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18 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO III

Aquele que se conserva unido à vontade de Deus, goza, mesmo neste mundo, de paz admirável e constante. “Não se contrista o justo por coisa que lhe aconteça” (Pr 12,21), porque uma alma se alegra e se satisfaz ao ver todos os seus desejos cumpridos; ora, quem só quer o que Deus quer, tem tudo o que deseja, pois que tudo o que acontece é por efeito da vontade de Deus. Quando a alma resignada, diz Salviano, recebe humilhações, quer ser humilhada; quando cai na pobreza, compraz-se em ser pobre; em suma, fica contente com tudo quanto lhe sucede e por isso goza de felicidade nesta vida. Faça frio ou calor, caia chuva ou sopre o vento, com tudo ela se conforma e se alegra, porque assim Deus o quer. Quando sofre reveses, perseguições, enfermidades e até lhe sobrevenha a própria morte, quer ser pobre, perseguida, enferma, quer morrer, porque tudo é da vontade de Deus. Aquele que deste modo descansa na vontade de Deus e se compraz naquilo que a Providência dispuser, é como se estivesse sobranceiro às nuvens do céu e visse a seus pés furiosa tempestade, sem recear perturbação ou dano. Esta é aquela paz que — como disse o Apóstolo — supera a todas as delícias do mundo (Fp 4,7); paz constante, serena, imutável.
“O néscio é inconstante como a lua, o sábio se mantém na sabedoria como o sol” (Ecl 27,12). O pecador é variável como a luz da lua, que hoje cresce e noutros dias míngua. Hoje o vemos rir; amanhã, chorar; ora se mostra alegre e tranqüilo; ora, aflito e furioso. Varia, enfim, à mercê das coisas prósperas ou adversas que lhe sucedem.
O justo, pelo contrário, se mantém sempre com igualdade e constância.
Nenhum acontecimento o priva de sua feliz tranqüilidade, porque essa paz de que goza é filha de sua conformidade perfeita com a vontade de Deus. “Paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2,14).
Santa Maria Madalena de Pazzi, só com o ouvir falar na vontade de Deus, já sentia consolação tão profunda, que ficava arrebatada em êxtases de amor... É verdade que as faculdades de nossa parte inferior não deixarão de fazer-nos sentir alguma dor na ocorrência de coisas adversas; mas em nossa vontade superior, se estiver unida a Deus, reinará sempre paz profunda e inefável. A vossa alegria, nin-guém vo-la tirará (Jo 16,22).
Indizível loucura é a daqueles que se opõem à vontade de Deus. O que Deus quer não pode deixar de acontecer. Quem é que resiste à sua vontade? (Rm 9,19). De sorte que esses desgraçados, quer queiram, quer não, têm de levar a sua cruz, mesmo que seja sem paz nem proveito.
Quem é que lhe resistiu e teve paz? (?).
E, afinal, que quer Deus senão o nosso bem? Quer que sejamos santos para fazer-nos felizes nesta vida e bem-aventurados na outra.
Persuadamo-nos de que as cruzes que Deus nos envia concorrem para o nosso bem (Rm 8,28) e de que os próprios castigos temporais não são enviados para a nossa ruína, mas para nos corrigir e alcançar a eterna felicidade (Jt 8,27).
Deus ama-nos todos, que não somente deseja nossa salvação, mas é todo solícito em procurar-nos (Sl 39,18). E que nos poderá recusar quem nos deu o seu próprio Filho?... (Rm 8,32) Entreguemo-nos, portanto, sem reserva às mãos de Deus, que jamais deixa de atender ao nosso bem (1Pd 5,7). “Pensa tu em mim, — dizia o Senhor a Santa Catarina de Sena — que eu pensarei em ti”. Digamos sempre como a Esposa: “Meu amado para mim e eu para ele” (Ct 2,16). Meu amado trata do meu bem, e eu não hei de pen-sar noutra coisa que em agradar-lhe e unir-me à sua santa vontade. Não devemos pedir, dizia o santo abade Nilo, que Deus faça o que desejamos, mas sim que façamos o que ele quer.
Quem proceder assim, passará uma vida feliz e terá morte santa.
Aquele que morre inteiramente resignado com a vontade divina nos deixa certeza moral de sua salvação. Mas aquele que não vive unido à vontade de Deus, também não estará resignado na hora da morte e não se salvará. Procuremos, pois, familiarizar-nos com certas passagens da Sagrada Escritura, que nos podem ajudar a conservar essa união incomparável: “Dizei-me, Senhor, o que quereis que eu faça, pois desejo fazê-lo (At 9,6). “Eis aqui a vossa serva: mandai e sereis obedecido” (Lc 1,38). “Salvai-me, Senhor, e fazei de mim o que quiserdes. Sou vosso e não meu” (Sl 118,94). E quando nos suceda alguma adversidade, digamos logo: “Seja assim, meu Deus, porque assim o quereis” (Mt 11,26). Não nos esqueçamos especialmente do terceiro pedido da oração dominical: “Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”.
Digamo-lo a miúdo, com grande afeto, e repitamo-lo muitas vezes...
Felizes de nós se vivermos e morrermos, dizen-do: Fiat voluntas tua!

AFETOS E SÚPLICAS

Ó Jesus, meu Redentor, à força de dores, con-sumistes na cruz a vossa vida, a fim de salvar-me e remir-me... Tende compaixão de mim e não permitais que uma alma por vós resgatada a preço de tantos trabalhos e com tanto amor seja condenada a odiar-vos eternamente no inferno.
Nada deixastes de fazer para me obrigar a amar-vos, o que manifestastes claramente momentos antes de expirar no Calvário com estas palavras amorosas: Consummatum est! E como tenho eu correspondido ao vosso amor?... Bem posso dizer que por minha parte nada omiti para ofender-vos e obrigar-vos a aborrecer-me... Graças vos dou pela paciência com que me tendes aturado e pelo tempo que me concedeis para reparar a minha ingratidão e amar-vos e servir-vos antes de morrer... Sim, meu Deus, quero amar-vos, quero fazer tudo quanto quiserdes; dou-vos toda a minha vontade, minha liberdade e tudo o que me pertence. Consagro-vos, desde já, a minha vida e aceito a morte que me destinardes, com todas as suas dores e circunstâncias que a acompanharem, unindo este sacrifício ao grande sacrifício da vossa vida, que vós, meu Jesus, oferecestes por mim na cruz. Quero morrer para cumprir a vossa vontade... Ó Senhor, pelos merecimentos da vossa Paixão sacra-tíssima, dai-me a graça de que nesta vida seja sem-pre resignado e obediente às vossas disposições e, na hora de minha morte, fazei, Senhor, que abrace e aceite com inteira conformidade a vossa vontade santíssima! Quero morrer, ó Jesus, para agradar-vos; quero morrer dizendo: Fiat voluntas tua..
Maria, nossa Mãe, foi assim que vós morrestes; alcançai-me a dita inefável de que também eu termine assim os meus dias!

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