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1 de abril de 2015

Essência do Santo Sacrifício da Missa - Explicação da Santa Missa 30

XXX. RESPEITO COM QUE SE DEVE ASSISTIR À SANTA MISSA

Diz o Concílio de Trento: "Se somos, forçosamente, obrigados a confessar que os fiéis não podem exercer obra mais Santa nem mais divina do que este Mistério terrível, no qual a Hóstia vivificadora, que nos reconciliou com Deus Pai, é, todos os dias, imolada pelos sacerdotes, parece bastante claro que devemos ter muito cuidado para fazer esta ação com grande pureza de coração e com a maior devoção exterior possível". Estas palavras dizem respeito tanto aos fiéis como ao celebrante.
O historiador Flávio Josefo relata que, no templo de Salomão, setecentos sacerdotes e levitas estavam ocupados, todos os dias, em imolar as vítimas, em purificá-las, em queimá-las sobre o altar, e que isto se fazia com profundo silêncio e perfeito respeito. Entretanto, estes sacrifícios eram somente símbolos do Sacrifício da Santa Missa. Com que fervor, com que silêncio e atenção devemos assistir, pois, ao sacrifício verdadeiro!
Os primeiros cristãos nos deram admiráveis exemplos a este respeito. Segundo o testemunho de S. João Crisóstomo, ao entrar na Igreja, beijavam, humildemente, o assoalho e guardavam, durante a Santa Missa, tal recolhimento que se julgava estar em lugar deserto. Era de observar o preceito da liturgia de S. Tiago: "Todos devem se conservar no silêncio, no temor, no medo e no esquecimento das coisas terrestres, quando o Rei dos reis, Nosso Senhor Jesus Cristo, vem imolar-se e dar-se em alimento aos fiéis". São Martinho conformou-se, exatamente, com esta recomendação. Nunca se sentava na igreja; de joelhos, ou em pé, orava com ar compenetrado de um santo assombro. Quando lhe perguntavam pela razão desta atitude, costumava dizer: "Como não temeria, visto que me acho em presença do Senhor?".
Como outrora a Moisés, Deus poderia ainda dizer-nos hoje: "Tirai os sapatos de vossos pés, porque o lugar onde estais é Santo". Mais santas ainda são as nossas igrejas sagradas, com tanta profusão de unções e orações, e santificações, cada dia, pela oblação do Santo Sacrifício. Caro leitor, David eleito de Deus, tremendo, aproximava-se da Arca da Aliança, e nós não tremeríamos, ao entrar na igreja, onde se acha o Santíssimo Sacramento? Não nos esqueçamos da severa advertência do Senhor: "Tremei diante de meu santuário" e da exclamação de Jacó: "Quanto é terrível este lugar! É, verdadeiramente, a casa de Deus e a porta dos céus" (Gen. 28, 17).
À vista disto, que pensar dos cristãos que se comportam, na igreja e durante a Santa Missa, como se estivessem na rua, ou em casa? Os Anjos adoram, tremendo e prostrados, a divina Majestade, e entre os assistentes há cristãos que lançam, aqui e acolá, olhares curiosos e provocadores; ocupam-se das pessoas presentes, pensam nos negócios do mundo, nas suas vaidades, falam sem pudor em coisas inúteis, talvez, más, semelhantes aos vendedores no templo que "faziam da casa de oração uma casa de ladrões". As nossas igrejas são mais que uma casa de oração: são a casa de Deus, habitada por Jesus Cristo, dia e noite.
Ora, se o próprio Jesus expulsou, a chicote, os profanadores do templo, como tratará estes cristãos audaciosos?
Dizes: "É mister responder a quem interroga". - Não é proibido responder a uma pergunta útil nem dizer uma palavra necessária; é proibido, conversar coisas inúteis, fazer observações sobre o próximo, saudar-se mutuamente, como se estivesse na rua, e outras coisas semelhantes que impedem seguir, atentamente, a Santa Missa. Jesus Cristo nos preveniu: "Os homens darão conta, no dia do Juízo, de toda palavra ociosa" (Mt. 12, 36). Ora, haverá palavras mais inúteis do que as proferidas durante o tremendo Mistério do Altar?
São Crisóstomo opina que os que falam e riem, durante a Santa Missa, merecem ser fulminados na Igreja. Com esta ameaça, o santo Doutor aponta também os que, por direito e dever, deveriam impedir as irreverências: os pais que não repreendem nem corrigem os filhos dissipados; os mestres e amos que não vigiam a atitude de seus alunos e criados.
Testemunhamos ainda nosso respeito, assistindo à Santa Missa, de joelhos. São Paulo nos convida, quando diz que, "ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e nos infernos" (Fl. 2, 10). Com mais razão ainda, devemos guardar esta atitude durante a presença real do divino Salvador, isto é, desde a elevação até a Comunhão. Muitas pessoas, homens sobretudo, têm o mau costume de ficar em pé durante toda Missa; apenas inclinam-se à consagração para levantar-se logo depois, como se Jesus não estivesse presente. Quem não puder permanecer de joelhos durante toda a Missa, poderia ficar em pé até o momento da consagração e depois da Comunhão. A presença real de Nosso Senhor torna também inconveniente o costume de muitas pessoas de sentarem-se, sem motivo de força maior, imediatamente depois da elevação. Se estivessem na presença dos grandes da terra, em alguma reunião mundana, a força não lhes faltaria, mesmo para tomar atitudes muito mais penosas do que a de estar de joelhos!
A piedosa imperatriz Leonor, esposa de Leopoldo I, assistia sempre, de joelhos, à Santa Missa. Quando lhe aconselhavam poupar a saúde e servir-se duma cadeira de braços, dizia: "Todos se inclinam diante de mim, pobre pecadora, ninguém de minha corte ousaria sentar-se em minha presença, e teria eu a coragem de faze-lo em presença de meu Deus e Criador?"
Aconselharíamos, de boa vontade, às mães, que não trouxessem à Missa os pequenitos que, com os choros, poderiam perturbar o silêncio e incomodar o sacerdote no altar: quanto aos que estão bastante crescidos para aí ficarem quietos, é muito bom conduzí-los.
Terminando, reprovamos ainda outro deplorável abuso: o das senhoras e moças que vão à Missa vestidas à última moda, às vezes bastante indecente para lugar tão santo. Estas pessoas não medem a imensa dívida que contraem para com Deus. Jesus Cristo, do alto da cruz, parece dizer-lhes: "Vê, minha filha, estou atado a este lenho, inundado de sangue, coberto de chagas, para pagar o escândalo de teus trajos inconvenientes. Tu, por ironia cruel, apareces aqui ostentando a elegância; não te envergonhas de mostrar-te a meus fiéis? Toma cuidado para que teu luxo e tua vaidade não te lancem ao fogo do inferno!"
A garridice, o luxo é como um archote que acende desejos ilícitos até no coração dos justos; que fogo não acenderá nos levianos e impuros! As pessoas adornadas com tanto cuidado são sempre perigosas: desviam do altar a atenção dos homens e são a causa de distrações e pensamentos criminosos. Quem prepara o veneno comete um pecado mortal, mesmo que não o tome aquele a quem é destinado; o mesmo acontece com estas pessoas: pecam pelo único fato de expor os outros à tentação. Sua falta é ainda mais escandalosa, quando assim se apresentam na Santa Missa. Como responderão por suas vítimas no dia do Juízo? Acrescenta a isso que são uma ocasião de pecado para outras senhoras, a quem servem de figurinos de imitação.
Terminamos, caro leitor, com uma súplica: [...] lê e relê com atenção. Teu amor para o divino Sacrifício e a Santa Comunhão crescerão, porque, de mais a mais, compreenderás a excelência da Santa Missa, e o tesouro imenso que lucras, assistindo a ela fielmente. Será, porém, na hora da morte, principalmente, que experimentarás quanto o Senhor é bom para os que honram os sagrados Mistérios do Altar, ao passo que os indiferentes e tíbios meditarão, num amargo, mas inútil arrependimento, o prejuízo que fizeram a seus interesses eternos.
Rogamos a Deus que, por Nosso Senhor Jesus Cristo, seu Filho único, e pela virtude do Espírito Santo, esclareça a inteligência e fortifique a vontade dos que lerão estas linhas, a fim de que aproveitem para sua alma e nos façam participar de suas orações, no Santo Sacrifício.

