31 de março de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

22/25  -  Como é bom entregar-se à Providência.

A Providência de Deus é admirável e infinita; intervem em tudo, reina em tudo e tudo faz reverter em glória sua. Oh! quem visse bem os efeitos da Providência e o comércio e tráfico geral que todas as criaturas fazem conjuntamente para o serviço do homem  com uma tão grande correspondência, de quantas paixões amorosas seria movido para com esta soberana sabedoria, para exclamar: A vossa Providência. Ó Pai eterno, governa maravilhosamente tudo! Em primeiro lugar Deus fornece aos homens todos os meios necessários para chegarem ao seu fim. O sol visível comunica a sua luz e virtude a todo universo; sem ele não haveria beleza nem bondade neste mundo corpóreo; o princípio universal da vida das coisas inferiores, pois a todas presta o vigor requerido para darem os seus produtos. Assim a Providência e Bondade divinas animam todas as almas para a sua salvação e convidam todos os corações para o seu amor e serviço, sem que ninguém se subtraia às suas celestes influências. Com esta intenção Deus fez-nos à sua imagem e semelhança pela encarnação, depois da qual sofreu a morte para remir e salvar toda a raça humana. É fora de dúvida que devíamos contemplar cem vezes por dia esta amorosa Providência de Deus, que tem sempre o seu coração voltado para nós por previdência, como devemos ter o nosso voltado para Ele por confiança e fundindo os nossos corações na sua divina vontade, devíamos exclamar devotamente: "Oh! bondade de doçura infinita, quanto é amável a vossa vontade e a vida eterna, e o vosso seio maternal, ardendo com um amor incomparável, é prolifico em licor de misericórdia, ou para perdoar aos penitentes, ou para aperfeiçoar os justos. Ah! porque não unimos nós pois as nossas vontades à vossa, como as criancinhas se unem ao seio das mães, para saborearem o leite das vossas eternas bençãos? Oh! como é verdade que Deus é mil e mil vezes mais amável do que amado e que nenhuma abundância de amor o poderia amar demais!" Deus meu, quanto prazer deviam ter as nossas inteligências, nos frequentes pensamentos da vossa divindade, pois que é tão boa, tão bela e tão doce para conosco e tão disposta a comunicar-se soberanamente! Não deveríamos amar necessariamente esta infinita beleza e incompreensível bondade, como fazem os espíritos bem aventurados, que são obrigados por uma doce, mas inevitável necessidade, a amá-lo eternamente? Ah! quanto Deus nos ama! como nos protege e conduz suavemente! Quer que sejamos seus; não procuremos pois outros braços para descansar senão os da sua divina Providência; não espalhemos ao longe a nossa vista e não descansemos o espírito senão nEle; contentemo-nos de governar por Ele; não pensemos tanto em nós e vivamos sempre ao sabor da sua divina Providência; tudo irá muito bem se a nossa alma não seguir outro caminho e os nossos negócios sairão bem quando Deus nos assistir. Pode morrer a criança quando estiver nos braços de um Pai poderosíssimo? Nada desejeis; deixai-vos, bem como todos os vossos negócios, ao cuidado da Providência divina; deixai-a fazer de vós o que quiser, como as criancinhas se deixam governar por suas amas. Leve-vos no seu braço direito ou esquerdo, como queira; uma criança não tem escolha; deite-vos ou levante-vos, deixai-a obrar, porque é uma boa Mãe que sabe melhor o que nos convém do que nós mesmos. Quero dizer que se a Providência divina permitir que vos sucedam aflições e mortificações, não as recuseis, mas aceitai-as de bom grado, amorosa e tranquilamente; e se as não envia, não as desejeis e preparai assim o vosso coração para receber os acidentes diversos da Providência divina. Não digo só na doçura e paz das prosperidades, o que cada um sabe fazer, mas nas tempestades e desventuras, o que é próprio dos filhos de Deus. Arme-se contra mim o céu, amotinem-se a terra e os elementos; declarem-me guerra todas as criaturas; nada temo; basta-me saber que estou com Deus e que Deus esta comigo. Volte-nos Nosso Senhor para a direita ou para a esquerda; aperte-nos e dê-nos cem voltas, como Jacó; volte-nos de um lado para outro, dê-nos mil males; não o deixaremos contudo sem nos dar a sua eterna benção. Nunca o nosso bom Deus nos abandona senão para melhor nos reter; nunca nos deixa senão para nos guardar melhor; nunca luta conosco, senão para se entregar a nós e nos abençoar. Oh Deus! Que felicidade é resignarmo-nos assim à vontade do nosso doce Salvador, por um abandono do nosso ser ao seu bom juízo e à sua santa Providência! Como seríamos felizes, se submetendo a nossa vontade à Deus, o adorássemos quando nos envia tribulações como no tempo das consolações, crendo que os diversos sucessos que nos envia a sua divina mão, são para utilidade nossa, para nos purificar na sua santa caridade! Embarquemo-nos pois no mar da Providência Divina, sem alimentos, sem remos, sem velas, e finalmente sem preparativo algum; mas deixemos a Nosso Senhor todo o cuidado dos nossos negócios, sem réplica nem temor algum; a sua bondade suprirá a tudo. Nosso Senhor ensinou-me a confiar na sua Providência  desde a minha juventude e se tornasse a nascer, quereria deixar-me governar até nas coisas mínimas, por ele, com uma simplicidade de criança e um desprezo profundo de toda a prudência humana.