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5 de novembro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni.

IV – EPIFANIA - A REGRA DO NOSSO PENSAR E AGIR

1. - Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14, 6)
A festa que hoje decorre fornece matéria e ocasião para uma minha instrução não somente útil mas necessária. Os Magos tendem a Cristo; procuram Cristo em Jerusalém, morada de um Herodes, grande político. Mas Cristo nasceu fora de Jerusalém. E a estrela, que guia seguramente a Cristo não aparece aos Magos senão fora de Jerusalém, longe da Corte. Que quer dizer isto? Senão que também nós tendamos a Cristo, isto é à verdade, à vida? "Eu sou a verdade e vida". Mas esta verdade, esta vida, último fim dos nossos desejos, está fora, isto é sobre todo humano intelecto. "Nenhum olho viu,
senão tu, o que Deus preparou para os que esperam nele" (Is 64, 4). Convém, pois, sair das opiniões, dos juízos da sabedoria terrena, se queremos encontrar esta meta feliz; antes de querermos encontrar a estrela, isto é uma regra infalível que nos guie a esta meta. Esta estrela de fato é o próprio Cristo,
o qual, como é verdade e vida, assim também, é caminho para alcançar a verdade eterna" e a vida a que aspiramos. "Eu sou o cominho, a verdade e a vida". Em outro lugar o santo Evangelista nos diz ser ele, Cristo, a luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo. Ele é a sabedoria não criada, o Verbo de Deus, e por isso tem palavras de vida eterna: "Senhor a quem iremos? Tu
tens palavras de vida eterna" (Jo 1, 9; 6. 69). Mas esta palavra do Verbo é dura à razão humana, "Isso é muito duro" (Jo 6, 61), porque não a pode compreender. É preciso, pois, sair e afastar-se dos humanos raciocínios para crê-la. A estrela não aparece senão fora de Jerusalém e fora das
cortes mundanas e políticas. E assim é justamente que não a humana razão, não as opiniões aos homens, não as máximas do mundo presente, não os dogmas da moderna experiência, mas a palavra de Deus é a regra única e infalível do nosso pensamento, da nossa ação, para atingir o fim sobrenatural e divino ao qual somos chamados.
2. - A razão sozinha não poderá jamais guiar o cristão uma felicidade sobrenatural
Nenhuma faculdade pode, no seu operar, ultrapassar o limite de sua natureza. Se a razão, porém, é uma faculdade diretora do homem, poderá dirigi-Io muito bem a uma felicidade natural - se todavia for esta razão depurada dos erros e da ignorância, não ofuscada pêlos vícios, não prevenida pelas paixões -; jamais porém poderá servir sozinha de guia ao cristão a uma felicidade sobrenatural à qual
é destinado pela sua vocação. O homem de fato - diz S. Tomás - é ordenado a Deus como a um fim que supera a compreensão da razão. Mas este fim deve ser previsto aos homens, se a ele devem ordenar suas intenções e suas ações. Portanto só Deus pode instruir o homem desta verdade que supera e excede toda humana, razão, e é por outro lado tão necessária que nela consiste toda a salvação do homem, a qual está em Deus  e era Cristo. "Ora, a vida eterna consiste em que te conheçam a ti, um só Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo que enviaste" (Jo 17, 3).
3. O único mestre da salvação da alma é Deus
Onde se trate da alma, da salvação da alma - diz a propósito Tertuliano - volte-se o homem para Deus e se dirija segundo as regras de Deus. Não se pode encontrar melhor mestre de salvação, senão o próprio autor da salvação (3). Quem poderá ensinar e revelar o que Deus tem ocultado e guardado? Os mais sábios do mundo, os mais prudentes são justamente aqueles a quem Deus mais escondeu a sua verdade. "Eu te bendigo Pai, que escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequenos" (Mt. 11, 25). Assim é: os pequenos, os pobres em espírito, os humildes sabem mais, porque Deus os ensina, e seu espírito repousa sobre eles. Pela voz de Deus somos ensinados ao conhecimento da verdade como diz S. Clemente Alexandrino; "Se os homens dizem alguma coisa sem prová-la, não podemos prestar-lhes fé, porque os homens podem dizer coisas falsas. E se há
necessidade de prova, não aceitemos como confirmação os testemunhos dos homens, mas com a palavra de Deus provemos o que se procura. Pois a palavra de Deus é mais digna de fé que qualquer demonstração, antes ela nesta matéria é a única demonstração" (4).
