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9 de março de 2014

PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA.

A Religião Perfeita

Lendo o Evangelho de hoje, ficamos impressionados pela majestade calma do divino Mestre, diante do furor de satanás que procura excitar em seu espírito qualquer pensamento de sensualidade, de orgulho ou de ambição.

É uma das faces da perfeição da religião que podemos contemplar na calma dos santos no meio das maiores tribulações... Eles são fracos, como todo homem o é, mas apresentam-se fortes, de uma força divina, que lhes vem da religião, da sua união com Deus.

Encontraram Deus... e neste encontro, sentem que embora vivam na terra, não são mais da terra.

Contemplemos uns instantes este aspecto perfeito da religião no fenômeno de seu aperfeiçoamento progressivo até chegar ao pleno dia de sua glória.

Embora a religião seja tão velha quanto o mundo, ela não foi, entretanto, perfeita desde a sua primeira aparição...

Ela é sempre o encontro, o abraço de Deus e do homem, mas este abraço foi apertando-se através dos séculos. Examinemos pois:

1o. Quando nasceu a religião,
2o. Qual foi o seu aperfeiçoamento.

Duas noções que vão mostrar-nos a religião em todo o esplendor da sua divindade e todas as ternuras do coração de Deus.

I. Quando nasceu

Deixemos de lado toda discussão e as provas inúteis. Seriam incapazes de enternecer aquele que contempla sem emoção o impressionante espetáculo do conjunto da religião, suas longínquas origens, confundidas com as da humanidade... o seu caminho luminoso... os seus desenvolvimentos progressivos e nesta magnífica síntese, a sua plena correspondência com a parte elevada, amante e celeste da nossa alma.

Onde nasceu a Religião?

Ela nasceu no mesmo berço, onde nasceu o primeiro homem: nos braços de Deus. O primeiro sopro de vida do homem foi um ato de religião para com o Criador.

A iniciativa veio de Deus: Ele falou por primeiro. Criador que era do homem, que não tinha, nem pai, nem mãe, nem experiência. Deus inclinou-se sobre este homem e tal a mão sobre o seu recém nascido, murmurou-lhe as primeiras sílabas da religião.

Deus falou a Adão e o contemplou e com esta palavra e este olhar divinos, encantou o seu coração e o fez palpitar de , de esperança e de amor, os atos essenciais da religião.

“Vê, dizia Ele, esta terra... estes céus, estas imensidades. Eu criei tudo para ti... Tu serás o rei das minhas obras: Praesit universae terrae!”

A terra inteira, eis o teu reino! Come livremente de todos os frutos que a terra te der, entretanto, tu não comerás do fruto da árvore do bem e do mal... senão morrerás!

Eis a primeira palavra de Deus: contém, ao mesmo tempo, um dom e uma ordem: um dom, porque Deus é Pai; uma ordem, porque é Rei.

O dom é imenso: dedit universa, para excitar o homem à gratidão, mas há um limite, para lembrar-lhe que é criatura.

Eis já toda a arquitetura da religião: ela será desenvolvida pouco a pouco, porém sem nada mudar. A Religião é um dom; é também uma ordem. O dom vem do amor; a ordem conduz ao amor.

O amor é o princípio, o berço, o fim, a glória da religião. Como já vimos, é o encontro, o abraço de Deus e do homem: e Deus é amor e neste abraço Ele comunica seu amor à sua criatura.

Eis o nascimento, o berço da Religião!

II. O seu aperfeiçoamento

Seria um estudo prolongado se quiséssemos seguir, passo por passo, o progresso exterior da religião.

Neste progresso, não se trata de mudança, mas de aperfeiçoamento, pois Deus vai se revelando aos poucos, conforme a capacidade das inteligências e as necessidades das épocas.

De Adão a Moisés, há um aperfeiçoamento gradativo, preparativo.

De Moisés a Jesus Cristo, o progresso é mais rápido, mais profundo e mais extenso.

Limitemo-nos ao ponto saliente, dominante de todo progresso: a união.

A palavra de Deus é uma imensa consolação para o mundo, mas não basta.