Apêndice: BIOGRAFIA DO PE. MARTINHO DE COCHEM
Martinho de Cochem nasceu em 1625 ou, como querem outros, em 1630, justamente na época em que os terrores da célebre guerra dos Trinta Anos assolava a Alemanha. Cochem é o nome duma pequena cidade, situada nas belas margens do Mosela onde, pouco tempo antes do nascimento de Martinho, os padres capuchinhos haviam construído um convento de sua Ordem.
Assim foi que o jovem, desde criança, estimava e amava os bons religiosos, de sorte que, tendo o consentimento de sua família, pediu-lhes o hábito de S. Francisco.
Feito capuchinho, distinguiu-se pela extraordinária piedade e também pelo brilhante resultado de seus estudos, de maneira que lhe foi confiada a cadeira de teologia na Ordem.
Por muitos anos, instruiu Martinho os seus jovens irmãos de hábito nos segredos da ciência sagrada, até que, em 1666, o terrível espantalho da peste estendeu suas asas negras sobre a Alemanha, vitimando milhares de pessoas, especialmente nas vizinhanças do Reno. Cheios de zelo pela salvação das almas, os padres capuchinhos saíram da solidão do convento para dedicar-se ao tratamento dos doentes, e muitos desses santos homens deixaram a vida, mártires da caridade.
A escola, onde lecionava frei Martinho, foi dissolvida, sendo os noviços, seus discípulos, enviados para suas casas.
Martinho aproveitou estas férias inesperadas e forçadas para escrever um catecismo popular, no intuito de instruir o povo católico nos princípios da religião. E com tanta felicidade saiu-se desta incumbência, que os Superiores lhe mandaram renunciar definitivamente ao magistério e ocupar-se em editar livros e escritos religiosos que estivessem ao alcance de todos. Conhecendo nesta ordem à vontade de Deus, frei Martinho dedicava-se, com grande zelo, aos trabalhos da pena, editando numerosas obras, vivas testemunhas de que o seu autor tinha profundo conhecimento das necessidades religiosas de seu tempo, assim como do modo prático de remediá-las.
Seus escritos salientam-se pela linguagem simples e ingênua, pelo jeito admirável de falar ao coração humano, como também pela vivacidade e clareza do estilo.
Não podia deixar de suceder que o nome do padre Martinho se tornasse célebre e atraísse a atenção dos altos príncipes da Igreja. Com razão calculavam que o homem que, em seus escritos, sabia, de modo tão insistente e enérgico, propor ao povo o poder e a verdade da religião, ainda mais conseguiria pela força da palavra, ensinando e iluminando o mundo pela luz de suas acrisoladas virtudes. Eis o motivo por que os arcebispos de Mogúncia e Treveris o encarregaram de pregar missões e de realizar a visita canônica em quase todas as freguesias de suas dioceses.
Obediente às ordens dos Superiores e pronto a sacrificar-se pela salvação das almas, ia instruir o povo nas verdades de nossa santa religião, procurando transmitir, com especialidade, a seus inúmeros ouvintes, pelo menos uma faísca daquela devoção ao Santíssimo Sacramento que lhe abrasava o coração, e inspirando-lhes o desejo ardente de assistir, com regularidade e devoção, ao Santo Sacrifício da Missa, plenamente convictos de que o que se passa sobre o altar, não é senão a repetição incruenta da morte do Salvador.

Assim trabalhou incessantemente e sem cessar, até que, em idade avançada, foi chamado pelo Retribuidor do Bem, falecendo aos 10 de Setembro do ano de 1712.

30 de março de 2015

Essência do Santo Sacrifício da Missa - Explicação da Santa Missa 29

XXIX. QUE DEVOÇÃO SE DEVE PRATICAR DURANTE A ELEVAÇÃO

Imediatamente depois da consagração, o sacerdote procede à elevação das santas espécies, cerimônia sublime, prescrita pela santa Igreja, para que o povo possa gozar e aproveitar, mais perfeitamente, da presença real do divino Salvador. É desta elevação e da devoção que, durante ela, se deve praticar, que queremos tratar neste capítulo.
Oh! que júbilo pra o céu! Que fonte de salvação para a terra! Que refrigério para as almas do purgatório! Que terror para o inferno! Nesta elevação, se oferece o dom mais precioso que possa ser apresentado ao Altíssimo! Sabes sob que forma a santa humanidade de Jesus é oferecida a seu Pai, pelas mãos do sacerdote? Esta humanidade que é a imagem, muito perfeita, da Santíssima Trindade, jóia única dos tesouros celestes e terrestres.
É oferecida debaixo de várias formas, porque entre as mãos do sacerdote, o Verbo encarna-se novamente, nasce de novo e sofre a Paixão; o suor de sangue, a flagelação, a coroação de espinhos, a crucificação, a morte... oh, que emoção para o coração do Pai eterno, durante esta elevação de seu Filho predileto!
Entretanto, o sacerdote não é o único a expor Jesus Cristo aos olhos de seu Pai, o próprio Salvador se expõe: "À elevação, vi Jesus Cristo apresentar-se a seu Pai e oferecer-se de uma maneira que ultrapassa toda a compreensão", refere Santa Gertrudes no seu "Livro das Revelações". Mas, se não podemos fazer idéia deste encontro do Pai com o Filho, a fé deve nos levar a uma oração muito mais fervorosa no momento em que se realiza".
São Boaventura convida o sacerdote e os fiéis a dizerem então, ao Pai celeste: "Vede, ó Pai eterno, vede vosso Filho, que o mundo inteiro não pode conter e tornou-se nosso prisioneiro. Não o deixaremos ir sem que nos tenhais concedido o que vos pedimos em seu nome: o perdão de nossos pecados, o aumento da graça, a riqueza das virtudes e alegria da vida eterna".
O sacerdote, ao mostrar a sagrada Hóstia, poderia ainda dizer ao povo: "Eis cristãos, vosso divino Salvador, vosso Redentor. Olhai-o com fé viva e derramai vossos corações diante dele em ardentes súplicas. Bem-aventurados os olhos que vêem o que contemplais! Bem-aventurados os que crêem, firmemente, na presença de Jesus Cristo, nesta santa Hóstia!" Se adoras assim, asseguras a salvação de tua alma, e poderás repetir com o patriarca Jacó: "Vi a Deus face a face, a minha alma foi salva" (Gen. 32, 30).
À elevação, todo o povo deve levantar os olhos para o altar e olhar, com piedade, o Santíssimo Sacramento. Jesus Cristo revelou a Santa Gertrudes quanto é útil à alma esta prática. "Cada vez, escreve ela, que olharmos para o Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, oculto no Sacramento do Altar, aumentamos o grau de nosso mérito para o céu, o prazer, o gozo da vida eterna". Não te inclines, pois, tão profundamente à elevação que te seja impossível ver a sagrada Hóstia.
A santa Igreja também não o deseja; ela prescreve ao sacerdote levantar as santas espécies, alguns instantes, acima da cabeça, a fim de que o povo possa vê-las e adora-las. A eficácia deste olhar para o divino Salvador foi figurada no antigo Testamento: "Ao povo de Israel, que tinha murmurado contra o Senhor e contra Moisés, mandou o Senhor cobras, cujas mordedura queimavam como fogo. Muitos, tendo sido feridos, foram ter com Moisés, dizendo: "Pecamos; roga ao Senhor para que nos livre destas serpentes". Moisés fez uma serpente de bronze, colocou-a como sinal, e os que, sendo feridos, olhavam para ela, ficaram curados" (Num. 21, 8).
O santo Evangelho vê, neste fato, um símbolo tocante de Cristo, porque diz: "Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim o Filho do homem deve ser levantado sobre a cruz" (Jo. 3, 14). Se a imagem da serpente de bronze tinha a virtude de curar os israelitas e de preservá-los da morte, com maior de razão, a piedosa contemplação do próprio Jesus curará as almas feridas, aflitas e desanimadas.
A fim de tornar muito eficaz este olhar para o divino Salvador, faze atos de fé em sua presença real e no Sacrifício que ele oferece a seu Pai celeste, por nós, pobres pecadores. Estes atos de fé valer-te-ão uma insigne recompensa. "Bem-aventurados os que não viram e creram" (Jo. 20, 29). Estas palavras podem bem se aplicar àqueles que têm uma fé viva na presença real de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento.
Tendo adorado a Santa Hóstia, faze dela oferta ao Rei celeste. Já expusemos a virtude deste ato; acrescentamos somente a seguinte palavra da Santa Gertrudes: "A oblação da sagrada Hóstia é a mais eficaz satisfação por nossas culpas". Com isso quer dizer que, pobres pecadores como somos, devemos concentrar todas as forças de nossa alma, para oferecer a Deus a Hóstia santa, a fim de obter-lhe o perdão e a misericórdia.
À elevação da santa Hóstia, sucede a do Cálice sagrado, cerimônia igualmente significativa. É então que o precioso Sangue corre, de maneira mística, sobre os circunstantes, como se vê das palavras do missal: "Isto é o Cálice de meu Sangue, do novo e eterno Testamento: mistério da fé que será derramado por vós e por muitos, para o perdão dos pecados". Neste momento, recebes a mesma graça como se estivesses, cheio de arrependimento, debaixo da Cruz no Calvário e o precioso Sangue te inundasse.
Deus disse, no Antigo Testamento, ao povo de Israel: "Imolai um cordeiro e marcai, com seu sangue, as portas e os portais; e o Anjo exterminador passará a porta de vossa casa, quando vir este sangue" (Ex. 12, 22). Se o sangue do cordeiro pascoal preservou os israelitas dos golpes do Anjo exterminador, mais poderosamente, o Sangue do Cordeiro sem mancha nos protegerá contra a raiva do anjo das trevas que, como um leão rugidor, anda em redor de nós, procurando a quem possa devorar.
Vejamos ainda o que devemos fazer depois da elevação do Cálice. Muitas pessoas têm o costume de rezar então cinco Padre-Nossos em honra das cinco chagas; excelente prática, porém muito mal colocada. Outros que se sobrecarregam de orações, continuam a fazê-las. Seria, infinitamente, melhor fazer o que faz o sacerdote; pois, o Sacrifício nos pertence tanto quanto a ele. Apesar das ofertas reiteradas antes da elevação, o sacerdote continua a oferecer depois. Nada aliás poderíamos fazer mais agradável a Deus. É por isso que o sacerdote diz, depois de ter posto o Cálice sobre o altar: Por esta razão, Senhor, nós, vossos servos, mas também vosso povo santo... oferecemos à vossa augusta Majestade de vossos dons e dádivas, a Hóstia pura, a Hóstia santa, a Hóstia imaculada, o Pão santo da vida eterna e o Cálice da salvação perpétua".
Sanchez diz destas palavras: "Em toda a Missa, o sacerdote não pronuncia palavras mais consoladoras; pois, nem ele nem o povo poderiam fazer cousa melhor do que oferecer a Deus o augusto Sacrifício". Compreende, portanto, como prejudicas a teus interesses, substituindo esta preciosa oferta por tuas pobres e tíbias orações.
Criaturas indigentes que somos, desprovidos de méritos e virtudes, como não nos apoderaríamos, avidamente, de imenso tesouro que podemos apresentar, como sucesso, ao Pai celestial? E este tesouro, Deus no-lo dá em cada Missa, e, com ele, nos entrega todas as suas riquezas, para que as empreguemos em saldar nossas dívidas. Oferece, pois, a santa Missa, oferece-a ainda, oferece-a sempre.
As pessoas que não sabem ler os excelentes métodos de oferecer o santo Sacrifício, contido nos formulários de orações, podem decorar a oração seguinte:
Meu Deus, eu vos ofereço esta Santa Missa; ofereço-vos vosso caro Filho, sua encarnação, seu nascimento, sua dolorosa paixão; ofereço-vos seu suor de sangue, sua flagelação, sua coroação de espinhos, sua via sacra, sua crucificação, sua morte, seu precioso Sangue. Ofereço-vos, para vossa maior glória e a salvação de minha alma, tudo quanto vosso caro Filho fez, padeceu, mereceu, e todos os Mistérios que ele renova nesta santa Missa. Amém.


