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14 de abril de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

04/26  -  Da perplexidade do coração que ama sem saber se é amado.

Acontece algumas vezes que não encontramos consolação alguma nos exercícios do amor divino, de forma que, como cantores surdos não ouvimos a própria voz, nem podemos gozar da suavidade do nosso canto; mas, além disso, estamos cheios de mil temores, preocupados com mil ninharias com que o inimigo cerca o nosso coração, sugerindo-nos que talvez não sejamos agradáveis ao nosso mestre e que o nosso amor é inútil ou ainda que é falso e vão, por não nos produzir consolação. Então trabalhamos, não só sem gosto mas com um certo enfado, não vendo nem o fruto do nosso trabalho, nem o contentamento d'Aquele por quem trabalhamos. 
Mas o que aumenta o nosso mal é que nem o espírito nem a razão podem ter alívio algum, porque a parte superior da razão estando cercada pelas sugestões do inimigo, inquieta-se e embaraça-se para se conservar alerta contra o mal, de forma que não pode fazer sortida alguma para livrar a parte inferior do espírito. E se não perdeu a coragem, foi contudo atacada com tanta fúria que, se esta sem culpa, não esta sem pena: porque para cúmulo de seu mal, esta privada da consolação geral, que quase sempre temos em todos os outros males do mundo, que é a esperança de que não sejam duradouros e que lhe vejamos o fim; e o coração, nestes enfados espirituais, perde o poder de pensar no seu fim e por conseguinte de ser aliviado pela esperança. É certo que a fé, residindo na parte superior do espírito afiança-nos que esta perturbação acabará e que um dia gozaremos de repouso; mas a voz em grita do inimigo, no resto da alma impede que sejam ouvidos os avisos e advertências da fé e não nos fica na imaginação senão esta triste reflexão: Ah! eu nunca terei contentamento.
Ah! como esta aflito o pobre coração quando abandonado pelo amor, olha para toda a parte e não o encontra! Não o acha nos sentidos exteriores, porque não são capazes disso, nem na razão acabrunhada por mil dificuldades, obscuridades, apreensões estranhas; e embora o encontre na parte superior do espírito, onde reside este divino amor, desconhece-o contudo, e parece-lhe não ser ele, porque lhe impedem o sentir a sua doçura a multidão de temores e a espessura das trevas. Olha para ele, sem o ver, encontra-o sem o conhecer, como se fora um sonho ou uma visão.
Assim Madalena, tendo encontrado o seu querido Mestre, nenhum alívio recebeu, tanto que nem pensou ser ele, mas sim o jardineiro.
Ah! que fará a alma que esta neste estado? Não sabe como se há de conservar entre tantos inimigos; não tem força senão para deixar morrer sua vontade nas mãos da vontade de Deus, à imitação do doce Jesus, que, tendo chegado ao cúmulo das penas da Cruz, por seu Pai preparadas, não podendo resistir ao excesso das dores, fez como o veado, que cansado e rendido de fadigas se entrega ao homem, dando os últimos arrancos com os olhos lacrimosos. O Divino Salvador, prestes a morrer, lançou o último suspiro com um grande grito e abundantes lágrimas: "Meu Pai! nas vossas mãos entrego o meu espírito", disse ele. Palavra que foi a última de todas e pela qual o Filho amabilíssimo deu o soberano testemunho de amor para com seu Pai.
Quando pois tudo nos falta, quando estão no seu auge as nossas dores morais, esta palavra, este sentimento, esta renúncia da nossa alma nas mãos do nosso Salvador não nos podem faltar. O filho recomendou o seu espírito ao Pai celeste, nesta última e incomparável angústia; e nós quando as convulsões das penas espirituais nos tirarem todo o alívio e o meio de resistirmos, entreguemos o espírito nas mãos do Eterno Filho, que é o nosso verdadeiro Pai e baixando a cabeça a seu talento, entreguemos-lhe toda a nossa vontade.

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