O amor não quer somente a voz de quem ama, quer possuí-lo.

A religião, apenas nascida, envolta ainda nos paninhos de seus primeiros vagidos, sente uma imensa aspiração de possuir um Deus que resida no meio dos homens, de um Deus que se possa ver com os olhos, tocar com as mãos e apertar contra o coração.

Sem isso, todo amor se empalidece e se apaga.

Tal é a profundeza desta aspiração, que os próprios judeus foram arrastados por ela e chegaram a fabricar-se deuses falsos.

A arca da aliança não lhes bastava, como não bastavam os ídolos aos pagãos. Era preciso que Deus viesse e habitasse entre nós, cheio de graça e de verdade.

Ele veio um dia satisfazer todos os sonhos e todas as aspirações das almas sublimes e das nações religiosas.

Ele veio. E o verbo se fez carne e habitou entre nós.

III. Conclusão

Lá ao longe, na pequena cidade de Belém, um menino nasceu, numa gruta; a sua mãe deitou-o num presépio e prostrou-se por terra, para adorar o seu Deus e o seu Filho, enquanto um coro luminoso de anjos cantou: Glória a Deus nas alturas e na terra paz aos homens de boa vontade!

É a última etapa da religião... Ela foi aperfeiçoando-se através dos séculos, pela revelação da palavra divina: alcançou a sua última perfeição no presépio de Belém... onde a religião dos Patriarcas toma o nome de Deus conosco, ou Emanuel.

De hoje em diante a Religião não é mais simplesmente a palavra de Deus, é o próprio Deus feito homem. É Jesus Cristo.

EXEMPLOS

1. Palavra de Napoleão

Napoleão, conversando um dia com Madame Montesquiou, a respeito de Bernardotte, um de seus soldados feito rei da Suécia, disse:

- Eis uma fortuna para ele.
- Sim, porém há um reverso triste na medalha, respondeu Madame de Montesquiou.

De fato, para subir ao trono, Bernardotte havia sido obrigado a renegar a religião católica.

- É verdade, disse o Imperador; e eu que passo por ser ambicioso, não renunciaria a minha fé por todas as coroas do mundo.

Confiando a Madame de Montesquiou a educação de seu filho único, que havia proclamado rei de Roma, disse-lhe: Madame, faça dele um bom cristão.

Um dos presentes sorria levemente, admirado de uma tal recomendação.

- Sei o que digo, completou Napoleão, se o meu filho não for um bom cristão, nunca será um bom francês.

Nós também, brasileiros, podemos dizer: - Quem não é bom cristão não pode ser bom brasileiro!

2. Presença de Deus

O Padre Carlos Foucauld, ex-oficial do exército, tinha-se feito monge no deserto africano. Um dia um amigo foi visitá-lo conversando com ele em sua cela de eremita.

Quando deu hora de sair, o visitante lhe disse: Desculpe-me de deixá-lo sozinho.

Sem refletir, o Padre lhe respondeu instintivamente: Oh, eu nunca estou só.

E vendo que havia deixado escapar um segredo, inclinou a cabeça.

3. Nobreza de cristão

Ingo, duque de Corintho, quis demonstrar um dia a seus súditos a nobreza de seus títulos de cristão.

Convidou à sua mesa um grande número de católicos pobres e uns nobres de seu reino ainda pagãos.

A mesa dos nobres foi posta numa varanda, e o duque lhes fez servir alimentos comuns.

Os pobres, ao contrário, foram admitidos no salão de honra à própria mesa do duque, que os tratava com toda magnificência.

No fim do banquete, os nobres, furiosos, perguntaram-lhe a razão de tão extraordinário proceder.

- Estes pobres, respondeu o duque com calma, são filhos de Deus e como tais merecem toda honra. Desde que vós vos tornardes dignos de ser filhos de Deus, pelo Batismo, tereis o mesmo direito deles.

A lição foi compreendida e em pouco tempo vários nobres pediram o Batismo e tornaram-se depois católicos fervorosos.

(MARIA, P. Júlio. Comentário Apologético do Evangelho Dominical. O Lutador, 1940, p. 119 - 124)

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