Busca no Blog

10 de novembro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni.

II - O NOME DE MARIA 

1. - Os sentidos do nome de Maria
A santa Igreja ao propor hoje à nossa veneração o SS. Nome de Maria, entende certamente que nós nos esforcemos com nossa inteligência, por quanto podemos, entrar nos misteriosos sentidos da sua sagrada interpretação. Pois como se poderá respeitosamente reverenciar o que se ignora totalmente, ou se conhece apenas confusamente? Por isso eu acredito ser necessário senão útil ao máximo
explicar de verdade e ao mesmo tempo com clareza os segredos admiráveis encerrados neste augusto Nome. Nisto nada há a temer de audácia ou de perigo. Os Santos Padres, os Santos Doutores nos precederão sempre por caminho seguro. Embora eles já tenham tratado com eloqüência e com abundância, como porém seus tratados não estão nas mãos de todos, os mais simples e ignorantes não
compreenderiam em si tal maravilhosa cheia de sabedoria e de doutrina que redunda nos seus escritos; assim eu me farei quase um que retribui, estreito sim, mas mais proporcionado, para prover até as mentes mais humildes das águas oportunas que lhes irriguem e as saciem a sede na necessidade e na medida, sem afogá-las ou maltratá -las com o pé só e o ímpeto. Muitas são as interpretações deste Nome santíssimo, que todas valem para demonstrá-lo sumamente admirável e venerando.
Segundo alguns doutores, Maria quer dizer o mesmo que "exaltada". Segundo S. Jerônimo, significa "iluminadora", "Mirra", ou seja "amargura do Mar", ou também "Estrela do Mar". Segundo porém a mais própria etimologia se interpreta"Dona do Mar". A esta interpretação eu me apego por que ela supõe ou compreende na sua vastíssima idéia todas as outras, como se tornará conhecido por si mesmo ao explicá-lo.
2. - Maria teve autoridade de domínio sobre seu divino Filho
Que quer dizer portanto "Maria Dona do Mar?" "Senhora do Mar"? Ó Deus! Quantos mistérios estão contidos nestas palavras! Que objetos da nossa mais profunda veneração! Vejamos um pouco o que seja este "Mar" de que Maria é declarada Senhora desde o seu nome. Mar cheio, imenso, altíssimo de sabedoria, de perfeição, de graças, é, na Divina Escritura, o Filho unigênito de Deus, Verbo
encarnado, a Sabedoria não criada. No Eclesiástico de fato lemos assim: "O meu pensamento é mais vasto do que o mar, e seu conselho mais profundo do que o grande abismo" (Eclo 24, 39). Não vos maravilheis, amados, que a Bem-aventurada Virgem seja Senhora deste Mar, quando na verdade á também mais: Mãe. Sim, Maria com toda propriedade deve dizer-se Mãe de Deus; isto é dogma de fé definida pelo Concílio Constantinopolitano II, porque desde o primeiro instante da conceição tendo sido a natureza humana assumida pela pessoa divina, pode-se verdadeiramente dizer que Deus é concebido e nascido da Virgem Maria. Assim S. Tomás. Parece que o Espírito Santo nos Provérbios pensasse em Maria, quando disse que Deus no princípio tinha circundado o mar em seus limites; "quando pôs regras ao mar" (Pr 8, 29); porque ela devia conceber em semelhante modo em seu
seio e encerrar o Verbo de Deus, que é o Mar e o abismo de Sabedoria, de Poder, de Virtude, e de todo ser e bondade. E não se deverá chamar Maria "Senhora daquele Mar" que embora imenso, ela pôde conter em seu imaculado seio? (4). O douto A Lápide sobre aquelas palavras de S. Mateus "de quem nasceu Jesus", assim escreveu: "A Virgem Mãe de Deus tinha um direito e uma autoridade materna sobre Cristo, como têm as outras mães sobre os filhos que geraram; aliás mais que as outras mães, porque ela foi mais mãe de Cristo que não as outras mães dos seus filhos. De fato Cristo nasceu
