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22 de agosto de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales

10/15  -  O agrado divino, única consolação dos aflitos.

Se eu não soubesse que a vossa virtude pode dar consolação e resolução necessárias para suportar com coragem cristã a perda que sentistes, tentaria apresentar-vos algumas razões nesta carta, e se fosse preciso eu vô-la levaria. Mas suponho que tendes tanta caridade e amor de Deus, que vendo o seu agrado e santa vontade acomodar-vos-eis a ela, e dulcificareis o vosso desgosto pela consternação do mal deste mundo miserável que se não fosse a nossa fragilidade deveríamos louvar a Deus do que afligir-mo-nos quando nos leva os nossos amigos; porque convém que todos, uns após outros, daqui saiamos segundo a ordem que Ele estabeleceu; e os primeiros são os que se acham quando viverem com cuidado da sua salvação e da sua alma, como fizeram meu tio e meu irmão mais velho, cuja conversação foi tão doce e útil para todos os seus amigos, que nós que fomos dos seus familiares e íntimos não poderíamos deixar de ter muito pesar da separação que se fez; e este pesar não nos é proibido, contanto que o moderemos com a esperança que temos de não ficarmos sempre separados, mas que em pouco tempo os seguiremos ao céu lugar de nosso repouso, se Deus nos fizer esta graça; será aí que nós cumpriremos e completaremos as boas e cristãs amizades que apenas começamos neste mundo. É o principal pensamento que os nossos amigos de nós requerem no qual vos súplico que vos demoreis, deixando as desmedidas tristezas para os espíritos que não têm tais esperanças.
Tenho notado com compaixão o estado do vosso coração desde que soube o pesar que sofreu há poucos dias; pois, embora eu bem sabia que, graças a Deus, a experiência e o costume que tendes há anos a esta parte em sofrer os desgostos terá fortalecido a vossa alma e animado a vossa coragem para não serdes tão extraordinariamente sensível a estes golpes inevitáveis da nossa condição mortal; contudo temo que esses combates tão frequentes espantem a vossa resolução; contudo, senhora, não deixo de esperar que, depois de tantas renúncias da vossa vontade na de Deus, depois de terdes considerado tanto na vaidade desta vida, e na verdade da futura, depois de tantos pretextos de vos querer desligar irrevogavelmente a Providência celeste, só encontreis uma sólida consolação aos pés da cruz de Nosso Senhor, onde a morte se tornou para nós melhor do que a vida; e esta ilusão da vida deste mundo não terá tido poder, creio, para vos deixar as resoluções que Deus vos fez tomar sobre os acontecimentos passados.
Em suma, é necessário sujeitar-se à necessidade, e torná-la útil à nossa felicidade futura, à qual devemos só aspirar pelo caminho da cruz, dos espinhos, e aflições. E na verdade, não importa pouco, mas importa muito aos que nós amamos que a sua demora seja pequena entre as tramas e misérias desta vida. E quanto a nós, não nos importaria, se considerássemos que só à eternidade é que devemos dirigir os nossos desejos por Deus. Minha querida tia, e para falar segundo o meu coração, minha querida filha, não vos deixeis levar pela torrente de adversidade mas uni-vos aos pés de Nosso Senhor, e dizei-lhe que sois sua; que disponha de vós e do que quis que fosse vosso, à sua vontade certificando-vos não só a vós como aos vossos da santa eternidade do seu amor; estes momentos não merecem o cuidado que pensamos para conseguir este bem.
Não podeis crer quanto me foi sensível a aflição que tivestes. Eu amava com um afeto particular esse caro senhor falecido, por muitos respeitos; mas o de sua virtude e piedade era o principal. Que lástima que em uma estação em que há tanta falta de tais almas, entre as pessoas dessa condição, vejamos e soframos destas perdas tão terríveis para o público!
No entanto, minha querida senhora, considerando tudo bem, é preciso sujeitarmos os nossos corações à condição da vida em que estamos; é uma vida mortal, e a morte que domina nesta vida não segue um caminho ordinário; toma ora aqui ora ali, sem escolha nem método algum bons entre os maus e os jovens entre os velhos.
Oh! como são bem aventurados, os que vivendo com uma contínua desconfiança da morte, estão sempre prontos para morrer, para que possam reviver eternamente para a vida onde não há mais morte! O nosso querido defunto era deste número eu bem sei.
Isto só, senhora, basta para nos consolar; porque enfim, dentro de poucos dias, cedo ou tarde, dentro de poucos anos, o seguiremos neste passo, e as amizades e sociedades começadas neste mundo, renovar-se-ão para não haver mais separação.
