho assistido e velado uma amiga alucinada. Afirmou-me ela que os vizinhos do andar superior lhe filmavam de contínuo a vida mediante luz especial capaz de atravessar corpos opacos e cujo clarão, à noite, ela via nitidamente segui-la de um quarto para outro do seu apartamento.
Percebia juntamente o ruído dos passos deles que, de lá de cima, lhe acompanhavam as idas e vindas de alvoroçada. Estava eu junto dela. Não havia, já se entende, nem luz nem sonido: silêncio total, escuridão completa.
A especialidade das sensações nessas pessoas é o absurdo. Minha doente, esquecendo acaso que os indiscretos moravam no andar superior, alojava-os no andar correspondente ao dela, do outro lado do pátio, donde, a dar-lhe crédito, a tramoia deles era a mesma.
Na casa de saúde em que depois a trataram, apontou-me esta ou aquela pessoa que ela ouvira claramente afirmar às escâncaras, fatos infamantes da vida passada dela, vida que fora a mesma pureza.
Garanto que aquelas pessoas eram incapazes de tais calúnias. Mas o Dr. F. neurologista muito conhecido que dela cuidava, capacitou-me de que esses ditos tinham sido percebidos pela doente tão nitidamente como se foram realmente proferidos.
Um ano mais tarde, minha infeliz amiga, que durante vinte anos me mostrara o mais terno afeto, morria persuadida e sentida de que eu, durante a sua permanência naquele estabelecimento lhe havia arrombado e saqueado o apartamento.
Não falo senão de um caso de alucinação do qual fui testemunha. Mas sei que a incoerência, desordem
e insânia, que nele notei, são constantes em todos os fenômenos desse estado, que não é a loucura, a ela porém, as mais das vezes leva.
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Acabo de viver intensamente, através dos lugares e dos livros, os trinta e cinco anos que Bernadette passou na terra. Não havia cérebro mais sadio, nem existiu nunca bom senso de camponês mais forte que o dela. É uma amostra típica daquela sabedoria de mulher lídima e segura, que em algumas jamais desacerta. Sua vida breve, que iremos acompanhando, é um edifício perfeito quanto à harmonia e ao equilíbrio. Será nisto que se manifestam as nevrosadas?
11 de novembro de 2021
A Humilde Santa Bernadette - Colette Yver
ABRINDO CAMINHO
Se tais fossem as obras de Deus que facilmente coubessem nos conceitos do homem, por que então chamá-las de maravilhosas de inefáveis? (Imitação L. IV, cap. 18) .
Prezado leitor, ao tomares este livro, não te fies na profissão de romancista que a Autora vive, não esperes encontrar nele uma fantasia literária e subjetiva sobre o caso realmente encantador da pastorinha dos Pireneus bigortenses; na sua leitura não prelibarás uma história romanceada, exploração agradável de lenda sem base, na qual se forceja meramente por tirar da ilusão alguma tesezinha de filosofia humana.
Quem procurar isso, não vá além destas páginas preliminares. Se não admites haver uma ordem superior aos nossos sentidos e que avassala o curso natural de nossa existência terrena; se não reconheces que os conhecimentos humanos são limitados, não se te pode contar a história autêntica de Bernadette. Excluído o sobrenatural, aquela vida não tem interesse algum, nem sequer patológico; pois os achaques de que sofria a menina, isto é, a asma e a tuberculose, não explicam suas visões.
Cumpre, portanto, admitir o sobrenatural, se quisermos compreender o papel, naturalmente inexplicável, desempenhado por aquela camponesinha.
Não sei o que haja em nossas pastorinhas da França, nem que eco o Infinito depara em suas almas puras e sadias; mas se, como a Joana d'Arc, sua irmã na história e a ela muito parecida em sua fisionomia moral, também a Bernadette se sonegar o milagre a ambas concedido, esta escapará à compreensão.
Esse milagre é aquela comunicação sensível que uma e outra teve com o mundo, ao qual nós, com nossa impotência em defini-lo, chamamos de celestial.
Esta tradução feita por alguém que quer ficar anônimo, foi revista, analisada e anotada pelo P. E. F. S. I. (Nota dos Editores)
10 de novembro de 2021
A Humilde Santa Bernadette - Colette Yver
PREFÁCIO
Há pouco, no dia 8 de dezembro de 1954, na Cidade Eterna, na Roma imortal, o Sumo Pontífice Pio XII encerrava solenemente o Ano Marial, que ele anunciara e proclamara a 8 de setembro de 1953, pela memorável encíclica Fulgens corona.