5. - Deus falou
Ora Deus falou: "uma vez Deus falou" (SI 111, 12). Falou de muitos modos pelos Profetas aos antigos pais, e ultimamente por seu Filho falou aos Apóstolos, antes a muitos mais plenamente ainda falou o Espírito Santo, instruindo-os sobre toda verdade pertinente à salvação: "Mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da verdade, ensinar-vos-á toda a verdade" (Jo 16, 12, 13). Temos os livros dos Profetas, temos os livros evangélicos dos Apóstolos. Eis a
palavra de Deus revelada nas Escrituras. Os Apóstolos, além disso, muitas destas verdades a eles reveladas comunicaram de viva voz a seus discípulos e deixaram em depósito à Igreja. Estas verdades se revelam no comum consenso dos Santos Padres, nas autênticas definições dos Sagrados Concílios Gerais, ou dos Sumos Pontífices, no consenso universal e no costume de toda a Igreja. Eis a palavra de Deus revelada na Tradição. Deus falou, que mais procuramos nós? Deus nos ensina por sua boca a verdade, a salvação; porque procuramos outros mestres? Porque nos tornamos discípulos dos homens, se temos Deus por Mestre? Porque cuidamos nós das doutrinas da terra, se temos os
ensinamentos do céu? Temos a verdade eterna que nos dirige, e nos deixaremos enganar pelas opiniões falares dos homens?
5. - Deus fala nas Sagradas Escrituras
Temos as Escrituras em que Deus fala: que temos nós com os livros do mundo? Nas Escrituras santas temos não só o que é necessário, mas o que é mais útil para conhecer o que é bom, para discernir o que é mal, para corrigir os nossos costumes, justificar o nosso espírito; que mais? Para fa zer-nos santos e instruídos em toda "boa obra: "Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça. Por eIa o homem de Deus se torna perfeito, capacitado para toda boa obra" (2Tm 3, 16). A Palavra de Deus nas Escrituras deve ser a regra do nosso pensar, do nosso agir, se queremos conhecer a verdade, chegar à salvação; não os sistemas peregrinos que variam sempre, espalhados nos livros perniciosos do nosso tempo. Não vos deixeis desviar do caminho, ó irmãos, pelas doutrinas variadas e peregrinas, nos adverte o próprio Apóstolo S. Paulo: não vos deixeis desviar pela diversidade de doutrinas estranhas (Hb 13, 9).
6. - Deus fala na tradição
Aquele Deus que fala nas Escrituras, fala também na Tradição que se encontra nos livros dos antigos e venerandos Padres por doutrina e santidade. A estes devemos seguir, não os modernos sábios. Estes Padres santíssimos e igualmente sapientíssimos. Deus mesmo nos deu por pastores e doutores para
aperfeiçoar seus eleitos, a cumprir a grande obra da salvação, para edificar o corpo místico que é sua Igreja, a fim de que não sejamos como meninos flutuantes, e não sejamos jogados para lá e para cá por qualquer vento de doutrina introduzida pela malícia dos homens e pela astúcia para emaranhar-nos nos erros (Ef 4, 11-12, 14). Quem é verdadeiramente sábio, ou quer tornar-se sábio, procurará a
sabedoria de todos os antigos, diz o Espírito Santo (Eclo 31, 10, 1). Dos antigos e não dos modernos é a verdadeira sabedoria; nos antigos e não nos modernos está a verdadeira prudência (Jó 12, 12). O falar dos modernos não aguilhoa, antes agrada muito quem lê e ouve, e por isso este não é o falar do sábio. Porque segundo o Espírito Santo, "as palavras dos sábios são semelhantes a aguilhões; - que
provocam os pecadores à conversão - as sentenças reunidas em coleção são parecidas a estacas plantadas, inspiradas por um só pastor" (Ecl 12, 11). São firmes e bem fundadas, como cravos pregados no alto, aquelas doutrinas que emanam do conselho aos santos e se proferem pelo unânime consenso de todos os mestres e doutores de um só pastor que é Cristo, que é Deus. Porque embora sejam muitíssimos os que ensinam, o autor da doutrina é um só, isto é o Senhor. "De resto,
meu filho, nada mais procures" (Ecl 12, 12) Ó meu filho, fora destas coisas nada mais procures, nada faças, nada presumas. Segue o caminho dos maiores, não te afastes da sua autoridade: "a multiplicação dos livros não é o fim" (Ecl 12, 12). Se tu procurares muitas coisas te virão às mãos um infinito número de livrecos que te levarão ao erro. Até aqui o Espírito Santo que fala e Jerônimo comenta.