29 de março de 2015

Essência do Santo Sacrifício da Missa - Explicação da Santa Missa 28

XXVIII. EXORTAÇÃO PARA OUVIR PIEDOSAMENTE A SANTA MISSA

Quanto não se aflige a Igreja, por ver tantos filhos assistirem, sem piedade, ao santo Sacrifício! Ocupam-se os fiéis, não raras vezes, com o que se passa ao redor, porém, não do que se realiza no altar; observam quem entra e quem sai; oram somente com os lábios, sem que o coração tome parte. Eis seu proceder na presença de Deus três vezes santo! Perguntamos se lhes existe ainda uma faísca de fé na alma e se merecem o nome de católicos. Oh! quanto nos dói o coração à vista de tão culpada irreverência, no momento em que tudo nos convida à mais ardente piedade.
A Igreja católica impõe o respeito para a santa Missa, por estas palavras: "Reconhecer que os cristãos não podem cumprir obra mais santa, mais divina que este assombroso mistério é também reconhecer que não se pode pôr cuidados e diligência suficientes para desempenhá-lo com pureza de coração, com piedade e edificação (Concílio de Trento). Não é necessário, para isso, experimentar uma devoção sensível; basta a vontade firme de assistir atenta e respeitosamente.
A verdadeira piedade, com efeito, não consiste na doçura interior, mas no fiel serviço de Deus.
A piedade ou devoção consiste, segundo todos os mestres da vida espiritual, numa vontade pronta e generosa de fazer tudo quanto Deus quer, e sofrer corajosamente tudo quanto quer que soframos. As doçuras e as consolações sensíveis não são, pois, a devoção, mais um estímulo para a devoção que o Senhor concede conforme nossas necessidades e sua sabedoria. O espírito de fé está sempre ao nosso dispor e podemos, agindo segundo esta fé, servir a Deus com inteira fidelidade e ser do número dos justos que vivem da fé.
Se não tivesses desejo algum e não fizesses nenhum esforço para sair de tua indiferença, então somente, haveria culpa e te privarias de muitos méritos. A este respeito lembrar-te-emos das palavras de Nosso Senhor à Santa Gertrudes.
Esforçando-se, uma vez, em unir alguma intenção particular a cada nota e cada palavra de seu canto, e, sentindo que se achava, muitas vezes, impedida pela fraqueza de sua natureza, dizia no interior, com muita tristeza: "Ah que fruto posso tirar deste exercício visto que sou sujeita a tão grande mudança?". Nosso Senhor, porém, apresentou-lhe nas mãos o Sagrado Coração sob o emblema duma lâmpada ardente, dizendo: "Eis que exponho, aos olhos de tua alma, meu Coração caridoso que é o órgão da Santíssima Trindade, a fim de que lhe peças, com confiança, que faça em ti tudo o que não serias capaz de operar, e desta sorte, eu nada veja, aí, que não seja extremamente perfeito; pois, da mesma maneira que um servo está sempre prestes a executar as ordens de seu amo, assim meu Coração será sempre disposto, em qualquer hora, a reparar os efeitos de tua negligência" (Líber III, c. 25). Santa Gertrudes admirava, tremendo, o excesso da bondade do divino Salvador, julgou, porém, que seria inconveniente que o Coração adorável de seu Deus suprisse os defeitos de sua criatura. Mas o Senhor animou-a com esta comparação: "Não é verdade que, se tivesses uma bela voz e achasses extremo prazer em cantar, encontrando-te com uma pessoa que tivesse a voz tão áspera, tão desagradável e desafinada que sentisse muita pena em pronunciar e em formar os menores sons, acharias mal que, oferecendo-te para cantar, ela não to quisesse permitir? Assim, meu Coração divino, reconhecendo a inconstância e a fragilidade da natureza humana, deseja com ardor que o convides, senão por palavras, pelo menos por outro sinal, a operar e cumprir em ti o que não és capaz de operares e cumprires".
Oh que palavras de animação e conforto! Estás distraído à santa Missa? Desprovido de piedade? Vai a Jesus, dizendo-lhe: "Deploro amargamente estar tão distraído e rogo a vosso divino Coração que se digne suprir a minha negligência".
Para ajudar a tua boa vontade, indicar-te-emos também a maneira de te comportares na santa Missa. Primeiro, indo à igreja, considera aonde vais e o que vais fazer. Não subas ao templo como o fariseu e o publicano para orar somente, mas entras aí para "oferecer", segundo a palavra de David: "Senhor, sou vosso servo, oferecer-vos-ei uma hóstia de louvor e invocarei vosso santo nome" (Sl. 115).
Entras aí para prestar a Deus o culto mais perfeito, para apresentar a oferta que lhe é mais cara. "A audição da santa Missa, diz um escritor eclesiástico, não é somente uma oração, é um ato de adoração, é uma oferta, um sacrifício divino, visto que todos os assistentes bem dispostos unem-se à ação e às intenções do sacerdote". O mesmo autor explica então o sentido da palavra "sacrificar" e diz que a ação mais excelente, é praticar a mais alta virtude, porque, sacrificando, atestamos a soberania de Deus, seu direito de ser, infinitamente, honrado e glorificado; confessarmos, ao mesmo tempo, nossa dependência absoluta como criaturas, das quais pode dispor à vontade. É por isso que o Sacrifício é o ato de religião mais agradável ao Senhor, e o mais útil aos homens.
Penetrado destas verdades, chega ao pé do altar; formula aí a intenção de ouvir a santa Missa. Tens algumas orações particulares que fazer? Faze-as até a consagração. A elevação, não te ocupes senão com Nosso Senhor: adora-o, oferece-o a seu Pai eterno, expondo-lhe tuas necessidades. Há pessoas que têm escrúpulo de renunciar a suas orações quotidianas pelas da santa Missa. É um erro. Tuas orações quotidianas, comparadas com as da santa Missa, são tão inferiores como o cobre é inferior ao ouro. Além disso, estas orações podem fazer-se em outro tempo que não seja à hora da Missa, ao passo que não podes dizer as da Missa, tão utilmente, em outro tempo como quando o santo Sacrifício se efetua; e, se te acontecesse não achar um momento para desempenhar estas devoções particulares, esta omissão seria menos prejudicial que a primeira.
Logo que o sacerdote pronunciou, no momento solene, as palavras da consagração, o pão tornou-se o Corpo de Nosso Senhor. "O homem deve tremer, diz São Francisco de Sales, o mundo estremecer, o céu inteiro ficar arrebatado, quando, sobre o altar, o Filho de Deus se entrega nas mãos do sacerdote". Oh! admirável humildade, o Mestre de todas as coisas abaixa-se, para a salvação do homem, até ocultar-se sob as aparências do pão.
Mas, porque os nossos sentidos não percebem a presença do Senhor, não lhe prestamos atenção, e, entretanto, os demônios fogem espavoridos e os Anjos tremem diante de sua face. Assim disse Jesus Cristo a Santa Brígida: "Do mesmo modo que à palavra 'Sou eu!' meus inimigos caíram por terra, às palavras da consagração 'Isto é o meu Corpo!' os demônios fogem".
A semelhança dos Anjos e dos Santos, apliquemo-nos a glorificar o Senhor sobre o altar, e a participar de seu adorável Sacrifício. É excusado dizer que, no momento da elevação, devemos deixar toda outra oração, a fim de levantar os nossos olhos para o altar e adorar, humildemente, o Cordeiro de Deus, oferecendo-o ao Pai celestial. Estes exercícios de fé e caridade devem ocupar-nos todo o tempo, até que Jesus seja consumido pela Comunhão do sacerdote.

Infelizmente, grande número de fiéis não se conforma a nenhuma destas práticas. Continuam a receitar suas orações costumeiras, dedicando-se a uma espécie de devoção rotineira, como se Nosso Senhor não estivesse presente e não fosse preciso ocupar-se dEle. Caro leitor, não procedas mais assim; no momento da consagração, cai de joelhos como o sacerdote e, repleto de fé e amor, adora aquele que se mostra a teus olhos, sob as espécies de pão e de vinho.