só da mãe; portanto segue que a Bem-aventurada Virgem teve mais direito em Cristo que não têm as outras mães em seus filhos; e que o amor que nos outros filhos é dividido entre pai e mãe, em Cristo foi unido e todo se concentrava na Mãe. Mas que dificuldade vos pode haver em reconhecer em Maria este domínio tão excelso sobre a divina pessoa de Cristo, quando o próprio Cristo não desprezou de fazer-se e reconhecer seu súdito, dizendo o Evangelho: "E era-lhes submisso?" (Lc 2, 51). Por isto o ilustre Bispo e Mártir Metódio dizia que só a Bem-aventurada Virgem tem como devedor Aquele que é credor de todos. Pois todos nós devemos a Deus; só a Maria Ele deve piedade e sujeição . Porém se nós queremos dizer que este débito em Cristo não fosse rigoroso e que por razão da divindade ele fosse emancipado da sujeição paterna, devemos porém confessar que Cristo portou-se sempre para com sua Mãe como se estreitamente fosse sujeito; daí Ela sempre foi amada como Mãe e reverenciada como Senhora. Ouvi S. Bernardo: "Aquele Deus ao qual os Anjos são submissos, a quem obedecem" os Principados e as Potestades, eram submisso a Maria. Admire-se pois um e outro, e se eleja qual dos dois seja mais admirável: ou a benigna dignidade do Filho, ou a excelentíssima dignidade da Mãe. Um e outro é estupendo e prodigioso; que um Deus obedeça a uma mulher, esta é humildade sem exemplo; que uma mulher seja senhora de um Deus, esta é sublimidade sem confronto". Ó venerável Nome de Maria! Com que profundo obséquio não deverá ser daqui por diante nomeado por nós, miseráveis pecadores. Com que confiança invocado! Pois, se Maria teve tal autoridade de domínio sobre a pessoa do seu Filho; se Ela pode dispor com facilidade e com segurança do coração do Rei, seu soberano sim, mas também seu Filho; como não será senhora de todos os seus tesouros, daquele mar imenso de graças e de misericórdia? Eu deixo este ponto,como mais fácil de ser entendido à vossa consideração; enquanto por amor à brevidade apresso-me em fazer correr os olhos sobre a amplidão admirável deste místico Nome.
3. - Maria tem autoridade sobre o Reino de Cristo
Nos encaminhará o Abade Ruperto: "Sendo Maria mãe do Rei coroado que Deus constituiu sobre todas as obras de suas mãos; por isso, constituída ela também como Rainha, possui com direito todo o Reino do Filho. Como não possuirá o Reino do Filho aquela que todo possui o próprio Filho?. Ora quem não sabe que o Reino universal de Cristo é dividido em três grandes reinos, isto é, celeste, terrestre e infernal? Segundo o que diz S. Paulo: "para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho no céu, na terra e nos infernos" (Fl 2, 10). E eis em um outro sentido Maria, "Senhora do Mar".
4. Maria Rainha dos Anjos
Primeiramente pelo nome de Mar no Apocalipse é significado a multidão imensa daqueles Espíritos Celestes, em que quase como um mar lúcido tranquilo se espalha e resplende a beleza do divino semblante: "Havia ainda diante do trono um mar límpido como cristal" (Ap 4. 6). Que Maria seja senhora dos Anjos - como canta a Igreja "Rainha dos Anjos" - não por excelência ou prioridade, nem só por eminência de graças e de virtude, mas por autoridade e jurisdição; manifestasse ainda pela reverência que lhe mostraram os Anjos mesmo declarando-se sujeitos a Ela. Esta reverência - como nota Fulberto Carnotense - aparece bem claro no fato do Arcanjo Gabriel, o qual, mesmo antes
que Ela fosse feita Mãe de Deus, porque sabia que deveria sê-lo, a saudou com tanta veneração e respeito. O próprio Fulberto continua a provar a jurisdição de Maria sobre os Anjos, pela obediência que sempre lhe prestaram; e confirma tudo com ilustres e memoráveis exemplos. Mas eu devo passar logo a mostrar-vos o domínio de Maria sobre outro reino, o terrestre; quer dizer sobre todos os homens.
5. - Maria Senhora deste século
Na verdade no uso comum da Escritura o mar é assumido para representar o século presente: "Eis o mar, imenso e vasto" (SI 103, 25). S. Agostinho comentando este trecho do Salmo, mostra muito distinta a semelhança que tem este mundo com o mar: pela natural inconstância, pelas freqüentes tempestades, pela amargura das suas águas, e por muitos outros egrégios confrontos (11). Agora Maria é Senhora deste século. A jurisdição patenteia-se singularmente pelos seus próprios atos, que vão comandar, fazer leis, punir e semelhantes. Ela diz de si mesma: Por mim os Príncipes reinam e os
legisladores decretam a justiça. Estas são justamente as palavras que os Doutores da Igreja dirigem a ela: "Por mim reinam os reis e os legisladores decretam a justiça'* (Pr 8, 15). Se alguém quisesse insistir no sentido literal deste texto tirado dos Provérbios dizendo que se deve entender da Sabedoria não criada; eu pergunto: Quem é esta Sabedoria não criada se não o Verbo de Deus, senão o Filho
de Maria? "Mas da dominação - conclui, por mim Arnoldo Camotense, - mas da potestade do Filho não pode ser separada de modo nenhum a Mãe. Uma é a carne de Maria e de Cristo, um o espírito, uma a caridade; e do momento em que lhe foi dito: "O Senhor está contigo", perseverou inseparavelmente e a promessa e o dom". E depois resolve assim: "Portanto eu julgo que a glória do Filho não só seja comum com a Mãe, como seja a mesma". Quanto a punir, eu seria muito longo se quisesse citar todos os fatos autênticos da história. Apresentarei somente dois: um antigo, o outro mais recente, em uma só espécie de blasfemadores. Nestório, que no século V foi ousado com sua heresia de blasfemar o nome da grande Senhora, não teve talvez que morrer com a língua sacrílega devorada pelos vermes?  Poucos anos faz em uma cidade da Itália não muito distante, um blasfemador do Nome Santíssimo de Maria foi visto por uma infinidade de povo horrivelmente
punido naquela mesma língua que vomitando palavras sacrílegas lhe saiu de forma disforme crescida fora da boca. O fato é certíssimo e igualmente famoso. Aprendamos todos a respeitar o Nome de nossa Senhora e Soberana dominadora.
6. - Maria é estrela e guia deste século
Agora, porém, eu vos mostro um outro sentido ainda - não menos admirável - em que Ela se diz Senhora do Mar deste século. Segundo o uso dos Hebreus e dos Sírios, Senhora significa também Mestra, Diretora, Guia. E esta idéia de Mestra, Diretora, Guia ou Estrela do Mar, bem se adapta a Maria que pelo mar deste século nos guia salvos à terra da promissão que é o Céu. E assim - segundo S. Ambrósio - a Bem-aventurada Virgem foi muito bem figurada por aquela outra Maria irmã de Moisés, da qual os Hebreus referem esta tradição. Quando esta menina nasceu, começava justamente a amarga tirania do Faraó que fazia afogar os meninos hebreus, e assim foi dita então Maria, quase
amargura do mar. Mas este nome se lhe mudou depois com melhor augúrio e por divino conselho em uma outra mais excelsa significação, quando passado o mar Vermelho e submerso o Faraó, foi chamada Maria, quase mestra e diretora do mar. Porque como Moisés esteve à frente dos homens, assim sua irmã esteve à testa das mulheres na passagem do mar; daí entoou o Cântico de Louvor a Deus. Oh! Que belo campo se me abre para mostrar-vos a vontade, o amor de Maria de salvar nossas almas! Se, porém, a estreiteza do tempo não me permite apresentar-vos com minhas palavras, tenho o prazer de haver indicado às vossas reflexões. Não há necessidade de abrir-vos o caminho com os argumentos. É aberto a todos, é patente. Eia pois, devotos de Maria, entrai com vossas considerações
para descobrir a grandeza, para gozar a amenidade, para alimentar-vos com seus preciosos e salutares frutos.
7. - Maria tem domínio sobre o Demônio
Falta ainda ver como este Nome de Maria - ou seja Senhora do Mar - apresente o domínio e poder soberano que Ela tem sobre o inferno. S. Hilário explicando as palavras do Salmo: "Quem conturbas o profundo do mar e o som dos seus fluxos", por fundo do mar entende-se o demônio; e por fluxos
tempestuosos deste mar se entendem os homens perversos que seguem o demônio, tanto na malícia como na condenação. Daí se pode bem interpretar o SS. Nome de Maria, como Senhora também deste mar volumoso e proceloso; e se  dizer que quando os fiéis servos de Maria invoquem devotamente este Nome admirável, fique conturbado o fundo deste mar com todo o fragor de suas vagas; "Conturbas o profundo do mar e o som dos seu fluxos". Cresce a conveniência desta exposição dizendo ela de si, segundo os Santos Doutores que aplicam estas palavras: "Penetrei na profundeza dos abismos, andei sobre as ondas do mar" (Eclo 24, 8).E isto para mostrar que Ela domina com grande poder e virtude sobre o reino tenebroso do inferno, como S. Bemardino de Sena
glosa em um seu sermão. Querei assustar todo o inferno? Nomeai Maria com confiança. Ó nome terrível aos demônios! Ó nome admirável aos Anjos! Ó nome venerável a todos os servos e filhos desta tão grande e poderosíssima Senhora do Céu, Senhora da Terra, Senhora do inferno, Senhora por isso do mar, "Senhora do Mar". E o fundamento e a razão do domínio que ela goza sobre o mar altíssimo é o seu bendito Filho, a quem seja dada honra por todos os séculos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário