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2 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO II

Vejamos agora como se deve vencer o mundo. O demônio é um inimigo terrível, mas o mundo é pior ainda. Se o demônio não se servisse dele, isto é, dos homens maus, que compõem o que vulgarmente se entende por mundo, não conseguirá as vitórias que obtém. O próprio Redentor nos admoesta que nos acautelemos mais dos homens que do demônio (Mt 10,17). Aqueles são freqüentemente piores do que estes, porque os demônios fogem diante da oração e da invocação dos nomes de Jesus e de Maria, mas os maus amigos, quando tentam arrastar alguém ao pecado e se lhes responde com palavras edificantes e cristãs, longe de fugirem e de se recolherem, cada vez mais perseguem o coitado que lhes cai nas mãos, ridicularizando-o, chamando-o de néscio, covarde e destituído de caráter; e, quando outra coisa não conseguem, tratam-no de hipócrita, que quer fingir santidade. Certas almas tímidas ou fracas, para escapar a tais ataques e zombarias, cedem àqueles ministros de Lúcifer e pecam miseravelmente. Fica persuadido, portanto, meu irmão, de que serás menosprezado e exposto à zombaria dos maus e dos ímpios, se quiseres viver piedosamente (Pr 21,27). O que vive mal não pode tolerar os que vivem bem, porque a vida destes é para eles uma contínua repreensão e, por isso, desejam que todos lhes sigam o exemplo, a fim de atenuar o espicaçar do remorso causado pelo procedimento cristão dos demais. O que serve a Deus, diz o Apóstolo, tem que ser perseguido pelo mundo (2Tm 3,12). Todos os Santos sofreram rudes perseguições. Quem foi mais santo que Jesus Cristo? E, no entanto, o mundo o perseguiu até dar-lhe afrontosa morte de cruz.
Isto não é surpresa, porque as máximas do mundo são inteiramente contrárias às de Jesus Cristo. Ao que o mundo estima, chama Jesus Cristo loucura (1Cor 3,19). Por sua parte, o mundo trata de demência ao que é estimado por Nosso Senhor, como as cruzes, os sofrimentos e os desprezos (1Cor 1,18).
Consolemo-nos, todavia, que, se os maus nos censuram e amaldiçoam, Deus nos louva e exalta (Sl 28).
Já não nos basta sermos louvados por Deus, por Maria Santíssima, pelos anjos, pelos santos e por todas as pessoas de bem? Deixemos, pois, que os pecadores digam o que quiserem e continuemos a servir a Deus que é tão fiel e amoroso para aqueles que o amam. Quanto maiores forem os obstáculos e as contradições que encontrarmos na prática do bem, tanto mais acendrada será a complacência do Senhor e tanto maior o nosso mérito. Imaginemos que neste mundo só Deus e nós existíssemos e, quando os mundanos nos perseguirem, encomendemo-nos ao Senhor, agradecendo-lhe a luz com que nos favorece e que nega a eles e prossigamos em nosso caminho. Nunca nos cause rubor o sermos e parecermos cristãos, porque, se corássemos diante de Cristo, ele se envergonharia de nós, segundo afirmou, e não nos receberia à sua direita no dia do juízo (Lc 9,23).
Se nos quisermos salvar, é mister que estejamos firmemente resolvidos a sofrer e a empregar constantemente violência sobre nós mesmos. “O caminho que conduz à vida é estreito”.
O reino dos céus se alcança à viva força e só os que a empregam é que o arrebatam (Mt 7,14; 11,12). Quem não fizer violência a si mesmo, não se salvará. Isto é imprescindível, porque, se quisermos praticar o bem, teremos que lutar contra a nossa natureza rebelde. É particularmente necessário violentarmo-nos no princípio para extirpar os maus hábitos e adquirir os bons. Formado o bom costume, torna-se fácil e até doce a observância da lei divina.
O Senhor disse a Santa Brígida que, na prática das virtudes, os espinhos se mudam em rosas, quando, com valor e paciência, sofremos as primeiras dores desses espinhos. Atende, pois, meu irmão, a Jesus cristo, que te diz como ao paralítico: “Vê que já estás curado, não peques doravante, para que não te suceda pior mal” (Jo 5,14). Pondera ainda São Bernardo que, se por desgraça recaíres, tua ruína será pior que todas as tuas quedas precedentes. Ai daqueles, diz o Senhor, que seguem o caminho do céu e depois o abandonam! (Is 30,1) Serão punidos como rebeldes à luz (Jo 3,20). O castigo desses infelizes, que Deus favoreceu e iluminou com suas luzes e que, depois, lhe foram infiéis, é serem feridos de cegueira e morrerem assim nos seus pecados. “Mas, se o justo se desviar de sua justiça... porventura viverá? Não se fará memória de nenhuma de suas obras justas... morrerá por seu pecado” (Sl 88,2).

AFETOS E SÚPLICAS

Ah, meu Deus! Quantas vezes mereci tal castigo, porque tantas vezes deixei o pecado, graças às luzes que me destes, e a seguir recaí miseravelmente em minhas culpas! Dou-vos infinitas graças por me não ter deixado vossa bondade entregue à minha cegueira, privando-me das vossas luzes como o merecia. Obrigadíssimo vos fico e muito ingrato seria se tornasse a separar-me de vós. Não será assim, meu Redentor! Antes espero que no restante de minha vida e em toda a eternidade hei de louvar e cantar as vossas misericórdias (Ez 18,24), amando-vos sempre sem perder vossa divina graça. A ingratidão de que me tornei culpado, e que maldigo e aborreço sobre todo o mal, servir-me-á de estímulo para chorar as ofensas que vos fiz e para inflamar-me no vosso amor, que me acolheu apesar de meus pecados e que me concedeu tantas graças. Amo-vos, meu Deus, digno de infinito amor. Desde hoje sereis meu único amor, meu único bem. Pai Eterno, pelos merecimentos de Jesus Cristo vos peço a graça da perseverança final no vosso amor. Sei que me concedereis, uma vez que continuo a vo-la pedir.
Mas quem me afiança de que assim o farei? Peço-vos, por isso, a graça de que sempre vos implore esse dom precioso...
Ó Maria, minha advogada, minha esperança e meu refúgio! Alcançai-me, por vossa intercessão, constância para pedir a Deus a perseverança final. Rogo-vos pelo amor que tendes a Jesus Cristo.

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