Busca no Blog

2 de abril de 2014

Preparação para a Morte

PONTO III

Consideremos agora o estado infeliz de uma alma que cai no desagrado de Deus. Vive separado de seu Sumo Bem, que é Deus (Is 59,2); de sorte que ela já não é de Deus, nem Deus já é seu (Os 1,9). E não somente não a considera como sua, mas detesta-a e a condena ao inferno. O Senhor não detesta a nenhuma das suas criaturas, nem às feras, nem aos répteis, nem ao mais vil dos insetos (Sb 2,25). Entretanto, não pode deixar de aborrecer o pecador (Sl 5,7); porque, sendo impossível que não odeie o pecado, inimigo absolutamente contrário à sua divina vontade, deve necessariamente aborrecer o pecador que se conserva unido à vontade do pecado (Sb 14,9).
Ó meu Deus! Se alguém tem por inimigo a um príncipe do mundo, não pode repousar tranqüilo, receando a cada instante a morte. E aquele que for inimigo de Deus, como pode ter paz? Da ira de um rei se pode escapar, ocultando-se ou emigrando para outro país; mas quem pode livrar-se das mãos de Deus? “Senhor, — dizia David, — se subir ao céu, ali estás, se descer ao inferno, estás ali presente... A todo e qualquer lugar aonde vá, tua mão alcançar-me-á” (Sl 138,8-10).
Desgraçados pecadores! São amaldiçoados por Deus, amaldiçoados pelos anjos, amaldiçoados pelos santos, e ainda amaldiçoados na terra, todos os dias, pelos sacerdotes e religiosos que, ao recitar o ofício divino, proferem a maldição (Sl 118,2). Além disso, o desafeto de Deus traz consigo a perda de todos os 
merecimentos. Ainda que uma pessoa tivesse merecido tanto como um São Paulo Eremita, que viveu noventa e oito anos numa gruta; tanto como um São Francisco Xavier, que conquistou para Deus dez milhões de almas; tanto como São Paulo, que por si só alcançou — segundo afirma São Jerônimo — mais merecimentos que todos os outros apóstolos, se tal pessoa cometesse um só pecado mortal, perderia tudo (Ez 18,24); tão grande é a ruína que produz a queda no desagrado do Senhor! De filho de Deus, o pecador converte-se em escravo de Satanás; de amigo predileto torna-se odioso inimigo; de herdeiro da glória, em condenado do inferno. Dizia São Francisco de Sales que, se os anjos pudessem chorar, certamente chorariam de compaixão ao verem a desdita de uma alma que comete um pecado mortal e perde a graça divina.
Entretanto, a maior tristeza é que os anjos chorariam, se pudessem chorar, e o pecador não chora. Aquele que perde um cavalo, uma ovelha — diz Santo Agostinho — já não come, já não descansa, mas chora e lastima-se. Mas, se perde a graça de Deus, come, dorme e não se queixa!

AFETOS E SÚPLICAS

Vede, Redentor meu, a que estado lamentável me acho reduzido! Para me tornardes digno de vossa graça, passastes trinta e três anos de trabalhos e sofrimentos, e eu, em um instante, por um momento de prazer envenenado a desprezei e perdi. Graças mil rendo à vossa misericórdia, que ainda me dá tempo de recuperá-la, se, de fato, o quiser.
Sim, meu Senhor; quero fazer tudo quanto possa para readquiri-la.
Dizei-me o que devo fazer para obter o perdão. Quereis que me arrependa? Pois bem, meu Jesus, arrependo-me de todo o coração de ter ofendido a vossa bondade infinita... Quereis que vos ame? Amo-vos sobre todas as coisas. Mal andou na vida passa-da o meu coração, amando as criaturas e as vaidades do mundo. De agora em diante, só viverei para vós e só a vós amarei, meu Deus, meu tesouro, minha esperança e minha fortaleza (Sl 17,1). Vossos méritos, vossas sacratíssimas chagas, serão minha esperança. É de vós que espero a força necessária para vos ser fiel. Acolhei-me, pois, em vossa graça, ó meu Salvador, e não permitais que jamais vos abandone. Desprendei-me dos afetos mundanos e infla-mai meu coração em vosso santo amor.
Maria, minha Mãe, fazei que minha alma arda em amor de Deus, tal como arde a vossa eternamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário