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12 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO III
 
Consideremos, finalmente, o grande desejo que tem Jesus Cristo de que o recebamos na santa comunhão... Sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora... (Jo 13,1), mas por que Jesus Cristo chamava a sua hora aquela noite em que devia começar sua dolorosa Paixão?... É porque naquela noite ia legar-nos este divino Sacramento, com o fim de unir-se ele mesmo às almas queridas de seus fiéis. Este sublime desígnio fê-lo exclamar então: “desejei ardentemente celebrar convosco esta Páscoa” (Lc 12,15), denotando com estas palavras o divino Redentor o veemente desejo que nutria de estabelecer conosco essa união na Eucaristia...
Desejei ardentemente... Assim o obriga a falar o amor imenso que nos tem — disse São Lourenço Justiniano.
Quis ocultar-se sob as espécies de pão, a fim de ser acessível a todos. Se houvesse escolhido para este portento algum alimento esquisito e caro, os pobres não poderiam recebê-lo freqüentemente. Outra classe de alimento, mesmo que não fosse seleto e precioso, não se encontraria em toda parte. Por isso, o Senhor preferiu esconder-se sob as espécies do pão, porque o pão facilmente se encontra e todos os homens o podem procurar.
O vivo desejo que tem o Redentor de que com freqüência o recebamos sacramentado, movia-o a exortar-nos muitas vezes: “Vinde, comei o pão; e bebei o vinho que vos preparei. Comei, amigos, e bebei; inebriai-vos, meus muito amados” (Pr 9,5; Ct 5,1); venho a vô-lo impor como preceito: “Tomai e comei; este é meu corpo” (Mt 26,26). E para nos atrair a recebê-lo, estimula-nos com a promessa da vida eterna. “Quem come a minha carne, tem a vida eterna. Quem come este pão, viverá eternamente” (Jo 6,55.59). E no caso contrário ameaça-nos com a exclusão do paraíso da glória: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem, não tereis a vida em vós” (Jo 6,54). Tais convites, promessas e ameaças nascem do desejo de Cristo de unir-se a nós na Eucaristia; e este desejo procede do amor que Jesus nos tem, porque — segundo disse São Francisco de Sales, — a finalidade do amor não é outra do que unir-se ao objeto amado; ora, neste Sacramento Jesus mesmo se une a nossas almas (aquele que come minha carne e bebe meu sangue, fica em mim e eu nele (Jo 6,57). É este o motivo por que deseja tanto que o tomemos neste Sacramento. “O amoroso ímpeto com que a abelha esvoaça sobre as flores para lhes extrair o mel — disse o Senhor a Santa Matilde — não pode ser comparado ao amor com que eu me uno às almas que me amam”.
Compreendessem os fiéis o grande amor que a santa comunhão traz às almas!... Cristo é o senhor de toda riqueza, e o Pai Eterno depositou tudo em suas mãos (Jo 13,3). Quando Jesus toma posse da alma pela sagrada Eucaristia, traz consigo riquíssimo tesouro de graças. Vieram a mim todos os bens juntamente com ela (Sb 7,11), — disse Salomão, falando da eterna Sabedoria.
Segundo São Dionísio, o Santíssimo Sacramento possui virtude suprema para santificar as almas. E São Vicente Ferrer deixou escrito que mais aproveita aos fiéis uma comunhão do que jejuar a pão e água uma semana inteira. A comunhão, como ensina o Concílio de Trento, é o grande remédio que nos livra das culpas veniais e nos preserva das mortais. Por esse motivo, Santo Inácio Mártir chama a Eucaristia “medicina da imortalidade”. Inocêncio III disse que Jesus Cristo, por meio de sua Paixão e Morte, nos livrou das penas do pecado, mas que com a Eucaristia nos livra do pecado.
Este sacramento nos inflama no amor de Deus. “Introduziu-me na adega do vinho; ordenou em mim o amor. Confortai-me com flores, fortalecei-me com frutas, porque desfaleço de amor” (Ct 2,4-5). São Gregório Nisseno disse que esta adega é a santa comunhão, na qual a alma de tal modo se embriaga do amor divino, que esquece as coisas da terra e tudo o que é criado; desfalece, enfim, de amor vivíssimo.
