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13 de novembro de 2021

A Humilde Santa Bernadette - Colette Yver

EPISÓDIO COMPROVADOR

A evidente integridade mental de Bernadette unida à sua sinceridade, bem como a misteriosa perspicácia e harmonia com que se realizam as aparições, põem o cunho do sobrenatural nos fatos de Lourdes.
Um rico romano, Rafael Gennasi, sobrinho do Papa, viera no ano das aparições e, cético, lhe armava ciladas nos seus interrogatórios: " Eu lhe digo que não viu a Virgem. Aliás, como podia vê-la? "
Mas a menina, que naquela quadra mal começava a falar francês, lançou-lhe de repente, espontânea e direta como sempre, e não sem impaciência, esta réplica:
- Eu a vi com estes meus olhos.
Narra-nos este episódio uma testemunha ocular, o Dr. Dozous, médico do lugar, na sua obra: A Gente de Lourdes. A ele dirigira-se o Sr. Rafael Gennasi, ao chegar, para travar relações com Bernadette.
Pinta-nos seguidamente o clínico de que modo aquele senhor granfino, vindo para desvendar possíveis artimanhas, ficou estatelado pela menina.
***
Esse colóquio entre a camponesinha e o nobre estrangeiro encerra, num como medalhão empolgante, as duas compreensões eternamente antagonistas, a do racional e a do sobrenatural. E é porque ambas se defrontam aqui, embora quase num relâmpago, que eu as coloco no limiar deste livro.
É também por causa daquela nota de verdade segura, lançada nesta ocasião por Bernadette.
Seu eco vibra ainda em nossos preitos, e é fiador neste bradozinho de criança que o leitor e eu havemos de dar começo a nosso peregrinar.
No decorrer desta peregrinação, que encetamos, teremos que estar sempre em leve contato com o mundo invisível.
Mas depararemos com muitas provas da sua existência. Amiúdo o inexplicável que nos sobressaltar será uma confirmação para nós, tanto a inexplicável moral quanto o inexplicável físico. Entretanto ambos são realidades.
Assim para exemplificarmos, impossível era para a ignorante Bernadette imaginar as palavras de todo inesperadas que a Visão pronunciou; o que ela, entretanto, teria que fazer se a Visão fosse um fenômeno
subjetivo, uma ilusão criada pelos sentidos da menina.
Outro fato maravilhoso também inexplicável é o seguinte: Bernadette era de índole fraquíssima, incapaz de esconder coisa alguma à mãe; na tarde da primeira aparição tinha jurado consigo que nada lhe diria; todavia ainda não chegara a noite que já toda a gente em torno da menina sabia o que ela vira. No entanto, durante vinte e um anos, soube a mesma Bernadette guardar o mais absoluto sigilo acerca dos três segredos a ela confiados pela Senhora. E de certo não foi porque faltaram os indiscretos a rodeá-la, nem as armadilhas para obrigá-la a falar deles. Nossa própria curiosidade, passados já setenta e cinco anos, ainda se alvoroça e nos tenta. Mas ninguém pôde sequer conjeturar a natureza do assunto a que aquelas confidências se relacionavam. Bernadette as sepultou consigo. Há nisto uma experiência psicológica que não é só aspecto de um temperamento excepcional. É o que me pareceu humanamente, menos explicável em Bernadette.
Como pode ser? Nem alusão que ponha na pista dos três segredos? nem alguma expressão reticente? nem alguma palavra velada? Não; antes, só mutismo de estadista, de profeta poderoso, naquela menina brincalhona e travêssa.
E, se não sairmos do plano terrestre e humano, inexplicável também será aquela sombria miséria em que voluntariamente se confinou a família Soubirous no pardieiro da rua das Valetas (PetitsFossés), depois das aparições; pois então cada dia havia visitantes que lhe ofereciam bolsas pejadas de ouro, como era em voga naquela época, bolsas sempre repelidas pelo pai, pela mãe, pelos filhos com dignidade de reis; sistematicamente com misteriosa obstinação, sem que jamais se lhes pegasse aos dedos alguma daquelas moedas de ouro.
Quem poderá dar uma explicação natural de tal procedimento?
* *
Fenômenos físicos sem explicação natural: a fonte da Gruta. Chegaremos em seu tempo àquele episódio, no qual os dedinhos de uma menina mirrada foram vistos esgaravatar a terra penosamente uns centímetros e permitirem assim o forte olho d'água, torrente subterrânea, que talvez desde milênios se diluía no solo em múltiplas direções, jorrar quase repentinamente, por um só orifício, canalizar-se por si própria, domesticar-se de certo modo para dar doravante, já faz setenta e cinco anos, sua prodigiosa vazão regular de mais de cento e vinte mil litros diários.
E quem era naturalmente mais forte? O peso dessas águas descidas dos Pireneus e que jamais até aquela hora puderam fazer saltar seu tampo de rochedos e pedras, ou os dez dedos de Bernadette a cavarem um buraquinho - o termo é do Dr. Dozous, vindo para visitar a Gruta imediatamente após a aparição daquele dia, à qual estivera assistindo estupefato - buraquinho por onde as águas, dóceis, ajuntando-se jorraram logo num só jacto! . . .
Nunca, desde então, houve quem desse uma explicação natural daquele fato, mesmo lançando mão das "forças ainda desconhecidas ", às quais se recorre para atribuir a causa científica - em vez de causa sobrenatural - as curas de Lourdes.

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