Era a comemoração que se fazia em todo o mundo católico do primeiro centenário da definição do dogma da Imaculada Conceição de Maria Santíssima, que Pio IX assim proclamava: Definimos que é revelada por Deus e deve ser crida firme e constantemente pelos fiéis a doutrina que afirma ter sido a Beatíssima Virgem Maria imune de toda a mancha de pecado original, desde o primeiro instante de sua conceição, por singular privilégio de Deus onipotente, em vista dos méritos de Cristo Salvador do gênero humano. Foi o ano de 1954 um ano de bênçãos, de graças abundantíssimas e foi também de imensa consolação para a inumerável multidão de sofredores, desta mísera geração, surgida entre duas guerras cruéis de extermínio.
Dentro de poucos anos se aprestará a Igreja para outra comemoração centenária, intimamente vinculada à que nos referimos acima - o centenário das aparições de Nossa Senhora de Lourdes, na última das quais a Santíssima Virgem a si mesma se identificou, declarando: Eu sou a Imaculada Conceição.
Camponesa pobre e humilde, cândida, mas inamolgável, de fé simples, mas ardente e firme, foi Bernadette a escolhida pela Virgem Maria para as confidências do seu materno coração e para confirmar a verdade poucos anos antes solenemente definida pela suprema autoridade na Igreja - a Sua
Imaculada Conceição.
A ilimitada confiança de Bernadette na Mãe de Deus evidencia-se nestas palavras que ao Santo Padre Pio IX escrevia, pouco depois: " Quando rezo pelas intenções de Vossa Santidade, tenho a impressão de que a Santíssima Virgem deve muitas vezes lançar seu olhar materno para a pessoa de Vossa Santidade, que a proclamou Imaculada. Quero crer que é Vossa Santidade particularmente querido desta boa Mãe, porque, quatro anos depois, Ela mesma veio à Terra para declarar: Eu sou a Imaculada Conceição. Eu não sabia então o que significavam tais palavras. Depois, refletindo, muitas vezes eu me disse a mim mesma : " Quanto é boa a Santíssima Virgem! Dir-se-ia que veio Ela confirmar a palavra do Santo Padre! "
É porque se quer tributar filial homenagem à Mãe de Deus e honrar à sua privilegiada vidente - Santa Bernadette - que se publicam estas páginas em vernáculo, visando a que se torne mais conhecida entre o nosso bom povo.
Mira também a estimular a generosidade dos fiéis em beneficio do templo votivo construído em honra da Vidente de Lourdes, na periferia da Capital e cujas obras estão chegando a bom termo.
Tem sua história a igreja de Santa Bernadette da Vila I. V. G. Quem traça estas linhas estava certo dia no início do ano de 1951 em seu gabinete de trabalho na Cúria Metropolitana de São Paulo, quando foi visitado pelo sr. Geraldo Marcondes, naquela data diretor-gerente da Imobiliária Vaz Guimarães, o qual, tendo conhecimento da existência da Obra Arquidiocesana das Novas Paróquias, cujo fim é traçar o planejamento e elaborar estudos para a construção de novas matrizes, igrejas e capelas nos bairros da Capital, vinha doar à Mitra Arquidiocesana uma espaçosa área de cerca de 1.500 metros quadrados para a igreja e a escola da nova povoação que se estava então formando.
Desejava saber qual seria o orago ou titular do novo templo que seria ali construído. Ora, poucos dias antes dessa visita, uma devota de Santa Bernadette, a veneranda Irmã Maria Inácia, da Congregação das Irmãs de São Vicente de Paulo, tinha oferecido à Cúria uma bela imagem de Santa Bernadette para uma das projetadas novas igrejas. Foi então sugerido ao generoso doador do mencionado terreno que poderia ser Santa Bernadette o titular da nova igreja, o que foi logo aceito pelo referido senhor.
Foram as obras postas em andamento com entusiasmo e auxiliadas pelo generoso óbolo do bom povo daquela vila, confiante e esperançoso de possuir dentro de pouco tempo a sua igreja, onde pudesse cumprir facilmente os seus deveres religiosos e receber de Deus as graças e bênçãos para um viver digno e cristão.
Em 14 de novembro de 1951, teve o signatário destas linhas a consolação de benzer e entregar ao culto público o novo templo, a primeira igreja que em honra de Santa Bernadette se erguia em São Paulo e quiçá em todo o Brasil. Bendito seja Deus!
Antes de terminar, queremos consignar aqui o nosso agradecimento ao benévolo tradutor, sr. Deodato Ferreira Leite, e às Revdas. Irmãs Paulinas que se prontificaram a imprimir e distribuir esta biografia de Santa Bernadette. Digne-se a Imaculada Virgem Maria abençoar a todos os que lerem e propagarem este opúsculo, destinado a tornar mais conhecida e venerada Santa Bernadette.
São Paulo, 11 de fevereiro de 1955, festivo aniversário da Aparição de Nossa Senhora de Lourdes.
Paulo Rolim Loureiro.
Bispo Auxiliar