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22 de setembro de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

É PRECISO QUE SUA FILHA OS DEIXE

Carta a seu pai, na qual lhe confia o segredo de sua vocação, pede sua permissão e bênção para ingressar no Carmelo. Santiago, 25 de março de 1919.
Paizinho tão querido:
Só ontem chegamos de Bucalemu, depois de haver passado dias muito agradáveis em companhia desses tios tão carinhosos. Entretanto, como disse em minha última carta, os dias que passamos ao seu lado ocupam um lugar de preferência.
Paizinho, faz muito tempo que desejava confiar-lhe um segredo, que guardei toda a minha vida no mais íntimo da alma.
Mas não sei por quê, apoderava-se de minha alma certo temor ao querer confiá-lo. Por isso, sempre me mostrei muito reservada com todos. Mas agora quero confiá-lo com a plena certeza que guardará o mais completo segredo.
Tenho desejo de ser feliz e busquei a felicidade por toda a parte. Sonhei em ser muito rica, mas vi que os ricos, da noite para o dia, tornam-se pobres. E, ainda que , às vezes, isto não aconteça, vemos que por um lado reinam as riquezas e por outro reina a pobreza de afeição e de união. Busquei-a na posse do carinho de um jovem completo, porém, só a ideia de que algum dia poderia não me amar com o mesmo entusiasmo ou que pudesse morrer deixando-me só nas lutas da vida fez-me afastar o pensamento de que ao casar-me seria feliz. Não. Isto não me satisfaz. Para mim não está aí a felicidade. E então - eu me perguntava - onde se encontra? Então compreendi que não nasci para as coisas da terra , mas para as da eternidade. Para que negar por mais tempo? Só em Deus meu coração encontra repouso. Com ele minha alma sente-se plenamente satisfeita, e de tal maneira, que não desejo outra coisa neste mundo, senão pertencer-lhe por completo.
Meu queridíssimo papai: sei que Deus me concedeu um grande favor. Eu sou a mais indigna de suas filhas, contudo o amor infinito de Deus anulou o imenso abismo que existe entre ele e sua pobre criatura. Ele desceu até mim para elevar-me à dignidade de esposa. Quem sou eu, senão uma pobre criatura? Mas ele não olhou a minha miséria. Em sua infinita bondade e apesar de minha baixeza, amou-me com infinito amor. Sim, paizinho. Só em Deus encontrei um amor eterno. Com que agradecer-lhe? Como pagar-lhe senão com amor? Quem pode amar-me mais que Nosso Senhor, infinito e imutável? Paizinho, você me perguntará desde quando penso nisto tudo. Vou referir-lhe tudo, para que veja que ninguém me influenciou.
Desde criança amei muito a Santíssima Virgem, a quem confiava todos os meus assuntos. Só com ela desabafava e jamais deixava nenhuma pena ou alegria sem confiar-lhe. Ela correspondeu a esse carinho. Protegia e atendia sempre tudo o que eu lhe pedia.
E ela me ensinou a amar a Nosso Senhor. Ela colocou em minha alma o germe da vocação. Contudo, sem compreender a graça que ela me concedia e sem sequer preocupar-me com isso, eu flertava e me divertia o mais possível. Porém, quando tive apendicite e me vi muito doente, então pensei o que era a vida e um dia, em que estava só no meu quarto, aborrecida de ficar na cama, ouvi a voz do Sagrado Coração que me pedia que fosse toda dele. Não pense que foi ilusão, porque nesse instante me vi transformada.
Aquela que buscava o amor das criaturas não desejou senão o amor de Deus. Iluminada pela graça do alto, compreendi que o mundo era demasiado pequeno para minha alma imortal; que só com o infinito poderia saciar-me, porque o mundo e tudo o que ele encerra é limitado. Enquanto que minha alma feita para Deus não se cansaria de amá-lo e contemplá-lo, porque nele os horizontes são infinitos.
