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4 de setembro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

IV

Assim como o Espírito Santo não chama todas as almas a brilhar de igual modo pelas mesmas virtudes, assim também, em matéria de devoção particular, lhes deixa uma santa liberdade que, por nosso lado, devemos cuidadosamente respeitar. Algumas almas sentem-se levadas a venerar especialmente os mistérios da infância de Jesus; outras são atraídas pelos encantos interiores de Sua vida oculta; outras ainda não podem privar-se da meditação da Paixão.
Todavia, a devoção ao Sagrado Coração é daquelas que nos devem ser mais caras. Porquê? Porque honra a Jesus Cristo, não num dos Seus estados ou mistérios particulares, mas na generalidade e na totalidade do Seu amor, daquele amor em que todos os mistérios têm a sua mais profunda explicação. Conquanto especial e nitidamente caracterizada, esta devoção reveste algo de universal: ao honrar o Coração de Jesus, não é a Jesus menino, adolescente ou vítima, que se dirigem as nossas homenagens, mas à pessoa de Jesus na plenitude do Seu amor.
Além disso, a prática geral desta devoção tende, em última análise, a pagar a Nosso Senhor amor com amor - Movet nos ad amandum mutuo - a tomar toda a nossa atividade para a saturar de amor, a fim de ser agradável a Jesus Cristo. Os exercícios particulares são apenas meios de exprimir ao nosso divino Mestre esta reciprocidade de amor.
Eis um efeito preciosíssimo desta devoção. É que toda a religião cristã se reduz para nós a este ponto: entregar-nos, por amor, ao serviço de Jesus Cristo e, por Ele, ao Pai e ao Espírito Santo. Este ponto é de capital importância e quero, ao terminar esta conferência, meditá-lo convosco uns instantes.
É uma verdade confirmada pela experiência das almas que a nossa vida espiritual depende, em grande parte, da ideia que habitualmente fazemos de Deus.
Há entre nós e Deus relações fundamentais, baseadas na nossa natureza de criaturas; existem relações
morais resultantes da nossa atitude para com Ele; e esta atitude é, a maior parte das vezes, condicionada pela ideia que fazemos de Deus.
Se fizermos de Deus uma ideia falsa, os nossos esforços para progredir serão muitas vezes vãos e estéreis, porque se realizam fora do bom caminho; se tivermos uma ideia in completa de Deus, a nossa vida espiritual será cheia de lacunas e imperfeições; mas se a ideia que temos de Deus for verdadeira, tão verdadeira quanto neste mundo é possível a uma criatura que vive da fé, a nossa alma dará largas à sua expansão, segura e radiante de luz.
Esta ideia habitual que fazemos de Deus é, pois, a chave da nossa vida interior, não só porque regula a nossa atitude para com Ele, mas também porque muitas vezes determina a atitude do mesmo Deus para conosco; em muitos casos, Deus trata-nos como nós O tratamos a Ele.
Mas, dir-me-eis, a graça santificante não nos faz filhos de Deus? Claro que sim. Todavia, na prática,
há almas que não se comportam como filhos adotivos do Eterno Pai. Dir-se-ia que esta condição de filhos de Deus tem para elas apenas valor nominal. Não compreendem que é este um estado fundamental que se deve manifestar incessantemente por atos correspondentes e que toda a vida espiritual deve ser o desenvolvimento do espírito de adoção divina, espírito que recebemos no Batismo pela virtude de Jesus Cristo.
Assim, encontram-se almas que habitualmente olham para Deus à maneira dos israelitas. Deus revela-se-lhes no meio dos trovões e relâmpagos do Sinai. Para este povo «de dura cerviz», propenso à infidelidade e à idolatria, Jeová era um Deus que se devia adorar, um Senhor que se devia servir, um Juiz que se devia temer. Os israelitas tinham recebido, como diz S. Paulo, Spiritum servitutis in timore - «um espírito de servidão para viver no temor». Deus não lhes aparecia senão na majestade da Sua grandeza e na soberania do Seu poder. Sabeis que os tratava com rigorosa justiça: a terra abria-se para tragar os hebreus culpados; aqueles que tocavam na arca da aliança sem as suas funções a isso lhe darem direito, eram feridos de morte; serpentes venenosas matavam os murmuradores; mal se atreviam a pronunciar o nome de Jeová; uma vez por ano o sumo sacerdote entrava sozinho e a tremer no Santo dos santos, com o sangue das vítimas imoladas pelo pecado. Era «O espírito de servidão».
Há almas que vivem habitualmente nestes sentimentos de temor puramente servil; se não temessem os castigos de Deus, não achariam inconveniente algum em O ofender. Consideram habitualmente Deus apenas como um senhor, e não se preocupam com Lhe agradar. Assemelham-se àquele servo de que fala Jesus na parábola das moedas. Um rei, tendo de partir para uma região longínqua, chama os seus servos e entrega-lhes umas moedas de prata que deviam fazer render até ele voltar. Um dos servos arrecada a moeda e não a faz render. «Aqui está a vossa moeda, diz ao rei, depois do regresso deste; Escondi-a embrulhada num pano, pois tive medo de vós, por serdes homem severo; retirais o que não depositastes e colheis o que não semeastes». E que responde o rei? Pega na palavra do servo preguiçoso para o condenar. «Julgo-te por tuas próprias palavras, servo mau; sabes que sou homem severo . . . Então porque não puseste o meu dinheiro a render?» E o rei manda tirar a este servo o que lhe havia sido confiado.
Tais almas tratam com Deus como que de longe, consideram-No unicamente como um grande senhor. E Deus trata-as do mesmo modo; não se dá a elas inteiramente; entre elas e Deus não pode haver intimidade pessoal; nelas é impossível a expansão interior.
Outras almas, talvez mais numerosas, consideram habitualmente a Deus como o grande benfeitor; trabalham de ordinário apenas «com o fito na recompensa»: Propter retributionem. Esta ideia não é inteiramente falsa. Vemos Jesus Cristo comparar o Pai a um senhor que recompensa (e com que magnífica liberalidade !) o servo fiel: "Entra na alegria do teu senhor». Ele próprio nos diz que sobe ao céu para «nos preparar lá um lugar».
Mas, quando esta atitude é habitual a ponto de se tornar exclusiva, como se dá com certas almas, além de ser uma falta de nobreza, não corresponde plenamente ao espírito do Evangelho. A esperança é uma virtude cristã, alenta poderosamente a alma no meio da adversidade, das provações, das tentações; mas não é a única nem a mais perfeita das virtudes teologais, virtudes específicas da nossa condição de filhos de Deus. Qual é então a virtude mais perfeita? Qual de entre elas leva a palma?
A caridade, responde S. Paulo: Nunc manent fides, spes, caritas, tria hac: major autem horum est caritas.

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