7. - A palavra de Deus é proposta de modo infalível pela Igreja católica
É confirmada, portanto, a palavra de Deus revelada nas Escrituras e na Tradição ser a única infalível regra da nossa fé, esperança e ação, se queremos encontrar a verdade e conseguir a salvação. Que será portando de nós pobre gente ignorante que não sabemos ler as Escrituras? Não é necessário ao ignorante ler as Escrituras. Bastará pois a nós doutos ler as escrituras? Não basta aos doutos ler as
Escrituras. E aos doutos e aos ignorantes é necessário o magistério da Igreja. A Igreja tem a autoridade de propor a palavra de Deus, de explicá-la, de determiná-la no seu legítimo sentido. O ignorante não desespere; tem um mestre vivo, visível, universal: a Igreja católica. O douto não presuma; tem sobre si um juiz vivo, infalível, supremo: a Igreja Apostólica Romana. Acreditará alguém ser douto suficientemente, que lhe baste a agudeza do seu raciocínio? "Nós - diz S. Agostinho - cremos para conhecer, não conhecemos para crer" (6); e o que é a fé se não crer aquilo que não
vê? Pensará alguém ser tão santo que lhe baste sua luz particular? Guardemo-nos grita, em outro lugar o mesmo Padre, guarde-nos destas tentações soberbas por demais, e melhor pensemos que o mesmo Apóstolo Paulo, embora instruído pela voz de Deus e pelo Espírito de Deus, foi, porém, enviado a um homem para aprender o que deveria fazer: "Te será dito o que deves fazer" (At 9, 7);
e pensemos que Cornélio embora assegurado pelo Anjo que suas orações eram ouvidas e as esmolas aceitas, foi porém enviado para ser instruído por São Pedro, de cuja boca aprendeu o que deveria ele crer, esperar e amar" (7). Ó, meus irmãos, a palavra de Deus é a regra da nossa fé, esperança e ação, mas é preciso ouvir a palavra de Deus pela Igreja. Quem não ouve a Igreja é declarado pelo próprio Cristo como infiel, e gentio: "E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um
pagão" e um publicano" (Mt 18, 17).
8. - A Igreja católica exerce seu magistério seja de modo ordinário com o ensinamento comum, seja extraordinariamente com solene julgamento O Espírito Santo em Malaquias diz muito claro: "Os lábios dos sacerdotes guardam a ciência" (M 1 2, 7). Certamente que a Igreja tornou-se depositária e
guarda por Deus mesmo de sua palavra: "Ó Timóteo, guarda o bem que te foi confiado" (1Tm 6, 20), assim S. Paulo; daí é que os lábios do sacerdote da Igreja guardam "a ciência. "E é de sua boca que se espera a doutrina" (M 1 2, 7). Notai bem irmãos e os povos procurarão a lei, isto é a regra, não da lei, não da própria regra, mas aos lábios da Igreja que a propõe: "de sua boca". E de fato na famosa controvérsia entre Paulo e os de Antioquia sobre matéria de fé, não apelaram às Escrituras para defini-la, mas sim aos apóstolos e aos anciãos em Jerusalém; nem os Apóstolos e os anciãos puseram juizes da Escritura, mas eles mesmos e o Espírito Santo; "pareceu bem ao Espírito Santo e a nós" (At
15, 29). O Espírito Santo não mora na letra, mas no espírito, não nas sílabas, mas nos corações. Egrégia reflexão daquele ilustre teólogo Merquior Cano (8). A Igreja é em suma "a coluna e o fundamento da verdade" (1Tm 3, 5). Com o nome de Igreja não são entendidos os membros mais ínfimos do Corpo místico de Cristo; mas os Bispos e os sumos Pastores do rebanho de Cristo.
