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3 de abril de 2020

A ALMA DE TODO APOSTOLADO

J. B. Chautard

2- Do homem de obras sem a vida interior.

Parte 1/8
Uma palavra o caracteriza: ainda talvez não esteja, mas há de fatalmente tornar-se tíbio. Ora, ser tíbio, e de uma tibieza, não de sentimento ou de fragilidade, senão de vontade, é pactuar com a dissipação e a negligência habitualmente consentidas ou não combatidas, pactuar com o pecado venial deliberado, e por isso mesmo, é tirar à alma a segurança da salvação eterna, dispô-la, levá-la até ao pecado mortal. Tal é, sobre a tibieza, a doutrina de Santo Afonso tão bem exposta e comentada pelo Pe. Desurmont, seu discípulo.
Como é então que o homem de obras, sem a vida interior, necessariamente desliza para a tibieza? Necessariamente, dissemos, e para prova disso bastam-nos as palavras seguintes, dirigidas por um bispo missionário aos seus sacerdotes, palavras tanto mais terríveis de verdade quanto promanam de um coração devorado de zelo pelas obras e de um espírito cujas tendências diretamente se opunham a tudo o que cheirasse a quietismo: " É necessário, diz o Cardeal Lavigerie, é necessário que nos persuadamos bem disto: para um apóstolo, não há meio termo entre a santidade completa, ao menos desejada e procurada com fidelidade e coragem, e a perversão absoluta".
Recordemo-nos em primeiro lugar do germe de corrupção que a concupiscência nutre na nossa natureza, a guerra sem tréguas que nos fazem os nossos inimigos assim interiores como exteriores, os perigos que por todos os lados nos ameaçam.
Dito isto, procuremos esboçar o quadro do que sucede a uma alma que se consagra ao apostolado sem estar suficientemente precavida e armada contra os seus perigos.
N . . . sente despertar dentro de si o desejo de se dedicar às obras. Carece ainda de experiência. As suas predileções pelo apostolado dão-nos o direito de nele supor ardor, alguma vivacidade de caráter, de o imaginar comprazendo-se na ação, quiça até no combate. Supo-mo-lo correto em sua conduta, dotado de piedade e de devoção, mas piedade mais de sentimento que de vontade, devoção que não é o reflexo de uma alma resolvida a procurar apenas a vontade de Deus, mas rotina piedosa, restos de hábitos louváveis. A sua oração, se é que pratica a oração, é apenas uma espécie de devaneio, e suas leituras espirituais, um exercício de curiosidade, sem influência real em sua conduta. Talvez até Satanás, iludindo-o com um sentido artístico que essa pobre alma toma por vida interior, o leve a gostar de leituras que tratem das vias elevadas e extraordinárias da união com Deus, e admirá-las com entusiasmo. Somado tudo, pouca ou nenhuma vida interior verdadeira nessa alma que ainda conserva, conceda-mo-lo, certo número de bons hábitos, muitas qualidades naturais e tal ou qual desejo sincero, mas muito vago, de permanecer fiel a Deus.
Vai, pois, o nosso apóstolo, impregnado do desejo de trabalhar nas obras, consagrar-se com zelo a esse ministério tão novo para ele. A breve trecho, precisamente em virtude das circunstâncias que essas novas ocupações originam (qualquer pessoa habituada às obras nos compreendera), a breve trecho, como íamos dizendo, se lhe deparam mil circunstâncias para o fazer viver cada vez mais fora de si mesmo, mil engôdos para a sua curiosidade ingênua, mil ocasiões de quedas, contra as quais, como é lícito supor, até então o tinham em parte protegido a atmosfera tranquila do lar doméstico, do seminário, da comunidade, do noviciado, ou pelo menos a tutela de um prudente diretor.
Não só a disposição crescente ou curiosidade perigosa de tudo conhecer, as impaciências ou susceptibilidades, a vaidade ou o ciúme, a presunção, ou o abatimento, a parcialidade ou a difamação, como também a invasão progressiva das fragilidades do coração e de todas as formas mais ou menos sutis da sensualidade, vão obrigar a um combate ininterrupto essa alma mal preparada para tão rudes e contínuos assaltos. Portanto, frequentes são as feridas.
De mais a mais, essa alma de piedade tão superficial pensará acaso em resistir, ela que esta então inteiramente absorvida na satisfação, já muito natural, de despender sua atividade em favor de uma causa excelente? Por outro lado, Satanás esta a espreita da ocasião, porque já fareja uma presa. E bem longe de contrariar essa satisfação, excita-a o mais possível.


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