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30 de março de 2014

QUARTO DOMINGO DA QUARESMA.

Caracteres da religião

O Evangelho de hoje narra o grande milagre da multiplicação dos pães no deserto, de modo a alimentar cinco mil pessoas com cinco pequenos pães, o que na ordem natural não dava nem sequer uma migalha para cada um; entretanto todos comem à saciedade.

Vendo este milagre assombroso o povo exclamou entusiasmado: Este é verdadeiramente o profeta que deve vir ao mundo.

Esta cena inclui e manifesta os dois caracteres que devem distinguir a única religião verdadeira das falsas seitas religiosas: o milagre e a profecia.

Vamos meditar hoje estes dois caracteres que só a religião cristã possui.

1. O milagre, primeiro caracter.
2. A profecia, segundo caracter.

Estes caracteres formam como o selo que Deus imprime à sua palavra revelada, a carta credencial que acredita os seus enviados e o sinal divino por excelência.

I. O milagre

O milagre é um fato sensível e certo, que derroga completamente, ou é contrário às leis constantes e conhecidas da natureza.

Um sábio pode produzir fatos maravilhosos que excitam a admiração, porém tais fatos têm o seu princípio e a sua causa na natureza; não constituem uma derrogação a suas leis, mas apenas uma extensão; enquanto o milagre é um fato cuja a causa não existe na natureza, deve pois ter por origem o próprio autor da natureza: Deus.

É por isso que só Deus pode fazer milagres por si, ou por pessoas por Ele autorizadas.

Os fenômenos ultimamente descobertos da eletricidade, rádio, radiofotia, televisão, etc., por maravilhosos que sejam, não são milagres, pois sabe-se como são produzidos e qualquer um pode produzi-los.

Mas como reproduzir, por exemplo, o fenômeno do Evangelho de hoje: multiplicar cinco pequenos pães para alimentar até à saciedade 5000 pessoas e recolher depois doze cestos de pedacinhos que sobraram?

É inimitável porque é divino.

O milagre é possível, porque:

a) Não repugna a nossa natureza, que procura instintivamente o maravilhoso.

b) Não é contrário ao poder de Deus, pois Ele criou livremente e pode livremente modificar a sua obra, em certos casos particulares.

c) Não é contrário à sabedoria de Deus, pois a derrogação não é uma desordem, mas simplesmente uma ação fora da ordem estabelecida por Ele.

Negar o milagre, porque não o vimos, é tão ridículo como seria ridículo negar todos os fatos da história, porque não os vimos.

Acreditamos nas palavras dos historiadores, e para os milagres acreditamos nas palavras dos testemunhos oculares que viram os dois estados do milagre: antes e depois.

Ver os cinco pães antes da multiplicação — e ver a multidão farta e os 12 cestos de sobras, são estes dois estados: a mudança é inexplicável, o fato sendo certo, constitua o milagre.

II. A profecia

A profecia é uma predição certa e manifesta de um acontecimento futuro, cujo conhecimento não pode ser adquirido por causas naturais.

É um milagre de coisas futuras.

Um astrônomo predizendo, com cem anos de antecedência, um eclipse do sol; um médico, predizendo uma crise num enfermo; um político predizendo uma mudança social; não fazem profecias, porque a inteligência humana pode prever estes acontecimentos.

Mas como podia prever, por exemplo, o Profeta Zacarias, (IX. 9) quinhentos anos antes de Jesus Cristo, que este entraria solenemente em Jerusalém, montado num jumentinho, o que se cumpriu literalmente?

Que o Salvador havia de ser vendido por 30 moedas de prata, as quais seriam lançadas na casa de Deus, para serem entregues a um oleiro, (XI. 12) o que se realizou ao pé da letra? Como prever tais acontecimentos com uma antecedência de 500 anos? É absolutamente impossível! Só Deus conhece o futuro; e a realização de tais profecias é outro selo, um carimbo de Deus, que prova que o Profeta era inspirado por Ele mesmo.

