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25 de setembro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

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Que conclusões práticas tiraremos destas benéficas verdades da nossa fé?
Primeiro, devemos celebrar com todo o fervor as solenidades dos Santos. Honrar os Santos é proclamar que eles são a realização dum pensamento divino, obras-primas da graça de Jesus. Deus põe neles as Suas complacências, porque são os membros já gloriosos do Seu amado Filho; fazem parte já daquele reino resplandecente, conquistado por Jesus para glória do Pai: Et fecisti nos Deo nostro regnum.
Depois, devemos invocá-los. É certo que Jesus Cristo é o nosso único Mediador: «Um só Deus, um só Mediador entre Deus e os homens», diz S. Paulo; é só por Ele que temos acesso junto do Pai. No entanto, Jesus Cristo, não para diminuir a Sua mediação mas para a dilatar, quer que os príncipes da corte celestial Lhe apresentem os nossos votos, que Ele mesmo apresentará ao Pai.
Além disso, os Santos têm o mais ardente desejo do nosso bem. No céu, contemplam a Deus, a vontade deles está inefavelmente unida à Sua; por isso, querem, como Ele, a nossa santificação. Depois, formam conosco um só corpo místico; e, como tais, são, segundo a expressão de S. Paulo, «os membros dos nossos membros»; têm para conosco uma caridade imensa, haurida na sua união com Jesus, único chefe desta sociedade de que eles são o escol e na qual Deus marcou o nosso lugar.
A estas relações de homenagens e orações que nos unem aos Santos, devemos acrescentar os nossos esforços para nos tornarmos semelhantes a eles. O nosso coração deve estar animado, não dessas veleidades inconstantes que nada conseguem, mas dum desejo firme e sincero de perfeição, duma vontade eficaz de corresponder aos desígnios misericordiosos da nossa predestinação divina em Jesus: Secundam mensuram donationis Christi.
E que é preciso para isso? Que meios empregaremos para realizar uma obra tão considerável, tão gloriosa para Cristo e tão fecunda para nós?
Conservar-nos sempre unidos a Jesus Cristo. Ele mesmo o disse: «Quereis produzir abundantes frutos? chegar a grande santidade? Permanecei em mim, como os ramos permanecem unidos à sepa». E como nos conservaremos unidos a Ele? Primeiro, pela graça santificante que nos faz membros vivos do Seu corpo místico; depois, por aquela intenção reta, frequentemente repetida, que nos faz «procurar em tudo», na vocação em que nos colocou a Providência, «a vontade do nosso Pai dos céus"; esta intenção orienta toda a nossa atividade para a glória de Deus, em união com os pensamentos, sentimentos e vontades do Coração de Jesus, nosso modelo e nosso chefe. Quae placita sunt ei facio semper. « Faço sempre o que Lhe é agradável"; e a fórmula, em que Jesus resumia todas as Suas relações com o Pai, traduz excelentemente toda a obra da santidade humana.
E as nossas misérias? - direis. Não devem de forma alguma levar-nos ao desânimo. As nossas misérias são bem reais; conhecemos bem as nossas fraquezas, as nossas escravidões; mas Deus conhece-as inda melhor do que nós. E o sentimento reconhecido, confessado, da nossa fraqueza, dá honra a Deus. Porquê? Porque há em Deus uma perfeição que é talvez a chave de tudo o que nos acontece neste mundo: é a misericórdia. A misericórdia é o amor em face da miséria; se não houvesse
misérias, não haveria misericórdia. Os Anjos proclamam a santidade de Deus; nós, porém, seremos no céu os testemunhos da misericórdia divina; coroando as nossas obras, Deus coroa o dom da Sua misericórdia: Qui coronat te in misericordia et miserationibus. E é a ela que exaltaremos por toda a eternidade, no meio da nossa beatitude: Quoniam in aeternum misericordia ejus.
Além disso, não devemos desanimar por causa das provações e contradições. Estas serão tanto maiores e mais intensas, quanto mais alto nos chamar Deus. Porquê esta lei?
Porque é o caminho por onde passou Jesus; e porque, quanto mais unidos a Ele quisermos estar, mais nos devemos assemelhar a Ele no mais profundo e íntimo dos Seus mistérios. Como sabeis, S. Paulo reduz toda a vida interior ao «conhecimento prático de Jesus, e de Jesus crucificado». E Nosso Senhor mesmo diz-nos que o « Pai, que é o divino vinhateiro, poda o ramo para dar mais fruto»: Purgabit eum ut fructum plus afferat. Deus tem a mão poderosa, e as Suas operações purificadoras descem a profundidades só dos Santos conhecidas; pelas tentações que permite, pelas adversidades que envia, pelo abandono e solidão terríveis que por vezes produz na alma, sujeita-a à prova para a desapegar das coisas criadas; escava-a para a esvaziar de si mesma; «persegue-a, atormenta-a para a possuir»; penetra até ao âmago, «esmigalha os ossos», como diz Bossuet, «para reinar sozinho».
Feliz da alma que se abandona às mãos do Eterno Obreiro! Pelo seu Espírito, todo de fogo e amor, que é o «dedo de Deus», o divino Artista gravará nela a imagem de Cristo, para a tornar semelhante ao Filho da Sua dileção, segundo o desígnio inefável da Sua Sabedoria e da Sua misericórdia.
Porque Deus põe a Sua glória em nos fazer felizes. Todos os sofrimentos que permite ou envia são outros tantos títulos de glória e felicidade celestes. S. Paulo declara-se incapaz de descrever o esplendor da glória e a imensidade da ventura que são a corôa do menor dos nossos sofrimentos suportados com a graça divina.
Eis por que ele tanto animava os seus fiéis. Vede, dizia ele, de quantas precauções se rodeiam aqueles que tomam parte nos jogos e corridas do estádio! quantas privações se impõem! quantos esforços fazem! E tudo isto para quê? Para receber aplausos que duram uma hora, para gozar duma glória efêmera e sempre disputada, para ganhar uma corôa corruptível. Ao passo que nós, se lutamos, é por uma corôa incorruptível, por uma glória sem fim, por uma alegria imperecível.
Nestes momentos, férteis em graças, a alma está, sem dúvida, mergulhada na dor e sofrimento, na aridez e secura. Mas é preciso manter-se firme sob os golpes do Pontífice supremo. Deus põe o lenitivo da Sua graça na própria amargura da cruz. Vede S. Paulo. Ninguém mais do que ele viveu da união íntima com Deus em Cristo; quem, pois, o poderia separar de Jesus?  E eis que, por permissão divina, Satanás insulta e atormenta com seus golpes a alma e o corpo do Apóstolo. Por três vezes S. Paulo chega á bradar a sua angústia a Jesus. E que lhe responde Ele? «Basta-te a minha graça, porque a sua força nunca se manifesta com tanto brilho como nas dificuldades de que deve triunfar»: Sufficit tibi gratia mea, nam virtus in infirmitate perficitur.

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