27 de março de 2015

Essência do Santo Sacrifício da Missa - Explicação da Santa Missa 27

XXVII. INSTANTE EXORTAÇÃO PARA OUVIR DIARIAMENTE A SANTA MISSA

Depois de tudo quanto dissemos até aqui, pareceria desnecessário exortar-te a ouvir a santa Missa todos os dias. Entretanto, acrescentaremos algumas reflexões próprias, para afirmar, em ti, a esta resolução.
Não há dúvida de que nenhuma hora do dia é tão preciosa como a da santa Missa. É verdadeiramente uma hora de ouro, e, por sua influência, tudo o que fizeres no correr do dia será, por assim dizer, transformado em ouro. Sem esta bênção que se recebe do altar, não ganharíamos senão vil metal.
Objetar-nos-ás talvez: "O trabalho me é mais necessário que a audição da santa Missa, visto que, por ele, sustento minha família". - Mas, caro leitor, não dizemos que não trabalhes, quereríamos apenas ver-te dar a Deus pequena meia hora, cada manhã. Abençoado por sua mão paterna, teu trabalho terá melhor êxito.
O desejo de nosso coração, caro leitor, é levar-te a ouvir, quotidianamente, a santa Missa. Por isso procuramos detalhar-te os numerosos e nobres motivos sobre os quais esta excelente devoção é baseada.
Escuta e considera: Foste criado por Deus, para serví-lo: a santa Missa é o culto divino por excelência; tens a obrigação de agradecer-lhe os benefícios espirituais e temporais: a santa Missa é o mais perfeito sacrifício de ação de graças; estás no mundo, para louvar a divina Majestade do Deus onipotente: a santa Missa é o mais perfeito sacrifício de louvor; tens contraído uma dívida enorme: a santa Missa é o mais rico sacrifício de satisfação; o pecado, a doença, a morte te ameaçam: a santa Missa é o mais eficaz sacrifício de impetração; o demônio te persegue, armando ciladas, esforça-se para arrastar-te ao inferno: a santa Missa é o escudo contra o qual se despedaça o poder infernal; a morte te espanta: a audição da santa Missa será para ti a maior consolação na hora da morte.
Quando não te seja possível assistir, cada dia, à santa Missa, faze, pelo menos, que uma ou outra pessoa de tua família a assista na intenção de todos os teus.
A prática de ouvir a santa Missa, uns em favor dos outros, é, extremamente, vantajosa e perfeitamente possível. Há uma diferença notável entre a audição da santa Missa e a sagrada Comunhão. Diz-se: Comungarei por ti, pelas almas do purgatório, etc., o que, porém, não tem a mesma significação que dizer: Ouvirei a santa Missa por ti. É tão impossível receber um sacramento por outra pessoa como é impossível tomar alimento por ela. Não obstante, tua Comunhão será muito vantajosa ao próximo, porque todas as boas obras apagam parte da pena devida a teus pecados, vantagem que podes ceder a teu irmão: demais, a Comunhão, aumentando-nos a graça, torna a oração mais ardente e mais eficaz.
Observa, porém, que Jesus Cristo não instituiu a santa Missa somente pelo que a celebra, ou a assiste, mas também quer tenham os ausentes sua parte, e lhes é feita ao "Memento dos vivos": "Lembrai-vos Senhor", diz o sacerdote, "daqueles pelos quais vos oferecemos ou que vos oferecem este Sacrifício de louvor por si e por todos os seus".
Enfim, cada um pode despojar-se, em favor do próximo, dos méritos que adquire, ou dos tesouros satisfatórios que recebe no santo Sacrifício. Parece, pois, mais vantajoso ouvir a santa Missa por uma pessoa do que comungar por ela.
As palavras persuadem, os exemplos arrastam. Se nossas instantes exortações ainda não te convenceram, citar-te-emos o exemplo dos Santos que, apesar dos numerosos e importantes trabalhos, colocavam a Missa acima das ocupações.
Santo Agostinho refere de sua mãe, santa Mônica, que não deixava passar um dia sem assistir ao santo Sacrifício, tanto estimava o valor desta oblação, cuja virtude salutar apaga os vestígios de nossas faltas. Sentindo-se morrer longe da pátria, recomendava ao filho que não lhe fizesse exéquias pomposas, porém que levasse cada dia, sua lembrança ao altar.
Santa Hediviges, duquesa da Polônia, ouvia, todos os dias, várias Missas, e, quando não se achavam bastantes sacerdotes na corte, mandava chamar os outros para satisfazer a devoção.
São Luis, rei de França, assistia a duas Missas, às vezes até a quatro. As pessoas de sua comitiva o criticavam, achando que o rei devia antes ocupar-se dos negócios do governo. O Santo, porém, respondia-lhes: "Admira-me tanta inquietação. Se empregasse o duplo deste tempo no jogo, ou na caça, ninguém me criticaria". Excelente resposta que, não somente serve aos cortesãos de Luís IX, mas a nós todos. Quando, em dia útil, nos aconteceu assistir a muitas Missas, parecem prejudicados nossos negócios?... entretanto, passamos, sem escrúpulo, horas inteiras a falar, a jogar, a comer, a dormir, mesmo a enfeitar-nos! Que cegueira, pois!
Citamos acima o rei da Inglaterra, Henrique I, a quem o peso dos negócios do Estado nunca impedia de ouvir três Missas, cada dia. Numa entrevista com o rei de França, os dois príncipes vieram a falar em questões religiosas. "Julgo, observou o último, que a assiduidade ao sermão é preferível à da Missa" - "Por mim, retorquiu Henrique, prefiro olhar para meu Amigo divino a ouvir celebrar-lhe os louvores".
É também nossa opinião, caro leitor, sem querermos menosprezar a utilidade das instruções religiosas.
São Venceslau, duque da Boêmia, dava os mesmos exemplos. Refere-se, na sua vida, que durante a assembléia nacional dos Estados da Alemanha, em Worms, o imperador Óton convocou, um dia, todos os príncipes para uma hora matutina.
Todos aí se acham pontualmente, exceto Venceslau que fora à Missa, antes de ir à assembléia. O soberano disse em tom de impaciência: "Comecemos os trabalhos e, quando Venceslau vier, ninguém se levante para dar-lhe lugar". Entretanto, terminada a santa Missa, o duque chegou ao palácio. O imperador o viu entrar acompanhado de dois Anjos que lhe condecoravam o peito com uma cruz de ouro. Imediatamente deixou o trono, foi-lhe ao encontro e abraçou-o com ternura.
A assembléia teve um movimento de surpresa ao ver Óton ser o primeiro a contradizer as próprias ordens. Este, porém, desculpou-se, dizendo: "Vi dois Anjos que acompanhavam o duque, como teria eu ousado não lhe render esta honra?". Alguns dias depois, Venceslau era investido do poder real e coroado rei da Boêmia.
O célebre escritor Barônio relata que o imperador Lotário assistia, cada manhã, a três Missas, mesmo no acampamento. E Súrio afirma que Carlos V não faltou a santa Missa senão uma única vez, por ocasião de uma guerra na África.
O Breviário Romano nos faz admirar a ardente devoção de São Casimiro durante o Ofício solene, ao qual assistia todos os dias. Sua alma abrasava-se de tamanho amor de Deus, que parecia não estar mais sobre a terra.
O heróico confessor da fé, Tomás Mourus, que deu a vida por Jesus Cristo em 1535, tinha em alta estima a santa Missa. Por urgentes que lhe fossem os negócios de chanceler do império britânico, não deixava de assistí-la, cada manhã. Uma vez, enquanto orava ao pé do altar, durante o santo Sacrifício, um mensageiro veio, a toda a pressa, dizer-lhe que o rei o chamava: "Paciência, disse-lhe; devo, em primeiro lugar, prestar minhas homenagens a um príncipe maior, e assistir, até o fim, à audiência divina".
Meu Deus, que diremos, que desculpas apresentaremos no dia do juízo, nós que negligenciamos a santa Missa pelas ocupações, muitas vezes, insignificantes, ao passo que personagens encarregados dos negócios de reinos inteiros, achavam o tempo necessário para ouvir, cada dia, uma ou mais Missas?!
Não digas: "Deus não me condenará por ter deixado de ouvir a santa Missa em dias úteis, desde que é obrigatório somente aos domingos e dias de festa". Sem dúvida, Deus não tratará esta omissão como transgressão positiva; porém, far-te-á expiar este descuido, em seu santo serviço. O servo preguiçoso que foi lançado nas trevas extremas, não havia desperdiçado nem perdido, no fogo, o talento que o dono lhe havia confiado: tinha somente enterrado e foi condenado, por se ter descuidado de utilizá-lo. Toma cuidado que Deus não proceda assim contigo. Viu-se muitas vezes, com que rigor Deus pune a indiferença a respeito do santo Sacrifício.
Quanto aos pais que impedem os filhos de assistirem à santa Missa, em dia de domingo, ou de festa, bem poderiam incorrer no castigo de Gerôncia, mãe de Santa Genoveva. Um dia de festa que ela pretendia proibir à filha ir à Missa, Genoveva lhe disse com firmeza: "Minha mãe, não posso, em consciência, faltar à Missa, hoje: prefiro descontentar-vos a descontentar a meu Deus". Irritada com esta resposta, Gerôncia esbofeteou-a, chamando-a desobediente. O castigo de Deus, porém, não se fez esperar. Gerôncia cegou imediatamente e não recuperou a vista senão dois anos depois, devido às orações da piedosa filha.
Os pais e as mães de família têm obrigação de mandar à santa Missa não só os filhos, como também os criados; devem cuidar deles na igreja e exortá-los a terem grande respeito, para o santo Sacramento. O Apóstolo São Paulo prescreve-o claramente: "Se alguém, diz ele, não toma cuidado dos seus e, particularmente, dos de sua casa, renunciou à fé e é pior do que um infiel" (Tim. 5, 3). A palavra "cuidado" significa, segundo São João Crisóstomo, a conservação da alma assim como do corpo. Ora, se um pai de família deixasse de fornecer ao filho e às pessoas de sua casa alimento e vestuário, seria, aos olhos de Deus, pior do que um infiel. E não será mais desprezível ainda o que não se inquieta da salvação eterna dos seus?

Patrões cristãos, prestai atenção à maneira pela qual cumpris os deferes a este respeito. Deixai toda a liberdade a vossos empregados para ir à Missa, quando a proximidade da Igreja e a hora matutina lhes fornecem a facilidade? Não pareceis dizer com a vossa atitude: "Não é a Deus, mas a mim a quem deveis servir, porque não é Deus, sou eu quem vos paga; trabalhareis, pois, toda a semana para mim somente?" Na verdade, tais cristãos são piores que os pagãos, mas saberão, à hora da morte, a enormidade de seu pecado.

