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1 de junho de 2014

Preparação para a Morte

CONSIDERAÇÃO XXXI

Da perseverança
Qui perseveraverit usque in finem, hic salvus erit. Aquele que perseverar até ao fim, este será salvo (Mt 24,13).

PONTO I

Disse São Jerônimo que muitos começam bem, mas poucos são os que perseveram. Um Saul, um Judas, um Tertuliano, começaram bem, mas acabaram mal, porque não perseveraram como deviam. “Nos cristãos não se procura o princípio, mas o fim”. O Senhor — prossegue o mesmo Santo — não exige somente o começo da boa vida, quer também seu bom termo; o fim é que alcançará a recompensa. É por isso que São Lourenço Justiniano chama a perseverança de porta do céu. Quem não der com essa porta, não poderá entrar na glória.
Tu, meu irmão, que abandonaste o pecado e esperas, com razão, que tenham sido perdoadas as tuas culpas, gozas da amizade de Deus; todavia ainda não estás salvo, nem o estarás enquanto não tiveres perseverado até ao fim (Mt 10,22). Começaste bem e santamente a vida.
Agradece mil vezes a Deus; mas adverte que, segundo disse São Bernardo, não é ao que começa que se oferece o prêmio, mas sim, unicamente, ao que persevera. Não basta correr no estádio; mas impende prosseguir até alcançar a coroa, conforme a expressão do apóstolo (1Cor 9,24).
Lançaste mão do arado: principiaste a viver bem; portanto, agora mais do que nunca, deves recear e tremer... (Fp 2,12) Por quê?... Porque, se retrocederes (o que Deus não permita) e tornares a trilhar o mau caminho, Deus te excluirá do prêmio da glória (Lc 9,62). Por conseguinte, evita, fortalecido pela graça de Deus, as ocasiões más e perigosas, freqüenta os sacramentos, faze cada dia meditação. Serás feliz se assim continuares até que Nosso Senhor Jesus Cristo venha julgar-te (Mt 24,46). Não esperes, no entanto, que, por teres resolvido servir a Deus, cessem as tentações e não voltem a combater-te. Considera o que diz o Espírito Santo: “Filho, quando chegas ao serviço de Deus, prepara a tua alma para a tentação” (Ecl 2,1). Atende que, então, mais que nunca, deves estar prevenido para o combate, porque nossos inimigos, o mundo, o demônio e a carne, agora mais que nunca, se armarão para te atacar e fazer-te perder tudo o que tiveres conquistado. São Dionísio Cartusiano afirma que, quanto mais uma alma se entrega a Deus, com tanto maior empenho e inferno procura arrebatá-la. Esta verdade se exprime claramente no evangelho de São Lucas, onde diz: “Quando o espírito imundo foi expulso duma alma, anda por lugares áridos procurando repouso e, não o encontrando, diz: “Tornarei à minha casa donde saí... Então vai e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele, entram na alma e moram ali. E as últimas coisas deste homem serão piores que as primeiras” (Lc 11,24-26); ou seja: quando o demônio se vê expulso de uma alma, não encontra descanso e emprega todas as suas forças para dominá-la novamente. Pede auxílio a outros espíritos maus, e, se consegue reentrar naquela alma, provocará uma segunda ruína, mais grave que a primeira.
Considera, pois, quais as armas que vais empregar para defender-te desses inimigos e conservar a graça de Deus. Para não seres vencido pelo demônio, não há arma mais eficiente do que a oração. Dis-se São Paulo que não temos que combater contra os homens de carne e osso como nós, mas contra príncipes e potestades do inferno (Ef 6,12), querendo assim advertir-nos que carecemos de forças especiais para resistir a tamanho poder, e que, por conseguinte, necessitamos do socorro de Deus. Com a assistência divina, podemos tudo (Fp 4,13), dizia o Apóstolo, e todos devemos repetir o mesmo. Esse auxílio, porém, só se alcança pedindo-o por meio da oração. Pedi e recebereis. Não nos fiemos em nossos propósitos, que estaremos perdidos. Toda a nossa confiança, quando o demônio nos tentar, temos que depositar no auxílio divino, recomendando-nos a Jesus e a Maria Santíssima. Mui especialmente, devemos fazer isto nas tentações contra a castidade, porque são as mais temíveis e as que oferecem ao demônio mais freqüentes vitórias. Por nós mesmos, não dispomos de forças para conservar a castidade. É preciso que Deus no-las dê. “Cheguei à conclusão — exclama Salomão — que doutra maneira não podia guardar continência, se Deus não me desse... recorri ao Senhor e lhe roguei” (Sb 8,21).
Impende, pois, em tais tentações, recorrer logo a Jesus Cristo e à sua santa Mãe, invocando freqüentemente os santíssimos nomes de Jesus e Maria. Quem assim fizer, vencerá; o que fizer o contrário, será vencido.

AFETOS E SÚPLICAS

Ne projicias me a facie tua. Meu Senhor, não me afasteis da vossa face! (Sl 50,13) Bem sei que me não abandonareis, salvo se for o primeiro a abandonar-vos. Entretanto, a experiência de minha fraqueza me inspira temor. Dai-me, meu Deus, a força necessária contra o poder do inferno, que deseja novamente reduzir-me à sua odiosa escravidão.
Por amor de Jesus Cristo vo-la peço. Estabelecei, Senhor, entre mim e vós uma paz perpétua, que jamais se altere. Para este efeito, dai-me vosso santo amor. Morto está aquele que não vos ama (1Jo 3,14). Livrai-me dessa morte desgraçada, ó Deus da minha alma. Sabeis que estava perdido e que, por efeito de vossa bondade, cheguei ao estado em que me acho, nutrindo a esperança de que possuo a vossa graça... Em virtude da morte amaríssima que por mim padecestes, não permitais, meu Jesus, que voluntariamente perca prerrogativa de tão alto valor. Amo-vos sobre todas as coisas, e espero ficar sempre preso nos laços desse divino amor, com ele morrer e nele viver eternamente.
Ó Maria, a quem chamamos Mãe da perseverança, por vossa intercessão é que se alcança essa grande mercê. A vós a peço e de vós a espero.

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