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2 de março de 2014

DOMINGO DA QUINQUAGÉSIMA.

Os atos da religião

O Evangelho retrata a profecia de Jesus a respeito da sua paixão, morte e ressureição, e termina pela cura do cego.

Parece não haver relação entre estes dois fatos, aparentemente tão opostos.

O Evangelho faz notar que os apóstolos não compreenderam as profecias, porque tal linguagem lhes era obscura. Eram cegos espirituais.

Curando o cego, o Divino Mestre, parece indicar-nos que devemos pedir uma vista espiritual para compreender as coisas divinas, a qual é o espírito de fé.

Entre estas coisas divinas, ocupam o primeiro lugar as verdades que estamos meditando a respeito da necessidade, da constituição, e da base da religião.

Vamos completar este assunto considerando hoje a parte íntima e sobrenatural da religião, que se pode chamar: os atos formadores da religião.

Esta parte consta de três atos:

1. Crer em Deus
2. Esperar em Deus
3. Amar a Deus.

Eis os três atos que põem as almas em contato com Deus e que por isso são chamados: as três virtudes teologais.

I. Crer em Deus

A religião é o encontro de Deus com o homem, ou união íntima de ambos.

Já vimos porque eles se unem. É para satisfazer ao mútuo atrativo que os impele um para o outro.

Esta verdade é fundamental para ter uma noção exata da religião e sair da idéia materialista que faz acreditar que a religião é apenas um código de leis, imposto por Deus ao homem.

Vejamos agora o modo de união entre Deus e o homem. Como se unem eles?

Como pode um espírito unir-se a outro espírito?
Como pode um coração unir-se a outro coração?
Como pode a força divina unir-se á fraqueza humana?

Deus é uma alma; é mais que uma alma: é um puro espírito, isto é, independente de toda matéria, enquanto a alma é criada para ser unida a um corpo.

O homem é uma alma. E como se unem as almas?

É aqui que vamos entrar, de pleno, no santuário da religião, conhecê-lo no fundo.

Na natureza espiritual do homem há duas séries de atos que se correspondem. São:

a) Os atos pessoais, solitários, em si e para si.
b) Os atos de relação, pelos quais ela se liga as relações com as coisas e as pessoas que a cercam.

Pelo primeiro ato, o homem vê, observa e julga: é a sua razão.

Pelo segundo ato, o homem interroga, acredita, executa: é a , humana ou divina.

São dois elementos da nossa vida espiritual, sobre os quais tudo repousa: a razão e a fé.

Não basta possuir a razão: é preciso ter a fé, senão tudo se destroe e se corrompe neste mundo.

Rejeitando a fé, para se limitar a razão, seria não ter fé em ninguém, destruir a família, a amizade, o amor a sociedade.

Os filhos têm fé em seus pais, o aluno em seu mestre, a espôsa em seu marido, o enfermo no médico, o soldado em seu chefe, e o homem em Deus.

Sem fé rue a sociedade e rue a religião.

Eis porque as coisas mais sagradas repousam sobre a fé, sem contradizer e sem destruir a razão.

Deus é um espírito. Ora, só há um meio de entrar em relação com um espírito: é de interrogá-lo e de crer em sua palavra.

O primeiro ato de religião é, pois, ter fé em Deus.

II. Esperar em Deus

O segundo ato de união com Deus, ou de religião é: esperar em Deus.

O homem deve esperar:
Ora, esperar é pedir.
De modo que a oração é filha da esperança.

Um homem implora a outro homem.
A criança implora aos pais.
A fraqueza implora à força.

É isto que forma o encanto da família, da amizade, da sociedade.

A cada instante a força está em luta com a fraqueza e é esta vencedora daquela, pela súplica e pela esperança.

Ora, se assim acontece na terra, porque é uma lei básica da sociedade, porque não seria assim com Deus? Ele é Pai: nós somos seus filhos. Ele é Rei: nós somos seus súditos. Ele é poderoso: nós somos fracos. Logo a esperança é uma parte essencial de religião; é o segundo ato que une as nossas almas a Deus.

III. Amar a Deus

Acima da fé, há a esperança.
Acima da esperança há o amor.
Acima do amor não há mais nada, pois Deus é amor: Deus caritas est.