26 de março de 2015

Essência do Santo Sacrifício da Missa - Explicação da Santa Missa 26

XXVI. COMO PODEMOS PARTICIPAR DOS FRUTOS DE VÁRIAS MISSAS QUE, AO MESMO TEMPO E NA MESMA IGREJA, SE CELEBRAM

Já explicamos como todos os sacerdotes oram e oferecem o santo Sacrifício na intenção dos assistentes. É, pois, vantagem considerável achar-se numa igreja onde se celebram grande número de Missas de uma vez. Se celebrar um só sacerdote, terás uma única oração, havendo mais, teu proveito espiritual aumentará.
Ora, para tirar proveito de várias Missas celebradas no mesmo tempo, é preciso cooperar para cada uma numa certa medida. Não dizemos seguir várias Missas ao mesmo tempo, isto seria impossível; aconselhamos simplesmente seguir uma, com toda a atenção possível, e recomendar-se às outras, dizendo: "Meu Deus, oferece-vos também este Sacrifício que vai se cumprir". Quando vires, porém, em outro altar, levantar-se a Hóstia consagrada e o Cálice, adora o divino Salvador e oferece-o ao Pai celestial.
Dir-me-ás talvez: Se me entregar a esta prática, ela me impedirá de seguir e satisfazer minhas devoções quotidianas. - Escuta esta parábola: Um vinhateiro, trabalhando na sua vinha, achou um tesouro. Levou-o para casa, muito escondidamente, e voltou ao trabalho. Ao cabo de algumas horas, descobriu outro tesouro que levou por sua vez para casa. Enfim, sua enxada encontrou um terceiro, levou-o, correndo, e anunciou sua felicidade à sua mulher. "Como, lhe disse esta muito admirada, tomas isto por felicidade? É uma verdadeira infelicidade, porque, se continuares assim, nunca tua vinha será cultivada e não haverá colheita". O marido sorriu a este raciocínio, e disse: "Queira Deus que continue a achar tesouros semelhantes e pouco me importa que haja ou não uvas!"
Aplica ao caso o sentido da parábola e verás que a oblação reiterada de Cristo, no altar, é incomparavelmente, mais útil que outra.
Nota ainda isto: Quando entras numa igreja e vês que a santa Missa se acha depois da consagração, faze, todavia, a oblação de nosso Senhor até que o sacerdote consuma as santas espécies. Desta maneira te tornarás participante de muitas e grandes graças. Se no momento em que entras, vês dois sacerdotes consagrarem, ao mesmo tempo, faze o teu ato de adoração na intenção de oferecer Jesus presente sobre os dois altares. Não é preciso, para assistir à santa Missa, ver o celebrante. Basta ser advertido pelo toque da campainha. Não deixes a igreja, imediatamente, antes da consagração, espera que Jesus apareça, adora-o e pede-lhe a bênção.
Na vida de Santa Isabel, rainha de Portugal, refere-se o seguinte: Um príncipe da corte real, estando para morrer, disse ao filho: "Meu filho, deixo este mundo na esperança da Misericórdia divina. És o único herdeiro de minhas posses; porém, antes de tudo, deixo-te esta recomendação: ouve a santa Missa todos os dias e sê fiel a teu rei".
Depois da morte do pai, o jovem veio à corte real como pajem de honra da rainha Isabel. Ela o estimava muito, por causa da sua piedade, dava-lhe sábias instruções e empregava-o, muitas vezes, na distribuição de suas esmolas, testemunhando-lhe um interesse materno. Havia, na corte, outro pajem de costumes maus. Este, invejoso do favor de que gozava o colega, caluniou-o junto ao rei da maneira mais odiosa. O rei, que levava uma vida desregrada, acreditou facilmente no que lhe havia referido o pajem mau e jurou a morte do inocente.
Um dia que passeava montado, nos arredores de sua capital, meditando sobre o modo de vingança, avistou ao longe uma caeira em atividade. Seu plano foi, então, determinado: vai diretamente ao dono da caeira e lhe dá ordem de lançar nela o pajem da corte que havia de vir, no dia seguinte, pela manhã, perguntar se as ordens do rei havia sido executadas.
Ao voltar a seu palácio o rei, mandou vir o pajem, tão injustamente caluniado, e ordenou-lhe que fosse, no dia seguinte, muito cedo, à caeira, informar-se da execução das ordens reais. O jovem partiu, ao romper do dia, tristonho de não poder ouvir Missa antes de sair e receando não poder assistí-la neste dia. No caminho, encontrou uma igreja, onde se dava justamente o sinal da consagração. Entrou, pois, adorou Cristo, Nosso Senhor, e ofereceu-o a Deus por sua salvação eterna e temporal. Terminado a santa Missa, saiu contente por ter podido ouvir uma parte importante da santa Missa.
Instantes depois, achava-se diante de outra igreja, onde tocavam igualmente à consagração, o que lhe causou nova alegria. Também nesta entrou e cumpriu a sua devoção, recomendada por seu pai moribundo, mas demorou-se um só instante, porque as ordens do rei eram apressadas. Aconteceu, entretanto, que o caminho o conduzisse a terceira igreja. O sino tocava e o pajem entrou ainda esta vez, para adorar Nosso Senhor. Sua devoção foi tão grande, que ficou até o fim da santa Missa.
No entanto, o rei ardia por saber se sua obra de vingança fora consumada. Por isso, mandou o outro pajem à caeira informar-se da execução de suas ordens. Este espreitava a ocasião de satisfazer a inveja, e, sabendo perfeitamente o que isto significava, partiu alegre e ligeiro. Chegando, fez logo a pergunta ao caeiro. Mas, oh terror, foi preso, e apesar de sua resistência e de seus protestos, foi precipitado na fornalha ardente.
Pouco depois, apareceu também o pajem inocente. Cumpriu a sua mensagem, recebeu a resposta que tudo se fizera como o monarca havia mandado, e, voltou, sem suspeitar a visível proteção que a divina Providência acabava de testemunhar-lhe.
Ao ver o mancebo e ouvir-lhe as palavras, o rei compreendeu que o acusador tinha sofrido a pena de fogo, humilhando-se no coração perante Deus, protetor da inocência.
Os que se acham na impossibilidade de assistir à santa Missa, devem, pelo menos, dizer: "Meu Deus, deixai-me compartilhar dos frutos preciosos de todas as Missas que se celebram, hoje, em todo orbe católico. Oxalá, possa eu aproximar-me do altar e oferecer com o sacerdote, o Cordeiro Imaculado!" - Deus lhes abençoará a boa vontade e lhes concederá o que pedirem, segundo o grau de sua caridade.

Não é verdadeiramente consolador para os doentes e pessoas que moram muito longe da igreja, poder, unindo-se espiritualmente ao santo Sacrifício, participar de seus méritos? Aproveitemos, pois, todas as ocasiões para pedir aos sacerdotes que se lembrem de nós no altar do Senhor. É a mais preciosa de todas as lembranças. Eis como fala um piedoso autor: Tendes grande motivo de felicitar-vos, quando um sacerdote vos promete seu "Memento" à santa Missa. Deveríeis recomendar-vos a todos os sacerdotes conhecidos. Deste modo, teríeis, por assim dizer, outros tantos tesoureiros que vos abrissem a tesouraria de Nosso Senhor Jesus Cristo.

25 de março de 2015

Essência do Santo Sacrifício da Missa - Explicação da Santa Missa 25

XXV. DA MANEIRA DE OFERECER A SANTA MISSA E DO VALOR DA OBLAÇÃO

Caro leitor, lê neste capítulo com grande atenção; grava-o, profundamente, em tua memória, segue os conselhos que encerra e tirarás, do santo Sacrifício, imenso proveito.
Já ficou dito que a santa Missa, único sacrifício do cristianismo, é um ato de adoração, uma oferta divina. O grande Sacerdote, o verdadeiro Sacrificador, é Nosso Senhor Jesus Cristo. Depois dele vem o celebrante, o instrumento que lhe empresta as mãos e a boca. Em terceiro lugar, vêm os assistentes, que mandam celebrar a santa Missa, os que oferecem os objetos necessários ao culto, enfim, todos os que, impedidos por ocupações de assistir, se unem, espiritualmente, aos assistentes. Todos oferecem, em certo sentido, a divina Vítima e participam dos frutos desta preciosa oferta. Sem a oblação do divino Sacrifício nem mesmo ouvirias a santa Missa como deves: porque ouvir a Missa não é somente assistí-la, é oferecer o Sacrifício em união com o sacerdote e pelas mãos do sacerdote. Por conseguinte, os fiéis que, na santa Missa, se entregam a toda sorte de devoções particulares, sem se ocuparem da oblação do santo Sacrifício, privam-se de um número infinito de graças.
Não acharás, certamente, inútil que te expliquemos, minuciosamente, a maneira de oferecer a Deus o santo Sacrifício.
Supõe que uma pessoa recite, devotamente, muitos terços, oferecendo-os a Jesus Cristo e à sua Santíssima Mãe, enquanto outra pessoa assiste a uma só Missa, oferecendo-a. Qual das duas, pensas, dará mais e será, mais profusamente, recompensada? Sem dúvida, a segunda. Pois, que oferece a primeira? Uma prece, muito santa, ensinada, na maior parte, por Jesus Cristo e por seu Anjo, mas que tem todo o valor da piedade pessoal da pessoa que reza, e fica, por conseguinte, muito imperfeita. Que se oferece, porém, na santa Missa? Um dom absolutamente sobrenatural, perfeitíssimo, divino: o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, suas lágrimas, sua morte, seus méritos.
Dir-me-ás, talvez: A pessoa que oferece os terços oferece um dom que ela própria adquiriu, ao passo que, na santa Missa, oferecem-se méritos que pertencem a Jesus Cristo. Afirmamos, porém, de novo: Aquele que oferece a santa Missa, oferece um bem próprio, porque, pelo Sacrifício não cruento da santa Missa, recebem os frutos do Sacrifício cruento na Cruz.
Que imenso favor, pois, é aquele com que o Senhor te enriquece, quando, na santa Missa, te constitui, espiritualmente, sacerdote e te concede o poder de oferecer a Deus, seu Pai, segundo a maneira dos sacerdotes, não só por ti, como pelos outros. É neste sentido que o celebrante diz depois do "Sanctus": "Lembrai-vos, Senhor, dos vossos servos e servas e de todos os circunstantes, pelos quais vos oferecemos, e eles mesmos vos oferecem este sacrifício de louvor por si e por todos os seus amigos, benfeitores, vivos e mortos".
Para esta cooperação, o sacerdote já convidou os fiéis no "Orate fratres", dizendo: "Orai, meus irmãos, para que meu sacrifício, que é também o vosso, seja agradável a Deus Padre todo poderoso".
Em outras palavras: Este sacrifício vos pertence tanto quanto a mim, é tanto obra vossa quanto minha; peço-vos que me ajudeis a oferecê-lo.
Depois da "Elevação do cálice", o sacerdote diz: "Portanto, Senhor, nós, teus servos e teu povo santo, oferecemos à tua gloriosa Majestade, de teus mesmos dons e benefícios, esta Hóstia pura, Hóstia santa, Hóstia imaculada. Pão santo da vida eterna, Cálice da salvação perpétua".
Tua cooperação pela oblação é, pois, muito real, o celebrante conta com ela. Se não lhe aceitares o convite e não unires a voz e o coração à sua ação, engana-lo-ás em sua expectativa e a ti mesmo, privando-te do benefício da oblação. "Aqueles, diz o bispo Fornero de Hebron, que deixam de oferecer a santa Missa por si e pelos seus, privam-se dum imenso benefício". É, pois, igualmente um ato de injustiça para contigo mesmo faltar à Missa ou não oferecê-la quando a assistires. O oferecimento é a melhor das práticas; quanto mais o renovares, mais alegrarás o céu, maior número de dívidas pagarás, maior glória futura adquirirás. Dizer a Deus: Eu te ofereço, significa na Missa: Eu te pago, com o ouro dos merecimentos de Jesus Cristo, o resgate de meus pecados, os bens celestes, o livramento das almas do purgatório.
É verdade que se pode dizer, fora da santa Missa, a qualquer hora e com muita vantagem: "Senhor, eu te ofereço o caro Filho, te ofereço sua dolorosa Paixão e Morte, seus méritos". Entretanto, esta oblação não é senão espiritual, enquanto que, na santa Missa, é real. Aí Jesus Cristo está, realmente, presente e com ele suas virtudes e seus méritos; aí se imola de novo e renova sua Paixão e sua Morte, nos dá seus méritos, a fim de que os ofereçamos a seu Pai celeste.
Santa Mechtildes ouviu, uma vez, durante a santa Missa, Nosso Senhor lhe falar desta forma: "Concedo-te meu amor divino, minha oração e minha Paixão, a fim de que possas mas oferecer por tua vez. Dai-mas, eu tas restituirei multiplicadas, e, toda vez que mas ofereceres, novamente as duplicarei. É assim que o homem recebe o cêntuplo no tempo e uma glória infinita na eternidade" (Lib. Revelation I, cap. 14).
Entre todas as orações da santa Missa, diz Sanchez, nenhuma é mais consoladora do que a que se segue à elevação do cálice, quando o sacerdote oferece ao Pai celeste o "Cordeiro" imaculado, dizendo: "Senhor, nós, que somos vossos servos e vosso povo santo, oferecemos à vossa sublime Majestade a Hóstia pura, a Hóstia santa, a Hóstia imaculada, etc.". Chama o povo, isto é, os assistentes, santos, porque são santificados pela santa Missa, conforme a palavra de Jesus Cristo: "Eu me santifico por eles, a fim de que sejam santificados na verdade" (Jo. 22, 19).
Ele os santifica pela "aspersão do sangue divino", como diz o Apóstolo São Paulo (Heb. 13, 12).
Quão preciosa é a Hóstia pura, santa, sem mácula! É a carne puríssima, a alma santíssima, o sangue imaculado de Jesus! A que pode se comparar esta oferta, se a terra inteira não é senão um grão de poeira ao seu lado! Que dizemos? A imensidade do céu nada contém de mais precioso. O que dás ao Deus onipotente, oferecendo esta Hóstia, é o dom perfeitamente digno de sua Majestade infinita, é seu Filho com sua humanidade santa, é o próprio Deus!
Se todos os súditos de um monarca poderoso oferecessem a seu soberano, em testemunho de seu amor e fidelidade, por embaixadores escolhidos, uma taça artística do ouro mais puro, ornada de pedras preciosas de inestimável valor, a satisfação e o reconhecimento do príncipe seria, sem dúvida, muito grande. Se porém, esta taça contivesse uma jóia do valor de um reino, a admiração e alegria do rei seriam ainda mais profundas. Na santa Missa, porém, oferecemos ao Altíssimo a humanidade de Jesus Cristo, isto é, o que sua mão onipotente criou de mais excelente e mais sublime. Eis a taça preciosa; a jóia de um valor incomparável que encerra, é a divindade do Salvador; é nele que "reside a plenitude da divindade" (Col. 2, 9).
Propriamente falando, não é a divindade, mas a humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo que oferecemos à adorável Trindade; as duas naturezas, porém, são estreitamente unidas, e nunca realmente separadas, de sorte que as oferecemos juntas. Que satisfação para o Pai eterno quando recebe de tuas mãos este dom incomparável, aquele do qual disse: "É meu Filho predileto em quem pus todas as minhas complacências!" (Mt. 3, 17). Avalia a recompensa que te espera em troca, e a soma de dívidas que pagas por esta preciosa oferta.
Henrique I, rei da Inglaterra, ouvia, todos os dias, três Missas, ajoelhado ao pé do altar. Chegado o momento da consagração, aproximava-se do celebrante e sustentava-lhe os braços durante a elevação do Corpo e Sangue de Nosso Senhor. Era a maior consolação do piedoso monarca. Se houvesse ainda este piedoso costume, qual não seria a tua pressa em tomar lugar junto ao sacerdote! Deus se contenta, porém, com teu desejo, dize-lhe somente do íntimo do coração: "Senhor, ofereço-vos vosso caro Filho pelas mãos do sacerdote". Deus muito bem saberá interpretar-te a intenção.
A oferta da santa Hóstia é preciso unir a do preciosíssimo Sangue. É um meio excelente de salvar as almas. Lê-se, na vida de Santa Maria Madalena de Pazzi, que o próprio Senhor a instruíra neste assunto, fazendo-lhe conhecer quanto a oferta de seu precioso Sangue é própria para apaziguar a cólera de Deus. O divino Salvador se queixava do pequeno número dos que trabalham para acalmar a Justiça de seu Pai celeste, e exortava a santa a aplicar-se a isto. Desde então, ela oferecia o preciosíssimo Sangue até cinqüenta vezes por dia, pelos vivos e pelos mortos; e seu celeste Esposo lhe mostrou, muitas vezes, as almas que tirava do purgatório por este meio.
"Quando ofereces o precioso Sangue ao Pai celeste, diz a mesma Santa, lhe ofereces um dom tão agradável, que ele se reconhece teu devedor". Como efeito, que haverá, no céu e sobre a terra, que iguale, em valor, o precioso Sangue, do que diz São Tomás de Aquino, uma só gota vale mais que um mar de Sangue dos Mártires; do qual uma só gota seria assas poderosa para purificar o mundo de todos os pecados. Por conseguinte, se, em troca da oferta do precioso Sangue, Deus te concede o céu, não te retribui um bem de igual valor.

Se tivesses presenciado a crucificação do divino Salvador e recolhido o Sangue adorável que lhe corria das chagas sagradas, e tivesses elevado este precioso Sangue ao céu, implorando misericórdia para ti e para o gênero humano, o Pai celeste ter-se-ia enternecido, sem dúvida; todos os teus pecados teriam sido perdoados. Ora, é isto que fazes quando, durante a santa Missa, ofereces o precioso Sangue ao Deus altíssimo.

24 de março de 2015

Essência do Santo Sacrifício da Missa - Explicação da Santa Missa 24

XXIV. A SANTA MISSA NÃO PREJUDICA AO TRABALHO, ANTES O FAVORECE

Um dos principais pretextos alegados pelos homens, para dispensar-se da santa Missa, é o trabalho. Dia e noite a ele se entregam, lastimam a perda de tempo, se devem consagrar uma hora ao serviço de Deus, e qualificam de preguiçosos os que encaram, de modo sobrenatural, o emprego da vida. Que erro grosseiro é o destes insensatos!
Se encontram um amigo, quando vão para o trabalho, param de bom grado para ouvir novidades, conversam sobre isto ou aquilo; tratando-se, porém, de ouvir a santa Missa, a lembrança do trabalho os atormenta. Não vê que o inimigo é quem os torna tão apressados para as cousas da terra e tem grande interesse em afastar da santa Missa? Longe, porém, de prejudicar o trabalho, o santo Sacrifício o adianta e o torna mais lucrativo.
Nosso divino Mestre nos recomenda a procurar, antes de tudo, o reino de Deus e sua justiça, porque tudo o mais nos será dado por acréscimo. Estas palavras podem se interpretar assim: Não te inquietes do alimento corporal, porém, antes de principiar o trabalho, procura ouvir a santa Missa, ou pelo menos que um membro da família o assista em nome da família toda. Assim prestes a Deus, o culto que lhe é devido, e Deus, em troca, te dará o pão de cada dia.
Se prestares um serviço importante e agradável a um príncipe deste mundo, não serás recompensado? Ora, assistindo à santa Missa, rendes a Deus uma homenagem relevante, uma glória infinita, uma incomparável satisfação: ofereces um presente mais precioso que o próprio céu. O Senhor, riquíssimo e bondosíssimo, deixaria este ato sem recompensa? Jamais! Se todo e qualquer bem é recompensado por Ele, quanto mais o maior de todos os bens!
Sim, a santa Missa é o tesouro de que fala o livro da Sabedoria: "É um tesouro inestimável para os homens; os que nele têm parte gozam da amizade de Deus". É uma mina donde se extrai o ouro terrestre e o celeste. O que assiste a este Sacrifício, sai enriquecido dos méritos de Jesus Cristo, cumulado de bênçãos do Pai celeste: a bênção da santa Missa é, ao mesmo tempo, temporal e espiritual, assim como vemos pela oração que se segue à consagração: ... "para que todos, participando deste altar, recebendo o sacrossanto Corpo e Sangue de teu Filho, fiquemos cheios de toda a graça e bênção celestial".
Em virtude desta oração e do santo Sacrifício, és abençoado em teu corpo e tua alma, em tuas empresas e teus trabalhos.
Todos reconhecem a verdade do velho provérbio: "Tudo depende da bênção de Deus". Por maiores que sejam o zelo e a habilidade do homem no trabalho, sem a mão de Deus, não frutificará. Ora, não há meio mais eficaz neste mundo, de atrair os favores celestes, do que a piedosa audição da santa Missa. Numa visão, Santa Brígida viu o divino Salvador que, depois da elevação da sagrada Hóstia, traçava com a mão direita o sinal da cruz sobre o povo, dizendo: "Eu vos abençôo a vós todos que credes em mim". - Avalia, pois, o prejuízo, mesmo no teu trabalho, se, podendo assistir à santa Missa, por descuido, lhe perderes as graças abundantes.
Não digas, caro leitor, que a santa Missa de pouco serve, materialmente falando. Pois, só a ignorância pode afirmar isto e não duvidamos de que a leitura deste livro te iluminará a inteligência e te fará apreciar o valor e eficácia do santo Sacrifício dos nossos altares. "No dia em que ouvires a santa Missa, diz Fornero, bispo de Hebron, teu trabalho andará melhor, tuas penas serão mais aliviadas, tua cruz menos pesada". "O Senhor te fortificará no corpo e na alma, acrescenta outro autor de vida espiritual, os Anjos te cercarão mais afetuosamente e, se vieres, neste dia, a morrer, Jesus te assistirá no último momento, como o assististe pela manhã na santa Missa".
A audição da santa Missa favorece o trabalho; nossa própria experiência no-lo testemunha.