É para mim um grande gosto caminhar com os olhos fechados, conduzido pela Providência; os seus desígnios são impenetráveis, mas sempre doces e suaves para os que nEle confiam. Deixemos pois conduzir a nossa alma, que esta no seu barco, e ele nos levará a bom porto. Feliz os que confiam no que pode como Deus e quer como Pai dar-nos tudo o que é bom; desgraçados pelo contrário os que põem a sua confiança na criatura; esta promete tudo, dá pouco e faz pagar bem caro o que dá. Finalmente, já que a Providencia Divina é assim para conosco, sejamos por tal forma seus que a ninguém pertençamos senão a Ele; porque ninguém pode servir à dois senhores. A Providencia não difere o seu socorro senão para provocar a nossa confiança. Se nosso Pai Celeste não nos concede tudo o que pedimos, é para nos conservar perto de si e dar-nos lugar a impeli-la por uma doce violência, como o fez bem notar aos dois peregrinos de Emaús, com os quais não parou senão ao declinar do dia e quando eles o obrigaram. Nada nos separe pois do seu amor; esteja o nosso coração lânguido, moribundo ou vivo, nenhuma vida tenha senão nele e por Ele, e seja Ele sempre o Deus do nosso coração. Ruja embora a tempestade; não morrereis porque estais com Jesus. Se vos assaltar o temor, gritai: "Ó meu Salvador, salvai-me!" Dar-vos-á a mão, apertai e ide contentes sem filosofar sobre o vosso mal. Enquanto São Pedro confiou não o submergiu a tempestade: mas quando temeu afogou-se. O temor é um mal ainda maior do que o próprio mal. Quanto a mim, há ocasiões em que me parece não ter mais força para resistir, e que se se apresentasse a ocasião, sucumbiria; mas então mais confio em Deus, e por mais certo tenho que em presença da ocasião Deus me revestiria com a sua força e devoraria os meus inimigos como argueiros. Espero que Deus vos fortificará cada vez mais, e nos pensamentos ou ante tentações de tristeza, pelo receio de que o vosso furor e atenção não durem sempre, respondei uma vez por todas, que os que confiam em Deus não serão confundidos, e que tanto relativamente ao espírito como ao corpo, se entregais a Deus os vossos cuidados, ele vos sustentará. Sirvamos pois hoje a Deus e Ele amanhã providenciará. Cada dia terá o seu cuidado. Não vos lembreis de amanhã porque Deus, que reina hoje, reinará amanhã. Ou não vos enviará males, ou se vos enviar, dar-vos-á a coragem precisa para os suportar. Se sois tentados, não desejeis ser livres das tentações. É bom que as experimentemos para termos ocasião de as combater e colher vitórias. Isto serve para praticar as virtudes mais excelentes e estabelecê-las solidamente na alma. Por consequência, tende os olhos erguidos para Deus; engrandecei a coragem na santa humildade; fortificai a sua doçura; confirmai-a na igualdade, tornai o vosso espírito perfeitamente senhor das tendências e paixões, não permitais que as apreensões reinem em vossas almas. "Um dia Deus dará a ciência do que deveis fazer no dia seguinte". Tenho atravessado muitos caminhos com a divina graça; a mesma graça se vos apresentará nas ocasiões seguintes e vos livrará das dificuldades e maus caminhos, embora tivesse de mandar um anjo para vos conduzir aos sítios mais perigosos. Não volteis a vista para as enfermidades e fraquezas, senão para humilhardes e nunca para desanimardes. Vede muitas vezes Deus à vossa direita e os dois anjos que vos destinou, um para vossa pessoa e o outro para a direção da vossa família. Dizei muitas vezes a estes santos anjos:"Senhores, como faremos?" Pedi-lhes que vos forneçam ordinariamente o conhecimento da vontade divina, que contemplem as inspirações que Nossa Senhora quer que recebais de seu seio cheio de amor. Não contempleis esta variedade de imperfeições que vivem em nós e em todas as pessoas que Nosso Senhor e Nossa Senhora nos confiaram, senão para vos conservar no santo temor de ofender a Deus, mas nunca para vos espantar; porque não é necessário examinar se cada erva e cada flor requerem o seu particular cuidado no jardim.                     

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