Como duvidar pois de minha vocação, se quando estive tão mal e a ponto de morrer, não duvidei nem desejei outra coisa?
Como pode ver, paizinho, ninguém me influenciou, pois nunca o disse a pessoa alguma e sempre me empenhei em ocultar-lhes.
Não sei como agradecer a Nosso Senhor, a ele devo este favor tão grande, pois sendo ele todo-poderoso, onipotente, que não necessita de ninguém, preocupa-se em amar-me e escolher-me para fazer de mim sua esposa. Veja a que dignidade ele me eleva: ser esposa do Rei do céu e da terra, do Senhor dos senhores.
Ah! papai, como pagar-lhe? Além disso, tira-me do mundo, onde há tantos perigos para as almas, onde as águas da corrupção tudo invadem, para levar-me a morar junto ao tabernáculo onde ele habita.
Se, para conceder-me tão grande bem, um inimigo me chamasse, não seria o caso de segui-lo imediatamente? Mas não é um inimigo, mas nosso maior amigo e maior benfeitor. É Deus mesmo quem se digna chamar-me para que me entregue a ele.
Como não apressar-me em fazer a total oferta para não fazê-lo esperar? Paizinho, já me entreguei e estou disposta a segui-lo onde ele quiser. Posso desconfiar e temer quando ele é o caminho, a verdade e a vida?
Contudo, eu dependo de você, meu papai querido. É preciso pois que você me dê a Deus. Sei perfeitamente que você não negou Lúcia a Chiro porque seu coração é demasiado generoso; como hei de duvidar que me dará o seu consentimento para eu ser de Deus, quando deste "sim" do seu coração de pai há de brotar a fonte de felicidade para sua pobre filha? Não, eu o conheço. Você é incapaz de me negar isto, sei que nunca recusou nenhum sacrifício pela felicidade de seus filhos. Compreendo que vai custar-lhe muito. Para um pai não há nada mais querido so­bre a terra que seus filhos. Paizinho, é Nosso Senhor quem me reclama. Poderá negar-me quando ele não soube negar-lhe do alto da cruz nenhuma gota de seu sangue divino? É a Virgem, o seu Perpétuo Socorro, quem lhe pede uma filha para fazê-la esposa de seu adorado Filho. E poderá recusar-me?
Não pense, papai; que tudo o que digo não despedaça o meu coração. Você bem me conhece e sabe que sou incapaz de causar-lhe voluntariamente um sofrimento. Porém, ainda que o coração sangre, é preciso seguir a voz de Deus; é preciso abandonar aqueles seres aos quais a alma está intimamente ligada, para ir morar com o Deus de amor que sabe recompensar o mais leve sacrifício. Com quanto maior razão premiará os grandes? É necessário que sua filha os deixe. Porém, não é por um homem, senão por Deus; por ninguém ela o faria, mas por Aquele que tem direito absoluto sobre nós. Isto há de servir-lhe de consolo: não foi por um homem e, depois de Deus, você e mamãe serão os seres que mais amei sobre a terra.
Pense também que a vida é muito curta e depois desta existência tão penosa nos encontraremos reunidos por uma eternidade.
Por isso irei ao Carmelo: para assegurar a minha salvação e a de todos os meus. Sua filha carmelita é a que velará sempre ao pé dos altares pelos seus, que se entregam a mil preocupações necessárias aos que vivem no mundo. A SS. Virgem quis que eu pertencesse a essa Ordem do Carmelo, pois foi a primeira comunidade que lhe rendeu homenagem e a honrou. Ela nunca deixa de favorecer as suas filhas carmelitas. De maneira, papai, que sua filha escolheu a melhor parte. Serei toda para Deus e ele será todo para mim. Não haverá separação possível entre você e sua filha. Os seres que se amam jamais se separam. Por isso, quando você, papaizinho, se entregar ao trabalho rude do campo; quando, cansado de tanto sacrifício, sentir-se fatigado e só, sem ter em quem descansar, sentindo-se desfalecido, então bastará transportar-se ao pé do altar. Ali encontrará sua filha que, também só, ante o Divino Prisioneiro, levanta suplicante sua voz para pedir a Deus que aceite o sacrifício seu e também o dela, e que, em retorno, lhe dê ânimo e coragem nos trabalhos e consolo em sua dor. Como Deus poderá fazer-se surdo à súplica daquela que tudo abandonou e não tem, em sua pobreza, outro ser a quem recorrer? Não, paizinho.