O terceiro ato de união com Deus, ou terceira parte essencial da religião,é o amor.

O homem ama a si mesmo; mas ele não pode contentar-se com este amor: é egoísmo.

É preciso que saia de si mesmo para amar, como ele sai de si para crer e para esperar.

Com este último ato ele termina a sua vida de relação.

No homem tudo se reduz ao amor.
O corpo é movido pelo espírito.
O espírito é movido pela vontade.
A vontade é movida pelo amor.

É Santo Thomaz quem no-lo afirma: voluntas bona, amor bonus.

IV. Conclusão

Tal é a religião. E esta concepção é a única exata, evitando ao mesmo tempo, o materialismo e o falso misticismo.

A religião é divina e humana.
Divina, porque Deus se abaixa até o homem.
Humana, porque o homem se eleva até Deus.

E o encontro, como os deveres deste encontro, chama-se: religião divina.

A religião é: Deus e o homem extendendo-se os braços, procurando-se, encontrando-se, abraçando-se.

Para destruir a religião, mister fôra destruir Deus e o homem.

Se destruissem só o homem, Deus o criaria de novo, para poder amá-lo.

Se, por impossível, destruíssem a Deus, o homem se faria um falso Deus, um fetiche...para poder amá-lo, pois o homem não pode viver sem Deus.

EXEMPLOS

1. As próprias luzes

Brücker é conhecido pelas respostas e pelos atos repentinos de um bom senso irretorquível.

Um de seus amigos, célebre escritor convertido, queria um dia provar-lhe que a revelação, a fé, podiam ser úteis em tempo de barbária, mas, que hoje as próprias luzes do homem civilizado eram-lhe suficientes.

Brücker tomou um livro de mesa e pediu ao seu amigo de o ler em alta voz.

Durante este tempo Brücker fechou cuidadosamente as janelas e portas da sala, de modo a reinar uma escuridão completa.

- Que estás fazendo? Perguntou o outro
- Meu amigo, entrego-te às tuas próprias luzes, respondeu Brücker, fazendo-lhe perceber deste modo como a razão humana é tenebrosa sem as luzes da fé.

2. Irmã Escolástica

São Philippe de Nery foi visitar um dia uma Irmã de Convento de Santa Marta, chamada Irmã Escolástica, horrívelmente atormentada pelos escrúpulos, julgando-se ser reprovada.

- O céu lhe pertence, disse o santo.
- Oh! Impossível, meu pai, respondeu a religiosa.
- É uma loucura sua, respondeu o santo, eu digo que o céu lhe pertence. E eis a prova. Diga-me, para quem Jesus Cristo morreu?
- Para os pecadores.
- Pois bem, a senhora é uma grande pecadora; logo, Nosso Senhor morreu para salvá-la... e o reino do céu lhe pertence.

Estas palavras restituiram a paz à boa religiosa... que compreendeu que a esperança em Deus é uma parte essencial da religião.

3. Santa Osana de Mântua

Tinha apenas seis anos quando tocada do amor de Deus, a criança pedia ao céu o que devia fazer para agradar-lhe em tudo.

Uma voz interior lhe respondeu: O que agrada a Deus é amá-lo de todo o teu coração.

Outra vez Nosso Senhor lhe apareceu sob os traços de um adolescente encantador, com a fronte coberta de longos cabelo anelados, mas carregando uma cruz pesada nos ombros e com a cabeça cercada de uma coroa de espinhos.

Extendendo seus bracinhos para a menina, lhe disse: Osana, eu sou o filho de Maria; a meu exemplo, dispõe-te a sofrer muito! Não tenhas medo entretanto, eu não te abandonarei... E desapareceu, deixando a santa menina toda inflamada de amor e do desejo de agradar a Jesus.

Desde então a sua vida foi uma oração e uma penitência continuas.

Obstáculos a sua virgindade que havia consagrado a Deus... estigmas nos pés e nas mãos... desprezo do mundo... ataques do demônio.. .nada faltou à sua coroa.

Ela tudo suportou e repetia muitas vezes: "Prefiro, amando a Jesus, estar no inferno com Judas, do que estar no céu com os maiores santos, sem amar a Deus".

(MARIA, P. Júlio. Comentário Apologético do Evangelho Dominical. O Lutador, 1940, p. 111 - 117)

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