A profecia prova que a verdade em prova da qual é feita vem de Deus, pois só Deus pode conhecer o porvir e anunciá-lo, porque só Ele conhece, num mesmo ato da sua onisciência, o passado, o presente e o futuro.

III. Conclusão

A religião que possui estes dois caracteres: o milagre e a profecia, é, pois, uma religião divina, pois ela nos apresenta credenciais absolutamente inimitáveis e absolutamente certas.

A religião cristã é um tecido destes milagres e destas profecias; ela é, pois, a religião divina, a única divina, pois, como foi dito: consistindo a religião nas relações que unem os filhos aos pais, tais relações são sagradas e imutáveis.

Leiam o Evangelho: cada página contém um fato milagroso, como cada ensinamento contém uma doutrina milagrosa.

As profecias formam como o tecido do Antigo Testamento; e Jesus Cristo cita a cada instante a realização destas profecias em sua pessoa.

A verdade é, pois, resplandecente... ela está sintetizada na religião cristã: e só esta religião possui estes dois caracteres que acabamos de meditar: com a exclusão de todas as seitas religiosas humanas.

EXEMPLOS

1. O caminho divino

No fim do século XVII uns pastores protestantes holandeses desembarcaram nas costas de Malabar convidando os índios a abraçarem nova seita.

Estes índios, católicos fervorosos, haviam sido evangelizados por São Francisco Xavier, a quem dedicavam a mais profunda devoção.

O chefe dos Paravas respondeu-lhes em nome da nação:

- Fazei milagres maiores do que os que nosso pai São Francisco Xavier fez, e acreditaremos que a vossa doutrina é melhor do que a dele. São Francisco ressuscitou aqui 6 mortos; ressuscitai 10 e ficaremos convencidos.

Diante deste raciocínio do bom senso e da fé, os pastores não tiveram outra resposta senão insultos e procuraram dissimular a sua derrota por meio de uma pronta saída do país.

É o que havia de melhor para os intrusos.

2. O milagre de Calvino

Calvino compreendeu o valor destes dois característicos: o milagre e a profecia, para espalhar os seus erros e quis recorrer a eles

Numa reunião, profetizou que, para provar a sua doutrina, ia fazer um milagre estrondoso, ressuscitando um homem morto.

Pagou a um protestante, chamado Brulé, para que se fingisse de morto e mandasse chamá-lo pela esposa desconsolada. Até aí, tudo se fez de acordo. Uma mulher em soluços, e como desesperada, penetrou na casa de Calvino, suplicando-lhe que ressuscitasse o seu marido que acabava de falecer

Calvino, levantando os olhos para o céu, num gesto hipócrita, disse aos amigos que o cercavam, que era a hora oportuna para ele provar a sua missão de reformador, restituindo à esposa inconsolável o marido falecido.

E lá se foi para a casa do morto.

Chegando ao lugar, num gesto de dominador, que parece impor a sua vontade ao próprio Deus, Calvino, em nome de Deus, ordenou ao falso defunto que se levantasse.

Um silêncio lúgubre foi a resposta.

Calvino achou a peça teatral bem executada, e num gesto mais decidido, ordenou pela segunda vez ao defunto, de levantar-se do leito em que jazia, para provar que ele, Calvino, era o ministro de Deus. Um silêncio mais lúgubre, mais inquietante foi a resposta.

- Calvino hesitou, empalideceu..., e como após uma terceira intimação, o pseudo-defunto ficasse estendido, pálido e sem movimento, a mulher desolada, suspeitando um castigo de Deus, aproximou-se da cama e encontrou o marido frio, sem pulso, sem respiração: estava morto!

Em seu desespero, a mulher revelou a sacrílega combinação, insultando o reformador, como sendo o assassino de seu marido.

Só Deus pode fazer milagres; e Ele não comunica este poder senão a seus amigos, que nós chamamos os Santos.

(MARIA, P. Júlio. Comentário Apologético do Evangelho Dominical. O Lutador, 1940, p. 142 - 147)

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