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20 de abril de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

07/26 - Como devemos proceder nas tentações.

Não desespereis por maiores que sejam as tentações a que estejais sujeitos. É preciso deixarmo-nos levar pela corrente e tempestade? Deixai enraivecer o inimigo à porta; fira, bata, faça ruído quanto puder; estejamos seguros de que não entra em nossa alma senão pela porta do consentimento. Fechemo-la bem e vejamos muitas vezes se está bem fechada, e de nada mais cuidemos, porque nada devemos temer.
Humilhai-vos muito e não desanimeis. Os lírios que crescem entre espinhos são mais brancos e as rosas ao pé dos álamos são mais odoríferas e musgosas. "Que sabe o que não é tentando?"
Tendes demasiado medo das tentações; eis o vosso mal. Não temais porque todas as tentações do inferno não mancharão uma alma que as não ama; deixai-as pois correr. O apóstolo São Paulo sofre-as terríveis, e Deus não lhes quer tirar, e tudo por amor. Coragem; elevai sempre o vosso coração a Deus e deixai a este inimigo bater a porta quantas vezes quiser. Vivei com o doce Jesus e sua amável Mãe, nas trevas, entre os cravos, os espinhos, as lanças, os desprezos, as injúrias.
Viveis muito tempo nas lágrimas, sem nada obter; Deus vos alegrará e cumprirá o desejo do vosso coração. Se o não faz, não deixeis por isso de o ouvir que Ele não deixará de ser vosso Deus, porque o afeto que lhe devemos, é de natureza imortal.
Vejo claramente este formigueiro de inclinações que o amor próprio alimenta e lança em vosso coração e sei que a condição do vosso espírito sútil, delicado e fértil contribui alguma coisa para isso; contudo estas inclinações não são das aceitas por consentimento algum, ou pelo menos por consentimento deliberado, embora vos aflijam e vos sejam importunas.
Não, como a vossa querida alma compreendeu o grande desejo que Deus lhe inspirou de não pertencer senão a Ele, não creias com facilidade que ele preste o seu contentamento a estes movimentos contrários. Pode atormentar-se o vosso coração pelo sentimento das vossas paixões; mas entendo que raras vezes peca por consentimento. Ó homem miserável, dizia o grande Apóstolo, que me livrará este corpo da morte? O apóstolo, sentia um exército composto destas aversões, hábitos e inclinações naturais, que conspiraram contra a vida espiritual; e temendo-os, dá testemunho de que os aborrece; e odiando-os, não os pode sofrer sem dor, e a dor lhe faz soltar esta interrogação, à qual responde que " a graça de Deus, por meio de Jesus Cristo, o guardará", não do temor, do alarme, do combate, mas da derrota, e impedi-lo-á  de ser vencido.
É verdade, direis vós; mas já tantas vezes tenho cortado e circuncidado as minhas paixões, e embora tenha feito o que posso e empregado por muito tempo todos os cuidados e vigilâncias possíveis, sinto sempre desgostos, repugnâncias e aversões. Ah! minha pobre alma, não sabes que não viemos a este mundo para gozar, mas para padecer? Esperai um pouco; quando estiverdes no céu, tereis uma paz perfeita e um contentamento completo então não sentireis movimentos desordenados da natureza viciada e corrompida pelo pecado, e possuíreis uma alegria e repouso duradouro, porque lá é que se goza da paz, e não neste mundo, onde devemos padecer e circuncidar-mo-nos. O que não tiver aqui paixões não sofrerá, mas gozará, o que não é possível, porque enquanto vivermos havemos de as ter e só depois da morte seremos livres delas, segundo a opinião dos doutores, aprovada pela Igreja. Porém, porque nos havemos de mortificar, se destes embates e paixões nasce a vitória e o triunfo?
Estar no mundo e não sentir estes movimentos da paixão, são coisas incompatíveis. O nosso glorioso São Bernardo diz que é uma heresia dizer que podemos perseverar no mesmo estado neste mundo, pois que o próprio Espírito Santo disse pela boca de Jó falando do homem, "que nunca estará no mesmo estado". Assim respondo ao que dizeis a respeito da inconstância da alma; porque creio firmemente que esta continuamente agitada pelos ventos das paixões; mas também creio firmemente que permanecem em vosso espírito a graça de Deus e a resolução que vos concedeu, e que tendes sempre arvorado o estandarte da cruz e nele a fé, a esperança  e a caridade clamam sempre seus tesouros.
Enfim, notai o seguinte: enquanto vos desagradar a tentação nada receeis, porque se vos desagrada é porque não a admitis!
Estas tentações tão importunas vêm da malícia do demônio; mas o tormento e desgosto que sentimos, vêm da misericórdia de Deus, que, contra a vontade do seu inimigo, tira da malícia o ouro quer guardar em seus tesouros.
Portanto digo: As vossas tentações nascem do demônio e do inferno; mas as penas e aflições nascem de Deus e do Paraíso: as mães são de Babilônia, mas as filhas de Jerusalém. Desprezai as tentações; mas abraçai as tribulações.
É preciso que um soldado tenha ganho muito na guerra para viver comodamente na paz. Nunca teremos perfeita doçura e caridade se não for exercitada entre repugnâncias, aversões ou desgostos. A verdadeira paz não vem de não combater, mas de vencer. Os vencidos não combatem, e contudo não tem paz sólida. Vamos; é preciso que nos humilhemos muito, pois ainda não somos senhores de nós mesmos, e amamos o repouso e comodidades.
Não temos recompensa sem vitória, nem sem guerra. Tende coragem e convertei as vossas penas em matéria de virtudes. Olhai muitas vezes para Nosso Senhor, que vos contempla, embora sejais uma criatura miserável, nos vossos trabalhos e distrações. Envia-vos socorro e abençoa as vossas aflições. Deveis, considerando isto, receber com doçura e paciência os incômodos, por amor daquele que os envia para nosso proveito.
Elevai muitas vezes a Deus o coração: pedi-lhe o seu auxílio e fundai a consolação no prazer que tendes de lhe pertencer. Todos os desgostos serão pequenos se tiverdes um amigo assim, e um tal refúgio.

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