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29 de junho de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

9/14  -  Do temor excessivo da morte.

Na nossa língua chamamos aos que morreram passados, como se disséramos que passaram desta vida para uma melhor; e na verdade o tempo que passarmos neste mundo de miséria, a que chamamos vida a cada momento nos conduz ao túmulo. É isto que fazia dizer a um antigo filósofo que nós morremos todos os dias e que todos os dias nos tira uma porção de nosso ser. Daqui a bela expressão da sábia Tecuita: Todos morremos e estamos no mundo como a corrente das águas que se precipita ao rio. A natureza imprimiu em todos os homens o horror da morte; o próprio Salvador recebendo a nossa carne e tornando-se semelhante a seu irmão, exceto no pecado, não se quis isentar deste temor, embora soubesse que a morte o isentaria das misérias humanas e o transferiria para uma glória que quanto a sua alma já possuía.
Um antigo dizia que a morte não deve ser reputada um mal, nem considerada apoquentadora, quando é precedida por uma vida boa, porque nada a torna tão temível como o que se lhe segue. Mas contra estes temores, que nascem da apreensão dos juízos divinos, temos o escudo da bem aventurada esperança, a qual, fazendo-nos confiar, não em as nossas virtudes, mas unicamente  na misericórdia de Deus, nos assegura que os que esperam na sua bondade não serão enganados.
Cometi muitas faltas, é verdade: mas quem seria o louco que pensasse cometer mais do que as que Deus pode perdoar, e ousasse medir a grandeza dos seus crimes pela imensidade desta misericórdia infinita, que os mergulha na profundidade do mar do ouvido? Só os desesperados como Caim é que podem dizer que o seu pecado é tão grande que não tem perdão: porque "há uma misericórdia em Deus e uma redenção abundante: é Ele que redime Israel de todas as suas iniquidades".
É verdade que à vista dos nossos pecados passados devemos sempre temer e amargurar-nos: mas não convém ficarmos por aqui, mas chamar em nosso auxílio a fé, a esperança e o amor da divina e infinita bondade; desta forma a nossa amargura se converterá em paz, o nosso temor, em lugar de servil, tornar-se-á casto e filial, que é um amargo eloés, será dulcificada pela doçura da confiança em Deus.
O que fica na desconfiança e temor sem passar á esperança e confiança, parece-me com aquele que em uma roseira colhesse os espinhos e deixasse as rosas. Convém imitar os cirurgiões, que não abrem a veia sem ligarem bem o membro,para estancarem o sangue.
O que confia em Deus será como o monte Sião que não se desloca por tempestade alguma.

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