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13 de março de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

13/25 -  Como a misericórdia de Deus é grande na conversão do pecador.

A volta do pecado tira a vida ao coração e a todas as obras; a volta da graça dá a vida ao coração e a todas as suas obras. Um inverno rigoroso faz morrer todas as plantas, de forma que, se durasse sempre ficariam como mortas. O pecado, triste e terrível inverno da alma, amortece todas as santas obras que encontra, e se sempre durasse nunca elas teriam vida e vigor. Mas, como à volta da primavera, não só as sementes novas que se lançam na terra, favorecidas por esta bela e fecunda estação, germinam e produzem agradavelmente cada uma segundo a sua qualidade, mas também as velhas plantas, que desde o inverno precedente estavam murchas, secas e amortecidas, reverdecem e avigoram-se, tomando vida nova; da mesma sorte, apagando o pecado, e voltando à alma a graça do amor divino, não só os novos afetos, que trouxe a volta da primavera sagrada, germinam e produzem muitos méritos e bençãos, mas também as obras, murchas, e inertes pelo rigor do inverno do pecado passado, como livres do seu mortal inimigo tomam novas forças e avigoram-se, e como ressuscitadas florescem de novo e frutificam em méritos para a Vida Eterna. Tal é o amor do poder celeste, ou o poder do amor celeste. "Se o ímpio se emenda da sua impiedade vivificará a sua alma. Convertei-vos e fazei penitência dos vossos pecados e a iniquidade não vos prejudicará", diz o Senhor todo poderoso.  E que quer dizer: "a iniquidade não vos prejudicará" senão que os prejuízos que ela fez se recomporão?  Assim, entre mil carícias que o filho prodígio recebeu do pai foi revestido com vantagens de todos os adornos e com todas as graças, favores e dignidades que tinha perdido. E Jó, imagem inocente do pecador penitente, recebe enfim o duplo do que tiveram. Deus não esquece pois as obras dos que, tendo perdido o seu amor pelo pecado, o recobram pela penitência. Ora Deus esquece as obras quando elas perdem o seu mérito pela perpetração do pecado, e torna-se a lembrar delas, quando adquirem vida nova pela presença do santo amor: da mesma forma que, para que os fiéis sejam recompensados das suas obras, tanto pelo acrescentamento da graça e glória futura, como pelo gozo da vida eterna, não é necessário que se não recaia no pecado, mas basta, segundo o sagrado Concílio, que se volte à graça e caridade de Deus. Deus prometeu recompensas eternas às obras do homem justo; mas, se o justo volta da justiça para o pecado, Deus não se recordará das obras justas e santas que pratica; se no entanto, pouco depois, este pobre homem caído em culpa se levanta e volta ao amor divino pela penitência, Deus não se tornará a lembrar do seu pecado, e se não lembrar do pecado, lembrar-se-á das boas obras precedentes e da recompensa que tinha prometido; pois que o pecado, único que as apagará da memória divina foi apagado, abolido e aniquilado totalmente; ou seja porque a misericórdia de Deus vença a justiça, ou porque a justiça obrigue a misericórdia a olhar as boas obras passadas como se nunca as esquecesse; doutra forma, o rei penitente não ousaria dizer ao seu Senhor: "Dai-me a alegria da vossa salvação e confirmai-me com o vosso espírito principal". Porque, como vedes, não só segue novo coração e espírito, mas também que lhe deem a alegria que o pecado lhe tinha tirado. Ora esta alegria outra coisa não é, senão o néctar do celeste amor, que regozija o coração do homem. Não sucede ao pecado, aqui como as obras de caridade; porque as obras do justo não se apagam, nem são abolidas ou aniquiladas, em razão do pecado cometido, mas não só esquecidas, ao passo que o pecado do mau é não só esquecido, mas abolido, apagado e limpo pela santa penitência. Eis porque, sobrevindo o pecado ao justo, não faz reviver os pecados outrora perdoados, tanto mais que foram completamente apagados; mas o amor, entrando na alma penitente, faz reviver as boas obras passadas, porque foram só esquecidas e não apagadas.  Não é justo que o pecado tenha tanta força contra a caridade, como a caridade para com  o pecado; porque o pecado procede da nossa fraqueza e a caridade procede do poder divino; se o pecado excede em malícia para arruinar, a graça é forte para reparar; e á misericórdia de Deus, que apaga o pecado, exalta-se sempre e torna-se gloriosamente triunfante contra o rigor do juízo, pelo qual Deus tinha esquecido as boas obras que precediam o pecado. Assim, nas curas corporais que Nosso Senhor operava por milagre, não só dava sempre a saúde, mas ajuntava novas graças fazendo brilhar a cura sobre a doença, tal é a sua bondade para com os homens. Quando Nabusardan destruiu Jerusalém e Israel foi levado em  cativeiro, esconderam o fogo sagrado do altar em um poço, onde se converteu em lama; mas esta lama, tirada do poço e exposta ao sol, ao voltar do cativeiro, ressuscitou e a lama converteu-se em chamas. Quando o homem justo se torna escravo do pecado, todas as suas obras se esquecem e transformam em lama; mas ao sair do cativeiro, quando pela penitência volta à graça do amor divino, as suas boas obras  precedentes são tiradas do poço do esquecimento, e, penetradas dos raios da misericórdia celeste, revivem e convertem-se em chamas tão claras como nunca estiveram, afim de serem colocadas no altar sagrado da aprovação divina e ter a sua primeira dignidade, o primitivo preço e valor. 

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