28 de abril de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.


11/26  -  Das tentações de blasfêmia e de infidelidade.

Não deveis nem podeis crer que as tentações de blasfêmia e infidelidade venham de Deus; e quem vos disse que Deus era seu autor? Podem vir das trevas; da falta ou desvio da ação espiritual; da amargura da boca interior, que torna amargo o vinho mais doce; mas virem do nosso bom Deus sugestões de blasfêmia e infidelidade, isso não pode ser; é muito puro para as conceber.
Sabeis como Deus faz? Permite que o maligno, artífice de tais obras e as venha apresentar à venda, para que com o desprezo que lhe mostrarmos possamos provar o nosso afeto às coisas divinas. Fazia assim com o Santo Jó, com Santa Catarina de Sena e com um grande número de almas boas que eu conheço, e com a minha alma que nada vale e que eu não conheço. E então por esse motivo, havemos de afligir-nos? Deixai-o maquinar, conservai as portas bem fechadas, que ele se cansará, ou Deus, enfim, o obrigará a levantar o cerco.
Lembrai-vos do que me parece ter dito há pouco: É bom sinal que ele faça tanto barulho em torno da alma; é porque ainda não esta dentro. Coragem; enquanto puderes dizer com resolução, embora sem sentimento: Viva Jesus! nada devemos temer.
E não me objeteis que vos parece que o dizeis com franqueza e sem coragem, nem força, mas como com violência. "Oh meu Deus que nos dá os céus"!
Vede; é sinal de que esta tudo tomado, tudo ganhou na nossa fortaleza, menos o baluarte inexpugnável, que não se pode perder se não o quisermos. 
É enfim, esta vontade livre, que, desprovida ante Deus, reside na suprema e mais espiritual parte da nossa alma e que só depende de si e do seu Deus; e quando todas as outras faculdades da alma estão transformadas pelo inimigo, ela fica senhora de si mesma, para não consentir.
As almas afligem-se, porque o inimigo ocupando todas as outras faculdades, faz ali um ruído e vozeria enorme. Mal se pode ouvir o que se diz e faz na vontade superior, que tem a voz mais clara e viva do que a inferior; mas esta a tem tão áspera e grossa, que abafa a limpidez da outra.

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