No entanto, tenhamos paciência e esperemos com coragem que soe a hora da nossa partida, para onde estão os nossos amigos; e já que os amamos cordialmente, continuemos a amá-los, fazendo por amor deles o que desejaríamos que nos fizessem e que no entanto desejam de nós para nós.
Sem dúvida, minha senhora, o maior desejo que o vosso falecido teve à sua morte foi que não tivésseis um grande pesar pela sua ausência, mas que vos esforçásseis por moderar, por seu amor, a paixão que o seu amor vos causava; e agora na felicidade de que goza, desejá-vos uma santa consolação, é que, moderando a vossa tribulação, conserveis os olhos para coisa melhor do que as lágrimas e o vosso espírito para melhores ocupações do que a tristeza.
Deixou-vos penhores preciosos do vosso matrimônio; conservai a vida para provê-los do alimento e da piedade do espírito para sufragar a sua alma. Fazei isto, senhora, por amor de vosso marido, e suponde que ele vô-los pediu ao morrer e que vos pede  este ofício; porque em verdade, te-lo-ia feito se pudesse e deseja isto de vós agora; todo o resto das vossas paixões pode estar como vosso coração que ainda esta neste mundo, mas não segundo o seu, que esta no outro. E já que a verdadeira amizade se compraz em agradar ao justo recreio do espírito para agradar a vosso marido, alegrai-vos a vós mesma, aliviai o vosso coração e reanimai a vossa coragem. E se o conselho que vos dou com uma sinceridade sem igual vos é agradável, praticai-o prostrando-vos ante Nosso Senhor, conformando-vos com as suas ordens e considerando a alma desse caro falecido, que deseja para a vossa uma verdadeira e cristã resolução; e entregando-vos completamente a celeste Providência do Salvador da vossa alma e vosso celeste Protetor, que vos auxiliara e socorrerá, e vos unirá enfim ao vosso querido falecido, não na qualidade de mulher com seu marido, mas de herdeiro do céu com seu co-herdeiro e de fiel amante com seu fiel amante.
Ora, ânimo, minha cara filha! é preciso que o vosso coração sofra desde já a separação do vosso bom esposo, pois que enfim a Divina Providência o chamou a si e levou desta vida mortal, na qual vivemos morrendo e morremos continuamente vivendo.
Quanto a mim, minha querida filha, não quero apresentar-vos outra consolação senão a Jesus Cristo crucificado, à cuja vista vos consolará a vossa fé; porque depois da morte do Salvador, toda a morte é feliz para aqueles que, como o falecido de que falo morrem no grêmio da Santa Igreja; todo o que se glorifica da morte de Nosso Senhor nunca se afligirá demasiadamente com a morte dos que Ele remiu e recebeu por seus.
Quem aspira a eternidade, consola-se com as adversidades desta vida, que só dura poucos, vis e curtos momentos. Nesta eternidade gozamos da sociedade dos nossos, sem nunca temermos a separação.
Costumo dizer a todas as almas que se dirigem a mim, mas digo mui particularmente a vós, que sois tão especialmente minha filha, que é preciso elevar os nossos corações para o céu, como diz a Igreja no santo sacrifício. Vivei com pensamentos gloriosos e magníficos, que vos unam a esta eternidade e a esta grande Providência, que só dispôs dos momentos mortais para esta vida eterna.
O coração, elevado assim generosamente, é sempre humilde, porque esta firmado na verdade e não na vaidade; é doce e pacífico, porque lhe não importa o que o pode perturbar; mas quando eu digo que é doce e pacifico, não quero dizer que não sinta dor, nem sentimento de aflição. Não, de certo, minha filha, não digo isso; mas digo que os sofrimentos, as penas e as tribulações são acompanhados por uma resolução tão forte de os sofrer por Deus, que toda esta amargura, por amarga que seja é pacifica e tranquila.
Acabo de saber a dolorosa, mas bem aventurada morte da vossa cara esposa. De certo o meu coração foi tocado tanto mais vivamente quanto maior foi a perda que sofri; porque a bondade, a virtude, a piedade que via naquela bela alma me tinham obrigado por tal forma a honrá-la, que agora disso faço uma profissão solene.