Lemos, na vida de Santo Isidoro, que cultivava as terras de um rico senhor. Entregava-se ao trabalho com todo o zelo possível, sem, todavia, faltar à santa Missa um dia. Sua devoção agradou de tal modo ao bom Deus, que Ele mandou que os Anjos ajudassem-no nos trabalhos campestres. Quando sua esposa lhe levava a refeição, via, não raras vezes, dois Anjos trabalhando ao lado de Isidoro. Este não os via e a piedosa mulher nada dizia, com receio de incitá-lo ao orgulho.

23 de março de 2015

Essência do Santo Sacrifício da Missa - Explicação da Santa Missa 23

XXIII. DA PRECE DO SACERDOTE E DOS ANJOS PELOS QUE OUVEM A SANTA MISSA

É uma queixa geral, entre as pessoas piedosas, de serem perseguidas pelas distrações durante a oração. Para isso, não conhecemos remédio melhor que a freqüente assistência à santa Missa, onde nossa pobre oração se une à de Jesus e a de seu sacerdote. Do mesmo modo que uma moeda de cobre se torna bela e brilhante, quando imersa no ouro em fusão, nossa oração, fraca e distraída, torna-se, por esta maneira, atenta e fervorosa.
Por isso disse o sábio e piedoso bispo Fornero: "A oração feita na Missa, em união com o Sacrifício, é mais eficaz do que todas as outras, embora cheias de fervor perfeito e longa duração".
Exporemos, neste capítulo, a razão de tão consoladora doutrina.
O sacerdote que celebra deve orar não somente pelos fiéis em geral e oferecer o Sacrifício por sua salvação, mas é ainda obrigado a orar, particularmente, pelos assistentes e apresentar-lhes as súplicas ao Altíssimo. Assim a oração do começo, chamada "Coleta" e a "Secreta" que se segue ao Ofertório, a "Post-Comunhão", e, em geral, todas as orações em que o pedido é feito em nome de muitos, são ditas pelos assistentes, por ti, portanto, se és do número deles, e te são proveitosas como se estivesses só na igreja com o sacerdote.
A fim de que saibas, minuciosamente, as orações em que tens parte oficial, vamos enumerá-las umas após outras.
Ao começar a santa Missa, o ministrante recita o "Confiteor", em nome do povo, sobre o qual o sacerdote pronuncia a absolvição seguinte: "O Senhor onipotente se compadeça de vós, e, perdoados os vossos pecados, vos conduza à vida eterna! Assim seja". Em seguida, subindo ao altar, continua: "Apagai, Senhor, Vos suplicamos, nossas iniqüidades, para que mereçamos, com pureza, entrar no lugar santo. Por Cristo Senhor Nosso. Amém".
Ao "Kyrie", que é um grito, um pedido de socorro à Santíssima Trindade; ao "Glória in excelsis", como também à "Coleta", o sacerdote fala em seu nome e no teu. Saúda a assembléia, reunida ao redor do altar, com a santa saudação: "Dominus vosbiscum - o Senhor esteja convosco!" Era a saudação do Anjo a Gedeão; de Booz aos ceifadores; do Arcanjo Gabriel à Santíssima Virgem. Por estas palavras, oito vezes repetidas, o sacerdote deseja salvação e bênção ao povo, porque, se Deus está conosco, que pode nos faltar?
Ao "Credo" pronuncia, em seu nome e em nome dos fiéis, a confissão da fé católica, em que desejamos todos viver e morrer.
"A oblação do pão" diz: "Recebei Pai Santo, onipotente e eterno Deus, esta Hóstia imaculada que eu, indigno servo, vos ofereço, meu Deus vivo e verdadeiro, por todos os meus inumeráveis pecados e ofensas e negligências, por todos os presentes, e por todos os fiéis cristãos, vivos e defuntos, para que a mim e a eles aproveite e seja a salvação na vida eterna. Amém".
Quando deita a água e o vinho no cálice, diz: "Deus, que criaste, maravilhosamente, a dignidade da humana natureza e, mais admiravelmente, a reparaste, concede-nos, por este mistério da água e do vinho, que sejamos consortes da divindade daquele que se dignou de fazer-se partícipe de nossa humanidade, Jesus Cristo, teu Filho, Senhor nosso que contigo reina na unidade do Espírito Santo, Deus por todos os séculos dos séculos. Amém".
A "oblação do cálice", o sacerdote diz: "Oferecemos-te, Senhor, o cálice da salvação, rogando-te a clemência, para que suba à presença da divina Majestade o suave perfume, por nossa salvação e de todo o mundo".
Depois do "Lavabo", diz o sacerdote, inclinando-se: "Recebei, Santíssima Trindade, esta oblação que te oferecemos em memória da Paixão e Ressurreição e Ascensão de Jesus Cristo, nosso Senhor, e em honra da Bem-aventurada Virgem Maria, do Bem-aventurado São João Batista, dos Santos Apóstolos São Pedro e São Paulo, e de todos os Santos; para que lhes seja em honra e a nós em salvação, e estes, cuja memória celebramos na terra, se dignem de interceder por nós no céu. Pelo mesmo Cristo, Senhor nosso. Amém". Voltando-se para o povo, continua: "Orai, irmãos, para que o sacrifício vosso e meu seja aceito por Deus onipotente"; e o ministrante responde: "Receba o Senhor o sacrifício de tua mão, para louvor e glória de seu nome e também para proveito nosso e de toda a sua santa Igreja".
A "Secreta", oração misteriosa, segue-se em voz baixa e, nela, o sacerdote reza também por todo o povo. Ordinariamente são três, outras vezes mais, nas grandes festas, uma apenas.
No "Prefácio", o sacerdote excita a assembléia a unir os louvores aos seus, dizendo: "O Senhor seja convosco. - Erguei os vossos corações! - demos graças ao Senhor, nosso Deus! - verdadeiramente é justo, conveniente e salutar que, sempre e em toda a parte, demos graças, Senhor santo, Pai onipotente, Deus eterno, porque, pelo Mistério do Verbo encarnado, resplandeceu, aos olhos de nossa mente, uma nova luz de tua claridade; de sorte que, enquanto conhecemos a Deus visivelmente, sejamos por ele arrebatados ao amor das cousas invisíveis. E por isso, com os Anjos e Arcanjos, com os Tronos e Dominações e com toda a milícia do celestial exército, cantemos o hino de tua glória, dizendo sem cessar: - Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos exércitos! Cheios estão o céu e a terra de tua glória. Hosana nas alturas! Bendito seja o que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!"
Logo depois começa o "Cânon", parte da santa Missa que se reza em voz baixa, e da qual lembraremos somente o "Memento" pelos vivos: "Lembrai-vos, Senhor, de vossos servos e servas N. N. ..... e de todos os circunstantes, cuja fé e devoção vos são conhecidas, pelos quais vos oferecemos este sacrifício de louvor, por eles e por todos os seus, pela redenção de suas almas, pela esperança de sua salvação e incolumidade, e vos tributam os votos, a vós, eterno Deus, vivo e verdadeiro".
Aprende, por estas palavras, a não te afligir, se tua pobreza te priva de mandar celebrar Missas. Aquela que ouves é oferecida em tua intenção pelo sacerdote que aplica o mérito também a ti e aos teus, segundo tua piedade e teu desejo.
O sacerdote continua: "Nós, que participamos duma mesma comunhão, honramos, em primeiro lugar, a memória da gloriosa sempre Virgem Maria, Mãe de Jesus Cristo, nosso Senhor e Deus, e a dos Bem-aventurados Apóstolos e Mártires, Pedro e Paulo... e todos os Santos; pedimos que nos concedais, pelos seus merecimentos e rogos, que, em todas as cousas, sejamos defendidos pelo auxílio de vossa proteção. Por Cristo, Nosso Senhor. Amém".
As mãos estendidas sobre a oferta, o sacerdote prossegue ainda: "Por isso vos pedimos, Senhor, que recebais, favoravelmente, esta nossa oferta, e de toda a Igreja; e que, enquanto vivermos, gozemos de vossa paz e, depois, sejamos livres da eterna condenação e contados entre o número de vossos escolhidos. Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém".
Depois da "elevação", diz: "Portanto, Senhor, nós, teus servos e teu povo santo, lembrando-nos da Paixão de Cristo, teu Filho e Senhor nosso, de sua Ressurreição saindo vitorioso do sepulcro, e de sua gloriosa Ascensão aos céus; oferecemos à tua gloriosa Majestade, de teus mesmos dons e dádivas, a Hóstia pura, a Hóstia santa, a Hóstia imaculada, o Pão santo da vida eterna, e o Cálice da salvação perpétua. Sobre estes dons te dignes lançar um olhar favorável e recebê-los benignamente, assim como recebestes as ofertas do justo Abel, teu servo, e o sacrifício de nosso patriarca Abraão, e o que te ofereceu o sumo sacerdote Melquisedec, santo sacrifício, Hóstia imaculada".
O sacerdote faz, depois, uma profunda reverência, humilhando-se diante de Deus, e continua: "Ó Deus onipotente, nós te suplicamos, com humildade profunda, que mandes levar estes dons pelas mãos de teu santo Anjo, a teu sublime altar, na presença de tua divina Majestade, para que todos nós que, participando deste altar, recebamos o sacrossanto Corpo e Sangue de teu Filho, fiquemos cheios de toda a graça e bênção celestial. Pelo mesmo Cristo, Nosso Senhor. Amém".
Ao "Memento" dos defuntos, o sacerdote ora, em primeiro lugar, por todos os fiéis defuntos, depois por todos aqueles em cuja intenção celebra ou que lhe foram recomendados, e acrescenta: "E também a nós pecadores, que esperamos na multidão de tuas misericórdias, te dignes dar alguma parte e sociedade com teus santos Apóstolos e Mártires: com João, Estevão, Matias, Barnabé, Inácio, Alexandre, Marcelino, Pedro, Felicidade, Perpétua, Águeda, Lúcia, Cecília, Anastácia, e com todos os santos, em cuja companhia te rogamos nos admitas generoso, não considerando nossos méritos, mas a tua indulgência. Por Cristo, Nosso Senhor. Amém".
Em seguida, reza o "Padre-Nosso" por si, e acrescenta: "Livrai-nos, te rogamos, Senhor, de todos os males passados, presentes e futuros e, pela intercessão da gloriosa sempre Virgem Maria e de teus Bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, de André e de todos os Santos, dá-nos benigno a paz em nossos dias; para que, ajudados com o socorro de tua misericórdia, vivamos sempre livres do pecado e seguros de toda a perturbação. Pelo mesmo Senhor nosso, teu Filho Jesus Cristo, que contigo vive e reina em unidade com o Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém".
Depois faz a fração da sagrada Hóstia, dizendo: "Esta mistura e consagração do Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, aproveite-nos para a vida eterna. Amém". - Inclinando-se então profundamente, diz três vezes: "Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós ... dai-nos a paz".
Depois da "Comunhão", seguem-se algumas orações que o sacerdote reza por si, mas, antes de abençoar os fiéis, diz ainda: "Agradável vos seja, Santíssima Trindade, o obséquio de minha servidão, fazei que este Sacrifício, que eu, indigno, Vos ofereci, aos olhos de vossa Majestade, seja aceito por Vós, e por vossa misericórdia se torne propiciatório para mim e todos aqueles por quem o ofereci. Por Cristo Nosso Senhor. Amém".
Enfim, o sacerdote te abençoa em nome de Jesus Cristo e de sua Igreja para que estejas preservado do mal durante o dia.
Eis as orações que o ministro de Deus diz em teu favor. Simples na aparência, têm, todavia, uma maravilhosa eficácia, pois são inspiradas pelo divino Espírito Santo, compostas e sancionadas pela santa Igreja. O sacerdote não as diz em seu nome, porém em nome de Jesus Cristo e de toda a cristandade, da qual é o representante. Com efeito, a santa Igreja, isto é, todos os fiéis enviam o sacerdote como seu representante ao altar e o encarregam de seus pedidos, para que os exponha a Deus, durante a santa Missa, e trate da felicidade eterna e temporal de todos os fiéis e, em particular também, da libertação das almas do purgatório. As palavras deste sublime entretenimento acham-se ditadas e encerradas no missal pela própria Igreja; de maneira que, quando o sacerdote chega ao altar e se apresenta diante da divina Majestade, Deus não o considera mais como pecador, porém como embaixador da Igreja, como representante de seu Filho, do qual traz as vestes e as insígnias, e em nome do qual pronuncia as palavras da consagração: "Isto é o meu Corpo, isto é o meu Sangue". Nestas condições, sua oração vale junto a Deus tanto como a oração do próprio Jesus. E não somente ora o sacerdote, mas oferece também um dom, uma jóia de valor infinito: o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo. Este dom, Deus não o pode repelir, nem recusar ao sacerdote os piedosos pedidos. Unamos, pois, nossa fraca oração à do sacerdote e assim tornar-se-á mais eficaz, mais nobre e obterá o que nunca obteríamos sozinhos.
Talvez perguntes: Todas as santas Missas são igualmente boas? - Antes de responder, dizemos que deves bem distinguir entre o sacrifício e a piedade de quem o oferece. O sacrifício, sem dúvida, é igualmente santo e agradável a Deus, tanto do bom como do mau sacerdote, pois quem é oferecido, em todas as Missas, é o próprio Jesus Cristo. A celebração, isto é, a recitação das orações na santa Missa, porém, não é igualmente agradável a Deus em todas as Missas. Neste sentido, o maior ou menor agrado depende do fervor e da devoção do celebrante. O sacerdote bem o sabe e, por isso, pede em cada Missa, freqüentemente, a Deus as suas graças, e aos assistentes, que o ajudem com as orações, a fim de que seu sacrifício seja agradável a Deus onipotente. É o sentido do "Orate fratres": "Orai, irmãos", diz o sacerdote voltando-se para o povo, "para que o vosso sacrifício e o meu seja agradável a Deus onipotente".
São Boaventura escreve: "Todas as Missas são igualmente boas no que diz respeito ao divino Salvador, com relação ao celebrante, porém, há Missas melhores e menos boas".
O cardeal Bona acentua este pensamento, quando diz: "Quanto mais santo e agradável a Deus for o sacerdote, tanto mais agradável será o acolhimento reservado à sua oração e ao seu sacrifício e mais útil a sua Missa, porque se dá com a santa Missa o mesmo que se dá com as outras obras pias: os frutos obtidos são proporcionais ao fervor".
É certo que os Anjos estão presentes à santa Missa. A Igreja o afirma. O profeta real assim cantou: "Ordenou a seus Anjos que te guardem em todos os teus caminhos". Segue-se que os Anjos nos acompanham os passos. Quando, porém, nos dirigimos para o altar do Senhor, é, com mais alegria e maior satisfação, que desempenham o ofício, afugentando os maus espíritos que querem perturbar-nos a devoção, impondo-lhes silêncio ao cochichar dissipado que chamamos distrações. Há, pelo menos, o mesmo número de Anjos presentes à santa Missa quanto de pessoas, visto que cada assistente tem seu Anjo da guarda, ajudando-o a orar e adorar a Jesus Cristo sobre o altar. Pede, pois, ao teu que ouça a santa Missa por ti e contigo, e sua oração inflamada suprirá as misérias da tua.
Além dos Anjos da guarda, príncipes da milícia celeste estão, igualmente, presentes no altar, porque ao Rei dos Anjos, descendo do céu, em pessoa, convém que seus ministros rodeiem e lhe prestem homenagens.
Assistindo à santa Missa, podemos, pois, dizer a Deus com o rei David: "Adorar-vos-ei, em vosso santo tabernáculo, cantarei vossos louvores, na presença dos espíritos celestes, e bendirei vosso santo nome" (Sal. 137). Está, portanto, ajoelhado no meio destes espíritos puros que ouvem a santa Missa contigo e oram, ardentemente, por tua salvação.
"Lembra-te, ó homem, diz São João Crisóstomo, junto de quem te achas, durante este misterioso Sacrifício. Estás entre Querubins e Serafins, entre as Potências celestes. Comporta-te, pois, de modo a não entristecê-los com a tua impiedade, pelo contrário, regozija-os com o teu fervor".
Quando o sacerdote celebra o sublime e temível Sacrifício, os Anjos assistem-no e, com coro, elevam a voz para cantar a glória daquele que se imola sobre o altar. Neste momento, não oram somente os homens, mas os próprios Anjos dobram os joelhos ante Deus e intercedem por nós, e esta oração dos Anjos, é mais poderosa do que a nossa. É o tempo propício, pois o santo Sacrifício está ao dispor destas potências celestes. Entretanto, unidos os nossos rogos aos dos Anjos, os nossos pedidos atravessam as nuvens e são mais facilmente ouvidos do que se tivéssemos orando em casa, sozinhos.
Os Anjos não somente estão presentes à santa Missa, como também oferecem ao Altíssimo o santo Sacrifício e as nossas orações. São João viu-os nesta sublime função e no-lo refere assim: "Veio, então, o Anjo e pôs-se ante o altar, trazendo um turíbulo de ouro; lhe foram dados muitos perfumes, a fim de que fizesse a oferta das orações de todos os Santos sobre o altar de ouro, que está diante do trono de Deus. E a fumaça dos perfumes, emanados das orações dos Santos, subiu da mão do Anjo até a presença de Deus" (Apoc. 8, 3 e 4).

Assim os Anjos apressam-se em recolher-te as orações durante a santa Missa, para leva-las ao céu e espalhá-las como perfume, em presença de Deus. E, se estas orações são unidas às de Jesus Cristo e às dos Anjos, seu perfume é infinitamente agradável à divina Majestade e tem uma eficácia muito maior, que todas as orações feitas fora da santa Missa. Novo motivo, pois, para assistires, todos os dias, ao santo sacrifício, onde tão poderosos Anjos te esperam e transmitem-te os votos a Deus, vivificando-os com os seus santos ardores.