Os Bispos de fato na Igreja são os únicos juizes autorizados por Deus. O costume da Igreja confirma isto. Além disso, não todos são doutores, segundo S. Paulo (1Cor 12, 29). Além disso, apascentar na ciência e na doutrina é próprio dos pastores, isto é dos Bispos. Finalmente uma certa doutrina contrária a esta não se pode nem se deve nestes tempos ignorar já ter sido condenada com autêntica censura (9). Destes pastores, pois, que o Espírito Santo colocou para reger a Igreja de Deus, que Cristo conquistou com seu Sangue; destes pastores legítimos nós devemos depender e deles esperar que venha proposta, explicada e no seu verdadeiro sentido, aclarada a palavra de Deus, revelada ou nas Escrituras, ou na Tradição, como regra única infalível do nosso pensar e agir; e então esta nós
devemos seguir fiel e constantemente, se queremos chegar ao conhecimento da verdade e à posse da beatitude sobrenatural, eterna, que esperamos em Deus e com Deus: "a todos que seguirem esta regra, a paz sobre e eles" (Gl 6, 16).
9. - A Estrela que nós devemos seguir
Esta é a regra, esta é a estrela que nós devemos seguir. Caminhemos agora, caminhemos dignamente à meta a que fomos chamados. "Exorto-vos pois - é S. Paulo que nos esconjura por aquelas mesmas correntes com que foi preso no seu apostolado - que leveis uma vida digna da vocação à qual fostes chamados, com toda a humildade e amabilidade, com grandeza de alma, suportando-vos
mutuamente com caridade" (Gl 6, 16). Caminha-se dignamente nesta vocação submetendo o nosso intelecto com humilde obséquio para crer a palavra divina: "com toda a humildade". Não resistindo
com obstinada contradição os juízos autorizados daqueles legítimos pastores, que têm o direito de Deus mesmo de no-las propor e explicá-las no seu verdadeiro sentido: "com amabilidade". Superando com invicta paciência as calúnias, as zombarias, as oposições que nos vêm dos inimigos da fé e da paz e da Igreja: "com grandeza de alma". E ajudando-nos com recíproco amor a caminhar levando um o peso dos outros, todos nós que caminhamos juntos na mesma vocação: "suportando-vos mutuamente com caridade". "Solícitos em conservar a unidade do Espírito". Graças a Deus esta unidade de fé, a possuímos: basta-nos conservá-la: "Conservar". Exige-nos, porém, vigilância, zelo, diligência para conservá -la: "solícitos em conservar". Conserva-se no vínculo da paz, da caridade, se estivermos bem unidos e coligados entre nós com amor, e todos nós coligados e unidos teremos
grande apego aos Pastores da Igreja que devemos seguir, especialmente o supremo Pastor, o Romano Pontífice, centro da unidade: "solícitos em conservar a unidade do Espírito no vínculo da paz" (Ef 4, 4-6), "Um só corpo"; nós somos um só corpo, do qual Cristo é a cabeça e nós somos os membros. Entre os membros deste corpo alguns têm o ofício de presidir e guiar, como os olhos e a língua, outros só de obedecer e de seguir, como as mãos e os pés. "Um só corpo, um só espírito"; não haja entre nós diversidade de sentenças, divisões de partidos; mas um só espírito de fé nos anime a todos, como somos um só corpo. Um só é o fim sobrenatural a que todos tendemos; "como fostes chamados
em uma só esperança da vossa vocação". Um só é o autor deste fim e o diretor a este fim; se muitos pastores nos regem, não nos regem senão por sua autoridade, em seu nome; "Um só Senhor". uma só é a regra, uma só a estrela que nos mostra o caminho; a palavra divina, objeto da nossa fé: "Uma fé". Um só é o nosso oriente em que aparece esta estrela e à qual todos igualmente devemos nos dirigir, que é o nosso batismo, chamado por isso sacramento de iluminação e de fé: "um só batismo". um só Deus, objeto da nossa beatitude: "um só Deus"; e Pai de todos que a esta felicidade nos convida: "e pai de todos"; que está acima de todos com sua verdade, para iluminar-nos a fim de conhecê-la; "que está acima de todos"; e está por todas as coisas com sua Providência para dirigir-nos a encontrá-la: "e por todas as coisas"; e finalmente em todos nós que estamos com sua graça como Princípio íntimo para mover-nos a procurá-la: "e em todos nós". A Ele seja dada glória por todos os séculos.

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