Como é ditosa, essa querida senhora, por ter, entre tantas dores e trabalhos, conservado a fidelidade que devia ao seu Deus! e quanto me consolo por saber uma parte das palavras de caridade que o seu espírito proferiu com os seus últimos suspiros, no seio da divina Misericórdia! Mas o Senhor, não terei em uma obrigação imortal pelo favor que me fazia, pois que nos últimos dias da sua vida mortal tantas vezes mostrou que se lembrava de mim, como de quem sabia lhe era dedicado em Nosso Senhor? Nunca sairá de minha alma esta recordação, e não podendo oferecer-lhe o serviço fidelíssimo que tinha jurado à sua virtude e devoção, peço-vos, Senhor, que o aceiteis com o que a honra da vossa benevolência tenha adquirido sobre os meus afetos; e no entanto, nesta, ocasião, empregai a magnitude da vossa coragem em moderar a grandeza do pesar que essa grande perda vos deu. Submetemo-nos aos decretos da soberana Providência, decretos que são sempre justos, sempre santos, sempre adoráveis, embora impenetráveis e obscuros à nossa inteligência. Esta alma bela e devota morreu em um estado de consciência, no qual, se Deus nos fizesse a honra de morrermos, seríamos ditosos em morrer, fosse em que tempo fosse.
Acedamos a esta graça que Deus lhe fez e tenhamos paciência pelo pouco tempo que aqui temos para viver sem ela, pois temos esperança de estar com ela eternamente no céu, em uma amizade indissolúvel e invariável.
Que desgosto acabo de receber com a triste notícia da morte de vossa tia, que me amava com tanta ternura e carinho; à qual tinha um afeto tão justo! Iria eu próprio mostrar este sentimento se julgasse por este meio poder aliviar o vosso, ou que este embaraço que me trás o negócio da minha visita me permitisse; mas pelo menos eis meu irmão que vai receber as vossas ordens para ele e para mim e certificar-vos como eu honrei de todo o meu coração a vida desta querida defunta, e como estimo a sua honrosa memória, tanto como nenhum dos parentes que a deixou. Agora esta tão terrível separação é tanto menos dura quanto será pouco duradoura, o que não só esperamos, mas aspiramos a este feliz descanso, no qual esta bela alma, esta ou estará em breve.
Tomemos, eu vô-lo peço, de bom grado, esta pequena demora que nos faz ter aqui; e em lugar de multiplicar os meus suspiros e as nossas lágrimas por ela, derramemo-las por ela ante Nosso Senhor, para apressar a sua recepção nos braços desta divina bondade, se ainda lhe não concedeu esta graça.
Quanto a mim, tenho muita consolação no conhecimento que tenho do interior desta boa tia, a qual muitas vezes, com uma extrema confiança, me tinha comunicado na sagrada confissão; porque estou certo de que a divina Providência, que lhe tinha dado um coração tão piedoso e tão cristão a terá enchido de bençãos na sua partida.
Bendigamos e louvemos a Deus; adoremos a disposição das suas ordens; reconheçamos o procedimento e a instabilidade desta vida e esperemos em paz a futura.
Compadeço-me da dor que sofrestes e exorto-vos contudo a não vos deixardes levar pela tristeza; porque a graça que Deus vos fez de o querer servir vos obriga a consolar-vos nele; as filhas do amor de Deus têm tanta confiança na sua bondade, que nunca se afligem muito tendo um refúgio onde encontram contentamento. Quem dele beber nesta fonte divina não pode ficar sequioso nas paixões desta miserável vida.
Sei que estais doente; mas, minha cara filha, ao passo que redobram as vossas penas, deve redobrar a vossa coragem, pensando que Aquele que, para mostrar o seu amor para conosco, escolhe a morte na cruz, vos atrairá cada vez mais para o seu amor e para a sua glória pela cruz das tribulações que vos envia.
O meu espírito não pode cessar de pensar em vós, minha querida prima, minha filha, e só quereria falar-vos da maneira que pode, e contudo não sabe que dizer-vos, estando como o vosso, ainda amedrontado, se não fora vontade do divino Esposo de nossas almas que contemplamos todos os nossos sucessos no seio da celeste Providência, e dirijamos os nossos afetos para a eternidade onde todos nós haveremos de encontrar para nunca mais nos separarmos. Oh! minha filha! porque estamos tão seguros, e confiamos na vaidade desta vida mortal? Os nossos desejos são mais altos, e convém para ai dirigir os nossos afetos. Em suma, eis-nos, minha querida filha, no ensaio de fidelidade que deveis a Deus, no qual resignastes todas as vossas aventuras.
Minha querida prima, dirigi o vosso coração para o céu, e colocai o vosso crucifixo no peito, para que apazigue os vossos soluços e suspiros. Pertencei-lhe completamente, e crede-me, Ele será todo vosso.

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