Também o venerável Pe. Francisco de Olímpio, teatino, dizia que nada nos inflama tanto no amor de Deus como a sagrada Eucaristia. Deus é amor; é fogo consumidor (Jo 4,8; Dt 4,24). Foi esse fogo de amor que o Verbo Eterno veio acender na terra (Lc 12,49). E na verdade, que ardentíssimas chamas de amor divino acende Jesus Cristo na alma que o recebe sacramentado com vivo desejo! Santa Catarina de Sena viu um dia Jesus Sacramentado nas mãos de um sacerdote e a sagrada hóstia lhe parecia brilhantíssima fogueira de amor, ficando a Santa maravilhada como os corações dos homens não ardessem todos e se reduzissem a cinza por tamanho incêndio.
Santa Rosa de Lima assegurava que, ao comungar, parecia-lhe que recebia o sol. O rosto da Santa resplandecia de tanta luz, que deslumbrava aos que a viam, e da boca exalava tal calor, que a pessoa que lhe dava de beber depois da comunhão sentia a mão quente como se a tivesse junto a um forno. O Santo rei Venceslau, quando ia visitar o Santíssimo Sacramento, sentia-se inflamado de ardor tão intenso, mesmo exteriormente, que a um criado seu, que o acompanhava, ao caminhar certa noite pela neve atrás do rei, bastou pôr os pés nas pisadas do Santo para não sentir frio algum. São João Crisóstomo dizia, que, sendo o Santíssimo Sacramento fogo abrasador, deveríamos, ao retirar-nos do altar, sentir tais chamas de amor que o demônio não se atrevesse a tentar-nos.
Dizes, talvez, que não te atreves a comungar com freqüência porque não sentes em ti esse fogo do amor divino. Mas essa escusa, como observa Gerson, seria a mesma que dizer que não te queres aproximar do fogo porque tens frio. Quanto maior for a tibieza que sentimos, tanto mais freqüentemente devemos receber o Santo Sacramento, contanto que tenhamos desejo de amar a Deus. “Se acaso te perguntarem os mundanos — escreve São Francisco de Sales em sua “Introdução à vida devota” — por que é que comungas tão a miúdo... dize-lhes que há duas classes de pessoas que devem comungar com freqüência: os perfeitos, porque, estando bem dispostos, ficariam prejudicados em se não achegando ao manancial e fonte da perfeição; e os imperfeitos, para terem justo direito de aspirar a ela...” E São Boaventura diz igualmente: “Ainda que sejais tíbio, aproxima-te da Eucaristia, confiando na misericórdia de Deus. Quanto mais enfermos estivermos, tanto mais necessitamos do médico”. E, finalmente. Cristo mesmo disse a Santa Matilde: “Quando houveres de comungar, deseja ter todo o amor que tenha tido o coração mais fervoroso, e eu aceitarei teu desejo como se tivesses realmente esse amor a que aspiras”.
 
AFETOS E SÚPLICAS
 
Ó amantíssimo Senhor das almas! Já não podeis dar-nos maior prova do vosso amor. Que mais poderíeis inventar para que vos amássemos?...
Fazei, ó Bondade infinita, que doravante vos ame viva e eternamente! A quem é que o meu coração deve amar com afeto mais profundo do que a vós, meu Redentor, que, depois de terdes dado a vida por mim, vos dais neste Sacramento?... Ah! meu Senhor! recorde eu sempre vosso excelso amor e me esqueça a mim inteiramente, a fim de amar-vos sem intermissão e sem reserva!... Amo-vos, meu Deus, sobre todas as coisas, e só a vós desejo amar. Afastai do meu coração todo afeto que não seja para vós... Dou-vos graças por me terdes concedido tempo de amar-vos e de chorar as ofensas que vos fiz. Desejo, meu Jesus, que sejais o único objeto do meu amor. Socorrei-me, salvai-me e minha salvação seja amar-vos com toda a minha alma nesta e na vida futura...
Maria, minha Mãe, ajudai-me a amar a Cristo. Rogai por mim.

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