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6 de junho de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

II

Perguntar-me-eis agora quais as razões desta sublime exaltação de Jesus, desta glória incomensurável
de que tomou posse a Sua santa Humanidade.
Podemos reduzi-las a duas razões capitais: a primeira é que Jesus Cristo é o próprio Filho de Deus; a
segunda é que, para nos resgatar, se abismou na humilhação.
Jesus é Deus e Homem. Como Deus, enche com a Sua presença divina o céu e a terra; portanto, foi como homem que subiu à direita do Pai. Mas a Humanidade de Jesus está unida à Pessoa do Verbo; é a Humanidade dum Deus; nesta qualidade, goza do direito de aspirar à glória divina nos esplendores eternos.
Durante a vida mortal de Cristo (exceptuando o dia da Transfiguração ), esta glória estava velada, oculta. O Verbo quis unir-se a uma humanidade fraca como a nossa, a uma humanidade passível, sujeita à enfermidade, ao sofrimento, à morte.
Vimos que, desde a aurora da Sua Ressurreição, Jesus entrou na posse dessa glória resplandecente; a
Sua Humanidade é agora gloriosa, impassível. Mas continua ainda neste mundo, num lugar corruptível, onde reina a morte. Para atingir o cume, o pleno esplendor dessa glória, era necessário a Jesus ressuscitado um lugar que correspondesse dignamente à Sua nova condição; era necessário subir às alturas do céu, donde o Seu poder e a Sua glória pudessem irradiar plenamente sobre toda a sociedade dos eleitos e dos redimidos.
Homem Deus, Filho de Deus, igual ao Pai, Jesus tem o direito de se sentar à Sua direita, de compartilhar com Ele, em todo o seu esplendor, da glória divina, da beatitude infinita e da omnipotência do Ente soberano.
A segunda razão desta suprema glorificação é ser uma recompensa das humilhações que Jesus sofreu por amor ao Pai e Sua caridade para connosco.
Tenho-vos dito muitas vezes que, ao entrar neste mundo, Jesus Cristo entregou-se inteiramente à vontade do Pai: Ecce venio, ut faciam, Deus, voluntatem tuam. Aceitou cumprir até à completa consumação o programa das humilhações preditas, beber até ao fim o cálix amargo dos sofrimentos e ignomínias sem nome. Aniquilou-se até à maldição da cruz. E porquê tudo isto? Ut cognoscat mundus quia diligo Patrem. « Para que o mundo saiba que amo o Pai», as Suas perfeições e a Sua glória, os Seus direitos e as Suas vontades.
E eis por que - Propter quod (notai bem estas palavras tiradas de S. Paulo, que indicam a realidade do
motivo ) - , «eis por que Deus Pai glorificou o Seu Filho, O exaltou acima de todas as coisas, no céu, na terra, nos infernos »: Propter quod et Deus exaltavit illum.
Depois do combate, os príncipes da terra, jubilosos, recompensam os bravos generais que defenderam
as suas prerrogativas, ganharam a vitória sobre o inimigo e, com suas conquistas, alargaram os limites do reino.
Não é isto o que se realiza nos céus no dia da Ascensão, mas com um brilho incomparável? Com soberana fidelidade, Jesus cumprira a obra que o Pai Lhe exigia: Quae placita sunt et facio semper ... Opus consumavi;  abandonando-se aos golpes da justiça, como Vítima santa, descera a insondáveis abismos de dores e opróbrios. Agora que tudo está expiado, saldado, resgatado; agora que as potências das trevas estão derrotadas; agora que as perfeições do Pai estão reconhecidas e vingados os Seus direitos; agora que as portas do reino celeste estão de novo abertas a toda a raça humana, - que alegria para o Pai (se assim ousamos balbuciar sobre semelhantes mistérios ) que alegria para o
Pai coroar o Seu Filho depois da vitória ganha sobre o príncipe deste mundo! Que alegria divina chamar a Santa Humanidade de Jesus a gozar dos esplendores, da beatitude e do poder duma eterna exaltação!
Tanto mais que o próprio Jesus, no momento de consumar o Seu sacrifício, pediu ao Pai esta glória que devia aumentar a do próprio Pai: «Pai, é chegada a hora: glorifica o teu Filho para que o teu Filho te glorifique a ti» !
Sim, Pai, é chegada a hora. A Vossa justiça foi satisfeita pela expiação; que o seja igualmente pelas
honras a que tem direito o Vosso Filho Jesus, por via do amor de que Vos deu provas nos Seus sofrimentos. Pai, glorificai o Vosso Filho! Firmai o Seu reino nos corações daqueles que O amam; reconduzi ao Seu ceptro as almas que d'Ele se desviaram; atraí aquelas que, mergulhadas nas trevas, ainda O não conhecem. Pai, glorificai o Vosso Filho para que, por Sua vez, o Vosso Filho Vos glorifique, manifestando-nos o Vosso Ser divino, as Vossas perfeições, os Vossos desejos! Pater
clarifica Filium tuum ut Filius tuus clarificet te.
Mas o Pai já nos respondeu: «Glorifiquei-O e ainda O hei de glorificar": Clarificavi et iterum
 claríficabo. E ouvimo-Lo dirigir ao próprio Cristo estas palavras solenes preditas pelo Salmista: «És o meu Filho . . .Pede, e dar-te-ei as nações por herança, e os confins da terra por domínio . . . Senta-te à minha direita, até que tenha reduzido os teus inimigos a servir de escabelo para teus pés". . . . 
Das obras divinas desprendem-se inefáveis e secretas harmonias, cujo caráter único encanta as almas
fiéis.
Vede. Onde começou Jesus a Sua Paixão? No sopé do Monte das Oliveiras. Ali, durante três longas horas, a Sua alma santa (que previa à luz divina as inúmeras aflições e afrontas que constituiriam o Seu sacrifício ) foi acometida de tristeza, de tédio, de repugnância, de angústia. Jamais saberemos por que atroz agonia passou o Filho de Deus no Horto das Oliveiras: Jesus sofreu ali, antecipadamente, e como que numa forma condensada, todas as dores da Paixão: « Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálix»! . . . 
E onde iniciou o nosso Divino Salvador as alegrias da Ascensão? Sabedoria eterna, Jesus (que, não o
esqueçamos, é nisto um só com o Pai e o Espírito Santo ) quis escolher, para subir aos céus, o cume daquele mesmo monte que fora testemunha das Suas dolorosas humilhações. No mesmo sítio onde a justiça divina caiu sobre Cristo como torrente vingadora, ali mesmo O coroa de honra e glória; naquele mesmo lugar onde, no horror das trevas, se deram os preliminares de renhidos combates, levanta-se radiosa a aurora dum triunfo incomparável.
E, sendo assim, não tem a Igreja, nossa Mãe, o direito de exaltar como «admirável» a Ascensão do seu divino Chefe? Per admirabilem ascensíonem tuam.

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