Deus é generoso, além de que, a constância de minha oração há de movê-lo a coroar seus sacrifícios. Minha mamãe e meus irmãos terão um ser que constantemente eleva por eles ardentes súplicas; um ser que os ama profundamente e perpetuamente se imola e sacrifica pelos interesses de suas almas e de seus corpos.
Sim. Eu quisera ser de lá do convento o anjo tutelar da família.
Espero ser, apesar de indigna, pois sempre estarei junto ao Todo­-poderoso.
Paizinho, não negue a permissão. A SS. Virgem será minha advogada. Ela saberá melhor do que eu fazê-lo compreender a vida de oração e penitência que desejo abraçar e que encerra, para mim, todo o ideal de felicidade nesta vida e me assegurará a da eternidade.
Compreendo que toda a sociedade reprovará minha resolução, porém é porque seus olhos estão fechados para a luz da fé.
As pessoas que ela considera "desgraçadas" são as únicas que se declaram felizes porque em Deus encontram tudo. Sempre há no mundo sofrimentos horríveis. Ninguém pode dizer sinceramente: "Eu sou feliz". Mas, ao penetrar nos claustros, de cada cela bro­tam estas palavras e são sinceras pois elas não trocariam sua solidão e o gênero de vida que abraçaram por nada do mundo.
Prova disto é que permanecem sempre nos conventos. Compreen­de-se, já que no mundo tudo é egoísmo, inconstância e hipocrisia.
Disto você, papaizinho, tem experiência. E que coisa melhor se pode esperar de criaturas tão miseráveis?
Dê-me seu consentimento desde já, paizinho querido. "Quem dá logo, dá duas vezes." Seja generoso com Deus, que o há de premiar nesta vida e na outra, e não me obrigue a frequentar a sociedade. Conheço muito bem essa vida que deixa na alma um vazio que ninguém pode preencher, a não ser Deus. Deixa muitas vezes o remorso. Não me exponha à corrupção que reina atualmente.
Minha resolução está tomada. Ainda que se apresente para mim o partido mais vantajoso, eu o recusarei. Quem há que se possa comparar a Deus? Não. É preciso que logo me consagre a Deus, antes que o mundo possa manchar-me. Papaizinho, negará sua permissão para maio? É verdade que falta pouco, porém ro­garei a Deus e à SS. Virgem deem-lhe forças para dizer-me o "sim" que há de fazer-me feliz. Você já disse em diversas ocasiões que não negaria sua permissão, pois lhe daria muito consolo ter uma filha monja.
O convento que escolhi fica em Los Andes, é o que Deus designou para mim, pois nunca havia conhecido nenhuma carme­lita, o que lhe assegurará que ninguém me influenciou e que não sigo impressões. Deus o quis. Que se cumpra a sua adorável vontade.
Espero sua resposta com ansiedade. Entretanto peço a, Nosso Senhor e à SS. Virgem lhe concedam socorro para fazer sacrifício; já que sem eles eu não teria coragem suficiente para separar-me de você.
Receba muitos beijos e abraços de sua filha que mais o quer.

Juana.

P.S. Não necessito recomendar-lhe que guarde segredo. Lucho chega sábado de Bucalemu. Lúcia está muito bem, mas diz-lhe que se apresse em vir, porque senão encontrará o afilhado muito grande. Minha mãe sabe meu segredo faz pouco tempo. Perdoe-me, paizinho, o sofrimento que esta carta vai causar, porém é Deus quem me ordena.

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