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24 de junho de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

I

Não poderemos compreender as palavras de Jesus a respeito do Espírito Santo, se não recordarmos primeiramente o que nos ensina a Revelação da vida deste Espírito na Santíssima Trindade. Já conheceis o mistério; mas ao contemplá-lo de novo a vossa fé encontrará nele aumento de alegria. Penetremos então, com profunda reverência, no santuário da Divindade.
Que nos diz a fé? Que há em Deus o Pai, o Filho e o Espírito Santo: três Pessoas distintas na unidade
de natureza.
Como sabeis, o Pai não procede de ninguém; é o Princípio sem fim, o primeiro princípio de toda a vida íntima de Deus, a origem de todas as inefáveis comunicações na SS. Trindade. O Pai conhecendo-Se a Si mesmo, gera, por uma palavra infinita, um Filho único e perfeito, a quem comunica tudo o que é, exceto a propriedade pessoal de ser Pai: Sicut enim Pater habet vitam in semetipso, sic dedit et Filio habere vitam in semetipso. O Filho é em tudo igual ao Pai; é a expressão adequada, a imagem perfeita do Pai: com Ele possui a mesma natureza divina.
O Pai e o Filho dão-se mutuamente com perfeito amor, e desta doação de amor do Pai ao Filho e do Filho ao Pai procede, de modo misterioso, o Espírito Santo, terceira pessoa. O Espírito Santo completa o ciclo das operações íntimas em Deus, é o termo final das comunicações divinas na Trindade adorável.
Entre estas pessoas distintas, como sabeis, não há superioridade nem inferioridade: seria erro grave crer o contrário; todas as três são iguais em poder, sabedoria, bondade, pois todas três possuem, de modo indivisível, a mesma e única natureza divina com todas as suas infinitas perfeições. Eis por que o nosso louvor se dirige ao mesmo tempo ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo: Gloria Patri, et Filio et Spiritui Sancto.
No entanto, se não hã entre elas desigualdades nem independência, há uma ordem de natureza, de origem. que caracteriza essas comunicações. A «processão» do Filho pressupõe (sem que haja, porém, diferença de tempo ) o Pai, primeiro princípio; a «processão» do Espírito Santo pressupõe o Pai e o Filho, dos quais é dom recíproco.
Isto é um modo de falar que não podemos pôr de lado. Jesus quer que todos os Seus discípulos sejam
batizados «em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo»: é a própria linguagem do Verbo Incarnado ; encerra uma realidade divina cuja compreensão não atingimos; mas, como se trata de linguagem de Jesus, devemos respeitar inviolavelmente a ordem entre as Pessoas da Santíssima Trindade. Assim como devemos conservar intacta, na doutrina e na oração a unidade da natureza, assim também devemos reconhecer a distinção das pessoas, distinção esta baseada nas comunicações que têm entre si e nas suas mútuas relações. Há, ao mesmo tempo, igualdade e ordem; há idêntica perfeição e distinção de propriedades.
Estas verdades constituem um mistério inefável, acerca do qual mais não podemos fazer do que balbuciar. No entanto, Nosso Senhor quis revelar-nos a existência deste mistério; quis fazer-nos esta revelação nos últimos colóquios com os discípulos. na véspera de morrer, «para que a nossa alegria fosse completa». Chega até a dizer que, se somos Seus amigos, foi porque Ele nos revelou estes segredos da vida intima de Deus, até que um dia deles vamos gozar na eterna felicidade. E ter-nos-ia revelado estes segredos, se não julgasse, Ele a sabedoria infinita, que esta revelação nos seria útil?
Mas notai ainda. Não foi só por palavras que Deus revelou esta ordem de princípio, de origem, que existe nas inefáveis comunicações das pessoas entre si (fundamento da sua distinção ); quis também manifestá-la em Suas obras.
Jesus diz no Evangelho que «a vida eterna consiste em conhecer que o Pai é o verdadeiro Deus e Jesus Cristo o Seu enviado»; diz muitas vez-es que "o Pai O enviou». Este termo "enviar», frequentemente empregado por Jesus Cristo, indica a distinção das pessoas. É o Pai que "envia» ; é o Filho que "é enviado». A ordem de origem que existe desde toda a eternidade no céu entre o Pai e o Filho é assim manifestada no tempo. Pois, no mesmo lugar, Jesus Cristo, referindo-se ao Pai diz:
"Nós somos um"; "tudo o que é do Pai é meu, e tudo o que é meu é do Pai».
Jesus emprega o mesmo termo "enviar", ao falar do Espírito Santo. Diz aos Apóstolos que «o Pai lhes
enviará o Espírito Santo »: Paraclitus autem Spíritus Sanctus quem mittet Pater; diz também que "Ele
próprio O enviará": Si autem abiero, mittam eum ad vos. Como vedes, é o Pai e o Filho que O enviam. Assim fala Jesus do Espírito. Nosso Senhor quer por esta forma indicar a ordem que existe em Deus na "processão» do Espírito Santo.

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